A igreja oriental

Por

GONZÁLEZ, Justo L. Uma história ilustrada do cristianismo: a era das trevas. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 87 a 114.

Durante os primeiros capítulos deste volume nossa atenção se dirigiu quase exclusivamente para o Ocidente, a região do Império Romano que falava principalmente o latim. Isto é justo, pois deste cristianismo ocidental é que quase todos nós, tanto católicos como protestantes, somo herdeiros. Por isso a maior parte da nossa narração tratará dele. Porém não devemos esquecer que, enquanto sucediam os acontecimentos a que temos nos referido, ainda existia uma igreja pujante na porção oriental do velho Império Romano. Foi nesta parte do Império, na Palestina, onde o cristianismo teve sua origem. Em Antioquia os seguidores do “caminho” foram chamados “cristãos” pela primeira vez. Em Alexandria se formou boa parte da teologia cristã antiga. A cidade de Constantinopla foi fundada para ser uma nova Roma cristã. Portanto, faríamos mal se esquecêssemos a história desta parte tão importante da igreja cristã.

Como veremos neste capitulo, e através de toda nossa história, o cristianismo oriental logo desenvolveu características muito distintas das do Ocidente. Já que o Império continuou existindo no Oriente por mais mil anos depois que os bárbaros destruíram o Império do Ocidente. Isto, por sua vez, quer dizer que o estado teve quase sempre um domínio efetivo sobre a igreja. No volume anterior vimos a trágica história de João Crisóstomo, em seus conflitos com a coroa. Esta história é um exemplo das relações entre igreja e estado que prevaleceram durante séculos no Império Bizantino. O imperador tinha a última palavra, não só em assuntos civis e administrativos, como também em questões de doutrina.

A consequência imediata disto foi que os debates doutrinários, que sempre tinham sido mais ativos no Oriente que no Ocidente, ficaram cheios de intrigas. O partido que ganhava conseguia que seus opositores fossem depostos e exilados. Para triunfar no debate o importante não era tanto ter razão, como ter o apoio do imperador e dos seus ministros. Não faltaram casos em que os contendores fizeram uso direto da violência. E as questões que eram debatidas se tornaram cada vez mais detalhadas e abstratas.

Tudo isto, entretanto, não nos deve fazer pensar que o que acontecia no Oriente não tinha importância. Durante o período que estamos estudando, a igreja ainda era unida, e mesmo que aos historiadores possa parecer que já existiam diferenças marcantes entre Oriente e Ocidente, aos que coube viver naqueles tempos parecia que o mais importante era a unidade da igreja, apesar destas diferenças. Por isso, os debates teológicos que estudaremos neste capítulo, se bem que tiveram lugar principalmente no Oriente, nunca sacudindo verdadeiramente a igreja ocidental, foram de grande importância para toda a igreja, e podemos sentir seu impacto até os nossos dias. Mais tarde tanto a igreja ocidental como a oriental aceitavam o resultado final destas controvérsias.

Esboço dos sete primeiros concílios

Em termos gerais podemos dizer que estes debates teológicos tiveram por pontos culminantes os sete primeiros concílios ecumênicos. No volume anterior tratamos dos dois primeiros. Porém em todo caso, como esboço do que já dissemos e do que segue, trazemos aqui a seguinte lista daqueles primeiros concílios, com suas respectivas datas:

1) Nicéia – 325
2) Constantinopla – 381
3) Éfeso – 431
4) Calcedônia – 451
5) II Constantinopla – 553
6) III Constantinopla – 680-681
7) II Nicéia – 787

Como vemos, a narração dos debates que tiveram lugar ao redor destes concílios nos levará aproximadamente à mesma data em que deixamos nosso relato no Ocidente, ou seja, a coroação de Carlos Magno como imperador no ano 800. Os dois primeiros concílios, de Nicéia e Constantinopla, trataram principalmente da controvérsia ariana, que discutimos no volume anterior. O leitor se lembrará que esta controvérsia se referia à relação entre o Pai e o Filho ou Verbo (e, em suas etapas finais, o Espírito Santo). O resultado deste debate foi a promulgação da doutrina trinitária pelos concílios de Nicéia e Constantinopla.

O tema que a partir de então ocupará a atenção dos teólogos, e que irá definir todos os concílios, até o sexto, se relaciona estreitamente com o anterior, e consiste no modo com que a humanidade e a divindade se relacionam em Jesus Cristo. Em outras palavras, enquanto que na controvérsia ariana o debate era principalmente trinitário, neste novo período o debate será cristológico. Por último, o sétimo concílio ecumênico tratará das imagens. Passemos, então, a discutir a progressão das controvérsias cristológicas.

Apolinário e o concílio de Constantinopla

As controvérsias cristológicas tinham profundas raízes nas diferentes maneiras de encarar a fé cristã e a tarefa da teologia. Já no primeiro volume desta história vimos que desde épocas muito antigas começaram a surgir diferentes tipos de teologia em diferentes regiões do Império. No Oriente podemos descrever estas duas posições referindo-nos a duas grandes cidades que desde tempos antigos tinham sido principais centros da atividade teológica: Antioquia e Alexandria. Isto não quer dizer, naturalmente, que em cada uma destas cidades todos pensavam igual. Por exemplo: sempre houve em Antioquia os que se aproximavam mais da perspectiva alexandrina que da antiocana. Porém em termos gerais, para esclarecer a situação, a distinção entre a teologia de Antioquia e a de Alexandria é válida.

Em Alexandria, pelo menos desde tempos de Clemente até fins do século segundo, os teólogos cristãos tinham interpretado sua fé à luz da tradição platônica. Para eles o importante era descobrir as verdades eternas, assim como Platão tinha tentado conhecer o mundo das ideias imutáveis. O cristianismo era acima de tudo a verdadeira filosofia, superior ao platonismo, não porque fosse diferente deste, mas porque o superava. A Bíblia era um conjunto de alegorias em que o leitor instruído poderia descobrir as verdades eternas. Deste ponto de vista, ao tratar da pessoa de Jesus Cristo, o que importava aos teólogos alexandrinos era sua função como mestre das verdades eternas, como revelação do Pai inefável. Sua humanidade não passava de instrumento através do qual o Verbo divino se comunicava com os seres humanos. Por isso, os teólogos alexandrinos davam ênfase especial à divindade de Jesus Cristo.

