Cristianismo e História (2): perseguições aos cristãos do segundo século ao Edito de Milão

Perseguições: do segundo século ao Editão de Milão (313)

“Nada temas das coisas que hás de padecer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados; e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida” (Ap 2.10).

“O sangue dos mártires é a semente dos cristãos” (Tertuliano)

O período da Igreja Cristã Antiga é muito complexo, polêmico e de muitas mudanças no aspecto social, político, doutrinário… Por isto, resolvi dividir o estudo acerca deste período em partes. Nesta, falaremos resumidamente das perseguições a partir do segundo século até início do quarto século, quando acontece a liberdade de culto aos cristãos, em 313.

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A última oração dos mártires cristãos, de Jean-Léon Gérôme (1824 — 1904), apresenta o drama das feras saindo de um elevador para devorar os mártires.

Em a Igreja no primeiro século, vimos que as primeiras perseguições do Estado romano ocorreram no governo do imperador Nero e continuaram de forma esporádica até Trajano. Mas o forte destas perseguições acontece [1] nos séculos seguintes como veremos a seguir.

O imperador Domiciano (81-76)[2] “… parece ter sido o primeiro imperador a perceber que a nova fé representava uma ameaça às velhas tradições romanas” (GONZÁLEZ, Vol. 1, p. 59). Estas ameaças, em linhas gerais, estavam ligadas principalmente, à recusa dos cristãos em reconhecer os deuses do Estado, inclusive prestar culto ao imperador. E, como os imperadores e o povo romano (não cristãos, obviamente) achavam que o não prestar cultos a estes deuses e imperadores eram motivos de crises e tragédias para o império, os cristãos eram obrigados a fazê-lo, senão morreriam. Mas,

“… de modo algum [os cristãos] prestariam culto aos deuses romanos, por ordem do Estado. Jamais colocariam César acima de Cristo. Podemos entender por que, aos olhos dos governos romanos, o Cristianismo parecia um ensino desleal e perigoso para o Estado e para a sociedade. Assim os cristãos foram acusados de anarquistas, sacrílegos, ateus e traidores” (NICHOLS: 1985, p. 31).

Para não serem mortos, bastavam os cristãos negarem o seu Cristo. Bem, os que não negavam a Cristo, sendo-lhe “fiel até à morte” (Ap 2.10), foram milhares. No governo de Trajano (98-117), por exemplo, uma longa lista de cristãos foi apesentada a Plínio, o Jovem, governador da Bitínia (atual Turquia), acusados de serem desleais ao Estado pelos motivos acima expostos. “Plínio simplesmente requereu deles que invocassem aos deuses, que adorassem ao imperador oferecendo vinho e incenso diante de sua estátua, e que maldissessem a Cristo. Quem seguia suas instruções neste sentido, era posto em liberdade…” (Ibidem: p. 63).

Importante destacar que os cristãos eram leais pagadores de tributos a César, conforme aprenderam de Jesus: “dai a César o que é de César” (Mt 22.21) e mesmos os imperadores (Césares) reconheciam que não devessem ser gastos verbas do Estado para persegui-los. Mas, como havia delações acerca de suas reuniões ou cultos, o Estado era obrigado a tomar providências. E “… uma vez que um cristão era delatado e trazido diante dos tribunais imperiais, era necessário obrigá-lo a adorar os deuses do império ou castigá-lo. De outro modo, os tribunais imperiais perderiam toda autoridade” (Ibidem: p. 66).

Dentre os principais mártires[3] do segundo século podemos citar:

  • Inácio de Antioquia, condenado e morto em 107, em Roma, durante o governo de Trajano.
  • Policarpo de Esmirna, martirizado, possivelmente em 155, no governo de Antonio Pio (138-161), mas ainda sob a vigência da lei de Trajano e de seu governador Plínio, do qual já fizemos referência acima.

