O Cristianismo e o Império Romano sob o regime dos bárbaros

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era das trevas – Vol. 3: São Paulo: Vida Nova, 1995, páginas 01 a 38.

“Se os bárbaros foram enviados para dentro das fronteiras romanas somente para que … a igreja de Cristo se enchesse de hunos e suevos, de vândalos e burgúndios, de diversos e inumeráveis povos de crentes, louvada e exaltada seja a misericórdia de Deus, … ainda que isto se dê mediante a nossa própria destruição.” (Paulo Orósio)

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O velho Império Romano estava moribundo, e não o sabia. Além das suas fronteiras do Reno e do Danúbio agitava-se uma multidão de povos, prontos para irromper nos territórios romanizados. Estes povos, aos quais os romanos chamavam de “bárbaros”, seguindo o exemplo dos gregos, tinham habitado as florestas e estepes da Europa Oriental durante séculos. Desde seu início o Império Romano fora constantemente obrigado a proteger suas fronteiras contra as incursões dos bárbaros. Para isto construiu fortificações acompanhando o Reno e o Danúbio, e na Grã-Bretanha uma muralha que separava os territórios romanizados dos que permaneciam em mãos de bárbaros. Para facilitar a defesa, repartiram as terras entre os soldados, que viviam nelas como colonos, em condições de correr ao campo de batalha se fosse necessário.

Deste modo o Império Romano conseguiu defender suas fronteiras até meados do século IV. Porém a partir de então a defesa ficou cada vez mais difícil, até que por fim toda a parte ocidental do império sucumbiu diante das vagas de invasores.

Causas e etapas do desastre

Já se discutiu muito sobre as causas da queda do Império Romano. Na mesma época destes acontecimentos não faltaram pagãos que diziam que o desastre sobreviera porque o Império tinha abandonado seus velhos deuses, fazendo com que estes deixassem de protegê-lo. Esta acusação, que se costumava dirigir contra os cristãos em qualquer calamidade, já desde o século segundo, não apresentava nenhuma novidade. A ela os cristãos respondiam que a causa dos acontecimentos que ocorriam era o pecado dos romanos, em particular dos pagãos entre eles. Deus estava castigando Roma, não só por ela ter perseguido os cristãos, mas também e acima de tudo por seus costumes licenciosos e sua falta de fé. Em épocas mais recentes houve historiadores que adotaram uma ou outra destas explicações, se bem que modificando-as de acordo com os novos tempos. Assim, por exemplo, há quem diga que Roma caiu por ter-se convertido ao cristianismo, pois o pacifismo que os cristãos pregavam enfraqueceu seu poderio militar. Mas esta opinião esquece que quando Roma caiu tanto os que a defendiam quanto os que a tomaram eram cristãos, como veremos mais adiante. Contra isto há os que repetem a interpretação segundo a qual o Império caiu por causa de seus vícios, e tiram disto uma lição que deve ser aplicada em nossos dias. Mas fato é que não há provas de que os vícios dos romanos tenham sido maiores no século quinto do que no primeiro.

As causas da queda do Império são muito mais complexas. O Império tinha de sucumbir porque era impossível manter o equilíbrio que existia entre a vida dos seus súditos e a dos Bárbaros. De um lado do Reno e do Danúbio era muito mais fácil viver do que do outro. Em consequência, os bárbaros se sentiam atraídos pelas riquezas do Império. Contra eles os defensores da velha civilização, acostumados como estavam à vida tranquila que as riquezas dão, podiam oferecer pouca resistência eficaz.

Por estas razões, quando os bárbaros começaram a atravessar as fronteiras, e por alguma razão o Império não estava pronto para a defesa, recorreu-se repetidamente ao recurso dos ricos: comprar a boa vontade da oposição. Dava-se terras aos bárbaros, dando lhes permissão para viver dentro das fronteiras do Império, com o nome de “federados”, para que em troca o defendessem contra qualquer incursão de algum outro grupo. O resultado foi que em pouco tempo a maior parte do exército se constituía de soldados bárbaros, frequentemente debaixo do comando de oficiais da mesma origem. Estas tropas se consideravam romanas, e algumas vezes defenderam valentemente o Império. Mas em outras simplesmente se rebelaram contra a autoridade imperial, e seguiram seus próprios interesses. Boa parte dos bárbaros que causaram grandes prejuízos nas margens do Mediterrâneo na verdade eram soldados do Império. Por exemplo: o godo Alarico, cujas tropas tomaram e saquearam Roma no ano 410, era oficial do exército romano, e como tal tinha lutado na batalha de Aquileia em 394, sob o comando do imperador Teodósio.

Os romanos, por seu lado, também tinham certa curiosa atração pelos bárbaros. Sinal disto é que muitos imperadores gostavam de se cercar com uma guarda de soldados germânicos. Não faltavam romanos que, em meio à sua vida tranquila e aborrecida, olhavam com saudades para o outro lado das fronteiras. Isto chegou a tal ponto que a princesa Honória enviou ao huno Átila uma carta de amor e um anel, oferecendo-se a ele em casamento.

Hoje sabemos também que em regiões muito distantes das fronteiras do Império estavam tendo lugar acontecimentos que contribuíram para precipitar as invasões dos bárbaros. Durante séculos os hunos tinham vivido nas estepes asiáticas. Os hunos são provavelmente os mesmos que aparecem nos anais chineses com o nome de yung-nu, e contra os quais foi construída a partir do século III a.C. a Grande Muralha da China. Vendo que a resistência chinesa era invencível, os hunos começaram a se expandir para o ocidente. Além disto, é possível que eles tenham sido empurrados pelos mongóis e pelas mudanças de clima, que os obrigaram a procurar novas terras. Em todo caso, no princípio da era cristã os hunos atravessaram os Urais, penetrando na Europa, e começaram a fazer pressão sobre os povos germânicos que viviam na Europa Oriental. Por volta do ano 370, os hunos caíram sobre os ostrogodos, que dominavam a costa norte do Mar Negro, e destruíram seu império. Um forte contingente ostrogodo, sob o comando de Atanarico, dirigiu-se para os montes Cárpatos, de onde começou a pressionar os visigodos.

O resultado de tudo isto foi que uma multidão de visigodos, sob o comando de Fritigernes, se apresentou nas fronteiras do Danúbio, pedindo permissão para instalar-se em território romano. Depois de uma série de negociações, os visigodos foram admitidos na qualidade de “federados”. Porém pouco depois se rebelaram e levantaram as armas contra o Império. Foi então que teve lugar a batalha de Adrianópolis, a que referimos no volume anterior (ano 378). Ali a cavalaria goda derrotou a infantaria romana, e durante quatro anos os godos desolaram a região, chegando até às muralhas de Constantinopla. Por fim, em 382, O imperador Teodósio conseguiu fazer um tratado de paz com eles.

