A Doutrina de Deus

Sobre DEUS, Já vimos dois artigos (posts): no primeiro, vimos o que Myer PEARLMAN descreve sobre alguns argumentos sobre sua existência, e no segundo, acerca de Seus atributos. Neste, fizemos um breve estudo   sobre o Ser de Deus – sua personalidade –, conceituado pelos seus diversos nomes e a doutrina da Trindade.

1.  Definição de Deus: sua personalidade

Quem é, e que é Deus? A melhor definição, segundo Myer Pearlman[1] “… é a que se encontra no Catecismo de Westminster: ‘Deus é Espírito, infinito, eterno e imutável em seu ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade” (Op. Cit., p. 41). E ele afirma também que a formulação bíblica desta definição está na compreensão dos “nomes de Deus”, assunto destacado mais abaixo. Sabemos que é impossível uma definição rigorosa da ideia de Deus. E a que foi mencionada acima é baseada no que a Bíblia ou o próprio Deus se revela de Si mesmo e de seus atributos. Uma das verdades acerca de Deus é que Ele é pessoal.

Em contraste, com qualquer conceito metafísico neutro abstrato, afirma R. L Saucy[2], Deus das Escrituras é um Ser pessoal. Ele Se revela por nomes, especialmente o grande nome pessoal Javé (cf. Ex 3.13-15; 6.3; Is 42.8). Ele conhece e determina de modo autoconsciente, de acordo com o nosso conceito da personalidade. Por exemplo, em 1Coríntios 2.10-11 encontramos: “Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus. Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus”. E em Efésios 1.11, vimos: “Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade”. A centralidade da personalidade de Deus é vista no fato de que, embora seja o Criador e o Preservador de toda a natureza, Ele é encontrado nas Escrituras não principalmente como o Deus da natureza, como nas religiões pagãs, mas, sim, como o Deus da história, que controla e dirige os assuntos dos homens. O lugar central da aliança mediante a qual Ele Se liga com os homens num relacionamento pessoal é uma indicação adicional da ênfase bíblica dada à natureza pessoal de Deus. Em nenhum lugar a personalidade de Deus fica mais evidente do que na Sua descrição bíblica como Pai. Jesus falava constantemente de Deus como “meu Pai”, “vosso Pai” e “o Pai celeste”. Além do relacionamento trinitariano sem igual entre o Filho divino e o Pai, que certamente envolve traços pessoais, a paternidade de Deus fala dEle como a origem e o sustentador das Suas criaturas, que pessoalmente cuida delas (Mt 5.45; 6.26-32), e Aquele para quem o homem pode voltar com confiança.

A personalidade de Deus tem sido colocada em dúvida com base no nosso uso da palavra “pessoa”, no que diz respeito aos seres humanos. A personalidade humana envolve limitação que permite o relacionamento com outra pessoa ou com o mundo. Ser uma pessoa significa ser um indivíduo entre indivíduos. Tudo isto nos acautela contra antropomorfismos errôneos de Deus. Biblicamente, é mais apropriado entender que a personalidade de Deus tem prioridade sobre a do homem e, portanto, entender a personalidade humana de modo teomórfico, isto é, como uma réplica finita da pessoa divina infinita. A despeito da derradeira incompreensibilidade da personalidade supra-humana de Deus, as Escrituras O retratam como uma pessoa real que Se oferece a nós num relacionamento recíproco como um “tu” genuíno.

O conceito bíblico da personalidade de Deus refuta todas as ideias filosóficas abstratas acerca dEle como mera Causa Prima ou Motor Imóvel bem como todos os conceitos naturalistas  e panteístas. As equações modernas entre Deus e os relacionamentos pessoais imanentes – o amor – também são rejeitadas.

2.  Os principais nomes de Deus

Conforme vimos acima, Myer Pearlman afirma que a formulação bíblica para a definição de Deus está na compreensão dos seus “nomes”. Deus revela-se a si mesmo fazendo-se conhecer ou proclamando o seu nome JAVÉ. E eu apareci a Abraão, a Isaque, e a Jacó, como o Deus Todo-Poderoso; mas pelo meu nome, o Senhor [Javé], não lhes fui perfeitamente conhecido(Êx  6.3). Vejamos o significado deste e de outros nomes de Deus que encontramos nas Escrituras:

a)  Javé ou Jeová (traduzido “SENHOR” na versão de Almeida[3]):

Este nome, originado do tetragrama YHWH, intercalado com as vogais A e E ou E, O e A (YAHWÉH ou YEHOWAH. Tem relação também com o SER, em Êxodo 3.14-15 (E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós. E Deus disse mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: O Senhor Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó, me enviou a vós; este é meu nome eternamente, e este é meu memorial de geração em geração), cujo verbo (SER) inclui os três tempos desse verbo — passado, presente e futuro. O nome, portanto significa: Ele que era, que é e que há de ser; em outras palavras, o Eterno. Visto que Jeová é o Deus que se revela a si mesmo ao homem, o nome significa: Eu me manifestei, me manifesto, e ainda me manifestarei. O que Deus opera a favor de seu povo acha expressão nos seus nomes, e ao experimentar o povo a sua graça, desse povo então pode dizer-se: “conhecem o seu nome.”

A relação entre Jeová e Israel resume-se no uso dos nomes encontrados nos concertos entre Jeová e seu povo. Por isso, Javé ou Jeová aparece acompanhado de outros nomes e significados como:

  • Jeová-Rafa (Yahweh Raph’eka), “o Senhor que cura (sara)” (Êx 15.26). É a resposta de Jeová aos que jazem em leitos de doença (dor).
  • JeováNissi (Yahweh-nisi), “o Senhor é minha (nossa) bandeira” (Êx 17.15). O nome invocado pelos oprimidos frente à fúria do inimigo.
  • JeováShalom (Yahweh-shalom), “o Senhor é (nossa) Paz” (Jz 6.24). Jeová enfatiza que a verdadeira paz para os desconsolados vem Dele.
  • Jeová Ra’ah, “o Senhor meu pastor” (Sl 23.1). Esse é o nome empregado pelo salmista Davi para expressar a liderança, provisão e proteção de Deus para com seu povo.
  • JeováTsidkenu (Yahweh-tsidqenu), “o Senhor é nossa justiça” (Jr 23.6). Resposta de Jeová àqueles que se sentem sob condenação e necessitados da justificação.
  • Jeová Jireh (Yhaweh-yir’eh), “o Senhor que provê” (Gn 22.14). Esse foi o nome utilizado por Abraão para se referir a Deus na ocasião em que ele iria sacrificar seu filho Isaque no Monte Moriá.
  • Jeová-Shammah (Yahweh-shamah), o Senhor está ali” (Ez 48.35). Expressão final da profecia do profeta Ezequiel, que enfatiza a promessa da presença de Deus com o seu povo.
  • Jeová Sabaote (Yahweh-tseva’ot), Senhor dos Exércitos. Título divino que aparece pela primeira vez em 1Samuel 1.3, e é mesmo utilizado por Davi quando ele foi lutar contra o gigante Golias dos filisteus (1Sm 17.45).

b)  Elohim.  A palavra Elohim (p. ex. Gn 1.1) é a forma plural de El (Deus). Esta palavra emprega-se sempre que sejam descritos ou implícitos o poder criativo e a onipotência de Deus. Elohim é o Deus Criador. A forma plural significa a plenitude de poder e [pode] representa a trindade. A expressão “façamos o homem” (Gn 1.26) diz respeito à ação de Elohim (Deus, no plural) na criação do homem. Ou seja, a presença da trindade na obra da criação.

c)  El (Deus), usado em certas combinações:

  • ElElyon (Gn 14.18-20), o “Deus altíssimo”, o Deus que é exaltado sobre tudo o que se chama deus ou deuses.
  • ElShaddai, “o Deus que é suficiente para as necessidades do seu povo” (Êx 6.3).
  • ElOlam, “o eterno Deus” (Gn. 21.33)…

d)  Adonai. Literalmente. significa “Senhor” e “Pai”, e dá a ideia de governo e domínio. (Êx 23.17; Is 10.16,33.) Por causa do que Deus é e do que tem feito, ele exige o serviço e a lealdade do seu povo. Este nome no Novo Testamento aplica-se ao Cristo glorificado.

3.  O Deus trino

As Escrituras, afirma Pearlman, ensinam que Deus é Um, e que além dele não existe outro Deus. Poderia surgir a pergunta: “Como podia Deus ter comunhão com alguém antes que existissem as criaturas finitas?” A resposta é que a Unidade Divina é uma Unidade composta, e que nesta unidade há realmente três Pessoas distintas, cada uma das quais é a Divindade, e que, no entanto, cada uma está sumamente consciente das outras duas. Assim, vemos que havia comunhão antes que fossem criadas quaisquer criaturas finitas. Portanto, Deus nunca esteve só. Veja o esquema abaixo:

Não é o caso de haver três Deuses, todos três independentes e de existência própria. Os três cooperam unidos e num mesmo propósito, de maneira que no pleno sentido da palavra, são “um”. O Pai cria, o Filho redime, e o Espírito Santo santifica; e, no entanto, em cada uma dessas operações divinas os Três estão presentes. O Pai é preeminentemente o Criador, mas o Filho e o Espírito são tidos como cooperadores na mesma obra. O Filho é preeminentemente o Redentor, mas Deus o Pai e o Espírito são considerados como Pessoas que enviam o Filho a redimir. O Espírito Santo é o Santificador, mas o Pai e o Filho cooperam nessa obra.

A Trindade é uma comunhão eterna, mas a obra da redenção do homem evocou a sua manifestação histórica. O Filho entrou no mundo duma maneira nova ao tomar sobre si a natureza humana e lhe foi dado um novo nome, Jesus. O Espírito Santo entrou no mundo duma maneira nova, isto é, como o Espírito de Cristo incorporado na igreja. Mas ao mesmo tempo, os três cooperaram. O Pai testificou do Filho (Mt  3.17); e o Filho testificou do Pai (Jo 5.19). O Filho testificou do Espírito (Jo 14.26), e mais tarde o Espírito testificou do Filho (Jo 15.26).

Será tudo isso difícil de compreender? Como poderia ser de outra maneira visto que estamos tentando explicar a vida íntima do Deus Todo poderoso! A doutrina da Trindade é claramente uma doutrina revelada, e não doutrina concebida pela razão humana. De que maneira poderíamos aprender acerca da natureza íntima da Divindade a não ser pela revelação? (1Co 2.16.) É verdade que a palavra “Trindade” não aparece no Novo Testamento; é uma expressão teológica, que surgiu no segundo século para descrever a Divindade. Mas o planeta Júpiter existiu antes de receber ele este nome; e a doutrina da Trindade encontrava-se na Bíblia antes que fosse tecnicamente chamada a Trindade.

a)  A Trindade no Antigo Testamento:

O Antigo Testamento não ensina clara e diretamente sobre a Trindade, e a razão é evidente. Num mundo onde o culto de muitos deuses era comum, tornava-se necessário acentuar esta verdade em Israel, a verdade de que Deus é Um, e de que não havia outro além dele. Se no princípio a doutrina da Trindade fosse ensinada diretamente, poderia ter sido mal entendida e mal interpretada.

Muito embora essa doutrina não fosse explicitamente mencionada, sua origem pode ser vista no Antigo Testamento. Sempre que um hebreu pronunciava o nome de Deus (Elohim) ele estava realmente dizendo “Deuses”, pois a palavra é plural, e às vezes se usa em hebraico acompanhada de adjetivo plural (Js. 24:18,19) e com verbo no plural. (Gn 35.7.) Imaginemos um hebreu devoto e esclarecido ponderando o fato de que Deus é Um, e, no entanto, é Elohim — “Deuses”. Facilmente podemos imaginar que ele chegasse à conclusão de que exista pluralidade de pessoas dentro de um Deus.

Todos os membros da Trindade são mencionados no Antigo Testamento:

a)  O Pai:

  • Mas tu és nosso Pai, ainda que Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece; tu, ó Senhor, és nosso Pai; nosso Redentor desde a antiguidade é o teu nome” (Is 63.16).
  • Não temos nós todos um mesmo Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que agimos aleivosamente cada um contra seu irmão, profanando a aliança de nossos pais?” (Ml 2.10).

b)   O Filho de Jeová:

  • O teu trono, ó Deus, é eterno e perpétuo; o cetro do teu reino é um cetro de equidade. Tu amas a justiça e odeias a impiedade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria mais do que a teus companheiros” (Sl 45.6,7).
  • Os reis da terra se levantam e os governos consultam juntamente contra o Senhor e contra o seu ungido… Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião. Proclamarei o decreto: o Senhor me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei… Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam” (Sl 2.6,7,12).

Alguns textos apresentam também o Messias (o Filho) com títulos divinos:

  • Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e agirá sabiamente, e praticará o juízo e a justiça na terra.
    Nos seus dias Judá será salvo, e Israel habitará seguro; e este será o seu nome, com o qual Deus o chamará: O SENHOR JUSTIÇA NOSSA
    ” (Jr 23.5,6).
  • Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9.6.).
  • Eis que eu envio um anjo diante de ti, para que te guarde pelo caminho, e te leve ao lugar que te tenho preparado. Guarda-te diante dele, e ouve a sua voz, e não o provoques à ira; porque não perdoará a vossa rebeldia; porque o meu nome está nele” (Êx 23.20,21).

g)  O Espírito Santo:

  • E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas(Gn 1.2).
  • E repousará sobre ele o Espírito do Senhor, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do Senhor. E deleitar-se-á no temor do Senhor; e não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos” (Is 11.2,3).
  • Chegai-vos a mim, ouvi isto: Não falei em segredo desde o princípio; desde o tempo em que aquilo se fez eu estava ali, e agora o Senhor DEUS me enviou a mim, e o seu Espírito” (Is 48.16).
  • O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos” (Is 61.1).
  • Mas eles foram rebeldes e contristaram o seu Espírito Santo; pelo que se lhes tornou em inimigo e ele mesmo pelejou contra eles” (Is 63.10-ARC).

Prenúncios da Trindade veem-se na tríplice bênção de Nm 6.24-26 (“O Senhor te abençoe e te guarde; O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti; O Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz”) e tríplice doxologia de Is 6.3 (E clamavam uns aos outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória).

b)  A Trindade no Novo Testamento:

Os cristãos primitivos mantinham como um dos fundamentos da fé o fato da unidade de Deus. Tanto ao judeu como ao pagão podiam testificar: “Cremos em um Deus.” Mas ao mesmo tempo eles tinham as palavras claras de Jesus para provar que ele arrogou a si uma posição e uma autoridade que seriam blasfêmia se não fosse ele Deus. Os escritores do Novo Testamento, ao referirem-se a Jesus, usaram uma linguagem que indicava reconhecerem a Jesus como sendo “… sobre todas as coisas, Deus bendito para sempre” (Rm 9.5). E a experiência espiritual dos cristãos apoiava estas afirmações. Ao conhecer a Jesus, conheciam-no como Deus.

O mesmo se verifica em relação a Deus e ao Espírito Santo. Os primitivos cristãos criam que o Espírito Santo, que morava neles, ensinando-os, guiando-os, e inspirando os a andar em novidade de vida, não era meramente uma influência ou um sentimento, mas um ser ao qual poderiam conhecer e com o qual suas almas poderiam ter verdadeira comunhão. E, ao examinarem o Novo Testamento, ali acharam que ele era descrito como possuindo os atributos de uma personalidade.

Assim a igreja primitiva se defrontava com estes dois fatos: que Deus é Um, e que o Pai é Deus; o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus. E estes dois grandes fatos concernentes a Deus constituem a doutrina da Trindade. Deus, o Pai, era para eles uma realidade; o Filho era para eles uma realidade; e da mesma forma, o Espírito Santo. E, diante desses fatos, a única conclusão a que se podia chegar era a seguinte: que havia na Divindade uma verdadeira, embora misteriosa, distinção de personalidades, distinção que se tomou manifesta na obra divina para redimir o homem.

c)  Várias passagens do Novo Testamento mencionam as três Pessoas Divinas.

  • E, sendo Jesus batizado, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele. E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.16,17).
  • E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo(Mt 28.18,19).
  • E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós (…) Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito” (Jo 14.16,17,26).
  • Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito de verdade, que procede do Pai, ele testificará de mim” (Jo 15.26).
  • A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com todos vós. Amém” (2Co 13,14).
  • E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai” (Gl 4.6).
  • Porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito” (Ef 2.18).
  • Ora o Senhor encaminhe os vossos corações no amor de Deus, e na paciência de Cristo” (2Ts 3:5).
  • Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas” (1Pe 1.2).
  • Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Ef 1.3).
  • Quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará as vossas consciências das obras mortas, para servirdes ao Deus vivo?” (Hb 9.14).

Num próximo estudo, pretendemos falar mais especificamente sobre a deidade de cada uma das pessoas da Trindade, cuja doutrina desenvolveu-se do desejo da igreja de preservar as verdades bíblicas no tocante ao Deus que é o Senhor transcendente sobre toda a História e que, porém, dá-Se a Si mesmo pessoalmente para agir dentro da História. Aliás, a própria a palavra Trindade, que não se encontra na Bíblia, surge no século II, como resultado da preocupação com a definição da doutrina de Deus. O verdadeiro conhecimento desta verdade foi, e continua sendo, necessário para refutar distorções como o Subordinacionismo, que tornava Cristo menor do que Deus, o Pai, o adocianismo, que entendia que Cristo era apenas um ser humano revestido por algum tempo com o Espírito de Deus, o modalismo ou o sabelianismo, que diz que as pessoas de Cristo e do Espírito Santo são apenas papéis ou modificações históricas do único Deus…

A doutrina trinitariana, portanto, é central para o kerigma salvífico das Escrituras, de acordo com o qual o Deus transcendente age pessoalmente na História, para redimir as Suas criaturas e dar-Se a elas. Orígenes concluiu corretamente que o crente ‘não chegaria à salvação se a Trindade não fosse completa’. Portanto, que “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com todos vós. Amém”.

Referências bibliográficas:

ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª Ed.).

PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1978 (7ª ed.).

 

Notas:


[1] PEARLMAN: 1978 (q.v.), pp. 51 a 55 – Texto adaptado de acordo com o Novo Acordo Ortográfico Brasileiro.

[2] SAUCY, R. L. Doutrina de Deus. In: ELWELL: 1988 (q.v.), pp. 440-444 – Texto parcial e adaptado de acordo com o Novo Acordo Ortográfico Brasileiro, usado conjuntamente com o texto de PEARLMAN (Nota 1) no decorrer deste estudo.

[3] Versão de Almeida é o nome às principais versões bíblicas de do principal tradutor da Bíblia para a Língua Portuguesa, João Ferreira de Almeida. “A grande maioria dos evangélicos do Brasil associa o nome de João Ferreira de Almeida às Escrituras Sagradas. Afinal, é dele a tradução da Bíblia mais usada e apreciada pelos protestantes brasileiros. Disponível, no Brasil, em duas edições, a Revista e Corrigida e a Revista e Atualizada, a tradução de Almeida é a preferida de mais de 60% dos leitores evangélicos das Escrituras no País”. Disponível em: <http://www.sbb.org.br/a-biblia-sagrada/joao-ferreira-de-almeida/>. Acesso em 09/05/2019.

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Os atributos de Deus

Como parte da série Doutrinas Bíblicas, queremos dar continuidade ao nosso estudo, ainda que superficial, cerca de Deus. Depois do nosso artigo em prol da existência de Deus, queremos destacar, neste, os seus atributos[1], apesar de nossa limitação para tratar de assunto tão profundo e infinito. Para isto, usei como base o texto – adaptado e de acordo com o Novo Acordo Ortográfico – e as sugestões de G. R. LEWIS[2], mas com algumas inserções, destacadas nas notas abaixo.

O Deus, do qual ocupamos nesta e em outras reflexões é o Deus dos hebreus, cujas informações sobre o qual nós as encontramos no Antigo Testamento, primeira parte das Escrituras cristãs. E esta primeira parte da Bíblia inicia com a expressão: “no principio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Isto significa que Deus não se preocupa em provar sua existência. São as informações acerca de seus atributos que nos levam a entender um pouco do “ser de Deus”.

Atributos são qualidades ou adjetivos que marcam as particularidades próprias de alguém. No caso de Deus, como um Ser invisível, pessoal e vivo, que se diferencia de todos os demais seres, podemos destacar os atributos como seguem: metafísicos, existenciais, éticos, intelectuais, emocionais e relacionais.

1. Atributos metafísicos: auto existência, eternidade e imutabilidade

Diferenças relevantes aparecem em vários aspectos, mas primeiramente focalizaremos as características de Deus metafisicamente distintas.

a) Deus é auto existente:

Todos os demais seres foram criados e, portanto, têm um começo. Devem a outro sua existência. Para existir, Deus não depende do mundo nem de qualquer pessoa que nele há. O mundo depende de Deus para a sua existência. De modo contrário àqueles teólogos que dizem que não podemos conhecer nada a respeito de Deus em Si mesmo, Jesus revelou que Deus tem vida em Si mesmo: “Porque, como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em si mesmo” (Jo 5.26). O fundamento da existência de Deus não se acha nos outros, porque nada há de mais ulterior do que Ele mesmo. Deus não tem origem; é Aquele que sempre existe: “E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós” (Êx 3.14). Perguntar quem deu origem a Deus é fazer uma pergunta contraditória, conforme os termos do conceito que Jesus tem de Deus.

Outro termo que transmite o conceito e auto existência de Deus é “asseidade”. A palavra é derivada do latim a, que, significa “de” e se que significa “si mesmo”. Deus tem existência não-derivada, necessária, independente. Compreender que Deus é incontingente ajuda-nos a ver como Deus não é limitado por coisa alguma, é infinito, autodeterminado, não determinado por outra coisa senão Ele mesmo, de conformidade com Seus propósitos soberanos.

b) Deus é eterno:

A vida de Deus vem de Si mesmo, não é algo que teve início no mundo do espaço e do tempo. Deus não teve início, fase de crescimento, velhice nem fim. O Senhor está entronizado como Rei para sempre: “O Senhor se assentou sobre o dilúvio; o Senhor se assenta como Rei, perpetuamente” (Sl 29.10). Este Deus é o nosso Deus para todo o sempre: “Porque este Deus é o nosso Deus para sempre; ele será nosso guia até à morte” (Sl 48.14). Embora Deus não seja limitado por espaço e tempo, nem pela sucessão de eventos no tempo, Ele criou o mundo com espaço e tempo. Deus sustenta o âmbito mutável dos eventos sucessivos e está consciente de cada movimento na História. O mundo observável e mutável não é sem importância nem irreal (maya, no hinduísmo) para o onipresente Senhor de tudo. Nenhuma vida, seja de uma tribo, nação, cidade, família ou pessoa, é sem valor, por mais breve ou aparentemente insignificante que seja. A natureza eterna de Deus não está totalmente fora do tempo, nem removida de tudo no tempo e no espaço. O mundo do espaço e do tempo não é estranho a Deus nem lhe é desconhecido. A História é o produto do planejamento eternamente sábio de Deus, do Seu propósito criador, da Sua preservação providencial e da Sua graça geral. Deus enche o espaço e o tempo com a Sua presença, sustenta-os e lhes dá propósito e valor. O Deus onipresente e ubíquo[3] é Senhor do tempo e da história, e não a forma contrária. Deus não nega o tempo, mas o cumpre. Nele, os Seus propósitos são atingidos.

