As igrejas dissidentes

In:

  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era das trevas – Vol. 3: São Paulo: Vida Nova, 1995, páginas 115 a 130.

 

“Nada poderá nos separar desta fé. . . . Faze o que quiseres. Se decides nos permitir o livre exercício da nossa fé, nós não te deixaremos por nenhum outro senhor terreno; porém tampouco aceitaremos outro Senhor celestial além de Jesus Cristo, que é o único Deus.” (Os bispos da Armênia ao rei da Pérsia)

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Nos capítulos anteriores seguimos o curso das diversas controvérsias teológicas como se cada uma tivesse terminado com a decisão de um grande concílio ecumênico. Até certo ponto isto é verdade, dentro dos confins do Império Romano. Porém desde tempos muitos antigos o cristianismo tinha ultrapassado estes confins, e tinha se estendido até regiões relativamente remotas, até onde a autoridade imperial não alcançava, e onde, então, surgiram igrejas que logo começaram a diferir do restante do cristianismo.

Um destes casos do qual falamos no volume anterior e no primeiro capítulo deste, foi o da conversão dos godos e dos demais bárbaros fora das fronteiras do Império. Como esta conversão começou quando o arianismo estava em seu apogeu, os godos e seus vizinhos passaram a ser arianos. Mais tarde, como já vimos, estes povos invadiram o Império do Ocidente, assim o arianismo apareceu em lugares onde nunca antes tivera seguidores. Neste caso a fé diferente dos bárbaros não sobreviveu, e foi desaparecendo à medida que os bárbaros foram se amoldando aos costumes e à fé dos conquistados.

Porém houve outros casos em que os que não aceitaram a autoridade de um ou outro concílio conseguiram subsistir através dos séculos, e por isso atualmente ainda há igrejas que procedem de origens assim. As igrejas que rejeitaram o concílio de Éfeso foram chamadas de “nestorianas”, as que rejeitaram o de Calcedônia de “monofisitas”, apesar de elas mesmas não se darem estes títulos, com que o restante dos cristãos os chama pejorativamente. Feita esta ressalva, e mais por razões de espaço que de exatidão, utilizaremos estes dois nomes para nos referimos a estas igrejas.

O nestorianismo na Pérsia

Da Palestina, o cristianismo, não só se estendeu para o oeste, mas também para o leste. Na primeira direção estava o Império Romano, do qual a Terra Santa era parte, e onde o cristianismo obteve alguns dos seus maiores triunfos. Por isto a maior parte da nossa história, até aqui, tratou do curso da fé cristã dentro dos limites do Império Romano.

Porém, como dissemos, o cristianismo se estendeu também para o leste, em direção ao Império Persa e em todo ele. O fato de este Império não ter se tornado cristão mais tarde é a principal razão pela qual não foram conservados dados sobre o curso da fé cristã nele. Se tivéssemos estes dados, sem dúvida teríamos tantas histórias inspiradoras como as que ouvimos dos mártires que ofertaram suas vidas no Império Romano.

Nesta expansão para o leste, o cristianismo utilizou não o grego ou o latim, mas o siríaco. Esta era a língua usada pelos viajantes e comerciantes que iam da Síria até lugares mais distantes do Império Persa. Primeiro em Antioquia, depois em Edessa, foi sendo produzido todo um corpo de literatura cristã em siríaco, e este corpo foi usado para a propagação da fé dentro dos territórios persas.

Edessa, que era uma cidade independente, parece ter sido o primeiro estado a se tornar cristão. Já antes de Constantino, o rei de Edessa tinha se convertido, e pouco depois surgiu uma lenda de acordo com a qual o rei Abgar IV teria mantido correspondência com Jesus Cristo. A suposta carta de Jesus a Abgar era usada por muitos como amuleto, e quase toda a população parece ter sido cristã em meados do século IV. Dali a nova fé se estende até a Pérsia, onde encontrou numerosos adeptos, principalmente entre os habitantes de língua siríaca. Deste modo o nome de Cristo chegou a ser venerado em regiões tão remotas como o Turquestão.

Tudo isto não foi possível sem sangue e sacrifícios. A dinastia dos sassânidas, que na época governava a Pérsia, perseguiu encarniçadamente o cristianismo, principalmente depois que o Império Romano se tornou cristão e as autoridades persas começaram a temer que os cristãos na verdade fossem agitadores, ou pelo menos simpatizantes dos romanos.

