O monasticismo beneditino

In: GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era das trevas – Vol. 3: São Paulo: Vida Nova, 1995, páginas 39 a 59.

Tu, quem quer que sejas, que corres em direção à pátria celestial, pratica com a ajuda de Cristo esta pequena Regra, e então chegarás, por intermédio de Deus, às alturas mais elevadas da doutrina e da virtude.

Benedito de Núrsia

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vimos como a igreja se uniu ao Império e tornou-se a igreja dos poderosos, houve muitos que, sem abandoná-la, se separaram dela para levar uma vida de renúncia especial, o que deu origem ao monasticismo. Se bem que naquele volume vimos como o ideal monástico se propagou do Oriente de fala grega até o Ocidente de fala latina (por exemplo, no caso de Martim de Tours), na verdade naquela época o monasticismo ainda era um fenômeno principalmente oriental, cujos centros mais importantes eram Egito, Síria e, algum tempo mais tarde, Capadócia. Os monges que existiam no Ocidente somente imitavam o que tinham aprendido ou ouvido dos monges do Oriente.

O monasticismo oriental, todavia, não se adaptava de todo à Europa Ocidental. Além das diferenças de clima, que impediam que os monges ocidentais levassem a mesma vida que levavam os do Egito, havia diferenças significativas na maneira de encarar a vida cristã e a função do monasticismo nela.

A primeira destas diferenças provinha do espírito prático que os romanos tinham deixado como seu legado à igreja ocidental. O cristianismo latino não via com bons olhos os excessos de vida ascética dos anacoretas do Oriente. O propósito da vida ascética, assim como de qualquer exercício atlético, não é destruir o corpo, porém fazer com que ele seja cada vez mais capaz de enfrentar todo tipo de provas. Por isso o Ocidente não via com aprovação o jejum até o desfalecimento ou a falta de dormir só para castigar o corpo.

Além disto, como parte deste espírito prático, boa parte do monasticismo ocidental tinha o propósito de levar a cabo a obra de Deus, e não só de conseguir a própria salvação. Muitos monges do Ocidente usaram a disciplina monástica como um modo de se preparar para a obra missionária. Exemplo disto são Columba e Agostinho, e no transcurso desta história veremos que houve milhares de monges que seguiram o caminho traçado por eles. Outros monges ocidentais lutavam contra as injustiças e crimes do seu tempo. Símbolo destes é Telêmaco, o monge que em princípios do século V se lançou ao meio de um combate de gladiadores, na arena do circo romano, para detê-lo. A multidão enfurecida, supostamente cristã, o matou. Porém a partir desta data, e em consequência da ação de Telêmaco, os combates de gladiadores foram proibidos pelo imperador Honório.

Outra diferença entre o monasticismo grego e o latino é que este último nunca sentiu a enorme atração pela vida solitária que dominou boa parte do monasticismo oriental. Apesar de haver no Ocidente alguns ermitões solitários, e de alguns dos mais famosos monges ocidentais praticarem por algum tempo este tipo de vida, a grosso modo, o ideal do monasticismo ocidental foi a vida em comunidade.

Por último, o monasticismo ocidental poucas vezes viveu a tensão constante com a igreja hierárquica que caracterizou o monasticismo oriental, principalmente nos primeiros tempos. Até os dias de hoje o monasticismo segue seu próprio rumo nas igrejas orientais, prestando pouca atenção à vida da igreja em geral, a não ser quando algum monge é chamado para ser bispo. No Ocidente, ao contrário, a relação entre o monasticismo e a igreja hierárquica sempre tem sido estreita. A não ser nos momentos em que a corrupção extrema da hierarquia levava os monges a reformá-la, o monasticismo foi sempre o braço direito da hierarquia eclesiástica. Em mais de uma ocasião os monges reformaram a hierarquia, ou a hierarquia reformou o monasticismo decadente.

De certo modo o monasticismo ocidental encontrou seu fundador em Benedito de Núrsia [ou Bento de Núrsia]. Antes deles houve muitos monges da igreja ocidental, porém somente ele conseguiu dar ao monasticismo latino o seu próprio sabor, de tal modo que depois dele o monasticismo não foi mais algo importado do Oriente grego, mas uma planta autóctona.

