A reforma monástica

In:

  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos grandes ideais – Vol. 4: São Paulo: Vida Nova, 1981 (1ª edição), páginas 007 a 016.

 

A história de Marta e Maria no Evangelho mostra que devemos preferir a vida contemplativa. Maria escolheu a melhor parte …. Mas se nos coube a parte de Marta, devemos carregá-la com paciência.

Bernardo de Claraval

 

Durante toda a “era das trevas” a faísca dos ideais evangélicos sempre esteve acesa. Os nobres que guerreavam entre si, os membros dos diversos partidos que disputavam o papado, e os servos que no fim das contas proviam o sustento da Europa, todos eram cristãos. Chamá-los “cristãos nominais” não seria correto, pois sua fé, apesar de talvez errada ou infrutífera, e sem dúvida por demais ignorante dos desígnios de Deus para a história humana, era sincera. Tratava-se antes de pessoas para as quais a fé era a maneira de ganhar o céu, que lhes parecia tão real como a terra em que viviam. Para elas a salvação da alma era o propósito último da vida humana, e por isto as maiores atrocidades eram desculpadas com base na justificação eterna.

A época, porém, era obscura e turbulenta. Em meio aos roubos dos nobres, aos sofrimentos dos oprimidos, à ambição dos prelados, às invasões dos húngaros, normandos e sarracenos, as almas pareciam estar perigando. O pecado abundou, e a igreja viu-se obrigada a oferecer meios de graça para sua expiação. Assim se desenvolveu o sistema penitencial, que mais tarde deu origem ao conflito entre protestantes e católicos, no século XVI. O nobre que matasse seu parente no campo de batalha, ou o prelado cuja ambição se excedia, podiam encontrar remédio nos sacramentos da igreja, e assim subsistir em meio à era tenebrosa em que lhes coube viver.

Havia outro caminho para o cristão daquela época. Já que a vida do povo comum estava cheia de desassossego, violência e tentações de todo tipo, por que não se separar dela e seguir a senda do monasticismo? Durante toda a “era das trevas” a vida monástica exerceu uma fascinação constante sobre os espíritos mais religiosos.

Esta senda, no entanto, estreita, tinha se tornado quase intransitável. Muitos mosteiros foram saqueados e destruídos pelos invasores normandos e húngaros. Os que estavam em lugares mais protegidos se transformaram em joguete das ambições de abades e prelados. Os nobres ou bispos que eram seus supostos protetores os utilizavam para seus próprios fins. Assim como o papado e os bispados, as abadias foram objeto de cobiça, e houve quem chegasse a elas mediante a simonia ou ainda o homicídio, e logo elas foram usadas para gozar uma vida acomodada e muito distante do ideal beneditino. Os monges de vocação sincera se viam violentados pelas circunstâncias da época. A Regra de São Benedito apenas era cumprida. E quando algum monge devoto fundava um novo mosteiro, mais tarde este também se transformava em presa dos ricos e poderosos.

A reforma cluniacense

Em meio a tudo isto o duque Guilherme III da Aquitânia fundou um pequeno mosteiro, em 909. O fato em si não era nada novo, pois durante toda a “era das trevas” os senhores feudais tinham fundado casas monásticas. Porém várias decisões sábias e circunstâncias providenciais fizeram daquele pequeno mosteiro o centro de uma grande reforma. Guilherme trouxe para suas terras, para dirigir sua fundação, Bernom, que tinha se distinguido por sua firmeza na aplicação da Regra, e por seus próprios esforços em prol de uma reforma em outros mosteiros. Bernom pediu a Guilherme que lhe concedesse, para sediar a fundação, um lugar chamado Cluny, que era a região de caça preferida do duque. Este atendeu ao pedido, e concedeu ao novo mosteiro as terras da aldeia necessária para o seu sustento. O caráter desta cessão foi de suma importância, pois Guilherme, em vez de reter o título e os direitos de patrono do mosteiro, doou as terras aos “santos Pedro e Paulo”, e colocou a nova comunidade sob a proteção direta da Santa Sé. Como na época o papado passava por suas piores épocas, esta suposta proteção não tinha outro propósito que proibir a ingerência dos senhores feudais ou bispos das proximidades. Além disto, para evitar que o papado, corrupto como estava, utilizasse Cluny para seus próprios fins partidaristas, Guilherme proibiu explicitamente que o papa invadisse ou de qualquer outro modo tomasse posse do que pertencia aos dois santos apóstolos.