Por esta razão os cristãos persas fizeram todo o possível para mostrar às autoridades que não faziam parte de uma grande organização que tinha seu centro em Constantinopla. Em 410 eles se constituíram em uma igreja autônoma, dando ao bispo de Ctesifom o título de patriarca. Do mesmo modo, quando o concilio de Éfeso condenou Nestor em 431, muitos dos cristãos persas parecem ter recebido com certo alívio o fato de que, do seu ponto de vista, a igreja dentro do Império Romano tinha se tornado herege.

Por causa das suas origens a igreja persa sempre teve contatos estreitos com Antioquia, razão pela qual sua cristologia era do tipo antiocano. Além disso, depois da condenação de Nestor, vários teólogos antiocanos se refugiaram em território persa. Alguns deles foram até a cidade de Nisibis, de onde se dedicaram a instruir as futuras gerações de teólogos persas. Deste modo a igreja persa rompeu definitivamente com o restante do cristianismo.

A partir da Pérsia o cristianismo nestoriano se estendeu até a Ásia Central, Índia e Arábia. Depois da invasão árabe os nestorianos não se submeteram tranquilamente ao regime muçulmano, mas produziram grande quantidade de literatura polêmica, tentando mostrar a superioridade do cristianismo sobre o islã. Esta literatura, espalhada pelas bibliotecas de velhos mosteiros, ainda não foi suficientemente estudada. Porém talvez ela seja de tanto valor e importância como a dos apologistas cristãos que a partir do século segundo empreenderam a tarefa de defender sua fé contra a cultura e as leis greco-romanas. Além disso, aqueles cristãos nestorianos continuaram proclamando sua fé em lugares distantes, de tal modo que, graças à obra do missionário Alopem chegou a haver cristãos nestorianos na China, e as Escrituras foram traduzidas pela primeira vez à língua deste país.

Depois desta história gloriosa é triste verificar que este ramo do cristianismo quase desapareceu. Na China uma mudança de dinastia destruiu completamente sua missão. Na Índia restam uns poucos nestorianos. Seu núcleo principal atualmente está no Iraque, Irã e Síria. Porém no princípio do presente século eles foram cruelmente perseguidos nessa região, de tal modo que seu número foi reduzido de uns cem mil a menos da metade. Muitos deles imigraram para a América do Norte, onde organizaram algumas igrejas nestorianas.

Os monofisitas da Armênia

Poucas páginas na história do cristianismo são tão inspiradoras como as que narram o curso do cristianismo na Armênia. E apesar disto elas geralmente são desconhecidas para os cristãos ocidentais.

O reino da Armênia ficava no extremo norte da fronteira entre o Império Persa e o Império Romano. Por isso sua história dependeu sempre do curso dos acontecimentos nestas duas potências. Geralmente, quando os persas se consideravam suficientemente fortes eles tentavam anexar o reino vizinho. Os romanos, por seu lado, seguiam uma política diferente, pois não desejavam conquistar a Armênia, mas defender sua autonomia para ter um estado aliado que protegesse suas fronteiras com os persas. Dadas estas circunstâncias os armênios simpatizavam mais com os romanos que com os persas.

No século III os persas se apoderaram da Armênia. Para isto deram ordens para que seus agentes no reino vizinho assassinassem o rei Cosroés, e logo em seguida invadiram o país. O herdeiro do trono armênio, Tirídates, ainda criança, fugiu com alguns dos seus nobres, e se refugiou entre os romanos. O imperador Valeriano acudiu em socorro dos seus aliados armênios, porém os persas o derrotaram e aprisionaram. A Armênia, então, ficou dominada pelos persas.

Alguns anos depois, aproveitando um período de crises por que passava o Império Persa, e com a ajuda do imperador Licínio (o mesmo que Constantino depôs mais tarde), Tirídates conseguiu retornar ao trono armênio, onde foi recebido com júbilo por seus compatriotas, cansados do jugo estrangeiro.

Porém a crise no Império Persa foi de pouca duração, e o rei Narses, depois de acabar com uma guerra civil que tinha irrompido em seus domínios, voltou a invadir a Armênia, obrigando Tirídates a novamente pedir asilo em território romano. Na Síria, Ásia Menor e Constantinopla os refugiados armênios conheceram o cristianismo, e alguns deles se converteram. Entre estes estava um parente de Tirídates, que a história conhece como “Gregório, o Iluminador”.

