Sob o regime dos carolíngios

In:

  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era das trevas – Vol. 3: São Paulo: Vida Nova, 1995, páginas 141 a 161.

 

Os poderosos que se cuidem… para que não tomem para sua própria condenação as coisas da igreja, nem oprimam … as igrejas de Deus, nem os lugares santos, sabendo que as propriedades da igreja são as promessas dos fiéis, o patrimônio dos pobres, o preço dos pecados.

Hincmaro de Reims

Quando deixamos o Ocidente, vários capítulos atrás, para narrar algo do que estava sucedendo no Oriente, o papa Leão III acabara de coroar Carlos Magno imperador. Apesar de termos dito algo sobre o alcance desta decisão, devemos voltar novamente para o Ocidente, para estudar o curso dos acontecimentos sob Carlos Magno e seus sucessores.

Carlos Magno

Quando Carlos Magno foi coroado imperador pelo papa, quase toda a cristandade ocidental fazia parte do seu Império, exceto somente as Ilhas Britânicas e as regiões remotas da Espanha onde os cristãos tinham se refugiado das invasões muçulmanas. Por isto o rumo que os acontecimentos tomariam em seu império teria amplas consequências para a história futura do cristianismo, e de toda a Europa.

a-coroacao-de-carlos-magno

Carlos Magno, porém, não se limitou a estender seus territórios entre seus vizinhos cristãos. Mais que isto, ele se lançou a uma grande campanha de conquista dos saxões e dos frísios, que habitavam além das fronteiras do seu império, a nordeste, e contra os muçulmanos, seus vizinhos a sudoeste. As campanhas contra os saxões e frísios foram longas e sangrentas. Estes povos, que nunca tinham sido romanizados, atravessavam periodicamente as fronteiras dos francos, saqueavam as aldeias, igrejas e mosteiros, e regressavam com sua presa aos seus bosques, onde era muito difícil persegui-los. Por isto, em 772, Carlos Magno invadiu seus territórios e penetrou até Irminsul, onde destruiu um grande tronco que era o ídolo principal dos saxões. Ao que parece, o propósito do rei franco era facilitar a conversão dos saxões ao cristianismo, e enfraquecer sua resistência destruindo sua religião. Depois de aceitar a rendição dos saxões, Carlos Magno enviou missionários para sua região, que lhes ensinassem a fé cristã.

Poucos anos depois, no entanto, quando o rei dos francos se viu obrigado a marchar para a Itália em sua campanha contra os lombardos, os lombardos se sublevaram, e mataram todos os missionários. Então Carlos Magno invadiu de novo a região, sufocou a rebelião, e convocou uma assembleia nacional em Paderborn, onde os saxões, aparentemente pacificados, viram seu país ser organizado eclesiasticamente, com diversas dioceses e abadias, que deveriam se ocupar da sua cristianização.

Carlos Magno estava ainda em Paderborn quando se lhe apresentou a oportunidade de invadir a Espanha. Um dos líderes muçulmanos deste país lhe pediu ajuda em sua rebelião contra Abderraman I, que governava o país, com sede em Córdoba. O rei franco abandonou apressadamente a Saxônia, atravessou seus próprios territórios, e dividiu seu exército em duas metades, que cruzaram os Pirineus em dois lugares diferentes. Depois de tomar Barcelona, Hesca e Gerona, os dois exércitos se encontraram em Saragoça, cidade que supunha-se ser o centro da rebelião contra Abderraman. Saragoça, porém, se negou a abrir-lhes suas portas, e os francos começaram a temer que a suposta rebelião era uma farsa, e que tinham sido traídos.

As coisas estavam assim quando chegaram notícias de que os saxões novamente tinham se rebelado, sob o comando do chefe Videquindo. Carlos Magno regressou às pressas à França, e nesta ocasião sua retaguarda, sob o comando de Rolando, foi aniquilada pelos bascos no passo de Roncesvales. Porém o rei continuou a sua marcha através dos seus próprios domínios, se apresentou inesperadamente na Saxônia, e sufocou a rebelião. Quando, em 782, a rebelião irrompeu de novo, Carlos Magno decidiu afogá-Ia em sangue. Até então suas medidas depois de cada revolta tinham sido relativamente benignas. Porém desta vez, quando suas tropas dominavam novamente a região, e Videquindo tinha fugido para a Escandinávia, o rei dos francos ordenou que os saxões sofressem um castigo exemplar, e mais de quatro mil deles foram mortos em Verden.