Bernom governou Cluny até 926. Poucos dados da sua época são conservados, pois Cluny não passou de mais um mosteiro dos muitos que Bernom reformou. Quando ele morreu sucederam-lhe uma série de abades de grande habilidade e ideais elevados, que fizeram de Cluny o centro de uma grande reforma monástica: Odo (926-940), Aimardo (940-965), Mayeul (965- 994), Odilo (994-1049) e Hugo (1049-1109). Seis abades extraordinariamente capazes e de longa vida regeram os destinos de Cluny por duzentos anos. Sob sua direção os ideais da reforma monástica alcançaram alturas cada vez mais elevadas. Apesar de o sétimo abade, Pôncio (1109-1122), não ter sido digno dos seus antecessores, seu sucessor, Pedro, o Venerável (1122-1157) devolveu a Cluny parte do brilho que tinha perdido.

No princípio o propósito dos cluniacenses era somente ter um lugar onde pudessem praticar cabalmente a Regra de São Benedito. Este ideal não tardou a ampliar seus horizontes, e os abades de Cluny, seguindo o exemplo de Bernom, começaram a reformar outros mosteiros. Assim surgiu toda uma rede de “segundos Clunys”, que dependiam diretamente do abade do mosteiro principal. Não tratava de uma “ordem” no sentido estrito, mas de mosteiros supostamente independentes, mesmo assim sob a supervisão do abade de Cluny, que em geral nomeava o prior de cada mosteiro. A reforma cluniacense se estendeu também a vários conventos de monjas, o primeiro dos quais, Marcigny, foi fundado em meados do século XI, quando Hugo era abade de Cluny.

A principal ocupação destes monges, como o estipulava a Regra, era o ofício divino. A ele os cluniacenses dedicavam toda a sua atenção, até que no apogeu da sua observância cantavam cento e trinta e oito salmos, e por isso os monges de Cluny chegaram a se dedicar quase exclusivamente ao culto, deixando de lado o trabalho manual que era tão importante na tradição beneditina. Tudo isto era justificado com a alegação de que a função dos monges era orar e louvar a Deus, e para que pudessem fazê-lo com toda a pureza não deveriam se enlamear com os trabalhos do campo.

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Em seu ápice o zelo reformador de Cluny não tinha limites. Depois de regulamentar a vida de centenas de casas monásticas, os cluniacenses começaram a sonhar em reformar a igreja. Era a época mais obscura do papado, quando os pontífices sucediam uns aos outros com rapidez vertiginosa, e tanto os papas como os bispos não passavam de meros senhores feudais, emaranhados nas intrigas do momento. Nestas circunstâncias o ideal monástico, como praticado em Cluny, oferecia um raio de esperança. Ao sonho de uma reforma geral de acordo com o modelo monástico se somaram outros que, sem serem todos cluniacenses, participavam dos mesmos ideais. Em contraste com a corrupção que existia em quase toda a igreja no século X e no princípio do XI, o movimento cluniacense, e outros que seguiram o mesmo padrão, pareciam ser um milagre, um novo amanhecer em meio às trevas.

Por isto a reforma eclesiástica da segunda metade do século XI foi concebida em termos monásticos, mesmo pelos que não eram monges. Quando Bruno de Tula estava peregrinando para Roma, onde receberia a tiara e o título de Leão X, tanto ele como seus acompanhantes estavam imbuídos do ideal de reformar a igreja de acordo com o padrão monástico estabelecido por Cluny. Assim como este mosteiro tinha podido levar a cabo sua obra por causa da sua independência de qualquer poder civil ou eclesiástico, o sonho daqueles reformadores era uma igreja em que os bispos estivessem livres de qualquer dívida para com o poder civil. A simonia (compra e venda de cargos eclesiásticos) era, por isto, um dos principais males que tinha de ser erradicado. A nomeação e investidura de bispos e abades por reis e imperadores, apesar de não ser estritamente simonia, se aproximava desta, e devia ser proibida, principalmente nos países onde os soberanos não tinham consciência reformadora.