Portanto, no cristianismo a eternidade não é de natureza intemporal e abstrata, mas o eterno é uma característica do Deus vivo presente em todos os tempos e todos os lugares, criando e sustentando o mundo do espaço e do tempo e realizando os Seus propósitos redentores na plenitude do tempo.

c) Deus é imutável:

Deus é imutável em sua natureza, desejo e propósito. Dizer que Deus é imutável não é contradizer a verdade prévia de que Ele é vivo e ativo. É afirmar que todos os empregos do poder e da vitalidade divinos são coerentes com Seus atributos, como a sabedoria, a justiça e o amor. Os atos de Deus nunca são meramente arbitrários, embora alguns deles o possam ser por razões totalmente inerentes a Ele, ao invés de serem condicionados pela reação humana. Por trás de cada punição dirigida aos maus e de cada perdão concedido aos arrependidos está Seu imutável propósito no tocante ao pecado e à conversão. Ao contrário do conceito estoico da imutabilidade divina, Deus não é indiferente às atividades humanas. Pelo contrário, sempre podemos contar com a preocupação de Deus a favor da retidão humana. Deus responde imutavelmente à oração, de conformidade com Seus desejos e propósitos de amor santo. Daí, embora se fale em termos da experiência humana, às vezes se afirma nas Escrituras que Deus se arrepende; mas, na realidade, os impenitentes é que mudaram, ou os fiéis é que se tornaram infiéis.

Deus é o mesmo, embora tudo mais na criação envelheça como uma roupa: “Desde a antiguidade fundaste a terra, e os céus são obra das tuas mãos.
Eles perecerão, mas tu permanecerás; todos eles se envelhecerão como um vestido; como roupa os mudarás, e ficarão mudados. Porém tu és o mesmo, e os teus anos nunca terão fim”
(Sl 102.25-27). Jesus compartilhava desta mesma natureza imutável: “E: Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos.
Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão,
E como um manto os enrolarás, e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão
” (Hb 1.10-12) e a exibiu de modo vívido e coerente no decurso de todo o Seu ministério ativo, numa variedade de situações.

A imutabilidade do caráter de Deus significa que Ele nunca perde a Sua própria integridade nem decepciona as pessoas. Em Deus não pode existir variação ou sombra de mudança (Tg 1.17). A natureza e a palavra inabaláveis de Deus fornecem o fundamento mais forte para a fé e trazem forte consolação (Hb 6.17-18). Deus não é homem para mentir (Nm 23.19) ou Se arrepender (1Sm 15.29). O conselho do Senhor permanece para sempre (Sl 33.11). Passarão o céu e a terra, porém as palavras de Deus não passarão (Mt 5.18; 24.35).

2. Atributos intelectuais: onisciência, fidelidade e sabedoria

A capacidade intelectual de Deus é ilimitada, e Deus a usa de modo pleno e perfeito.

a) Deus é onisciente:

Deus sabe todas as coisas (1Jo 3.20). Jesus também tem este atributo de divindade, pois Pedro diz: “Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo” (Jo 21.17). Deus conhece todos os pensamentos íntimos e os atos externos da humanidade (Sl 139). Nada em toda a criação está oculto aos olhos de Deus. Todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas (Hb 4.13). Isaías fazia distinção entre o Senhor de tudo e os ídolos pela capacidade de o Senhor predizer o futuro (Is 44.7-8,25-28). Fica claro que o conhecimento do futuro da parte do Senhor era comunicável em conceitos e palavras humanos. No contexto, Isaías fez predições a respeito de Jerusalém, Judá, Ciro e o templo. Estes conceitos foram inspirados na língua original e são traduzíveis nos idiomas de todo o mundo.

Como Deus pode conhecer o fim desde o começo? De uma forma maior do que aquela ilustrada no conhecimento que uma pessoa tem que de um salmo decorado, sugeriu Agostinho. Antes de recitarmos o Salmo 23, ele está todo em nossa mente. Então, citamos a primeira metade dele, e sabemos o que já passou e a parte que ainda falta ser citada. Deus conhece a totalidade da História de uma só vez, simultaneamente, porque não é limitado por tempo e sucessão, mas Deus também conhece qual parte da História está no passado hoje, e qual parte está no futuro, porque o tempo não é irreal nem sem importância para Ele (Confissões XI, 31).

A crença de que Deus conhece tudo – no passado, no presente e no futuro – é de pouca relevância, no entanto, se o conhecimento de Deus fosse removido do conhecimento humano por uma distinção infinita e qualitativa, a frequente alegação de que o conhecimento de Deus é totalmente diferente do nosso subentende que a verdade de Deus pode ser contraditória em relação à nossa verdade. Ou seja, aquilo que é verdadeiro para nós é falso para Deus, ou aquilo que é falso para nós pode ser verdadeiro para Deus. Os defensores desta posição argumentam que, pelo fato de Deus ser onisciente, ele não pensa de modo discursivo, linha por linha, nem usa conceitos distintivos ligados pelo verbo “ser” em proposições lógicas. Este conceito da transcendência divina forneceu um corretivo eficaz às mãos de Barth[4] e Bultmann[5] contra a continuidade que o modernismo alegava entre o pensamento humano mais sublime e o pensamento de Deus. E aquela influência recebe apoio adicional dos místicos orientais que negam qualquer validez ao pensamento conceptual com referência ao eterno. Os relativistas de muitos campos também negam que quaisquer asseverações humanas, inclusive as da Bíblia, sejam capazes de expressar a verdade a respeito de Deus.

No entanto, segundo a perspectiva bíblica, a mente humana foi criada à imagem divina para pensar os pensamentos de Deus segundo Ele, ou receber, a verdade da parte de Deus, mediante as revelações geral e especial. Embora a queda tenha afetado a mente humana, esta capacidade não foi erradicada. O novo nascimento envolve a renovação da pessoa, pelo Espírito Santo, no conhecimento segundo a imagem do Criador (Cl 3.10).

Contextualmente, o conhecimento possível aos regenerados inclui a posição e a natureza atuais do Cristo exaltado (Cl 1.15-20) e o conhecimento da vontade de Deus (Cl 1.9). Com este conhecimento, os cristãos podem evitar o engano proveniente de raciocínios falazes que soam bem (Cl 2.4). Devem fortalecer a fé na qual foram instruídos por conceitos e palavras (Cl 2.7). E o conteúdo da palavra de Cristo pode prestar informações ao ensino e à adoração deles (Cl 3.16).

Destas maneiras e de muitas outras, as Escrituras pressupõem uma revelação informativa da parte de Deus, verbalmente inspirada e iluminada pelo Espírito, a mentes criadas e renovadas à imagem divina para o recebimento desta verdade. À medida que captamos o significado contextual dado pelos escritores originais das Escrituras, são verdadeiras as nossas asseverações, baseadas nas Escrituras, de que Deus é espirito, é santo, e é amor. Estas afirmações são verdadeiras para Deus assim como Ele é em Si mesmo. São verdadeiras para a fé e a vida dos cristãos e das igrejas.

A verdade proporcional que a Bíblia transmite em frases indicativas que afirmam, negam, argumentam, sustentam, pressupõem e inferem é plenamente verdadeira para Deus e para a humanidade. Naturalmente, a onisciência de Deus não é limitada às distinções entre os sujeitos e os predicados, a sequência lógica, a pesquisa exegética ou o raciocínio discursivo. Mas Deus conhece a diferença entre um sujeito e um predicado, relaciona-Se tanto com a sequência como com a sequência temporal, estimula pesquisas exegéticas e o raciocínio discursivo baseado na revelação. Embora a mente de Deus seja ilimitada e conheça tudo, não é totalmente diferente em todos os aspectos das mentes humanas criadas à Sua imagem. Portanto, sendo onisciente, Seus julgamentos se formam com conhecimento de todos os dados relevantes. Deus sabe tudo quanto diz respeito à verdade concernente a qualquer pessoa ou evento. Nossos julgamentos são verdadeiros à medida que se conformam aos de Deus, sendo coerentes ou fiéis a todas as evidencias relevantes.

b) Deus é fiel e verdadeiro:

Porque Deus é fiel e verdadeiro (Ap 19.11), Seus juízos (Ap 19.2) e Suas palavras em linguagem humana são fiéis e verdadeiras (Ap 21.5; 22.6). Não há falta de fidelidade na pessoa, no pensamento ou na promessa de Deus. Ele não é hipócrita nem incoerente.

Mantenhamos firme a nossa esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel: “Retenhamos firmes a confissão da nossa esperança; porque fiel é o que prometeu” (Hb 10.23). Ele é fiel para perdoar os nossos pecados (1Jo 1.9), santificar os crentes até à volta de Cristo (1Ts 5.23-24), fortalecê-los e protegê-los do maligno (2Ts 3.3), e para não permitir que sejam tentados além daquilo que podem suportar (1Co 10.13). Até mesmo quando somos infiéis, Ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a Si mesmo (2Tm 2.13).

Nenhuma das boas promessas que Deus deu por meio de Moisés falhou (1Re 8.56). Isaías louva o nome divino, porque com fidelidade perfeita Deus fez coisas maravilhosas há muito tempo planejadas (Is 25.1). Passagens como estas transmitem uma integridade divina básica tanto na vida quanto no pensamento. Nenhum contraste pode ser feito entre aquilo que Deus é em si mesmo e aquilo que Ele é com relação aos que nEle confiam. Deus não contradiz as Suas promessas em Suas obras ou em outros ensinos por meio de dialética, paradoxo ou mera complementaridade. Deus conhece tudo, e nada pode surgir que já não tenha sido levado em conta antes de Deus revelar os Seus propósitos.

Porque Deus é fiel e coerente, nós também devemos ser fiéis e coerentes. Jesus disse: “Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não” (Mt 5.7). Paulo demonstrou esta autenticidade lógica nos seus ensinos a respeito de Deus. Tão seguramente como Deus é fiel, disse ele, a nossa mensagem para convosco não é “sim” e “não” (2Co 1.18). Aqueles que imaginam que a conversa a respeito de Deus na linguagem humana tem de afirmar e negar a mesma coisa ao mesmo tempo e no mesmo assunto (na dialética ou no paradoxo) têm um conceito diferente do de Paulo sobre o relacionamento entre a mente divina e a mente da pessoa piedosa. Porque Deus é fiel, devemos ser fiéis em nossa mensagem a respeito dEle. Visto que Deus não pode negar a Si mesmo, não devemos negar a nós mesmos, ao falarmos a Deus.

Conhecendo a ligação entre a fidelidade pessoal e a conceptual em Deus, sabemos que a ideia de que pessoas não devem contradizer a si mesmas não se originou com Aristóteles. Embora ele tenha formulado a lei da não-contradição, de forma que tem sido citada a partir de então, a fonte ulterior do desafio à fidelidade humana na pessoa e na palavra está arraigada no próprio Deus. A exigência universal de honestidade intelectual reflete no coração humano a total integridade do coração do Criador.

c) Deus é sábio:

Deus não é apenas onisciente e coerente em Sua Pessoa e palavra, mas também perfeitamente sábio. Além de conhecer todos os dados relevantes sobre qualquer assunto, Deus seleciona Seus fins com discernimento, e age com harmonia com Seus propósitos de amor santo. Talvez nem sempre consigamos ver que os eventos nas nossas vidas cooperam para um propósito sábio, mas sabemos que Deus escolhe dentre todas as alternativas possíveis os melhores fins e meios para atingi-los. Deus não somente escolhe os fins certos como também o faz pelas razões certas: o bem das Suas criaturas e, portanto, a Sua glória.

Embora talvez não possamos entender plenamente a sabedoria divina, temos boas razões para confiar nela. Depois de escrever a respeito da grande dádiva da justiça que vem de Deus, Paulo exclama: “Ao Deus único e sábio seja dada glória, por meio de Jesus Cristo, pelos séculos dos séculos. Amém” (Rm 16.27). Anteriormente, já fizeram alusão à profundidade insondável da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus (Rm 11.33).

O inter-relacionamento dos atributos é evidente, porque a onisciência divina tem consciência não somente daquilo que existe, mas também daquilo que deve existir (moralmente); a fidelidade e a coerência divinas envolvem a integridade moral sem hipocrisia; e a sabedoria toma decisões no sentido de agir visando certos fins e meios em termos dos mais altos valores. Portanto, não devemos sentir estranheza quando lemos que o temor do Senhor é o princípio da sabedoria (Pv 1.17).

3. Atributos éticos: santidade, justiça e amor

Deus é distinto de todas as Suas criaturas e transcendente a todas elas, não apenas metafísica e epistemologicamente, mas também moralmente, Deus é moralmente imaculado no caráter e na ação, reto, puro e imaculado por desejos, motivos, pensamentos, palavras ou ações malignas.

a) Deus é santo:

Deus é santo, e, como tal, é a fonte e o padrão de tudo quanto é justo. Deus está livre de todo o mal, ama toda a verdade e a bondade. Dá valor à pureza e detesta a impureza e a inautenticidade. Deus não pode aprovar qualquer mal. E nele não tem prazer (Sl 5.4), nem pode tolerá-lo (Hc 1.13). Deus aborrece o mal e não pode suportar o pecado de modo algum (Tg 1.13-14). Os cristãos não têm reverente temor àquilo que é santo de modo abstrato, mas ao Santo (Is 40.25). O Santo não é meramente um objeto de fascínio emocional, mas também deve ser ouvido de modo inteligente e obedecido segundo a volição.

A santidade não é apenas o produto da vontade de Deus, mas também uma característica imutável da Sua natureza eterna. Assim, a pergunta formulada por Platão precisa ser refraseada para se aplicar ao Deus dos cristãos: “O bem é bom porque Deus assim determina? Ou Deus o determina porque é bom?”. A pergunta não se relaciona com a vontade de Deus, mas à essência de Deus. O que é bom, justo, puro e santo é santo, não em razão de um ato arbitrário da vontade divina, nem de um princípio independente de Deus, mas porque é uma decorrência da Sua natureza. Deus sempre determina de modo coerente à Sua própria natureza. Ele determina o bem porque Ele é bom. E porque Deus é santo, Ele consistentemente odeia o pecado e repugna todo o mal, sem fazer distinção de pessoa. O Espírito Santo é chamado santo não somente porque, como membro da Trindade Divina, compartilha da santidade da natureza divina, mas também porque a função distintiva do Espírito é produzir amor santo no povo redimido de Deus. Devemos procurar ser moralmente imaculados em nosso caráter e ação, retos e justos como o Deus a quem adoramos.

b) Deus é justo ou reto:

A justiça ou retidão de Deus é revelada na Sua lei moral que expressa a Sua natureza moral e no Seu juízo, outorgando a todos, nas questões de mérito, exatamente aquilo que merecem. Seu julgamento não é arbitrário nem segundo caprichos, mas com princípios sem acepção de pessoas. Os escritores do AT frequentemente protestam contra a injustiça experimentada por pobres, viúvas, órfãos, estrangeiros e piedosos. Deus, por contraste, tem compaixão dos pobres e necessitados (Sl 72.12-14). Ele responde, liberta, reavive, inocenta e outorga-lhes a justiça que lhes é devida. Em Sua justiça, Deus liberta os necessitados da injustiça e da perseguição. Finalmente, Deus criará novo céu e nova terra, onde habitará a justiça (Is 65.17).

A ira de Deus é revelada quando os pecadores suprimem a Sua verdade e a impedem pela injustiça (Rm 1.18-31), sendo que tanto os judeus quanto os gentios agem assim (Rm 2.1-3,20). No evangelho é revelada uma justiça da parte de Deus, justiça que subsiste pela fé, do começo ao fim (Rm 1.17; 3.21). Os crentes são justificados livremente pela graça de Deus, vinda mediante Jesus Cristo, que forneceu o sacrifício da expiação (Rm 3.24). Assim, como Abraão, os que são plenamente convencidos de que Deus pode fazer aquilo que prometeu (Rm 4.21) descobrem que a sua fé lhes é creditada como justiça (Rm 4.3,24). Deus na Sua justiça provê gratuitamente a condição de justos para os crentes em Cristo. Em Deus, a justiça não está desligada da misericórdia, da graça e do amor.

c) Deus é amor:

Na Sua misericórdia, Deus retém ou modifica o julgamento merecido e, na Sua graça, concede gratuitamente benefícios imerecidos a quem Ele quiser. Todas estas características morais fluem do grande amor de Deus. Em contraste com Sua auto existência transcendente, está o Seu amor gracioso, abnegado, o amor agape. Aquele que vive para sempre como santo, alto e sublime também habita com o contrito e abatido de espírito (Is 57.15).

Não se trata de Deus precisar de alguma coisa (At 17.25), mas, sim, de Ele desejar dar de Si mesmo para o bem-estar das pessoas amadas, a despeito do fato de não serem dignas de amor nem terem outros méritos. Deus não somente ama como também é amor em Si mesmo (1Jo 4.8). Seu amor é como o de um marido para com a esposa, de um pai para com o filho, e como o de uma mãe para com seu bebê a quem amamenta. Com amor, Deus escolheu a Israel (Dt 7.7) e predestinou os crentes da igreja a serem adotados como filhos mediante Jesus Cristo (Ef 1,4-5). Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3.16).

O amor cuida de idosos, oprimidos, pobres, órfãos e demais necessitados. O Deus amoroso da Bíblia não permanece insensível por causa das pessoas que têm necessidades genuínas (nem fica impossível). O Deus de Abraão, Isaque, Jacó, Jeremias, Jesus, Judas, Pedro e Paulo sofria, era realmente longânimo (sofredor). Com empatia, Deus, através da imaginação, penetra nos sentimentos das Suas criaturas. Além disso, o Deus encarnado submeteu-se às nossas tentações e sofrimentos, mediante a participação neles. Conforme disse H. W. Robinson: “Apenas como sofrimento o mal moral pode entrar na consciência do moralmente bom”. Em todas as aflições de Israel, Deus Se afligia (Is 63.9). Que significado pode haver, pergunta Robinson, num amor que nada custa àquele que ama? O Deus da Bíblia está longe de ser apático no tocante ao vasto sofrimento das pessoas no mundo. Com amor, Deus enviou Seu Filho para morrer, a fim de que, finalmente, o sofrimento fosse abolido e a justiça restaurada em toda a terra, assim como as águas cobrem o mar.

Visto que o amor envolve um compromisso com o bem-estar dos outros, um compromisso responsável e fiel, ele não é classificado como basicamente emocional. O amor é uma disposição firme da vontade que envolve toda a pessoa que procura o bem-estar dos outros.

4. Atributos emocionais: Deus detesta o mal, é longânimo e compassivo

Strong diz que Deus está livre de paixões e caprichos. De fato, Deus está isento de caprichos, injustiças e emoções fora do controle. Neste artigo já procuramos negar quaisquer paixões indignas de Deus. Strong acrescenta, como razão: “Não em Deus qualquer ira egoísta”. Mesmo assim, Deus é pessoal e ético, e estes dois conceitos exigem emoções ou paixões saudáveis. Aquele que Se deleita na justiça, na retidão e na santidade, visando o bem-estar das Suas criaturas, pode sentir repulsa diante da injustiça, da iniquidade e da corrupção, que destroem os seus corpos, mentes e espíritos. Daí, a Bíblia frequentemente referir-se à justa indignação de Deus contra o mal. A justa indignação é a ira provocada, não pelo fato de alguém ser vencido por emoções egoístas, mas pela injustiça e por todas as obras da “carne” decaída.

a) Deus é benigno:

Deus detesta o mal. Em geral, Jesus e as Escrituras falam mais frequentemente da ira de Deus diante de injustiças, tais como os maus tratos persistentes aplicados aos pobres e necessitados, do que do amor e do céu. Embora o Senhor seja tardio em irar-Se, jamais inocenta os culpados, mas derramará sobre eles a Sua fúria (“O Senhor é tardio em irar-se, mas grande em poder, e ao culpado não tem por inocente…”, Na 1.3). Ninguém pode suportar a Sua indignação, que é derramada como fogo e esmaga as rochas diante dEle (Na 1.6). À parte de uma compreensão da ira de Deus contra o mal, é impossível entender a extensão do amor divino na encarnação, a magnitude do sofrimento de Cristo na cruz, a natureza propiciatória do Seu sacrifício, as Escrituras proféticas sobre o grande dia da ira de Deus, a grande tribulação e o livro do Apocalipse.

b) Deus é longânimo:

Deus é paciente e longânimo. Zelando pelo bem-estar dos objetos do Seu amor, Deus torna-Se irado por causa da injustiça cometida contra eles, mas sofre sem Se abater. Deus, sendo longânimo com os malfeitores, mas sem lhes desculpar o pecado, fornece-lhes graciosamente benefícios temporais e espirituais imerecidos, Deus prometera a terra a Abraão, mas a iniquidade dos amorreus ainda não se enchera (Gn 15.16). Depois de quatrocentos anos de sua autocontenção longânima, Deus, na plenitude do tempo, permitiu que os exércitos de Israel trouxessem o justo juízo à iniquidade dos amorreus. Mais tarde, Israel adorou o bezerro de ouro e mereceu o castigo divino como os demais idólatras. Mas Deus Se revelou, ao dar a Lei pela segunda vez, como “Senhor, Senhor Deus compassivo, clemente e longânimo, e grande em misericórdia e fidelidade” (Ex 34.6). O salmista pôde escrever: “Mas tu, SENHOR, és Deus compassivo e cheio de graça, paciente e grande em misericórdia e em verdade” (Sl 86.15). Todavia, o dia da graça de Deus tem seu fim. Finalmente, sem acepção de pessoas, o justo juízo de Deus caiu sobre Israel, por causa dos seus males difusos. A longanimidade de Deus é uma virtude notável, mas não exclui nem contradiz a justiça divina.

c) Deus é compassivo:

Embora os teólogos da tradição tomista tenham ensinado a impassibilidade de Deus, as Escrituras não hesitam em chamar Deus de compassivo. Não somos consumidos por causa do Seu grande amor, porque “as suas misericórdias não têm fim” (Lm 3.22). Mesmo depois do cativeiro de Israel, Deus voltaria a demonstrar-lhe compaixão (Mq 7.19). O Deus da Bíblia não é um Deus apático, mas é Aquele que Se preocupa profundamente até com o pardal. Jesus demonstrou, de uma linda maneira, esta compaixão divino-humana por famintos (Mt 15.32), cegos (Mt 20.34) e enlutados (Lc 7.13). Jesus também ensinou a importância da compaixão através da Parábola do Bom Samaritano (Lc 10.33) e de outra sobre a solicitude do pai para com seu filho perdido (Lc 15.20).