Uma vez mais as legiões romanas marcharam ao campo de batalha contra os persas, cuja invasão da Armênia ameaçava os territórios romanos. Desta vez eles tiveram melhor êxito do que na campanha anterior, e os persas se viram obrigados a firmar um tratado de paz, mediante o qual o Império Romano anexou diversas províncias que anteriormente tinham pertencido à Pérsia, e Tirídates recuperou seu trono.

Junto com Tirídates regressaram à Armênia os nobres que tinham se exilado em território romano. Entre eles estava Gregório, o Iluminador, que imediatamente começou o pregar sua nova fé entre seus compatriotas. Isto não foi do agrado do rei, que aparentemente temia que o povo armênio cresse que a corte tinha se romanizado durante seu exílio. Por isto Tirídates encarcerou seu parente por quinze anos. Porém mais tarde o próprio rei se converteu, e muitos dos nobres o seguiram à fonte batismal. Logo surgiu um movimento de conversão em massa, durante o qual boa parte do povo abraçou a fé cristã. Este movimento chegou a tal ponto que muitos sacerdotes pagãos, ou seus filhos, também se converteram. Estes sacerdotes logo receberam as ordens cristãs, e assim surgiu na Armênia o fenômeno de que o sacerdócio cristão se tornou hereditário, como o pagão tinha sido. A mesma coisa se deu com a liderança da igreja, que passou de Gregório para seus descendentes. O batismo de Tirídates foi no dia em que era celebrada a Epifania e o batismo de Jesus Cristo (6 de janeiro) do ano 303, ou seja, dez anos antes do Edito de Milão.

Naturalmente, no princípio, esta conversão em massa deixou muito a desejar. Porém pouco a pouco a fé cristã foi se arraigando nas massas. No século V o patriarca Sajak pediu ao erudito Mesrop que traduzisse a Bíblia para o armênio. Isto era muito difícil, pois o armênio não era uma língua escrita. Por isso a primeira coisa que Mesrop teve de fazer foi elaborar um método para escrever seu idioma. Depois, com a ajuda de Sajak e de vários discípulos, traduziu a Bíblia, primeiro do siríaco e depois do grego. Além disto, Mesrop e seus discípulos se puseram a produzir todo um corpo de literatura. Esta literatura foi um dos elementos que mais contribuiu para o desenvolvimento do espírito nacional dos armênios, até então divididos em diversos clãs rivais.

No ano 450 a nova igreja se viu fortemente ameaçada. O rei da Pérsia quis impor sua religião à Armênia, o mazdeísmo. Os líderes da nação armênia se reuniram em Artachat e resolveram enviar uma mensagem ao rei da Pérsia, assinada pelos bispos do país: “Nada poderá nos separar desta fé …. Faze o que quiseres.”

Quando os armênios enviaram esta mensagem ao rei da Pérsia eles contavam com o apoio do imperador Teodósio II e do Crisápio (os mesmos que convocaram o “latrocínio de Éfeso”, de que falamos no capítulo anterior). Pouco depois, no entanto, morreu Teodósio, e seus sucessores, Pulquéria e Marciano, mudaram sua política em relação à Pérsia, e retiraram seu apoio aos armênios. Em 451, o mesmo ano em que se reuniu o concílio de Calcedônia, as tropas persas invadiram a Armênia, e os armênios se viram obrigados a se defenderem por conta própria. Um dos seus principais chefes militares, Vardão, “o bravo”, defendeu um dos passos entre as montanhas com somente 1.036 soldados, e todos morreram depois de uma longa batalha. Os persas conquistaram o país, e a Armênia perdeu sua independência.

Em vista destes acontecimentos não devemos estranhar que os armênios se negassem a aceitar o concílio de Calcedônia. Como eles viam as coisas, os romanos, que deveriam tê-los defendido como aliados e irmãos em Cristo, os abandonaram no momento decisivo. Em consequência, a igreja armênia rompeu relações com a que existia dentro do Império Romano, e se declarou “monofisita”, ao mesmo tempo que acusava os demais cristãos não só de traidores, mas também de hereges.

A Armênia continuou dominada pelos persas. Porém a resistência foi tamanha que pouco depois o rei da Pérsia decidiu conceder ao país liberdade religiosa e certo grau de autonomia. Com este propósito ele nomeou governador da Armênia o patriota Vajan, que tinha conseguido organizar uma resistência de guerrilhas contra os persas. A partir de então, e até as conquistas turcas, a igreja da Armênia gozou de relativa paz.

