A reforma papal

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  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos grandes ideais – Vol. 4: São Paulo: Vida Nova, 1981 (1ª edição), páginas 017 a 030.

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Quando terminamos o volume anterior um pequeno grupo de peregrinos marchava para Roma. Liderava-o o bispo Bruno de Tula, a quem o imperador tinha oferecido o papado. Bruno tinha se negado a aceitá-lo das mãos do imperador, e tinha insistido em ir a Roma como peregrino. Se lá o povo e o clero o elegessem bispo, então ele aceitaria a tiara papal. Esta atitude de Bruno refletia uma das principais preocupações dos que queriam reformar a igreja. Para estas pessoas, um dos piores males de que a igreja padecia era a simonia, ou seja, a compra e venda de cargos eclesiásticos. Somente a nomeação por autoridades civis, mesmo sem envolver qualquer transação monetária, parecia a Bruno e a seus acompanhantes estar muito próximo da simonia. Um papado reformador deveria surgir puro já da raiz. Como o monge Hildebrando tinha dito a Bruno, aceitar o papado das mãos do imperador seria ir para Roma, “não como apóstolo, mas como apóstata”.

Outro membro da comitiva de Bruno era o monge Humberto, que, em seu mosteiro em Lotaríngia, tinha se dedicado ao estudo, e a escrever a favor da reforma eclesiástica. Sua preocupação principal era a simonia, e sua obra Contra os simoníacos foi um dos mais duros ataques contra este costume. Humberto era um homem de espírito fogoso, que chegou a afirmar que as ordenações feitas por um bispo simoníaco não tinham valor. Isto era uma posição extrema, pois queria dizer que muitíssimos fiéis, mesmo sem o saberem, estavam recebendo sacramentos que nada valiam. Mais tarde Leão XI o fez cardeal, e foi ele quem, como vimos no volume anterior, depositou sobre o altar de Santa Sofia a sentença de excomunhão contra o patriarca Miguel Cerulário, que marca o início oficial do cisma entre as igrejas do Oriente e do Ocidente.

Talvez o membro mais notável daquela comitiva era o jovem monge Hildebrando, que conhecia bem a cidade de Roma, seus ideais elevados e suas intrigas baixas. Ele nasceu por volta de 1020 em uma família humilde de carpinteiros, na Toscana, e ingressou ainda menino no mosteiro de Santa Maria do Aventino, em Roma. Ali ele tinha se dedicado ao estudo e à devoção, e chegou à conclusão de que era necessário reformar a vida eclesiástica. Ali ele conheceu João Gracião, que veio a ser papa com o nome de Gregório VI.

Como dissemos antes, Gregório VI tentou reformar a igreja. Com este propósito em mente ele convocou Hildebrando para ser seu auxiliar. Mas a reforma de Gregório VI fracassou, pois logo depois três pessoas diferentes diziam ser papas, e Gregório abdicou em prol da paz e da unidade da igreja. Hildebrando o acompanhou para o exílio, e diz-se que foi ele quem lhe fechou os olhos, quando morreu.

Dois anos depois Bruno de Tula, a caminho de Roma, por sua vez convocou Hildebrando, para que o ajudasse a empreender novamente a reforma que Gregório VI tentara fazer.

Alguns historiadores quiseram ver em Hildebrando o verdadeiro poder que esteve por trás do trono pontifício através de vários papados, mas a verdade é que os documentos existentes não dão base para esta interpretação dos fatos. Hildebrando parece mais ter sido um homem humilde, cujo sincero desejo era reformar a igreja, razão pela qual ele deu seu apoio a vários papas reformadores. Ele foi ficando cada vez mais poderoso, por causa deste apoio que dava, até que por fim foi eleito papa, e tomou o nome de Gregório VII.

Leão IX

Por enquanto, o próximo papa seria Bruno de Tula, que se dirigia a Roma, não como o novo pontífice nomeado pelo imperador, mas como um peregrino descalço que visitava a cidade papal em um ato de humilde devoção. Em seu caminho em direção a Roma, atravessando a Itália, as multidões o ovacionavam, e depois começou-se a falar dos milagres que aconteceram naquela peregrinação.

