As conquistas árabes

In:

  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era das trevas – Vol. 3: São Paulo: Vida Nova, 1995, páginas 131 a 140.

 

Ainda que antes tivessem pedido ajuda contra os incrédulos, quando receberam de Deus um livro, que confirmava as Escrituras, não quiseram crer. Por isso, os infiéis receberão a maldição de Deus.

Corão

Quando iniciou o século VII parecia que, por fim, a Europa começara a sair do caos em que as invasões dos bárbaros a tinham lançado. Todos os invasores arianos tinham se tornado católicos. Os francos, que desde o começo tinham se convertido à fé nicena, começavam a estabelecer sua hegemonia sobre as Gálias. Nas Ilhas Britânicas os resultados da missão de Agostinho começavam a aparecer. Na Itália, em meio às dificuldades causadas pelos lombardos, Gregório, o Grande, ocupava o trono pontifício. O Império Bizantino ainda desfrutava dos resultados das conquistas de Justiniano, especialmente no norte da África, onde o reino dos vândalos tinha desaparecido.

Então sucedeu o inesperado. De um obscuro canto do mundo, ao qual tanto o Império Romano como os reis persas tinham prestado pouquíssima atenção, surgiu uma avalanche que, impulsionada pela pregação do Corão, parecia destinada a conquistar o mundo.

Maomé

O fundador do islã, Maomé, era membro de uma família respeitada na cidade de Meca, na Arábia. Seu pai tinha morrido pouco antes de ele nascer, e sua mãe morreu quando ele tinha seis anos. Seu tio foi quem o criou a partir de então. Porém os negócios da família sofreram sérios reveses, e Maomé passou boa parte da sua juventude como pastor. Depois ele começou a participar do comércio das caravanas, e seu êxito foi tal que a viúva rica Cadia o pôs à frente dos seus negócios. Depois de algum tempo Cadia e Maomé casaram. Enquanto viveu, Cadia foi a conselheira e auxiliar mais íntima com que Maomé contou. Porém durante muito tempo o futuro profeta do islã se dedicou simplesmente ao comércio, e sua vida não parecia ser diferente da dos seus muitos colegas.

Por volta de ano 610, quando tinha mais ou menos quarenta anos, começou a carreira religiosa do Profeta. Este tinha se acostumado a se retirar de vez em quando a um lugar solitário, para orar e meditar. Por esta época ele já tivera amplos contatos com o judaísmo e o cristianismo, pois na Arábia existia um bom número de judeus, e também cristãos de diversas seitas. Algumas destas seitas tinham perdido todo o contato com o restante da igreja séculos antes, e por isto suas doutrinas tinham se desenvolvido para direções às vezes estranhas. Em todo caso, de acordo com a lenda muçulmana, Maomé se encontrava em uma montanha perto de Meca quando lhe apareceu o anjo Gabriel e lhe ordenou que proclamasse a mensagem do único Deus verdadeiro.

No começo Maomé foi um pouco tímido em sua pregação. Ele tinha dúvidas em relação à sua missão, e por algum tempo não recebeu outra revelação. Porém mais tarde ele se convenceu de que tinha uma missão profética, e se dedicou a cumprí-la. Começou a proclamar a mensagem do Deus único, justo e misericordioso, que governa todas as coisas e exige obediência dos seres humanos. Sua mensagem, no estilo dos profetas do Antigo Testamento, frequentemente era apresentada em forma rítmica. Maomé dizia que o que ele pregava não era uma nova religião, mas a continuação da revelação que Deus tinha dado através dos profetas do Antigo Testamento e de Jesus. Este, para ele, não era divino. Era, isto sim, um grande profeta, que devia ser obedecido.

Os líderes árabes em Meca se opuseram à pregação de Maomé. Meca era um centro de peregrinações da religião politeísta da Arábia, e boa parte dos seus rendimentos estava relacionada com o culto. Por isto os comerciantes da cidade, muitos dos quais tinham sido colegas de Maomé, agora se voltaram contra ele e seus seguidores. Em 622 Maomé se refugiou em um oásis das proximidades, onde ficava o povoado que depois recebeu o nome de Medina. É a partir desta data que os muçulmanos contam os anos. Foi ali que pela primeira vez foi estabelecida uma comunidade muçulmana, onde o culto e a vida civil e política seguiam as normas traçadas pelo Profeta.

Depois de uma série de campanhas militares, negociações e pactos, Maomé e os seus tomaram Meca em 630. Com grande sabedoria e moderação o Profeta proibiu qualquer vingança contra seus antigos inimigos, e se limitou a derrubar os ídolos do templo e a instaurar o culto monoteísta.

