O Protoevangelho: breve análise de Gênesis 3.15

A primeira profecia: O Protoevangelium![1]

A palavra “salvação”, do grego σωτηρία (soteria), tem um significado bastante amplo como cura, remédio, recuperação, redenção, bem estar… No sentido especificamente espiritual, baseado, sobretudo no conceito neotestamentário, significa a libertação ou redenção do homem do poder do pecado, por intermédio da fé em Cristo, e o seu descanso eterno após a morte. A salvação também tem um tríplice aspecto temporal: passado, presente e futuro. É em relação ao aspecto passado, no chamado protoevangelho, descrito em Gênesis 3.15, isto é, a primeira vez que surge a ideia de evangelho e, consequentemente, a primeira promessa de salvação feita por Deus ao homem, é que queremos destacar neste breve artigo.

1. O pecado do homem e a promessa de redenção

“Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15)[2]

As palavras ditas por Deus (Elohim) no texto em referência são em consequências do que ocorreu nos versículos anteriores. O casal Adão e Eva resolveu desobedecer a Deus, comendo do fruto da árvore que estava no meio do jardim (Gn 3.3), dando assim início ao pecado no mundo. Obviamente, que há muita objeção quanto à existência literal deste casal, mas não há como rejeitar sua historicidade, principalmente, porque documentos antigos tratam deste assunto, sobretudo entre os mesopotâmicos, região onde, segundo a Bíblia, ficava o referido jardim e consequentemente aconteceu o fato descrito no referido texto. Afirmamos isto por causa da descrição geográfica do Jardim do Éden em Gn 2.10-14. Dois rios, o Tigre e o Eufrates são mencionados neste texto e tornaram-se a base da região que veio a ser chamada de “Mesopotâmia” (entre rios), onde se desenvolveram as primeiras civilizações.

Além disso, os autores do Novo Testamento aceitaram a historicidade literal de Adão e Eva.  O apóstolo Paulo, por exemplo, chama o ato de desobediência do casal de pecado e afirma que este entrou no mundo a partir desse momento. “Por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens” (Rm 5.12). A morte (física e espiritual) foi a grande e triste consequência deste ato. Também aceita o relato de Gênesis 3 como literal ao afirmar que “…primeiro, foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão” (1Tm 2.13-14). “Não há nenhuma dúvida que os autores do Novo Testamento aceitaram a historicidade literal de Adão e Eva. A origem da raça humana é necessariamente assunto de revelação da parte de Deus, visto que nenhum registro escrito poderia remontar a uma época anterior à invenção da escrita[3]”.

selo de ‘Adão e Eva’ foi descoberto na Mesopotâmia pelo arqueólogo George Smith, do Museu Britânico, e datado de 2200 a 2100 A.C.. A cena retratada no selo sugeria-lhe a história bíblica da tentação de Adão e Eva. Um homem e uma mulher estão sentados ao pé de uma árvore. Uma serpente está atrás da mulher.[4]

Mas o casal recebeu de Deus a primeira promessa de redenção. Antes, porém, haveria uma grande batalha entre a mulher, mãe da raça humana, e a serpente, personificação de Satanás. Esta batalha seria o resultado da inimizade posta por Deus entre ambos. Como resultado, a mulher teria o calcanhar ferido pela serpente, enquanto esta teria a cabeça ferida (esmagada) pela mulher.

2. Uma exegese de Gênesis 3.15: como a serpente teve sua cabeça esmagada?

“E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (Jo 3.14-15).

A luta entre a mulher e a serpente, bem como o seu resultado, tem que ser analisada à luz da história da redenção da humanidade, cuja promessa começa em Gênesis 3.15. E esta resposta encontra-se no decorrer das Escrituras, sobretudo no Novo Testamento.

A partir da sentença dada ao casal, este foi lançado fora do jardim (Gn 3.20) e seguiu-se, a partir da mulher, Eva, “… mãe de todos os seres humanos” (Gn 3.20), toda a história da raça humana e também a promessa de redenção através da “semente” (descendência) de Eva, até que vindo “… a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4.4), para “… destruir as obras do diabo” (1Jo 3.9), ilustrado na figura da serpente do jardim. Digno de nota é também a figura de outra “serpente” (curadora, salvadora) levantada no deserto (Nm 21.9), e que é relembrada por Jesus em João 3.14-15, como tendo tido, nEle o seu cumprimento. Aquela serpente do deserto aponta para aquele que esmagaria a cabeça da antiga e má serpente, descrita em Gênesis 3.15. Jesus foi ferido no “calcanhar”, simbolizado pela cruz. Mas, por meio de sua morte, “aquele que não conheceu pecado [mas] o fez pecado por nós” (2Co 5.21), consumou  toda a sua obra (Jo 19.30), julgou o mundo e expulsou o seu príncipe, o Diabo e Satanás (Jo 12.31; 16.11). Portanto, a vitória de Cristo sobre o Diabo, a “antiga serpente” (Ap 20.2) se deu por meio de sua morte e ressurreição dos mortos.

Mas seu significado vai além disto. No vídeo abaixo, o bispo Ildo Mello descreve a mensagem do protoevangelho como sendo o início do plano de redenção, a partir do qual flui todo o resto da Bíblia, ou seja, o Primeiro Adão caiu, mas o Segundo Adão, Jesus Cristo (1Co 15.45), foi o vitorioso (Jo 16.33). E destaca uma sequência desta vitória da seguinte forma: Natal (o nascimento do descendente da mulher); Páscoa (ferimento de seu calcanhar) e sua Segunda-Vinda (triunfo final sobre o Maligno).

