A igreja do oriente depois das conquistas árabes

Por

GONZÁLEZ, Justo L. Uma história ilustrada do cristianismo: a era das trevas. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 164 a 171.

No capítulo IV seguimos o curso da igreja bizantina até que terminou a querela acerca das imagens. Pouco depois vimos que na época destas disputas o Império Bizantino tinha perdido todas as suas possessões na África e na Ásia, exceto a Ásia Menor. Ao mesmo tempo o Ocidente se fazia cada vez mais independente da tutela de Constantinopla, até que chegou a coroar o seu próprio imperador, na pessoa de Carlos Magno. Dadas estas circunstâncias, poderíamos supor que a igreja oriental entraria em um período de decadência. De certa forma, foi isto que aconteceu. Porém aquela igreja, cercada a sul [e] a leste pelos muçulmanos, encetou um ativo programa missionário no norte e no noroeste, ao mesmo tempo que aprofundava suas diferenças com o cristianismo ocidental. Portanto, estes dois aspectos da vida da igreja bizantina, suas missões e suas relações com Roma, ocuparão nossa atenção no presente capítulo.

A expansão do cristianismo bizantino

Depois dos germanos outros povos tinham se estabelecido na Europa central.  Destes o mais numeroso era eslavo, cujas diversas ramificações ocupavam o que hoje é Polônia, os países bálticos, e parte da Rússia, Checoslováquia, Iugoslávia e Grécia. Os que tinham cruzado o Danúbio estavam, pelo menos de nome, sob o governo de Constantinopla. Os demais estavam divididos em diversas tribos e reinos. Pouco depois os búlgaros tinham se apossado de boa parte das margens do Danúbio, onde governavam sobre uma população formada por eslavos e por antigos súditos de Bizâncio.

Isto significava que o governo de Constantinopla tinha de cuidar das suas fronteiras, não só contra os muçulmanos a sul e leste, mas também contra os búlgaros ao norte.

Nestas circunstâncias a carta do rei Ratislau da Morávia que citamos no princípio deste capítulo foi recebida em Constantinopla como uma bênção do céu. Os morávios eram um povo eslavo cujos territórios ficavam ao norte dos búlgaros. Logo, se Constantinopla conseguisse estabelecer uma aliança com eles, o perigo búlgaro estaria reduzido.

Ratislau também tinha suas razões para buscar contatos mais íntimos com Constantinopla. Durante algum tempo seus vizinhos germanos do oeste, que integravam o Império do Ocidente, estiveram tentando convertê-lo. Porém esta conversão era claramente um meio de conquista, pois a intenção era aplicar com os morávios os mesmos métodos que Carlos Magno tinha empregado no caso dos saxões. Para os morávios sua conversão ao cristianismo ocidental equivaleria a perder a sua independência. Por isto Ratislau tinha razões políticas para estabelecer contatos mais íntimos com Constantinopla, que não tentaria usar sua conversão ao cristianismo como meio de dominar diretamente sobre o país.

Para responder à petição de Ratislau, Miguel decidiu enviar dois irmãos, Cirilo (também conhecido por Constantino) e Metódio, até a Morávia. Estes dois missionários tinham crescido nos Balcãs, onde havia muitos eslavos, e por isto conheciam seu idioma. Além disso eles tinham demonstrado sua habilidade em outro empreendimento missionário algum tempo antes na península da Criméia. Na Morávia, Cirilo e’ Metódio se dedicaram ao ensino, à pregação e à organização da igreja. Porém o aspecto mais importante da sua obra foi a tarefa de colocar o idioma eslavo em forma escrita, desenhar um alfabeto para este propósito, e depois traduzir para o eslavo tanto a Bíblia como a liturgia da igreja, e outros livros. O alfabeto cirflico (que se chama assim em honra ao seu criador) era uma adaptação do grego, e até o dia de hoje é usado em diversos idiomas de origem eslava.