A vida de São Benedito

Benedito nasceu na pequena aldeia italiana de Núrsia, por volta do ano de 480. Para colocarmos sua vida dentro do quadro de acontecimentos que narramos no capítulo anterior, recordemo-nos que Odoacro depôs o último imperador do Ocidente em 476, e que em 493, quando Benedito começava sua adolescência, toda a Itália estava nas mãos dos ostrogodos. A família de Benedito pertencia à velha aristocracia romana, e é de se supor que ele presenciou, durante sua mocidade, as tensões entre católicos e arianos que caracterizaram esta época na Itália.

Nota: Benedito de Núrsia é também destacado por outros historiadores como Bento de Núrsia. Ao que parece, Bento é forma mais popular de Benedito…

Quando tinha mais ou menos vinte anos de idade Benedito se retirou para viver sozinho em uma caverna, onde se dedicou a um tipo de vida extremamente ascético. Levava ali uma luta contínua contra as tentações. Seu biógrafo Gregório, o Grande, nos conta que nesta época o futuro criador do monasticismo beneditino se sentiu dominado por uma grande tentação carnal. Uma mulher formosa, que ele tinha visto anteriormente, se apresentou em sua imaginação com tanta nitidez que Benedito não conseguia conter sua paixão, e chegou a pensar em abandonar a vida monástica. Então, nos diz Gregório,

“… ele recebeu uma repentina iluminação do alto, recobrou os sentidos, e ao ver uma moita de espinheiros e urtigas tirou toda a roupa e se lançou aos espinhos e ao fogo das urtigas. Depois de se revolver ali durante muito tempo, saiu todo ferido …. A partir de então nunca voltou a ser tentado de maneira igual.”

Excessos como este, entretanto, não eram característicos do jovem monge, para quem a vida monástica não consistia em destruir o corpo, mas em fazê-lo apto para ser um instrumento no serviço a Deus.

Em pouco tempo a fama de Benedito era tal que um numeroso grupo de monges se reuniu a ele. Benedito os organizou em grupos de doze: esta foi sua primeira tentativa de organizar a vida monástica, que teve de ser interrompida quando algumas mulheres dissolutas invadiram a região.

Benedito então se retirou para Montecasino com seus monges, um lugar tão remoto que ainda havia um bosque sagrado ali, e os habitantes do lugar continuavam oferecendo sacrifícios em um antigo templo pagão. A primeira coisa que Benedito fez foi por um fim a tudo isto, derrubando as árvores, o altar e o ídolo do templo. Depois organizou ali uma comunidade monástica para homens, perto de outra que sua irmã gêmea Escolástica fundou para mulheres. Ali sua fama era tamanha que vinha gente de todo o país para visitá-lo. Entre estes visitantes se encontrava o rei ostrogodo Totila, a quem Benedito repreendeu, dizendo-lhe: “Fazes muitas coisas más, e já tens feito mais. Chegou o momento de parar com estas iniquidades… Reinarás ainda por nove anos, e morrerás no décimo“. E, de acordo com o que diz o biógrafo de Benedito, Gregório, o Grande, Totila morreu no décimo ano do seu reinado, como o monge o havia predito.

Porém a fama de São Benedito não se deve às suas profecias, nem à sua prática ascética, mas à Regra ,que deu à comunidade de Montecasino em 529, e que em pouco tempo passou a ser a base de todo o monasticismo ocidental.

A Regra de São Benedito

O enorme impacto desta Regra não proveio da sua extensão, pois ela continha somente setenta e três breves capítulos, que podem ser lidos facilmente em uma ou duas horas. O impacto proveio do fato que a Regra ordena a vida monástica de forma concisa e clara, de acordo com o temperamento e as necessidades da igreja ocidental.

Comparada com os excessos de alguns monges do Egito, a Regra é um modelo de moderação em tudo o que se refere à prática ascética. No prólogo Benedito diz a seus leitores que “se trata de constituir uma escola para o serviço do Senhor. Nela não queremos instituir nenhuma coisa áspera nem severa“. Em consequência em toda a Regra domina um espírito prático, às vezes até transigente. Assim, por exemplo, enquanto que muitos monges do deserto se alimentavam somente de água, pão e sal, Benedito estabelece que seus monges devem se alimentar duas vezes por dia, e que em cada refeição deverá haver dois pratos cozidos e às vezes outro de legumes ou frutas frescas. Além disto cada monge recebia um quarto de litro de vinho por dia. Tudo isto, é claro, somente quando não havia escassez, pois neste caso os monges deveriam se contentar com o que havia, sem queixas ou murmurações. De igual modo, enquanto que os monges do deserto dormiam o menos possível, e da maneira mais desconfortável possível, Benedito prescreve que cada monge deverá ter além do seu leito uma coberta e um travesseiro. Ao distribuir as horas do dia, ele separa de seis a oito para o sono.