Em Antioquia o cristianismo era visto de outro modo. Antioquia ficava perto da Palestina, e tanto na cidade como em suas vizinhanças havia muitos judeus que constantemente serviam de advertência aos cristãos, lembrando-os do sentido literal e histórico das Escrituras. As terras em que Jesus tinha vivido e caminhado estavam próximas, e por isso não era possível prescindir do Jesus histórico ou relegá-lo a segundo plano. Além disso desde tempos antiquíssimos os intérpretes antiocanos tinham encarado a Bíblia não como conjunto de alegorias, mas como uma narração que contava as relações de Deus com seu povo e sua criação. Para eles isto era mais importante que as verdades eternas. Jesus não viera tanto para nos revelar princípios antes desconhecidos, quanto iniciar uma era nova, com uma humanidade nova: a igreja. Séculos antes Irineu tinha dito que desde o início da criação Deus tivera o propósito de se unir à humanidade, e que agora o fizera em Jesus Cristo, para que todos os seus seguidores, nós, pudéssemos nos unir com Deus. Desta perspectiva, ao falar da pessoa de Jesus Cristo, o importante não era sua função como mestre de verdades eternas, ou como revelação do Pai inefável, mas sua realidade histórica, sua humanidade, que era como a nossa. A mensagem cristã consistia precisamente em que agora, em Jesus Cristo, Deus tinha se unido à humanidade. Por isso os teólogos antiocanos se sentiam obrigados a rejeitar toda interpretação da pessoa de Cristo que, de um ou outro modo, negasse ou ocultasse a realidade da sua humanidade.

Por outro lado, muito antes de começarem as controvérsias que vamos estudar agora, a igreja tinha rejeitado qualquer posição extrema que negasse ou a humanidade ou a divindade de Cristo. O docetismo, por exemplo, dizia que o Salvador era um mensageiro vindo do alto, cuja carne humana era pura aparência. E através de todo o século segundo os escritores cristãos se esforçaram por rejeitar esta interpretação da pessoa de Jesus Cristo, que fazia dele um ser divino, sem humanidade. No outro extremo havia os que negavam a divindade do Salvador, dizendo que ele era “puro homem”. Um destes teólogos, Paulo de Samosata, que foi bispo de Antioquia na segunda metade do século terceiro, foi condenado e deposto precisamente por dizer que Jesus Cristo era “puro homem”, e que nele não habitava o próprio Deus, mas o “poder” impessoal de Deus.

Portanto quando estas controvérsias começaram havia certos limites traçados de antemão. Todos concordavam que Jesus era tanto divino como humano. Quem negasse um destes elementos simplesmente seria declarado herege, e não provocaria nenhum debate. As controvérsias não tratavam da questão se Jesus era ou não divino, nem com o assunto de se ele era humano ou não, mas com a questão de como ou em que sentido Jesus era tanto humano como divino.

As controvérsias cristológicas começaram quando ainda se debatia a questão ariana. O concílio de Nicéia tinha condenado o arianismo, porém este tinha conseguido sobreviver, e os melhores teólogos se esforçavam em refutá-lo. Um destes teólogos era o bispo Apolinário de Laodiceia, amigo de Atanásio e, ao que parece, também de Basílio de Cesareia. Apolinário começou refutando um dos argumentos dos arianos, que diziam que se o Verbo era verdadeiramente Deus eterno e imutável não se explicava como ele podia se unir à humanidade em Jesus Cristo. Apolinário respondeu que em Jesus Cristo o Verbo divino tinha tomado o lugar da alma racional.

Expliquemos isto. Nesta época todos concordavam que em qualquer ser humano existia além do corpo e da “alma animal” (isto é, o princípio que dá vida ao corpo), a “alma racional”. Esta é a sede do intelecto e da personalidade, que pensa, lembra e toma decisões. Sobre esta base Apolinário disse que, enquanto Jesus tinha um corpo verdadeiramente humano, movido pelos impulsos que movem a qualquer corpo humano (a “alma animai”), sua mente era puramente divina. Nele o Verbo ocupava o lugar que nos demais seres humanos tem a alma racional.

Apesar de esta explicação, à primeira vista, parecer ser satisfatória, logo houve quem percebesse seus perigos. Um corpo humano com mente e personalidade puramente divinas não é verdadeiramente um ser humano. Além disso os teólogos antiocanos não viam como tal pessoa poderia ser o Salvador que eles proclamavam. Do ponto de vista alexandrino esta explicação era aceitável, pois o Jesus de Apolinário poderia ser perfeitamente um mestre divino que utilizava seu corpo humano para trazer uma mensagem ao mundo. Porém do ponto de vista antiocano a situação era muito diferente. Se a salvação se baseia no fato de Deus, em Cristo, ter tomado a nossa humanidade, para assim nos salvar, como pode nos salvar um Jesus em quem Deus assumiu somente o corpo humano, e não a alma racional? Não é na alma que estão os piores pecados humanos? É o corpo ou a alma que odeia, cobiça e deseja o mal? Para salvar o ser humano em sua totalidade o Verbo deve se unir a um ser humano completo. Isto, Gregório de Nazianzo (o mesmo de que falamos no volume anterior) expressou, quando disse:

Se alguém crê nele (Jesus Cristo) como ser humano sem razão humana, este é quem não tem razão, e não é digno da salvação. Porque ele não salvou o que não assumiu. O que ele salvou é o que também uniu à sua divindade. Se somente a metade de Adão caiu, então é possível que o que Cristo assumiu e salvou seja somente a metade. Porém se toda a natureza caiu, é necessário que toda ela seja unida à totalidade do Verbo, a fim de ser salva como um todo (Epístola 101).

A controvérsia durou alguns anos, porém os argumentos dos antiocanos eram tão fortes que no fim Apolinário e seus seguidores seriam condenados. Em Roma o bispo Damásio e outros bispos do Ocidente condenaram as doutrinas de Apolinário, concordando com os antiocanos em que esta explicação destruiria a doutrina cristã da salvação. O cronista Epifânio nos conta de um sínodo reunido em 374, no qual foi adotado um credo muito semelhante ao de Nicéia, porém que dizia o seguinte, com referência à encarnação: “Foi feito homem, ou seja, homem perfeito, com alma, corpo e intelecto, e com tudo que faz parte de um ser humano“. Por fim o concilio de Constantinopla do ano 381 (o mesmo que terminou com a controvérsia ariana) condenou o apolinarismo. A igreja tinha decidido que a cristologia alexandrina em sua forma extrema não era aceitável.

