Infalibilidade: católicos X protestantes

Infalibilidade[1] é o estado de ser isento de erro. Em inglês, “infalível” aparece na AV (“Authorized Version”) em At. 1.3 com referencia à ressurreição de Cristo. Todavia, não há palavra correspondente no grego, sendo omitida nas versões posteriores.

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Papa Francisco com a Bíblia (*)

O fato de que a revelação de Deus em Jesus Cristo é infalível, no sentido geral de fornecer à humanidade o caminho infalível da salvação, é aceito por todos os cristãos, mas o lugar exato da infalibilidade é uma questão de controvérsia. Três principais linhas de pensamento podem ser discernidas, as quais correspondem à três divisões principais da cristandade. A Igreja Ortodoxa Oriental acredita que os concílios gerais da Igreja são guiados pelo Espírito Santo, de modo que não erram; a Igreja Romana acredita que o papa é pessoalmente preservado do erro por Deus; e o pensamento protestante depende da suficiência da Escritura Sagrada como guia da auto-revelação de Deus. Podemos inter-relacionar estas três teorias da seguinte maneira: os cristãos de todas as tradições atribuem às Sagradas Escrituras um lugar sem igual na determinação do evangelho, e existe um extenso corpo de fé em comum que delas é derivado. Esta fé em comum é escrita e definida ainda mais pelos concílios realizados nos primeiros séculos, dos quais pelo menos quatro recebem aprovação universal. A Igreja Ortodoxa continua a depender de concílios, a Igreja Latina finalmente chegou a definir o papado como o lugar exato da infalibilidade, ao passo que os protestantes confiam nas Escrituras como derradeira fonte de autoridade. Atenção especial deve ser dada à doutrina da infalibilidade papal e à doutrina protestante da suficiência e supremacia das Escrituras

1. Infalibilidade do papa

A doutrina da infalibilidade do papa foi definida pela Igreja Católica Romana no ano de 1870. Declara que o papa é capacitado por Deus a expressar infalivelmente o que a Igreja deve crer, quanto às questões de fé e moral, quando fala na sua capacidade oficial de “vigário de Cristo na terra” ou ex cathedra.

A expressão [ex cathedra] significa “do trono” é usada para descrever certas declarações ou pronunciamentos feitos pelo papa em suas atribuições na terra como cabeça da igreja e vigário de Cristo. Tais declarações são aceitas pelos católicos romanos como infalíveis. No entanto, não há nenhum critério infalível mediante o qual seja possível determinar quando uma declaração realmente é ex-cathedra. Nem todas as declarações papais são consideradas dentro desta categoria especifica[2]  (Veja também nota 3) .

Por trás deste dogma estão três pressuposições discutidas por outros cristãos: (1) que Cristo instituiu o cargo de “vigário” para Sua Igreja na terra; (2) que este cargo é exercido pelo bispo de Roma; e (3) que o vigário de Cristo é infalível nas suas declarações sobre fé e moral. Os fundamentos nos quais a Igreja de Roma baseia estas pressuposições podem ser resumidos da seguinte maneira: (1) A declaração de nosso Senhor a Pedro registrado em Mt 16.18: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”, subentende que Cristo fez de Pedro o cabeça da igreja ou o seu “vigário na terra”. (2) Pedro foi bispo em Roma e, por isso, constituiu esta sé no bispado supremo sobre a terra, transmitindo aos seus sucessores a prerrogativa de ser o vigário de Cristo. (3) O vigário de Cristo deve ser infalível pela própria natureza do caso. Os três argumentos são necessários à doutrina da infalibilidade papal, e revelam uma falibilidade que torna impossível às Igrejas Ortodoxa e Protestante aceitá-los.

Recentemente, as atitudes católico-romanas diante da infalibilidade papal mudaram um pouco[3] como resposta ao diálogo ecumênico, à investigação histórica e, mais recentemente, ao livro de Hans Küng. O desafio de Küng, provocado pela regra papal sobre os anticoncepcionais, deu origem a um debate vasto e ainda sem solução dentro do catolicismo. Küng argumentou que o cargo didático do papa (magisterium), na realidade, tinha tomado muitas decisões oficiais contraditórias e errôneas no decurso dos séculos, e que os católicos devem, portanto, somente falar de uma “indefectibilidade da Igreja”, posição esta de semelhança marcante àquela de alguns protestantes, conforme têm indicado muitos católicos. O debate tem forçado todos os católicos a definirem com maior clareza exatamente aquilo que a infalibilidade papal envolve, de modo que possam cortar muitas ideias exageradas sobre ela; e muitos católicos progressistas têm procurado incluir bispos, teólogos e até mesmo a igreja inteira na sua ideia de uma tradição de fé verdadeira, infalivelmente preservada. Enquanto isso, os historiadores têm demonstrado que a indefectibilidade da igreja era o conceito reconhecido no Ocidente até cerca de 1200, quando, então, foi lentamente substituído pela infalibilidade da igreja e, finalmente, pela infalibilidade do papado, posição esta proposta pela primeira vez em cerca de 1300, mas calorosamente debatida nas escolas e nunca sancionada oficialmente senão em 1870.

