Independência da América Espanhola

A chamada América espanhola, foi dividida em quatro grandes vice-reinados (Nova Espanha, Nova Granada,  Peru e Rio da Prata) e quatro capitanias-gerais (Cuba, Guatemala, Venezuela e Chile). No século XIX, essas regiões lutam por suas independências como veremos abaixo.

A América hispânica inclui os países na América do Norte, na América Central e na América do Sul que têm a língua espanhola como idioma oficial, ou ainda co-oficial. É uma região cultural, incluída na América latina, integrando 19 nações com mais ou menos 365 milhões de habitantes.[1]

 

1. Independência para quem?

A história dos países da América Latina – colonizados por espanhóis e portugueses – é marcada por três características comuns: todos foram colônias europeias por mais de trezentos anos, emanciparam-se politicamente nas primeiras décadas do século XIX e tornaram-se economicamente dependentes da Inglaterra logo após a independência política.

Mas, longe de as independências destes países serem uma luta com a participação para o benefício de todos, elas, na verdade, foram resultados das desavenças entre as elites locais e suas influências neste processo e cada uma das partes lutando pelos seus interesses.

Na América espanhola, durante o século XVIII, o grupo dos chapetones – homens nascidos na Espanha – ocupavam os cargos mais importantes na administração e os postos elevados no Exército e na Igreja, enquanto os criollos – filhos de espanhóis nascidos na América – embora ricos fazendeiros, mineradores ou comerciantes e possuindo muitas vezes formação universitária, eram marginalizados do poder político e da administração.

Inferiorizada socialmente e marginalizada politicamente, a elite criolla revoltou-se contra a metrópole e liderou a luta pela independência das colônias hispano-americanas. Sua luta foi influenciada, principalmente, pelas ideias iluministas, pela Revolução das Treze Colônias da América do Norte, pela Revolução Francesa e pela Revolução Industrial.

2. Guerra civil e rompimento com a metrópole espanhola

O fim da Revolução Francesa serviu para a ascensão de Napoleão Bonaparte no poder. E, em 1808, suas tropas ocuparam a cidade Madri, capital do reino. Esse fato teve reflexos nas possessões da Espanha na América. A elite colonial americana apoiou a população metropolitana na luta contra os invasores franceses. Para isso, transformou os cabildos (câmaras municipais) em juntas governativas, autônomas e contrárias ao usurpador do trono espanhol, José Bonaparte, irmão de Napoleão. Depois disto, devido esta participação direta no governo, a elite criolla ganhou força e tramou a separação da Metrópole espanhola.

O processo de independência das terras hispano-americanas (América espanhola) se deu em duas fases [2]:

  • Primeira fase – 1810 a 1814:

Guerra civil entre os colonos quando seus habitantes contavam com o apoio da Inglaterra, rival de Napoleão Bonaparte.

  • Segunda fase – 1815 a 1824:

Fase caracterizada pela tentativa recolonizadora metropolitana. Após a derrota de Napoleão, a Espanha reorganiza-se política e militarmente e tenta repreender os movimentos separatistas na América.

Miguel Hidalgo Y Costilla QuotesEmbora a Inglaterra tivesse reduzido seu apoio no começo, a partir de 1817, visando ampliar o livre mercado para os seus produtos, estabeleceu e ampliou seu apoio à elite criolla. Pouco depois, também os Estados Unidos, imbuídos da Doutrina Monroe – a América para os americanos, de James Monroe –, aliaram-se aos rebeldes na luta contra a dominação espanhola. Miguel Hidalgo,  na foto, padre e herói mexicano, “…era um padre criollo que pregava contra o domínio metropolitano, tido como iniciador do processo de independência mexicana e apontado por muitos como o ‘pai’ da independência de seu país.” [3]

3. Alguns movimentos pela independência e seus principais líderes

No vice-reinado de Nova Espanha, atual México, logo após a deposição do monarca espanhol Fernando VII por Napoleão, em 1808, autoridades metropolitanas e elites criollas ligadas aos monopólios comerciais empenharam-se na garantia da ordem e da fidelidade à Espanha, desbancando outros poucos criollos decididos pela imediata independência.

Enquanto as elites criollas preocupavam-se exclusivamente em livrar seus países do domínio espanhol, os camponeses do México – índios e mestiços basicamente – desejavam algo mais que a independência: a divisão da terra entre os pobres.

Foi com essa intenção que, em 1810, o padre Miguel Hidalgo, à frente de um exército de camponeses que carregavam estandartes da Nossa Senhora de Guadalupe, iniciou uma rebelião contra a Metrópole.

Depois de conquistar algumas cidades mexicanas, entre elas Guadalupe, o padre Hidalgo e seus seguidores foram derrotados pelas forças governamentais.

O sacerdote foi preso e fuzilado a mando dos próprios criollos mexicanos, que, temerosos de perder seus privilégios, uniram-se aos chapetones para reprimir o movimento.

No ano seguinte (1811), outro religioso, José Maria Morelos, encabeçou um novo movimento de emancipação, cujo programa básico era a independência do México, a divisão das grandes propriedades entre os camponeses e o fim dos privilégios e a busca da igualdade social e racial.