Nestor e o concílio de Éfeso

O próximo episódio das controvérsias cristológicas teve lugar ao redor da pessoa de Nestor, que finalmente foi condenado no terceiro concílio ecumênico, que se reuniu em Éfeso em 431.

Nestor era um partidário da escola de Antioquia, e tinha sido feito patriarca de Constantinopla em 428. Politicamente sua situação era difícil, pois o patriarcado de Constantinopla tinha se transformado em motivo de discórdias entre os patriarcas de Alexandria e Antioquia. O concílio de Constantinopla tinha declarado que esta cidade teria no Oriente uma precedência semelhante à que a velha Roma gozava no Ocidente. Isto era nada mais que o reconhecimento da realidade política, pois Constantinopla era a capital do Império Oriental. Porém os patriarcas de Alexandria não se contentaram com esta postergação, principalmente porque tradicionalmente Constantinopla tinha estado mais perto de Antioquia em suas posições teológicas, razão pela qual muitos dos patriarcas de Constantinopla eram aliados dos de Antioquia. Por isso quando Nestor ascendeu ao patriarcado de Constantinopla, era de se esperar que contaria com a oposição dos alexandrinos.

O motivo imediato da controvérsia foi o termo theotokos, que era usado para a Virgem Maria. Theotokos, geralmente traduzido por “mãe de Deus”, literalmente quer dizer “genitora de Deus”. Como a nós protestantes muitas vezes parece que se trata aqui de um dos temas que estamos acostumados a discutir com os católicos romanos, convém que nos detenhamos para esclarecer o que era discutido. A controvérsia não era de caráter mariológico, mas cristológico. Não estava em jogo quem era a Virgem Maria, ou que honras lhe eram devidas, mas quem era o que tinha nascido de Maria, e como dever-se-ia falar dele. Os antiocanos temiam que, se se falasse de uma união muito estreita entre a humanidade e a divindade de Jesus Cristo, esta última chegaria a eclipsar a primeira, de modo que ficaria perdido o sentido da verdadeira e total humanidade do Salvador. Por isso Nestor cria que havia certas coisas que deviam ser ditas sobre a humanidade de Jesus Cristo, e outras sobre sua divindade, e que estas coisas não deveriam ser confundidas. Por essa razão, quando seu capelão Anastácio atacou o uso do termo theotokos, dizendo que quem nascera de Maria não fora Deus, mas a humanidade de Jesus, Nestor o apoiou. O que Anastácio e Nestor estavam atacando não era uma ideia demasiado elevada de Maria, mas a confusão entre divindade e humanidade que parecia seguir ao termo theotokos.

Ao explicar sua oposição a este termo Nestor dizia que em Jesus Cristo Deus tinha se unido a um ser humano. Como Deus é uma pessoa, e o ser humano é outra, em Cristo devem estar presentes não só duas naturezas, mas também duas pessoas. O que nasceu de Maria foi a pessoa e natureza humana, e não a divina. Por isso a Virgem é Christotokos (genitora de Cristo), e não theotokos (genitora de Deus). A união que existe entre estas duas pessoas não é uma confusão, mas uma conjugação, um acordo ou uma “união moral”.

Foram muitos os que reagiram negativamente diante desta doutrina. Se em Jesus Cristo não há mais que um acordo ou uma conjugação entre Deus e o ser humano, que importância a encarnação tem para a salvação? Se não podemos dizer que Deus nasceu de Maria, podemos dizer que Deus habitou entre nós? Podemos dizer que Deus falou em Jesus Cristo? Podemos dizer que Deus sofreu por nós? Quando levada à suas últimas conclusões a cristologia de Nestor parecia estar negando os próprios fundamentos da fé cristã.

Como era de se esperar o centro da oposição a Nestor foi Alexandria. Cirilo, que na época ocupava o patriarcado desta cidade, era muito mais hábil que Nestor, tanto política quanto teologicamente. Depois de se assegurar que contava com o apoio do papa, para quem a doutrina das duas pessoas em Cristo era anátema, Cirilo se lançou ao ataque. Depois de uma série de cartas e de outras gestões, a controvérsia chegou a tal ponto que os imperadores Valentiniano III e Teodósio II decidiram convocar um concílio ecumênico, chamando os bispos à cidade de Éfeso no dia 7 de junho de 431. O debate prometia ser acalorado, pois o papa e o patriarca de Alexandria tinham se declarado contrários a Nestor, enquanto que o patriarca de Antioquia, João, o defendia.

Quando chegou o dia em que o concílio deveria se reunir, Cirilo tinha chegado, acompanhado de diversos bispos egípcios, e de monges decididos a defender a todo custo a doutrina alexandrina. Porém João de Antioquia não chegou a tempo, e os enviados do papa também estavam atrasados. Por fim, após esperar até 22 de junho, Cirilo decidiu começar as sessões do concílio, apesar da oposição do legado papal e de outros setenta e oito bispos. O concílio tratou rapidamente do caso de Nestor, e, sem lhe dar oportunidade para se defender, o condenou como herege e o declarou deposto.

Poucos dias depois chegaram João de Antioquia e os seus, que, ao saber do que tinha sucedido, simplesmente se constituíram em um concílio à parte e condenaram a Cirilo, enquanto absolviam Nestor.

Quando chegaram os enviados do papa o concílio de Cirilo (que em todo caso contava com a maioria dos bispos presentes) se reuniu de novo e condenou não só a Nestor, mas também a João e a todos que tinham participado do seu concílio.

Diante de tais resultados, Teodósio II interveio no debate e encarcerou tanto a Cirilo quanto a João. A isto seguiu uma longa e complicada série de negociações, até que por fim, no ano 433, João e Cirilo entraram em acordo, com uma “fórmula de união”. Enquanto isso Nestor foi deposto e enviado a um mosteiro de Antioquia. Mais tarde ele foi transferido para distante cidade de Petra, e por fim para um oásis no deserto da Ubia, onde passou o resto de seus dias.

Como resultado destas negociações o concílio de Cirilo foi declarado válido, e por isso o título de theotokos, aplicado a Maria, tornou-se parte da doutrina da igreja e sinal de ortodoxia, tanto no Oriente quanto no Ocidente.