Porém a paz não durou muito tempo. Roma não estava disposta a repartir suas riquezas com os godos, nem tampouco a defendê-Ias. Por isso, no ano 395 os godos estavam novamente passeando pela Grécia, saqueando seus campos e as pequenas povoações, e obrigando os habitantes da região a se refugiarem nas cidades muradas, onde dominavam pânico e fome. Algum tempo depois seguiram seu caminho por toda costa leste do Mar Adriático, penetraram na Itália, e em 410 tomaram e saquearam a cidade de Roma. Alarico, o chefe que tinha guiado seu povo nestas últimas campanhas, morreu no mesmo ano. Mas os visigodos já tinham demonstrado seu poderio. Continuaram até o sul da Itália, com a intenção de se estabelecer na África, atravessando o Mediterrâneo. Porém uma tempestade frustrou seus intentos, e eles decidiram então marchar para o norte, onde se fixaram por algum tempo no sul do que hoje em dia é França. Foi ali que os emissários do imperador Honório os encontraram, indo solicitar seus serviços para lutar contra os bárbaros que tinham se estabelecido na Espanha.

Em fins do ano 406 e princípios de 407 as fronteiras do Reno se tinham desintegrado. Uma multidão de povos germânicos penetrou no Império, e assolou os campos do que hoje é França. Dali os suevos e os vândalos migraram até a Espanha, onde pareciam ter-se estabelecido definitivamente. Foi contra estes povos que o imperador Honório solicitou os serviços dos visigodos, na época sob o comando de Ataulfo, cunhado do falecido Alarico.

Ataulfo e os seus marcharam para a Espanha, e, se bem que o chefe godo morreu em Barcelona em 415, a conquista da península continuou. Em pouco tempo os suevos estavam cercados no noroeste da península, enquanto que os vândalos que não foram exterminados se viram obrigados a partir para as ilhas Baleares (em 426) ou para o norte da África (em 429). Os visigodos ficaram, então, donos de toda a Espanha (exceto dos territórios suevos) e de boa parte das Gálias.

Porém a política de Honório não tinha dado bons resultados, pois agora os vândalos invadiam o norte da África, Como vimos no volume anterior, eles estavam diante das muralhas de Hipona quando Santo Agostinho morreu no ano 430. Nove anos mais tarde eles tomaram a cidade de Cartago, e dali organizaram seus ataques contra as ilhas do Mediterrâneo (Sicília, Sardenha e Córsega). Por fim, em junho de 455, tomaram e saquearam a cidade de Roma, usando como pretexto o assassinato do imperador Valentiniano III, cuja viúva e filhas diziam defender.

Enquanto isto a Gália (aproximadamente o território da atual França e Suíça) sofria as consequências de ser um dos principais caminhos pelos quais os bárbaros entravam no Império. As ondas de vândalos, suevos e alanos que cruzaram o Reno a partir do ano 406 desolaram a região antes de continuar a sua marcha até a Espanha. Atrás deles, particularmente no sul e no oeste da Gália, vieram os visigodos. Em 451 as hordas de Átila semearam o terror, e muitos esperaram seu retorno quando Átila morreu em 453 e o império dos hunos se desfez. No sudeste da Gália os burgúndios tinham recebido terras como “federados” do Império. Mas a partir de 456 eles saíram de seus territórios e começaram a guerrear contra seus vizinhos, conquistando suas terras e suas cidades. Enquanto isto no norte da Gália os francos, que também tinham sido “federados” do Império, se estendiam para o oeste, até as fronteiras dos territórios visigodos.

Em vista de todos estes desastres, as tropas romanas simplesmente abandonaram a Grã-Bretanha, deixando-a à mercê dos anglos e dos saxões, que não tardaram a invadi-la.

Por último, os ostrogodos, que tinham se recuperado da sua grande derrota para os hunos, se apossaram da Itália e de toda a região ao norte desta península.

Em resumo, em fins do século V a parte ocidental do Império Romano estava dividida entre uma série de reinos bárbaros. Destes os mais importantes eram o dos vândalos no norte da África, dos visigodos na Espanha, os sete reinos dos anglos e dos saxões na Grã-Bretanha, o dos francos na Gália, e o dos ostrogodos na Itália. Cada um deles receberá atenção especial em uma seção à parte, logo mais. Porém antes de passarmos a estas seções, devo fazer dois esclarecimentos que são de grande importância para o curso futuro da história da igreja.

O primeiro destes esclarecimentos é que os diversos chefes ou reis bárbaros não se consideravam independentes do Império Romano. Muitos deles tinham cruzado as fronteiras com permissão do Império, para estabelecer-se como “federados”. Outros, mesmo a princípio sendo invasores, tinham colocado suas armas a serviço do Império contra algum outro povo bárbaro. E todos continuavam declarando que eram súditos do Império Romano. Seu propósito não tinha sido destruir a civilização romana, mas participar dos seus benefícios. Por isso, mesmo se muitas vezes suas campanhas e políticas destruíram grande parte desta civilização, a longo prazo quase todos os povos estabelecidos no velho Império acabaram por romanizar-se. Isto pode ser visto até os nossos dias nos idiomas falados em Espanha, Portugal, França e Itália, cujas raízes se encontram muito mais na língua latina que nas dos bárbaros.

O segundo esclarecimento é que muitos destes invasores eram cristãos. No século IV, quando os godos se encontravam ao norte do Danúbio, havia entre eles missionários provenientes da parte oriental do Império Romano. O mais famoso deles, de quem só sabemos o nome godo, Ulfila, tinha inventado uma maneira de escrever a Iíngua gótica, e traduzido as Escrituras para ela. Além disto, no tempo do imperador Constâncio, estivera em Constantinopla um forte contingente de soldados godos a serviço do Império. Muitos destes soldados se tornaram cristãos, e depois regressaram ao seu povo com sua fé. Já que todos esses contatos tiveram lugar na época do apogeu do arianismo no Oriente, os visigodos se converteram a esta forma da fé cristã. Através deles também os ostrogodos, os vândalos e outros povos bárbaros se tornaram cristãos arianos. A falta de documentos impede que conheçamos os detalhes desta rápida e enorme expansão do cristianismo além das fronteiras do Império. Se os conhecêssemos, provavelmente seriam das mais interessantes páginas da história da igreja. Em todo caso, fato é que muitos dos bárbaros que no século V se estabeleceram na África, Espanha e Itália eram arianos.

Isto trouxe consequências sérias, pois até então a questão do arianismo nunca tinha sido discutida na parte ocidental do Império, como tinha sido na parte oriental. Por isso boa parte da história da igreja durante os séculos V e VI consistirá no conflito entre o arianismo e a fé católica. (O modo com que aqui usamos o termo “fé católica” não se refere ao catolicismo romano atual, mas simplesmente à fé dos que aceitavam a doutrina trinitária que tinha sido promulgada nos concílios de Nicéia e Constantinopla. Neste sentido, tanto os protestantes quanto os católicos do século XX sustentam a “fé católica” frente ao arianismo.) O que estava em jogo era, primeiro, se os arianos obrigariam os católicos a se converter, ou vice-versa; e, segundo, se os bárbaros que ainda eram pagãos se tornariam católicos ou arianos.

Passemos, então, a narrar o curso dos acontecimentos nos principais reinos bárbaros.