O outro grande inimigo da reforma eclesiástica concebida em termos monásticos era o matrimônio dos clérigos. Durante séculos o celibato tinha tentado se impor; mas nunca tinha sido regra universal. Agora, inspirados pelo exemplo monástico, os reformadores fizeram do celibato um dos elementos principais do seu programa. Mais tarde o que fora exigência somente para os monges valia também para todos os clérigos.

A obediência, outro dos pilares do monasticismo, o seria também da reforma do século XI. Assim como os monges deviam obediência aos seus superiores, toda a igreja (na verdade toda a cristandade) devia estar subordinada ao papa, que encabeçaria uma grande renovação, como os abades de Cluny a tinham feito dentro do âmbito monástico.

Por último, em relação à pobreza, tanto o monasticismo beneditino como a reforma que foi inspirada nele sustentavam uma posição ambivalente. O bom monge não devia possuir coisa alguma, e sua vida devia ser extremamente simples. O mosteiro, por sua vez, podia ter terras e possessões sem limite. Estas aumentavam constantemente graças aos donativos e heranças que recebia. A longo prazo tornava-se difícil para o monge, mesmo sendo pessoalmente pobre, levar a vida simples que a Regra ditava. Já dissemos que os cluniacenses chegaram a se negar a cultivar a terra, sob o pretexto da sua dedicação exclusiva ao culto divino, mas na realidade baseados nas muitas riquezas que sua comunidade tinha. De igual modo os reformadores se queixavam da vida de luxo que os bispos levavam, porém ao mesmo tempo insistiam no direito da igreja de ter grandes posses, supostamente não para o uso dos prelados, mas para a glória de Deus e o bem-estar dos pobres. Mais tarde estas posses dificultavam a obra reformadora, pois convidavam à simonia, e o poder que os prelados tinham como senhores feudais os envolvia constantemente nas intrigas políticas da época.

Uma das principais causas da decadência do movimento cluniacense foi a riqueza que não tardou a acumular. Inspirados pela santidade daqueles monges, muitos nobres lhes fizeram donativos. Em pouco tempo a abadia de Cluny se transformou num dos mais suntuosos templos da Europa. Outras casas seguiram o mesmo caminho. Com o correr dos anos perdeu-se a simplicidade de vida que era o ideal monástico, e outros movimentos mais pobres e mais recentes tomaram o seu lugar. Igualmente uma das mais principais causas dos fracassos por que passou a reforma do século XI foi a riqueza da igreja, que lhe dificultava o distanciamento das intrigas entre os poderosos, para tomar o partido dos oprimidos.

A reforma cisterciense

O movimento de Cluny ainda estava em seu apogeu quando, em parte devido à sua inspiração, outros se lançaram a empreendimentos semelhantes. Em diversos lugares a vida solitária foi renovada, ou por outros meios tentou-se destacar o rigor da Regra. Assim, por exemplo, Pedro Damiano se contentava com o princípio de “suficiência” enunciado por São Benedito para evitar a vida acomodada, e insistia na “penúria extrema”. A este espírito rigorista se somava certo descontentamento com o monasticismo cluniacense, que se tornara rico, e tinha elaborado seus rituais a tal ponto que o trabalho manual ficava negligenciado. Estes sentimentos deram lugar a vários novos movimentos monásticos, dos quais o mais importante foi o dos cistercienses.