Depois de entrar em Roma descalço, e de ser aclamado pelo povo e pelo clero, Bruno aceitou a tiara papal, e tomou o nome de Leão IX.

Assim que se viu na posse legítima da cátedra de São Pedro, Leão começou a sua obra reformadora. Para isto ele se cercou de vários homens que tinham dado mostras da sua dedicação a esta causa. Além de Humberto e Hildebrando mandou vir Pedro Damiano, um monge austero que tinha merecido o respeito de todos que na Europa lamentavam a situação em que se encontrava a igreja. Diferente de Humberto, Pedro Damiano não se deixava levar por seu zelo reformador; ele buscava uma reforma que desse mostras do espírito de caridade que domina todo o Evangelho. Assim, por exemplo, ele compôs um tratado em que, ao mesmo tempo em que condenava a simonia, declarava que os sacramentos que os fiéis recebiam dos simoníacos eram válidos. Mais tarde, quando Leão IX empunhou as armas contra os normandos, Pedro Damiano condenou a atitude guerreira do pontífice.

Com a ajuda de Hildebrando, Humberto, Damiano e outros, Leão IX empreendeu a reforma da igreja. Para todos estes homens esta reforma deveria consistir, em particular, em abolir a simonia e generalizar o celibato eclesiástico. Estes pontos principais, entretanto, traziam consigo uma série de consequências importantes. Em meio à sociedade feudal, a igreja era uma das poucas instituições em que ainda existia certa mobilidade social. Tanto Hildebrando como Pedro Damiano eram de origem humilde, e mais tarde o primeiro seria papa, e o segundo santo e doutor da igreja. Esta mobilidade social estava ameaçada pela prática da simonia, que punha os cargos eclesiásticos mais altos não ao alcance dos mais aptos ou mais devotos, mas dos mais ricos. Se isto se unia ao matrimônio eclesiástico, corria-se o risco que os grandes prelados providenciassem uma herança para seus filhos, e que assim o alto clero se transformasse em uma casta feudal, como as outras que existiam naquela época. Logo, a oposição dos reformadores ao matrimônio eclesiástico, além dos motivos explícitos de destacar o valor da vida solteira, tinha outros motivos mais profundos, talvez nem conhecidos totalmente pelo que a defendiam. Em todo caso não há dúvidas de que a classe popular logo se colocou do lado dos reformadores, principalmente porque o costume da simonia colocava o poder eclesiástico nas mãos dos ricos.

Depois de tomar uma série de medidas reformadoras na Itália, Leão se dispôs a estender a reforma a lugares mais distantes. Com este propósito ele viajou para a Alemanha, onde o imperador Henrique III e seus antecessores tinham feito algo contra a simonia, mas onde Leão IX sentia a necessidade de reafirmar a autoridade papal. Ali se excomungou a Godofredo de Lorena, que se tinha rebelado contra Henrique, e obrigou o insurreto e se submeter. Em seguida o papa intercedeu em seu favor diante do imperador, que lhe perdoou a vida. Deste modo Leão confirmava mais uma vez a autoridade papal acima dos senhores feudais.

Na França, o costume da simonia estava generalizado, e por esta razão o papa decidiu visitar também este país. O rei da França e muitos dos grandes prelados fizeram-lhe entender de diversas maneiras que não desejavam uma visita papal, mas apesar disto Leão, quase se fazendo de surdo, foi para a França, onde convocou um concílio que se reuniu em Reims. Ali vários prelados culpados de simonia foram depostos, e foi dada ordem para que os sacerdotes e bispos casados deixassem suas mulheres. Mesmo que esta última ordem não foi cumprida por muitos, o prestígio do papa aumentou consideravelmente, e o hábito da simonia diminuiu.