O reino vândalo da África

Um dos reinos de mais breve duração foi o que os vândalos estabeleceram no norte da África. E mesmo assim, sua curta existência foi de grande importância para a história da igreja. Sob o comando de Genserico, os vândalos tomaram a cidade de Cartago em 439, e transformaram-na em capital do seu reino. Em pouco tempo este abrangia toda metade ocidental da costa norte da África. Dali empreenderam uma série de incursões que logo os promoveu à condição de árbitros da navegação no Mediterrâneo ocidental. Apossaram-se de Sardenha, Córsega e, por algum tempo, da Sicília. Em 455 tomaram e saquearam a cidade de Roma. Neste caso a destruição foi ainda maior do que quando Alarico e os godos tomaram a cidade.

Genserico era ariano convicto, e por isso forçou seus súditos a aceitar a fé ariana. Já que nos territórios que ele tinha conquistado havia muitos crentes católicos (bem como donatistas…), a perseguição não se fez esperar. Todas as igrejas foram confiscadas e entregues aos arianos, ao mesmo tempo em que os bispos católicos eram expulsos do país.

Quando Genserico morreu, em 477, seu sucessor foi Unerico, que a princípio foi mais comedido em sua política religiosa. Mas Genserico tinha estabelecido toda uma hierarquia ariana, sob a direção do patriarca de Cartago, e quando houve um conflito entre este patriarca e o bispo católico da cidade, a perseguição irrompeu com mais força do que antes. Unerico proibiu a seus súditos vândalos que se tornassem católicos ou assistissem a cultos católicos. Pouco depois proibiu totalmente o culto católico, e expulsou os bispos e boa parte do clero desta linha. Muitos foram torturados, alguns tiveram sua Iíngua cortada. Foi por causa desta perseguição que o termo “vandalismo” adquiriu o sentido que tem hoje em dia.

Unerico morreu em 484, e então a perseguição se acalmou. A política do rei Trasamundo foi deixar que o catolicismo morresse por si, sem perseguí-Io abertamente. Com este propósito continuou a proibição de os vândalos se tornarem católicos, e promoveu debates entre católicos e arianos. Neste debates o bispo Fulgêncio de Ruspe reluziu como um dos grandes defensores da ortodoxia.

Por fim, sob o governo de Ilderico, os católicos tiveram mais liberdade. Fulgêncio de Ruspe passou a ser o cabeça de um movimento renovador, e junto com o bispo Bonifácio de Cartago convocou um sínodo que se reuniu no ano 525.

Porém o reino dos vândalos estava destinado a desaparecer em breve. A parte oriental do Império Romano, com sua capital em Constantinopla, estava gozando de um novo despertar sob o reinado de Justiniano. Um dos sonhos de Justiniano era restaurar a unidade do Império, e por isso, assim que os vândalos lhe deram ocasião, enviou seu general Belisário no comando de uma frota que se apoderou de Cartago em 533, e não tardou a destruir o reino vândalo. A partir de então o arianismo foi desaparecendo do norte da África.

Tudo isto, no entanto, teve consequência funestas para a igreja na região. (…) A igreja no norte da África havia se dividido por causa do cisma donatista. O cisma ainda persistia. E a ele se juntou meio século de governo ariano, e uma nova conquista por tropas que no fim das contas eram quase tão estrangeiras como os próprios vândalos. O resultado de tudo isto foi que a região ficou tão dividida, e o cristianismo nela tão enfraquecido, que a conquista árabe um século e meio depois foi relativamente fácil, e depois desta conquista a fé cristã desapareceu.

O reino visigodo da Espanha

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Em seus primeiros tempos o reino visigodo se estendia por boa parte do que hoje é França, e sua capital ficava em cidades francesas como Tolouse e Bordeaux. Em princípios do século VI, entretanto, o reino dos francos, sob a direção de Clóvis, começou a expandir-se para o ocidente, às custas dos visigodos. Em 507, na batalha de Vouillé, Clóvis os derrotou, matando o seu rei Alarico II. A partir de então o reino dos visigodos foi se retraindo até que chegou a ser um reino quase somente espanhol.

Por outro lado, nem toda a Espanha estava nas mãos dos visigodos, pois os suevos ainda conservavam a sua independência na extremidade noroeste da península. Ao fixarem-se ali os suevos eram pagãos. Em pouco tempo, porém, a presença dos antigos habitantes da região, que eram católicos, se fez sentir, bem como a dos visigodos vizinhos, que eram arianos. Por isso alguns suevos se tornaram católicos, outros arianos. A conversão definitiva do reino ao catolicismo teve lugar por volta de 550, quando o rei Cararico pediu a São Martim de Tours (cuja vida narramos no volume anterior, e cuja memória era muito venerada na região) que curasse seu filho doente. Quando este filho ficou bom, Cararico se tornou católico, como Martim de Tours o havia sido. Depois tomou como conselheiro para assuntos religiosos o abade de um mosteiro das proximidades, Martim, a quem fez arcebispo de Braga. Como esta cidade era capital do reino, Martim de Braga passou a ser autoridade máxima de toda a igreja no país, e se dedicou a persuadir a todos da verdade da doutrina trinitária. Quando da sua morte, em 580, o arianismo tinha quase desaparecido.

Enquanto isto o reino dos visigodos tinha se estabelecido firmemente no restante da península ibérica, expulsando os vândalos e submetendo os alanos (outro povo bárbaro que tinha chegado pouco antes). Sob o governo de Leovigildo a capital foi estabelecida definitivamente em Toledo, que até então tinha sido uma cidade de importância secundária. Foi também Leovigildo quem subjugou o reino dos suevos, uns cinco anos depois da more de Martim de Braga. Já que Leovigildo era ariano, ele introduziu novamente o arianismo nos antigos territórios dos suevos.

Porém não sobrava muito tempo de vida ao arianismo na Espanha. Assim como no norte da África e em outras regiões do Império, a antiga população católica não estava disposta a se tornar ariana, enquanto que os conquistadores bárbaros tinham a tendência de se adaptar cada vez mais aos costumes e convicções dos conquistados. Em pouco tempo o reino estava maduro para converter-se ao catolicismo, o que ocorreu através de uma série de circunstâncias políticas. O filho de Leovigildo, Hermenegildo, tinha se casado com uma princesa franca, de fé católica. A mãe de Leovigildo, Goswinta, que era ariana fanática, temia que seu neto se deixasse levar pela fé da sua esposa, e a mandou sequestrar. Em resposta a isto Hermenegildo fugiu da corte e se retirou para Sevilha, onde o bispo Leandro o converteu à fé católica. O resultado foi que quando Hermenegildo empunhou as armas contra seu pai, sua campanha foi uma cruzada a favor da doutrina trinitária, contra O arianismo. A campanha de Hermenegildo não teve bom êxito: ele foi derrotado e morto pelas tropas leais ao rei. Porém quando Leovigildo morreu, seu filho Recaredo, irmão de Hermenegildo, seguiu a política religiosa do seu falecido irmão, e se tornou católico. Em uma grande assembleia que teve lugar em Toledo, em 589, Recaredo declarou sua fé católica na presença de Leandro de Sevilha, e convidou a todos os bispos presentes a aceitar a mesma fé. Ao que parece, os bispos não tinham muita coisa contra, e logo a maior parte do clero do reino era ortodoxa.