A reforma eclesiástica de que trataremos nos próximos capítulos estava em seu auge quando Roberto de Molesme decidiu abandonar o mosteiro deste nome e fundar um novo em Citeaux, de cujo nome latino, Cistertium, se deriva o termo “cisterciense”. Pouco depois, por ordem papal, Roberto teve de regressar a Molesme. Porém em Citeaux ficou um pequeno grupo de monges, decidido a continuar a obra começada. O próximo abade, Alberico, conseguiu que o papa Pascoal, em 1110, colocasse o novo mosteiro sob a proteção da Santa Sé, assim como o de Cluny. Sob Estêvão Harding, o sucessor de Alberico, a comunidade continuou crescendo, e foi necessário fazer uma nova fundação em La Ferté.

Porém a grande expansão da nova ordem teve lugar depois da entrada nela de Bernardo de Claraval. Este tinha vinte e três anos quando se apresentou em Citeaux, e solicitou admissão na comunidade com vários de seus parentes e amigos. Pouco antes ele tinha decidido que sua vocação era se unir a este mosteiro, e se empenhara em convencer seus irmãos e demais achegados que o seguissem. O fato de que ele pôde se apresentar em Citeaux com um bom grupo de recrutas era uma das primeiras provas do seu poder de persuasão. Poucos anos depois o número de monges em Citeaux era tão grande que Bernardo recebeu instruções de fundar uma nova comunidade em ClaravaI. Este novo mosteiro logo se transformou num dos principais centros para onde se dirigia a atenção de toda a cristandade ocidental. Bernardo chegou a ser o mais famoso pregador de toda a Europa, que lhe deu o apelido de “Doutor Melífluo”, porque as palavras de devoção brotavam da sua boca como o mel dos favos. A fama da sua santidade era tal que o movimento cisterciense se viu invadido por multidões que queriam seguir o mesmo caminho.

Bernardo era antes de tudo monge. Na citação que iniciava o presente capítulo vemo-lo afirmando o que ele sempre creu e o Senhor tinha declarado: que a parte de Maria era melhor que a de Marta. Seu desejo era passar todo seu tempo meditando sobre o amor de Deus, em particular em sua revelação na humanidade de Cristo. Esta humanidade era o tema principal da sua contemplação. Isto chegava a tal ponto que em certa ocasião, quando um dos seus acompanhantes comentou em sua presença algo acerca de um lago junto ao qual tinham andado todo um dia, Bernardo perguntou: “Que lago?”

Como monge, Bernardo insistia na vida simples que tinha sido o ideal do monasticismo primitivo. Nesta vida o trabalho físico, particularmente na agricultura, era importante. Enquanto os monges de Cluny se subtraíam a este trabalho, sob a alegação de não sujar as vestimentas com que adoravam a Deus, os cistercienses pensavam que qualquer cuidado especial com suas vestimentas era um luxo supérfluo, e por esta razão eles ficaram conhecidos como “os monges brancos”.

Em sua organização o movimento cisterciense devia ser simples. Mas era necessário evitar a excessiva centralização de Cluny, onde tudo dependia do abade. Por isto os mosteiros cistercienses eram relativamente independentes, e mantinham se unidos através de conferências anuais em que todos os abades se encontravam. Os abades das principais casas também tinham certa autoridade sobre os outros. Porém, fora isto, cada mosteiro era independente.

Apesar de Bernardo estar convicto que Maria tinha escolhido a parte melhor, ele logo teve de assumir o papel de Marta. E mesmo sendo seu propósito explícito dedicar-se a uma vida solitária, ele teve de intervir como árbitro em várias disputas políticas e eclesiásticas. Sua personalidade dominou de tal modo a sua época que nos encontraremos repetidamente com ele neste volume, seja como o grande místico da devoção à humanidade de Cristo, seja como o poder por trás e por cima do papado, seja como o campeão da reforma eclesiástica, seja como pregador da segunda cruzada, ou ainda como o inimigo implacável de novas correntes teológicas.

Esta breve narração dos principais movimentos de reforma monástica dos séculos X a XII nos obrigou a avançar um pouco na ordem cronológica da nossa história. Por isto, voltemos até onde estávamos no fim do volume anterior, ou seja, ao ano 1048, no tempo do abade ado de Cluny, e meio século antes da fundação de Citeaux.

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