Martírio de Policarpo de Esmirna

Fiel até o fim.

Fidelis usque ad mortem.

“Senhor Deus Soberano (…) dou-te graças, porque me consideraste digno deste momento, para que, junto a teus mártires, eu possa ser parte no cálice de Cristo. (…) Por isso te bendigo e te glorifico” (Última oração de Policarpo) [1].

O Império Romano estava sendo governado pelo imperador Trajano, em 155, ano em que Policarpo, bispo de Esmirna, tornou-se mártir por amor a Jesus. Era tempo de muita perseguição aos cristãos, motivada principalmente pelo fato de estes não cultuarem os deuses e os imperadores romanos.

Policarpo de Esmirna (ca. 65 a 155)

Um pouco antes de Policarpo, vários cristãos foram delatados pelos inimigos dos cristãos e mortos sem se queixar, pois ‘… tinham em pouca conta as dores do mundo’ (Apud GONZÁLEZ: 1995, p. 70). E depois destes, um jovem em especial, conhecido como o Germânico[2], também foi morto, trucidado pelas feras, aos gritos da multidão que dizia: ‘Que morram os ateus! (…) e que tragam Policarpo!’ (Apud GONZÁLEZ, Op. Cit., p 70).

Como bispo, certamente a morte de Policarpo de Esmirna [3] traria um grande “prejuízo”, principalmente, à igreja cristã, e maior delírio à multidão ávida por sua morte. Por isso, as autoridades ordenaram que buscassem Policarpo.

Segundo Alcebíades Vasconcelos, Policarpo tinha ido à Roma,

… a fim de dirimir uma questão existente entre a igreja oriental e ocidental, no tocante à celebração da Ceia do Senhor. Ao regressar dessa viagem, estava sendo celebrada em Esmirna a temporada de jogos esportivos, que sempre se revestia de feição religiosa. Então, tais jogos estavam sendo assistidos pelo procônsul Statius Quadratus e presididos pelo Asiarca Filipe de Tralles, quando, por causa de sua fidelidade a Cristo, morreram martirizados membros das igrejas de Filadélfia e Esmirna, entre os quais Policarpo (VASCONCELOS: 1980, p. 24).

Ao saber que era procurado, Policarpo fugiu da cidade para uma fazenda próxima, e desta, para outra. Neste primeiro paradeiro, uma pessoa foi torturada para que pudesse informar o local para onde Policarpo tinha ido. E quando soube disto, “… o bispo ancião decidiu deixar de fugir e aguardar os que o perseguiam” (GONZÁLEZ: Op. Cit., p. 70). Quando os oficiais públicos, seus perseguidores, vão à sua casa, são alimentos, enquanto ele perde autorização para orar. Isto ele faz por cerca de duas horas e em seguida os acompanha.

Ao que parece, Policarpo tinha mais de “noventa anos de idade” (MILLHER, Op. Cit., p. 194), neste caso, teria se convertido quando ainda era criança, uma vez que ele mesmo afirma no momento de sua morte, ter servido a Cristo por 86 anos.

O procônsul procurava livrar Policarpo da morte, movido de certa compaixão pela sua idade avançada, por isso tenta persuadi-lo a negar a Cristo, aos gritos da turba que dizia: ‘abaixo os ateus. Mas dada a insistência do juiz para que maldissesse a Cristo para ficar livre, ele responde: “vivi oitenta e seis anos servindo-lhe, e nenhum mal me fez. Como poderia eu maldizer ao meu rei, que me salvou?” (GONZÁLEZ: Op. Cit. pp. 70-71). Como os pedidos para negar seu Senhor e as ameaças eram vãs, foi informado a decisão de Policarpo ao público do anfiteatro: “‘Policarpo se declarou cristão’, [enquanto a população, enfurecida afirmava], ‘este é o mestre do ateísmo, o pai dos cristãos, o inimigo de nossos deuses,  [e] por culpa dele tantos têm deixado de oferecer os sacrifícios…” (MILLHER,  Op. Cit. p. 194).

Ainda na tentativa de fazer Policarpo mudar de opinião, foi-lhe pedido para que convencesse a multidão, mas ele afirma que ela (a turba) era indigna de escutar sua defesa. Por isso, foi ameaçado de ser lançado às feras e depois de ser queimado vivo.

