A conquista da América espanhola

(…) Os espanhóis entravam nas vilas, burgos e aldeias não poupando nem crianças e velhos, nem mulheres grávidas e parturientes, e lhes abriam o ventre e faziam em pedaços (…) sempre matando, incendiando, queimando, torrando índios e lançando-os aos cães (…) e assassinaram tantas nações que muitos idiomas chegaram a desaparecer por não haver ficado quem os falasse (…) e no entanto ali teriam podido viver como num paraíso terrestre, se disso não tivessem sido indignos… (Frei Bartolomé de las Casas) [1].

Como já falamos em outros momentos, em 12 de outubro de 1492, Cristóvão Colombo, em nome da Espanha chegou à América Central, onde encontrou três grandes civilizações: maias, astecas e incas. Estima-se que a população encontrada nesta região era de 50 ou 100 milhões de habitantes. Dois séculos depois, essa população teria sido reduzida a um décimo do que existia antes.

Os motivos deste reducionismo populacional foram, entre outros, as doenças trazidas pelos seus colonizadores, contra as quais os nativos não tinham imunidade; as armas de fogo, os equipamentos de ataque e defesa e a utilização do cavalo (animal desconhecido na América) que deram aos mesmos, condições para subjugar os povos nativos.

Como já vimos, a América pré-colombiana era dividida em Mesoamérica e Região Andina Central. A primeira foi conquistada por Fernão Cortez, e a última, por Francisco Pizarro.

1. A conquista o México – Mesoamérica

Um espanhol desembainha a espada e imediatamente os outros cem fazemo mesmo, e começam a estripar, rasgar e massacrar aquelas ovelhas eaqueles cordeiros, homens, mulheres, crianças e velhos que estavamsentados, tranquilamente, olhando espantados para os cavalos e para os espanhóis. Em pouco tempo não restaram sobreviventes de todos os índiosque ali se encontravam (LAS CASAS) [2].

Em 1519, Fernão Cortez deu início à conquista do México. E ao saber da existência do Império Asteca inicia uma lenta progressão rumo ao interior. Logo nas primeiras lutas, Cortez fez alianças com povos inimigos dos astecas, que lhe informaram das riquezas em ouro de Tenochtitlán, centro do Império Asteca, para onde ele e seus soldados se dirigiram.

Cortez foi recebido amistosamente pelo imperador Montezuma II e até tratado com reverência, pois foi confundido com Quetzalcoatl, deus do Ar e dos Ventos, tido como quem deu vida àquela civilização. Segundo a crença local, um dia Quetzalcoatl voltaria para submeter o Império e reinar sobre os astecas.

Aproveitando-se da ilusão e engano do imperador asteca, Cortez instalou-se na capital, aprisionou Montezuma (que morreu pouco depois), destruiu os ídolos religiosos da cidade e saqueou seus templos. Os nativos iniciaram uma resistência feroz aos invasores espanhóis, que perderam vários homens e foram obrigados a abandonar a capital asteca.

Conquista de Tenochtitlán - século XVIII, autor desconhecido

Conquista de Tenochtitlán – século XVIII, autor desconhecido

Pouco depois, Cortez reorganizou suas forças e voltou a atacar Tenochtitlán, que estava sob o comando de Cuauthemoc. Em 1521, depois de dois meses de sangrentos confrontos e de uma devastadora epidemia de varíola entre os nativos, os europeus obtiveram a vitória final. Sobre as ruínas de Tenochtitlán, os conquistadores ergueram a nova capital regional espanhola, chamada Cidade do México.

2. A conquista do Peru – Região dos Andes

Na América Andina, outro colonizador espanhol, Francisco Pizarro, a partir de 1531, começou a atacar os incas, na região do atual Peru, atraído pelas notícias da existência de prata e ouro na região.