Em termos de política a monarquia visigoda sempre foi extremamente instável. O fratricídio era coisa relativamente comum, pois ainda que a monarquia fosse eletiva, na realidade quase sempre foi hereditária, e isto parece ter estimulado as ambições políticas dos que queriam se assenhorear da coroa do seu irmão antes que sua descendência direta chegasse à maioridade. Dos trinta e quatro reis visigodos, somente quinze morreram em campo de batalha ou de morte natural; os outros foram assassinados.

Com esta instabilidade política a igreja se apresentou como um fator de ordem e estabilidade, sobretudo depois da conversão do reino ao catolicismo, quando cessaram as constantes contendas entre católicos e arianos. O arcebispo de Toledo logo passou a ser a segunda pessoa mais importante do reino, e os concílios de bispos que se reuniam periodicamente na capital tinham funções legislativas, não somente para a igreja, mas também para toda a ordem social.

O personagem mais distinto da igreja espanhola durante todo este período foi sem dúvida Isidoro de Sevilha, irmão menor de Leandro, educado por este depois da morte de seus pais. Isidoro foi um erudito em meio a um mar de ignorância. Seus conhecimentos de latim, grego e hebraico lhe permitiram ajuntar boa parte dos conhecimentos da antiguidade e transmití-los às gerações seguintes. Isto Isidoro fez em parte através da escola que fundou em Sevilha, porém antes de tudo através dos seus escritos. Estes de modo algum são originais. Isidoro não era um pensador de grande calibre, ao estilo de Orígenes ou Agostinho. Mas o valor das suas obras está precisamente no modo com que compilou os conhecimentos que conseguiram sobreviver às invasões dos bárbaros e ao caos que as seguiu. Mesmo compondo obras de caráter histórico e comentários bíblicos, seu escrito mais notável é Etimologias, que é uma verdadeira enciclopédia do saber da época. Se bem que da nossa perspectiva do século XX muito do que está escrito ali pode parecer ridículo e errôneo, fato é que as Etimologias de Isidoro foram um dos principais instrumentos com que a Idade Média contou para conhecer algo da ciência dos antigos. Ela inclui não só assuntos propriamente teológicos, mas também conhecimentos e opiniões nos campos da medicina, arquitetura, aquicultura, e muitos outros.

Os estudos de Isidoro ainda lhe deixaram tempo para se ocupar da vida prática da igreja. Quando seu irmão Leandro morreu, ele lhe sucedeu como bispo de Sevilha, e como tal teve de presidir diversos concílios que em grande parte determinaram o curso da igreja e até do reino visigodo. Destes concílios provavelmente o mais importante foi o que se reuniu em Toledo em 633.

Já que este concílio nos dá uma ideia da glória e da miséria da igreja sob o regime visigodo, convém que nos detenhamos para discutir algumas de suas conclusões.

No campo político a ação mais importante do concílio foi apoiar as ações de Sisenando, que tinha usurpado o trono de Svintila. Sisenando se apresentou diante do concílio em atitude humilde, prostrando-se em terra e pedindo a bênção dos que estavam ali reunidos. Estes o receberam com grande satisfação. Isidoro o ungiu, como dantes Saul tinha sido ungido, e o concilio decretou:

Quanto a Svintila, que renunciou ao reino e se desfez dos sinais do poder por temor causado pelos seus próprios crimes, decretamos … que nem sua esposa, nem seus filhos jamais sejam admitidos à comunhão … nem nunca mais sejam elevados aos postos que perderam por causa da maldade …. Além disto se lhes será tirado tudo que têm roubado dos pobres.

No campo propriamente teológico o concílio confirmou mais uma vez a doutrina trinitária, contra os arianos, e decretou que o batismo deveria ser feito com uma só imersão, pois o imersão tríplice poderia dar a entender que a Trindade estava dividida, e que portanto os arianos tinham razão.

Além disto o concílio legislou com cuidado em relação à vida moral dos bispos e demais clérigos, em particular em relação aos seus casamentos, que antes de efetivados precisariam da autorização do bispo. Porém os castigos determinados para os clérigos que se unissem ilegitimamente a mulheres são injustos sob qualquer aspecto, pois enquanto ordenam que a mulher seja “separada e vendida pelo bispo”, dizem simplesmente que o clérigo “fará penitência por algum tempo”.

Entretanto em sua legislação em relação aos judeus o concílio (presidido pelo homem mais letrado da sua época) nos dá mostras mais claras da barbárie que reinava. Mesmo declarando que os judeus não são obrigados a se converterem, decreta que os judeus que foram convertidos à força no tempo do “religiosíssimo príncipe Sisebuto” não terão liberdade para voltar à sua antiga fé, pois isto seria blasfêmia contra o nome do Senhor. Para evitar que os judeus convertidos voltassem à sua velha fé eles foram proibidos de qualquer contato com os não convertidos (mesmo se estes fossem seus parentes mais próximos). Se além de tudo algum convertido continuasse com algumas das antigas práticas ou convicções (principalmente “as abomináveis circuncisões”), seus filhos lhe serão tirados, “para que os pais não os contaminem”. E se algum judeu não convertido estivesse casado com uma mulher cristã, ficará sabendo que terá de escolher entre tornar-se cristão ou separar-se de sua mulher. Depois da separação, os filhos ficariam com a mãe. Porém se o caso é ao contrário, sendo a mãe judia, os filhos ficariam com o pai cristão.

Isidoro de Sevilha morreu em 636, três anos depois do Concílio cujos principais decretos resumimos. Depois da sua morte não houve outro personagem com a mesma proeminência em toda a igreja visigoda. Porém se a igreja carecia de dirigentes de destaque, o estado estava em circunstâncias piores. O rei Sisenando também morreu em 636, e continuou a interminável lista de usurpações e crimes políticos. Chindasvinto, por exemplo, se apossou do trono e o garantiu a seu filho Recesvinto matando setecentos homens, cujas mulheres e filhos repartiu entre seus amigos. Quando Recesvinto morreu, os nobres elegeram a Wamba, que teve de lutar contra rebeliões em diversas legiões, e por fim foi destronado. Esta longa história de traições, conspirações e crimes continuou até 711, quando o rei Rodrigo ocupava o trono, e as hostes mulçumanas puseram fim ao reino visigodo. Porém a narração destes acontecimentos pertence a outro capítulo deste volume. Basta dizer aqui que em meio e todas estas idas e vindas políticas e igreja deu, muito mais que o governo político, certa estabilidade à vida.