No governo de Marco Aurélio (161-180), merecem destaques os martírios de:

No início do terceiro século, no governo de Sétimo Severo (193-211) foi imposta mais uma lei de caráter religioso que obrigava todos os súditos do império a cultuar o “Sol Invicto”. A política religiosa de caráter sincretista do imperador tinha o objetivo de uni-los e, obviamente, contrariava os judeus e cristãos do império. O resultado disto foi uma perseguição intensa. Dentre os mártires que seguem até o final das perseguições, merecem destaques os martírio de:

  • Irineu de Leão, um dos mestres da igreja, morto em 202, mesmo ano do edito do culto ao “Sol Invicto”.
  • Perpétua, Felicidade e mais três catecúmenos (pessoas iniciantes que se prepararam para o batismo), mortos em 203, em Cartago. Segundo González, possivelmente estes cinco catecúmenos (Perpétua, Felicidade, Revocato, Saturnino e Secúndulo) eram montanistas montanistas.

O mais famoso dos martírios dessa época é o de Perpétua e Felicidade, que teve lugar por volta do ano 203. É possível que Perpétua e seus companheiros tenham sido montanistas, e que o autor que nos deixou o testemunho de seu martírio tenha sido Tertuliano. Mas em todo caso o que mais nos interessa aqui é o fato de que os mártires são cinco catecúmenos, isto é, cinco pessoas que se preparavam para receber o batismo. Isto concorda com o que dissemos mais acima acerca do edito de Sétimo Severo. O crime de que se acusava a estes cinco jovens, vários deles adolescentes, não era só o fato de serem cristãos, mas também o de se haverem convertido recentemente, desobedecendo assim o decreto imperial. A heroína do ‘Martírio das Santas Perpétua e Felicidade’ é Perpétua, uma mulher jovem de boa posição social que amamentava ainda a seu filho recém-nascido. Acompanhavam-na dois escravos, Felicidade e Revocato, e outros dois jovens chamados Saturnino e Secúndulo, mas de quem se sabe muito pouco. Boa parte do ‘Martírio’[4] está posta nos lábios de Perpétua, e é muito possível que reproduza suas próprias palavras. Em todo caso, quando Perpétua e seus companheiros foram presos e o pai de Perpétua tratou de convencê-la a abandonar sua fé e assim salvar sua vida, ela lhe respondeu que, assim como cada coisa tem seu nome e é inútil tratar de mudá-lo, ela tinha o nome de cristã, e não podia mudá-lo (Ibidem: pp. 135-136).

Segundo nos informa González, depois da morte dos cinco catecúmenos, em 203, a perseguição “amainou” por um bom período. O sucessor de Sétimo Severo, o imperador Caracalla (211-212), tratou de estender a cidadania romana a todos os súditos livres do império, e os que se seguiram, como Eliogábalo (218-222) e Alexandre Severo (222-235), embora continuassem com a política sincretista de Sétimo Severo, desobrigaram cristãos e judeus de seguir esse sincretismo.

Enquanto isto, o número de cristãos aumentava de forma surpreendente, alcançando inclusive as classes abastadas do Império, até que no governo de Décio (249-251), este restaura os velhos cultos romanos. Pensavam seus súditos (exceto, logicamente cristãos e judeus) que a crise econômica e social, provocada, principalmente por causa das invasões bárbaras, aconteciam porque os velhos deuses estavam lhes castigando ou, pelo menos, recusando dar suas bênçãos ao povo. Diziam eles, que

“… quando todos adoravam os deuses, as coisas pareciam caminhar muito melhor e a glória e o poder de Roma eram cada vez maiores. Em consequência, era possível pensar que o que estava sucedendo era que, desde que Roma estava retirando o seu culto, os deuses por sua vez estavam retirando seu favor ao velho Império” (Ibidem: p. 138).