Os incas possuíam um sistema político bem hierarquizado e estratificado, encabeçado pela elite nobre, e o imperador era considerado o filho do deus Sol. O último imperador Huayna Cápac, morrera em 1527 e seu trono foi disputado pelos seus irmãos Huáscar e Atahualpa. Este venceu a luta de sucessão, mas, enfraquecido pela guerra, foi facilmente capturado pelas forças de Pizarro, em 1532. O imperador, feito prisioneiro, foi executado em 1533, mesmo após o pagamento de uma enorme quantia de ouro pelos nativos.

A partir de então, Pizarro conquistou Cuzco e subjugou essa cidade ao Império Espanhol. Fundou também a cidade de Lima, no litoral, já que Cuzco situa-se em local montanhoso e de difícil acesso. Vários redutos incas resistiram ainda aos invasores por algumas décadas.

O Estado espanhol impôs violentamente sua dominação sobre vastas áreas do Novo Mundo, explorando, especialmente, os metais preciosos ali encontrados. Com isso, tornou-se uma das maiores potências do século XVI, ao enriquecer e movimentar diversas mercadorias em seus portos.

3. A administração colonial espanhola

“Não é prata o que se enviou à Espanha, é suor e sangue dos índios…” (Frei Domingos de Santo Tomás)

Primeiramente, quero destacar que a colonização na América tanto por espanhóis quanto por portugueses tinha por base o Mercantilismo.

O mercantilismo é um conjunto de princípios e práticas econômicas, através do qual os governos europeus buscavam conseguir poder e riqueza.

Apesar das variações de um país para outro, o mercantilismo apresentou alguns princípios básicos, entre os quais podemos citar:

  • O metalismo – segundo essa idéia, quanto mais ouro e prata um país possuísse, mais rico seria. Os metalistas defendiam a necessidade de se evitar a saída de metais preciosos do país;
  • O saldo da balança comercial deve ser favorável – os adeptos dessa idéia diziam que uma nação consegue prosperar exportando o máximo e importando o mínimo;
  • O protecionismo – consiste em incentivar o comércio e as indústrias nacionais, protegendo-as da concorrência estrangeira. Os mercantilistas recomendavam, por exemplo, o aumento dos impostos sobre os produtos estrangeiros a fim de torná-los mais caros;
  • O monopólio – os mercantilistas eram essencialmente monopolistas. Eram favoráveis, por exemplo, a que as metrópoles possuíssem o domínio exclusivo do comércio colonial.

 Nas primeiras décadas da conquista, a coroa espanhola decidiu entregar a particulares – os adelantados – a administração dos territórios americanos pertencentes à Espanha. Os adelantados eram, geralmente, homens como Cortez e Pizarro, que, por terem encabeçado expedições de conquista, receberam o direito de administrar com grande autonomia os territórios por eles conquistados.

Entretanto, à medida que os espanhóis foram conquistando novos territórios e descobrindo metais preciosos na América, o governo da Espanha foi diminuindo os poderes dos adelantados e criando órgãos governamentais para cuidar da administração colonial.

O mais importante desses órgãos foi criado pelo governo espanhol em 1524 e se chamava Conselho das índias. Além de elaborar leis e nomear funcionários reais para as colônias, o Conselho das Índias estava autorizado a decidir sobre todas as questões coloniais de ordem militar, jurídica ou eclesiástica.

Os vice-reinados

Para melhor controlar suas colônias americanas, a metrópole dividiu a América espanhola em quatro grandes vice-reinados:

Resultado de imagem para Mapa da conquista da América - Cortés e Pizarro

  • Nova Espanha, compreendendo o atual México e territórios pertencentes a alguns estados do oeste dos atuais Estados Unidos.
  • Nova Granada, compreendendo os atuais territórios da Colômbia e Equador;
  • Peru, compreendendo o atual Peru;
  • Rio da Prata, compreendendo os atuais Uruguai, Argentina, Paraguai e Bolívia.

Esses vice-reinados foram governados, cada um, por por um “vice-rei”. Este representava o monarca espanhol na América e era fiscalizado pelo poder central.