Os germanos, no entanto, não estavam dispostos a permitir que os territórios moravos, para onde tinham dirigidos seu olhar cobiçoso, escapassem das suas mãos. Não tardou para os missionários germanos começarem a fazer intrigas contra Cirilo e Metódio, ainda mais porque parecia que o país estava caminhando para uma conversão em massa. Por isto acusaram os dois irmãos de heresia por celebrar a missa no idioma do povo, dizendo com isto que somente era lícito celebrar os sagrados mistérios em hebraico, grego ou latim. A acusação chegou a Roma, e para lá se dirigiram nossos dois missionários, desejosos de defender sua causa. Com este passo começavam uma política difícil, pois Roma e Constantinopla disputavam o domínio eclesiástico da região da Morávia e arredores. Em todo caso os papas Adriano II e João VII tomaram partido contra os germanos, que aos seus olhos estavam se tornando poderosos demais. Depois da morte de Cirilo em 869 João VII consagrou Metódio arcebispo de Sirmio, com jurisdição sobre toda a área disputada. Isto colocou o missionário sob a proteção de Roma, porém o distanciou tanto de Constantinopla como dos germanos. Esta inimizada chegou a tal ponto que quando Metódio se dirigia para sua diocese ele foi capturado e encarcerado por longo tempo, por ordem do arcebispo de Salzburgo. Por fim foi posto em liberdade e regressou à Morávia, onde continuou trabalhando até sua morte em 885.

Depois da morte de Cirilo e Metódio o trabalho missionário entre os eslavos foi dividido entre os ocidentais e os bizantinos. A igreja que eles tinham fundado na Morávia não demorou a desaparecer, pois em 906 os húngaros invadiram a região, e o reino morávio se desfez. Alguns dos convertidos fugiram de lá para o território dos búlgaros, que tinham se convertido pouco antes. Outros continuaram praticando sua religião sob os húngaros. Quanto aos demais povos eslavos, alguns se uniram à cristandade ocidental, e outros seguiram a inspiração de Bizâncio. Por isto os atuais países Polônia, Estônia, Lituânia e Letônia são tradicionalmente católicos romanos, enquanto a Rússia se juntou à tradição oriental, pouco mais de um século depois da obra de Cirilo e Metódio.

Para seguir uma ordem cronológica antes de tratar da conversão da Rússia devemos nos ocupar dos acontecimentos que ocorreram entre os búlgaros. Também entre eles estiveram tanto missionários latinos como bizantinos. De fato, como veremos na próxima seção deste capítulo, a questão de se os búlgaros estavam debaixo da jurisdição eclesiástica de Roma ou de Constantinopla foi um dos fatores que contribuíram para aumentar as tensões entre o cristianismo oriental e o ocidental.

Em 865 o rei dos búlgaros, Bóris, decidiu abraçar a fé cristã, pois em seus territórios havia numerosos missionários, tanto latinos como bizantinos. Depois de receber o batismo o rei quis que a igreja em seu país contasse com um arcebispo e pediu um a Fócio, o patriarca de Constantinopla. Como Fócio lhe pedisse mais detalhes e impusesse condições, o rei se dirigiu ao papa Nicolau, que se contentou em lhe enviar dois bispos, e em lhe comunicar a opinião dos ocidentais sobre diversas questões de fé e costumes. Um destes dois bispos, Formoso de Oporto, conseguiu conquistar a simpatia do rei, que pediu ao papa que nomeasse Formoso arcebispo dos búlgaros. Porém Nicolau lhe respondeu que Formoso já era bispo de Oporto, e que era proibido transferir um bispo de uma sede para outra. Magoado com a resposta do papa Bóris se voltou novamente para Constantinopla, onde o novo patriarca, Inácio, consagrou um arcebispo e vários bispos para dirigir e organizar a vida da igreja na Bulgária.

