Os Estados Unidos no Século XIX

Neste artigo, pretendemos enfocar o crescimento territorial e populacional dos Estados Unidos após sua independência, em 1776, as disputas entre Norte e Sul, que desencadeia a famosa Guerra Civil ocorrida no século seguinte, com a derrota dos Confederados (sul), o ódio aos negros, promovido por grupos antiabolicionistas como Ku-Klux-Klan, a superação econômica dos norte-americanos, incluindo a região sul e o espírito intervencionista dos Estados Unidos na América Latina.

Durante o processo de colonização das Treze Colônias Inglesas da América do Norte, os Estados Unidos da América do Norte, como passa a ser chamada a nova nação, alcança sua independência em 1776, com uma área territorial que se estendia verticalmente entre o Maine e a Flórida e horizontalmente entre a costa do Atlântico e o Mississipi, como vemos no mapa [1] a seguir.

1.  Expansão territorial

Treze Colônias - 1776

Nas décadas seguintes, os Estados Unidos avançaram suas fronteiras sobre regiões vizinhas, e, aos poucos, transformaram-se numa potência continental que ia do Oceano Atlântico ao Pacífico, como podemos ver no próximo mapa.

Veja no mapa dos atuais Estados Unidos, que este país ocupa uma extensa região que vai de um oceano a outro [2].

EUA - 50 Estados

A expansão e anexação de novos territórios foram acontecendo, logo após sua independência e durante o século XIX, na seguinte ordem:

1783 – território obtido da Inglaterra, após a assinatura do Tratado de Paris.

A Revolução Americana chegou ao fim oficialmente quando representantes de Estados Unidos, Grã Bretanha, Espanha e França assinaram o Tratado de Paris no dia 3 de setembro de 1783. A assinatura significou que os Estados Unidos haviam alcançado o status de nação livre quando os britânicos reconheceram formalmente a independência de suas antigas 13 colônias. As fronteiras da nova república foram acordadas então: da Florida em direção ao Norte até os Grandes Lagos e da costa do Atlântico na direção oeste até as margens do rio Mississipi. [3]

1803 – território da Lousiana comprado da França, por 15 milhões de dólares.

1818 – território cedido pala Inglaterra.

1819 – território da Flórida, comprado da Espanha.

1845 – território do Texas, conquistado do México.

1846 – território cedido pela Inglaterra.

1848 – território do norte do México, conquistado após a guerra com este país.

1853 – território comprado do México, equivalente aos atuais Novo México, Arizona, Califórnia, Utah, Nevada e parte do Colorado.

1867 – Alasca, comprado da Rússia.

Portanto, Os atuais Estados Unidos são formados não apenas por territórios contíguos, isto é, territórios adjacentes, juntos um ao outro. Há também territórios separados uns dos outros. Exemplo disso, são os territórios do Alaska e do Havaí.

O projeto expansionista praticado nos Estados Unidos foi conseguido mediante vários fatores:

  • Doutrina do Destino Manifesto– A Doutrina do Destino Manifesto defendia que ao povo dos Estados Unidos estava reservada, por Deus, a missão de expandir seus valores e sua fé, por meio da expansão territorial.
  • Doutrina Monroe – A Doutrina Monroe, resumida na frase “América para os americanos”, constituiu a base da política externa norte-americana, desde o início do século XIX. Divulgada em 1823 pelo presidente James Monroe, deixava claro que os Estados Unidos iriam se opor a quaisquer tentativas das potências europeias no sentido de recolonização, ou mesmo de interferência, no continente americano.
  • Leide Povoamento – A Lei de Povoamento (Homestead Act) estabelecia que o governo poderia vender terras a um preço bastante acessível para os colonos que quisessem se estabelecer nas terras do Oeste. Essa lei tinha como objetivo o povoamento dessas terras e permitiu que muitas pessoas se tornassem proprietárias.
  • Corrida do Ouro – Expansão e ocupação populacional em sentido oeste, depois da descoberta de ouro na Califórnia, levando à construção das primeiras estradas de ferro ligando o leste e o oeste.
  • Questão indígena– No decorrer da expansão, houve conflitos sangrentos entre os conquistadores europeus e os povos indígenas que habitavam a região: apaches, iroqueses, cherokis, cheyannes etc. Os índios lutaram por suas terras e sua cultura, mas foram derrotados, sobretudo devido à superioridade das armas dos conquistadores e às doenças transmitidas pelos europeus, provocando a morte da maior parte dos povos indígenas.