Porém em meio à sua moderação, há dois elementos em que Benedito se mostra firme. Estes dois são permanência e obediência. Permanência quer dizer que os monges não devem andar vagando de um mosteiro para outro. Pelo contrário: de acordo com a Regra cada monge deverá permanecer o resto de sua vida no mesmo mosteiro em que fez seus votos, a menos que por alguma razão o abade o envie a outro lugar. Isto pode parecer tirania, porém Benedito queria remediar uma situação em que muitos se dedicavam a ir de mosteiro em mosteiro, desfrutando de hospitalidade por algum tempo, até que começava-se a exigir deles que levassem junto com os demais monges as cargas do lugar, ou até que começassem a ter conflito com o abade ou com outros monges. Então, em vez de assumir sua responsabilidade ou de resolver seus conflitos eles iam para outro mosteiro, onde em pouco tempo surgiam os mesmos problemas. A permanência foi uma das características da Regra que mais fez sentir seu impacto, pois deu estabilidade à vida monástica.

A obediência é outro dos pilares da Regra de São Benedito. Todos devem obediência ao abade “sem demora”. Isto quer dizer que o monge não só deve obedecer, mas que deve fazer todo o possível para que esta obediência seja de bom grado. Queixas e murmurações estão absolutamente proibidas. Se em algum caso o abade ou outro superior ordena a algum monge que faça algo aparentemente impossível, este lhe exporá com todo o respeito as razões pelas quais não pode cumprir a ordem. Porém se depois da explicação o abade insistir, o monge tratará de fazer com boa disposição o que lhe foi ordenado.

O abade, entretanto, não deverá ser um tirano, pois o título “abade” é o mesmo que “pai”. Como pai ou pastor das almas que se dedicaram, o abade terá de prestar contas delas no juízo final. Por isso sua disciplina não deverá ser excessivamente severa, pois seu intento não é mostrar poder, mas trazer os pecadores novamente para o caminho certo. Para governar o mosteiro o abade contará com “decanos”, e estes serão os primeiros a admoestar secretamente os monges que de algum modo incorrerem em falta. Se estes não se corrigirem depois das admoestações, serão repreendidos diante de todos. Os que ainda depois destas admoestações perseverarem em seus erros serão excomungados. Isto significa que, além de não poderem participar da comunhão, eram também excluídos da mesa comum e de qualquer contato com os irmãos. Se ainda depois disto alguém insistisse em seus erros, seria chicoteado. O próximo passo era dado com grande pesar, como se um cirurgião fosse amputar um órgão, pois consistia na expulsão do mosteiro. Porém mesmo esta expulsão não fechava todas as portas ao monge, pois poderia ser readmitido no mosteiro, se se arrependesse. Se caísse de novo e fosse expulso, e se arrependesse, seria novamente readmitido, até três vezes. Depois disto não teria mais oportunidade: nunca mais poderia por os pés no mosteiro.

Como vemos, a Regra de São Benedito não foi escrita para santos veneráveis como os heróis do deserto, mas para seres humanos e falíveis. Talvez seja este o segredo do seu êxito.

Outra característica da Regra é sua insistência no trabalho físico, do qual todos deveriam participar. A não ser em casos muito especiais de dotação excepcional para um tipo de trabalho, ou de doença, todos deveriam revezar-se em todas as ocupações. Assim, por exemplo, havia cozinheiros semanais, que preparavam os alimentos durante uma semana. Este serviço não deveria ser encarado com desprezo ou má vontade, mas pelo contrário, e por isto Benedito prescreve que a cada semana a mudança do grupo de cozinheiros seja feita na capela, e até estabelece um breve ritual para isto. Além disto, todos se revezavam no trabalho nas plantações e em todas as outras tarefas necessárias para o sustento do mosteiro.