A impaciência de Bóris com Roma e Constantinopla não deve ser interpretada como um capricho de um rei mal-educado. Pelo contrário, Bóris parece ter sido um cristão convicto, que queria mesmo que seu pa(s conhecesse o evangelho, e que por esta razão perdia a paciência diante das sutilezas e exigências do papa e do patriarca. Depois de muitos anos de reinado Bóris decidiu se retirar para a vida monástica, e abdicou em favor de seu filho Vladimir. a novo rei, porém, encabeçou logo uma reação pagã, e seu pai saiu do mosteiro, depôs o filho, e colocou sobre o trono Simeão, irmão menor de Vladimir.

Sob Simeão o cristianismo progrediu rapidamente na Bulgária. a rei, que antes de ser coroado tinha sido monge, trouxe a seu país vários discípulos de Cirilo e Metódio, que se ocuparam do trabalho missionário entre seus súditos eslavos. Além disto ele mandou traduzir as Escrituras para o búlgaro, bem como outros livros cristãos. A igreja deste país seguiu a partir de então as tradições orientais, se bem que ao mesmo tempo afirmava sua independência de Constantinopla. Em 917 o rei tomou o título de “czar”, isto é, César ou imperador, e em 927 seu arcebispo tomou o título de “patriarca”. Apesar de no princípio as autoridades de Constantinopla considerarem estes títulos uma usurpação, mais tarde o reconheceram.

O outro país onde as missões bizantinas tiveram um êxito notável e duradouro foi a Rússia. Apesar de a maioria da população ser eslava, esta se encontrava submetida a um governo escandinavo, que tinham invadido o país, vindos do norte. Como veremos no próximo capítulo, durante esta época os povos escandinavos começaram uma série de ataques e invasões por toda a Europa. Suas conquistas na Europa oriental os transformaram em donos da Rússia, onde estabeleceram um reino .uja capital foi primeiro Novgorod, e depois Kiev.

Por volta de 950 a rainha Olga, que tinha estado em contato com missionários de origem germânica, se converteu para o cristianismo, e tentou converter todos os seus súditos. Porém seus esforços não foram permanentes, e foi o rei Vladimir, neto de Olga, que conseguiu que o cristianismo lançasse raízes profundas em todo o país. Por razões não de todo claras Vladimir mandou vir missionários, não do Ocidente, mas do Império Bizantino. As fontes também não concordam se ele usou a força para converter os seus súditos, como o fizeram outros reis escandinavos. Mas está claro que milhares, por uma razão ou outra, o seguiram à fonte batismal.

O filho de Vladimir, laroslau, continuou a sua obra, e estabeleceu laços cada vez mais íntimos com Constantinopla, enquanto se distanciava de Roma e do cristianismo ocidental. Esta conversão em massa, no começo sem dúvida superficial, mesmo assim lançou profundas raízes, Quando, em 1240, os mongóis invadiram o país, e o dominaram por mais de dois séculos, foi a fé cristã o vínculo nacional que permitiu aos russos sobreviver como nação, e por fim se livrar do jugo mongol. No século XVI, depois de os turcos conquistarem Constantinopla, os russos declararam que Moscou era a “terceira Roma”, e seu rei tomou o título imperial de “czar”, enquanto o metropolita de Moscou começou a se chamar de “patriarca”.

Em resumo, apesar de suas fronteiras constantemente estarem ameaçados pelos muçulmanos, búlgaros e outros, o cristianismo bizantino conseguiu deixar sua marca tanto na Bulgária como na Rússia, e esta marca não se desfez até os nossos dias.

As relações com Roma

Depois da querela com as imagens, as relações entre Roma e Constantinopla foram ficando cada vez mais tensas. Roma já não precisava do apoio do imperador de Constantinopla, pois tinha procurado seus próprios imperadores em Carlos Magno e seus sucessores. Além disto a prolongada controvérsia por causa das imagens tinha convencido os ocidentais que o cristianismo oriental estava de tal modo sub reli nado aos caprichos imperiais que facilmente se deixaria levar para a heresia. Os orientais, por seu lado, não gostavam da maneira com que os papas começaram a se referir a si mesmos como se gozassem de autoridade universal, e não mais como patriarcas do ocidente.

