O conflito entre o pontificado e o Império

In:

  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos grandes ideais – Vol. 4: São Paulo: Vida Nova, 1981 (1ª edição), páginas 031 a 046.

“Proibimos a todos os clérigos receber das mãos do imperador, do rei ou de qualquer leigo, seja varão ou mulher, a investidura de um bispado, de uma abadia ou de uma igreja” (Gregório VII).

Os decretos de Gregório VII quanto à investidura leiga eram consequência natural dos seus intentos reformadores e da sua concepção de papado. Mas havia fortes razões para os reis e imperadores verem nestes decretos uma séria ameaça ao seu poder.

À parte de qualquer conflito com o papado, os soberanos da época viam também seus direitos de investidura religiosa como um dos mais valiosos instrumentos contra o excessivo poder dos nobres. A nobreza hereditária tinha a tendência de afirmar sua independência frente aos reis. As terras que estavam em mãos destes nobres não estavam à disposição do rei, para que ele as outorgasse aos que lhe fossem fiéis. As terras e demais riquezas eclesiásticas, por sua vez, precisamente por não serem hereditárias, frequentemente estavam à disposição do soberano, que então podia ter certeza que, oposta aos grandes senhores leigos, frequentemente rebeldes, se erguia uma igreja rica, poderosa, e fiel ao rei. Além disto, se o poder da investidura caísse nas mãos do papado, os reis tinham medo que isto poderia ser usado contra eles, por motivos puramente políticos.

Tudo isto estava em jogo quando Gregório proibiu as investiduras leigas. Mesmo se o papa, ao que parece, deu este passo simplesmente para garantir que todo o clero tivesse um espírito reformador, o fato é que este passo poderia ter enormes consequências políticas.

Isto criou conflitos entre o poder leigo e o eclesiástico, em todos os níveis. Na Inglaterra e na Normandia, Gregório não mandou aplicar seus decretos porque estava certo de que Guilherme e Matilde nomeariam bispos reformadores. O principal conflito foi com o imperador.

Gregório VII e Henrique IV

Apesar dos seus decretos contra a investidura leiga o papa não parecia estar disposto a aplicá-los universalmente. Enquanto os diversos senhores leigos nomeassem pessoas dignas, e sua investidura ocorresse sem nenhuma suspeita de simonia, Gregório não insistiria em seus decretos. O caso de Henrique IV da Alemanha, entretanto, era mais difícil, pois várias nomeações feitas por ele, sem prestar atenção nenhuma aos editos papais, eram questionáveis. Apesar disto o papa se limitou em comunicar-lhe seu descontentamento.

A faísca que provocou o incêndio foi a questão do episcopado de Milão. A sede desta cidade estivera em disputa por algum tempo, dificuldade que parecia por fim estar resolvida quando ocorreram tumultos na cidade. O bispo que conseguira ser reconhecido como legítimo estava tentando impor o celibato eclesiástico. Talvez com sua permissão os patares se lançaram novamente às ruas, insultaram os clérigos casados e suas esposas, e destruíram suas propriedades. Alguns destes fugiram para a Alemanha, onde pediram socorro a Henrique. Este, sem consultar o papa, declarou deposto o bispo de Milão, e nomeou outro em seu lugar.

A resposta de Gregório não se fez esperar. Apelando à autoridade que dizia ter para julgar reis e imperadores, ele ordenou a Henrique que se apresentasse em Roma, onde seus graves delitos seriam julgados. Se não viesse até o dia 22 de fevereiro (de 1076) ele seria deposto, e sua alma condenada ao inferno.

Ao receber a missiva do papa o imperador aparentemente estava no ápice do seu poder. Pouco antes ele tinha sufocado uma sublevação dos seus súditos saxões. Sua popularidade na Alemanha era grande; os líderes da igreja em seus domínios pareciam dispostos a apoiá-lo.

A situação de Gregório era parecida. Pouco antes, no dia de véspera de Natal de 1075, um tal Cêncio, comandando um grupo de soldados, tinha irrompido na igreja em que o papa celebrava a missa e este, ferido e maltratado, fora feito prisioneiro. Quando o povo soube disto lançou-se às ruas, sitiou, tomou e arrasou a torre em que Hildebrando estava cativo, e só deixou escapar Cêncio porque o pontífice lhe perdoou a vida, sob a condição de que peregrinasse até Jerusalém.

Por isto ambos contendentes, enquanto tinham recebido provas recentes do apoio com que contavam, também tinham sido sinais da oposição que existia contra eles, mesmo entre seus próprios súditos.