Morelos e seus seguidores chegaram a tomar o poder e a romper oficialmente com a metrópole. Mais uma vez, porém, a elite criolla juntou-se aos espanhóis. Depois de intensos combates, as forças colonialistas massacraram os rebeldes. Em seguida, Morelos foi preso e executado.

Apesar dessa violenta repressão, nos anos que se seguiram o movimento rebelde mexicano continuou crescendo, especialmente nas montanhas do sudeste do país. Visando sufocá-lo, o governo espanhol confiou o comando das forças repressoras ao coronel Agustín Itúrbide, que havia se destacado na luta contra o padre Morelos. Entretanto, o oportunista coronel aproveitou-se da situação, fez um acordo com os rebeldes e proclamou a independência do México em 1821, sagrando-se imperador com o nome de Agustín I.

Contudo, o autoritário imperador manteve-se no poder por pouco tempo. Em 1823, um movimento liderado pela elite criolla forçou-o a abdicar e, depois de alguns meses, proclamou a República, promulgando, a seguir, uma Constituição inspirada na dos Estados Unidos.

Animados pela emancipação política do México, os criollos centro-americanos proclamaram a independência da Capitania Geral da Guatemala em 1821. No ano seguinte, porém, ela foi anexada ao México pelo imperador Agustín Itúrbide.

Reagindo às pretensões expansionistas do imperador mexicano, os centro-americanos desligaram-se do México de 1823 e formaram a República das Províncias Unidas da América Central. Entretanto, esta união entre os centro-americanos não sobreviveu por muito tempo. Foi desfeita por causa das disputas políticas entre as elites criollas e, também, porque contrariava os interesses do capitalismo inglês, que preferia a América dividida para mais facilmente dominá-la.

O esfacelamento das Províncias Unidas da América Central deu origem às repúblicas independentes da Guatemala, Honduras, Costa Rica, Nicarágua e El Salvador.

Na América do Sul, desde o inicio do século XIX, os países de colonização espanhola organizaram exércitos patrióticos para lutar pela independência.  E embora tais exércitos fossem formados, em sua maior parte, por forças populares, a direção militar e política da luta esteve sempre nas mãos da elite criolla.

Além de usarem seus próprios recursos, as elites sul-americanas receberam da Inglaterra ajuda militar e financeira, o que muito contribuiu para o sucesso da luta. Os ingleses apoiavam a emancipação das colônias europeias na América, pois tinham grande interesse no rompimento do pacto colonial, que traria como consequência a abertura dos mercados americanos para os produtos ingleses.

Os dois maiores líderes dos movimentos de independência sul-americanos foram o venezuelano Simón Bolívar e o argentino José de San Martín, ambos pertencentes a famílias tradicionais. José de San Martín (esquerda) [4] e Simón Bolívar (direita) [5], após a conferencia de Guayaquil, uniram-se contra o império colonial espanhol como objetivo de constituir uma nação única na América do Sul. Bolívar e San Martín, desempenharam papel crucial nos movimentos de independência dos países sul-americanos e moldaram o primeiro projeto de integração sul-americana hoje revivido na Unasul. Bolívar atuou na libertação do norte da atual Venezuela, Nova Granada e Quito, e San Martín garantiu independência da Argentina, libertando também Chile e Peru.

O Paraguai foi o primeiro país sul-americano a conquistar sua independência, em 1811. Para isso, foi decisiva a união entre os criollos de Asunción, liderados por Gaspar Rodrigues de Francia, e um exército de libertação enviado pelos argentinos.

O Uruguai continuou fiel à Espanha até 1821, ano em que foi conquistado e incorporado ao Brasil com o nome de Província Cisplatina. Liderados por Lavalleja e Rivera, os uruguaios só conseguiram libertar-se do domínio brasileiro graças à mediação da Inglaterra, que desejava preservar seus interesses na região. Em 1828, depois de três anos de lutas, nasceu a República Oriental do Uruguai.

Na Argentina, a luta pela independência partiu de Buenos Aires e foi comandada por San Martín. O exército de libertação que se formou nessa cidade teve de lutar em duas frentes: contra os espanhóis e contra as províncias do interior que não aceitavam a liderança da capital. Isso contribuiu para atrasar a oficialização da independência.

Embora os criollos de Buenos Aires tivessem rompido com a Espanha, abolido a escravidão e o trabalho forçado desde 1813, a independência da Argentina só foi oficializada em 1816, no Congresso de Tucumã.

Depois de ter garantido a independência da Argentina, San Martín avançou através dos Andes, acompanhado de 4 mil soldados e 250 peças de artilharia. Com o auxílio de forças chilenas lideradas por Bernardo O’Higgins, derrotou os espanhóis e libertou o Chile em 1818.

Em seguida, o chamado “Exercito dos Andes” desembarcou na costa peruana e, protegido por navios ingleses (comandados pelo Lorde Cochrane), libertou o Peru (1821) depois de prolongados combates.