Além dos vice-reinados, a metrópole criou quatro outras unidades administrativas chamadas de capitanias-gerais: Cuba, Guatemala, Venezuela e Chile. Situadas em áreas estratégicas, essas capitanias estavam encarregadas de defender as colônias de possíveis ataques estrangeiros.

Nas principais cidades coloniais criaram-se câmaras municipais conhecidas pelo nome de cabildos. Estas câmaras eram formadas por fazendeiros e mineradores ricos, autorizados a decidir sobre questões relativas à administração local.

Participavam dos cabildos tanto os chapetones (funcionários e colonos nascidos na Espanha) quanto os criollos (colonos hispânicos nascidos na América). Os chapetones constituíam a camada mais privilegiada da sociedade colonial e usufruíam dos altos cargos da administração.

Abaixo dos chapetones e criollos, a maioria absoluta da população colonial era formada pelos indígenas, que tinham sua mão de obra sistematicamente explorada pelos espanhóis. Em geral, eram submetidos a uma condição de vida miserável, responsável por garantir a dominação dos colonizadores sobre os mesmos. Paralelamente, foram alvo da ação catequizadora dos jesuítas que lhes apresentaram valores diversos da cultura ocidental cristã.

A mão-de-obra mais utilizada pela empresa colonial espanhola no continente americano sempre foi a do indígena.

Desde o começo da colonização, os espanhóis foram autorizados pelos reis a forçaram o indígena a trabalhar para eles nas mais diferentes ocupações.

O trabalho forçado do indígena era recuperado pela encomienda e pela mita.

  • Encomenda – originária da Espanha e introduzida na América por Colombo, a encomienda era o direito que o rei concedia ao colono espanhol (o encomendero) de fazer com que um certo número de indígenas (os encomendados) trabalhassem para eles. Em troca, o encomiendeiro tinha o dever de ensinar o cristianismo e cuidar da subsistência dos encomendados. Milhares de índios encomendados, porém, morreram por falta de assistência material e sem nenhum conhecimento da religião cristã.
  • Mita – amplamente utilizada no Império Inca, a mita foi aproveitada pelos colonizadores espanhóis, pois atendia perfeitamente aos seus interesses mercantilistas. Mas, é claro, adquiriu outro significado. Ela era o direito que os colonos espanhóis se davam de arrancar os indígenas de suas comunidades e forçá-los a trabalhar nas minas por um determinado tempo. Em troca, tais trabalhadores, conhecidos como mitayos, recebiam o equivalente à metade ou a um terço do salário do trabalho livre.

A encomienda, a mita, as péssimas condições de trabalho no campo e nas minas, as doenças trazidas pelo europeu (varíola, tuberculose, sarampo, tifo, malária e gripe, entre outras) e a guerra foram os principais fatores responsáveis pela eliminação física de milhões de indígenas na América espanhola.

Num próximo texto, falaremos como acontece a revolta, principalmente dos criollos e a consequente independência das colônias hispano-americanas.

Veja o vídeo sobre o assunto em:

 

Referencias:

  • A CONQUISTA Espanhola na América. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=IDX5dXnGo8w>. Acesso em 10/10/2016.
  • A Conquista da América. Disponível em: <https://historiandonanet07.wordpress.com/2015/10/27/a-conquista-da-america/>. Acesso em 10/10/2016.
  • SOUSA, Rainer Gonçalves. Sociedade Colonial Espanhola. Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/historia-da-america/sociedade-colonial-espanhola.htm>. Acesso em 10/10/2016.
  • VICENTINO, Cláudio, Projeto Radiz: História: 7º Ano. São Paulo: Scipione: 2012.

Notas:

  • [1] Disponível <file:///C:/Users/Sr%20Alcides/Downloads/7024-19245-1-PB.pdf>. Acesso em 11/10/2016.
  • [2] Disponível em:<http://www.academia.edu/2388582/HERN%C3%81N_CORT%C3%89S_E_FRANCISCO_PIZARRO_HIST%C3%93RIA_E_MEM%C3%93RIAS>, p. 92/93. Acesso em 11/10/2016.

 

 

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