O imperador não podia ir a Roma para ser julgado como um criminoso qualquer. Logo, sua saída era convencer os demais que o papa que o declarasse deposto e excomungado não era legítimo, e que por isto suas sentenças careciam de valor. Com este propósito ele reuniu um sínodo em Worms no dia 24 de janeiro. Ali o cardeal Hugo, “o Branco”, que em outros tempos tinha exaltado a Hildebrando, declarou que se tratava de um tirano cruel e adúltero, além disto, dado à magia. Em seguida, sem pedir mais provas, os bispos se submeteram à vontade imperial, e declararam Gregório deposto. Somente dois prelados se atreveram a protestar, mas também assinaram o documento quando lhes foi dito que deixar de fazê-lo seria considerado traição contra o imperador. Então, em nome do concílio, Henrique comunicou estas decisões “a Hildebrando, já não papa, mas monge falso”.

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Um mês depois, no dia 21 de fevereiro, Hildebrando presidia o concílio ao qual tinha chamado Henrique, quando o sacerdote Rolando de Parma irrompeu no recinto, gritando em nome do imperador que Hildebrando já não era papa, e que o soberano ordenava a todos ali reunidos que fossem à sua presença no dia de pentecostes, quando um novo pontífice seria nomeado.

A esperança de Henrique era que alguns dos membros daquele concílio se atemorizassem, tirando assim um pouco do apoio de Hildebrando. Mas sucedeu o contrário. Alguns dos presentes se puseram a castigar fisicamente o mensageiro, e somente a intervenção do papa conseguiu evitar isto. Depois de restabelecer a ordem, Gregório dirigiu-se à assembleia dizendo que estavam presenciando os grandes males que, de acordo com as Escrituras, haveriam de vir nos dias do Anticristo. O concílio, então, entrou em recesso até o dia seguinte, dando tempo ao papa de redigir contra o imperador “uma sentença esmagadora, que sirva de lição às gerações vindouras”. No outro dia de manhã, 22 de fevereiro, o papa condenou e declarou depostos e excomungados os bispos alemães que tinham participado da tramoia de Henrique. Quanto a este último, o papa declarou:

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, pelo poder e a autoridade de São Pedro, e em defesa e honra da igreja, ponho em interdito o rei Henrique, filho do imperador Henrique, que com orgulho sem igual se levantou contra a igreja, proibindo-lhe que governe em todos os reinos da Alemanha e da Itália. Além disto liberto dos seus juramentos os que tenham jurado ou puderam jurar fidelidade a ele. E proíbo que ele seja obedecido como rei.

Quando recebeu a sentença papal Henrique resolveu responder da mesma maneira, e reuniu um grupo de bispos que declarou Gregório excomungado. Em diversos lugares os seguidores mais fiéis do imperador seguiram seu exemplo, e o cisma parecia inevitável.

Mas o poder de Henrique não era tão firme como parecia. Muitos dos seus seguidores sabiam que as acusações que eram feitas contra Gregório eram falsas, e temiam pela salvação das suas almas. Logo houve bispos que escreveram ao papa, pedindo perdão por terem colaborado com o imperador. Guilherme de Utrecht, um dos principais acusadores de Hildebrando, morreu de repente, e o pânico se alastrou pelas fileiras imperiais. Os saxões ameaçavam se rebelar de novo. Vários nobres poderosos, seja por motivos de consciência ou políticos, começaram a negar sua obediência ao imperador. Em sua própria corte correu o rumor que os que se contaminassem com o contato com ele fariam perigar suas almas. O papa convocou uma dieta do Império, que deveria se reunir em fevereiro do próximo ano, para julgar o rei, depô-lo e eleger seu sucessor.

Nestas circunstâncias não restava outro recurso a Henrique senão apelar à misericórdia do papa. Para isto ele tinha de se entrevistar com Gregório, pedir sua absolvição, antes que a dieta se reunisse em Augsburgo. Então ele ajuntou ao seu redor os poucos fiéis servidores que lhe restavam, e empreendeu a viagem até a Itália. Seus inimigos lhe fecharam o caminho mais rápido, e ele teve de dar uma volta pela Burgúndia. Quando afinal chegou até os Alpes, a neve era tanta que era quase impossível atravessar a cordilheira. Por fim, com a ajuda dos naturais do lugar, e depois de mil peripécias, ele conseguiu atravessar os Alpes e entrar na Itália. Ali o esperava uma surpresa. Os nobres e muitos clérigos do norte da Itália tinham grande ódio por Hildebrando e seu excessivo rigor, e por isto foram muitos os que, ao saberem que Henrique IV estava no país, acorreram para ele. Logo o imperador estava à testa de um exército imponente, composto de pessoas que criam que ele tinha vindo para a Itália depor o papa.

Gregório, por seu lado, não sabia quais eram as verdadeiras intenções de Henrique. Temendo um ataque militar, decidiu deter sua marcha até a Alemanha, onde quisera presidir a dieta do Império, e fixou residência em Canossa, cujas fortificações o protegeriam se o imperador viesse com intenções hostis.