Antes de passar para o próximo episódio nesta série de controvérsias, devemos observar que a maioria dos reformadores protestantes do século XVI, ao mesmo tempo que lamentava o excessivo culto a Maria na igreja que queriam reformar, aceitava como válido o terceiro concílio ecumênico, estando, portanto, disposta a chamar Maria de “mãe de Deus”. Isto os reformadores faziam porque perceberam que o que foi discutido no século quinto não era que lugar a devoção a Maria deveria ter na vida cristã, mas a relação entre a humanidade e a divindade de Jesus Cristo.

Êutico e o concílio de Calcedônia

O segundo episódio na longa série de controvérsias cristológicas tinha terminado com uma grande vitória de Alexandria, pois o antiocano Nestor tinha sido condenado como herege e enviado para o exílio. Porém quando em 444 Dióscoro sucedeu a Cirilo no patriarcado de Antioquia, a querela estava prestes a explodir de novo. Dióscoro era um homem ambicioso que queria se assegurar do triunfo definitivo e esmagador de Alexandria sobre suas rivais Antioquia e Constantinopla, e que quase conseguiu o que queria.

Desta vez o conflito se centralizava na pessoa de Êutico, um monge de fortes convicções alexandrinas que morava em Constantinopla. O novo patriarca desta capital era Flaviano, diante de quem Êutico foi acusado de heresia por se negar a aceitar, e até atacar abertamente, certas frases da fórmula de união de 433. O que Êutico negava era que Jesus existia “em duas naturezas depois da encarnação”, e que fora, por causa da sua humanidade, “consubstancial conosco”. Ao que parece Êutico se atrevia a atacar abertamente a fórmula de união porque contava com o apoio de Dióscoro e do grande capelão Crisápio. Este último era quem na verdade regia os destinos do Império, pois Teodósio II não se ocupava dos assuntos do governo, deixando-os nas mãos do seu grande capelão. Sabendo que os que o apoiavam eram poderosos, Êutico se apresentou com arrogância diante do sínodo que tinha sido convocado por Flaviano para tratar das acusações que eram feitas contra ele. O que Êutico não sabia era que na verdade Dióscoro queria que o sínodo o condenasse, para ter assim uma causa que defender contra Flaviano. Portanto, enquanto Êutico cria que as autoridades imperiais estavam a seu favor, estas tinham instruções de garantir que o sínodo o condenasse. Assim foi, e então Dióscoro saiu em sua defesa, dizendo que Flaviano tinha agido injustamente.

Logo o caso de Êutico se transformou em motivo de discórdia em toda a igreja. Tanto ele quanto Flaviano escreveram a Leão, o Grande, que na época era papa, um para apelar contra a decisão do s(nodo que tinha condenado, e outro para lhe dar notícias deste sínodo e das doutrinas de Êutico. Ao mesmo tempo Dióscoro acusava de heresia todos os que saiam em defesa de Flaviano. Parece que passou ouro alexandrino das mãos de Dióscoro para as de Crisápio. Em todo caso, o imperador por fim convocou um novo concílio, que deveria se reunir em Éfeso em 449.

Desde seu início podia-se ver que o concílio estava em mãos de Dióscoro. Dois dias antes de começarem as sessões, o imperador, instalado por Crisápio, nomeou Dióscoro presidente destas, e lhe deu autoridade para fazer calar a qualquer um que ousasse falar contra a fé da igreja. O resultado foi o que o papa Leão chamou, com toda a razão, de “latrocínio”. Dióscoro não deu permissão de falar a ninguém que se opunha à doutrinas de Êutico. Quando os enviados de Leão quiseram ler uma carta que o papa tinha escrito, dando a conhecer seus apoio à condenação de Êutico, Dióscoro não o permitiu. Flaviano quis se defender, mas os partidários de Dióscoro bateram e pisaram nele com tal violência que morreu poucos dias depois. A doutrina de acordo com a qual havia “duas naturezas” em Cristo foi condenada, e todos os principais expositores da teologia antiocana foram declarados hereges e depostos. Por último, para ter certeza de que sua vitória seria definitiva, Dióscoro e os seus decretaram que dali em diante não podiam ser ordenados os que apoiassem as heresias de Nestor e Flaviano (que para Dióscoro eram a mesma coisa).

Ao ficar sabendo dos decretos do concílio de Éfeso o papa Leão se negou a aceitá-los. Na sua opinião o suposto concílio não passava de um “conciliábulo de ladrões”. Porém todas as suas gestões foram em vão. Teodósio II e Crisápio davam a questão por encerrada, e estavam perfeitamente contentes com o resultado do concílio.

Assim estavam as coisas quando aconteceu o inesperado. O imperador, que era um excelente cavaleiro, sofreu um acidente equestre e morreu. A ele sucedeu sua irmã Pulquéria, que se casou com o militar Marciano, e governou com ele. Pulquéria era uma mulher forte, que tinha dado tais mostras de habilidade no manejo dos assuntos imperiais que muitos estavam convictos que ela poderia governar com firmeza e justiça. Pouco antes de morrer, Teódóosio a tinha expulsado da corte, provavelmente porque ela se opunha às maquinações de Crisápio. Durante o período imediatamente depois do “latrocínio” de Éfeso ela foi uma das principais defensoras da posição de Leão. Agora que coube a ela governar, ela se dedicou, junto com seu esposo, a desfazer o que Teódosio, Crisápio e Dióscoro tinham feito. Os bispos depostos foram novamente instalados em suas dioceses, os restos de Flaviano foram colocados na basílica dos Apóstolos, com uma grande cerimônia. Muitos dos bispos que antes tinham seguido as diretrizes de Dióscoro viram que agora sopravam ventos novos, e mudaram de posição teológica.

Pulquéria e Marciano acabaram por convocar um grande concílio que deveria se reunir em Nicéia em 451, porém, por uma série de circunstâncias, se reuniu em Calcedônia. Este é o concílio que geralmente recebe o título de quarto concílio ecumênico. Para este vieram 520 bispos, número maior que o de qualquer concílio anterior.

O novo concílio logo condenou a Êutico e Dióscoro, enquanto perdoava os demais participantes do “Latrocínio” de Éfeso. A carta que Leão tinha escrito a Flaviano, e que Dióscoro não deixara que fosse lida em Éfeso, foi lida, e muitos dos presentes declararam que nesta carta sua própria fé estava exposta. O que Leão dizia nela era em essência o mesmo que Tertuliano tinha dito séculos antes: em Cristo há duas naturezas, a humana e a divina, unidas em uma só pessoa. A partir de então a carta de Leão, a Epístola dogmática, gozou de grande autoridade em quase toda a igreja cristã, e ele foi considerado como expositor fiel da cristologia ortodoxa.