A distribuição das tarefas, entretanto, levava em conta a condição dos doentes, dos anciãos e dos meninos. Para estes a Regra não era tão rigorosa, e não lhes conferia trabalho muito pesado. Os mais fracos também recebiam carne, da qual o restante da comunidade se abstinha.

Não haveria preferência alguma no mosteiro para monges que procediam de famílias ricas ou poderosas. E ainda mais: se estas famílias enviassem algo ao seu parente, isto não era entregue ao monge, mas ao abade, para que dispusesse da remessa como melhor lhe parecesse.

Nos casos em que fosse necessário estabelecer uma ordem de autoridade ou de respeito, não se seguia os costumes do mundo exterior, mas o novo regulamento do mosteiro. O rico não tinha mais autoridade que o pobre, porque no mosteiro todos são pobres. O mais velho também não tinha mais autoridade que o jovem, pois no mosteiro se contava a idade a partir da data em que a pessoa entrou na vida monástica, e não a partir do seu nascimento carnal.

O voto de pobreza de um monge beneditino tinha, então, um propósito diferente do que o dos monges do deserto. No Egito muitos se faziam pobres simbolizando sua renúncia pessoaI. Para São Benedito a pobreza individual era uma maneira de estabelecer uma nova ordem coletiva. O monge deveria ser absolutamente pobre, não possuir coisa alguma, e o mosteiro deveria ter tudo que fosse necessário para a vida da comunidade: vestimentas, provisões, instrumentos de trabalho, terras, prédios, etc. A pobreza individual do monge, portanto, era uma maneira de uní-Io ainda mais à comunidade, evitando que ele se glorie diante dela. Se o mosteiro carecesse de algo, o monge tinha de aceitar esta falta. Porém o ideal não era que o mosteiro passasse por necessidades, mas que tivesse todo o necessário para proporcionar uma vida razoável. De modo que o monge beneditino, contrastando com o do deserto, sofria necessidades somente em casos extremos.

Por outro lado isto não quer dizer que São Benedito defendia um tipo de vida confortável. Pelo contrário, cada monge deveria se esforçar para precisar o menos possível. Cada um deveria contribuir para a vida comunitária com tudo que lhe fosse possível, de acordo com seus limites de saúde e força. Porém para a distribuição não servirá de base o quanto cada um contribuiu, mas de quanto cada um necessita. Alguns receberão mais que outros. Por exemplo: os doentes receberão carne. Mas isto não é sinal de que uns valem mais que outros, mas que as fraquezas de todos devem ser levadas em conta. “Aquele que precisa de pouco, esteja agradecido e não reclame; aquele que precisa de mais, humilhe-se por causa da sua fraqueza, e não se orgulhe do que recebeu por misericórdia.”

Ocupamo-nos até aqui da administração do mosteiro, mas para São Benedito a principal atividade dos monges deveria ser a oração. Todo dia havia horas separadas para a oração individual, além dos cultos comuns que tinham lugar na capela ou oratório. Destes cultos havia oito por dia: sete durante o dia e um no meio da noite, seguindo as palavras do salmista: “Sete vezes no dia eu te louvo” (Salmo 119:164), e “Levanto-me à meia-noite para te dar graças” (Salmo 119:62).

O dia começava a partir da oração da meia-noite, que na verdade era feita de madrugada, antes do raiar do dia, e se chamava “Vigília” (depois recebeu o nome de Matina). Durante o dia orava-se nas horas chamadas Laudes (louvores), Prima, Tertia, Sexta, Nona, Vísperas (véspera) e Completas. As origens destas horas de oração são diversas. Algumas delas remontam aos costumes dos judeus na sinagoga, e há indícios de que os primeiros cristãos continuaram observando-as (por exemplo, Atos 3:1 e 10:9). Outras têm origem monástica. Em todo caso a forma que São Benedito lhes deu continuou sendo usada durante toda a Idade Média e, com algumas modificações, até os nossos dias.

Nestas horas de oração a maior parte do tempo era dedicada à recitação dos Salmos e à leitura de outras porções das Escrituras. De acordo com a Regra de São Benedito, todos os salmos deveriam ser recitados no transcorrer de uma semana. As outras leituras bíblicas dependiam da hora de oração, do dia da semana e da época do ano.