Este papa reformador, porém, não deixou de cometer seus erros. Destes o mais grave provavelmente foi tomar pessoalmente das armas contra os normandos. Estes tinham se estabelecido no sul da Itália e na Sicília, e dali ameaçavam as possessões papais. Da Alemanha, Leão não conseguiu mais ajuda que quinhentos cavaleiros, à frente dos quais marchou contra os normandos, enquanto aumentava seu exército com tropas de mercenários. Pedro Damiano o repreendeu, mostrando-lhe o contraste entre o que Leão se propunha fazer e os ensinos evangélicos. Porém apesar disto Leão marchou contra os normandos, que enfrentou perto de Civitá-al-mare. Ali as tropas papais foram derrotadas, e o próprio papa foi aprisionado pelos normandos, que o mantiveram preso até poucos meses antes da sua morte.

O outro erro de Leão consistiu em enviar a Constantinopla uma embaixada composta de clérigos inflexíveis, do calibre de Humberto, cuja atitude diante de Miguel Cerulário e dos costumes da igreja oriental foi uma das principais causas do cisma.

Os sucessores de Leão

Quando Leão morreu retornou o risco de que o papado se transformasse em motivo de contenda entre as diversas famílias e partidos italianos. O único poder capaz de evitar isto era o imperador Henrique III. Mas pedir a Henrique que nomeasse o novo papa seria colocar novamente o papado sob a sombra dos interesses políticos. E assim tudo que Leão conseguira estaria perdido.

Nestas circunstâncias Hildebrando iniciou uma série de gestões cujo resultado foi que o imperador concordou com a eleição do novo papa pelos romanos, desde que este papa fosse alemão. Assim ficava garantido que o papado não cairia nas mãos de uma das famílias italianas que o disputavam. Existia ainda, todavia, o perigo de o sucessor de Leão, por ser alemão, ser um joguete nas mãos do imperador. Por esta razão o partido renovador, que na época tinha o poder em Roma, fez recair a eleição sobre Gebhard de Eichstadt.

Gebhard era um dos mais hábeis conselheiros de Henrique. Mas também era um homem de convicções religiosas, que não se dobraria diante da autoridade imperial. Como prova disto, antes de aceitar a tiara papal ele disse ao imperador que somente a aceitaria se Henrique prometesse “devolver a São Pedro o que lhe pertencia”. O sentido desta frase não é bem claro. Mas sem dúvida se refere em parte às terras que os normandos tinham tomado, e em parte à autoridade papal, que os imperadores e outros governantes sempre estavam tentando arrebatar para si.

Com o nome de Vítor II Gebhard subiu à cátedra de São Pedro em 1055, depois de uma série de negociações que demoraram um ano todo. Sua política religiosa foi continuação da de Leão IX, pois estava dirigida principalmente contra a simonia e o casamento dos clérigos. Na Alemanha, Godofredo de Lorena se sublevou novamente contra o imperador, que solicitou a presença de seu antigo conselheiro Gebhard. Pouco depois de o papa chegar até seu antigo soberano este morreu, e deixou seu pequeno filho Henrique IV aos cuidados de Vítor. Como consequência este último teve por algum tempo em suas mãos as rédeas da igreja e do Império. Com tais poderes sua política reformadora fez rápidos e grandes progressos. Hildebrando foi enviado para a França, onde deu um novo impulso à reforma da igreja, depôs vários prelados culpados de simonia, e limitou o poder dos senhores feudais sobre os bispos. Na Itália, Vítor seguiu uma política  parecida. Porém quando seus excessivos poderes o levaram a cometer injustiças contra alguns dos seus antigos rivais, Pedro Oamiano levantou novamente sua voz em protesto. O papa parece não lhe ter prestado atenção, e se preparava para ir para a Alemanha para fazer valer ali a sua autoridade, quando morreu repentinamente.

Um dos últimos atos de Vítor tinha sido nomear Frederico de Lorena abade de Montecassino. Este Frederico era irmão de Godofredo de Lorena, o mesmo que tinha se rebelado duas vezes contra Henrique III, a quem os papas tinham condenado. Por isto esta nomeação assinalava uma mudança de política. Em todo caso, à morte de Vítor foi Frederico de Lorena quem lhe sucedeu, com o nome de Estêvão IX. Seu papado foi breve. Mas nele o movimento reformador alcançou alturas tão elevadas que causou a insurreição dos “parares”, gente do povo que assaltava as casas dos clérigos e maltratava suas esposas e concubinas. Estêvão interveio para evitar os excessos. Mas este episódio nos mostra que eram as classes populares que insistiam no celibato eclesiástico e em condenar a simonia.