Depois de vários obstáculos de caráter legal, os bispos reunidos em Calcedônia redigiram afinal a Definição de fé, que provavelmente é o ponto culminante de toda esta série de acontecimentos, e que é aceita até o dia de hoje pela maioria das igrejas. Esta Definição, que à primeira vista parece excessivamente complicada e até contraditória, somente pode ser compreendida se a lermos à luz da história que narramos, pois nela aparece uma série de frases cujo propósito é reafirmar a condenação das diversas heresias que até este momento tinham sido rejeitadas. Diz assim:

“Seguindo, pois, os santos Pais, ensinamos todos a uma voz que deve ser confessado um e o mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, o qual é perfeito em divindade e perfeito em humanidade; verdadeiro Deus e verdadeiro homem, de alma racional e corpo; consubstancial com o Pai de acordo com a divindade, e assim mesmo consubstancial conosco, de acordo com a humanidade; semelhante a nós em tudo, porém sem pecado; gerado pelo Pai antes dos séculos de acordo com a divindade, e nos últimos dias, por nós e nossa salvação, da Virgem Maria, mãe de Deus (theotokos), segundo a humanidade; um e o mesmo Cristo Filho e Senhor Unigênito, em duas naturezas, sem confusão, sem mutação, sem divisão, sem separação, e sem que desapareça a diferença das naturezas por causa da união, mas mantendo as propriedades de cada natureza, e unindo-as em uma pessoa e hipóstasis; não dividido ou partido em duas pessoas, mas um e o mesmo Filho Unigênito, Deus Verbo e Senhor Jesus Cristo, como foi dito acerca dele pelos profetas de antigamente e o próprio Jesus Cristo nos ensinou, e o Credo dos Pais nos transmitiu.

A leitura desta Definição mostra claramente que seu propósito não é resolver a questão de como se unem em Jesus Cristo a divindade e a humanidade, mas evitar que a igreja volte a cair em alguns erros em que outros já tinham caído. Por isto o termo “definição” cabe muito bem. Não se trata de uma explicação do mistério da encarnação, mas de uma definição, isto é, de uma série de limites que são estabelecidos, dentro dos quais pode haver diversas posições ortodoxas. E assim quase toda a igreja cristã a aceitou e utilizou durante os séculos.

Por outro lado é válido perguntar se esta Definição não está muito distante do tom simples dos evangelhos. A resposta a esta pergunta tem de ser afirmativa, mesmo que também tenhamos de concordar que isto não foi culpa dos bispos reunidos em Calcedônia, mas mais o resultado do modo com que fora iniciado o problema cristológico. Como dissemos anteriormente, desde tempos relativamente antigos a igreja começou a fazer uso do que os filósofos tinham dito sobre o Ser Supremo para entender a doutrina de Deus. O problema está em que esta ideia filosófica do Ser Supremo consiste exatamente na negação de tudo que é humano, Assim chegou-se a conceber a divindade como algo radicalmente oposto à humanidade. Como, porém, a principal doutrina cristã era precisamente que Deus se fez homem em Jesus Cristo, isto levou os teólogos a se perguntarem como poderia a divindade se unir à humanidade, ambas concebidas em termos de oposição mútua. Se a igreja tivesse seguido não a doutrina dos filósofos, mas o modo de encarar a Deus de pessoas como Irineu, talvez o curso do desenvolvimento cristológico tivesse sido outro. Em todo caso, dadas as circunstâncias, temos de dizer que a Definição de Calcedônia era o melhor modo possível de afirmar a mensagem cristã da presença de Deus em Cristo.

Depois do concílio de Calcedônia houve muitos que não estiveram satisfeitos com seus resultados. Estas pessoas receberam o nome de “monofisitas”, derivado de duas raízes gregas que querem dizer “uma só natureza”. Receberam este nome porque se negavam a aceitar a doutrina das duas naturezas em Cristo.

Já que os concílios supostamente “ecumênicos” na verdade não representavam o que sentiam igrejas que existiam fora das fronteiras do Império, logo houve algumas destas igrejas que se negaram a aceitar o concílio de Calcedônia, e que por isso receberam o nome de “monofisitas”. Outras, que se negaram a aceitar o terceiro concílio ecumênico (Éfeso, 431), foram chamadas de “nestorianas”. Destas igrejas falaremos no próximo capítulo, que é todo ele dedicado ao cristianismo fora das fronteiras do Império.

Os três capítulos e o segundo concílio de Constantinopla

A Definição de Calcedônia não pôs fim aos debates sobre a pessoa de Jesus Cristo. A causa disto em parte é que houve muitas pessoas, mesmo dentro dos limites do Império, que não a aceitavam. No Egito, Dióscoro logo foi considerado mártir, e sua doutrina, a única ortodoxa. Também na Síria o monofisismo ficou cada vez mais popular. Os historiadores ainda debatem as razões pelas quais o concílio de Calcedônia não obteve o apoio destas regiões, mas parece provável que ao menos uma das razões foi que muitas pessoas, tanto na Síria como no Egito, se consideravam alheias aos interesses do Império, e que sua posição à política oficial tomou a forma de oposição à teologia oficial do governo de Constantinopla.

Em todo caso, os imperadores logo se viram na necessidade de atrair de novo esta gente que não via com bons olhos as decisões do concílio de Calcedônia. Egito e Síria eram das províncias mais ricas do Império, e era necessário acalmar a inquietação religiosa que fervia ali. Por estas razões foram vários os imperadores que tentaram ganhar o apoio dos monofisitas. Repetidamente esta política acabou sendo desastrosa, porque os descontentes da Síria e do Egito o eram por causas sociais, políticas e econômicas, e sua lealdade não podia ser conquistada com fórmulas teológicas, enquanto as causas da intranquilidade não fossem eliminadas. Ao mesmo tempo a política imperial alienou muitos súditos fiéis, a maioria dos quais aceitava e defendia as decisões de Calcedônia.