Esta matança exasperou os saxões, que se lançaram contra Carlos Magno em número maior do que antes. Tanto os saxões como os francos sabiam que esta era a última rebelião, e que por isto a luta deveria prosseguir até o final. Em 784 os frísios, até então aliados dos saxões, se renderam aos francos, aceitaram o batismo, e se distanciaram da luta. Um ano depois Videquindo e seus principais chefes se renderam definitivamente e aceitaram o cristianismo. Seu batismo marcou o fim das revoltas dos saxões.

Nesta história nos temos referido repetidamente ao batismo, tanto dos frísios como dos saxões, como se este rito estivesse de alguma maneira relacionado com a rebelião e sua supressão. Na verdade existia uma relação estreita. Carlos Magno estava convicto de que se os saxões aceitassem o cristianismo eles perderiam seu caráter guerreiro e aceitariam boa parte da cultura dos francos. Assim os saxões deixariam de ser uma ameaça. Além disso, qualquer que tenha sido a intenção que o motivara nas primeiras campanhas, mais tarde Carlos Magno decidiu incorporar a Saxônia aos seus domínios, Como ele se considerava rei (e depois imperador) pela graça de Deus, parte da sua missão, na sua própria opinião, consistia em garantir que seus súditos fossem cristãos.

Por outro lado, o batismo tinha certo poder imediato na pacificação dos saxões. Ao que parece muitos deles criam que se aceitassem o batismo estariam abandonando os seus deuses, que, por sua vez, também os abandonariam. Logo, uma vez batizados, eles não tinham outra alternativa que ser cristãos,  pois do contrário ficariam sem deus algum, para os proteger. Apesar de muitos dos que tinham sido batizados depois de uma campanha logo se juntavam à próxima, também houve muitos que se negaram a se rebelar novamente, baseando sua decisão no fato de terem sido batizados.

Por seu lado Carlos Magno seguiu uma política de pacificação que conseguiu em pouco tempo assimilar a Saxônia ao reino dos francos. Vários milhares de saxões foram transportados para outras regiões do império. E em sua própria terra o imperador deu o título de conde a alguns dos chefes que evidenciaram lealdade ao seu governo. Pouco depois seriam os saxões que aplicariam em seus vizinhos os mesmos métodos que Carlos Magno tinha empregado com eles.

Enquanto tudo isto sucedia Carlos Magno não abandonou totalmente seu interesse na Espanha. Sob o comando do seu filho Ludovico, o Pio, e o duque Guilherme da Aquitânia, os francos conquistaram uma larga faixa de terreno que se estendia até o Ebro. Ao mesmo tempo Carlos Magno parece ter posto alguns recursos à disposição do rei Afonso II, o Casto, rei das Astúrias, que começava o longo processo de reconquista da península ibérica.

Dentro dos seus próprios territórios Carlos Magno também se dedicou a organizar e supervisionar a vida da igreja. Parece que o imperador tinha a convicção de ser chamado para governar seu povo, não só em assuntos civis, mas também nos eclesiásticos. Ainda mais, Carlos Magno parece não ter feito nenhuma distinção entre estes dois campos. Os bispos eram nomeados pelo rei assim como os condes, e assim desapareceu o antigo costume de os bispos serem eleitos pelo clero ou pelo povo. Como sob Carlos Magno cada bispo era diretamente responsável diante do rei, a função dos arcebispos era mais de honra que de autoridade. Sob Ludovico, o Pio, o próximo rei, os arcebispos começaram a ter mais poder, e mais tarde passaram a ser poderosos senhores feudais.

Além de nomear os bispos, Carlos Magno também legislou acerca da vida da igreja. Esta legislação incluiu o descanso dominical obrigatório, a imposição do dizimo como se fosse um imposto, e a ordem de pregar de maneira simples e na língua do povo.

Sob os governos anteriores o monasticismo tinha perdido sua inspiração inicial, pois as abadias tinham se transformado em ricas prendas, cobiçadas e frequentemente obtidas por pessoas que não tinham o menor interesse na vida monástica, e que somente queriam ficar ricos e poderosos. Carlos Magno empreendeu uma reforma dos mosteiros, confiada a Benedito de Aniano (que não deve ser confundido com Benedito de Núrsia, o autor da Regra). Benedito de Aniano tinha abandonado a corte real para se dedicar à vida monástica, e sua sabedoria, austeridade e obediência à Regra logo lhe conquistaram o respeito do rei, que o incumbiu da tarefa de reformar e supervisionar a vida monástica. Isto nosso monge fez aplicando em todo o país a Regra de São Benedito, que assim foi mais difundida.