Bem, movido pela campanha de restauração dos velhos cultos, Décio desatou a mais cruel perseguição à igreja, num momento em que os cristãos não estavam mais preparados para enfrentar o martírio. “Esta perseguição foi mais cruel e terrível que qualquer outra que a precedeu. Mas a parte mais dolorosa daquelas cenas de cortar o coração foi o estado debilitado dos próprios cristãos diante do triste efeito do conforto e prosperidade mundana” (MILLER: 2016, p. 231). Desta forma, enquanto alguns foram “fiéis até à morte”, como Orígenes (que morre c. 253), outros negavam sua fé, tornando-se apóstatas. Os cristãos podiam renunciar sua fé, oferecer incenso e comprar um certificado que comprovava isto. Mas outros preferiam fugir. Estes tinham seus bens confiscados e ficavam proibidos de retornar sob pena de morte. E tinham também os chamados Confessores, “… pessoas que haviam confessado sua fé em meio das torturas” (Ibidem: p. 141). Ao que parece, então, eram dados tóitulos de “confessores” àqueles que sofreram perseguição e até tortura por causa de sua fé, mas não ao ponto do martírio.

 Surge então uma questão: o que fazer com os fracos – os caídos – que negavam a fé, compravam certificados que comprovavam sacrifícios aos ídolos do Império, depois se “arrependiam” e voltavam a confessar sua fé novamente? Cipriano, bispo de Cartago, “… insistia na necessidade de regular a admissão dos caídos à comunhão da igreja” (Ibidem: p. 143), decisão contrária à dos confessores e que levou à convocação de um sínodo por parte de Cipriano, para resolver o problema. Depois disto, acontece também um cisma e a existência de dois bispos em Roma, quebrando a unidade da igreja, assunto do qual trataremos num outro momento.

O martírio de Cipriano ocorreu possivelmente em 258, no governo do imperador Valeriano (253-260) e depois disto, os cristãos gozaram de um período de relativa paz até o fim do século III, quando surge o imperador Diocleciano (284-305) e restaura novamente a perseguição aos cristãos.

Diocleciano implanta uma tetrarquia no império, isto é, além dele, que governava o Oriente, havia também Maximiliano no Ocidente; e abaixo destes, Galério e Constâncio Cloro. Seu propósito era assegurar um governo pacífico. E por esta época, os cristãos já constavam em grande número no exército, embora muitos se recusavam por causa de certas cerimônias que eram feitas envolvendo idolatria. E

por volta do ano 295 vários cristãos foram mortos, uns por negarem-se a ser conscritos, e outros porque tentaram abandonar o exército diante dos olhos de Galério [que tinha os cristãos como inimigos], esta atitude dos cristãos com relação ao serviço militar envolvia um sério perigo, pois era possível que em algum momento crítico os cristãos que estavam no exército se negassem a obedecer ordens. Logo, como uma medida necessária para a moral militar, Galério convenceu a Diocleciano da necessidade de expulsar os cristãos das legiões. (Ibidem: p. 166).

Um edito de Diocleciano, que era apenas para castigar os cristãos com a expulsão do exército, acabou ganhando ares de radicalismo em alguns lugares, e alguns deles foram executados.

González afirma que a esposa de Diocleciano, Prisca, e sua filha Valéria eram cristãs. Por isso, tinha simpatia pela igreja. No entanto, ao ser convencido por Galério, Diocleciano lança um edito em 303 com a ordem destruir edifícios e livros sagrados dos cristãos, e que os cristãos não tivessem seus direitos civis preservados. Mas não parou por aí: logo, frente à recusa de muitos fiéis entregarem seus livros sagrados, foram torturados e condenados à morte. Dois incêndios misteriosos no palácio imperial, que a exemplo de Nero, achou melhor culpar os cristãos. Logo, foi ordenado por Diocleciano que todos os cristãos da corte teriam que oferecer sacrifícios diante dos deuses, o que fizeram Prisca, sua esposa, e Valéria, sua filha.

A sequência dos acontecimentos, por causa do edito de Diocleciano, foi uma sangrenta perseguição a todos. Muitos foram martirizados, outros fugiram, e outros ainda sucumbiram ante o terror. Diocleciano renuncia-se por estar muito doente e pressionado por Galério, em 305, e neste ano, os outros dois reis (Maximiliano e Constâncio Cloro) também renunciam o trono. O certo é que a perseguição continuou e na hora de sua morte, em 311, Galério assina o edito de tolerância, em favor dos cristãos, com a obrigação de orarem ao seu Deus pelo bem-estar do império e tranquilidades dos mesmos.