Ao mesmo tempo, outro exército de libertação, comandado por Simón Bolívar, venceu as forças espanholas sucessivas vezes, emancipou a Colômbia (1819), a Venezuela (1821) e o Equador (1822).

Finalmente, em 1825, atendendo ao pedido dos habitantes da região mineira de Potosi, o general José Sucre ocupou La Paz e proclamou a independência da Bolívia.

4. Quadro dos novos países, suas datas de independência e principais líderes

Os vice-reinados e capitanias-gerais da antiga América espanhola, como vimos acima, começaram a sua independência no início do século XIX, mas com o tempo, estas se tornaram fragmentadas, transformados em diversos países. Atualmente são 19, sobre os quais destacaremos no quadro abaixo[6], o ano de sua independência, sua localização e o (s) principal (ais) líder (es) e observações:

Ano/Ind.

Ano País Localização na América Principais Líderes e observações …
1804 Haiti Central

O ex-escravo Toussaint Louverture (deposto e morto pelos franceses) e Jean Jacques Dessalines…

1810 México Norte

Independência da Espanha pelo padre Miguel Hidalgo y Costilla, em 1810.

1811 Paraguai Sul Gaspar Rodrigues de Francia, o “Dr. Francia”.
1816

Argenti-na

Sul José de San Martín
1818 Chile Sul Bernardo O’Higgins
1819 Colômbia Sul

Como país, torna-se independente em 1819, em luta liderada por  Simón Bolívar e Francisco de Paula Santander.

1821 Nicará-gua Central

Foi inicialmente conglomerada das Províncias Unidas da América Central. Independência reconhecida em 1850.

1821 Peru Sul

Tupac Amaru, primeiro a comandar uma revolução inca contra os espanhóis e José de San Martín…

1821 Venezue-la Sul

Fazia parte da Grã-Colômbia. Consegue a independência após Simón Bolívar, seu principal líder.

1825 Bolívia Sul Simón Bolívar
1828 Uruguai Sul

Incorporado ao Brasil entre 1821 e 1828, conseguiu sua independência – do Brasil – em 1828…

1830 Equador Sul

Em 1822, independente como parte da Grã-Colômbia, por Simón Bolívar, da qual se separou em 1830.

1838 Costa Rica Central

Em 1824 passou a integrar a Federação Centro-Americana, dissolvida em 1838.

1838 Hondu-ras Central

Em 1838, Honduras, como país, se separa da República Federal das Províncias Unidas da América Central.

1841 El Salvador Central

Independência juntamente como parte da Capitania-geral da Guatemala, em 1821, mas como país, em 1841.

1844 Repúbli-ca Domi-nicana Central

Juan Pablo Duarte, Francisco del Rosário Sánchez e Pedro Santana.

1847 Guate-mala Central Independência da Capitania-geral da Guatemala, em 1821, mas como país, apenas em 1847, por Rafael Carrera.
1902 Cuba Central Atribui-se a Carlos Manuel de Céspedes o título de “Pai da Pátria” e libertador de Cuba, da Espanha, em 1868.
1903 Panamá Central Fazia parte da Colômbia. A independência, em 1903, foi graças à mediação dos Estados Unidos…

Como observamos pela tabela acima, muito diferente do que aconteceu com a América portuguesa que conseguiu manter seu imenso território unificado, os revolucionários Bolívar e San Martín que desejavam a mesma ideia, não conseguiram este resultado em suas regiões. No Congresso do Panamá, em 1826, Bolívar defendia a unidade da América Latina e a solidariedade continental, o pan-americanismo, aliança e cooperação entre os países americanos. Mesmo antes de morrer em 1830, porém, ela já pudera ver toda a América hispânica independente, mas fragmentada.

Depois disto, surgiram por toda parte a figura dos caudilhos, chefes político-militares, inspirados nos interesses oligárquicos dos antigos criollos, que monopolizavam a vida socieconômica e política de suas regiões, além dos interesses e intervenções da Inglaterra e dos Estados Unidos que não tinham interesse na união proposta por Bolívar. Assim, juntando os interesses dos caudilhos mais os estímulos destas grandes potências, entre outros fatores, cooperaram para a derrota do bolivarianismo.

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Veja mais através do vídeo:

Notas / Referências:

  • [1] Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Am%C3%A9rica_espanhola>. Acesso em 22/10/2016.
  • [2] Adaptado de VICENTINO, Cláudio. Projeto Radix: História, 8º ano. São Paulo: Scipione: 2012.
  • [3] Adaptado de VICENTINO, Op. Cit. Imagem disponível em: <http://quotesgram.com/img/miguel-hidalgo-y-costilla-quotes/2323/>. Acesso em 21/10/2016.
  • [4] Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_de_San_Mart%C3%ADn>. Acesso em 22/10/2016.
  • [5] Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Sim%C3%B3n_Bol%C3%ADvar>. Acesso em 22/10/2016.
  • [6] Informações disponíveis em: <pt.wikipedia.org>, com os diversos links relativos a cada país. Acesso em 21e 22/10/2016.
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