O reino franco na Gália

Durante a maior parte do século V os burgúndios repartiram com os francos o domínio da Gália. Enquanto os francos eram pagãos, os burgúndios eram arianos. Porém seus reis não perseguiram os habitantes católicos do país, como os vândalos o haviam feito no norte da África. Pelo contrário, estes reis fizeram todo o possível para estabelecer boas relações com o povo conquistado, na maior parte católico. Gondebaldo, por exemplo, teve como um de seus conselheiros mais chegados o bispo católico de Viena (a mesma cidade cujos mártires ocuparam nossa atenção no primeiro volume desta história). Apesar de Gondebaldo não se tornar católico, seu filho Sigismundo deu este passo, e por isso a partir de 516 seus territórios estiveram unidos sob uma só fé. Quando os burgúndios foram conquistados pelos francos em 534, mantiveram sua fé católica.

Os francos, por seu lado, que com o passar do tempo haveriam de se apossar de toda a Gália, dando-lhe o nome de “França”, eram pagãos. Quando entraram pela primeira vez nos territórios do Império, estavam muito menos organizados do que os visigodos ou os burgúndios. Além disto seus contatos com a civilização romana tinham sido mais escassos. Longe de estarem unidos sob um só chefe, estavam divididos em diversas linhagens ou tribos, cada uma com seu próprio chefe. Pouco depois da sua fixação no norte da Gália, entretanto, começaram a se unir sob a direção inteligente e poderosa de Meroveu, seu filho Childerico e seu neto Clóvis. Em 486 este último começou uma série de manobras políticas e conquistas que em pouco tempo fizeram dele o dono do norte da Gália.

Clóvis e seus francos tinham tido muitas oportunidades para conhecer a fé cristã, pois habitavam na Gália os descendentes dos povos romanizados que tinham sido conquistados pelos francos. Já que parte do propósito dos francos era participar da civilização romana, estes antigos habitantes da região eram respeitados e ouvidos por seus conquistadores. Além disto Clóvis tinha se casado com a princesa burgúndia Clotilde, que era cristã.

Foi em meio de uma campanha contra os alamanes, um dos grupos que disputavam o domínio da Gália, que Clóvis se converteu. Conta-se que ele prometeu a Jesus Cristo, o Deus de Clotilde, que se converteria se ele lhe desse a vitória. Depois de uma batalha árdua os alamanes foram derrotados, e Clóvis recebeu o batismo no dia de Natal de 496, junto com vários dos seus nobres, das mãos do bispo católico Remigio, de Reims. Este acontecimento foi de grande importância, porque foi a causa da conversão povo franco ao catolicismo, e mais tarde daria origem ao grande império de Carlos Magno.

Depois da morte de Clóvis os francos continuaram aumentando seu poderio. Em 534 anexaram o reino burgúndio, e dois anos depois tomaram algumas das províncias que tinham pertencido aos ostrogodos. Também se expandiram mais para o leste, passando o Reno, para territórios que hoje formam parte da Alemanha, e que nunca tinham sido conquistados pelo Império Romano. Apesar de tudo isto, entretanto, os francos não conseguiram formar uma grande potência, porque tinham o costume de dividir seus reinos entre os filhos. Assim por exemplo, quando Clóvis morreu seus territórios foram divididos entre seus quatro filhos, e a conquista dos burgúndios somente foi possível porque três deles se uniram em um propósito comum. Além disto muitos dos descendentes de Clóvis demonstraram serem incapazes para governar, e mais tarde houve quem o fizesse em seu nome.

O antigo reino de Clóvis estava dividido em várias partes quando, no século VII, a família dos carolíngios começou a ascender. Seu nome provém do fato que diversos deles tinham o nome de Carlos, que em latim é Carolus. O primeiro dos carolíngios foi Pepino, o Velho, que possuía enormes extensões de terra e usava suas receitas para seus propósitos políticos. Seu neto, Pepino de Heristal, ocupou o cargo de “mordomo de palácio” de um dos reis francos. Neste cargo Pepino era o verdadeiro rei. Porém não depôs quem reinava de nome; continuou mantendo a ficção de que quem governava era descendente de Clóvis. Com uma política hábil e várias campanhas militares Pepino de Heristal conseguiu reunir sob seu poder todos os territórios dos francos, mesmo sem dar-lhes uma unidade visível. Seu neto Carlos Martel (“martelo”) aumentou o prestígio da família ao derrotar os muçulmanos na batalha de Tours (também chamada de Poitiers), em 732. Quando da sua morte ele era o governante de fato de todos os territórios francos, se bem que sempre supostamente em nome dos descendentes de Clóvis. Por fim Pepino, o Breve, filho de Carlos Martel, decidiu desfazer-se de um rei inútil, Childerico III, “o Estúpido”. Com a anuência do papa Zacarias, obrigou Childerico a renunciar ao trono, e a cortar os cabelos e tomar o hábito da vida monástica. Então Pepino adotou o título de rei, porém não por conta própria, nem por eleições de nobres, como os povos bárbaros costumavam a fazer anteriormente, porém deixando-se ungir pelo bispo Bonifácio, sob ordem do papa Zacarias.

A unção de Pepino por Bonifácio é importante, pois temos aqui a transição da velha monarquia eletiva ou hereditária para a monarquia por direito divino, e ainda mais porque o filho de Pepino, a quem a posteridade conhece como Carlos Magno, levou o reino franco ao auge do seu poder.

Em meio a todo este processo a igreja teve um papel duplo. Às vezes, como havia reis poderosos como Clóvis, parecia que simplesmente prestava seu apoio ao poder real. Logo se estabeleceu o costume de que os bispos eram nomeados, ou pelo rei, ou ao menos com o seu consentimento. Consequência disto foi que muitos bispos eram mais funcionários do rei do que pastores, e que houve muitas nomeações por razões políticas. Ainda que boa parte das terras pertencia aos bispados (e às vezes exatamente por isto), os bispos não eram verdadeiros pastores, e mais senhores feudais que deviam sua posição à proteção de algum rei ou senhor poderoso. Nesta situação descuidava-se do serviço aos pobres, e havia pouco a regulamentar na vida eclesiástica. Em 742 Bonifácio (o mesmo que pouco depois consagraria Pepino rei) escreveu ao papa Zacarias dizendo-lhe que a direção da igreja estava praticamente em mãos de senhores leigos, e que um concílio de bispos para regulamentar e renovar a vida da igreja era coisa desconhecida no reino franco.

As Ilhas Britânicas

Mesmo no tempo de maior glória do Império Romano este não conseguira conquistar todas as Ilhas Britânicas, e tinha-se limitado à parte sul da Grã Bretanha (o que hoje em dia é Inglaterra). Ao norte estavam os territórios dos pictos e escotos (onde hoje é Escócia), separados do mundo romano por uma muralha que o imperador Adriano mandara construir. A Irlanda nunca foi invadida pelos romanos. Portanto, quando as legiões romanas se retiraram da Grã-Bretanha, em meio ao desastre das invasões dos bárbaros, o que de fato abandonaram foi o sul da ilha.

Nesta área, todavia, havia uma população numerosa de povos cristãos e romanizados. Algumas destas pessoas se retiraram para regiões mais fáceis de defender, enquanto que outras permaneciam em suas antigas terras, onde ficaram sob o domínio dos bárbaros que logo invadiram a ilha.