Ao mesmo tempo, Carlos Magno também se preocupou com a educação dos seus súditos e com o cultivo das letras. Com este propósito ele reformulou a escola paladina, que existia desde o tempo dos merovíngios (a dinastia anterior). Frequentaram esta escola não só os filhos dos nobres da corte, mas também o próprio rei, desejoso de aumentar os seus conhecimentos. Carlos Magno mandou vir para ela o diácono AIquino de York, que tinha conhecido na Itália, e que levou ao reino dos francos a erudição que se tinha conservado nos mosteiros britânicos. Da Espanha veio Teodulfo, que o rei nomeou bispo de Orleans. Ali este sábio bispo ordenou que em todas as igrejas da sua diocese houvesse uma escola, e proibiu que seus sacerdotes se negassem a ensinar os pobres, ou que exigissem pagamento pelo ensino. Depois destes grandes mestres vieram muitos outros, bem como poetas e historiadores, cujos nomes não é necessário relacionar aqui, porém que contribuíram para um reflorescimento das letras sob o regime de Carlos Magno e de seus sucessores.

Os sucessores de Carlos Magno

Normalmente, de acordo com os antigos costumes dos francos, os territórios de Carlos Magno deveriam ter sido divididos entre seus filhos. Porém quando o velho rei decidiu que tinha chegado a hora de nomear seu sucessor, só um dos seus filhos legítimos ainda estava vivo: Luís, ou Ludovico, que recebeu o apelido “o Pio” por causa das suas inclinações religiosas. Apesar de ele ter dado mostras de habilidade administrativa e militar enquanto gozou do título de rei da Aquitânia sob seu pai Carlos Magno, a verdade é que ele preferia ser monge que imperador, e que somente a mão forte do seu pai e os conselhos de vários eclesiásticos que ele admirava o impediram de tomar a tonsura monástica.

Os primeiros anos de governo de Ludovico, o Pio, sem dúvida foram os melhores. Na primeira dieta (ou assembleia do Império) foram adotadas uma série de medidas que mostravam o caminho que Ludovico se propunha seguir. Destas a mais notável foi que enviou por todo Império enviados imperiais que deveriam investigar qualquer caso de opressão ou usurpação de poder que tivesse ocorrido.

Animada pelo mesmo espírito reformador do imperador a dieta de 817 ordenou que todos os mosteiros se submetessem a Benedito de Aniano, e que a eleição dos bispos recaísse novamente sobre o clero e o povo. Com este último passo Ludovico se desfazia de um dos mais poderosos instrumentos que seu pai tivera em mãos, pois a partir daquele momento o alto clero não lhe devia a lealdade absoluta que devera a Carlos Magno. Esta mesma dieta proibiu também a todos os clérigos qualquer ostentação de luxo, como cinturões com pedras preciosas e esporas de ouro. As propriedades eclesiásticas ficariam fora da jurisdição dos nobres. O dízimo, ainda obrigatório, seria dividido em três partes, das quais uma pertenceria ao clero e as outras duas aos pobres. Em todas estas leis pode-se ver o fio central da política eclesiástica de Ludovico, que consistia em reformar a igreja ao mesmo tempo que lhe dava maior autonomia. O grande perigo desta política é que era possível (e assim sucedeu) que os dirigentes eclesiásticos usassem sua nova autonomia contra as intenções reformadoras do imperador, e contra o próprio imperador.

Os conflitos começaram quando morreu a imperatriz Hermengarda, e o imperador tomou por esposa a bela e inteligente Judite. Não tardou a nascer um filho desta união, e os três filhos de Hermengarda, que Ludovico tinha nomeado seus sucessores, começaram a temer que seu meio-irmão os depusesse. O resultado foi uma longa e complicada guerra civil. Durante o conflito, Ludovico se deixou levar repetidamente por suas inclinações religiosas, perdoando os rebeldes, enquanto estes aproveitavam todas as oportunidades que surgiam para humilhá-lo, e até chegaram a depô-lo. Depois de voltar ao trono Ludovico perdoou mais uma vez seus filhos rebeldes e seus partidários. Quando ele morreu seus domínios foram divididos entre três de seus filhos, pois um dos que tivera de Hermengarda morrera. Lotário, o mais velho, guerreou contra seus irmãos até que, por fim, no tratado de Verdun de 843, os territórios que tinham pertencido a Carlos Magno e a Ludovico, o Pio, foram divididos desta forma: Lotário recebeu o título de imperador, a Itália e uma faixa de terras entre a Alemanha e a França; Luís, o outro filho de Hermengarda, recebeu a Alemanha; e França coube a Carlos, “o Calvo”, filho de Judite.