Todas estas razões levaram, por fim, ao cisma entre o patriarca Fócio e o papa Nicolau I. Fócio devia sua posição a um golpe no palácio, cujos líderes tinham deposto o patriarca Inácio e o colocado em seu lugar. Ele era um homem estudioso, devotado e sincero, mas não gozava do apoio do povo, aos olhos de quem Inácio era quase um mártir. Como os dois partidos pediam o apoio do papa, Nicolau interveio no assunto, e se declarou a favor de Inácio, na sua opinião deposto injustamente. Fócio, por seu lado, declarou com os seus que o papa e todos os ocidentais eram hereges, pois tinham acrescentado ao Credo a palavra Filioque. Além disto era a época em que Bóris, o rei da Bulgária, se mostrava disposto a aceitar o cristianismo, e Fócio insistia em que este país estava sob sua jurisdição, enquanto o papa o reclamava para si.

O cisma acabou sendo superado. Os ventos políticos mudaram em Constantinopla, e Inácio foi recolocado em sua sede. Algum tempo depois foi obtido um acordo com o qual Fócio sucederia ao ancião Inácio quando este morresse. Deste modo o problema ficou resolvido, em Constantinopla. Mas ainda era necessário resolver a questão das relações rompidas com Roma. Mais tarde foi obtido um acordo em que Roma reconhecia Fócio como patriarca de Constantinopla, e este concordava com as pretensões romanas sobre a Bulgária. Quando fizeram este acordo, Fócio e o novo papa, João VIII, não contavam com Bóris, que, apesar do acordo, decidiu continuar suas relações com Constantinopla, em vez de Roma. Porém em todo caso estas negociações puseram um fim ao cisma.

As causas do conflito, entretanto, eram muito mais profundas. Desde tempos antiquíssimos as tradições cristãs do Oriente tinham sido diferentes das do Ocidente. A isto se somavam barreiras culturais e políticas, E o papado reclamava para si prerrogativas cada vez maiores, contra os costumes antigos a que o Oriente estava acostumado. Por causa de tudo isto o cisma de Fócio, apesar de ter sido resolvido, foi o prelúdio da ruptura definitiva.

Esta veio por motivos aparentemente insignificantes. Em meados do século XI o arcebispo búlgaro Leão de Acrida escreveu uma carta onde atacava os cristãos latinos por usarem pão sem fermento na comunhão, e por fazer do celibato eclesiástico uma lei universal. Estas questões, ao que parece de importância secundária, sem demora provocaram tal disputa que o papa Leão IX decidiu enviar uma embaixada a Constantinopla. Infelizmente o líder desta embaixada era o cardeal Umberto, zeloso reformador da igreja, como veremos em outro lugar desta história. A reforma que Umberto defendia no ocidente estava dirigida principalmente contra as violações do celibato (o “nicolaísmo“), e a compra e venda de cargos na igreja (a “simonia”). Por isto o fogoso cardeal, que para cúmulo dos males não sabia grego, via nas práticas orientais os mesmos inimigos contra que lutava no Ocidente. O matrimônio dos clérigos aos seus olhos não era muito melhor que o concubinato dos nicolaítas. E a autoridade que os imperadores tinham sobre a igreja para ele não passava de outra forma de simonia.

O debate ficou cada vez mais inflamado. Umberto e o patriarca Miguel Cerulário trocaram insultos. Por fim, no dia 16 de julho de 1054, quando o patriarca se preparava para celebrar a comunhão, o cardeal se apresentou na catedral de Santa Sofia, e colocou sobre o altar-mor um documento em que, em nome do papa (que na verdade tinha morrido pouco antes), declarava Miguel Cerulário herege, rompia a comunhão com ele, e extendia esta excomunhão a todos que o seguissem.

Mesmo que depois desta data houve períodos em que, por diversas circunstâncias, as igrejas de Roma e Constantinopla voltaram a estabelecer a comunhão entre si, podemos dizer que a partir dali ficou consumado o cisma que estava se preparando durante séculos.

 

Esta entrada foi publicada em História, Teologia e marcada com a tag . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.