O resultado de tudo isto foi que quase todos os monges sabiam os salmos de cor, bem como muitas outras porções da Bíblia. Por isso não é verdadeiro dizer que na Idade Média não se lia a Bíblia. Pelo contrário: por causa do impacto do monasticismo beneditino, a maioria dos monges (e muitos leigos devotos) da Idade Média podia recitar a Bíblia de cor por horas e horas. O próprio Lutero mostra em suas obras um conhecimento dos Salmos que seria surpreendente se ele antes não tivesse sido monge, recitando todos os salmos uma vez por semana durante anos e anos.

A expansão do monasticismo beneditino

A Regra de São Benedito dizia pouca coisa sobre o estudo, mas em pouco tempo o monasticismo beneditino se distinguiu neste sentido. Já antes de São Benedito, Cassiodoro, o ex-ministro do rei godo Teodorico, tinha combinado a vida monástica com o estudo. O sistema beneditino logo seguiu o exemplo de Cassiodoro, e os mosteiros beneditinos se transformavam em centros de estudo, onde se copiava e conservava manuscritos. Em certo sentido a Regra apoiava este hábito, mesmo que não explicitamente, pois para que os monges pudessem recitar os salmos e ler as Escrituras em suas horas de oração era necessário que soubessem ler, e que o mosteiro tivesse manuscritos. Em pouco tempo, enquanto o restante da Europa ocidental se esquecia dos conhecimentos da antiguidade, os mosteiros foram se transformando em centros onde estudava e conversava estes conhecimentos. O “scriptorium”, onde os monges copiavam manuscritos, veio a ser um dos principais vínculos da Idade Moderna com a antiguidade (sobretudo com a antiguidade cristã).

Além disto, já vimos que em diversos lugares a Regra mencionava crianças. Isto porque ·por várias razões pais dedicavam seus filhos à vida monástica. Estas crianças não tinham liberdade para abandonar o mosteiro quando chegavam à idade adulta, pois os votos que seus pais tinham feito em seu nome eram tão válidos como se eles mesmos os tivessem feito. Isto, naturalmente, em alguns casos acarretou graves problemas, pois dava margem a que existissem monges que não queriam sê-lo. Em séculos posteriores este hábito chegou a corromper-se a tal ponto que muitos nobres e reis utilizavam os mosteiros para colocar neles seus filhos ilegítimos, ou às vezes algum filho menor que poderia complicar a herança.

Por outro lado isto também fez com que os mosteiros se transformassem em escolas em que estas crianças dedicadas à vida monástica aprendiam a ler e escrever. Não demorou que as escolas monásticas fossem praticamente as únicas que existiam na Europa ocidental, e os monges foram os professores de um continente inteiro.

 Se o impacto cultural do monasticismo beneditino foi notável, seu impacto econômico não foi menor. Os monges beneditinos devolveram ao trabalho a dignidade que tinha perdido entre as classes supostamente mais refinadas. Enquanto os ricos pensavam que o trabalho físico deveria ficar reservado para as classes baixas, supostamente ignorantes e incapazes de elevar-se ao nível dos ricos, os monges, muitos deles provenientes de famílias ricas, mostraram ao mundo que é possível combinar a vida religiosa e intelectual mais rigorosa com o trabalho físico.

Em séculos posteriores (principalmente a partir do século XVIII), os historiadores, filósofos e teólogos tiveram a tendência de desprezar o pensamento que predominava naqueles antigos mosteiros beneditinos. Dizia-se que este era grosseiro, sem originalidade e sem coragem para especulações. Tudo isto é verdade. Mas também é verdade que ele tinha raízes profundas na realidade humana, no suor e na terra, que historiadores, teólogos e filósofos que não cultivam a terra nem preparam seus próprios alimentos não podem compreender.

Além disto, os monges beneditinos, em sua dedicação à agricultura, semearam campos que estavam abandonados, derrubaram árvores e de mil maneiras deram certa estabilidade a um continente continuamente sacudido por guerras e rumores de guerras. Quando, em consequência destas guerras e das migrações em massa que as acompanharam, muita gente sofreu fome, frequentemente eram os monges que puderam alimentá-la com os recursos do seu próprio trabalho.