Mas Henrique não estava disposto a arriscar o trono da Alemanha, continuando sua política de oposição ao papa. Seu propósito era submeter-se ao pontífice. E isto não diante da dieta do Império, na presença dos seus súditos, mas na relativa intimidade da corte papal. Repetidamente ele pediu ao papa que o recebesse; porém este rejeitou todas as petições. Várias das pessoas mais achegadas a Gregório intercederam em favor do soberano excomungado. Por fim este lhe permitiu entrar em Canossa. Mas as portas do castelo permaneceram fechadas, e Henrique se viu obrigado a pedir admissão durante três dias, vestido de penitente, exposto às intempéries, em meio à neve profunda que quase o encobria de todo.

Ao que parece Gregório temia que o arrependimento do seu inimigo não fosse sincero, razão pela qual preferira prosseguir seus planos de depô-lo e nomear seu sucessor. Mas como podia alguém que dizia ser o principal dos seguidores de Cristo negar o perdão a quem de tal maneira o pedia? Mais tarde as portas se abriram, e o imperador, descalço e vestido de penitente, foi conduzido até o papa, que exigiu dele uma longa lista de condições, e completou sua humilhação negando-se a aceitar seu juramento sem garantia de outros nobres e prelados que se comprometessem a obrigar o rei a cumprir o que prometera.

Ao sair de Canossa Henrique era um homem derrotado. Os italianos que tinham se unido à sua causa, ao ver que ele tinha se humilhado diante de Gregório, deram amplas mostras de seu desprezo. Acompanhado de um pequeno séquito o rei se refugiou na cidade de Reggio. Ali se juntaram a eles os muitos prelados que, depois de se humilharem diante de Gregório, tinham obtido a absolvição.

Mas Henrique tinha conseguido uma grande vantagem. A sentença de excomunhão tinha sido revogada. Enquanto ele não desse motivos ao papa, este não poderia excomungá-lo novamente, nem insistir em sua deposição. Enquanto isto, os príncipes e os bispos que na Alemanha tinham se sublevado contra sua autoridade se viam obrigados a seguir o rumo que tinham traçado para si, e elegeram um novo imperador. Só que depois da entrevista em Canossa eles tinham perdido o principal argumento que justificava sua rebelião. Henrique já não estava mais excomungado, já não era mais pecado lhe obedecer. Apesar da sua humilhação e quebrantamento, ele ainda era o soberano legítimo do país.

Gregório deixou que os acontecimentos corressem seu curso. Os rebeldes se reuniram e elegeram seu próprio imperador, de nome Rodolfo. Os legados papais, presentes na eleição, trataram de lavar suas mãos. Mas de algum modo sua presença dava a entender que o papa aprovava o que estava sendo feito.

A postura papal ambígua levou à guerra civil. Henrique regressou à Alemanha, onde logo reuniu um grande exército. Numerosas cidades se negaram a abrir suas portas a Rodolfo. As tropas do imperador legítimo ganhavam uma batalha após outra.

A prudência deveria ter ditado outros conselhos a Gregório. Mas ele estava tão convicto da justiça da sua causa, e do poder da excomunhão, que decidiu intervir mais uma vez e excomungou Henrique, e até se atreveu a profetizar que em breve o imperador seria deposto ou morto. Só que desta vez os resultados não foram os mesmos. A sentença de excomunhão foi recebida com desprezo pelos seguidores do imperador. A guerra continuou, enquanto os prelados da Alemanha, e depois os da Lombardia, se reuniam para declarar deposto Gregório e eleger seu sucessor, que tomou o nome de Clemente III. No campo de batalha as tropas de Henrique sofreram um revés sério perto do rio Elster. Mas na mesma batalha o pretendente Rodolfo perdeu a vida. O partido rebelde ficou sem líder, e a profecia papal foi desmentida, pois quem morreu não foi Henrique, mas seu rival. A guerra civil ainda continuou por algum tempo, mas já não havia dúvidas sobre quem seria o vencedor.

Assim que a neve se derreteu nos passos dos Alpes, na primavera de 1081, Henrique marchou contra Roma. Hildebrando estava praticamente sozinho, pois os normandos, que tinham sido os melhores aliados dos seus antecessores contra as pretensões do Império, também tinham sido excomungados por ele. Os defensores do papa que tentaram cortar a marcha do imperador foram derrotados. Com toda pressa Gregório fez as pazes com os normandos. Mas estes, em vez de defender Roma, atacaram as possessões italianas do Império Bizantino. Somente a cidade de Roma restava ao papa que pouco antes linha visto o imperador se humilhar diante dele.