O Cristo encarnado sentiu tudo o que os seres humanos sentem em todas as áreas, mas não Se rendeu às tentações envolvidas nestes sentimentos. Como Deus, ao participar literalmente da experiência humana, Jesus chorava com os que choravam a alegrava-Se com os que se alegravam. Ele relembrava a exultante glória compartilhada com Seu Pai antes da fundação do mundo (Jo 17.5,13). Entretanto, o autor divino-humano da nossa salvação foi aperfeiçoado através das coisas que sofreu nesta vida (Hb 2.10). Pelo fato de ter sofrido, ele pode prestar ajuda aos que sofrem e são tentados (Hb 2.18). O Deus revelado em Jesus Cristo não é uma causa primeira apática, isolada e impessoal. O Pai que Jesus revelou fica profundamente tocado por tudo que fere seus filhos.

5. Atributos existenciais: liberdade, autonomia e onipotência 

A preocupação moderna no tocante a liberdade, autenticidade e plenitude não deve ser limitada à humanidade. Os escritores bíblicos parecem ter se preocupado muito mais com que Deus fosse compreendido como um Ser livre, autêntico e pleno.

a) Deus é livre:

Desde a eternidade, Deus nunca esteve condicionado a qualquer elemento, a não ser a Si próprio, que fosse contrário aos Seus propósitos. Como já vimos, as coisas boas são planejadas com prazer e capacidade divinos. As coisas más são permitidas com desprazer divino. Mas, de qualquer forma, Deus é autodeterminado. Autodeterminação é o conceito de liberdade que enfatiza a realidade de que pensamentos, sentimentos e volição não são determinados por fatores externos, mas sim pela própria pessoa.

Deus não é livre para aprovar o pecado, deixar de amar, ser insensato, ignorar os duros fatos da realidade, ser infiel àquilo que é ou deve ser, ser incompassivo ou não-misericordioso. Deus não pode negar a Si próprio. Deus é livre para ser Ele mesmo, um ser com características pessoais, eternas, vivas, intelectuais, éticas, emocionais e volitivas.

b) Deus é autêntico:

Deus é autêntico, autenticamente Ele mesmo. O Deus que, em Cristo, Se opôs de modo tão implacável à hipocrisia, não é um hipócrita. Já enfatizamos acima a Sua fidelidade ou integridade intelectual. Agora, damos ênfase à Sua integridade dos pontos de vista ético, emocional e existencial. Deus é autoconsciente, sabe quem é e quais são os Seus propósitos (1Co 2.11). Ele tem uma alta percepção de identidade, significado e propósito.

Deus sabe que é o Ser ulterior e que, na realidade, nada se compare a Ele. Entretanto, ao conclamar as pessoas para que abandonem os ídolos, de forma alguma Deus está nos solicitando algo que esteja em desacordo com a realidade. Em Sua firme oposição à idolatria, Ele procura livrar as pessoas de interesses fadados à desilusão e ao desapontamento. Deus requer a nossa adoração para o nosso bem, para que, no final, não sucumbamos ao desespero, à medida que somos abandonados pelos nossos deuses finitos.

c) Deus é onipotente:

Continuando, Deus é onipotente (Mc 14.36; Lc 1.37). Deus é capaz de fazer tudo quanto determinada, à seu modo. Deus não escolhe fazer coisa alguma contrária à Sua natureza de sabedoria e santo amor. Deus não pode negar a Si mesmo e não escolhe fazer tudo por Seus próprios meios imediatos, sem agentes angelicais e humanos intermediários. Embora Deus determine que algumas coisas aconteçam incondicionalmente (Is 14.24-27), a maioria dos eventos na História são planejados sob certas condições, pela obediência do povo aos preceitos divinos e pela sua desobediência permitida (2Cr 7.14; Lc 7.30; Rm 1.24). De qualquer maneira, os propósitos eternos de Deus para a História não são frustrados, mas cumpridos do modo que Ele escolheu (Ef 1.11).

Deus não somente tem força para levar a efeito todos os Seus propósitos, da maneira que os determina, como também autoridade no âmbito total do Seu reino para fazer o que quer. Deus não está sujeito ao domínio de outrem, mas é Rei e Senhor de todos. Em virtude de todos os Seus outros atributos – por exemplo, sabedoria, justiça e amor – Deus é digno de dominar tudo quanto criou e sustenta. Deus é um soberano sábio, santo e gracioso. Por ser justo, o poder de Deus em si mesmo não pode punir os pecadores mais do que eles merecem. Àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão. Mas na concessão de benefícios e dádivas imerecidos, Deus está livre para distribuí-los conforme o Seu beneplácito (Sl 135.6). Tendo permitido o pecado, Deus é suficientemente grande para limitar as paixões furiosas dele, submetendo-o à Sua soberania para um bem maior, como se deu no Calvário (At 4.24-28). Deus pode derrotar as nações e as hostes demoníacas que se enfurecem contra Ele. Ninguém pode existir independentemente da soberania divina. A tentativa de a pessoa seguir o seu próprio caminho independente de Deus é uma insolência pecaminosa da parte de criaturas que nEle vivem, se movem e existem. Somente um tolo poderia dizer que não há Deus, pois é o próprio Deus quem sustenta o fôlego que o ateu usa para negar o domínio divino sobre ele.

6. Atributos relacionais: transcendência e imanência

Relacionalmente, Deus é transcendente na Sua existência, universalmente imanente na Sua atividade providencial e imanente com seu povo na atividade redentora.

a) Deus é transcendente:

Como transcendente, Deus é diferente, de forma inigualável, de tudo na criação. A distinção entre Deus e a existência do mundo tem sido subentendida nas discussões anteriores dos atributos metafísicos, intelectuais, éticos, emocionais e existenciais de Deus. Deus está relacionalmente “oculto”, por ser tão grande de todas estas outras maneiras. A existência de Deus é eterna; a do mundo, temporal. O conhecimento de Deus é total; o conhecimento humano, incompleto. O caráter de Deus é santo; o caráter da humanidade, decaído e pecaminoso. Os desejos de Deus colocam-se consistentemente contra o mal, mas Ele é longânimo e compassivo; os desejos humanos flutuam de modo incoerente, com frequência misturam o mal com o bem. A energia de Deus é incansável e inexaurível; a energia do mundo está sujeita à depleção pela entropia. Por isso, Deus é superior e está acima das pessoas do mundo em todos estes aspectos.

A transcendência divina incomparável envolve um dualismo radical entre Deus e o mundo, que não deve ser ofuscado por um ressurgimento do monismo[6] e do panteísmo[7]. Embora tenha sido feita segundo Deus e à imagem divina, a humanidade (ao contrário de Cristo) não é gerada a partir de Deus nem é uma emanação de Deus que possua a mesma natureza divina. O alvo ulterior da salvação não é a reabsorção para dentro da existência de Deus, mas a comunhão ininterrupta com Deus. A união que os cristãos procuram com Deus não é metafísica, mas relacional, uma unidade de mente, desejo e vontade. Procurar ser como Deus, de uma perspectiva bíblica, não é uma espiritualidade mais profunda, mas idolatria ou blasfêmia rebelde. Os cristãos podem respeitar a natureza como uma criação divina, mas não a adora como divina. Os cristãos podem respeitar os fundadores das religiões do mundo, mas não podem se curvar diante de qualquer guru como o divino manifesto na forma humana. Somente Jesus Cristo vem de cima; todos os demais vêm de baixo (Jo 8.23). Porque Deus está separado do mundo, os cristãos não podem se curvar diante de qualquer potência na terra como se ela fosse Deus, quer seja uma potência econômica, política, religiosa, científica, educacional ou cultural. O benefício inestimável do ato de curvar-se diante de um Senhor transcendente a todas as coisas é que ele liberta a pessoa de todas as tiranias finitas e descaídas.

O teísta bíblico não somente crê que o único Deus vivo está separado do mundo, em contraste com o panteísmo e o panenteísmo[8], mas também acredita que Deus está continuamente ativo em todo o mundo, de modo providencial, contrastando com o deísmo. Deus não está tão exaltado que não possa conhecer, amar ou relacionar-Se com a lei natural no mundo da experiência de todos os dias. Um estudo da providência divina, conforme ensinada nas Escrituras, demonstra que Deus sustenta, orienta e governa tudo quanto criou. Os salmos da natureza refletem sobre a atividade de Deus com relação a cada aspecto da terra, da atmosfera, da vegetação e da vida animal (e.g. Sl 104). Deus também preserva e governa a história humana, condenando as sociedades corruptas e abençoando os justos e os ímpios com benefícios temporais tais como luz do sol, a chuva, o alimento e a bebida. Mediante a atividade providencial universal de Deus, o cosmos se mantém unido, e Seus propósitos sábios da graça geral são realizados.

b) Deus é imanente:

Mas Deus é imanente nas vidas dos Seus que se arrependem do pecado e vivem pela fé para realizar os alvos da Sua graça redentora. “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar espírito dos abatidos, e vivificar o coração dos contritos” (Is 57.15). Assim como as pessoas podem estar presentes umas com as outras em graus variados, Deus pode estar presente com os ímpios de certa maneira, e com os justos de uma forma mais rica. Uma pessoa pode estar presente simplesmente como mais um passageiro num ônibus ou, de modo muito mais relevante, como uma mãe piedosa que orou diariamente por alguém durante toda a sua vida. Deus está graciosamente presente, com amor perdoador. Junto ao convertido, que pela fé foi propiciado, reconciliado e redimido pelo sangue precioso de Cristo. Tornam-se o Seu povo, e Ele Se torna o seu Deus. Deus habita em Seu povo como Seu santo lugar ou templo. A união relacional de pensamentos, desejos e propósitos cresce com o passar dos anos. Esta união é compartilhada por outros membros do Corpo de Cristo que têm dons para se edificarem uns aos outros, a fim de se tornarem progressivamente mais semelhantes ao Deus a quem adoram, não metafisicamente, mas intelectualmente, ética, emocional e existencialmente.

Em resumo:

  • Deus é Espírito vivo e pessoal, digno de adoração e da confiança de todo coração, separado do mundo, porém continuamente ativo no mundo.
  • Deus criou e sustenta o cosmos, as leis científicas, as fronteiras geográficas e políticas.
  • Deus está além do tempo, mas não deixa de Se relacionar ativamente com o tempo, com a vida humana, lar, cidade, nação e com a história da humanidade em geral.
  • Embora transcendente Deus não deixa de relacionar-Se de modo inteligente com o pensamento proposicional e com a comunicação verbal. Com a validez objetiva, com a consciência lógica, com a fidelidade, coerência e clareza fatual, bem como a autenticidade subjetiva e a integridade existencial.
  • Embora não esteja limitado por um corpo, Deus não deixa de Se relacionar providencialmente com o poder físico na natureza e na sociedade, nos aspectos industrial, agricultural, social e político. Deus conhece e julga a mordomia humana no uso de todos os recursos de energia do mundo.
  • Deus transcende toda tentativa de se obter justiça no mundo, mas, relaciona-Se retamente com todos os bons esforços das Suas criaturas, pessoal, econômica, acadêmica, religiosa, e politicamente.
  • Embora esteja livre de emoções indignas e descontroladas, Deus mostra-Se solícito aos pobres, infelizes, solitários, enlutados, enfermos e vítimas de preconceito, injustiça, ansiedade e desespero.
  • Além de toda aparente falta de significado e propósito na existência humana, Deus pessoalmente dá relevância à vida mais insignificante.

 

Referência Bibliográfica:

  • ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª Ed.), pp. 427-438 – Texto adaptado.

 

Notas:

  • [1] LEWIS, G. R. Atributos de Deus. In: ELWELL: 1988, pp. 427-438. Vide Referência Bibliográfica.
  • [2] LEWIS, Gordon R. – Ph.D., Universidade Syracuse. Professor de Teologia e Filosofia, Seminário Teo-lógico Batista Conservador de Denver, Denver. Colorado, EUA.
  • [3] Ubíquo: aquele (Deus) que está ou existe ao mesmo tempo em toda parte.
  • [4] Karl Barth, teólogo reformado suíço que é muitas vezes considerado o maior teólogo protestante do século 20. “Barth destaca a absoluta transcendência de Deus. Deus é o único positivo, o ser. O homem, no entanto, da mesma forma que o mundo, é a negação, o não ser. Justamente por não ser nada, o homem não tem a possibilidade de auto redenção; nem ao menos de conhecer Deus, mas somente de saber que não o conhece” (Disponível em: <http://teologia-contemporanea.blogspot.com/2008/02/karl-barth-1886-1969.html>. Acesso em 18/04/2019.
  • [5] Rudolf Karl Bultman (1884-1976), teólogo alemão que dedicou-se ao estudo do N.T. “… Da doutrina de Bultmann deduz-se que a fé cristã deve interessar-se pelo Jesus histórico para centrar-se no Cristo transcendente do querigma [proclamação da Palavra/Evangelho]. A fé cristã, a fé no querigma da Igreja, pela qual se pode dizer que Jesus Cristo ressuscitou, e não fé no Jesus histórico…” (Disponível em: <http://teologia-contemporanea.blogspot.com/2008/03/rudolf-bultmann-1884-1976.html>. Acesso em: 18/04/2019.
  • [6] Este ressurgimento do monismo a que Lewis refere, ocorreu principalmente na Idade Média. Na verdade, o monismo parece ser uma resposta à pergunta filosófica no campo da metafísica. Os pré-socráticos perguntavam: “quantas coisas existem”? Enquanto o monismo medieval responde: existe “uma coisa”. Mas há conceitos diferentes em relação a este assunto, como o monismo substancial, de Spinoza, que afirma, por exemplo, “… que existe uma só substância ou coisa, que existe independente, e que tanto Deus quanto o universo são aspectos dessa substância”. Por outro lado, o monismo atributivo (uma só categoria) sustenta que “… a realidade, em última análise, é composta de muitas coisas, em vez de uma só… [Mas] a tradição intelectual cristã geralmente tem sustentado que o monismo substancial deixa de tratar à altura distinção entre Deus e as criaturas, e que do monismo atributivo somente o idealismo [categoria da existência, no campo mental] é teologicamente aceitável…”. In: ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1990 (1ª Ed.). pp. 547-548. Veja o significado de panteísmo na nota a seguir, ambos (monismo e panteísmo) conceitos muito parecidos.
  • [7] Panteísmo: palavra derivada do grego pan e theos (“tudo é Deus”). Normalmente identificada com o sistema filosófico que tende a identificar Deus com o mundo. O panteísmo é tipicamente monista em relação à realidade, ao passo que o teísmo bíblico faz uma distinção entre Deus e o mundo. Ou seja, o mundo existe porque Deus o criou e ambos não podem confundir-se. “… Por causa da tendência de identificar Deus com o mundo material, surge… uma negação menor ou maior do caráter pessoal de Deus. Nas Escrituras, Deus não somente possui os atributos de uma pessoa, como também, na encarnação, Ele assume um corpo e se torna o Deus-homem. Deus é retratado supremamente como uma Pessoa”. In: ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. III. São Paulo: Vida Nova, 1990 (1ª Ed.). p. 90.
  • [8] Panenteísmo: “Todos em Deus”, é a doutrina que diz que o universo está contido em Deus, mas Deus é maior do que o universo, bem distinto do panteísmo e do monismo. O panenteísmo procura combinar os pontos fortes do teísmo clássico como do panteísmo clássico. Deus é visto como a alma do universo, o espírito universal presente em todos os lugares, ao mesmo tempo transcende todas as coisas criadas. Mas, como afirma o texto, “o teísta bíblico não somente crê que o único Deus vivo está separado do mundo, em contraste com o panteísmo e o panenteísmo, mas também acredita que Deus está continuamente ativo em todo o mundo, de modo providencial, contrastando com o deísmo”.

 

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Argumentos em prol da existência de Deus

“Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles[1] se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis” (Rm 1.19-20).

Dando prosseguimento à nossa série de estudos sobre Doutrinas Bíblicas, quero me ocupar no estudo sobre “DEUS”, em três partes. Neste post (artigo), enfatizando resumidamente alguns argumentos sobre a existência de Deus.

A relevância de um Criador[2]

Já citamos e postamos aqui o texto completo de Myer PEARLMAN, onde ele apresenta alguns argumentos bíblico-filosóficos acerca da existência de Deus, como a criação (um princípio; efeito de uma causa suficiente); o desígnio (o universo como obra dum Arquiteto inteligente), a natureza humana (regulada por conceitos do bem e do mal), a história (marcada por eventos que demonstram evidências de um poder e duma providência dominantes) e a crença universal (tão difundida quanto a própria raça humana).

Mas queremos usar como base neste artigo, principalmente o texto de A. J. HOOVER[3], onde os argumentos acerca da existência de Deus às vezes se interpõem e se completam aos de Pearlman.

Conforme Hoover há três maneiras segundo as quais se pode argumentar em prol da existência de Deus, que são a abordagem a priori (definição, principalmente de Anselmo de Cantuária, acerca de Deus como um ser infinito, perfeito e necessário, cuja inexistência é inconcebível), a abordagem a posteriori (que oferece evidências extraídas do mundo, do universo observável e empírico, insistindo em que Deus é necessário para explicar certos aspectos do cosmos) e a abordagem existencial (que firma a experiência direta de Deus através da revelação pessoal). Mas a mentalidade popular parece gostar mais da abordagem a posteriori. E é por este caminho que seguem os argumentos[4] a seguir:

1. O Argumento Cosmológico

Este argumento tem mais de uma forma. A mais antiga ocorre em Platão[5] e Aristóteles[6] e ressalta a necessidade de explicar a causa do movimento. Supondo que o repouso é natural e o movimento não o é, estes pensadores chegaram a Deus como o necessário Agente Motor de todas as coisas. Tomás de Aquino usou o movimento como sua primeira prova na Summa Theologica[7]. Tudo quando se movimenta deve ser movimentado por outra coisa. Mas esta cadeia de motores não pode continuar até o infinito – esta é uma suposição-chave – porque então não haveria agente motor primário e, portanto nenhum outro motor. Devemos chegar, portanto, a um Agente Motor, ou Motor Primo, segundo conclui Aquino, “e todos entendem que se trata de Deus”.

Este argumento baseado no movimento está longe de ser coerente para a nossa geração científica, porque entendemos que o movimento é natural e que o repouso é desnatural, conforme declara o princípio da inércia. Muitos filósofos insistem em que o movimento de uma série infinita de motores não é impossível nem contraditória, de modo algum.

A forma mais interessante – e persuasiva – do argumento cosmológico é a “terceira via” de Aquino, o argumento baseado na contingência. Sua força deriva da sua maneira de empregar tanto a permanência quanto a mudança. Epicuro declarou o problema metafísico há séculos: “obviamente algo existe agora, e algo nunca surgiu do nada”. A existência, portanto, deve ter sido sem início. Um Eterno Algo deve ser admitido por todos – teístas, ateus e agnósticos.

Mas o universo físico não poderia ser este Eterno Algo, porque ele é obviamente contingente, mutável, sujeito à decadência. Como uma entidade em decomposição poderia explicar-se a toda a eternidade? Se cada coisa/evento contingente presente depende de uma coisa/evento contingente anterior, e assim por diante ad infinitum, então isto não fornece nenhuma explicação adequada de coisa alguma.

Daí, para haver alguma coisa que seja até mesmo um pouco contingente no universo, deve haver pelo menos uma coisa que não seja contingente – algo que seja necessário no meio de todas as mudanças e estabelecido em si mesmo. Neste caso, “necessário” não se aplica a uma proposição, mas a uma coisa, e significa infinito, eterno, perpétuo, causado por si mesmo, auto existente.

Não basta dizer que o tempo infinito solucionará o problema da existência contingente. Não importa quanto tempo haja disponível, a existência dependente continua dependendo de alguma coisa. Tudo quanto estiver contingente dentro do alcance do infinito passará, num determinado momento, a não existir. Mas se houve um momento em que nada existia, logo, nada existiria agora.

A escolha é simples: ou escolhemos um Deus auto existente ou um universo auto existente – e o universo não se comporta como se fosse auto existente. Na verdade, de conformidade com a segunda lei da termodinâmica, o universo está parando como um relógio sem corda, ou melhor, está esfriando como um forno gigante. A energia está sendo constantemente difundida ou dissipada, ou seja, progressivamente distribuída por todo o universo. Se este processo continuar por mais alguns bilhões de anos – e os cientistas nunca observaram uma restauração da energia dissipada – logo, o resultado será um estado de equilíbrio térmico, uma “morte do calor”, uma degradação aleatória da energia por todo o cosmos e, daí, haverá a estagnação de toda a atividade física.

Os naturalistas, desde Lucrécio até Sagan, têm pensado que não precisamos postular Deus enquanto a natureza puder ser considerada uma entidade que se auto explica por toda a eternidade. Mas é difícil sustentar esta doutrina se a segunda lei for verdadeira e a entropia for irreversível. Se o cosmos está deixando de funcionar por falta de impulso, ou se está esfriando totalmente, logo, não pode ter estado eternamente deixando de funcionar ou esfriando. Deve ter tido um início.

Uma réplica popular ao argumento cosmológico é perguntar: “Se Deus criou o universo, quem, pois criou a Deus?” Se insistirmos em que o mundo teve uma causa, não devemos insistir também em que Deus teve uma causa? Não, porque se Deus é um ser necessário – fato este que é estabelecido se aceitarmos a prova – logo, é desnecessário perguntar sobre as Suas origens. Seria como perguntar: “Quem criou o Ser incriável?” ou “Quem causou o Ser incausável?”

Mais séria é a objeção de que a prova baseia-se numa aceitação não-crítica do “principio da razão suficiente”, a ideia de que cada evento/efeito tem uma causa. Se este princípio for negado, mesmo na metafísica, o argumento cosmológico perderá o seu impacto. Hume argumentou que a causação é um princípio psicológico, não metafísico, cujas origens se achavam na propensão humana de tomar por certa ligações necessárias entre eventos, enquanto tudo quanto realmente vemos é contiguidade e sucessão. Kant apoiou Hume ao Argumentar que a causalidade é uma categoria embutida em nossas mentes como uma das muitas maneiras pelas quais ordenamos a nossa experiência. Sartre achava que o universo era “infundado”. Bertrand Russell alegava que a questão das origens estava emaranhada em verbosidade sem sentido e que devemos restringir-nos a declarar que o universo “simplesmente existe, e com isso esgota-se o assunto.”

Não é com facilidade que se comprova o princípio da causalidade. É uma daquelas pressuposições fundamentais que se faz ao elaborar-se uma cosmovisão. No entanto, pode ser indicado que, se alijarmos a ideia da razão suficiente, destruiremos não somente a metafísica como também a ciência. Quando alguém ataca a causalidade, ataca boa parte do conhecimento em si, porque sem este princípio a conexão racional na maior parte da nossa aprendizagem se desfaz. Por certo, não é irracional pesquisar a causa do universo inteiro.

2. O Argumento Teleológico ou do desígnio

Esta é uma das provas teístas mais antigas, mais populares e mais inteligíveis. Sugere que há uma analogia específica entre a ordem e a regularidade do cosmos e algo produzido pela engenhosidade humana. Voltaire colocou o assunto em termos um pouco simplistas: “Se um relógio comprova a existência do relojoeiro, mas o universo não comprova a existência de um grande Arquiteto, então consinto em ser chamado de tolo”.