3. Maria é a Segunda Eva, conforme Apocalipse 12?

“… o dragão se deteve em frente da mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho quando nascesse. Nasceu-lhe, pois, um filho varão, que há de reger todas as nações com cetro de ferro. E o filho foi arrebatado para Deus até ao seu trono” (Ap 12. 4-5).

O que diz a teologia católica sobre a mulher de Gn 3.15 e Ap 21? Na nota de rodapé de minha bíblia católica[5] traz o seguinte comentário sobre Gênesis 3.15: ”Esta: trata-se da posteridade da mulher, da qual Jesus Cristo é o mais eminente representante. – Estes vers. Contém o gérmen da promessa messiânica”. E na nota de Apocalipse 12.1 encontramos: “Uma mulher: esta mãe mística é a Cidade de Deus, a Jerusalém celeste. A sinagoga, em sua madureza [sic] espiritual, dá-se a luz a Cristo e em seguida a Igreja dá à luz os cristãos. Os seus traços adaptam-se também a Nossa Senhora, à Virgem Maria: nas dores de sua ‘compaixão’ ela dá à luz os irmãos de Jesus que formam, unidos com ele Cristo total”.

Estes comentários referentes aos textos descritos acima, em se tratando de Cristo, não estão muito diferentes da teologia protestante reformada. Jesus Cristo é de fato o mais “eminente representante da linhagem da mulher” (Gn 3.15), e este veio dos judeus, o que parece indicar a expressão “sinagoga”, na nota de Ap 12.1. Jesus constitui sua Igreja e esta dá à luz aos cristãos. Estes, por sua vez, por sua fidelidade a Cristo, terão a grande promessa de brevemente, o Deus de paz, esmagar a Satanás debaixo dos seus pés (Rm 16.20). Portanto, a mulher de Apocalipse 12 é o povo de Deus, tanto do Antigo Testamento, Israel, quanto do Novo Testamento, a Igreja.

E Maria, a mulher que deu à luz a seu filho Jesus? A teologia católica vê Maria numa posição especial em relação a ambos os textos (Gn 3.15 e Ap 12). Exemplo disto são as diversas imagens de Maria[6] pisando a cabeça da serpente. Obviamente, Maria teve papel especial nestas profecias, como instrumento de Deus, ao ser escolhida para ser a mãe terrena de seu Filho Jesus, mas jamais, segundo a Bíblia, ela pode ser vista nesta posição em que a Igreja Católica a coloca. Por exemplo, no comentário de Ap 21, aparece a referencia à Maria  que “dá à luz os irmãos de Jesus que formam, unidos com ele Cristo total”. Isso significa dizer que Maria, além de mãe de Jesus, foi também mão do Cristo, o Verbo de Deus, e mãe da Igreja. O que podemos afirmar é que Maria também esmagou e trinfou sobre Satanás por ser parte da Igreja, que como um todo, há de “… julgar os próprios anjos…” (1Co 6.3). Mas isto por causa dos méritos de Cristo. “Porque, como, pela desobediência de um só homem [Adão], muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só [Jesus Cristo], muitos se tornarão justos” (Rm 5.19).

Veja a seguir a explanação do bispo metodista Ildo Mello, de O “Protoevangelium”…

“Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou” (Rm 8.37)

Soli Deo Gloria!

 

Notas / Referências: 

  • [1] Disponível em: <https://artigos.gospelprime.com.br/primeira-profecia-o-protoevangelium/>. Acesso em: 04/10/2017.
  • [2] Todas as referências utilizadas neste artigo são da versão ARA (Almeida, Revista e Atualizada).
  • [3] ARCHER JR. Gleason. L. Merece confiança o Antigo Testamento? São Paulo, Vida Nova: 1984, p. 114.
  • [4] Disponível em: <http://museudearqueologiabiblica.blogspot.com.br/2014/11/o-selo-mesopotamico-da-tentacao.html>. Acesso em 04/10/2017.
  • [5] Bíblia Sagrada – 25ª edição. São Paulo: Ed. Ave Maria: 1978.
  • [6]  Por exemplo, A gravura de “Mary and Eve”. In: <http://resistenciaprotestante.blogspot.com.br/2015/12/uma-analise-teologica-da-gravura-mary.html>. Acesso em: 04/10/2017.

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Veja também:

  • A mulher grávida que pisou a cabeça da cobra – uma leitura crítica. In: <https://artigos.gospelprime.com.br/mulher-gravida-que-pisou-cabeca-da-cobra-uma-leitura-critica/>.
  • A primeira profecia: O Protoevangelium!. In: <https://artigos.gospelprime.com.br/primeira-profecia-o-protoevangelium/>.
  • O redentor vindouro em Gênesis 3.15. In:<http://institutogracairresistivel.blogspot.com.br/2013/11/mensagem-de-esperanca-em-genesis-315.html>.
  • Uma Análise Teológica da gravura “Mary and Eve” de Grace Remington. In: <http://resistenciaprotestante.blogspot.com.br/2015/12/uma-analise-teologica-da-gravura-mary.html>.
  • Quem é a mulher de Apocalipse 12?. In: <http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2015/09/quem-e-mulher-de-apocalipse-12.html>.
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