A partir de então o velho império carolíngio sofreu uma decadência quase sem interrupção. Geralmente o título imperial, de que os papas diziam dispor, recaía sobre quem governava a Itália. Porém os que reinavam em outras regiões não pareciam lhe prestar a menor obediência. Além disto, os muçulmanos tinham se apossado de Palermo, na Sicília, e dali passaram para o sul da Itália. Em 846 eles chegaram a atacar Roma e a saquear as basílicas de São Pedro e de São Paulo, que ficavam fora dos muros da cidade. Em tais circunstâncias, os imperadores que reinavam na Itália dificilmente podiam fazer valer a sua autoridade na França e na Alemanha.

Sob Carlos, o Gordo, por uma série de circunstâncias, a maior parte dos territórios do Império ficou novamente debaixo de um só soberano. Esta unidade, porém, foi efêmera, e quando Carlos morreu, em 887, podemos dizer que se extinguiu o último brilho da glória carolíngia.

Durante todo este período de lutas fratricidas, guerras civis, disputa de heranças, deposição e reposição de reis, etc., o papado se encontrava em situação muito estranho.  Em virtude do ato de Leão III, de coroar Carlos Magno, os papas pareciam gozar da autoridade para coroar os imperadores. Por esta razão seu prestígio era grande além dos Alpes, onde cada partido queria assegurar o seu apoio. Porém em Roma o caos era tal que muitos papas se viram ameaçados, ou pelo povo, ou por alguma das facções que disputavam o poder na cidade. Para se manter no comando, os papas repetidamente se viram necessitados de apelar para o poder secular. Desta forma, os que pareciam ter poder para dispor do Império não podiam dispor da própria cidade de Roma. Isto, por sua vez, fez do papado uma presa fácil e cobiçava, e no próximo século o levou ao caos e à corrupção.

O sistema feudal

Como dissemos anteriormente, pouco antes de Carlos Magno ascender ao trono dos francos tinha havido uma grande mudança política na margem do Mediterrâneo. As conquistas árabes tinham posto um fim no domínio cristão sobre este mar, que tinha sido um lago romano desde tempos do imperador Augusto. O resultado disto foi que a Europa ocidental teve de recorrer aos seus próprios recursos, pois o comércio com o Oriente foi reduzido drasticamente. Alguns historiadores demonstraram que na época de Carlos Magno tinha cessado o grande comércio, não só com o exterior, mas também dentro dos seus próprios domínios. Apesar de ainda existir alguma navegação comercial no Adriático e perto dos Países Baixos, isto não era suficiente para produzir um comércio abundante. Em consequência disto o dinheiro deixou de circular, até o ponto de desaparecerem quase por completo as moedas de ouro. Cada região tinha de sobreviver por si, produzindo tudo que fosse necessário para alimento e vestuário.

Em tais circunstâncias a terra, e não o dinheiro, veio a ser a principal fonte de riqueza. O propósito de todo grande proprietário era aumentar as suas terras, e os proprietários pequenos tentavam de todas as maneiras evitar que suas terras lhes fossem tiradas. Além disto, na falta do comércio, um dos principais meios que os reis tinham para recompensar o serviço e a lealdade de algum súdito era conceder-lhe terras.

Assim surgiu o sistema feudal. Esse sistema consistia em toda uma hierarquia, baseada na posse da terra, em que cada senhor feudal, enquanto recebia homenagens de seus vassalos, devia uma homenagem semelhante a outro senhor que estava por cima dele. As terras que o vassalo recebia de seu senhor eram os “feudos”, de onde vem o nome “sistema feudal”.

Esta “homenagem” era o rito através do qual eram seladas as relações entre o vassalo e seu senhor. Nele o primeiro jurava fidelidade ao segundo, enquanto colocava suas mãos entre as [pernas] deste, que respondia então outorgando ao vassalo o “benefício”, simbolizado por um punhado de terra quando se tratava simplesmente de terra, ou por um cajado e um anel quando se tratava de um bispado, ou por outros objetos, de acordo com o caso.