Estes bárbaros vinham do continente, e em sua maioria eram anglos e saxões. Mais tarde se fixaram em sete reinos principais (se bem que houve outros mais efêmeros e de menos importância): Kent, Essex, Sussex, Anglia Oriental, Wessex, Nortumbria e Mércia. Os governantes de todos estes reinos eram pagãos, mas entre seus súditos havia um bom número de cristãos, cujos antepassados tinham vivido nas terras desde antes das invasões.

Também antes das invasões tinha acontecido outra coisa muito importante para a história do cristianismo das Ilhas Britânicas. Trata-se da ida de Patrício à Irlanda. Patrício era um jovem cristão que vivia na Grã-Bretanha, onde seu pai era oficial do exército romano. Ainda muito jovem ele foi sequestrado por um bando de irlandeses que assaltou a região, e levado prisioneiro para a Irlanda. Ali ele viveu durante vários anos como escravo, pastoreando gado, sem saber onde estava, aprofundando a sua fé. Afinal, através de um acordo com o capitão de um barco, conseguiu escapar, porém foi levado ao continente em vez de à sua terra, onde passou por muitas dificuldades antes de regressar à Grã-Bretanha.

De volta ao seu lugar de origem, Patrício gozava do que parecia ser um repouso merecido, quando recebeu em sonhos o chamado para ir como missionário à Irlanda, o mesmo lugar onde pouco tempo antes ainda fora escravo. Ele se pôs a caminho e com grande perigo pessoal se pôs a pregar na Irlanda. Depois de uma nova série de dificuldades começou a ver os resultados da sua obra, e conta-se que seu êxito foi tamanho que algumas vezes batizou multidões de irlandeses, simplesmente mandando que todos entrassem nas águas de um rio, depois do que ele pronunciava a fórmula batismal sobre a multidão. Logo ele começou a ordenar e instruir sacerdotes irlandeses, para que servissem de pastores para os recém-convertidos. Assim surgiu na Irlanda uma forte igreja, que logo começou a enviar os seus próprios missionários a outras regiões.

A igreja que Patrício fundou na Irlanda tinha várias características que a distinguiam do cristianismo no restante da Europa. Destas a mais notável era que, em vez de ser governada por bispos, quem tinha autoridade eram os abades dos conventos. Além disto o Domingo da Ressureição era celebrado em outra data, as tonsuras dos clérigos eram diferentes, etc.

Pouco depois da atuação de Patrício a Irlanda tinha se transformado em um centro missionário. Considerando que a esta altura os bárbaros já tinham invadido a Grã-Bretanha, e que em todo caso os pectos e escotos do norte desta ilha nunca tinham sido cristãos, boa parte do trabalho missionário dos irlandeses foi Columba, que tinha sido instruído na Irlanda em um mosteiro que conservava muito da sabedoria da antiguidade. Por volta de 563 Columba e doze companheiros se estabeleceram na pequena ilha de lona, diante das costas da Escócia. Ali fundaram um mosteiro que queriam que fosse um centro missionário para a conversão dos pectos. A partir dali Columba e seus companheiros fizeram várias visitas aos territórios dos pectos, até que conseguiram que o rei Brídio e a maioria dos seus súditos se convertessem.

A partir de lona o cristianismo também se estendeu até os reinos dos anglos e dos saxões. Quase quarenta anos depois da morte de Columba o rei de Northumbria, Osvaldo, se viu obrigado a refugiar-se em lona, por razões políticas. Quando em 635 chegou o momento da batalha decisiva em defesa do seu reino contra os bretões, conta-se que ele viu Columba em sonho, a quem dava muito valor. Na manhã seguinte, antes que o inimigo se preparasse para a batalha, Osvaldo levantou uma cruz rude, e pediu a vitória ao Deus de Columba. Então ele e os seus se lançaram sobre os bretões, que fugiram espavoridos. O resultado foi que todo o reino de Nortumbria se tornou cristão. A pedido de Osvaldo os monges de lona enviaram missionários ao seu reino. Um deles, Aidão, fundou na ilha de Lindisfarne um mosteiro semelhante ao que Columba tinha fundado em lona. A partir dali a fé cristã se expandiu para vários outros reinos da Grã-Bretanha.

Os monges missionários provenientes da Irlanda eram ao mesmo tempo pessoas devotas e estudiosas. Os mosteiros irlandeses foram dos poucos centros onde se preservaram os conhecimentos da antiguidade durante o período caótico que seguiu às invasões dos bárbaros.

Porém não só da Irlanda chegaram missionários à Grã- Bretanha. Conta a lenda que Gregório, o Grande, um dos papas mais notáveis, cuja vida e obra discutiremos mais adiante, passeava pelo mercado de Roma quando uns jovens ruivos que estavam à venda como escravos chamaram sua atenção.

– De que país são estes jovens? – perguntou Gregório.
– São anglos – responderam-lhe.
– São mesmo anglos, pois têm rostos de anjos. Onde é o país dos anglos?
– Em Deiri.
– São mesmo de ira, pois foram chamados da ira para a misericórdia de Deus. Como se chama o rei deles?
– Aela.
– Aleluia! Farei com que neste país seja louvado o nome de Deus.

É possível que este diálogo, que cronistas antigos nos relatam, nunca tenha acontecido. Porém em todo caso não há dúvida de que Gregório desde jovem sentiu certa atração pelo país dos anglos. De certa feita quis ir a estes territórios como missionário. Ele, porém, era muito popular em Roma. O povo se reuniu e não o deixou partir. Em 590, como veremos mais adiante, chegou a ser papa. Nove anos mais tarde deu mostras do seu antigo interesse pelo país dos anglos enviando-lhes uma missão de vários monges encabeçada por Agostinho, procedente do mesmo mosteiro do qual Gregório fizera parte antes de ser papa.

Depois de alguma hesitação Agostinho e os seus chegaram ao reino de Kent, na Grã-Bretanha. O rei deste país era Etelberto, que tinha se casado com uma princesa cristã e tinha dado mostras de que favoreceria a pregação do evangelho em seus territórios. No princípio os missionários não conseguiram converter muitas pessoas. Porém quando, depois de algum tempo, o próprio Etelberto se converteu, seguiu uma conversão em massa. Em Canterbury, a capital de Kent, foi fundado um arcebispado, e Agostinho foi o primeiro a ocupá-lo. Quando ele morreu, menos de dez anos depois de chegar à Grã-Bretanha, todo o reino de Kent era cristão, e havia convertidos em todas as regiões vizinhas.