Ninguém pode negar que o universo parece ser resultado de desígnio[8]; exemplos da ordem proposital acham-se ao nosso redor. Em quase qualquer lugar, acham-se aspectos da existência que demonstram que o universo é basicamente amistoso à vida, à mente, à personalidade e aos valores. A própria vida é uma função cósmica, ou seja, uma disposição muito complexa de coisas tanto terrestres quanto extraterrestres deve entrar em ação antes de a vida poder subsistir. A Terra deve ter o tamanho exatamente certo, a sua rotação deve ser exatamente correta, sua distância do sol deve estar dentro de certos limites, sua inclinação deve ser correta para causar as estações, deve haver um equilíbrio muito delicado entre a terra seca e as águas. Nossa estrutura biológica é muito frágil. Com um pouco mais de calor ou de frio, morremos. Precisamos de luz, mas não da ultravioleta em demasia. Precisamos de calor, mas não da luz infravermelha em demasia. Vivemos exatamente embaixo de uma proteção atmosférica que todos os dias nos serve de escudo contra milhões de mísseis. Vivemos exatamente 16 km acima de uma blindagem e rochas que nos protege do calor terrível abaixo dos nossos pés. Quem criou todos estes anteparos e escudos que tornam possível a nossa existência terrestre?

Mais uma vez, há uma escolha que devemos enfrentar. Ou o universo foi projetado, ou desenvolveram-se por acaso todas estas características. O cosmos ou é um plano ou um acidente!

A maioria das pessoas tem uma repugnância inata à ideia do acaso, porque contradiz a maneira segundo a qual ordinariamente explicamos as coisas. O acaso não é uma explicação, mas a falta de explicação. Quando um cientista explica um evento imediato, ele age segundo a suposição de que este universo é regular, onde tudo ocorre como resultado da marcha ordeira de causa e efeito. Quando, porém, o naturalista chega à metafísica, à origem do universo inteiro, abandona o princípio da razão suficiente e toma por certo que a causa de tudo é uma inimaginável sem-causa, o acaso ou o destino.

Imagine que você está em pé olhando para um alvo, e vê uma flecha, atirada detrás de você, “acertar na mosca”. Depois, você vê mais nove flechas, atiradas em rápida sucessão, todas atingindo o mesmo ponto. A pontaria é tão exata que cada flecha racha a flecha anterior ao atingir o alvo. Ora, uma flecha atirada ao ar está sujeita a muitos processos contrários e discordantes – a gravidade, a pressão do ar e o vento. Quando dez flechas em seguida atingem exatamente o mesmo alvo, isto não exclui a possibilidade do mero acaso? Você não diria que isto foi o resultado de um exímio arquiteto? Esta parábola não forma uma analogia com o nosso universo?

Objeta-se que o argumento do desígnio, mesmo que fosse válido, não comprova a existência de um criador, mas somente de um arquiteto, e mesmo neste caso, apenas um arquiteto suficientemente inteligente para produzido universo conhecido, e não necessariamente um ser onisciente. Esta objeção é correta. Não devemos procurar mais do que a vidência permitida. Não teremos uma visão cem por cento completa do Javé da Bíblia através de qualquer evidência da teologia natural. Este nosso universo, no entanto, é tão vasto e maravilhoso que podemos concluir com segurança que seu projetista deve ser digno de nossa adoração e devoção.

Muitos objetam que a teoria da evolução remove boa parte do impacto do argumento do desígnio. O evolucionismo demonstra que o desígnio maravilhoso nos organismos vivos veio a existir mediante a adaptação lenta ao meio-ambiente, e não pela criação inteligente. Esta é uma alegação falsa. Mesmo se fosse admitida, a evolução simplesmente introduz um período mais longo de tempo na questão do desígnio. Comprovar que relógios vinham de uma fábrica completamente automatizada sem intervenção humana alguma não nos levaria a perder o interesse por um projetista, porque se pensamos que um relógio é maravilhoso, o que devemos pensar de uma fábrica que produz relógios? Isto não sugeriria com igual ênfase a existência de um projetista? As pessoas religiosas têm sido muito atemorizadas pela teoria da evolução.

Até mesmo os grandes críticos da teologia natural, como Hume e Kant, revelavam admiração pelo argumento teleológico. Hume atribuía a ele certa validez limitada. Kant foi mais além. “Esta prova sempre merecerá ser tratada com respeito. É a mais antiga, a mais clara, e a que mais está de conformidade com o raciocínio humano… Nada temos a dizer contra a racionalidade e a utilidade desta linha de argumento, mas desejamos, pelo contrário, recomendá-la e estimulá-la”.

3. O Argumento Moral

Esta é a mais recente das provas teístas. O primeiro filósofo de destaque que a usou foi Kant, que achava deficientes as provas tradicionais. Kant sustentava que a existência de Deus e a imortalidade da alma eram questões de fé, e não do raciocínio especulativo comum que, segundo declarava, está limitado à sensação.

Kant raciocinava que a lei moral nos ordenou a buscar o summum bonum (o sumo bem) tendo a perfeita felicidade como resultado lógico. Mas surge um problema quando contemplamos o fato desagradável de que “não há o mínimo fundamento na lei moral para uma conexão necessária entre a moralidade e a felicidade proporcional num ser que pertence ao mundo como parte dele”. Portanto, o único postulado da experiência moral do homem que fará sentido é “a existência de uma causa de toda a natureza, distinta da própria natureza”, isto é, um Deus que recompensará devidamente o esforço moral em outro mundo. Num universo sem Deus a experiência mais profunda do homem seria um enigma cruel.

Na sua obra Rumor of Angels (“Rumor dos Anjos”), Peter Berger oferece uma interessante versão negativa do argumento moral, denominada por ele “o argumento da perdição eterna”. Nossa condenação moral apodíctica de homens imorais como Adolf Eichmann parece transcender gostos pessoais e costumes sociais; parece exigir uma condenação de dimensões sobrenaturais. Alguns atos não são apenas maus, mas monstruosamente malignos; parecem estar imunes a qualquer tipo de relativismo moral. Ao pronunciarmos julgamentos morais de tão grande peso, como quando condenamos a escravidão e o genocídio, apontamos em direção a um âmbito transcendente de absolutos morais. De outra forma, toda a nossa moralização fica sem fundamento e razão de ser. Um “relativista pregador” é uma das mais cômicas autocontradições.

A maioria dos pensadores modernos que usa o argumento moral dá continuidade à tese de Kant de que Deus é um postulado necessário para explicar a experiência moral. Kant pensava que a lei moral poderia ser estabelecida pelo raciocínio, mas invocou a presença de Deus para garantir a recompensa da virtude. Os pensadores modernos não fazem tanto uso do conceito de Deus com vistas à recompensa, mas com o intuito de providenciar um fundamento para a lei moral em primeiro lugar.

O argumento moral começa com o simples fato de experiência ética. A pressão no sentido do cumprimento do dever pode ser sentida tão fortemente quanto a pressão de um objeto empírico. Quem ou o que está provocando esta pressão? Não basta dizer que a sociedade nos condiciona a sentir essas pressões. Alguns dos maiores moralistas da História adquiriram fama exatamente porque criticaram as falhas do seu grupo – tenha sido tribo, classe, raça ou nação. Se o subjetivismo social é a explicação da motivação moral, logo, não temos direito algum de criticar a escravidão, o genocídio ou coisa alguma!

Os evolucionistas atacam o argumento moral, insistindo que toda a moralidade é meramente um longo desenvolvimento a partir dos instintos animais. Os homens gradualmente elaboram seus sistemas éticos convivendo em comunidades sociais. Mas esta objeção é uma espada de dois gumes: se elimina a moralidade, também elimina o raciocínio e o método científico. O evolucionista acredita que o intelecto humano desenvolveu-se do cérebro físico dos primatas, mas toma por certo que o intelecto é fidedigno. Se a mente faz jus à confiança, embora tenha evoluído de formas inferiores, por que não a natureza moral também?

Muitas pessoas colocam-se numa posição intermediária e aceitam o objetivismo moral, mas querem parar no ponto do âmbito transcendental dos absolutos morais impessoais. Negam que seja necessário crer numa Pessoa, numa Mente ou num Legislador. Isto parece ser redutivo. É difícil imaginar uma “mente impessoal”. Como uma coisa poderia nos fazer sentir obrigados pelo dever a sermos bondosos, úteis, verazes e amorosos? Devemos prosseguir firmemente até chegar a uma Pessoa, a Deus, ao Legislador. Somente aí a experiência moral é adequadamente explicada.

Até que ponto todas estas provas teístas são válidas? O que diz o apóstolo Paulo?

Esta pergunta levanta questões em vários campos: lógica, metafísica, física e teoria do conhecimento. Citamos alguns pensadores acima como Aquino, Hume, Pascal e Kant. Mas fico apenas com o argumento do apóstolo Paulo, parte do qual usamos para encabeçar este artigo. Ele parece exigir um alto conceito das provas teístas quando diz que os descrentes são ‘indesculpáveis’. “Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles [nos homens] se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis” (Rm 1.19-20).

Ampliando um pouco mais este argumento, até o verso 32, o apóstolo Paulo trata da justiça dos gentios – povos não-judeus –, e neste texto, destacam Thomson e Davidson:

Paulo traça um retrato vivido da injustiça do mundo gentílico, descrevendo a religião pagã (impiedade) e a moralidade pagã (injustiça). Sobre uma e outra a ira de Deus se revela (18), de igual modo como se revela Sua justiça… Os gentios tornaram-se nulos em seus próprios raciocínios (21); isto é, fúteis em suas filosofias… Essa jactanciosa teorização levava à idolatria, visto como, obscurecendo ou detendo a verdade (18), fazia-os afastar-se de Deus e a excogitar ignóbeis substitutos dEle (23). Eles deviam compreender melhor! Deviam conhecer o que era cognoscível. Deus Se lhes revelara. Sua mão oculta, desde o princípio, podia ser bem discernida. Deus sempre deu testemunho de Si, tanto pela natureza como pela consciência. Não havia desculpas para a ignorância deles. Embora seja paradoxal falar em ver o invisível, as coisas invisíveis de Deus, o seu próprio poder e divindade, ‘Deus em ação e na Sua essência’, nunca estiveram escondidas do homem (20). E assim Paulo condena as filosofias gentílicas por alienarem de Deus os homens, Deus que é a verdade, e por conduzirem ao culto vão dos ídolos… (G. T. THOMSON e F. DAVIDSON (In. SHEDD: 1983, p. 1156).

Paulo não estava necessariamente afirmando que os argumentos são dedutíveis, analíticos ou demonstrativos. Se alguém rejeitasse uma proposição de alta probabilidade, ainda poderíamos dizer que ele não tinha desculpa. Os argumentos, em seu efeito cumulativo, oferecem uma defesa muito forte da existência de Deus, mas não são logicamente inexoráveis nem racionalmente inevitáveis. Se definirmos a prova como ocorrência provável baseada nas experiências empiricamente produzidas e sujeitas ao teste do julgamento razoável poderemos, pois, dizer que os argumentos comprovam a existência de Deus.

Se Deus realmente existe, estamos lidando com uma proposição fatual, e o que realmente queremos, ao pedirmos a prova de uma proposição fatual, não é uma demonstração da sua impossibilidade lógica, mas, sim, um grau de evidência que exclua a dúvida razoável. Algo pode ser tão provável que exclui a dúvida razoável sem ser dedutiva, analítica, demonstrativa ou logicamente inevitável. Achamos que as provas teístas – excluindo o argumento ontológico – encaixam-se nesta categoria.

A teologia natural, no entanto, nunca poderá estabelecer a existência do Deus bíblico. Estas provas podem fazer da pessoa um deísta, mas somente a revolução fará da pessoa um cristão. A razão que opera sem a revelação sempre acaba indicando uma divindade diferente de Javé, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Podemos facilmente confirmar este fato ao compararmos Javé om as divindades de Aristóteles, Spinoza, Voltaire e Thomas Paine.

Portanto, a verdadeira crença no verdadeiro Deus é aquela que é o resultado da revelação geral ou manifestação deste Deus a todas as pessoas de todos os tempos e lugares, mediante a qual elas vêm a saber que este verdadeiro Deus existe e como é, mas este é assunto para um próximo artigo ou post.

Referências bibliográficas:

  • ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª Ed.).
  • SHEDD, Dr. Russell P. (Editor). O Novo Comentário da Bíblia, Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1983.

Notas:

  • [1]Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou…”. Neles, isto é os gentios, isto é, os povos não-judeus. Veja mais no comentário de G. T. THOMSON e F. DAVIDSON (In. SHEDD: 1983), no final deste artigo.
  • [2]  Imagem disponível em: <http://ourview.com.br/index.php/tag/criador-do-mundo/>. Acesso em: 08/04/2019.
  • [3] A. J. HOOVER é Doutor (Ph.D.), pela Universidade do Texas, Professor de História, Universidade Cristã de Abilene, Abilene, Texas, EUA, e um dos colaboradores da Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã (q.v.), editada por Walter A. ELWELL.
  • [4] Adaptação de parte do texto “Argumentos em prol da existência de Deus”, de A. J. Hoover (Nota 1), pp. 421 a 427.
  • [5] PLATÃO. Leis, Livro X.
  • [6] ARISTÓTELES. Metafisica, Livro VIII.
  • [7] Em sua obra, “A Suma Teologica” Tomás de Aquino que foi um grande estudioso dos escritos de Aristóteles buscou provar a existência de Deus por meio da razão.
  • [8] O argumento do desígnio, também destacado por Myer PERLMAN (veja AQUI) é usado pelos teístas para defender a existência de Deus, pois está relacionado com o modo regular, ordenado e complexo como o universo está organizado. Estes fatores revelam o desígnio de um ser divino e criador, cujos sinais são: todos aqueles objetos naturais que se assemelham a máquinas feitas pelo homem; o modo como as partes na natureza se juntam e se combinam entre si; e a adaptação dos meios aos fins. Destes sinais do desígnio, estabelecendo uma analogia entre os desígnios e as obras humanas e os desígnios e obras divinas, os teístas inferem a existência de um autor divino – Deus –, cuja inteligência e planejamento sejam de algum modo análogos às dos humanos.

 

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Deus…, por Myer Pearlman

PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1978 (7ª ed.), pp. 29 a 81.

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Nossa intenção era usar o livro de PEARLMAN como uma das referências bibliográficas deste artigo. Mas dado a profundidade de como o autor trata o assunto “DEUS” achei por bem – até para não enfraquecer os argumentos do autor – apenas adaptar os seus escritos à nova ortografia e manter todo o seu conteúdo, gravado em PDF (link no final).

Esboço

I – A EXISTÊNCIA DE DEUS

1. Sua existência declarada:
2. Sua existência provada:
   a) O argumento da criação.
   b) O argumento do desígnio.
   c) O argumento da natureza do homem.
   d) O argumento da história.
   e) O argumento da crença universal.
3. Sua existência negada: 

II – A NATUREZA DE DEUS

1. Conceito bíblico (os nomes de Deus):
   a) Elohim. 
   b) Jeová.
   c) El.
   d) Adonai.
   e) Pai.
2. Crenças errôneas:
   a) Agnosticismo.
   b) Politeísmo.
   c) Panteísmo.
   d) Materialismo.
   e) Deísmo.

III – OS ATRIBUTOS DE DEUS

1. Atributos não relacionados (a natureza íntima de Deus):
   a) Espiritualidade.
   b) Infinitude.
   c) Unidade.
2. Atributos ativos (Deus e o universo:
   a) Onipotência.
   b) Onipresença.
   c) Onisciência.
   d) Sabedoria.
   e) Soberania.
3. Atributos morais (Deus e as criaturas morais):
   a) Santidade.
   b) Justiça.
   c) Fidelidade.
   d) Misericórdia.
   e) Amor.
   f) Bondade.

IV – O TRINO DEUS

1. A doutrina declarada:
2. A doutrina definida:
3. A doutrina provada:
   a) O Antigo Testamento.
   b) O Novo Testamento.
4. A doutrina ilustrada:

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As Escrituras (2): formação do cânon e outras considerações

No capítulo (post) anterior, vimos informações mais internas sobre a Bíblia, isto é, aquilo que ela fala de si mesmo, destacando sua revelação, inspiração, inerrância e infalibilidade. Neste, dando prosseguimento à nossa série de estudos sobre Doutrinas Bíblicas, GOTEJANDO OS DITOS DO SENHOR, queremos refletir sobre como a Bíblia veio a surgir como tal, transformando no cânon cristão, suas divisões internas – intertestamentárias – e alguns enfoques sobre os livros apócrifos ou deuterocanônicos.

1. O Cânon do Antigo Testamento

“Pelo que, esta geração será considerada responsável pelo sangue de todos os profetas, derramado desde o princípio do mundo: desde o sangue de Abel até o sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar e o santuário. Sim, eu lhes digo, esta geração será considerada responsável por tudo isso” (Lc 11.50-51)

O termo “cânon” deriva do grego kanõn, que designava uma medida de carpinteiro (talvez derivado do hebraico qãneh, que se refere a uma vara de medir, de seis côvados de comprimento), e tem sido usada para identificar aqueles livros considerados espiritualmente superlativos, em comparação com os quais os outros eram medidos e achados de valor secundário no uso geral da igreja. Para os cristãos primitivos e para (posso afirmar) o protestantismo reformado e conservador, esta “vara de medir” refere-se a um grupo de livros reconhecidos como regra de fé e prática.

Durante mais de mil anos de história dos judeus, eles praticavam sua religião, sem ver a necessidade de um cânon padrão. Com o tempo, porém, acreditamos que por providência divina, eles foram se preocupando com o assunto. E durante o período Inter bíblico ou intertestamentário[1], surgiram diversos livros, considerados apócrifos ou pseudoepígrafos que se juntaram aos demais considerados canônicos ou sagrados. Uma tradução dos livros judaicos para o grego feita nesta época é a Septuaginta ou versão dos Setenta (LXX), ocorrida possivelmente, durante o reinado de Ptolomeu Filadelfo (285-245 a.C.), para a sua biblioteca em Alexandria, no Egito.  Esta versão recebeu este nome por causa da quantidade de tradutores, um tanto inexata, que era de setenta e dois anciãos, e foi feita também para atender a conveniência de alguns judeus de fala grega, que por causa da influência do helenismo[2] desconheciam sua própria língua.

Precisamos considerar que a versão dos LXX, embora tenha sido popularizada com a expansão do helenismo e da língua grega, seus tradutores não se limitaram a traduzir apenas os livros conside­rados canônicos pelos judeus. Eles traduziram os demais livros judaicos disponíveis. O trabalho dos massoretas[3] (transmissores), substitutos dos antigos escribas (os Sopherim), foi importante para fazer a seleção dos livros, considerados canônicos dos demais, além de trabalhar para a vocalização e acentuação dos textos. Assim, um Texto Massorético (TM) veio a ser o texto padrão (Tenah) utilizado como cânon, por volta do 1º século a.C., contendo 22 livros, e utilizado nos tempos de Jesus. Archer Jr.[4], fala desta uma divisão do cânon hebraico de edição massorética, da seguinte forma:

  • Os livros da Lei (Pentateuco) ou Torá: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio – 5 livros.
  • Os Profetas(Neviim):
  • Anteriores: Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis – 6 livros.
  • Posteriores – Maiores (Isaías, Jeremias, Ezequiel) e os doze Profetas Menores – 15 livros.
  • Os Escritos(Kêtuvim):
  • Poesia e Sabedoria: Salmos, Provérbios e Jó, os Rolos ou Megilloth (lidos no ano litúrgico) que são Cantares, Rute, Lamentações, Eclesiastes e Ester – 8 livros.
  • Históricos: Daniel, Esdras, Neemias e 1 e 2 Crônicas – 5 livros.

Fiz questão de somar a quantidade de cada divisão interna do texto acima, totalizando 39 livros, pois esta corresponde ao atual Antigo Testamento (Veja as divisões abaixo) da Bíblia utilizada pela maioria dos protestantes, embora a ordem seja diferente. Daniel, por exemplo, está, em nossa Bíblia, entre os Profetas Maiores, enquanto para os judeus, ele está entre os históricos. Há ainda outras considerações, mas apenas para nota, nosso último livro do Antigo Testamento é o do profeta menor, chamado Malaquias, enquanto o do atual cânon judaico é 2Crônicas. Na verdade, “… a Bíblia protestante atual em nossa língua segue a ordem da Vulgata Latina [da qual falaremos mais à frente] e o conteúdo da Bíblia Hebraica” (J.R. MICRAY. In: ELWELL: 1990, Vol. I, p. 178). (Veja o vídeo de Yago Martins no final, quando ele cita Josefo fazendo referência aos 22 livros divinos dos judeus “considerados divinos”).

Destaco também aqui o texto de Lucas Banzoli[5], no qual ele faz referência às palavras de Jesus, que mencionei como cabeçalho deste capítulo: “Pelo que, esta geração será considerada responsável pelo sangue de todos os profetas, derramado desde o princípio do mundo: desde o sangue de Abel até o sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar e o santuário. Sim, eu lhes digo, esta geração será considerada responsável por tudo isso” (Lc 11.50-51). Banzoli considera este período citado por Jesus, os dois extremos entre Abel (primeiro mártir da história humana) até Zacarias, o último mártir (não o último livro, pois em nossa Bíblia, o último livro é Malaquias e na Bíblia Hebraica, o último é 2Crônicas, como já vimos) do Antigo Testamento, como sendo o cânon que Jesus aprovou em seus dias. Nesse caso, especifica Banzoli, Jesus estava mostrando uma continuidade temporal, de Abel até Zacarias ou de A à Z, como começo e final, respectivamente, do cânon de seu povo, os judeus. “Uma vez que este Zacarias foi o último profeta canônico que sofreu martírio, a sentença ‘de Abel até Zacarias’ faz todo o sentido, pois compreende todo o período de revelação do Antigo Testamento considerando a história dos mártires, a qual começa em Abel e termina em Zacarias.(BANZOLI).

Desta forma, o Texto Massorético (TM) da Septuaginta (ou de Abel a Zacarias), ou seja, o texto tradicional do povo judeu, sem a inserção de outros livros, considerados apócrifos, era o cânon utilizado por Jesus e seus apóstolos, e foi também dos cristãos primitivos e corresponde ao Antigo Testamento da Bíblia Protestante.

2. O cânon do Novo Testamento

“Para ele [Atanásio], como para Clemente, a regra da fé e o conteúdo da Escritura eram idênticos. A tradição, segundo Atanásio, só tem autoridade quando está de acordo com a Escritura. Como ele faz ver claramente em sua carta pascoal de 367, o cânone neotestamentário é definitivo”.[6]

Em relação ao Novo Testamento, este é parte exclusiva da Bíblia cristã, não utilizada pelos judeus não cristãos, por razões óbvias, como o fato de eles não aceitarem a pessoa de Jesus como o Cristo ou Messias. E foi, ademais, o resultado de muita discussão para as escolhas dos livros que comporiam esta parte das Escrituras, no decorrer do segundo século, após a morte de todos os apóstolos. Em meados do século II, os mestres cristãos decidiram incluir no cânon neotestamentário os quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), chamados por Eusébio (3, XXV), de “a santa tétrade dos Evangelhos”, dentre muitos outros, como os Evangelhos de Tomé, Pedro e Matias, por exemplo. Depois, juntaram-se aos Evangelhos, o livro de Atos e as epístolas paulinas. Estas foram as primeiras a conseguir aceitação geral. “Outros livros, tais como o Apocalipse, a Terceira Epístola de João, e a Epístola de Judas, demoraram mais tempo em ser universalmente aceitos.” (GONZÁLEZ: 1995a, p. 102).