A relação entre o vassalo e seu senhor a princípio não era hereditária. Quando uma das partes morria, o contrato expirava, e era necessário fazer um novo ato de homenagem. Além disto, o vassalo ficava livre de suas obrigações para com seu senhor se este faltava de algum modo com as suas (se, por exemplo, ele se negava a vir socorrê-lo, podendo fazê-lo). E, da mesma [forma], o senhor não tinha nenhum compromisso com um vassalo desleal.

Não demorou, todavia, para os feudos se tornarem hereditários. Apesar de durante longo tempo ser mantido o costume de vir render nova homenagem ao novo senhor quando morria o anterior, esta homenagem veio a ser quase automática, e os feudos eram herdados como qualquer outra propriedade. Como as famílias se uniam frequentemente, passou a ser comum o caso de vassalos que deviam homenagem a vários senhores, e que se desculpavam da obediência que deviam a um deles com base na obediência devida a outros. O resultado foi a fragmentação política e econômica da Europa ocidental, e a decadência das diversas monarquias, que dificilmente podiam exercer sua autoridade.

Isto afetou também a vida da igreja, pois os bispados e suas terras anexas eram também feudos cujos possuidores deviam obediência a algum senhor, e que também tinham vassalos. Como já nesta época os bispos não podiam ser casados, seus feudos não passavam a seus filhos, como no caso dos outros senhores feudais. O mesmo valia para abades e abadessas, que chegaram a possuir enormes extensões de terra e milhares de vassalos. Em consequência, o assunto da sucessão a estes cargos eclesiásticos se tornou um assunto de grande importância política, e no próximo volume veremos as dificuldades que isto causou, tanto para a igreja como para os governantes seculares.

A atividade teológica

Já que durante o efêmero governo carolíngio houve um despertar do estudo das letras, era de se esperar que houvesse também certa atividade teológica. A não ser a obra de João Escoto Erigena, esta atividade se limitou a uma série de controvérsias, cujos temas nos indicam quais eram as principais inquietações teológicas da época.

O único pensador sistemático, que tentou incluir em sua obra a totalidade do universo, foi João Escoto Erigena. Seu nome nos dá a entender que ele era oriundo da Irlanda, que através dos séculos tinha conservado em seus mosteiros boa parte dos conhecimentos da antiguidade, esquecidos pelo restante da Europa ocidental. Em meados do século IX Erigena se estabeleceu na corte de Carlos, o Calvo (o filho de Ludovico, o Pio, e Judite), onde chegou a gozar de grande prestígio, por causa da sua erudição. Foi ele quem traduziu do grego as obras do falso “Dionísio, o Areopagita”. No século V alguém tinha composto estas obras, fazendo-se passar por Dionísio, o discípulo de Paulo no Areópago. Quando elas foram trazidas à Europa na época de Carlos, o Calvo, ninguém duvidava da sua autenticidade, e foi Erigena quem as traduziu do grego para o latim. A partir de então o falso Dionísio gozou de grande prestígio, pois era considerado sucessor imediato de Paulo. Através dele o misticismo neoplatônico teve um grande impacto na igreja de fala latina, que chegou a confundi-lo com os ensinos de Paulo.

Além de traduzir as obras do falso Dionísio, Erigena escreveu um grande tratado, Da divisão da natureza, cujos ensinos são mais neoplatônicos que cristãos. Mas em todo caso seu tom era tão erudito e suas especulações tão abstratas que foram poucos os que o leram, menos os que o entenderam, e parece que ninguém o aceitou ou seguiu.

Muito mais importantes para a vida da igreja foram as controvérsias teológicas que tiveram lugar no período carolíngio. Destas, a mais importante, por causa das suas consequências que perduram até os nossos dias, foi a que se referia ao Filioque. A palavra Filioque quer dizer “e do Filho”, e algumas igrejas ocidentais a tinham interpolado no Credo Niceno, de modo que onde a igreja oriental dizia “e no Espírito Santo, que procede do Pai”, algumas igrejas ocidentais começaram a dizer “no Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho”. Ao que parece a palavra Filioque foi acrescentada pela primeira vez na Espanha, e dali passou para o reino dos francos. Em todo caso, na capela real de Aix-Ie-Chapel, a capital de Carlos Magno, costumava-se incluir esta palavra no Credo. Quando alguns monges procedentes do reino franco se apresentaram em Jerusalém e repetiram o Credo com esta estranha interpolação, causaram um escândalo na igreja oriental, que se perguntava quem tinha dado autoridade aos francos para mudar o antigo Credo, aceito pelos concílios e por todos os cristãos ortodoxos.