Poucos meses depois de ser feito papa Estêvão morreu, e as velhas famílias nobres se apossaram mais uma vez do papado, fazendo eleger Benedito X. Mas o partido reformador não estava disposto a deixar-se tirar o papado com tanta facilidade. Os cardeais e outros prelados romanos que tinham sido nomeados pelos papas reformadores estavam descontentes. Hildebrando, que por outras causas na época se encontrava na corte da imperatriz regente Inês, a convenceu de que era necessário depor Benedito. Com seu apoio, e com o de outras casas poderosas, Hildebrando e Pedro Oamiano reuniram os cardeais em Roma, e todos juntos declararam Benedito deposto, elegendo Gerhard de Borgonha, que tomou o nome de Nicolau II.

Em vista do sucedido era necessário estabelecer um método para a eleição de um papa, que não estivesse sujeito às vicissitudes do momento. Com este propósito Nicolau II reuniu o segundo concílio de Latrão, em 1059. Foi ali que pela primeira vez foi decretado que os futuros papas deveriam ser eleitos pelos cardeais.

O cardinalato é uma instituição de origens obscuras. No começo dava-se o título de “bispos cardeais” de Roma aos bispos das sete igrejas vizinhas, que presidiam o culto na basílica de Latrão junto com o papa. No século Vi II apareceram pela primeira vez os títulos de “presbítero cardeal” e “diácono cardeal”. Em todo caso, na época de Nicolau II o cardinalato já era uma instituição antiga, e os seus detentores eram em sua maior parte pessoas dedicadas à reforma. Por esta razão o concílio decidiu que a eleição de cada novo papa ficasse entregue aos bispos cardeais, que deviam buscar a aprovação dos demais cardeais e, depois, do povo romano. Quanto aos antigos direitos que os imperadores tinham tido, de serem consultados antes da consagração do novo papa, o concilio se expressou de maneira ambígua, dando a entender que nem o imperador tinha o direito de vetar a eleição feita pelos cardeais e pelo povo. Além disto foi decretado que os papas futuros fossem eleitos de entre o clero romano, e que os cardeais recorreriam a outras pessoas somente quando não houvesse neste clero uma pessoa capacitada. Ainda que, em teoria, o concílio contasse com o povo na eleição pontifícia, na realidade limitou muito o seu poder, pois determinou que no caso de tumultos ou motins públicos os cardeais poderiam se transferir para outra cidade, e ali eleger o papa. O decreto do segundo concilio de Latrão estabeleceu o método de eleição que prevalece até os nossos dias, com algumas modificações.

Ao mesmo tempo que tomava medidas para regulamentar sua sucessão, Nicolau iniciou uma nova política de aliança com os normandos do sul da Itália. Até então estes invasores tinham sido inimigos do papado, que mais de uma vez teve de acudir às forças imperiais, solicitando seu apoio. A partir de Nicolau o papado pôde seguir uma política muito mais independente do Império, pois contava com o apoio dos normandos, cujos chefes receberam o título de duques, e mais tarde de reis.

Quando Nicolau morreu as antigas famílias romanas tentaram apossar-se uma vez mais do papado. Com o apoio da imperatriz regente Inês elegeram seu próprio papa, a quem deram o nome de Honório II. Mas os cardeais, inspirados e dirigidos por Hildebrando, declararam que esta eleição não valia, por contrariar o disposto pelo concílio de Latrão, e elegeram Alexandre II. Este pôde resisti r à oposição da imperatriz graças ao apoio dos normandos, até que a imperatriz caiu e o próximo regente retirou seu apoio a Honório, que regressou ao seu antigo bispado de Parma três anos depois de ser eleito.