Por outro lado o monasticismo beneditino passou a ser o braço direito da obra missionária da igreja medieval. Agostinho, o missionário que obteve a conversão do rei Etelberto, de Kent, e que veio a ser o primeiro arcebispo de Canterbury, era um monge beneditino. Os trinta e nove monges que o acompanharam e os muitos que os seguiram também o eram.

Talvez o melhor exemplo da relação entre a expansão missionária e o monasticismo beneditino seja Bonifácio. Ele era natural da Inglaterra, onde nasceu por volta de 680. Aos sete anos, ao que parece por sua própria vontade e com a concordância dos seus pais, ingressou em um mosteiro. Como em toda a Inglaterra o impacto de Agostinho e de seus sucessores se fizera sentir, o mosteiro em que Bonifácio ingressou era beneditino. Ali passou seus primeiros anos, até que foi transferido a outro mosteiro para que continuasse seu estudos. Neste novo mosteiro ele logo se destacou por sua devoção e inteligência, de modo que foi feito diretor da escola e ordenado sacerdote. Bonifácio, porém, se sentia vocacionado para a obra missionária, e em 716 partiu para os Países Baixos, terra habitada pelo povo bárbaro e pagão dos frísios. Quando as circunstâncias políticas o impediram de continuar a sua obra, ele regressou à Inglaterra por um breve período, e dali foi para Roma, onde o papa Gregório II o comissionou para que fosse em seu nome retomar sua missão. Isto Bonifácio fez, com o apoio não só de Gregório, mas também dos governantes francos, que estavam interessados no trabalho missionário como meio de pacificar suas fronteiras. Por causa do seu relacionamento com os governantes francos, com o passar do tempo Bonifácio dedicou a maior parte dos seus esforços não à missão entre os frísios, mas a reformar e organizar a igreja nos territórios francos. Em 743 fixou residência em Mogúcia, que pertencia aos francos, e dali se dedicou a fundar mosteiros em toda a região, que por sua vez fossem centros para reformar a igreja. Como Bonifácio era beneditino, em todos os mosteiros que ele fundou observava-se a Regra de São Benedito. Além disso, foi ele quem ungiu Pepino rei dos francos, representando o papa.

Por fim, depois de passar muitos anos na segurança relativa dos territórios francos, Bonifácio decidiu empreender uma vez mais a evangelização dos frísios. Alguns monges o acompanharam neste intento, pois parte do seu objetivo era fundar um mosteiro beneditino nos Países Baixos. Quando estavam a caminho foram atacados e mortos por um bando de ladrões.

As vidas de Bonifácio e de Agostinho de Canterbury servem para nos dar uma ideia de como a Regra beneditina se estendeu primeiro às Ilhas Britânicas, e depois ao reino dos francos e vizinhanças. Se pudéssemos continuar aqui esta história, veríamos como depois penetrou na Espanha e em outras regiões. Em outros capítulos veremos como foi necessário reformar o movimento repetidamente. Porém aqui nos interessa simplesmente mostrar como o monasticismo beneditino se expandiu, e qual foi sua contribuição ao novo sistema que se desenvolvia.

Esta expansão do monasticismo beneditino se relacionou estreitamente com sua aliança com o crescente poder papal. Como veremos no próximo capítulo, o papado foi o outro elemento de estabilidade em meio à desordem que seguiu às invasões dos bárbaros. E para levar a cabo sua tarefa o papado contou antes de tudo com o monasticismo beneditino.

Esta aliança nasceu em meio a circunstâncias, ao que parece, tristes para os beneditinos. Em 589 Montecassino, o mosteiro fundado por São Benedito, foi atacado e queimado pelos lombardos. Os monges se viram obrigados a fugir para Roma. Ali vivia Gregório, que no ano seguinte foi eleito papa. Assim que Gregório assumiu esta posição, começou a fazer todo o possível para difundir o uso da Regra de São Benedito. Primeiro vários mosteiros de Roma se adaptaram a ela. Depois, pelo trabalho de Agostinho e de outros como ele, o monasticismo beneditino foi exportado a outras regiões da Europa. A obra de Bonifácio, então, é continuação da de Gregório e Agostinho.

Em uma época de desordem e incertezas era necessário que surgissem elementos de unidade, que guiassem a Europa até o novo sistema que viria. Estes elementos foram o monasticismo beneditino e o papado. Assim como neste capítulo discutimos as origens deste monasticismo, dedicaremos o próximo à expansão do poder papal.

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