Policarpo respondeu que o fogo que o juiz podia acender duraria somente um momento, e logo se apagaria, mas que o castigo eterno nunca se apagaria. Ante a firmeza do ancião, o juiz ordenou que Policarpo fosse queimado vivo e toda a população saiu a apanhar ramos para preparar a fogueira. Atado já no meio da fogueira, e quando estavam a ponto de acender o fogo, Policarpo elevou os olhos ao céu e orou em voz alta: Senhor Deus Soberano (…) dou-te graças, porque me consideraste digno deste momento, para que, junto a teus mártires, eu possa ser parte no cálice de Cristo. (…) Por isso te bendigo… Amém. (GONZÁLEZ, Op. Cit., p 72).

Segundo Miller (p. 165), no meio da multidão havia judeus. Considerando o que Alcebíades (acima) fala acerca do festejo que estava sendo oferecido à deusa Cibele, é muito estranho a posição deles, que conheciam tão bem o monoteísmo pregado e crido em sua cultura, se colocarem contra alguém que defendia o seu próprio Deus e o deles também – embora não aceitassem o Cristo dos cristãos – e se colocarem a favor de um ídolo ou ídolos/deuses! Será que estes judeus faziam parte da “sinagoga de Satanás”, de que fala Jesus, em Apocalipse 2.9, em sua carta dirigida à igreja daquela cidade?

Dentro da fogueira, cujas chamas não quiseram (ou demoraram) consumi-lo, Policarpo foi alvejado por uma “lança” que o matou e deixou o povo satisfeito com a vingança do homem que pregava contra seus deuses e por terem a oportunidade de ver sangue derramado. Este tão cruento martírio deixou o procônsul cansado e decidido a não aceitar mais o julgamento de cristãos perante o tribunal de sua cidade.

Jesus disse em uma das sete cartas do Apocalipse, dirigida ao anjo da igreja de Esmirna: “Nada temas das coisas que hás de padecer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados; e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida” (Ap 2.10).  Vejamos que a perseguição era obra do “diabo” e que para enfrentá-la era exigida fidelidade dos servos de Jesus. A recompensa era e é o recebimento da “coroa da vida”. Assim como Policarpo, Germânico e muitos outros que foram fiéis “até à morte” na perseguição em Esmirna, a mesma solicitação é feita a todos os cristãos em todo o tempo e lugar. Que o Espírito Santo nos ajude a fazermos nossa parte: “ser fiel até à morte”…

 

Referências bibliográficas:

  • GONZALEZ, Justo L. Uma história ilustrada do cristianismo, Vol. 1 – A era dos mártires. São Paulo: Vida Nova, 1995.
  • HISTÓRIA e Bíblia. O martírio de Policarpo, bispo de Esmirna. Disponível em: <http://historiaebiblia.blogspot.com.br/2010/05/normal-0-21-false-false-false_24.html>. Acesso em 15/12/2016.
  • MILLER, Andrew. A História da Igreja – pp. 44-46. Disponível em: <file:///C:/Users/Sr%20Alcides/Documents/Alcides%20-%202016/História%20&%20Teologia%20da%20Igreja%20Cristã/Historia%20da%20Igreja%20-%20Andrew%20Miller.pdf>. Acesso em 27/11/2016.
  • VASCONCELOS, Alcebíades Pereira de. Cartas às 7 Igrejas da Ásia. Rio de Janeiro: Casa Publicadora  das Assembleias de Deus, 1980.

 

Notas:

  • [1] Apud GONZÁLEZ, Op. Cit., p.72.
  • [2] González (Op. Cit., p. 70) faz referência a Germânico como um “ancião”, ao qual foi dito “… que tivesse misericórdia de sua idade e abandonasse a fé cristã”. No entanto, em outros textos, este Germânico aparece como um “jovem”, ainda de tenra idade. No texto a seguir, por exemplo, encontramos: “E contam que distinguiu-se especialmente o nobilíssimo Germânico, que com a ajuda da graça divina sobrepôs-se à covardia natural ante a morte do corpo. O Procônsul queria persuadi-lo e alegava como pretexto sua idade, e suplicava-lhe que, já que estava na flor da juventude, [Grifos e negritos meus] ,tivesse compaixão de si mesmo; mas ele não vacilou, mas valentemente atraiu para si as feras, quase forçando-as e atiçando-as, para poder afastar-se mais rapidamente da vida injusta e criminosa daqueles.” (Da obra História Eclesiástica, Livro IV, XV, Eusébio de Cesareia apud <http://historiaebiblia.blogspot.com.br/2010/05/normal-0-21-false-false-false_24.html>. Acesso em 14/12/2016.
  • [3] Imagem disponível em: <http://foraheresia.blogspot.com.br/2014/07/policarpo-de-esmirna-biografia-obras.html>. 15/12/2016
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