Parte do que estava em jogo eram duas maneiras um pouco diferentes de entender a doutrina da Trindade. Mas a controvérsia ficou muito mais amarga porque existiam fortes rivalidades entre as igrejas do Oriente e do Ocidente. Quando Carlos Magno recebeu do papa o título de imperador o governo de Constantinopla declarou que isto era uma usurpação de poder, e que o rei dos francos não era verdadeiramente imperador. Os francos afirmaram que a negação do Filioque era heresia, e os bizantinos, por seu lado, responderam que hereges eram os que ousavam mudar o Credo.

Até o dia de hoje esta continua sendo uma das questões que separam as igrejas orientais das ocidentais.

Por outro lado, esta controvérsia teve outra consequência, que se faz sentir até o dia de hoje no culto público de muitas das nossas igrejas. Nesta época o credo mais comum utilizado por todas as igrejas era o Niceno. Porém agora o papa se via na difícil situação de ter de tomar partido entre os francos e os bizantinos cada vez que tinha de dizer o Credo. Sua solução consistiu em começar a usar o velho Símbolo Romano, que tinha caído em desuso séculos antes, e que a partir de então passou a ser chamado de “Credo dos apóstolos”. Deste modo o papa evitava ter de decidir entre os francos e os bizantinos. A partir de Roma o credo dos apóstolos foi se difundindo por todo o restante da Europa ocidental, e por esta razão atualmente ele é o mais usado nas igrejas ocidentais, tanto católicas como protestantes.

Outra controvérsia teológica do período carolíngio girou ao redor das doutrinas de Elipando de Toledo e Félix de Urgel, ambos espanhóis. Na Espanha existiam muitos cristãos que não tinham fugido para o norte durante as invasões islâmicas, e que viviam agora sob o regime muçulmano. Estes cristãos, os “moçárabes”, conservavam suas antigas tradições de tempos pré-islâmicos, inclusive sua ordem de culto, conhecida como a “liturgia moçárabe”. Enquanto Carlos Magno começava a reconquistar algumas das terras perdidas para o islã na Espanha, estes moçárabes se mostraram zelosos das suas antigas tradições, que os francos queriam substituir pelos costumes de Roma e da França. Desta forma havia razões de tensão entre os moçárabes e os francos, ainda antes de estalar a controvérsia.

O conflito começou quando o arcebispo Elipando de Toledo, baseando-se em algumas frases da liturgia moçárabe, disse que, quanto à sua divindade, Cristo era Filho eterno do Pai, porém quanto à sua humanidade ele era filho “somente por adoção”. Por causa desta frase a posição de Elipando tem sido chamado “adocionismo”. Este nome, porém, não é exato, pois os verdadeiros adocionistas da igreja antiga diziam que Jesus tinha sido um homem comum e vulgar, que Deus adotara por filho. Elipando não dizia isto. Na sua opinião sempre fora divino. Porém ele achava necessário insistir na distinção entre a divindade e a humanidade do Salvador, e por isto falava de duas maneiras de ser “filho”, uma eterna e a outra por adoção. Portanto, não estamos diante de um verdadeiro adocionismo, mas de uma distinção enfática entre as duas naturezas do Salvador, que séculos antes caracterizou a escola de Antioquia, e cuja consequência extrema foi condenada no concílio de Éfeso, quando Nestor foi declarado herege.

Contra estes ensinos de Elipando, que logo encontraram eco no bispo Félix de Urgel, outros insistiam na união estreita das duas naturezas do Salvador. Assim, por exemplo, Beato de Liébana dizia:

… os incrédulos não podiam ver naquele que crucificavam outra coisa que um homem. E como homem o crucificaram. Crucificaram o Filho de Deus. Crucificaram a Deus. Meu Deus sofreu por mim. Meu Deus foi crucificado por mim.

Os ensinos de Elipando e Félix foram logo condenados pelos teólogos francos e pelos papas. Elipando, que estava fora do seu alcance por viver em terras de mouros, continuou afirmando suas doutrinas. Porém Félix foi obrigado a retratar-se, e mais tarde não recebeu permissão para retornar a Urgel, onde a influência dos moçárabes era grande, e teve de passar o restante dos seus dias entre os francos.