Mas não havia ainda um cânon padrão para o Novo Testamento. Este trabalho tornou-se necessário, principalmente depois do surgimento de heresias como resultado de um sincretismo religioso que veio a preocupar os pais da igreja[7] que buscaram uma doutrina única para servir de base escrita e fidedigna para a fé cristã.

A escolha dos atuais 27 livros “genuínos” ou “canônicos”, bem como seu veredicto como parte do cânon, não foi obra apenas dos homens piedosos cristãos daquela época, mas foi direcionada pelo Espírito Santo. Já pelos fins do século II, estes livros já estavam definidos, mas as discussões acerca de sua canonicidade continuaram. “Essas discussões, sem dar-se por encerradas definitivamente, foram concluídas, a grosso modo [negrito no original], no Oriente (com exceção da Síria) e no Ocidente, pelo fim do século IV. As duas decisivas datas são, para o Oriente, a 39ª carta pascal de Atanásio, em 367, e para o Ocidente, o Sínodo de Roma de 382, e os Concílios africanos de Hipona (393) e de Cartago (367)” (CULLMAN: 1984, p. 117).

Portanto, no Concílio de Cartago (367) ficou definida a lista dos 27 livros que adotamos atualmente, e compõem o cânon do Novo Testamento que é aceito pelos três principais segmentos do Cristianismo: Igreja Católica, Igreja Ortodoxa Grega e pelos protestantes. Mas a decisão indiscutível para se usar este cânon com o nome de Escrituras divinas a serem lidas nas igrejas, ocorreu em 397, no outro Concílio de Cartago.

3. Divisões da Bíblia e outras considerações

“A união do Novo Testamento ao Antigo Testamento em uma mesma ‘Bíblia” significa por uma parte que se realizou, realiza-se e se realizará um plano divino sobre uma linha histórica particular, escolhida por Deus e que se desenrola, desde as origens até o fim, dentro da história geral” (CULMANN: 1984, p. 120).

Queremos destacar aqui as divisões do Antigo e Novo Testamentos e fazer algumas observações sobre os apócrifos constantes na Bíblia utilizada pela Igreja Católica.

a) Divisões do Antigo Testamento[8]:

Depois de vermos que a Bíblia Hebraica possui 22 livros e que os mesmos correspondem ao Antigo Testamento da Bíblia utilizada pelos cristãos protestantes, num total de 39 livros, vejamos como se dá em geral sua divisão:

  • Lei ou Pentateuco: Gênesis (Gn); Êxodo (Ex) Levítico (Lv); Números (Nm) e Deuteronômio (Dt) – 5 livros.
  • Históricos; Josué (Js); Juízes (Jz); Rute (Rt); 1 e 2 Samuel (1Sm, 2Sm); 1 e 2 Reis (1Re, 2Re); 1 e 2 Crônicas (1Cr, 2Cr); Esdras (Ed), Neemias (Ne) e Ester (Et) – 12 livros.
  • Poéticos e Sapienciais: Jó (Jó); Salmos (Sl); Provérbios (Pv); Eclesiastes (Ec); Cantares de Salomão (Ct) e Lamentações de Jeremias[9] (Lm) – 6 livros.
  • Proféticos:
  • Profetas Maiores[10]: Isaías (Is); Jeremias (Jr); Ezequiel (Ez) e Daniel (Dn) – 4 livros.
  • Profetas menores: Oseias (Os); Joel (Jl); Amós (Am); Obadias (Ob); Jonas (Jn); Miqueias (Mq); Naum (Na); Habacuque (Hc); Sofonias (Sf); Ageu (Ag); Zacarias (Zc) e Malaquias (Ml) – 12 livros.

b) Divisões do Novo Testamento:

As divisões dos 27 livros do Novo Testamento podem ser (sugestão minha) da seguinte ordem:

  • Evangelhos: Mateus (Mt); Marcos (Mc); Lucas (Lc) e João (Jo) – 4 livros.
  • Histórico: Atos dos Apóstolos (At) – 1 livro apenas.
  • Epístolas ou Cartas:
  • => Paulinas: Romanos (Rm); 1 e 2 Coríntios (1Co, 2Co); Gálatas (Gl); Efésios (Ef); Filipenses (Fp); Colossenses (Cl); 1 e 2 Tessalonicenses (1Ts, 2Ts); 1 e 2 Timóteo (1Tm, 2Tm); Tito (Tt); Filemon (Fm) – 13 livros (epístolas).
  • => Gerais: Hebreus (Hb); Tiago (Tg); 1 e 2 Pedro (1Pe, 2Pe); 1, 2 e 3 João (1Jo, 2Jo, 3Jo) e Judas (Jd) – 8 livros (epístolas).
  • Profético: Apocalipse (Ap) – 1 livro apenas.

c) Apócrifos ou deuterocanônicos e a Vulgata

Já vimos acima que durante o Período Inter bíblico surgiram diversos livros e textos que não foram incluídos na Bíblia Hebraica. São os chamados apócrifos (gr. Apokrypha = “coisas ocultas” ou “escritos fora do cânon”). Estamos nos referindo, obviamente, ao Antigo Testamento da Bíblia protestante. “Cerca de treze livros perfazem os apócrifos: 3 e 4 Esdras, Tobias, Judite, o Restante de Ester, a Sabedoria de Salomão, Eclesiástico (que também é chamado a Sabedoria de Jesus, Filho de Siraque), Baruque, a Carta de Jeremias, os Acréscimos a Daniel, a Oração de Manassés e  1 e 2 Macabeus” (D. H. WALLACE. In.: ELWELL: 1990. Vol. I, p. 96).

No final do século IV e início do século V, Jerônimo (347-419) fez uma tradução da Bíblia Hebraica para o latim, que ficou conhecida como Vulgata (divulgada ou popular). Na sua Bíblia, Jerônimo conserva parte dos livros dos apócrifos citados acima, Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico (ou Sabedoria de Jesus bem Sirach), Baruque, 1 e 2 Macabeus (7 livros), além de acréscimos nos livros Ester e Daniel. Mas é importante destacar que Jerônimo faz questão de escrever diversas notas sobre estes livros e acréscimos. Só para citar um exemplo, depois de Ester 10.3[11], há uma destas notas que diz: “Traduzi com toda a fidelidade o que se acha no texto hebraico. As passagens que seguem [Ester 10.4 a seguir], encontrei-as apenas na edição ‘vulgata’ (isto é, ‘divulgada’) em língua e caracteres gregos e as coloquei aqui no fim do livro, marcados – como é nosso costume – com o óbelo, quero dizer, o sinal distintivo à margem”. Segundo os editores da referida Bíblia, “… a edição ‘vulgata’ de que fala São Jerônimo, é a antiga versão itálica, usual naquele tempo”. Jerônimo considera estes livros acrescidos em posição secundária aos demais. E ao que parece esta atitude foi uma recomendação de Agostinho de Hipona, com o qual Jerônimo teve várias divergências. GONZÁLEZ (1995b, pp. 160-161) afirma sobre uma carta de Agostinho destinada a Jerônimo sugerindo ele acrescentar “… notas que mostrem claramente em que pontos tua versão [a Vulgata de Jerônimo] difere da Septuaginta, cuja autoridade é inegável… Além disso não vejo como, depois de tanto tempo, alguém possa descobrir nos manuscritos hebraicos alguma coisa que tantos tradutores e bons conhecedores da língua hebraica não tenham visto antes”.

Bem, no Concílio de Trento, no século XVI, a Igreja Católica oficializou esta versão da Bíblia de Jerônimo, diferentemente do ramo protestante. E estes livros e acréscimos passaram a ser chamados pelos católicos de “deuterocanônicos.”, isto é, uma espécie de segundo cânon ao lado dos demais livros, enquanto os protestantes os colocam no mesmo nível dos demais apócrifos.

Considerações finais:

Vimos como os judeus viveram por muito tempo sem um texto padrão que lhes servissem como um cânon. Mas com o tempo, houve a necessidade deste trabalho o que foi possível até por volta do século I a.C. aproximadamente. E como os cristãos são, na sua origem, uma comunidade que de certa maneira deu continuidade ao trabalho dos judeus em um novo momento – Nova Aliança –, o cânon dos judeus passou a ser também o cânon dos cristãos.

Ao texto judaico, Antigo Testamento foi acrescentado outro, pelos cristãos, que veio a ser chamado Novo Testamento, que também contou com providência divina na história de sua formação e formatação. Bom seria destacar aqui ainda, como a Bíblia Sagrada em seu todo foi dividida em capítulos e versículos e como chegou até nós o primeiro volume em Português, mas estes são assuntos que poderão ocupar outro ou outros capítulos…

Sugiro, para finalizar, o acompanhamento de todo o processo de formação do cânon, em vídeo de Yago Martins a seguir:

Referências bibliográficas:

  • ARCHER Jr., Gleason L. Merece confiança o Antigo Testamento? São Paulo: Vida Nova, 3ª edição, 1984.
  • BANZOLI, Lucas. “De Abel até Zacarias”: O cânon bíblico de Jesus. Disponível em: <http://www.lucasbanzoli.com/2018/07/de-abel-ate-zacarias-o-canon-biblico-de.html>. Acesso em: 21/03/2019.
  • CESAREIA, Eusébio de. História Eclesiástica: os primeiros quatro séculos da Igreja Cristã. Rio de Janeiro, 1999.
  • CULLMAN, Oscar. A formação do Novo Testamento. São Leopoldo (RS). Sinodal, 1984.
  • DOUGLAS, J. D. (Editor Organizador). O Novo Dicionário da Bíblia, Volumes I, II e III. São Paulo: Vida Nova, 1979.
  • ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. I, II e III. São Paulo: Vida Nova, 1990.
  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo, Vol. 1 – A era dos mártires. São Paulo: Vida Nova, 1995a.
  • _________, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo, Vol. 2 – A era dos gigantes. São Paulo: Vida Nova, 1995b.
  • HÄGGLUND, Bengt. História da Teologia. Porto Alegre: Concórdia: 2003.

Notas:

  • [1] Inter bíblico é o nome que se dá ao período que vai de Malaquias, último profeta do Antigo Testamento (segundo nossas versões) até João Batista, no Novo Testamento. Foi um período de aproximadamente 400 anos, em que os judeus eram dominados primeiramente pelos persas e depois pelos romanos e sob influência da filosofia e língua gregas.
  • [2] O Helenismo foi a junção da cultura grega com outras do mundo oriental (mesopotâmica, egípcia, persas…), propagada por Alexandre, o Grande, portanto, durante o período Inter bíblico, e que influenciou muito o povo judeu e todo o mundo romano, ao mesmo tempo em que foi útil para a propagação do cristianismo.
  • [3]Os massoretas eram os estudiosos que deram ao texto do Antigo Testamento sua forma final, entre 500 e 950 d.C. Receberam este nome porque conservaram por escrito a tradição oral (ou ‘massora’) no que diz respeito a vocalização e acentuação certa do texto, e o número de ocorrências de palavras raras e ortografias pouco comuns. Receberam o texto consoantal [sic] sem vocalização, da parte dos Sopherim, e intercalaram os pontos vocálicos que deram a cada palavra sua pronúncia e forma gramatical exatas” (ARCHER Jr. Op. Cit., p. 65).
  • [4] ARCHER: 1984, pp. 70-71.
  • [5] BANZOLI, Lucas. “De Abel até Zacarias”: O cânon bíblico de Jesus. Disponível em: <http://www.lucasbanzoli.com/2018/07/de-abel-ate-zacarias-o-canon-biblico-de.html>. Banzoli destaca as divergências entre os teólogos em relação ao Zacarias mencionado nas palavras de Jesus, mas ele defende que o referido Zacarias era o filho de Baraquias, conforme Mateus 23.35. Embora na ordem dos livros este Zacarias foi o autor do penúltimo livro, conforme costa em nossa Bíblia, mas ele foi o último mártir, para efeito de consideração do cânon do Antigo Testamento. O Novo Dicionário da Bíblia (Vide Bibliografia) comenta, sobre o que alguns pensam, que nesta passagem bíblica “… o Senhor Jesus se referia ao martírio de Zacarias, filho de Joiada, em 2Cr 20-22, e que o equívoco a respeito do nome do pai de Zacarias seria ou devido a erro do evangelista [Mateus], ou então, visto que não ocorre nos melhores manuscritos do Evangelho de Lucas, que as palavras ‘filho de Baraquias’ seriam uma adição do copista. Visto que o livro das Crônicas é o último livro da Bíblia hebraica, o aparecimento dos nomes de Abel e Zacarias, nesse versículo do Novo Testamento, seria o equivalente à nossa frase ‘de Gênesis ao Apocalipse’. Mas pode ser, como afirma Banzoli: de “A” (de Abel), a “Z” (de Zacarias).
  • [6] In: HÄGGLUND (Op. Cit., p. 67).
  • [7]Quando falamos nos Pais Apostólicos [ou Pais da Igreja], geralmente nos referimos a alguns autores cristãos do fim do primeiro século e do início do segundo, cujos escritos chegaram até nós. Estes escritos – em sua grande maioria de natureza incidental (cartas, homilias) – são de valor para nós porque, ao lado do Novo Testamento, são as fontes mais antigas que possuímos como testemunho da fé cristã” (HÄGGLUND: 2003, p. 13).
  • [8] A presente divisão é adaptada da Bíblia Sagrada com referências e anotações de Dr. C. I. Scofield, edição de 1987. Além das divisões com os nomes dos livros, achei importante descrever também a forma de abreviações normalmente aceitas e a quantidade de livros de cada divisão.
  • [9] Scofield coloca Lamentações entre os profetas. Achei melhor, como aprendi em alguma ocasião, coloca-lo entre os poéticos, embora seja de autoria de um profeta: Jeremias.
  • [10] Aqui também o Dr. Scofield utilizou uma contagem diferente: ele não separa profetas maiores de menores, e sim todos juntos: profecias.
  • [11] Bíblia Sagrada (Centro Católico), 25ªedição.  São Paulo, Ed Ave Maria, 1978.

 

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As Escrituras (1): a verdade revelada e inspirada por Deus

“Buscai no livro do Senhor, e lede; nenhuma destas coisas faltará…” (Is 34.16).

“Toda a Escritura divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça” (2Tm 3.16).

 

“Temos visível evidência que a Bíblia é uma revelação de Deus. E nos é dito na Bíblia que Deus deu a revelação por inspiração. Se a Bíblia é a revelação de Deus, justo é deixá-la falar por si mesma sobre a sua própria natureza.[1]

 

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Ouça, após a leitura, “Bíblia Sagrada”, com Luiz de Carvalho:

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Com este artigo (post), estou iniciando uma série de breves estudos sobre doutrinas bíblicas, do ponto de vista, obviamente, de um protestantismo conservador, num plano chamado GOTEJANDO OS DITOS DO SENHOR, baseado em Deuteronômio 32.2, onde lemos: “Goteje a minha doutrina como a chuva, destile o meu dito como o orvalho, como chuvisco sobre a erva e como gotas de água sobre a relva”. Uma das doutrinas que queremos destacar é acerca das Escrituras, e faremos isto em dois capítulos, neste, a partir de interpretações de textos que as próprias Escrituras falam de si mesmas, em relação, principalmente, ao Antigo Testamento, e outra, com destaque à formação histórica e composição do cânon utilizado pelos cristãos.

Atribuímos o significado às Escrituras (do grego, graphai) ou Escrituras Sagradas, o mesmo que é aplicado à palavra “bíblia” (livros), plural do termo grego biblion, “rolo” ou “livro”, que originalmente veio de papiro, uma planta aquática, cuja casca interna era secada para se tornar uma matéria e escrita de uso generalizado no mundo antigo. Mas ao mesmo tempo, tornou-se o Livro por excelência, o registro reconhecido da revelação divina em uma coleção de textos (livros) considerados pelos judeus e cristãos como divinamente inspirados.

  1. As Escrituras: revelação de Deus ao homem

“Que é a verdade?”, perguntou Pilatos a Jesus (Jo 18.38). Há possibilidade de se buscar esta virtude? Se não houvesse um meio de chegar ao conhecimento de Deus, do homem e do mundo, Pilatos então teria razão. Mas há, e está em forma de livro, as Sagradas Escrituras, que é a verdade revelada de Deus ao homem. Ela é a revelação escrita do único Deus verdadeiro, visando a salvação do homem, e que demonstra sua autoridade divina por meio de muitas provas infalíveis. “O mundo pela sabedoria (filosofia) não conheceu a Deus” (1Co 1.21). As verdades que informam o homem como passar da terra para o céu devem ser enviadas do céu à terra. Em outras palavras, o homem precisa de uma revelação. Há outra revelação que o homem pode alcançá-la por meio da razão, que é a natureza. Mas é a Palavra de Deus, a única capaz de “… penetrar até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração” (Hb 4.12). Como disse Kant, um dos maiores pensadores de todos os tempos, acerca dos cristãos: “fazem bem em basear a sua paz e piedade nos Evangelhos porque somente neles está a fonte das verdades profundas e espirituais, depois de a razão haver explorado em vão todas as possibilidades.”

Para que a revelação de Deus passasse de pai para filho e se perpetuasse de geração para geração, precisaria estar escrita, em forma de livro. E “… tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança” (Rm 15.4). A memória e a tradição podem falhar, por isso, acreditamos, Deus agiu com a máxima sabedoria e também dum modo normal dando ao homem a sua revelação. O Deus dos hebreus é a autoridade máxima a ser evocada quando se trata de sua Palavra. É nEle que se contempla toda a autoridade em última análise. E não somente sua autoridade, mas Ele próprio tornou-se conhecido na sua auto revelação escrita, a Bíblia Sagrada, que se tornou uma coletânea autorizada da sua revelação, em forma de livro, para servir de regra de fé e prática ao seu povo.

  1. A inspiração das Escrituras

Os registros históricos acerca do povo de Israel, dos milagres e ensinamentos de Jesus, do testemunho dos primeiros cristãos e, consequentemente, da história do Cristianismo demonstram a inspiração da Bíblia e seus efeitos benéficos sobre os que aceitam e vivem seus ensinamentos. Ela é “divinamente inspirada” (2Tm 3.16), literalmente, dada pelo sopro de Deus, para que o “homem de Deus”, “… seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda boa obra” (2Tm 3.17). O apóstolo Pedro afirma também que “… a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2Pe 1.21).

A inspiração pode ser definida como “a influência sobrenatural do Espírito de Deus sobre a mente humana, pela qual os profetas, apóstolos e escritores sacros foram habilitados para exporem a verdade divina sem nenhuma mistura de erro” (In: PEARLMAN: 1977, p. 21). E também como “… o poder inexplicável que o Espírito Divino exerce sobre os autores das Escrituras, em guiá-los até mesmo no emprego correto das palavras e em preservá-los de todo erro, bem como de qualquer omissão” (Idem, p. 21).

A palavra Escritura, como aparece em 2Timóteo 3.16 e em outros textos, refere-se ao Antigo Testamento e é entendida como a Palavra de Deus. É como se o próprio Deus houvesse falado cada palavra[2] do livro, tornando-se o resultado da divina inspiração espiritual. Podemos dizer que a declaração de Pedro (2Pe 1.21) revela que o Espírito Santo estava presente duma maneira especial e milagrosa sobre os escritores das Escrituras, revelando-lhes as verdades que antes não conheciam e guiando-os também no registro dessas verdades e dos acontecimentos, dos quais eram testemunhas oculares, de maneira que as pudessem apresentar com exatidão substancial ao conhecimento de outrem.

A inspiração, ao invés de ser tratada como um assunto bastante complexo, conforme tem sido discutido nos vários credos cristãos através da história, como um assunto cheio de enigmas teológicos e tumultuado por definições obscuras etc., na verdade, ela pode ser entendida de forma bastante simples, a partir de reflexões de textos como os expostos acima. Mas com o passar dos tempos, a igreja teve de enfrentar doutrinas e opiniões erradas e defeituosas, por isso, doutores cristãos tiveram que definir e detalhar a doutrina da inspiração, tornando-a bastante complexa. Mas em resumo a inspiração das Escrituras pode ser definida como[3]:

  • Divina e não apenas humana – Diferentemente do que se diz acerca de grandes sábios, como Platão, Sócrates, Aristóteles, Browning, Shakespeare e outros gênios do mundo literário, filosófico e religioso, que eram especiais, mas humanos, a inspiração da Bíblia tem um caráter absoluto e sobrenatural que demonstram o elemento divino e espiritual em sua mensagem.
  • Única e não comum – Alguns confundem a inspiração com o esclarecimento e mantêm a opinião de que esse esclarecimento espiritual seja a explicação adequada sobre a origem da Bíblia. Mas este esclarecimento não é o mesmo que inspiração. Conforme depreendemos, por exemplo, de 1Pedro 1.10-12 (“Da qual salvação [em Cristo e por Ele] inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar”). Por este texto, entendemos que os profetas recebiam verdades por inspiração e lhes era negado esclarecimento necessário à sua compreensão dessas mesmas verdades. O Espírito Santo inspirou-lhes as palavras, mas não achou por bem conceder-lhes a compreensão do seu significado. Neste caso, o texto sagrado está acima do entendimento humano e os profetas ou escritores apenas criam na mensagem que recebiam de Deus.
  • Viva e não mecânica – A inspiração não significa ditado, no sentido de que os escritores fossem passivos. A própria palavra inspiração exclui o sentido de ação meramente mecânica, e a ação mecânica exclui qualquer sentido de inspiração. O Divino Espírito usou as suas faculdades mentais produzindo desta maneira uma mensagem perfeitamente divina, e que, ao mesmo tempo, conservasse os traços da personalidade do autor. Embora seja a Palavra do Senhor, é ao mesmo tempo, em certo sentido, a palavra de Moisés, ou de Paulo. “Deus nada fez a não ser pelo homem; o homem nada fez, a não ser por Deus. É Deus quem fala no homem, é Deus quem fala pelo homem, é Deus quem fala como homem, é Deus quem fala a favor do homem.” Se o entrosamento de mente e corpo já é um mistério demasiado grande, mesmo para o homem mais sábio; quanto mais não é o entrosamento do Espírito de Deus e o espírito do homem!
  • Completa e não somente parcial – Segundo a teoria da inspiração parcial, os escritores seriam preservados do erro em questões necessárias à salvação dos homens, mas não em outras matérias como sejam: história, ciência, cronologia e outras semelhantes. Portanto, segundo essa opinião, seria mais correto dizer que “A Bíblia contém a Palavra, em lugar de dizer que é a Palavra de Deus“. Essa teoria nos submergiria num pântano de incertezas, pois quem pode, sem equívoco, julgar o que é e o que não é essencial à salvação? Onde está a autoridade infalível que decida qual parte é a Palavra de Deus e qual não o é? E se a história da Bíblia é falha, então a doutrina também o é, porque a doutrina bíblica se baseia na história bíblica. Finalmente, as Escrituras mesmas reivindicam para si a inspiração plenária. Cristo e seus apóstolos aplicaram o termo “Palavra de Deus” a todo o Antigo Testamento.
  • Verbal e não apenas de conceitos – Segundo outra teoria, Deus inspirou os pensamentos, mas não as palavras dos escritores. Isto é, Deus inspirou os homens, e deixou ao critério deles a seleção das palavras e das expressões. Mas a ênfase bíblica não está nos homens inspirados, mas sim nas palavras inspiradas. “Havendo antigamente falado aos pais pelos profetas” (Hb. 1.1). “Homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pe 1.21). Ainda mais, é difícil separar a palavra do pensamento; um pensamento é uma palavra antes de ser ela proferida. (“não comeceis a dizer em vossos corações“; “o tolo disse em seu coração“); uma palavra é um pensamento ao qual se deu expressão. Pensamentos divinamente inspirados naturalmente teriam sua expressão em palavras divinamente inspiradas. Paulo nos fala de “palavras ensinadas pelo Espírito” (1Co 2.13). Finalmente, uma simples palavra é citada como sendo o fundamento de doutrinas básicas (Jo 35; Mt 22.42-45; Gl 3.16; Hb. 12.26, 27).
  1. Inerrância e infalibilidade das Escrituras[4]:

A questão da autoridade é central para qualquer teologia e, no caso da teologia protestante, a Bíblia tem ocupado um papel importante na definição desta autoridade. A Reforma (século XVI) passou para seus herdeiros a crença de que a derradeira autoridade não se acha na razão nem no papa, mas nas Escrituras inspiradas. Por isso, dentro do protestantismo conservador, a questão da inerrância tem sido muito debatida.