O primeiro imperador que interveio diretamente no debate foi Basilisco, que tinha destronado seu predecessor Zenom. Em 476, ou seja, vinte e cinco anos depois do concílio de Calcedônia, Basilisco publicou um edito em que convocava um novo concílio, anulando as decisões do de Calcedônia. O concílio convocado por Basilico nunca teve lugar, pois pouco depois de seu edito Zenom recuperou o trono.

O próprio Zenom tentou conquistar a boa vontade dos monofisitas mais moderados, ao publicar em 482 em “edito de união”, o Heniticom. Para isto ele contava com o apoio do patriarca Acácio de Constantinopla, que tinha merecido o respeito dos defensores de Calcedônia por opor-se ao edito de Basilisco. A solução de Zenom consistia em chamar todos os cristãos à antiga fé em que todos concordavam, assim como esta tinha sido proclamada nos primeiros concílios ecumênicos.

Este edito de Zenom, entretanto, em lugar de promover a unidade de toda a igreja, a dividiu ainda mais. Entre os opositores a Calcedônia, que, como vimos, recebiam em conjunto o nome de “monofisitas”, havia alguns que insistiam mesmo na natureza única do Salvador, que, em virtude da encarnação, a humanidade de Cristo estava absorvida pela divindade, de tal modo que era errado falar da humanidade de Cristo como tal. Porém havia outros cuja fé se aproximava muito da Calcedônia, e que se opunham às decisões deste concílio porque, na sua opinião, este deixava as portas abertas para as doutrinas de Nestor. O edito de Zenom, que rejeitava claramente o nestorianismo, agradou a estes últimos, que o aceitaram, enquanto que os verdadeiros monofisitas, que não se podiam dar por satisfeitos enquanto a doutrina das “duas naturezas” não fosse condenada, o rejeitaram. O edito de Zenom, portanto, dividiu os monofisitas entre si.

Muito mais sério, porém, foi o cisma que este edito ocasionou na igreja do Ocidente. O papa Félix III se opôs ao edito imperial por duas razões. Em primeiro lugar, ele não mencionava a doutrina das duas naturezas de Cristo, o que tinha sido o ensino da igreja ocidental desde tempos antigos, e que era o cerne da Epístola dogmática de Leão. Em segundo lugar, o papa insistia em que o imperador não tinha autoridade para julgar matéria doutrinária. O resultado foi que Félix excomungou o patriarca Acácio, com quem tinha conflitos por outros motivos. Este é o chamado “cisma de Acácio”, que manteve as igrejas do Oriente e do Ocidente separadas até o ano 519, quando o imperador Justino e o papa Hormisdas chegaram a um acordo que confirmou a autoridade do concílio da Calcedônia e da Epístola Dogmática de Leão. Além disto todos os bispos que tinham sidos depostos por se negarem a aceitar o edito de Zenom foram restaurados.

Quando Justino morreu em 527 sucedeu-lhe seu sobrinho Justiniano. Este acabou sendo um dos imperadores bizantinos mais hábeis de toda a Idade Média. Seu grande sonho era restaurar o Império Romano à sua unidade e grandeza perdidas. Durante seu reinado os generais Belisário, Narses e outros empreenderam campanhas que devolveram ao Império Romano as costas da África e da Espanha, bem como os territórios que os godos tinham ocupado na Itália. Mais uma vez o Mediterrâneo se transformou em um lago romano (apesar de os governantes que se chamavam de “romanos” viverem em Constantinopla, a maioria deles falando melhor o grego que o latim).

Como parte de seu plano de restaurar a glória perdida do velho Império, Justiniano mandou reconstruir a catedral de Santa Sofia, construída por Constantino, que estava em ruínas. Ele, porém, não queria simplesmente construir de novo o mesmo edifício, mas criar um templo sem igual em todo o mundo. Diz-se que, quando Justiniano por fim viu a obra concluída, ele exclamou: “Salomão, superei-te!

Do mesmo modo Justiniano decidiu que era necessário organizar o complexo sistema legal que o Império tinha desenvolvido através dos séculos. Esta tarefa foi entregue a Triboniano, um dos seus servidores mais capazes, e em anos Justiniano tinha conseguido produzir o que os historiadores da jurisprudência consideram um monumento de proporções semelhantes às da catedral de Santa Sofia na história da arquitetura.

Porém Justiniano não podia realizar todos os seus sonhos sem conseguir reunificar uma igreja dividida pela questão cristológica. No Egito e na Seria havia muitas pessoas que se consideravam desleais ao imperador e a todo o governo de Constantinopla, que acusavam de heresia. Justiniano achava que o concílio de Calcedônia tinha se pronunciado corretamente com respeito às naturezas de Cristo, mas ao mesmo tempo percebia que os monofisitas mais moderados tinham razão ao apontar para os perigos que esta doutrina poderia trazer consigo. A esposa de Justiniano, Teodora, tinha simpatias pelo monofisismo moderado. E Teodora tinha muito poder na corte bizantina. Sua origem era muito humilde, e ela tinha sido até atriz antes de conhecer a Justiniano, e, de acordo com os seus inimigos, prostituta. Porém quando se casou com Justiniano ela demonstrou ser uma grande imperatriz, que em momentos difíceis, quando o populacho se rebelou em Constantinopla, salvou o trono para seu marido.

Justiniano tinha certeza que as diferenças entre os calcedonenses e os monofisitas mais moderados eram na maior parte verbais, e que estas diferenças poderiam ser sanadas com uma série de negociações. No século XX muitos historiadores concordam com a opinião de Justiniano sobre o caráter verbal da controvérsia, apesar de ao mesmo tempo apontarem que havia outras questões, políticas, étnicas, culturais e econômicas, que dificultavam qualquer aproximação, de que o imperador parece não ter se apercebido. Em todo caso Justiniano começou a tratar os monofisitas com mais moderação que seu tio e predecessor Justino. Muitos dos bispos que tinham sido exilados foram convidados a regressar às suas sedes. Outros receberam convites para visitar o imperador e a imperatriz no palácio, onde foram recebidos cortês e amistosamente.

Em 532, por instância do imperador, reuniu-se em Constantinopla um grupo de teólogos dos dois lados. Justiniano tinha grandes esperanças no resultado desta conferência. Leôncio de Bizâncio, o teólogo calcedonense mais distinto da época, estava presente. Na conferência um dos seis bispos monofisitas presentes declarou que tinha ficado convencido, e que estava disposto a aceitar a fórmula de Calcedônia. O próprio Justiniano, que tinha presidido algumas sessões, parece ter pensado que seria relativamente fácil conseguir aproximação entre os calcedonenses e a maioria dos monofisitas. No ano seguinte o próprio imperador publicou sua confissão de fé, em que, sem usar a frase “em duas naturezas“, mostrava ser ortodoxo. Seu propósito era atrair os monofisitas moderados.