O processo de conversão dos sete reinos, todavia, não transcorreu sem dificuldades e oposição. No próprio caso de Kent, depois da morte de Etelberto houve uma breve reação pagã, apesar de o novo rei se converter pouco tempo depois. Um dos episódios mais curiosos de toda esta história ocorreu no pequeno reino de Anglia Oriental. Por volta do ano 630 reinava ali Sigeberto, que se convertera e batizara durante um período de exílio na França. Sigeberto mandou vir de Kent o bispo Félix, que chegou com um contingente de missionários e professores. Em pouco tempo o reino se tornou cristão, e o próprio rei decidiu dedicar-se à vida monástica. Depois de abdicar em favor de um parente, ele se retirou para um mosteiro, onde recebeu a tonsura e se dedicou à vida contemplativa. Porém algum tempo depois o rei pagão de Mércia, Penda, atacou Anglia Oriental. Sem direção militar, os habitantes do país acudiram ao seu antigo rei, suplicando-lhe que marchasse com eles ao campo de batalha. Sigeberto lhes lembrou que seus votos monásticos lhe proibiam usar a espada. Por fim, o rei monge se deixou persuadir, e saiu à batalha à frente das suas tropas. Porém armado de um porrete! Os cristãos foram derrotados pelas tropas de Penda, e Sigeberto morreu na batalha. Mas sua memória foi venerada por muitos anos, e no fim não só Anglia Oriental se tornou cristã, mas Mércia também.

Tudo o que dissemos até aqui nos ajuda a colocar a obra de Agostinho de Canterbury em sua perspectiva merecida. Foi dito muitas vezes que Agostinho e seus sucessores conseguiram a conversão da Grã-Bretanha. Isto não é toda a verdade, pois como vimos Columba e seus sucessores tiveram pelo menos tanto êxito quanto Agostinho e os seus. Porém isto não diminui a importância da missão de Agostinho. Esta missão é importante por duas razões: em primeiro lugar, se trata da primeira ocasião em toda a história da igreja em que temos dados fidedignos de que um papa ou bispo de Roma envia missionários a terras estranhas. Em segundo lugar, a missão de Agostinho é importante porque através dela o cristianismo nas Ilhas Britânicas estabeleceu relações estreitas com o restante da Europa Ocidental.

Como dissemos antes, o cristianismo irlandês que Columba e os seus trouxeram à Grã-Bretanha diferia em alguns detalhes do que se praticava no restante da Europa Ocidental. Mesmo que estes detalhes possam parecer insignificantes, é fato que eles impediam o contato direto e sem barreiras entre as igrejas das ilhas e as do continente. A partir de Kent e dos outros reinos do sul avançava o cristianismo procedente de Roma. A partir da Irlanda, da Escócia e dos reinos do norte avançava o que vinha da Irlanda e de lona. O conflito era inevitável, quando as duas formas se encontraram.

No reino de Nortumbria o contraste entre estas duas formas de prática cristã se tornou insuportável. O rei seguia o cristianismo de origem irlandesa, e a rainha seguia o de origem romana. Como as datas em que se comemorava o Domingo de Ressurreição eram diferentes, enquanto o rei celebrava com festas e grande regozijo a rainha se retirava para celebrar o Domingo de Ramos com jejum e penitência.

Para resolver estas dificuldades, reuniu-se um sínodo em Whitby, em 663. Os missionários irlandeses e seus seguidores defendiam sua posição diante do sínodo dizendo que tinham recebido sua tradição de Columba. Os missionários romanos discordavam, dizendo que a autoridade de Pedro era maior que a de Columba, já que o apóstolo recebera as chaves do Reino. Ao ouvir isto, conta-se que o rei perguntou aos que defendiam a tradição irlandesa:

– Vocês estão de acordo com o que dizem aqueles, de que São Pedro tem as chaves do Reino?
– Sem dúvida – responderam.
– Então não há mais razões para discutir. Eu obedecerei a São Pedro, para que ele não me feche as portas quando eu chegar ao céu, e não me deixe entrar.

Em consequência o sínodo de Whitby optou pelas tradições do continente europeu, e rechaçou as dos irlandeses. Mesmo que a história que acabamos de narrar dê a impressão de que tudo se deve à ingenuidade de um rei, é fato que havia fortes razões para que a longo prazo o cristianismo das Ilhas Britânicas tenderia a seguir os costumes do restante do cristianismo ocidental. De outro modo teria ficado ilhado do restante da Europa. E graças à decisão de Whitby e de outros concílios semelhantes a igreja nas Ilhas Britânicas pôde ser um dos mais fortes meios para o contato destas ilhas com o continente.

Os reinos bárbaros da Itália

Em nossa rápida passagem pelos diversos reinos que os bárbaros fundaram na Europa Ocidental, falta dirigir o olhar para a península italiana. Ali o Império continuou existindo por algum tempo, se bem que mais como fantasma que como realidade. Diversos generais bárbaros se apossaram do poder, um atrás do outro, pretendendo governar em nome dos imperadores. Estes últimos eram pouco mais que figuras decorativas que residiam em Roma, longe das campanhas militares, enquanto que os generais que governavam de fato moravam em Milito, muito mais perto das fronteiras.

Por fim, em 476, o general Odoacro, no comando das tropas hérulas, depôs o último dos imperadores do Ocidente, Rômulo Augústulo. Porém mesmo então Odoacro não se desfez do fantasma imperial. Em vez de querer governar por conta própria, ele escreveu ao imperador Zenão, que governava em Constantinopla, dizendo-lhe que agora que não havia mais imperador no Ocidente o Império estava de novo unido, e se pôs sob suas ordens. Em troca Zenão deu a Odoacro o título de “patrício”, e o nomeou para que governasse a Itália em seu nome.

Porém as relações entre Zenão e Odoacro foram deteriorando, até que o Imperador do Oriente decidiu recorrer aos ostrogodos, para desfazer-se dos hérulos. Sob o comando de Teodorico os ostrogodos invadiram a Itália, e em 493 o reino dos hérulos tinha desaparecido.

Teodorico foi um bom governante, e no princípio do seu reinado se rodeou de conselheiros sábios, escolhidos de entre os habitantes anteriores do país. Porém seu governo tropeçava em uma grande dificuldade: Teodorico e os ostrogodos eram arianos (como também os hérulos antes deles o tinham sido), enquanto que os ítalo-romanos que formavam a maioria da população eram católicos. O poder militar estava em mãos dos primeiros, enquanto que a administração civil ficava necessariamente em mãos dos últimos, pois entre os ostrogodos até o próprio rei era analfabeto. Não tardou que os ítalo-romanos sonhassem com uma invasão por parte das forças do Império do Oriente, vinda de Constantinopla. Já que o Império do Oriente (também chamado de Império Bizantino) era católico, tal invasão voltaria a colocar a fé católica acima da ariana. Até que ponto estes sonhos chegaram a transformar-se em conspiração, e quantos participaram dela, não podemos saber. Porém Teodorico achou que havia mesmo uma conspiração, e que alguns dos seus conselheiros ítalo-romanos estavam envolvidos nela. Boécio, quem dirigia toda a administração civil sob Teodorico, e que sem dúvida era um dos poucos sábios da época, foi encarcerado e morto. Na prisão ele escreveu sua famosa obra Sobre a Consolação da Filosofia, como que para recordar-lhe que a verdadeira felicidade não consiste em prestígio humano nem em bens materiais. Antes ele tinha composto numerosos comentários sobre diversas obras da antiguidade, e foi, portanto, através dele que boa parte da Idade Média conheceu estes escritos. Junto com Boécio morreu seu sogro Símaco, presidente do senado romano. Dois anos depois, em 526, o papa João também morreu nos cárceres de Teodorico. A partir de então os ítalo-romanos reconheceram Boécio, Símaco e João como mártires, e sua oposição ao regime ostrogodo recrudesceu.