As duas palavras mais comumente usadas para expressar a natureza da autoridade bíblica são “inerrância” e “infalível”. Embora estes termos sejam aproximadamente sinônimos com base na etimologia, são usados de modo diferente. Na teologia católico-romana, “inerrância” é aplicado à Bíblia, e “infalível” à igreja, especialmente à função do papa e do magisterium[5]. Visto que os protestantes rejeitam a infalibilidade tanto do papa como da igreja, o termo tem sido aplicado cada vez mais às Escrituras.

A inerrância é o ponto de vista de que, quando todos os fatos forem conhecidos, demonstrarão que a Bíblia, nos seus autógrafos originais e corretamente interpretada, é inteiramente verdadeira, e nunca falsa, em tudo quanto afirma, quer no tocante à doutrina e à ética, quer no tocante às ciências sociais, físicas ou biológicas.

Mas há várias considerações a serem feitas em relação à inerrância e infalibilidade no campo teológico. Destaco aqui apenas os argumentos bíblicos em prol destes pontos:

  • A Bíblia ensina sua própria inspiração, e isto requer inerrância (2Tm 3.16 – “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça”. Ou seja, a Bíblia dá testemunho de si mesma.
  • A Bíblia ensina a Sua própria autoridade, e isto também requer inerrância (Mt 5.17-20 – aqui Jesus fala sobre o mínimo pormenor (“… nem um jota ou um til se omitirá…”) da lei que será cumprido); Jo 10.34-35 – Jesus diz que “… a Escrita não pode falhar).
  • Israel, povo do Antigo Testamento, tinha critérios claros para distinguir a falsa da verdadeira profecia e o falso do verdadeiro profeta (Dt 13.1-5, 18.20-22). A veracidade total e absoluta era uma da marca da mensagem divina. Tanto o profeta mensageiro quanto sua mensagem escrita eram instrumentos da comunicação divina e dignos de crédito.
  • As Escrituras usam, elas próprias (o seu todo), para apoiar sua inerrância. Às vezes, um argumento inteiro depende de uma única palavra. Por exemplo, em João 10.34, a palavra deuses foi extraída de Salmo 82.6 e seu sentido é encontrado pelo entendimento da leitura “do todo” da Bíblia.
  • As Escrituras confirmam a inerrância em relação ao caráter de Deus. Ele não mente (Nm 23.19, 1Sm15.29, Tt 1.2, Hb 6.18), portanto, a Bíblia que vem da parte de Deus para o homem, também não mente, ou seja, ela é inerrante e infalível.

Outras observações que destacamos ainda são:

  • A expressão “e Deus disse”, ou equivalente, é usada mais de 2.600 vezes no Antigo Testamento, e confirma o testemunho e autoridade da Bíblia.
  • Jesus viveu em harmonia com os ensinos do Antigo Testamento e aprovou a sua veracidade e autoridade, como encontramos em diversos textos. Quero fazer referência apenas a Lucas 4.21 (“Então, começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos”); Mateus 22.29 (“… Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus”); João 10.35 (“… a quem a palavra de Deus foi dirigida… e a Escritura não pode ser anulada…”); Lucas 24.25,27 (“… tudo que os profetas vos disseram! (…) E, começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras”); Mateus 26.54 (“Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?”)…
  • Os apóstolos e escritores do Novo Testamento também aprovaram as Escrituras (Antigo Testamento). Citamos, dentre os diversos textos apenas: Lucas 3.4 (“Segundo o que está escrito no livro das palavras do profeta Isaías…”); Romanos 3.2 (“… as palavras de Deus lhe foram confiadas [aos judeus]; Romanos 15.4 e 2 Timóteo 3.16 (já citados acima); Hebreus 1.1 (“Havendo Deus, antigamente, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias, pelo Filho”); 2 Pedro 1.21 (já destacado); Atos 1.16 (“Varões irmãos, convinha que se cumprisse a Escritura que o Espírito Santo predisse pela boca de Davi…”); Atos 3.18 (“Mas Deus assim cumpriu o que já dantes pela boca de todos os seus profetas havia anunciado: que o Cristo havia de padecer”)…

 Quanto à inspiração e escolha dos Evangelhos e dos demais livros que compõem o Novo Testamento falaremos em outro momento. Por ora, concluindo esta primeira parte de nosso estudo sobre as Escrituras, apenas recapitulamos sobre a revelação como o ato de Deus pelo qual ele dá a conhecer ao homem, pois este, por si mesmo não podia saber, enquanto por inspiração entendemos que o escritor sagrado é preservado de qualquer erro ao escrever essa revelação. Daí, afirmarmos sobre a inerrância e infalibilidade das Escrituras, hoje composta de Antigo e Novo Testamento, deixadas para ensino e como única regra de fé e prática dos cristãos. Qual foi o processo para se chegar à composição dos Testamentos, a escolha dos livros e sua compilação? É o que pretendemos estudar e destacar no próximo capítulo (post).

 

Referências bibliográficas:

  • ARCHER Jr. Gleason L. Merece confiança o Antigo Testamento? São Paulo: Vida Nova, 1984 (3ª Ed.).
  • DOUGLAS, J. D. O Novo dicionário da Bíblia. Vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1979 (3ª Ed.).
  • ELWELL, Walter a. (Editor). Enciclopédia Histórico-teológica da Igreja Cristã. Vol. I. São Paulo: Vida Nova: 1888 (1ª Ed.).
  • PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1977(6ª Ed.).

 

Notas:

  • [1] Imagem e texto disponíveis em: <https://www.institutogamaliel.org/teologia-a-inspiracao-da-biblia/>. Acesso em 11/03/2019.
  • [2] Cada palavra que compõe o texto sagrado é produto de inspiração divina? Não queremos explorar aqui esta questão, apenas fazer algumas observações. A expressão do Dr. William Evans, citada por Pearlman “… é como se o próprio Deus houvesse falado cada palavra do livro” (Op. Cit, p. 21) é uma força de expressão para enfatizar o papel do escritor frente à inspiração do texto que lhe foi dado e a escolha das palavras que melhor expressam a transmissão da sua mensagem. Na verdade, entendemos que Deus inspirou seus servos profetas e/ou autores em geral, mas eles transmitiram a mensagem recebida de Deus em suas próprias palavras, com suas figuras de linguagem, símbolos etc., usando seu estilo próprio, sua influência cultural. Às vezes até indoutos (boieiros, pescadores, agricultores…) foram portadores da mensagem de Deus. Se não fosse assim, as diversas versões da Bíblia estariam erradas – embora precisa ter cautela nesta questão também mas isto é papel dos teólogos –. Mas em geral, as versões atualizadas da Bíblia, com palavras mais modernas e compreensíveis ajudam o leitor a entender melhor o texto inspirado, mas que na sua grafia original estava muito distante e diferente de cada língua e cultura.
  • [3] Cf. PEARLMAN: 1977 (q.v.), pp. 21 a 24 – texto adaptado.
  • [4] FEINBERG, P.D. Inerrância e infalibilidade da Bíblia (adaptado). In: ELWELL: 1988, pp. 179 a 184.
  • [5] Destacamos esta posição da Igreja Católica, na 5ª parte de nosso texto “O depósito da fé: cânon, sucessão apostólica, tradição e outras considerações” (In: <http://amorim.pro.br/?p=1523>), onde destacamos o que o COMPÊNDIO do Catecismo da Igreja Católica afirma, em defesa do chamado Depósito da fé: “O depósito da fé é confiado pelos Apóstolos a toda a Igreja. Todo o povo de Deus, mediante o sentido sobrenatural da fé, conduzido pelo Espírito Santo, e guiado pelo Magistério da Igreja, acolhe a Revelação divina, compreende-a cada vez mais e aplica-a à vida”.

 

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Culto e Cultura: a participação humana na adoração a Deus

Já dissemos que cultura é toda criação material ou imaterial do homem que é socializada pelos membros de determinada sociedade, tribo, nação etc. Ela é também o modo pelo qual um grupo humano responde e se relacionada com seu meio ambiente. Também vimos que faz parte do propósito de Deus a diversidade cultural. Depois destacamos como deve ser a relação entre a missão cristã e a diversidade cultural, e neste post, queremos traçar alguns comentários sobre o culto cristão, como uma celebração sagrada e secular ao mesmo tempo pois envolve a participação do homem que aceita o cristianismo em toda parte da terra e em meio à diversidade cultural e suas celebrações a Deus.

1. O culto: uma celebração antropo-teológica

Um dicionário[1] muito antigo que tenho destaca as palavras cultura, cultivo, culto e suas derivações como sendo de uma mesma raiz etimológica latina. A palavra cultura com o sentido tanto como o “efeito de cultivar” a terra, quanto à ideia de “instrução”, ou de uma pessoa que tem “cultura”, neste ultimo caso, uma pessoa “instruída” ou “civilizada”; e a palavra culto, como “… adoração ou homenagem à divindade em qualquer de suas formas, e em qualquer religião” (CUNHA: 1982, p. 233).  E como sabemos que a religiosidade e a consequente crença em seu deus ou deuses são parte da cultura imaterial dos povos, não há dúvida de que a forma de culto destes povos reflete a cultura de quem o celebra e/ou dos seus partícipes crentes.

Para cultuar os seus deuses, na sua busca transcendental de aproximação com o sagrado, povos em geral constroem templos, altares, comidas, amuletos, livros, símbolos etc. e assim expressam sua fé através de orações, promessas, louvor, sacrifícios e assim por diante. Mas queremos estacar, aqui, especificamente, o culto cristão e sua relação com a cultura.

O culto é parte das celebrações dos cristãos a Deus, entendido teologicamente a partir da interpretação das Escrituras, como o Pai, o Filho (Cristo) e o Espírito Santo. É uma forma de adoração expressa através de reuniões coletivas, cujos atos mais básicos, conforme aconteciam na igreja primitiva – igreja do século I – eram: “… a leitura e a exposição das Escrituras; as orações; o entoar de salmos, hinos e cânticos espirituais; e a observância dos sacramentos” (R. G. RAYBURN. In: ELWELL: 1990, p. 20). Sobre os sacramentos ou ordenanças, salientamos dois: o Batismo e a Ceia do Senhor, dos quais falaremos mais adiante.

Ainda sobre os cultos da Igreja Cristã no primeiro século, Robert Hastings NICHOLS (Op. Cit., pp. 22-23) destaca que as reuniões eram realizadas nas casas – pois ainda os cristãos não possuíam templos – e havia dois principais tipos de cultos. Um deles, uma espécie de reunião ou culto de oração, do qual participavam também outras pessoas – não cristãs e/ou não batizadas. Além das orações, tinham também testemunhos, ensinamentos, cânticos de Salmos, surgem os primeiros hinos cristãos, leituras e explicações das Escrituras do Velho Testamento. O outro tipo de culto era a Festa do Amor ou Fraternidade, uma refeição comum, muito alegre, da qual participavam apenas os cristãos batizados. Era durante estas refeições que se celebravam a Ceia do Senhor com parte do pão servido na Festa e também vinho. Este culto era realizado no primeiro dia da semana para comemorar a ressurreição de Cristo. Daí, este dia – o primeiro da semana – ser chamado domingo ou Dia do Senhor, desde o primeiro século. Com o tempo, a forma de celebração do culto – do qual não nos deteremos aqui – foi se modificando, mas seus elementos principais (oração, cânticos, exposição da Palavra, Santa Ceia ou Eucaristia, Batismo etc.) foram mantidos por serem partes integrantes e indispensáveis nas celebrações cristãs.

Quando afirmamos que o culto é uma celebração antropo-teológica queremos enfatizar o lado humano e cultural (antropológico) das pessoas que prestam cultos a Deus, mas seguindo a liturgia cristã aplicada no desenvolvimento do culto (teológico). No seu excelente trabalho sobre o tema[2] o professor Ildemiro Silva de OLIVEIRA destaca a liturgia cristã como o ordenamento do culto, cujos rituais estão voltados para o diálogo entre Deus e seu povo e, vice-versa; expressão derivada do grego com a ideia de um serviço público, isto é, de comum do povo… Mas o termo – liturgia – que se tornou mais conhecido a partir do século XVIII, na verdade, seu contexto antecede a ideia do termo grego como uma forma de serviço comunitário ou público. Segundo ainda o autor, “… o culto, antes de ser uma celebração a Deus, deve ser entendido também como a recapitulação da história da salvação. (…) Ele precisa revelar os propósitos de Deus que se renovam dia-a-dia no seio do seu povo. (…) Cada culto celebrado, seja ele Santa Ceia, Batismo ou qualquer outro ofício diário tanto quanto casual, deve aproximar mais o homem e a mulher para junto do Pai e fomentar maior comunhão comunitária (OLIVEIRA: p. 4).

Mas embora o culto e/ou suas celebrações diárias, semanais, mensais ou anuais sejam atos sagrados com seus ritos de adorações ou de aproximações a Deus, quem os fazem são cristãos ou não, mas seres humanos que não deixam de lado seus aspectos culturais e se prendem apenas aos elementos transcendentais na hora do culto. Até nos momentos mais espirituais como orações, louvores, transmissão ou absorção da Palavra, elementos culturais acompanham os crentes: os gestos, o estilo, a fala, principalmente, os instrumentos, ritmos musicais e assim por diante. Por isso, como veremos, é possível haver num culto cristão trocas de valores culturais e teológicos sem necessariamente perder sua essência e/ou tornar-se uma cerimônia de cunho herético.

2. Ordenanças do culto cristão e sua relação com as culturas

Dois dos sacramentos[3] ou ordenanças que queremos destacar aqui são o Batismo e a Ceia do Senhor. O primeiro, uma espécie de “rito de iniciação” na vida da igreja, e o outro, um ato de comunhão e fortalecimento dos cristãos. E em relação a estas ordenanças acho interessantes as observações feitas por Justo L. GONZÁLEZ, acerca dos elementos naturais e culturais que envolvem as mesmas. Sobre o Batismo, ele afirma que esta ordenança, por ser uma celebração que faz uso da água, um elemento natural, constitui um dom de Deus para o ser humano e não algo que este produza por si mesmo, ou seja, não é um elemento cultural. Há um paralelismo entre a água aplicada no Batismo e a graça de Deus. Assim como a água, a graça também não é produto do esforço humano. Ele destaca ainda que embora haja diversas posições em relação ao modo do Batismo[4] e quem deve recebê-lo, numa coisa todos concordam: o uso da água na cerimônia e a crença na graça de Deus como um favor imerecido do homem.

A outra ordenança, a Ceia do Senhor ou Comunhão, em contraposição com o Batismo, emprega em sua celebração o pão e o vinho. Estes não são produtos diretos da natureza, mas resultados da atividade humana. Há diferentes tipos de pães, sendo o trigo, o principal produto cultivado pelas culturas, mas também há pães de milho, de batata, cevada e outros. Mas sua fabricação demanda diversos tipos de trabalhos como semear o trigo, por exemplo, cultivar a semente, colher e moer o produto, transformando-o em farinha. Depois disto, ainda é preciso adicionar água, fermento, ferver a massa, assar, para depois desse longo processo, obter o pão. Ou seja, o pão é o resultado de elemento natural (trigo) e cultural (o processo de fabricação).

O vinho (ou suco da uva) tem um processo semelhante ao do pão, pois assim como o trigo, a uva é um produto natural cultivável e que para se chegar ao produto final, o vinho, este passa por diversas etapas de atividades humanas. O contraste com o Batismo, que é dádiva gratuita – a graça – de Deus ao homem, a Santa Ceia diz respeito à participação do homem e o que ele pode fazer com aquilo que Deus lhe deu. Voltando então ao que já dissemos, que “… a cultura é o modo pelo qual um grupo humano responde e se relacionada com seu meio ambiente, vemos que a diferença entre a água do batismo e o pão e o vinho da comunhão é paralela à diferença entre o jardim que Deus dá ao ser humano e o resultado do cultivo desse jardim” (Op. Cit: pp. 141-142). Neste caso, o jardim é uma espécie de protótipo ou maquete (por falta de outra definição mais adequada) do Planeta, considerando que água, trigo, uva etc. existiam também lá à disposição do homem. Portanto, “… se o batismo aponta para a graça livre e soberana de Deus, a comunhão nos recorda que, justamente por sua graça, ele nos permite colaborar em sua obra criadora e redentora” (Idem: p. 142).

No culto os cristãos tomam parte segundo os propósitos de Deus. E tanto o Batismo quanto a Comunhão/Santa Ceia são sinal e instrumento da unidade entre os crentes capaz de cruzar fronteiras culturais. A água utilizada no Batismo é a mesma para todas as culturas, mas o pão – um dos elementos da Comunhão – muda de região para região e de cultura para cultura. “A própria variedade cultural implica variedade no pão, e a variedade no pão indica a aceitação das diversas culturas por parte de Deus” (p. 143). Portanto, a combinação destes dois sacramentos/ordenanças apresenta um simbolismo muito grande no culto cristão, pois apontam para a unidade cristã: a água, que simboliza a graça, para a unidade dos cristãos com Deus, e o vinho e o pão, objetos de uma cultura universal, como resultado da unidade entre os irmãos.

3. O culto, a inculturação e a troca de valores culturais

Bem, já vimos que os cristãos utilizam nas ordenanças do culto, elementos que ultrapassam fronteiras culturais: água, pão, fruto da vinha… E embora haja diferenças nas suas celebrações, os cristãos vivem em unidade mediante estes elementos. A grande entidade que os acolhe em seu seio é a igreja[5], a assembleia universal dos remidos por Cristo. Também não é nossa intenção demorarmos aqui sobre seu conceito, história, significado etc., mas de forma sintética refletir apenas no significado que a igreja representa para os cristãos: o papel de uma grande família. Há um paralelismo entre a família chamada igreja e as culturas. Enquanto na igreja, entendida não como uma entidade fechada e com limites definidos, existe toda uma rede de parentes com limites imprecisos, com a cultura acontece o mesmo. As culturas se entrelaçam, mesclam e confundem, e é possível até pertencer a mais de uma delas.

Os crentes em Cristo vivem pelo menos em duas culturas, uma a qual os rodeia e outra, a da igreja ou comunidade a qual pertencem. Isto porque a igreja, segundo a ótica do Novo Testamento, deve pregar a cultura do reino, acerca da qual já falamos em outro momento. Mas há de se esperar que o evangelho pregado pela igreja se acondicione nas mais diversas culturas e prime pela sua capacidade de adaptação. Foi o que aconteceu com o evangelho proposto por Cristo, os apóstolos e a igreja primitiva. Ele conseguiu se ambientar a diversas situações. Ou seja, a igreja primitiva, ao mesmo tempo em que inculturou ao seu culto ritos e símbolos exercidos em outras culturas, reinterpretando-os à sua realidade, também aculturou diversas culturas e povos com sua proposta salvadora. Isso sem alterar seus princípios doutrinários.

Ainda que a inculturação ou enculturação não seja a forma ideal na relação entre a igreja e as culturas e apresenta os seus problemas[6], mas queremos destacá-la aqui por causa de sua importância nas trocas culturais entre os diversos povos e a igreja, sem deixar de considerar, obviamente, que neste intercâmbio os absolutos do Evangelho podem e devem ser adaptados, mas nunca desvirtuados de seu significado real das Escrituras. Nesse sentido, voltando ao estudo feito por OLIVEIRA (q. v.), ele destaca a importância da inculturação para o culto cristão, uma vez que ela o ajuda na interpretação dos valores culturais. Isto porque não há como um cristão viver uma “práxis cristã” ou estabelecer um formato de culto essencialmente puros, sem ser atingido pelo que muito já foi considerado de “esfera pagã” ou “secular”. “O culto cristão, muito mais do que os conceitos simplistas podem oferecer, revela ter sido influenciado por culturas diversificadas. Nesta perspectiva não apenas a história se incube de desvendar essa associação promovida por meio da inculturação, mas também, os próprios indícios bíblicos e teológicos apontam para sua maturação” (Op. Cit. p. 12). Nenhum rito litúrgico está desprovido de influência cultural. E o que a inculturação propõe é reconhecer e conscientizar da necessidade de adaptações extra culturais em sua liturgia, sobretudo na comunicação do evangelho para a cultura a que a igreja se propõe pregar. Desta forma, para propagar o Jesus que tomou forma humana e identificou-se com a cultura circundante de seus dias, as contribuições de outras culturas em todas as partes do planeta são importantíssimas. E o culto cristão torna-se rico, mediante a inculturação, pela diversidade das expressões simbólicas, dinamismo, expressões verbais e corporais, sinais, símbolos e outros elementos culturais que deixam as celebrações ricas, com mais beleza e vivacidade.