Porém desta conferência em que o imperador depositava tantas esperanças surgiria uma nova controvérsia que dividiria a igreja mais uma vez. Esta controvérsia é chamada de “os Três Capítulos”. Durante a conferência de Constantinopla, e através das suas muitas conversas com os líderes monofisitas, Justiniano percebeu que estes não se opunham tanto ao concílio de Calcedônia quanto aos ensinos de alguns teólogos antiocanos que pareciam formar o pano de fundo deste concílio. Estes teólogos eram principalmente três: Teodoro de Mopsuéstia, Teodoreto de Ciro e Ibas de Edessa. Todos eles tinham morrido muito antes, e seus ensinos não eram doutrina oficial da igreja. Porém o concílio de Calcedônia parece ter emprestado deles algumas das principais frases da Definição de fé. O que preocupava os monofisitas, também os mais moderados, era que as obras destes três teólogos continham afirmações que estavam próximas demais do nestorianismo. Todos eram teólogos antiocanos, razão pela qual tinham a tendência de ressaltar a humanidade do Salvador, e de fazer distinção entre esta e sua divindade, de uma maneira que aos monofisitas parecia perigosa.

Esta situação ditou ao imperador o curso que deveria seguir. Por que não condenar as obras destes teólogos, para garantir assim aos monofisitas moderados que o concílio de Calcedônia, ao afirmar as “duas naturezas”, não deveria ser interpretado no sentido nestoriano? Foi precisamente isto que Justiniano fez, mediante dois editos promulgados em 544 e 551. A partir de então a obra (e às vezes a pessoa) destes três teólogos condenados recebeu o nome de “os Três Capítulos”. Os principais bispos orientais aceitaram estes editos, se bem que parece que vários o fizeram sob pressão imperial.

No Ocidente a reação foi muito diferente, pois vários dos principais bispos temiam que a condenação dos Três Capítulos era o passo inicial para a condenação do concílio de Calcedônia. O papa Vigílio, todavia, era protegido da imperatriz, e por isto não tinha força moral para se opor aos éditos imperiais. Quando o imperador percebeu que seu primeiro edito não fora bem recebido no Ocidente, chamou Vigílio para Constantinopla, onde o papa acabou cedendo à pressão imperial. A capitulação do papa, entretanto, teve resultados contraproducentes. A reação dos bispos ocidentais foi tão forte e firme que vários bispos orientais que tinham antes apoiado o imperador mudaram de política. Vendo o estrago que causara, o próprio papa mudou de opinião, e retirou sua condenação dos Três Capítulos. Foi então que Justiniano promulgou o seu segundo edito (em 551), reiterando a condenação dos Três Capítulos.

Tudo isto provocou tamanha inquietação que o imperador por fim decidiu convocar um concílio geral. Esta assembleia, que recebe o nome de quinto concílio ecumênico, se reuniu em Constantinopla em 553. Na época o papa também se encontrava na cidade, pois Justiniano não lhe permitira voltar para Roma. Vigílio enviou um comunicado ao concílio, em que, enquanto condenava algumas frases que se encontravam nos Três Capítulos, negava-se a condenar os autores em questão. Apesar disto a assembleia, que representava os interesses do imperador, condenou os Três Capítulos. Diante de tal decisão Vigílio insistiu em sua posição por mais alguns meses, porém afinal capitulou, cedendo aos desejos de Justiniano. Apesar de esta atitude vacilante do papa ter produzido vários cismas no Ocidente, depois de algum tempo toda a igreja ocidental aceitou o concílio de Constantinopla no ano 553 como o quinto concílio ecumênico.

O monoteísmo e o terceiro concílio de Constantinopla

A última tentativa do governo bizantino de atrair a si os monofisitas foi feita na época do imperador Heráclio, em princípios do século VII. O patriarca Sérgio de Constantinopla, depois de tentar sem sucesso várias maneiras de se aproximar dos monofisitas, propôs a doutrina que depois foi chamada de “monotelismo”. Esta palavra vem das raízes gregas mono, que quer dizer “um”, e thelema, que quer dizer “vontade”. O que Sérgio propunha é que em Cristo, ao mesmo tempo que havia duas naturezas, a divina e a humana, como o concílio de Calcedônia o tinha declarado, havia uma só vontade. Passando disto a doutrina de Sérgio não é clara, pois a sua posição e as dos seus seguidores variaram tanto, e ficaram confusas a tal ponto que o monotelismo recebeu o nome de “heresia camaleão”. Ao que parece o que Sérgio queria dizer era que em Cristo não havia outra vontade além da divina. Quando perguntaram ao papa Honório o que ele pensava da fórmula de Sérgio, o papa a aprovou. Porém a oposição em várias regiões do Império não demorou. O teólogo que mais se distinguiu neste sentido foi Máximo de Crisópolis, que é conhecido por Máximo, “o Confessor”. Mais tarde, em 648, a oposição ao monotelismo chegou a tal ponto que o imperador Constante II proibiu qualquer discussão sobre se em Cristo havia uma ou duas vontades.

Quando o imperador promulgou esta proibição, o Império tinha perdido o interesse de se aproximar dos monofisitas. Síria e Egito, as regiões do Império onde o monofisismo tinha a maior parte dos seus adeptos, tinham sido conquistadas pouco antes pelos árabes. Isto queria dizer que a partir de então a corte de Constantinopla, em vez de se preocupar com a boa vontade dos monofisitas de Egito e Síria, tinha de melhorar as suas relações com os cristãos calcedonenses que eram a maioria, tanto nos territórios que ainda pertenciam ao Império, como no Ocidente.

Em consequência, o sexto concílio ecumênico que se reuniu em Constantinopla em 680 e 681 condenou o monotelismo e reafirmou a Definição de fé de Calcedônia. Entre os monotelitas condenados especificamente pelo concílio estava o papa Honório. Este caso de um papa condenado nominalmente como herege por um concílio ecumênico foi uma das dificuldades que os católicos tiveram de enfrentar quando no século XIX conseguiram que o concílio Vaticano I promulgasse a infalibilidade papal.