2. Infalibilidade das Escrituras

Quando nos voltamos ao pensamento protestante ou evangélico no tocante a esta questão, descobrimos que, quando a palavra é usada, a infalibilidade é atribuída às Escrituras do AT e do NT, como o registro profético e apostólico. Assim acontece no quádruplo sentido (1) de que a Palavra de Deus infalivelmente atinge o seu propósito, (2) de que nos dá testemunho fidedigno da revelação salvífica e da redenção divina em Cristo, (3) de que ela nos fornece uma norma autorizada de fé e conduta, e (4) de que através dela fala o Espírito de Deus infalível que a deu.

Em anos recentes, a concentração sobre as questões históricas e científicas, e a suspeita da infalibilidade dogmática alegada pelo papa, têm levado a críticas severas de todo o conceito, mesmo quando é aplicado à Bíblia; e deve ser concedido que o próprio termo não é bíblico e não desempenha um papel de muita importância na própria teologia da Reforma. Mesmo assim, nos sentidos indicados, está bem adaptado para ressaltar autoridade e autenticidade das Escrituras. A Igreja aceita e preserva a Palavra infalível como o verdadeiro padrão da sua apostolicidade; porque a própria Palavra, isto é, a Sagrada Escritura, deve sua infalibilidade, não a qualquer qualidade intrínseca ou independente, mas ao assunto e Autor divinos, a quem o termo “infalibilidade” pode ser apropriadamente aplicado.

Ironicamente, os ataques contra a infalibilidade bíblica, que durante mais de um século vinham principalmente dos protestantes liberais, vieram nesta última década [anos 90] da parte de conservadores, que argumentam que somente “inerrância” (outra palavra não achada nas Escrituras) protege adequadamente a total veracidade e fidedignidade da Bíblia. Os evangélicos dos grupos principais, portanto, especialmente aqueles que aceitam alguns dos métodos e conclusões do estudo moderno das Escrituras, são forçados a defender o conceito tradicional da infalibilidade da Bíblia contra os liberais, como base necessária para receber a revelação divina, colocando-as contra conservadores como base adequada.

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Veja também o vídeo a seguir:

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Notas / Referências: 

  • (*) Imagem disponível em: <https://presentepravoce. wordpress.com/2009/06/28/o-magisterio-da-igreja-recomenda-ler-a-biblia/>. Nesta mesma página encontramos a frase: “A Igreja reconhece que muitos anos se passaram e e o povo perdeu o costume, a vontade e o amor pela Palavra de Deus“.
  • [1] Texto adaptado de: Infalibilidade. PROCTOR, W.C.G. e ENGEN, J. Van. In: ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. II. São Paulo. Vida Nova, 1990, p. 329 a 331.
  • [2] TOON, P. Ex Cathedra. In: ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. II. São Paulo. Vida Nova, 1990, p.130.
  • [3] “O que a doutrina da infalibilidade papal afirma é que o Papa é infalível quando fala nas condições ‘Ex Cathedra’, e isso faz toda a diferença. O que significa isto? Ex Cathedra (do latim) significa, literalmente, ‘da Cadeira’ ou ‘do Trono’. Quer dizer que o Papa é infalível quando se pronuncia a partir do Trono de Pedro, isto é, como Sumo Pontífice, como o sucessor daquele que recebeu as Chaves do Reino dos Céus, líder e condutor terreno de toda a Igreja, exclusivamente nas seguintes condições: 1) Quando se pronuncia como sucessor de Pedro, usando o poder das Chaves concedidas ao Apóstolo pelo próprio Cristo Jesus (Mt 16,19); 2) Quando o objeto do seu ensinamento é a moral, fé ou os costumes; 3) Quando ensina à Igreja inteira; 4) Quando é manifesta a intenção de dar decisão dogmática (e não alguma simples advertência), declarando anátema que se ensine tese oposta”. A infalibilidade papal: o Papa é infalível? Quando? Como? In: O fiel católico – Revista de Teologia-catequese-doutrina. Disponível em: <http://www.ofielcatolico.com.br/search?q=infalibilidade&btnG= Pesquisar+neste+Site>. Acesso em: 23/08/2017.
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