As principais vítimas foram os povos indígenas. Estima-se que, no início do século XVII, a região hoje correspondente aos territórios dos Estados Unidos e Canadá fosse ocupada por cerca de 10 milhões de indígenas. Nos primeiros anos do século XXI, esse número não chegava a três milhões, sendo que a população total dos Estados Unidos, em 2010, era de mais de 317 milhões de habitantes. [4]

  • Imigração – Entre os anos 1820 e 1860, o número de estados americanos subiu de 23 para 33, e a população aumentou mais de três vezes, passando de 9,6 milhões para 31,3 milhões de habitantes. O crescimento populacional americano foi provocado, em grande parte, pela imigração de aproximadamente 4,6 milhões de europeus, destacando-se irlandeses, alemães e ingleses.

Destino Manifesto - EUA

Esta pintura (cerca de 1872) de John Gast chamada de Progresso Ameri-cano é uma representação alegórica do Destino Manifesto. Na cena, uma mulher angelical, algumas vezes identificada como Columbia (uma personificação dos Estados Unidos do século XIX), segurando um livro escolar, leva a civilização para o oeste, com colonos americanos, prendendo cabos telegráficos, por outro lado, povos nativos e animais selvagens são afugentados. [5]

 

2.  A Guerra de Civil e a questão da escravidão

Apesar da independência das Treze Colônias, a formação do território norte-americano não se deu de modo homogêneo e contínuo. Havia um contraste entre a região Norte e a região Sul, que aumentou ainda mais com o intenso crescimento territorial e aumento da população.

Enquanto o Norte tinha a sua economia baseada na manufatura e no comércio, à base de uma mão-de-obra livre, sobretudo de imigrantes, os estados do Sul tinham sua prosperidade assegurada pela economia agroexportadora e escravista. Assim, os interesses da burguesia industrial do norte entraram em choque com os interesses da aristocracia agrária do sul, convertendo-se em grandes tensões políticas e sociais.

É importante destacar também que a Constituição norte-americana de 1787 determinava que os Estados Unidos da América seriam uma República Presidencialista e Federalista e que cada Estado tinha autonomia para decidir por seu destino em vários aspectos, inclusive no tocante à mão-de-obra. Com isso, a força política dos estados sulistas, que apoiavam a escravatura, e dos nortistas, que apoiavam a abolição, cada vez mais tendeu ao desequilíbrio, ampliando as divergências e os confrontos.

Os Estados Unidos formavam um único país, mas esse país pensava, trabalhava e vivia diferente, abrigando na realidade duas nações: o Norte-Nordeste de um lado e o Sul-Sudeste de outro [6].

Em 20 de dezembro de 1860, foram criados, no Sul, os “Estados Confederados da América”, movimento separatista – daí o termo secessão – iniciado pela Carolina do Sul e seguido por mais seis Estados, com o objetivo de formar um novo país, sustentado nos interesses aristocráticos, latifundiários e escravistas. Os Estados do Norte e do Oeste – os unionistas – reagiram contra esta decisão dos Estados sulistas e declararam guerra, dando origem ao pior conflito do século XIX, conhecido também como Guerra de Secessão, entre 1861 e 1865, que trouxe em seu bojo, um saldo de mais de 620 mil mortos, além de uma grande destruição nos Estados Confederados (sulistas).