Conclusão

O culto cristão tem o objetivo não de desaparecer com as culturas, mas de redimi-las. E a prática deste princípio de redenção das culturas fará acontecer o que está em textos como este: “Muitos virão do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul e tomarão lugares à mesa no reino de Deus” (Lc 13.29). Para que isto aconteça é preciso que pessoas e culturas do Oriente, Ocidente, Norte e Sul, ou seja, dos “quatro” cantos da terra, se rendam ao Senhor, que um dia humanizou-se e consumou toda a obra de salvação, que é extensiva a “todo aquele que nele crê” (Jo 3.16). Veja mais este texto: “Depois destas coisas, vi, e eis grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos; e clamavam em grande voz, dizendo: Ao nosso Deus, que se assenta no trono, e ao Cordeiro, pertence a salvação” (Ap 7.9-10). Portanto, quando o culto cristão é celebrado entre as multidões, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em nome do Cordeiro e na cultura destes povos, é o indicativo de ter cumprido o seu objetivo. Reafirmando, para finalizar, que culto, cultura e cultivo são dons de Deus, e para Ele, “… seja glória e majestade, domínio e poder, antes de todos os séculos, agora e para todo o sempre. Amém!” (Jd, v. 25).

Referências Bibliográficas:

  • CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: 1982.
  • ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. I e II. São Paulo: Vida Nova, 1990 (1ª ed.).
  • GONZÁLEZ, Justo. L. Cultura & Religião: o lugar da cultura no plano de Deus. São Paulo: Hagnos, 2011.
  • OLIVEIRA, Ildemiro Silva. Culto e Cultura: Influências e relevâncias históricas e contextuais da cultura sócio-religiosa popular e sua repercussão na liturgia do culto cristão. Texto publicado em 06 de Agosto de 2018. In: <https://www.webartigos.com/artigos/culto-e-cultura/159156>. Acesso em: 11/02/2019.
  • NICHOLS, Robert Hastings. História da Igreja Cristã. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana: 1985.

Notas:

  • [1] In: CUNHA, vide Referências bibliográficas.
  • [2] OLIVEIRA Ildemiro Silva de.  Culto e Cultura: Influências e relevâncias históricas e contextuais da cultura sócio-religiosa popular e sua repercussão na liturgia do culto cristão. (q.v.). O autor defende que “o culto cristão, apesar de demonstrar ser algo completamente sacro e genuíno, apresenta também seu aspecto secularizado. Presente no dia-a-dia da comunidade sofre grande influência desta, bem como, determina seu status quo de fé e de conduta…”.
  • [3] Sacramentos e ordenanças são termos utilizados por católicos e protestantes, respectivamente. A Igreja Católica celebra sete sacramentos que são o batismo, a confirmação ou crisma, a eucaristia (ou Ceia do Senhor para os protestantes), reconciliação ou penitência, unção dos enfermos, ordem e matrimônio. Os protestantes, após a Reforma do século XVI, conservaram apenas dois destes sacramentos, que passaram a ser chamados de ordenanças, que são o Batismo e a Ceia do Senhor. Para a maioria dos protestantes, a expressão ordenança é mais adequada segundo a interpretação do Novo Testamento, uma vez que esta prática (Batismo ou Santa Ceia) é apenas uma demonstração de fé dos cristãos e não meios transmissores de graça como são entendidos os sacramentos para os católicos.
  • [4]É notável que, ao longo da história da igreja, se tinha discutido tanto acerca da forma e do sentido do batismo – se deve ser por imersão ou não, se somente os adultos devem ser batizados, etc. – e ao mesmo tempo tenhamos perdido de vista o fato simples e claro de que o batismo, seja com for, é sempre praticado com água, e com a mesma água em todas as partes” (GONZÁLEZ: 2011, p. 143).
  • [5] O vocábulo igreja deriva-se do latim ecclesia e ou grego ekklesia (assembleia) significa tanto uma “congregação local de cristãos” (Mt 18.17 At 15.41; Rm 16.16; 1Co 4.17…) quanto “universal” (Mt 16.18; At 20.28 1Co 12.28; 15.9; Ef 1.22). Destacamos o segundo sentido, ou seja, a igreja como uma “assembleia universal” que é parte do Reino de Deus. (Afirmamos isto, pois acreditamos que o “Reino de Deus” tem um sentido mais abrangente do que a Igreja). E em relação a ela, ficamos com o sentido empregado por João Wycliffe e os reformadores que faziam distinção entre igreja “visível” e “invisível”. Seguindo este raciocínio, a igreja invisível consiste somente da reunião dos “eleitos” e, nesse caso, membros das milhares de igrejas locais não participam, necessariamente, da igreja invisível e universal (Fonte: R. L. OMANSON. Apud ELWELL, 1990, Vol, II, pp. 286-287).
  • [6] Justo L. GONZÁLEZ adverte sobre alguns problemas em relação à enculturação, enfatizando, por exemplo,  que “… visto que a cultura é para o ser humano como a água para o peixe, há o sério perigo de que simplesmente tomemos o que nossa cultura nos ensina, a ‘batizemos’, por assim dizer, e façamos pouco para transformar seus elementos negativos. Esse perigo não é imaginário, mas é tão real que a história nos proporciona exemplos abundantes’” (Op. Cit., p. 131).
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Cultura e Missão: breves reflexões

O homem é a mais importante de todas as criatura de Deus, deixado como mordomo ou administrador de suas obras aqui na Terra. Deus, segundo a Bíblia, criou todas as coisas do nada – isto é, criação “ex nihilo” –, e o homem foi o responsável por cuidar das coisas criadas e, a partir destas, inventar outras, chamadas de culturas. Mas o homem falhou, por seu próprio arbítrio, nesta tarefa, desobedecendo ao princípio determinado por Deus, dando origem, com isso, ao pecado. Desta forma, a cultura ou as culturas que surgem a partir daí, são eivadas de bênçãos, por fazerem parte dos propósitos de Deus e pela origem divina que caracteriza a natureza e a imagem do homem, mas também carregam a mancha do pecado por causa da queda e fraqueza do homem.

No post anterior já destacamos o evangelho como uma mensagem supra cultural a ser pregada em todos os lugares e para todas as pessoas. Neste[1], queremos destacar o papel da missão transcultural como um dos meios para que os que já aceitaram o propósito redentor de Jesus levem a mesma mensagem aos demais.

Evangelismo e missão transcultural

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura”(Mc 16.15)

Sabemos que evangelização é a proclamação do evangelho ou boas novas da salvação em Jesus Cristo, conforme está descrito nos evangelhos. A iniciativa de buscar o homem que se distanciou é do próprio Deus, que mediante a regeneração do Espírito Santo leva o homem “de volta” ao seu estado original, por intermédio de Cristo. E como “todos pecaram” (Rm 3.23) e todos são objetos do amor de Deus (Jo 3.16), o evangelismo tem como alvo alcançar todas as pessoas e em todos os lugares.

Mas o evangelismo que visa alcançar outras culturas, recebe, via de regra, o nome de “missão transcultural”. E os missionários, preparam-se (ou deveriam) para chegar até estas variadas culturas para anunciarem o Evangelho de Jesus Cristo, procurando ter um conhecimento prévio da cultura onde irá trabalhar. A missiologia, “a ciência da comunicação transcultural da fé cristã”, procura levar o melhor preparo possível a seus alunos participantes, sempre visando minimizar o máximo possível o impacto que terão ao se confrontarem com a diversidade cultural quando de sua prática evangelizadora. O missionário se encontra direta e indiretamente envolvido neste processo de evangelização das pessoas e de transformação das culturas, baseados no IDE de Jesus:

E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém. (Mt 28.18-20)[2]

Toda cultura deve ser vista sob a lente dupla, ou seja, a do amor e da presença de Deus, por um lado, e a da corrupção do pecado, por outro. Toda cultura é pecaminosa, mas Deus atua nela. E como a obra missionária consegue isto? Em primeiro lugar, ao se encontrarem com uma nova cultura, os crentes em Jesus Cristo devem tratá-la com respeito, como lugar sagrado no qual a autoridade de Jesus Cristo já é exercida, embora as pessoas que estão ali não o saibam. Foi assim que os primeiros cristãos conseguiram abrir caminho no mundo greco-romano e dar origem a uma igreja que, sendo semita em sua origem, logo se arraigou e se encarnou nessa outra cultura. E em segundo lugar, quem leva o evangelho de uma cultura a outra deve estar consciente de que o leva envolto em um contexto cultural; que leva consigo não o evangelho puro, abstrato, mas o evangelho encarnado em sua própria cultura.

Todo missionário ou missionária, não importa sua procedência ou postura teológica, traz consigo sua cultura. Isto é inevitável e faríamos mal se os culpássemos ou criticássemos por isso. Eu não posso me despojar de minha cultura e não devo exigir que outra pessoa faça o que eu não consigo. O que poderíamos, sim, fazer é estar consciente do fato inevitável de que nossa cultura impacta o modo como entendemos e vivemos a fé.

Por outro lado, embora pedir às pessoas que cruzam fronteiras culturais que se despojem de sua cultura seja exigir o impossível, devemos ao menos esperar que tais pessoas estejam conscientes, pelo menos em teoria, de que seu modo de entender e viver o evangelho – por mais ortodoxo que seja – é seu modo de entender e viver o evangelho dentro de sua cultura e que, ao levar essa mensagem a outra cultura, não deverão se surpreender caso ela se encarne de formas inesperadas.

Aculturação, enculturação e autoctonia

Ademais, podemos acrescentar que o verdadeiro processo de encarnar o evangelho em uma nova cultura tem de ser levado a cabo não por missionários procedentes de outras culturas, mas pincipalmente pelas pessoas que, de dentro dessa cultura e como parte dela, aceitam o evangelho. Nesse caso vale distinguir entre aculturação e enculturação. A aculturação consiste em tentar adaptar a apresentação do evangelho à cultura receptora, e é o que os bons missionários tentam fazer. Eles aprendem a língua das pessoas a quem quer comunicar sua fé; descobrem, por exemplo, que, em uma cultura há costumes muito diferentes, daí adaptam o evangelho a essas culturas. Mas torna-se praticamente impossível para o missionário passar da aculturação para a enculturação, que ocorre quando um número suficiente de pessoas dentro de uma cultura se apossa do evangelho de tal modo que começa a interpretá-lo e vivê-lo dentro de seus padrões culturais, e não mais dentro dos padrões do missionário.

Mas apenas a aculturação e a enculturação não são suficientes para a relação entre fé e diversidade cultural. É preciso que haja uma absorção do evangelho na cultura alcançada pelo missionário e, a partir daí, surgirem as comunidades cristãs. É o que alguns estudiosos defendem. Como exemplo, Paul G. HIEBERT destaca a necessidade das igrejas autóctones, afirmando que “… há uma pressão cada vez maior no sentido de que a igreja em cada ambiente cultural se torne autônoma: que sustente-se a si mesma, que se administre e se auto propague. (…) À medida que o evangelho se torne autóctone para elas, suas teologias (…) também irão variar.” (In: WINTER & HAWTHORNE, op. cit., p. 461). Para Hiebert, é possível aplicar a revelação das Escrituras numa teologia, cuja compreensão se dá a partir da cultura local, e que vai se evoluindo da fase do questionamento até o evangelho se encarnar nesta cultura. E os crentes que vão surgindo neste ambiente cultural vão pouco a pouco descobrindo formas de expressar e interpretar o evangelho em termos dessa cultura. Como diz o próprio termo – autoctonia, característica de quem é natural da região, ou território, em que habita –, é possível existir uma teologia também com características culturais locais, sem adulteração da revelação das Escrituras e num ambiente cristão genuíno.

O Verbo, a diversidade cultural e a cultura do Reino

Aculturação, enculturação, autoctonia…, caminhos utilizados pelos bons missionários cristãos. Mas como a cultura é para o ser humano como a água para o peixe, não há o perigo de que simplesmente tomemos o que nossa cultura nos ensina e acabamos fazendo muito pouco para transformar seus elementos negativos? Há, sim, muitos perigos, e González dedica várias páginas sobre isto. Mas como é preciso correr o risco, os missionários transculturais contam com o poder dAquele que os enviou às culturas a serem evangelizadas. E quem assim os fez foi Jesus Cristo, como já vimos no mandamento à Grande Comissão.

Jesus é o Verbo de Deus ou o Logos que conhece a cada palmo do planeta Terra, objeto de seu amor (Jo 3.16). E sua ordem para evangelizar estende-se à toda ela ou “todo o mundo” (Mc 16.15), para usar o termo bíblico. Portanto, maior do que os interesses dos missionários é o de Jesus pelas pessoas de todas as partes do mundo. Além disso, antes que os missionários cheguem a estes lugares, Jesus já está lá. Ele é Senhor de todos os lugares, mesmo os mais longínquos da Terra. E por conta disso, as culturas ali existentes, já possuem algo de bom ou positivo, por causa da presença de Jesus ali, embora não saibam disso. E se os cristãos missionários tiverem esta convicção, seu trabalho se torna menos penoso e mais produtivo.

Mas as culturas, embora parte delas seja rica em beleza e bondade, precisa ser transformada ou santificada pelo Evangelho, por estarem manchadas pelo pecado e parte dela ser até de inspiração demoníaca[3]. Por isso, na questão da relação entre a fé e a cultura o que se coloca não é como fazer para que nossa fé seja compatível com nossa cultura, mas como nos certificar de que essa fé pronuncia os “juízos corretos” sobre essa cultura. Só que também as culturas precisam conhecer os “juízos corretos” ou valores do Evangelho do reino ou da catolicidade – universalidade ou conforme o todo – de sua mensagem. O evangelho de Cristo (p. ex., Mt 9.35) é acompanhado de sinais e ao ser recebido pelas pessoas, estas se deparam com a proposta de uma outra cultura, a “cultura do reino”. Esta proposta é de quem veio salvar as pessoas, portanto está baseada em sua Palavra, a Bíblia Sagrada. Ela apresenta a mensagem deste reino e serve de parâmetro para as culturas. Assim, todo o conjunto de cultura imaterial como conhecimentos, artes, costumes, crenças, leis, moral etc., manchado pelo pecado, pode ser influenciado – ou até redimido – pela “cultura do reino”, extraída da verdade maior, o Evangelho.

Porém, os missionários que de alguma forma leva a posição de sua igreja a qual pertence à cultura a ser evangelizada precisa evitar o perigo da imposição cultural da mesma. Assim como a grande variedade de culturas tem uma função libertadora e que essa função consiste em livrar toda cultura da ilusão de que são absolutas, os missionários devem atentar para isto quando se deparam com estas diversas culturas.

A verdadeira catolicidade não é uniformidade, mas, muito pelo contrário, é uma variedade tal que toda a igreja em todas as partes do mundo como um único corpo com vários membros, mantém-se em comunicação para o bem de todo o corpo, conforme podemos deduzir de 1Corintios 12.12-13. E o modo como a igreja emprega para se assegurar de sua própria identidade perante as culturas, é o culto, do qual nos ocuparemos depois e também destacaremos num outro momento, sobre a posição cristã na cultura brasileira.

Referências bibliográficas:

  • ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1990 (1ª ed.).
  • GONZÁLEZ, Justo L. Cultura & Evangelho: o lugar da cultura do plano de Deus. São Paulo: Hagnos, 2011.
  • WINTER, Ralph D. & HAWTHORNE, Steven C. Missões transculturais: uma perspectiva cultural. São Paulo: Mundo Novo, 1987 (1ª ed.).

Notas:

  • [1] O texto a seguir é um resumo indicativo do livro Cultura & Evangelho, de Justo L. González (q.v.), com inserções de outras fontes, constantes nas referências bibliográficas.
  • [2] Este e outros textos bíblicos, mencionados no texto foram extraídos da Bíblia Online, versão Almeida Corrigida Fiel. Disponível em: <https://www.biblia online.com.br/> e outros links.
  • [3] Conforme afirma o Pacto de Lausanne, § 10. In. O EVANGELHO e a Cultura. Série Lausanne e Visão Mundial. São Paulo: ABU Editora, 1985.

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Cultura e Evangelho

Ilustração: Cristo & Cultura[1]

Já vimos anteriormente, que cultura é toda criação ou invenção humana, seja ela material ou imaterial, que é socializada pelos membros de uma sociedade. E que nas criações imateriais está relacionado também o aspecto espiritual e religioso, ligado à busca das pessoas por um ser soberano e transcendente. E terminamos este último post afirmando que a religião, em certo sentido pode ser entendida como algo vindo “de fora” para certo grupo social, ou seja, algo supra cultural ou revelado a este grupo e socializado por ele, embora seu modo de crer e de fazer seus cultos estejam associados especificamente à esfera cultural.

Vimos também que no exemplo de Babel, aquela geração ao construir sua torre tinha o desejo de permanecer num mesmo local e sua cultura usada para usurpar o lugar de Deus, ao mesmo tempo em que tentava impedir as ramificações de outras culturas, ao impor uma única língua aos seus moradores.

Neste post, queremos refletir sobre a relação entre o Evangelho com a cultura, como Jesus e sua comunidade foram influenciados e influenciaram a cultura e que é possível aplicar a mensagem a todos os povos sem a imposição de uma cultura – judaica, por exemplo – tida superior ou especial em relação às demais.

1. Cultura vs Evangelho

“Jesus, porém, ouvindo que João estava preso, voltou para a Galileia; E, deixando Nazaré, foi habitar em Cafarnaum, cidade marítima, nos confins de Zebulom e Naftali; Para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías, que diz: A terra de Zebulom, e a terra de Naftali, Junto ao caminho do mar, além do Jordão, A Galileia das nações; O povo, que estava assentado em trevas, Viu uma grande luz; aos que estavam assentados na região e sombra da morte, A luz raiou.” (Mateus 4.12-16)

O homem é o criador de cultura, uma atividade que está no propósito de Deus. Mas como o homem é racional, espiritual, inteligente e criativo, todas as coisas que foram sendo criadas com o tempo e somadas às demais já existentes, deram – e continuam dando – um significado muito amplo para todo o complexo cultural, isto é, o somatório das coisas criadas, de cada povo no decorrer dos tempos. Este aproveitamento de parte de culturas existentes por outros povos, acontece através dos chamados empréstimos culturais, isto é, manifestações culturais emprestadas e vivenciadas pelos membros de uma determinada sociedade, juntando-se às já existentes, e destinadas a se perpetuar de geração após geração. Nesse complexo cultural, vivido e transmitido às gerações, estão envolvidos também comportamento e certas ideias ou pressuposições que podemos chamar de cosmovisão. E porque a cultura em geral foi afetada pelo pecado, a cosmovisão ou forma de ver o mundo de cada grupo, tornou-se bastante diversificada e distorcida. O homem é um ser cultural e ao mesmo tempo, olha o seu mundo a partir de sua “lente cultural”. E se esta lente está manchada pelo pecado tanto o homem quanto sua cultura carecem de redenção.

No texto de Mateus acima, vemos referências de lugares como Galileia, Nazaré, Cafarnaum etc., que ficam em uma região mais ampla do planeta, hoje chamada Israel. O texto também afirma que o povo desta região estava assentado em trevas, mas para ele raiou uma grande luz. Sabemos que o povo destacado – no norte do antigo Israel – é parte de um grupo maior chamado de o povo judeu; e a grande luz corresponde ao cumprimento da promessa feita pelo Seu Deus, Yahweh: a chegada do Messias, Jesus Cristo, que veio transmitir sua mensagem redentora, o Evangelho ou Boa Notícia, ou ainda Boa Nova. O Evangelho, ao ser pregado e aceito, constitui um exemplo de empréstimo cultural judaico-cristão para o mundo que o aceitou e o aceitará. Sua influência para as culturas tem sido determinante para a base da cultura, hoje,  principalmente do mundo ocidental.

Segundo ainda Mateus 9.35, a mensagem que Jesus Cristo ensinava pelas cidades, aldeias e sinagogas, era também chamada de o “evangelho do reino”. E os sinais de que este reino tinha chegado ao povo eram os milagres que acompanhavam sua mensagem, como a cura de suas “enfermidades e moléstias”. O “Reino de Deus” ou “Reino dos céus” – expressões análogas – é este algo “de fora”, como já vimos, pois foi trazido dos céus ou de Deus para este mundo. E, como Jesus mesmo afirma, seu “… reino não é deste mundo…” (Jo 18.36). É por isto que alguns cristãos falam, inclusive, em “cultura do reino[2]”, por entenderem que o seu livro sagrado, a Bíblia, apresenta a mensagem deste reino e que ela pode servir de parâmetro para as culturas. Isto é, todo o conjunto de cultura imaterial como conhecimentos, artes, costumes, crenças, leis, moral etc., manchado pelo pecado, pode ser influenciado – ou até redimido – pela “cultura do reino”, extraída da verdade maior, o Evangelho. Este reino é acompanhado de poder e de verdade; e Jesus disse para alguns de seus ouvintes que eles estavam errando por não conhecer nem “… as Escrituras, nem o poder de Deus” (Mt 22.29). Portanto, as “Escrituras”, principalmente o Novo Testamento, onde consta também e, principalmente, os evangelhos, são a base para se evitar os erros e para a redenção e até a santificação das culturas. Quando dizemos “Evangelho”, estamos nos referindo não só aos ensinamentos e práticas do ministério de Jesus, narrados e/ou escritos pelos evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João, mas a toda a pregação cristã centralizada nas Escrituras: Antigo e Novo Testamento.

2. Jesus, seus discípulos e sua cultura circundante

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda a criatura” (Marcos 16.15).

Jesus é o Deus humanizado, que nasceu de um povo – judeu –, falou a língua deste povo, viveu a cultura deste povo, em tudo foi semelhante aos homens de seus dias, exceto no pecado (Hb 2.17; 4.15). Jesus foi um homem de cultura; que ao mesmo tempo anunciou sua mensagem, como Deus eterno e como “Filho de Deus e homem perfeito” (Ef 4.13). Mas então não há distinção entre cultura e Evangelho? Justo L. González acredita ser difícil distinguir (separar) ambos. E ele apresenta dois motivos: um deles é porque a cultura “… faz parte do que somos” (Op. Cit., p.98), e não podemos nos separar dela. E em segundo lugar, porque Jesus foi, embora divino, também humano, e nesta condição de homem, ele também usou a cultura para comunicar seu Evangelho aos povos.

Quando Jesus nasceu, “na plenitude dos tempos” (Gl 4.4), sua região e as regiões próximas eram dominadas politicamente pelo Império Romano[3], cujo idioma oficial era o latim, e culturalmente pelos gregos. A Língua Grega era o idioma universal da época, seguida pelo Latim.  Possivelmente, Jesus tivesse noções de grego e latim, conhecesse hebraico e no dia-a-dia falava aramaico junto à sua família e seu povo. Ou seja, é provável que Jesus fosse poliglota[4]. Ele era judeu e afirmou para a mulher samaritana que a “salvação vem dos judeus” (Jo 4.22), isto é, do seu povo. Mas ao que sabemos nenhum livro do Novo Testamento foi escrito na língua de seu povo (aramaico ou hebraico). E a mensagem de Cristo, difundida depois de sua morte e ressurreição, cruzou fronteiras, “… deixando de ser uma mensagem puramente judaica e tornando-se também uma mensagem para os gentios” (Ibidem: p 100). Um empréstimo cultural dos judeus para o mundo.