Quando os árabes conquistaram tanto o Império Persa como os territórios orientais do Império Romano, a Armênia caiu sob seu governo. Conta-se que quando o califa Osmar II concedeu uma entrevista ao patriarca João Otzun, este se apresentou com as luxuosas vestimentas que eram símbolo do II cargo. O califa perguntou ao patriarca se seu Mestre não lhe tinha ensinado que seus discípulos deviam se vestir com humildade. O patriarca pediu ao califa que o acompanhasse a uma moradia particular, e ali lhe mostrou a túnica de pele de cabra que usava debaixo das suas roupas luxuosas. “O Senhor também nos ensinou que não devemos fazer alarde de nossa virtude”, ele disse ao califa. Este último, convicto que só Alá podia dar a um ser humano a força para se vestir de tal modo, prometeu ao patriarca que os cristãos não seriam perseguidos.

Durante vários séculos que durou o regime árabe, os cristãos armênios viveram sem maiores dificuldades. Apesar de existirem editos que limitavam suas atividades, e em algumas ocasiões ter havido perseguições, em termos gerais os árabes respeitaram a religião e a cultura dos armênios.

No século XI os turcos seljúcidas se apoderaram do país. Estes turcos eram muçulmanos, como os árabes, mas mostraram ser muito mais fanáticos. Ao que parece os turcos tomaram por propósito destruir a igreja de Armênia, mesmo se fosse necessário exterminar a população. Sob estas circunstâncias muitos armênios emigraram para a Ásia Menor, onde por algum tempo se estabeleceu o reino independente da Pequena Armênia. Durante o período das cruzadas estes armênios se aliaram aos cruzados, e houve certa aproximação com Roma. Porém mais tarde os turcos se apossaram de toda a região, e continuaram oprimindo os armênios.

Em princípios do século XX esta opressão chegou ao ponto de que dezenas de milhares de armênios fossem mortos. Aldeias inteiras desapareceram, e os sobreviventes foram espalhados por todo o mundo. Muitos deles se dirigiram para o hemisfério ocidental, onde fundaram comunidades nos Estados Unidos e no Brasil. Outros armênios, que viviam na porção da antiga Armênia que tinha ficado sob o domínio da Rússia conseguiram continuar algumas das suas antigas tradições em sua terra natal.

Os monofisitas da Etiópia

Conta-se que no século IV dois irmãos cristãos, Frumêncio e Edésio, naufragaram nas costas do Mar Vermelho. Ali foram capturados e feitos escravos pelos habitantes do reino de Axum, na África. Depois de um longo período de escravidão, sua sabedoria fez com que eles recebessem a liberdade, e chegaram a ser conselheiros do rei. Edésio decidiu, por fim, regressar a Tiro, sua cidade natal. Porém Frumêncio foi até Alexandria, onde Atanásio (um dos “gigantes” cuja vida estudamos no volume anterior) o consagrou bispo, e o enviou de volta como missionário ao reino de Axum. A obra missionária foi difícil, e por volta do ano 450, uns cem anos depois do começo da obra de Frumêncio, o rei Exana se converteu ao cristianismo. Como em tantos outros casos, logo os grandes personagens do reino e boa parte do povo o seguiram à fonte batismal, e o reino se tornou cristão.

Aquele reino de Axum foi crescendo, através de uma série de conquistas, e mais tarde foi o núcleo ao redor do qual se formou a nação etíope. Deste modo apareceu um grande reino cristão ao sul do Egito, além das fronteiras do Império Romano.

A igreja da Etiópia sempre manteve relações estreitas com a do Egito, e por isso, quando o concílio de Calcedônia condenou o patriarca de Alexandria, Dióscoro, os etíopes seguiram o exemplo da maior parte dos cristãos egípcios e se negaram a aceitar as decisões deste concílio. Por essa razão os demais cristãos lhes dão o título  de “monofisitas”.

Através dos séculos a Etiópia foi mantendo sua independência, e provavelmente é a ela que as lendas que circulavam na Europa medieval se referiam, falando de um reino cristão de grandes riquezas, que existia além dos territórios dominados pelos muçulmanos.