Enquanto o sul possuía apenas 1/3 dos 31 milhões de habitantes do país, dos quais mais de três milhões eram escravos, e contava apenas com uma fábrica de armamentos pesados, o norte já contava com pelo menos três fábricas de armas bem mais modernas, um sólido parque industrial, uma vasta rede ferroviária e uma poderosa esquadra. Mesmo com esse contraste totalmente desfavorável, foi o sul que lançou a ofensiva, criando uma nova capital – Richmond – e elegendo para o governo Jefferson Davis, que a 12 de abril de 1861 atacou o forte de Sunter. Se inicialmente o conflito mostrava algumas vitórias do Sul, que instituiu o serviço militar obrigatório e convocou toda população para a guerra, com o prolongamento do conflito, o norte ia consolidando sua vitória. [7]

Os Estados do Sul estavam em grande desvantagem em relação ao do Norte e por isto estes últimos foram vencedores. No dia 28 de junho de 1865, as tropas remanescentes dos Estados confederados do Sul assinaram a rendição.

Lincoln

Cena do filme Lincoln  (2012). O filme re-trata a figura do 16º presidente dos Estados Unidos, um homem que lutou pela liberdade, igualdade de direito e fim da escravidão em seu país.

O congresso não pode declarar iguais, aqueles que Deus criou desiguais”. Esta foi a resposta a Lincoln, que foi assassi-nado, por causa de suas convicções…

Abraham Lincoln (1861 a 1865) [8]: – de origem humilde (trabalhou na roca, serraria e barcos); – filiou-se ao partido Whig (que viria a ser o Partido Republicano), pelo qual foi eleito quatro vezes para a assembleia estadual, entre 1834 e 1840; – era um abolicionista reservado, mas contrário à Secessão. Ele lutava pela unidade das colônias em um só país; – entre 1847 e 1849, como representante de Illinois no Congresso, propôs a emancipação gradativa dos escravos, desagradando tanto os abolicionistas quanto os escravistas; – opôs-se à guerra no México, o que lhe custou a reeleição. – foi eleito presidente dos Estados Unidos em 1860. – em 1861, teve que enfrentar o separatismo de sete estados escravocratas do sul, os Estados Confederados da América; – não reconheceu a secessão, ratificou a soberania nacional sobre os estados rebeldes e conclamou-os à conciliação; – sanciona, em 1862, a “Homestead Act”, lei da reforma agrária, baseada na pequena propriedade, aliado à mão de obra familiar, e que resolveu a questão agrária norte-americana; – mesmo sem sua vontade, o conflito foi desencadeado, e os unionistas (norte) foram vencedores, em 1863. – sua política pacifista, unitarista e abolicionista desagradou muitos poderosos e Lincoln foi assassinado em 14 de abril de 1865. 

Lincoln defendeu e conseguiu manter o país unido. Mas, a derrota sulista motivou o radicalismo de grupos racistas, inconformados com o fim da escravidão. Exemplo disto, foi o surgimento de associações racistas como as do Ku-Klux-Klan, por exemplo.

Ku-klux-klan

Ku-Klux-Klan: Organizações criadas para espalhar o ódio, principalmente, contra os negros nos E.U.A., no século XIX [9] Há várias vertentes dos Ku-Klux-Klan, tendo iniciado em 1867, nos Estados do Sul. Fundada por grupos racistas, seu objetivo era impedir a integração dos negros como homens livres com direitos adquiridos e garantidos por lei após a abolição da escravidão. O traço característico de seus membros era o uso de capuzes cônicos e longos mantos brancos, destinados a impedir o reconhecimento de quem os usava. A intimidação contra os negros atingia também em menor escala brancos que com eles se simpatizavam, além de judeus, católicos, hispânicos e qualquer indivíduo contrário à segregação racial. [10]

3.  Reconstrução e prosperidade [11]

Com a vitória dos nortistas (também conhecidos como yankees), o território  sulista tornara-se, praticamente, uma colônia econômica do Norte. Esta região, rica em minério de ferro, cobre e petróleo tornou-se um grande celeiro para o desenvolvimento de grandes empresas comandadas por magnatas. Seguiu-se então, um processo de mecanização do campo, construção de estradas de ferro, crescente produção industrial, além do grande fluxo de imigrantes que vinham “fazer a América”. Com isso, os Estados Unidos tornaram-se, na última década do século XIX, o grande líder mundial da produção agrícola e industrial.