Na época de Jesus e de seus discípulos, a cultura grega imperava com o nome de helenismo, fusão da cultura grega com as dos orientais, os judeus entre eles, conquistadas pelos macedônicos, em especial Alexandre Magno, uns 300 anos antes de Cristo. Dentre os supostos “benefícios da civilização”, propagadas pela cultura helenística, estava a Língua Grega, na qual foram escritos os livros do Novo Testamento. Além disso, embora a cultura grega, considerada pagã pelos cristãos, fosse, por isto mesmo, condenada, textos e ensinamentos dos filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles, além da língua, eram muito utilizados nas epístolas e ensinamentos da época. Exemplo disto podemos encontrar em um dos doutores da igreja, Tertuliano, o qual embora “… rejeita o uso da filosofia grega no campo da teologia é o advogado que faz constantemente uso de princípios legais romanos para defender a fé cristã e até para explicar doutrinas como a Trindade e a encarnação. Portanto, embora Tertuliano insistisse na necessidade de rejeitar a filosofia que vinha da Grécia, ele próprio participava dessa filosofia de modos que desconhecia” (Ibidem: p. 102).

Jesus disse: “… Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda a criatura” (Mc 16.15). Portanto, os cristãos têm uma mensagem salvadora, que é o Evangelho. Esta mensagem está acima das culturas. Mas também é preciso ir a toda criatura, o que pressupõe conhecer e/ou viver as culturas – ou parte dela –, destas criaturas. Neste caso, como veremos, é importante que o Evangelho, sempre que possível, seja pregado por alguém da própria cultura destas criaturas: povos, tribos, nações…

3. O Logos e a catolicidade dos Evangelhos para e nas culturas

E ao redor do trono havia vinte e quatro tronos; e vi assentados sobre os tronos vinte e quatro anciãos vestidos de vestes brancas; e tinham sobre suas cabeças coroas de ouro. (…) E havia diante do trono um como mar de vidro, semelhante ao cristal. E no meio do trono, e ao redor do trono, quatro animais cheios de olhos, por diante e por detrás. E o primeiro animal era semelhante a um leão, e o segundo animal semelhante a um bezerro, e tinha o terceiro animal o rosto como de homem, e o quarto animal era semelhante a uma águia voando” (Ap 4.4,6,7).

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez (…). Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome (…) E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. ( Jo 1.1,2,11,14)

Já destacamos no texto (post) diversidade cultural que o Evangelho, neste caso, a primeira parte do Novo Testamento, é ao mesmo tempo uno (a única mensagem salvadora de Cristo) e quadriforme (escrito sob quatro visões diferentes dos evangelistas). Quero considerar também nesta linha de raciocínio o texto de Apocalipse 4, acima, que fala da visão que João, um dos evangelistas, teve do céu, e lá, a presença de vinte e quatro anciãos e de quatro animais. Os vinte e quatro anciãos, que aparecem assentados em seus tronos, são reconhecidos pela igreja[5] como símbolos das doze tribos de Israel, tratadas no Antigo Testamento, e dos doze apóstolos de Cristo, descritos no Novo Testamento da Bíblia cristã. Neste caso, tanto os representantes dos judeus, representados pelos vinte e quatro anciãos, quanto os apóstolos, adoravam “… ao que estava sobre o trono, ao que vive para todo o sempre” (v. 9) e por meio de quem todas as coisas foram criadas (v. 10). Sabemos que Este que recebe a adoração é Jesus Cristo, personagem central da mensagem a ser pregada a todas as culturas. “Os anciãos reconhecem que um só é digno de ter a preeminência na criação, e Ele é o criador… Ele quis a existência de todas as coisas. Ele tem o direito de lidar com elas em soberana liberdade. Toda a criação deverá reconhecer a sua sujeição a Ele e atribuir ao seu nome a glória e a honra e o poder.” (In: SHEDD, Op. Cit., p. 1460).

Sobre os quatro animais, a aceitação de boa parte dos cristãos[6] é que eles simbolizam os quatro[7] evangelistas: Mateus, Marcos, Lucas e João. Estes animais são: o primeiro, um leão; o segundo, um bezerro; o terceiro, um animal indefinido, apenas com o rosto como de homem; e o quarto, uma águia. Hernandes Dias LOPES explica que “… o leão mostra Jesus como rei (Mateus). O novilho [ou bezerro] mostra Jesus como servo (Marcos). O homem mostra Jesus como o homem perfeito (Lucas) e a águia mostra Jesus como aquele que veio do céu e volta ao céu (João)” (Op. Cit., p. 157). LOPES continua afirmando que estes “… quatro seres viventes representam todo o nobre, forte, sábio e rápido da natureza” (Ibidem: p, 157). Portanto, embora fazemos referência ao Evangelho (no singular), mas ele deve ser entendido pela sua catolicidade – a visão universal representada pelos quatro evangelistas.

Além da catolicidade do Evangelho, outro ponto que caracteriza a relação entre o mesmo e a cultura, principalmente a cultura circundante à época de Jesus e de seus discípulos é enfatizado, especificamente, no prólogo do quarto evangelho que é o conceito de Logos ou Verbo, que escrevemos parcialmente acima. Era empregado com frequência pelos escritores cristãos e diz respeito à Deidade de Cristo. Já em Gênesis 1.1 o Logos estava presente na criação. A expressão “todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3), tem relação direta com o ato criativo de Jesus Cristo, o Logos, junto com o Pai, conforme lemos: “no princípio criou Deus [Elohim] o céu e a terra” (Gn 1.1). Desta forma, o “… pensamento do escritor [João] é impregnado do Velho Testamento e não devemos imaginar que o evangelista esteja tomando emprestado um termo ou conceito da filosofia grega daquela época. Ele expõe uma ideia que remonta ao ensino rabínico, concernente à Palavra de Deus. O Logos é o Ser cuja existência transcende o tempo. Sua pré-existência eterna é implícita” (In: SHEDD: Op. Cit., p. 1063).

O conceito do Logos, traduzido em nossas bíblias como Verbo, além de enfatizar a deidade de Cristo, o Verbo eterno de Deus que se encarnou em Jesus Cristo, fala também do seu “alcance universal”: criação (de todas as coisas, Jo 1.3) e luz (de todo o homem que vem ao mundo, Jo 1.9). Assim, todos foram criados pelo Verbo “… e, visto que esse Verbo é a luz que ilumina não apenas todos os profetas, mas todo ser humano que vem a este mundo, se há alguma luz em um ser humano qualquer, essa luz vem do Verbo que se encarnou em Jesus Cristo” (GONZÁLEZ: Op. Cit., p. 106).

O Logos está presente em todas as culturas e pode ser entendido como o princípio da razoabilidade: a “… correlação entre as diversas mentes humanas” (Ibidem: p. 107) e também do universo, conceito defendido por Platão. É nesse sentido que acreditamos que há nas culturas a presença do Logos mesmo antes da chegada de algum missionário a qualquer lugar. “Se Deus é o criador de tudo quanto existe e se Deus está presente e atuante em toda a criação, não é possível pensar que ele esteve completamente ausente de partes inteiras da história da humanidade, de continentes inteiros, até que a fé cristã chagasse a eles” (Ibidem: p. 113). Os cristãos receberam a ordem do IDE e pregai, a partir da Grande Comissão (Mt 28.18-19). Por isso, “… a razão para ir é que Jesus recebeu todo o poder na terra e no céu. Se levarmos a sério esse texto, o propósito de nosso ir, a razão de nosso ir não é levar Jesus Cristo para um novo lugar, e tampouco levar seu senhorio. Segundo esse texto, Jesus já e Senhor desse lugar muito antes de chegarmos lá” (Ibidem: p. 117). Na conversão de Cornélio (At 10), por exemplo, o Logos já estava presente em sua casa antes de Pedro chegar à mesma. Inclusive González diz que o título “conversão de Cornélio”, de Atos 10, bem poderia ser “conversão de Pedro”. Este apóstolo estava incumbido de pregar a salvação, mas tinha uma visão (cosmovisão) muito limitada e restrita à sua cultura. Antes de seguir para a casa e Cornélio, ele tem uma visão vinda Deus, que pede – entre outras mensagens – para que ele: “… não chame impuro ao que Deus purificou” (At 10.15). Percebe-se, daí, que o Logos que já estava nas culturas gentilícias, como no exemplo de Cornélio, preparou o terreno para um dos membros da Grande Comissão aceitar aquela cultura específica de Cornélio e adicionar à mesma o Evangelho de Cristo. E é isto que muitos cristãos missionários não têm visto: a presença do Logos nas culturas e lugares aonde chegam. E também não têm tido a consciência (conhecimento) de que qualquer lugar deste planeta, mesmo aqueles onde ninguém ouvir falar de Cristo foi criado por Ele e a Ele pertence.

Num outro momento, falaremos um pouco mais sobre cultura e missão. Mas, por ora, concluímos que na relação entre a cultura e o Evangelho, este último, embora seja uma mensagem supra cultural (como algo “de fora”, por empréstimo), foi revelado para um povo, dentro de seu contexto cultural que era ao mesmo tempo o resultado da influência das culturas dos povos circundantes. Até os escritores desta mensagem, os evangelistas, apresentaram-na sob seus pontos de vistas, sem mudar o âmago da verdadeira mensagem: o único Evangelho, mas ao mesmo tempo universal (católico), escrito sob a ótica ou cosmovisão de quatros escritores. Também enfatizamos que a diversidade cultural faz parte do propósito de Deus e que os cristãos devem ter em mente que é perfeitamente possível pregar a Cristo e seu reino em todos os lugares, sem destruir as culturas existentes e sim, influenciá-las/santificá-las com a cultura do reino…

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Veja também:

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Referências Bibliográficas:

  • GONZÁLEZ, Justo. L. Cultura & Religião: o lugar da cultura no plano de Deus. São Paulo: Hagnos, 2011.
  • LOPES, Hernandes Dias. Apocalipse: o futuro chegou – As coisas que em breve devem acontecer. São Paulo: Hagnos, 2005.
  • SHEDD, Russel P. (Editor). O Novo Comentário da Bíblia, Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1963 (1ª ed.).

Notas:

  • [1] Disponível em: <http://beteldemesquita.com.br/sermons/cristo-cultura-o-evangelho-e-nossa-libertacao-do-cativeiro-cultural-palestra-3/>. Acesso em 29/11/2018.
  • [2] Por exemplo: <https://www.maisqueadoradores.com/page/2017/12/06/o-que-e-cultura-do-reino-serie-cultura-do-reino-01/>. Acesso em 05/12/2018.
  • [3] Evitamos o termo “dominados pela cultura dos romanos”, pois esta expressão é bem simplista, uma vez que nem todos que estavam no território romano eram romanizados. Sua cultura era imposta e necessariamente aceita por todos. A maioria dos pobres e oprimidos pelos romanos ansiava pela libertação do seu jugo político e econômico, mais do que sua cultura.
  • [4]Na verdade, possivelmente Jesus era um poliglota. Devia ter noções de grego, porque esse povo deixou marcas na região na época da ocupação dos macedônios, e de latim, o idioma dos conquistadores romanos. Mas, no dia a dia, ele falava aramaico mesmo, que era a língua do povo judeu”. Disponível em: <https://super.abril.com.br/mundo-estranho/que-lingua-jesus-falava/>. Acesso em 05/12/2018.
  • [5] Veja, por exemplo, G. R. BEASLEY-MURRAY. Em seu comentário sobre o Apocalipse, ele afirma: “Julgando pela descrição dos anciãos, dada as visões subsequentes, é claro que são seres angélicos, contudo não é impossível pensar deles como sendo os representantes celestiais do povo de Deus no duplo aspecto de sacerdotes e reis, e, neste caso, o número de vinte e quatro, que relembra as doze tribos e os doze apóstolos, simboliza adequadamente o povo messiânico de duas dispensações, como a Igreja sempre se agrada em reconhecer” (In: SHEDD, Russel P. – Editor). O Novo Comentário da Bíblia, Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1963 (1ª ed.).
  • [6] Dentre os que afirmam ser os “quatro animais”, de Apocalipse 4.6, um simbolismo dos quatro evangelistas, está também Irineu de Lyon, por volta do ano 400 d.C. Veja também: < http://www.abiblia.org/ver.php?id=2414>. Acesso em 07/12/2018.
  • [7] No Evangelho de Mateus 10.2-4, estão registrados os nomes dos doze apóstolos: “Simão, por sobrenome Pedro;  André, irmão de Pedro;  Tiago, filho de Zebedeu; João, irmão de Tiago;  Filipe; Bartolomeu; Tomé; Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu; Tadeu; Simão, o Zelote; Judas Iscariotes, o traidor”. Portanto, dos quatro evangelistas, dois deles (Mateus e João) estão na relação dos doze apóstolos. Marcos e Lucas não eram apóstolos, embora deixaram seu inestimável trabalho para os cristãos e o mundo.
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Cultura e religião: o homem e sua busca pelo transcendente

“Um homem corta para si cedros, toma um cipreste ou um carvalho, fazendo escolha entre as árvores do bosque; planta um pinheiro, e a chuva o faz crescer. Tais árvores servem ao homem para queimar; com parte de sua madeira se aquenta e coze o pão; e também faz um deus e se prostra diante dele, esculpe uma imagem e se ajoelha diante dela…” (Is 44.14-15)

As criações humanas como fabricação de objetos para o cultivo da terra, fundação de cidades, regras de convivências, crenças, tradições, conhecimentos em geral etc., como já destacamos, são situações que marcam o homem após sua queda e, consequentemente, este processo se deu a duras penas porque o homem caiu de sua posição em que originalmente foi criado.

O texto bíblico acima é um exemplo de culturas ou ações do homem em sua relação com a natureza, da qual ele extrai (cria) objetos (cultura material) para seu próprio uso ou sobrevivência. Mas há também no texto a demonstração de intenção da busca do homem por um ente sagrado, um “deus”, que pode ser representado por uma imagem diante da qual ele se prostra e o adora. Este deus em forma de um objeto concreto (uma imagem) simboliza a expressão de sua crença.

O bezerro de ouro [1]

As crenças das pessoas são aspectos de sua cultura imaterial, relacionadas à sua crença ou religiosidade socializada e aceita pelos membros de determinado grupo social. Usamos a expressão “crença ou religiosidade socializada”, porque sabemos que um aspecto cultural só se fará parte de seu todo (cultural), pelas vias da repetição, aprendizagem etc. pelos membros de um grupo social, sociedade, povo… Desta forma, a religiosidade de um povo é um aspecto de sua cultura total – a soma de seus traços comportamentais – deste povo, e representa sua busca pelo divino, representa, também, um de seus “símbolos” fundamentais por ser a afirmação de seu significado. Conforme destaca o professor Faustino TEIXEIRA (p. 15), a religião serve como um “potente referencial contra o terror da anomia”. O medo do caos social e/ou ausência de regras ou normas levam as pessoas à busca da religião uma vez que ela

… exerce um singular papel de integração das experiências anômicas, facultando um significado para as crises biográficas… Diante do quadro de precariedade e limitação que envolve a situação humana, a religião funciona como um dossel sagrado protetor do nomos[2]…” (Ibidem, p. 15)).

A religião ocupa um lugar importante para o homem na sociedade. O “dossel sagrado”, de BERGER (Apud TEIXEIRA, Op. Cit., p. 15), apresenta o papel da religião como uma espécie de “edifício de representação simbólica” que protege os homens do caos, da falta de regras e leva-os a lutar contra o vazio.

Este pensamento que permeia as mais diferentes culturas constitui “o explicador mais usual e, muitas vezes, o mais acreditado” dos seres humanos na busca pelo Sagrado e Protetor. A religião constitui uma necessidade e interesse dos seres humanos para:

  • suportar e vencer suas dificuldades de existência;
  • buscar os deuses (ou um Deus) que os podem salvá-los dos perigos terrenos;
  • buscar proteção e esperança contra as incertezas da vida, num outro mundo;
  • falar, ser ouvido e receber os deuses em seu próprio corpo… Ou seja, a religião constitui uma “tessitura social”, afirma TEIXEIRA (2014, p. 23).

Mas as religiões, uma vez formalizadas com seus códigos, livros sagrados, ritos/mitos etc., sempre foram acompanhadas de líderes ou guias que, com bases nas mesmas, orientaram e orientam as pessoas de seus grupos sociais. Assim, desde os primórdios, Pré-história e Antiguidade, por exemplo, as principais crenças, depois de serem socializadas e praticadas em grupos, logo encontraram uma classe politico-religiosa, o clero, que exercia liderança e até domínio sobre os seus praticantes (crentes).

Em civilizações antigas como Egito, Grécia e Roma, as formas religiosas mais populares eram as conhecidas religiões de mistério, que tinham em seu bojo uma série de segredos e crenças, reveladas apenas aos seus iniciados na religião, os quais buscavam a salvação e uma bem-aventurança futuras. Surgiu, então, o conceito de “… imortalidade [que] poderia ser obtida mediante a iniciação numa experiência secreta que visava salvar a alma depois da morte” (KROEGER, Op. Cit., p. 279). As principais religiões de mistérios eram as de Elêusis, o orfismo, o pitagorismo, o culto à Ísis, o culto a Mitra e os gnósticos, além de ter exercido influências no cristianismo e recebidas deste, conceito como a ressurreição, por exemplo.  Mas tanto no passado quanto no presente a religião e a cultura estão intrinsecamente relacionados e as mesmas perguntas religiosas feitas no passado, afirma Rubem ALVES (pp. 11 e 12):

… se articulam agora, travestidas, por meio de símbolos secularizados. Metamorfoseiam-se os nomes. Persiste a mesma função religiosa. Promessas terapêuticas de paz individual, de harmonia íntima, de liberação da angústia, esperanças de ordens sociais fraternas e justas, de resolução das lutas entre os homens e de harmonia com a natureza, por mais disfarçadas que estejam nas máscaras do jargão psicanalítico/psicológico, ou da linguagem da sociologia, da política e da economia, serão sempre expressões dos problemas individuais e sociais em torno dos quais foram tecidas as teias religiosas. Se isto for verdade, seremos forçados a concluir não que o nosso mundo se secularizou, mas antes que os deuses e esperanças religiosas ganharam novos nomes e novos rótulos, e os seus sacerdotes e profetas novas roupas, novos lugares e novos empregos (pp. 11 e 12).

A religião está presente também de forma invisível ou sutil e até disfarçada em nosso cotidiano, pois o homem como um ser cultural e também espiritual – portanto, dotado de consciência – tem anseio pelo transcendente, aquele que pode responder aos seus anseios e preocupações. Assim, surgiu a religião, como uma forma de aproximação com o “sagrado”, criando para este fim “… altares, santuários, comidas, perfumes, lugares, capelas, templos, amuletos, colares, livros…” (Ibidem, p. 22), e criam em torno destes símbolos uma aura misteriosa, e a partir disto, os olhos da “fé” passam a estar voltados para os mesmos. Neste sentido, citando Ludwig Feuerbach, Alves afirma que ‘… a consciência de Deus é autoconsciência, conhecimento de Deus é autoconhecimento. A religião é o solene desvelar dos tesouros ocultos do homem, a revelação dos seus pensamentos íntimos, a confissão aberta dos seus segredos de amor’ (Ibidem, p. 13).

A religião é a expressão do espirito humano, pois o homem é dotado de razão e “fé”. Esta fé (entre aspas, pois a fé tem um significado muito mais abrangente do que o sentido aqui exposto) recebe alguns questionamentos de cientistas (sociólogos, psicólogos, antropólogos, historiadores…) e teólogos sempre no sentido de encontrar luz para este importante tema, tendo como base a tentativa de ligar (ou não) a religião à necessidade do espírito humano de buscar o sagrado, divino ou transcendente. As ciências humanas, segundo Paul TILLICH,

… acentuam a infinita diversidade de ideias e práticas religiosas, o caráter mitológico dos conceitos religiosos e a existência de grande número de formas não religiosas adotadas por indivíduos e grupos. Dizem, segundo Comte, que a religião caracteriza o estágio mitológico do desenvolvimento humano, e não tem lugar na época científica em que vivemos (Op. Cit, p. 40).

Mas reconhece Tillich que os teólogos podem dar suas contribuições ao afirmar que “… a religião significa que recebemos alguma coisa de fora, que nos é dada e pode voltar-se contra nós. Insistem que a relação com Deus não pode partir de nós e que, portanto, Deus é quem toma iniciativa.” (Idem: p. 40). Por isso, ao considerarmos a religião como esta “coisa de fora”, isso subtende aparentemente algo além da cultura, ou seja, supra cultural, pois não é criação do homem e sim uma “revelação” de um Ser sobrenatural. É neste sentido, que pretendemos falar em outro momento da religião cristã como sendo este algo de “fora” revelado ao ser humano como meio de levá-lo ao seu Criador.

Reafirmamos que a diversidade cultural faz parte do propósito de Deus e que a religiosidade é um aspecto ou elemento de cada cultura, que pode variar de muitas formas: crença em vários deuses (politeísmo ) ou um único deus (monoteísmo) e assim por diante. Como, então, as culturas chegam ao verdadeiro conhecimento da verdade nesta diversidade de crenças? Mais à frente, no post cultura e evangelho, falaremos sobre o Logos e veremos que sua presença se faz notória em todas as culturas, preparando-as para o recebimento das boas-novas reveladas pelo Deus dos hebreus, que foi encarnado, tornou-se o redentor de todas as pessoas, e, consequentemente, também de suas culturas.

Portanto, podemos afirmar que a religião é um aspecto da cultura imaterial de um povo, mas entendemos que a revelação dada pelo próprio Deus dos hebreus (Jeová ou yahweh), que ficou conhecida através do Judaísmo e Cristianismo, implica, a meu ver, um aspecto “supra cultural”, incorporada à cultura judaico-cristã e a todos que depositam sua fé na pessoa de seu Messias e Salvador, Jesus Cristo, cuja mensagem serve para todos os seres humanos, em todas as culturas, no tempo e no espaço.

Referências Bibliográficas:

  • ALVES, Rubem. O que é religião. São Paulo: Abril Cultural / Brasiliense, 1984.
  • GONZÁLEZ, Justo. L. Cultura & Religião: o lugar da cultura no plano de Deus. São Paulo: Hagnos, 2011.
  • KROEGER, R. C. e C.C. Religiões de Mistério. In: Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã, vol. III. São Paulo: Vida Nova, 1990.
  • TEIXEIRA, Faustino. Cristianismo e Diálogo Inter-religioso. São Paulo: Fonte Editorial, 2014.
  • TILLICH, Paul. Teologia da Cultura. São Paulo: Fonte Editorial: 2009.

Notas:

  • [1] A adoração do bezerro de ouro, por Nicolas Poussin, de I Reis 12:28-32 que retrata o reino de Israel dividido e o rei Jeroboão I, que fica com uma parte do reino sem ser de descendência real, cria dois bezerros para o povo adorar, e esquecer do Deus da linhagem Real. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Bezerro_de_ouro>. Acesso em 24/08/2018.
  • [2] Nomo era um conjunto de famílias (clã) no Antigo Egito. Diversos clãs ou nomos constituíram as primeiras divisões politicas do Egito e eram governados por príncipes chamados nomarcas.
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