O pontificado de Alexandre II foi relativamente longo (1061-73), e colocou a reforma papal sobre bases firmes. Em diversas regiões da Europa foram tomadas medidas contra a simonia. Muitos prelados que tinham comprado seus cargos foram depostos. Muitos outros se viram obrigados a jurar que não eram simoníacos. O celibato eclesiástico ficou sendo algo cada vez mais popular. Para aqueles reformadores, e para o povo que os seguia, não havia diferença alguma entre o matrimônio dos clérigos e o concubinato. As esposas dos sacerdotes eram chamadas de “prostitutas”, e tratadas como tais. O movimento dos “patares” cobrou novas forças.

Um exemplo de como o fervor popular abraçou a causa da reforma temos no caso de Pedro, bispo de Florença. Nesta cidade o costume de os sacerdotes serem casados ainda era bastante generalizado, e o povo e os monges tomaram o propósito de aboli-lo. O bispo Pedro, que era um homem moderado, tentou acalmar os ânimos, e por isto foi acusado de simoníaco pelos monges. O líder dos monges era João Gualberto de Valumbrosa, famoso em todo o distrito por sua austeridade, e por muitos considerado santo. João Gualberto marchou pelas ruas de Florença, acusando Pedro de simoníaco. De Roma, Pedro Damiano, preocupado com o zelo excessivo destes reformadores, declarou que Pedro era inocente. Mas Hildebrando tomou o partido de João Gualberto. Em Florença o povo se negava a aceitar os sacramentos de Pedro e dos sacerdotes casados. Pedro insistia em sua inocência.

Por fim alguém teve a ideia de recorrer à prova de fogo. Fora da cidade, perto de um mosteiro favorável a João Gualberto, foi preparado o cenário para a grande prova. Mais de cinco mil pessoas se reuniram. Diante das chamas o monge que iria passar por elas celebrou a comunhão, e o povo, comovido, chorou. Depois, em meio a dramáticas cerimônias, o monge marchou através das chamas. Ao vê-lo sair do outro lado o povo começou a gritar, declarou que se tratava de um milagre, e que por isto estava provado que Pedro era simoníaco. O malfadado bispo teve de abandonar a cidade, enquanto continuavam os abusos contra os clérigos casados e suas esposas.

Gregório VII

Quando da morte de Alexandre ressurgiu o problema da sucessão. O decreto do concílio de Latrão estabelecia um processo para a eleição de um novo papa. Mas as antigas famílias romanas tinham dado provas de que este decreto não lhes infundia grande respeito. Também era possível que o Império tentasse impor um prelado alemão, com a esperança de que o papado voltasse a ser um instrumento dos interesses imperiais. Por outro lado o povo romano, imbuído das ideias de reforma que tinham sido pregadas na cidade desde o tempo de Leão IX, não estava disposto a permitir que o papado outra vez se transformasse em joguete dos interesses políticos de um ou outro bando. Por esta razão, em meio aos funerais de Alexandre o povo começou a gritar: Hildebrando bispo! Hildebrando bispo!” Em seguida os cardeais se reuniram e elegeram papa a quem por tantos anos dera mostras de zelo reformador e de habilidade política e administrativa.

Hildebrando era um homem de ideais elevados, forjado em meio às trevas da primeira metade do século. Seu sonho era uma igreja universal, unida sob a autoridade suprema do papa. Para que este sonho se tornasse realidade era necessário tanto reformar a igreja em lugares onde o papa tinha autoridade, pelo menos nominal, como estender esta autoridade à igreja oriental, e às regiões que estavam sob o domínio dos muçulmanos. Seu ideal era a realização da cidade de Deus na terra, de tal modo que toda a sociedade humana estivesse unida como um só rebanho sob um só pastor. Com este ideal em mente Hildebrando tinha trabalhado muitos anos, sempre nos bastidores, deixando que outros ocupassem o centro do cenário. Agora o povo exigia a sua eleição. Não havia outro candidato capaz de salvar o papado dos que queriam se apossar dele. O povo o aclamou, os cardeais o elegeram, e Hildebrando chorou. Não seria mais possível trabalhar na penumbra, e apoiar os esforços reformadores de outros papas. Agora era ele que deveria tomar o estandarte e dirigir a reforma por que tanto tinha ansiado.