Todo esse crescimento gerou o aumento interno das riquezas que, quando concentradas nas mãos dos grandes proprietários, procurava novas oportunidades de crescer, quer dentro, quer fora do próprio país.

4.  Imperialismo norte-americano na América Latina

Já no século XIX, teve início a atuação norte-americana sobre a América Latina, ao opor à política intervencionista europeia da Santa Aliança, mediante à Doutrina Monroe (“A América para os americanos”, como vimos acima).

No governo do presidente Theodore Roosevelt (1901–1909), por exemplo, foi aprovado um documento conhecido como Corolário Roosevelt (1905)no qual dizia que os Estados Unidos tinham o direito de intervir em países onde achasse que os seus interesses estavam ameaçados. Essa declaração fez com que a politica externa americana do período passasse a ser conhecida como a política do big stik ou “grande porrete”. O país firmava, assim, o interesse em tornar a América Latina uma reserva de mercado – situação que acabou por se efetivar no final do século XIX e durante o século XX.

Nesse período, os Estados Unidos realizaram diversas intervenções militares na região do Caribe, na América Central e nas ilhas do Pacífico. Essa ampliação de poder internacional levou-os, por exemplo, a apoiar a independência do Panamá em relação à Colômbia, em troca de um acordo (1903), pelo qual arrendaram a Zona do Canal do Panamá – única passagem existente na região ligando os oceanos Atlântico e Pacifico. Somente em 1999 (final do século XX) ocorreria a devolução da autonomia do canal ao governo do Panamá.

Concluindo este estudo, gostaria de salientar que, normalmente, ouvimos expressões como: “a América Latina é o quintal dos Estados Unidos”. Esta expressão ou outra similar, refere-se, via de regra, a um conceito utilizado em ciências política e/ou humana para se referir à esfera de influência dos Estados Unidos no “resto” do continente americano. Ou seja, os Estados Unidos possuem posição dominante, especialmente na América Latina. Alguns críticos chagam a referir que os “Estados Unidos” são a América e os outros são o “resto”.

Big Stick

Nesta charge, observamos a política do Big Stick, de Theodore Roosevelt, trans-formando o Mar do Caribe em um ‘lago’ norte-americano. [12].

No decorrer do século XX, questões relacionadas ao racismo, preconceito e ao princípio ideológico de que os Estados Unidos são uma “nação branca, protestante, democrática e capitalista”, além de ser a “senhora” da América, continuam sendo motivos de muita polêmica e ódio interno e externo, assuntos dos quais nos ocuparemos em outra oportunidade.

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Notas

[1] Mapa disponível em: <http://es.wikipedia.org/wiki/Archivo:13colonias.jpg>. Acesso em 24/06/2014.

[2] Mapa disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Estados_Unidos#mediaviewer/Ficheiro:U.S._Territorial_Acquisitions.png>. Acesso em 28/06/2014.

[3] Disponível em: <ttp://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/1112/conteudo+opera.shtml>. Acesso em 25/06/2014

[4] Idem: Nota 2, p. 160.

[5] Imagem e texto disponíveis em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Destino_Manifesto>. Acesso em 26/06/2014. [6] Veja mais em: http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=346. Acesso em 28/06/2014.

[7] Veja mais em: <http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=361>. Acesso em 26/06/2014.

[8] Veja mais em:<http://www.dw.de/1865-abraham-lincoln-%C3%A9-assassinado/a-306961>. Acesso em 26/06/2014.

[9] Imagem: <http://www.historiadomundo.com.br/curiosidades/ku-klux-klan.htm>. Acesso em 11/05/2015.

[10] Idem, Nota 7. Acesso em 26/06/2014.

[11] Informações sobre a reconstrução, a prosperidade e o imperialismo norte-americano, adaptadas de: VICENTINO, Nota 2, p. 166 e 167.

[12] Imagem disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Expans%C3%A3o_ultramarina_dos_Estados_Unidos>. Acesso em 26/06/2014.

 

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3 respostas a Os Estados Unidos no Século XIX

  1. Carlos Cabingano disse:

    obrigado pelo apoio.

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