A partir de então Maomé gozou de cada vez mais prestígio e poder entre os árabes, e quando da sua morte, em 632, boa parte da península da Arábia tinha se tornado muçulmana.

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As conquistas dos califas

Depois da morte de Maomé a direção da comunidade muçulmana caiu sobre os califas (do árabe califat, que quer dizer “sucessor”). O primeiro califa foi Abu Bequer, que tinha sido um dos principais acompanhantes de Maomé. Sob Abu Bequer o islã consolidou seu domínio na Arábia ocidental, e teve seus primeiros conflitos com os exércitos bizantinos, que foram derrotados em 634.

Abu Bequer morreu no mês seguinte, e seu sucessor Omar, que governou por dez anos, continuou suas conquistas. O general Calid, sob cujo comando estavam as tropas que tinham derrotado os romanos, invadiu a região da Síria, e em 635 tomou Damasco. Depois de alguns pequenos reveses os árabes derrotaram um outro exército que o Império Romano enviara contra eles, e em 638 o califa em pessoa tomou posse de Jerusalém. Dois anos depois, com a capitulação de Cesareia e Gaza, toda a região caiu em poder dos árabes.

No começo os muçulmanos não perseguiram cristãos nem judeus, pois os consideravam “povos do livro” (isto é, do Corão), monoteístas como os muçulmanos. Assim, por exemplo, o califa Omar, ao entrar em Jerusalém, decretou que os cristãos “… tivessem garantidos os seus bens, suas igrejas e suas cruzes…. Em assuntos religiosos, não haverá pressão nem coação. Os judeus podem morar em Jerusalém junto com os cristãos, e os que residem na cidade pagarão o mesmo tributo que os habitantes de outras cidades“.

Em termos gerais foi esta a política religiosa que os primeiros califas seguiram nas terras conquistadas. Somente o politeísmo e a idolatria eram proibidos. Os cristãos e judeus podiam continuar no livre exercício dos seus cultos, desde que respeitassem o Profeta e o Corão. Depois foi proibida a conversão dos muçulmanos ao cristianismo ou ao judaísmo. Porém, além disto, e de certas limitações na expressão pública do culto, a única carga imposta aos judeus e cristãos foi a obrigação de pagar um tributo mediante o qual o estado se sustentava. Os que se convertiam ao islã não precisavam pagar este imposto. Por isto, ao mesmo tempo em que os muçulmanos tinham interesse especial em fomentar as conversões à sua religião, muitos cristãos de convicções mais flexíveis acabaram por aceitar a fé do Profeta.

Ao mesmo tempo em que enfrentavam os bizantinos na Síria, os árabes invadiram a outra grande potência vizinha, o Império Persa. Esta frente dupla, que em teoria poderia ter sido desastrosa, produziu resultados surpreendentes. Em 657, depois de derrotar repetidamente os persas, os árabes tomaram sua capital, Ctesifom. Então continuaram sua expansão inexorável para o leste, enquanto os persas se retiravam para as montanhas. Finalmente, em 651 (portanto já no tempo do próximo califa) o último rei persa foi morto, e no ano seguinte os muçulmanos eram donos de todo o antigo Império Persa.

Enquanto isto, em 639, outro contingente árabe invadiu o Egito, e rapidamente conquistou a maior parte do país. Em 640 os árabes fundaram a cidade que mais tarde seria o Cairo. E em 642, quando Alexandria se rendeu, todo o país estava em seu poder. Dali para o oeste as hostes muçulmanas continuaram marchando vitoriosas, e em 647 capitulou  a cidade de Trípoli.

Sob o próximo califa, Otoman, as conquistas marcharam mais lentamente. No norte da África os berberes se opunham aos seus avanços, e o Império Bizantino, cujas fronteiras tinham sido empurradas até a Ásia Menor, conseguiu finalmente deter o avanço do islã nesta direção. Além disso, houve lutas internas entre os próprios muçulmanos, até que Otoman foi atacado e morto por um dos filhos de Abu Bequer. Apesar disto Otoman tinha dado os primeiros passos para criar uma esquadra árabe, e com ela conseguiu conquistar a ilha de Chipre, que até então tinha sido parte do Império Romano.

A morte de Otoman não pôs fim à guerra civil entre os muçulmanos. Seu sucessor, Ali, não pôde manter-se no poder, e quando ele morreu sucederam-lhe os califas omíadas, que a princípio se dedicaram a consolidar seu poder, e estabeleceram sua capital em Damasco.