Quando ascendeu ao papado Hildebrando tomou o nome de Gregório VII, e imediatamente tomou as primeiras medidas visando a realização dos seus ideais. De Constantinopla vieram petições para que ele auxiliasse a igreja do Oriente, assediada pelos turcos seljúcidas. Gregório viu nisto uma oportunidade de estreitar os vínculos com os cristãos orientais, e talvez estender a autoridade romana para o Oriente. Em sua correspondência da época podemos ver que ele sonhava com um grande empreendimento militar, no estilo das cruzadas que começariam pouco tempo depois, com o propósito de derrotar os turcos e conquistar a gratidão de Constantinopla. Porém na Europa ninguém respondeu ao seu chamado, mesmo quando o papa, como recurso extremo, se ofereceu para comandar as tropas pessoalmente. Em pouco tempo Gregório teve de abandonar o projeto.

Na Espanha a situação era parecida. Como veremos mais adiante, era a época da reconquista das terras que por quase quatro séculos estiveram dominadas pelos mouros. Na França havia nobres que olhavam com cobiça para as terras ibéricas, Il que queriam participar da reconquista para se apossar delas. Com o propósito de dar apoio legal à sua empresa alguns destes nobres argumentavam que a Espanha pertencia a São Pedro, e que, por isto, era em nome do papado, e com vassalos seus, que empreendiam a reconquista. Gregório incentivou estas pretensões, mas o resultado foi nenhum, pois por diversas razões as intenções francesas na Espanha não foram concretizadas.

Frustrado em seus projetas tanto no Oriente como na Espanha, Hildebrando dedicou todos seus esforços à reforma da igreja. Para ele, como para os papas que o tinham precedido, esta reforma deveria começar pelo clero, e seus dois objetivos Iniciais eram abolir a simonia e instituir o celibato eclesiástico. Na quaresma de 1074 um concilio reunido em Roma voltou (.J condenar a compra e venda de cargos eclesiásticos e o casamento dos clérigos. Isto não era novidade, pois desde o tempo de Leão IX os decretos contra a simonia e o casamento tinham se sucedido quase ininterruptamente. Gregório, porém, adotou medidas novas, com que queria conseguir que seus decretos fossem obedecidos. A primeira foi proibir ao povo assistir aos sacramentos administrados por simoníacos. A segunda consistiu em nomear legados papais que viajaram por diversos territórios da Europa, convocando sínodos e procurando de diversas maneiras fazer com que os decretos papais fossem cumpridos ao pé da letra.

Ao proibir o povo de receber os sacramentos administrados por simoníacos Gregório esperava que ele se aliasse à causa da reforma, do modo que os altos prelados e os sacerdotes que não se humilhassem diante das ordens papais fossem humilhados pelo menos pela ausência do povo. Mas este decreto era difícil de ser cumprido, pois nas regiões onde a simonia era praticada mais abertamente não’ era fácil encontrar sacerdotes que não estivessem manchados por ela de um ou outro modo. De forma que o povo se via diante da alternativa de não receber os sacramentos em obediência ao papa, ou recebê-los e assim apoiar os simoníacos. Além disto logo houve quem começou a acusar Gregório de heresia, dizendo que o papa tinha declarado que os sacramentos administrados por pessoas indignas não eram válidos, e que esta opinião, sustentada séculos antes pelos donatistas, tinha sido condenada pela igreja. Na verdade o que Gregório tinha dito não era que os sacramentos administrados por sacerdotes indignos não eram válidos, mas somente que os fiéis deveriam abster-se deles, para promover a reforma eclesiástica. Em todo caso a acusação de heresia contribuiu para limitar o impacto dos decretos reformadores.