A questão das imagens e o segundo concilio de Niceia

A última grande controvérsia que abalou a igreja durante o período que estamos estudando (isto é, os anos anteriores a 800) surgiu ao redor da questão de usar-se ou não imagens no culto público. Na antiga igreja cristã parece não ter havido nenhuma oposição à decoração das igrejas com imagens, geralmente alusivas a algum episódio bíblico. Estas imagens podem ser encontradas tanto nas catacumbas romanas como na igreja de Dura-Europos, a mais antiga ainda conservada. Porém à medida que mais pessoas convertidas do paganismo entravam na igreja, houve cada vez mais pastores que temiam que as imagens na igreja poderiam levar alguns à idolatria. Por isto, algum tempo depois da conversão de Constantino, começamos a encontrar nos sermões cristãos admoestações contra o uso indevido de imagens. Ao mesmo tempo, entretanto, insistia-se no valor destas imagens como “Iivro dos incultos”. Em uma época em que havia poucos que sabiam ler, e menos que possuíam livros, as imagens serviam para comunicar aos fiéis alguns dos episódios bíblicos mais importantes.

A controvérsia surgiu quando o imperador Leão III (que não deve ser confundido com o papa do mesmo nome) mandou derrubar uma estátua de Cristo que era muito venerada em Constantinopla. A partir de então, e com toda uma série de decretos imperiais, a campanha contra as imagens tomou cada vez mais impulso. Em 754 o filho de Leão, Constantino V, convocou um concílio que proibiu o uso das imagens no culto, e condenou todos os que as tinham defendido, especialmente o patriarca Germano de Constantinopla e o famoso teólogo João de Damasco. Surgiram assim dois partidos, que receberam o nome de “iconoclastas” (destruidores de imagens) e “iconodulos” (adoradores de imagens).

Os argumentos dos iconoclastas se baseavam nas passagens bíblicas que proíbem a idolatria, particularmente Êxodo 20:4,5. Porém além disto os historiadores não concordam acerca das razões que levaram os imperadores a lançar sua campanha iconoclasta. Não há dúvida que Leão III era um homem de fé sincera. Porém é bem possível que ele promulgou tantos decretos para desmentir os muçulmanos, que acusavam os cristãos de idolatria.

Diante desta posição os defensores das imagens começaram a relacionar o que era discutido no momento com as controvérsias cristológicas de séculos anteriores. A razão pela qual é possível representar os mistérios divinos através de imagens é que, em Cristo o próprio Deus nos deu sua imagem. Não deixar representar a Cristo, equivaleria a negar a sua humanidade. Se Cristo foi homem, deve ser possível representá-lo, assim como qualquer outro homem pode ser representado. Além disto, o primeiro criador das imagens foi o próprio Deus, ao criar a humanidade à sua imagem. Encontramos estes argumentos claramente expostos nas seguintes linhas de João de Damasco:

Já que alguns nos culpam por reverenciarmos e honrarmos imagens do Salvador e de nossa Senhora, e as relíquias e imagens dos santos e servos de Cristo, lembrem-se que desde o princípio Deus fez o ser humano à sua imagem. Por que nos reverenciamos uns aos outros, se não é por termos sido feitos à imagem de Deus? … Por outro lado, quem pode fazer uma cópia de Deus que é invisível, sem corpo, indescritível e sem figura? Dar figura a Deus seria o máximo da loucura e do ateísmo …. Porém como Deus, por sua profunda misericórdia e para nossa salvação, se fez verdadeiramente homem … e viveu entre os homens, fez milagres, sofreu a paixão da cruz, ressuscitou e foi levado ao céu, e como todas estas coisas sucederam e foram vistas por homens … os Pais, vendo que nem todos sabem ler nem têm tempo para fazê-lo, aprovaram a descrição destes acontecimentos por imagens, para que servissem de breves comentários.

A controvérsia durou vários anos. Mesmo que, teoricamente, os editos imperiais eram válidos em todo o antigo Império Romano, a verdade é que o Ocidente nunca os aplicou, enquanto que no Oriente a igreja se dividiu. Por fim, quando o governo caiu sobre os ombros da imperatriz Irene, esta mudou a política imperial com respeito às imagens, e ela, o patriarca Tarásio de Constantinopla e o papa Adriano convocaram um concílio. Esta assembleia se reuniu em Nicéia em 787, e recebe o nome de sétimo concílio ecumênico.

Este concílio restaurou o uso das imagens nas igrejas, ao mesmo tempo que estabeleceu que elas não eram dignas da adoração, devida só a Deus (em grego, latria), mas somente de uma adoração ou veneração inferior (em grego, dulia).

No século IX os iconoclastas voltaram ao poder por algum tempo, mas em 842 as imagens foram afinal restauradas, e até o dia de hoje todas as igrejas de origem bizantina celebram esta ocasião na “Festa da Ortodoxia”. No Ocidente, apesar de não ter havido um movimento iconoclasta, os reis carolíngios se negaram a aceitar as conclusões do sétimo concílio ecumênico, não porque se opusessem às imagens, mas porque em latim só havia um termo para traduzir as palavras gregas “latria” e “dulia”, e os francos receavam que o concílio tinha dito que as imagens devem ser adoradas. Mais tarde esta dificuldade foi esclarecida, e a maior parte da cristandade aceitou a autoridade do concílio de Niceia do ano de 787.

Os primeiros sete concílios ecumênicos discutiram questões bastante complexas e quase sempre confusas. Porém mesmo assim sua importância no transcorrer da teologia cristã tem sido imensa. Através de toda a Idade Média quase todos os cristãos, tanto orientais como ocidentais, aceitaram a sua autoridade, e trataram de formar seu conceito dentro dos limites traçados por eles. Somente os cristãos que viviam fora dos limites do Império Romano antigo, aos quais dedicaremos o próximo capítulo, rejeitaram a autoridade de alguns destes concílios. Na época da Reforma a maior parte dos reformadores aceitou pelo menos os primeiros quatro, e por isso são muitos os protestantes que ainda aceitam a sua autoridade. Algumas igrejas que surgiram da Reforma aceitam os primeiros sete concílios ecumênicos. Depois destes sete. a maioria dos concílios supostamente “ecumênicos” não contaram com representantes das igrejas orientais, que por isso não os aprovam.

 

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