Por essas razões, durante a segunda metade do século VII as conquistas árabes foram mais lentas. Apesar de repetidamente atacarem Constantinopla e outras regiões vizinhas, suas forças eram rechaçadas. Sua principal conquista, o norte da África, exigiu uma luta longa e dispendiosa, pois tanto os bizantinos como os berberes lhes resistiram passo a passo. Apesar disto Cartago capitulou em 695, e no fim do século muitos dos berberes tinham aceitado o islã.

Em 711 um exército muçulmano composto de mouros, berberes e árabes, sob o comando de Tarik, cruzou o estreito de Gibraltar (cujo nome se deriva do de Tarik) e derrotou o último rei godo, Rodrigo, perto de Jerez. Em pouco tempo toda a Espanha, com exceção da Astúria e da Gasconha ao norte, estava sob o domínio muçulmano.

Da Espanha as hostes vitoriosas passaram à França, onde se apossaram de boa parte da costa sul. Em 721 marcharam sobre Toulouse, e em 732 estavam perto de Poitiers quando foram derrotados pelos francos, sob o comando de Carlos Martel. Anteriormente, em 718, outro exército islâmico, apoiado pela esquadra, tinha atacado Constantinopla. O imperador Leão III tinha defendido valorosamente a cidade, e os muçulmanos tinham perdido quase toda sua esquadra e boa parte do seu exército. Outra expedição, dirigida contra a Sicília em 720, também tinha fracassado. A primeira maré do avanço islâmico  tinha começado a abaixar.

Consequências das conquistas

Cem anos estavam entre a morte de Maomé e a batalha de Poitiers. Cem anos que mudaram a face do Mediterrâneo, e que teriam profundas implicações para o futuro da região e da igreja. Até então, apesar das invasões dos bárbaros, o Mediterrâneo tinha sido um lago romano. É verdade que durante algum tempo os vândalos dominaram a navegação na parte a oeste da Itália. Porém este domínio foi breve, e nunca chegou a interromper a navegação entre o Egito e a Síria, de um lado, e Constantinopla e a Itália, por outro. Agora os muçulmanos tinham se apossado de toda a costa do Mediterrâneo, desde Antioquia, perto da Ásia Menor, até Narbonne, no sul da França, e por isto o comércio cristão ficou limitado à porção nordeste do Mediterrâneo (os mares Egeu e Adriático), e o Mar Negro.

Durante a idade de ouro do Império Romano, c ainda depois das invasões dos bárbaros, tinha existido um abundante comércio que levava ao Ocidente produtos procedentes do Egito, e mesmo do Extremo Oriente. De Alexandria era importado o papiro, tão necessário para copiar manuscritos antigos e produzir novas obras. Do Oriente provinham, através do Mar Vermelho, seda e especiarias.

Depois das conquistas dos árabes este comércio cessou. Isto quis dizer, por um lado, que escasseou o papiro, e que os manuscritos tiveram de ser copiados em pergaminho. Mas quis dizer também que a Europa Ocidental ficou relativamente isolada das mais antigas civilizações do Egito, Síria e Extremo Oriente. Isto, por sua vez, obrigou-a depender dos próprios recursos, e a desenvolver a sua própria civilização.

Por outro lado, as conquistas muçulmanas arrebataram à cristandade vários dos seus mais antigos centros de difusão e pensamento: Jerusalém, Antioquia, Alexandria e Cartago. Em consequência, só restaram duas cidades que poderiam disputar a hegemonia sobre o mundo cristão: Roma e Constantinopla. Ao redor de cada uma delas o cristianismo foi tomando formas próprias, até que houve a ruptura definitiva, como veremos, em 1054.

Talvez o papa Leão III tivesse em mente algumas destas novas circunstâncias naquele dia de Natal de 800, quando cingiu a testa de Carlos Magno com a coroa imperial. Em todo caso, não há dúvidas de que estas circunstâncias foram fatores determinantes dos resultados do seu ato. O imperador de Constantinopla, quase sempre acossado por seus vizinhos muçulmanos, não tinha os recursos necessários para intervir decisivamente no Ocidente. Roma, por seu lado, se distanciava cada vez mais de uma igreja bizantina que parecia estar debaixo da tutela do poder imperial. Se a partir de então o mapa do cristianismo era traçado acima do eixo horizontal do Mediterrâneo, desde as conquistas árabes e a coroação de Carlos Magno ele seria traçado sobre um eixo vertical que ia de Roma até as Ilhas Britânicas, passando pelos territórios dos francos. O cristianismo bizantino cada vez mais estaria à margem deste mapa.

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Veja também:

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