O êxito dos legados papais não foi muito maior. Na França o rei Felipe I tinha vários motivos para ser inimigo do papa, razão por que os legados não foram recebidos cordialmente. Com o apoio do rei o clero se negou a aceitar os decretos romanos. Enquanto o alto clero se opunha sobretudo aos editos referentes à simonia, muitos do baixo clero resistiam às novas leis com respeito ao matrimônio. Com efeito, havia um bom número de clérigos casados, pessoas relativamente dignas dos cargos que ocupavam, que não estavam dispostos a abandonar suas esposas e famílias  simplesmente porque o ideal monástico tomara conta do papado. Por isto estes clérigos se viram obrigados a se unirem aos simoníacos em sua oposição à reforma que os papas propugnavam. Gregório e seus companheiros, todos saídos da vida e dos ideais monásticos, estavam convictos que o monasticismo era o padrão que todos os clérigos deviam imitar, e nesta convicção, ao mesmo tempo que prejudicaram sua própria causa criando aliados para os simoníacos, causaram sofrimentos indizíveis entre o clero casado e suas famílias.

Na Alemanha, Henrique IV foi um pouco mais cordial com os legados papais. Mas isto não porque estivesse de acordo com sua missão, mas simplesmente porque esperava que o papa o coroasse imperador, e por isto não queria merecer sua inimizade. Com a concordância real os legados tentaram impor os decretos romanos. Quanto à simonia tiveram certo êxito, mas a oposição aos editos referentes ao matrimônio eclesiástico foi grande, e estes editos foram cumpridos somente em parte.

Na Inglaterra e na Normandia, Gregório gozava de certa autoridade, pois anos antes, quando ainda era conselheiro de Alexandre II, ele tinha prestado seu apoio a Guilherme da Normandia, “o Conquistador”, que depois da batalha de Hastings se transformara em dono da Inglaterra. Agora os legados papais aproveitaram esta dívida de gratidão para fazer valer os mandatos reformadores. Posto que tanto Guilherme como sua esposa Matilde apoiavam a reforma, os legados foram bem recebidos, e a simonia foi condenada. Guilherme, todavia, insistiu no direito de nomear os bispos em seus territórios. E entre o baixo clero a oposição ao celibato eclesiástico foi grande.

Todos estes acontecimentos convenceram Gregório que era necessário continuar o processo de centralização eclesiástica que seus predecessores tinham começado. Até então os bispos metropolitanos tinham tido certa independência, e a autoridade papal tinha sido mais nominal que real. Tendo em vista a oposição geral aos decretos de reforma, Hildebrando chegou à conclusão que era necessário aumentar a autoridade papal, a fim de que suas ordens fossem obedecidas. Em consequência, sob seu pontificado as pretensões da sede romana chegaram a um nível sem precedentes. Se bem que Gregório nunca chegou a promulgar todas as suas opiniões com respeito ao papado, estas estão registradas em um documento de 1075. Nele Gregório afirma não só que a igreja romana foi fundada pelo Senhor, e que seu bispo é o único que pode receber o título de “universal”, mas também que o papa tem autoridade para julgar e depor os bispos; que o Império lhe pertence, de tal modo que é ele quem tem o direito de outorgar as insígnias imperiais, assim como de depor o imperador; que a igreja de Roma nunca errou nem pode errar; que o papa pode declarar nulos os juramentos de fidelidade feitos por vassalos a seus senhores; e que qualquer papa legítimo, somente pelo fato de ocupar a cátedra de São Pedro, e em virtude dos méritos deste apóstolo, é santo.

Tudo isto, entretanto, nada mais era que teoria enquanto os reis, imperadores e demais senhores leigos tivessem autoridade para nomear os bispos e abades. Se os dirigentes eclesiásticos recebessem seus cargos dos leigos, seria a eles que deveriam fidelidade e obediência, e não ao papa. Isto parece ter ficado provado pela maneira como os legados papais foram recebidos em sua missão de reformar a igreja nos diversos reinos. Por esta razão Gregório, em 1075, e depois em 1078 e 1080, proibiu a todos os clérigos e monges receber bispados, igrejas ou abadias de mãos leigas, sob pena de excomunhão. Em 1080 foi acrescentado também que seriam excomungados os senhores leigos que investissem alguém nestes cargos.

Com estes decretos ficava montada a cena para os grandes conflitos entre o pontificado e o Império.

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