Chega-se ao fim a perseguição aos cristãos, com o edito de Galério. E após a morte deste, no mesmo ano (311), o poder fica dividido entre Maxêncio e Constantino. Na luta entre ambos, Constantino (306-337) torna-se vencedor em 312, na batalha na Ponte Mílvia.

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O “labarum” de Constantino, iniciais do nome Cristo, em grego (XPISTOS).

A vitória de Constantino, segundo diversas fontes, especialmente Lactâncio e Eusébio (cf. González, Op. Cit.), tem relação com uma revelação que Constantino teve, isto é, um sonho, no qual aparecia o “labarum”, símbolo cristão “… que consistia na superposição de duas letras gregas, X e P. Posto que essas duas letras são as duas primeiras do nome de Cristo em grego, o labarum bem podia ser um símbolo cristão” (Ibidem: p. 175).

Com este entendimento acerca da “‘revelação” que teve, Constantino dá ordem para que seus soldados usassem o “labarum” sobre seus escudos e, desta forma, sua vitória foi certa. Bem, Constantino, mesmo depois disto, “… ainda continuou adorando ao Sol Invicto” (Ibidem: p. 176).

Sobre a conversão, o governo e o modo de pensar o Cristianismo, por parte de Constantino, são assuntos para novos capítulos de nosso estudo. Por ora, é importante salientar, que no ano seguinte, em 313, ele assina o famoso Edito de Milão, dando liberdade de culto aos cristãos.

 

Considerações finais

Como vimos, a partir de Domiciano, os cristãos passaram a ser vistos como uma ameaça às tradições romanas e, por isso foram perseguidos. E as perseguições, entre outros motivos, eram, segundo afirmavam, o fato de os cristãos serem anarquistas, sacrílegos, ateus, desleais e traidores do Estado romano.

Em muitos momentos, os cristãos foram solicitados a trocar Cristo por César e seu Deus pelos deuses. E, como muitos não fizeram isto, acabaram sem martirizados: destroçados e comidos pelas feras, crucificados, decapitados, queimados, torturados até à morte…

Mas as perseguições não impediram a igreja cristã de crescer. E o Reino dos céus, “semelhante a um grão de mostarda“ (Mt 13.31), que tem início com um “pequeno rebanho” (Lc 12.32), os apóstolos, foi-se espalhando por todo o Império Romano através de cristãos que se tornaram “mais que vencedores”, cujo sangue tornou-se a “semente” para os novos seguidores desta mesma fé, firme até à morte e coroada com a coroa da vida. O fim da perseguição, pelo menos pelo martírio, chega com o Edito de Milão. Isso foi bom ou ruim? Alguns supõem que foi ruim, uma vez que ser cristão, a partir de então, tornou-se muito fácil e passível de relaxamento espiritual, mas esta é uma questão para novos estudos e questionamentos…

 

Referências bibliográficas:

  • GONZALEZ, Justo L. E até os confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo, Vol. 1, A era dos mártires. São Paulo: Vida Nova, 1995.
  • MILLER, Andrew. A História da Igreja – pp. 01-279. Disponível em: <file:///C:/Users/Sr%20Alcides/Documents/Alcides%20-%202016/História%20&%20Teologia%20da%20Igreja%20Cristã/Historia%20da% 20Igreja%20-%20Andrew%20Miller.pdf>. Acesso em 10/12/2016.
  • NICHOLS, Robert Hastings. História da Igreja Cristã. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana: 1985.

 

Notas

  • [1] Aud GONZÁLEZ, vol. 1. Op. Cit., p.63.
  • [2] As datas (entre parênteses) referem-se ao tempo de governo exercido pelos imperadores.
  • [3]Do ponto de vista cristão e dentro do contexto do Novo Testamento pode-se dizer que mártir é aquele que preferiu morrer a renunciar à sua fé, por defender a veracidade do que consiste ‘ a Palavra de Deus’ entregando a própria vida para este fim, para que a essência desta verdade fosse preservada” (Dicionário Informal).
  • [4] Martírio ou “Martírio das Santas Perpétua e Felicidade” é um texto, provavelmente de Tertuliano, que narra os eventos finais das vidas e o martírio de ambas.

 

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