Depois que Elipando e Félix morreram a controvérsia ficou relegada a segundo plano.

Enquanto isto, todavia, outras controvérsias tinham aparecido dentro do próprio reino franco. De todas estas, as que mais nos interessam são as que se referem à predestinação e à presença de Cristo na comunhão.

A controvérsia acerca da predestinação girou ao redor do monge Gotescalco, que tinha sido colocado no mosteiro de Fulda quando ainda criança. Gotescalco se dedicou ao estudo das obras de Santo Agostinho, e chegou à conclusão, historicamente correta, de que a igreja do seu tempo tinha se distanciado dos ensinos do bispo de Hipona no que referia à predestinação. Por diversas razões Gotescalco tinha provocado a inimizade dos seus superiores, e por isto, quando ele fez públicas as suas opiniões sobre a predestinação, não faltaram os que aproveitaram esta ocasião para atacá-lo. Um destes inimigos de Gotescalco era Rabão Mauro, abade de Fulda, e outro era o poderoso arcebispo Hincmaro, de Reims. Depois de uma série de debates Gotescalco foi declarado herege e encerrado em um mosteiro, onde diz-se que ele perdeu a razão pouco antes de morrer. Apesar de alguns dos pensadores mais eruditos do seu tempo terem-no defendido em alguns pontos, estava claro que a igreja não estava disposta a aceitar as doutrinas de Santo Agostinho sobre a graça e a predestinação, ao mesmo tempo que fazia de conta que era exatamente sobre o Santo de Hipona que ela baseava os seus ensinos.

A outra controvérsia importante tinha a ver com a presença de Cristo na Eucaristia. O motivo desta controvérsia foi uma obra do monge Radberto, Do corpo e do sangue do Senhor. Nesta obra Radberto dizia que quando o pão e o vinho eram consagrados, eles se transformavam no corpo e no sangue do Senhor. Já não eram pão e vinho, mas o próprio corpo que nasceu da virgem Maria e que se levantou do sepulcro, e o mesmo sangue que correu no Gólgota. Na opinião de Radberto, apesar de esta transformação ser algo envolto em mistério, que os sentidos normalmente não podem perceber, há casos extraordinários em que o crente pode ver o corpo e o sangue do Senhor, em lugar de pão e vinho.

Quando Carlos, o Calvo, leu o tratado de Radberto, não entendeu bem o que nele se dizia, e pediu esclarecimentos ao monge Ratramno de Corbie. Este lhe afirmou que, apesar de o corpo de Cristo estar verdadeiramente presente na comunhão, esta presença não é a mesma de qualquer outro corpo, e que em todo caso o corpo eucarístico não é o corpo histórico de Jesus, que se encontra nos céus, à direita do Pai.

Esta controvérsia nos mostra que foi durante o período obscuro que seguiu às invasões dos bárbaros que começou a tomar forma a doutrina segundo a qual o pão e o vinho se transformam em corpo e sangue do Salvador, e deixam de ser pão e vinho. No período carolíngio, se bem que esta opinião tenha-se generalizado, os mais estudiosos sabiam que se tratava somente de um exagero popular. Pouco depois começarão a falar em “mudança de substância”, e por fim, no século XIII, o quarto concílio de Latrão (1215) promulgou a doutrina da transubstanciação.

Estas são somente algumas das muitas controvérsias que apareceram no período carolíngio. À primeira vista poderíamos pensar que se trata de uma série de discussões sem sentido, que não levaram a nenhuma conclusão. Porém quando vemos o que estava ocorrendo no contexto dos séculos anteriores, notaremos por que alguns historiadores se referem ao “renascimento carolíngio”. Em meio à escuridão e do caos que pareciam reinar amplamente durante os primeiros séculos da Idade Média, o período carolíngio pareceu ser um novo começo.

O renascimento carolíngio foi relativamente efêmero. Um século depois da coroação de Carlos Magno em Roma suas possessões estavam divididas entre vários poderosos, e o título imperial se transformara em uma honra quase vazia. Porém o próprio fato de que o Império Romano do Ocidente voltara a ser recriado anunciava o dia em que este Império, junto com o papado e o monasticismo, seria um dos fatores determinantes no curso da Europa e da igreja medievais.

Esta entrada foi publicada em História, Teologia e marcada com a tag , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.