Outra lenda interessante relacionada com a história da Etiópia é a que afirma que os imperadores deste país, que se mantiveram no poder até a segunda metade do século XX, eram descendentes de Salomão e da rainha de Sabá. De acordo com esta lenda, quando a rainha de Sabá (que se supunha ser a Etiópia) se preparava para partir de Jerusalém, Salomão a convidou para passar a última noite em seu palácio. A rainha disse que temia por sua virtude, e o rei lhe respondeu que, desde que ela não tomasse nada de seu palácio, ele a respeitaria. A rainha concordou em dormir no palácio de Salomão sob estes termos. Porém durante a noite ela ficou com sede, e se levantou e bebeu de um cântaro que havia em sua câmara. Então Salomão saiu do seu esconderijo entre as cortinas, disse-lhe que ela tinha tomado algo do seu palácio, e se uniu a ela. De manhã ela lhe deu um anel, dizendo-lhe que se daquela união nascesse um filho ela deveria enviá-lo para ele com o anel, para que pudesse reconhecê-lo. Alguns anos depois o jovem Menelik se apresentou com o anel na corte de Salomão, que lhe ensinou sua sabedoria. Depois de voltar à Etiópia Menelik chegou a ser rei, e fundou assim a dinastia dos salomônidas.

Tudo isto não passa de lenda. Mas mostra que o cristianismo etíope, diferente de boa parte da cristandade suposta111 mie mais ortodoxa, conservou através dos séculos um senso c 1.110 das raízes judaicas do cristianismo.

Os monofisitas do Egito e Síria

Como dissemos no capítulo anterior, dentro do Império Romano, nas regiões do Egito e da Síria, havia grandes massas que se negavam a aceitar as decisões do concílio de Calcedônia. Os diversos decretos de Basilisco, Zenom, Justiniano e outros que discutimos acima eram outras tantas tentativas de conquistar a simpatia destas pessoas. Por isso a história do monofisismo dentro do Império Romano, pelo menos em seus primeiros anos, tem sido narrada dentro deste contexto. Aqui somente precisamos acrescentar algo sobre as igrejas que surgiram desta história complicada, ou seja, a igreja copta e a igreja jacobita.

O copta era o antigo idioma dos egípcios, que estes tinham falado antes deste país ser conquistado por Roma. Enquanto as pessoas cultas, principalmente em Alexandria, falavam grego, e muitos também o latim, os camponeses e demais pessoas pobres, descendentes dos antigos habitantes do país, falavam copta. Foi entre estes que o monasticismo primitivo encontrou a maioria dos seus adeptos. E foi também entre estes que a oposição ao concílio de Calcedônia ficou cada vez mais forte.

Quando os árabes conquistaram o país o cristianismo de fala grega, cuja força estava principalmente nas cidades, continuou aceitando as doutrinas de Calcedônia, e continuou em comunhão com o patriarca de Constantinopla. Estes cristãos receberam o nome de “melquitas”, que quer dizer “do imperador”. Porém a maioria dos cristãos egípcios continuou em sua oposição às decisões de Calcedônia, e rompeu com Constantinopla. Estes cristãos recebem o nome de “coptas”, e até o dia de hoje constituem a igreja mais numerosa do Egito.

Enquanto isto na Síria e circunvizinhanças sucedeu algo parecido. Justiniano tentou extirpar o monofisismo da região, mas Teodora se opôs a esta política, e protegeu alguns dos principais opositores ao concílio de Calcedônia. Um destes foi Jacobo Baradeo, um evangelista fervoroso de vida austera, que se dedicou a viagens missionárias nas quais converteu muitas pessoas, consagrou pelo menos 27 bispos, e ordenou milhares de sacerdotes. Suas viagens o levaram por toda Síria, e até o Egito, Pérsia, Ásia Menor e Constantinopla. Seu trabalho foi tão frutífero que depois de pouco tempo a igreja monofisita da região começou a ser chamada de “igreja jacobita”, e assim é chamada até hoje.

Quando os árabes conquistaram a maior parte dos antigos territórios em que Jacobo Baradeo tinha trabalhado, a igreja jacobita reafirmou sua independência do Império Bizantino, e sua rejeição do concílio de Calcedônia. Porém apesar disto não conseguiu ser tão numerosa na Síria como o eram os ortodoxos. Em meados do século XX o número de seus membros se aproximava de cem mil.

Em resumo, as principais igrejas dissidentes que surgiram das controvérsias cristológicas e que perduram até nossos dias são cinco. Em oposição ao concílio de Éfeso surgiu a igreja nestoriana. E contra o de Calcedônia se declararam as igrejas armênia, etíope, copta e jacobita, que os demais cristãos chamam de “monofisitas”.

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