O sucessor de Boécio no governo civil, Cassiodoro, tratou de mediar entre os arianos e os católicos, se bem que sem comprometer a sua fé católica. Por fim, talvez convencido de que Teodorico não lhe permitiria levar a cabo seu programa de governo, se retirou para Vivário, onde se dedicou à vida monástica. Ali compôs numerosas obras, das quais a mais importante foi Instituições das Letras Divinas e Seculares. Esta obra era um resumo dos conhecimentos da antiguidade, e sobre ela se baseou boa parte da educação medieval.

Teodorico morreu em 526, e seu neto e sucessor Atalarico seguiu uma política mais moderada em relação aos católicos. Porém quando um novo rei, Teodato, voltou a estabelecer o antigo rigor contra os ítalo-romanos, a corte de Constantinopla chegou à conclusão de que tinha chegado o momento de invadir a Itália.

Na época reinava Justiniano em Constantinopla, um dos maiores imperadores da Idade Média, que tinha o sonho de restaurar o antigo Império. Já vimos que seu general Belisário pôs fim ao reino dos vândalos na África. E este mesmo general empreendeu uma campanha que, depois de vinte anos de lutas, pôs fim ao reino ostrogodo.

O regime imperial na Itália, todavia, estava destinado a durar pouco. Em 562 os ostrogodos foram definitivamente derrotados, e já em 568 um novo invasor se lançou sobre o país. Tratava-se dos lombardos, os quais, assim como os invasores anteriores, fugiam de outros inimigos mais temíveis, no caso os ávaros, Os lombardos entraram na Itália sob o comando do seu rei Alboino, e logo se apossaram do norte do país (especialmente das margens do rio Pó, região que até hoje se chama “Lombardia”). Como eles -eram também arianos, semearam o terror entre os católicos. Felizmente para estes últimos, quando Alboino morreu os lombardos, em lugar de continuarem como um reino unido, se dividiram em trinta e cinco ducados independentes, apenas capazes de manter os territórios que tinham conquistado. Quando, dez anos mais tarde, começaram a sentir a pressão dos francos, voltaram a organizar-se como monarquia. Porém sua invasão tinha perdido seu ímpeto inicial.

Resultado da presença dos lombardos foi um constante estado de guerra e ansiedade. Como eles não tinham conquistado toda a região, as regiões que continuavam sob o governo de Constantino temiam ser atacadas. Estas regiões eram principalmente duas: o exarcado de Ravena, e Roma e circunvizinhanças. Constantinopla estava passando por momentos difíceis, razão pela qual nem Ravena nem Roma poderiam esperar ajuda de lá. Em consequência os bispos de Roma (os papas) tiveram de se ocupar do governo e da defesa da cidade. O papa Gregório, o Grande (o mesmo que enviou Agostinho à Inglaterra), se queixava da situação sempre tensa, pois tinha a impressão de que estava sempre rodeado de espadas. Ele chegou a escrever: “Já nem sei se meu cargo é de pastor, ou de príncipe temporal. Tenho de me ocupar de todas as coisas, inclusive da defesa e de pagar os soldados.”

Em tais circunstâncias os papas procuraram auxílio ao seu redor, e o encontraram nos francos. Em 751 o rei lombardo Astolfo tomou o exarcado de Ravena, e o papa Zacarias se sentiu mais só do que nunca. Em vista desta nova atividade conquistadora entre os lombardos Zacarias autorizou Bonifácio a ungir Pepino, o Breve, como rei dos francos. Pouco depois Pepino invadiu a Itália, onde obrigou os lombardos a ceder ao papa boa parte do exarcado de Ravena. Em troca o novo papa, Estêvão II, o ungiu de novo. Por fim, em circunstâncias semelhantes, Carlos Magno acudiu em socorro do papa Adriano I e destruiu o reino lombardo, tomando o título de “rei dos francos e dos lombardos”.

Durante todo este período a cultura sofreu graves reveses. Somente durante um curto período, na corte lombarda em Pávia e em Roma no tempo de Gregório, o Grande, foram produzidas obras literárias e artísticas dignas de memória. Também entre os lombardos os mosteiros foram, como em tantos outros lugares, um remanso em que alguns podiam dedicar-se ao estudo. Essa foi uma das fontes onde o reino de Carlos Magno foi beber para originar o que tem sido chamado de “renascimento carolíngio”…

Resumo e conclusões

Os séculos V a VIII foram um período de obscuridade e angústia na Europa Ocidental. As invasões dos bárbaros puseram um fim ao poderio efetivo do Império Romano na região, mesmo se [ou que] durante séculos muitos destes mesmos bárbaros continuaram considerando-se súditos desse Império.

Do ponto de vista religioso os bárbaros reintroduziram na Europa Ocidental os elementos que pouco antes pareciam estar quase desaparecidos: o paganismo e o arianismo. Quase todos os invasores eram arianos: os vândalos, os visigodos, os ostrogodos, os suevos, os burgúndios e os lombardos. Com o passar do tempo estes povos ou desapareceram (os ostrogodos e os vândalos), ou se tornaram católicos (os suevos, os visigodos e os burgúndios). Quanto aos povos pagãos, todos se tornaram católicos. Algumas destas conversões foram resultado da pressão exercida por algum povo vizinho. Porém na maior parte foram simplesmente o resultado do processo de assimilação que ocorreu depois das invasões. Os bárbaros não penetraram no Império para destruir a civilização romana, mas para participar dela. Por esta razão a maioria deles logo esqueceu as Iínguas bárbaras e começou a falar (mal ou bem) o latim. Esta é a origem das nossas Iínguas latinas modernas. De igual modo os bárbaros abandonaram suas antigas crenças e acabaram por aceitar as dos povos conquistados. Esta é a origem do cristianismo ocidental, do tipo que a Idade Média conheceu.

Em todo este processo há dois elementos da vida da Igreja que se destacam por sua importância na conversão dos bárbaros e na preservação da cultura antiga. Estes dois elementos são o monasticismo e o papado. Ao narrar nossa história, temos referido a monges como Isidoro de Sevilha, Columba e Agostinho de Canterbury. Também nos vimos obrigados a falar de papas como João, Zacarias, Estêvão II e, sobretudo, Gregório, o Grande. Se não tivéssemos adiado a discussão das controvérsias cristológicas para outro capítulo, também teríamos tido ocasião de fazer referência ao papa Leão. Por isso, antes de continuar com nossa narração, precisamos nos deter nos próximos capítulos para dedicar um ao desenvolvimento do monasticismo neste período, e outro à sequência papal.

Além disso, mesmo tendo nos referido neste capítulo constantemente ao Império do Oriente (ou Bizantino), somente o fizemos quando isto foi indispensável para narrar a história dos acontecimentos que estavam ocorrendo na Europa Ocidental. Por isso, depois de abordar o monasticismo e o papado, e antes de retornarmos à ordem cronológica da nossa narração, nos deteremos para discutir o curso do cristianismo no Oriente.

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