Os romanos defenderam sua cidade e seu papa com valor incrível. Três vezes Henrique sitiou a cidade, e outras tantas se viu obrigado a levantar o sítio sem a ter tomado. Os romanos rogavam ao papa que fizesse as pazes com o imperador, evitando-lhes assim tantos sofrimentos. Mas Gregório permaneceu inflexível, e insistia na excomunhão de Henrique. Por fim a resistência, a paciência e a fidelidade dos romanos se esgotaram, e eles abriram as portas da cidade às tropas imperiais, enquanto Gregório se refugiava no castelo de Santo Ângelo.

De Santo Ângelo ele viu como Henrique entrava em triunfo na cidade papal, e como se reuniam os prelados que vinham para confirmar a eleição do antipapa Clemente III. Este, por sua vez, coroou o imperador. Enquanto isto, sem ceder em suas convicções, o velho Hildebrando praticamente era um prisioneiro dentro cios muros de Santo Ângelo.

Todos esperavam que o imperador tomaria aquele último reduto da autoridade de Gregório VII quando chegou a notícia de que um forte exército normando marchava contra a cidade. Vendo que os normandos eram em maior número que os seus soldados, Henrique abandonou Roma, depois de destruir vários trechos das muralhas.

Os normandos entraram triunfantes na cidade papal, e imediatamente se puseram a cometer todo tipo de desmandos. Em poucos dias os cidadãos não suportavam mais sua crueldade, e se rebelaram. Entrincheirados em suas casas, e conhecendo bem o lugar, os romanos pareciam estar levando vantagem quando os normandos decidiram incendiar a cidade. As pessoas que saíam correndo para as ruas eram mortas sem misericórdia pelos invasores, dispostos a vingar as baixas que tinham sofrido. Quando a sublevação por fim terminou, os normandos aprisionaram milhares de romanos, e os venderam como escravos. Dizem que o estrago causado por estes supostos aliados da igreja foi muito maior que o que os godos e vândalos fizeram no século V.

Em meio a tudo isto Gregório permaneceu mudo. Os normandos eram seus aliados, e fora ele quem os fizera vir à cidade. Mas ele sabia também que já não podia contar com o apoio dos romanos, aos quais sua obstinação trouxera grandes prejuízos. Por isto ele se retirou para Montecassino, e mais tarde para a fortaleza normanda de Salerno. Dali ele continuou trovejando contra Henrique e o antipapa Clemente III, que finalmente conseguira fixar residência em Roma. Pouco antes de morrer ele perdoou a todos os seus inimigos, exceto a estes dois, que condenou ao tormento eterno. Conta-se que na hora da sua morte ele disse: “Amei a justiça e odiei a iniquidade. Por isto estou morrendo no exílio”.

Assim este paladino incansável dos altos ideais terminou seus dias. Graças a ele a reforma preconizada pelos papas tinha avançado notavelmente em diversas regiões da Europa. A simonia fora reduzida; e nos lugares onde era ainda praticada ela era considerada um vício indesculpável. O celibato eclesiástico agora era o ideal não só dos monges e dos papas reformadores, mas também de boa parte do povo. O papado tinha visto uma das suas horas mais brilhantes quando Henrique IV se humilhou diante de Hildebrando, em Canossa. Mas tudo isto custou um preço enorme. Centenas de famílias de clérigos foram desfeitas. As mulheres honestas que tinham vivido em matrimônio Iícito com homens ordenados foram tratadas como concubinas ou como prostitutas, e arrancadas dos seus lares. A Alemanha e a !tália se viram afundadas em cruentas guerras civis. Roma foi destruída, e muitos dos seus habitantes vendidos como escravos. Gregório amou sinceramente a justiça e odiou a iniquidade. Mas a “justiça” que amou foi tão eclesiocêntrica, sua política tão dedicada à exaltação do papado, seus ideais reformadores tão rigidamente tomados da vida monástica, que muitos dos seus resultados foram iníquos. Seu exílio foi uma desventura a mais entre as muitas que sua reforma trouxe.

Urbano II e Henrique IV

Pouco antes de morrer Hildebrando tinha declarado que seu sucessor deveria ser Desidério, o abade de Montecassino. Este era um homem de idade avançada, sem outra ambição que continuar para o restante dos seus dias na vida de devoção que levava em seu mosteiro. Ele foi feito papa à força, com o nome de Vítor III. Quatro dias depois da sua eleição ele fugiu de Roma e retornou para Montecassino. As súplicas dos partidários da reforma o tiraram novamente dali. Mas durante um ano Clemente III, que o imperador reconhecia como o papa legítimo, ocupou a cidade de Roma sem nenhuma oposição. Quando Vítor regressou à sua sede ele o fez apoiado pela força militar dos seus aliados, que tomaram parte da cidade. Mas pouco depois ele adoeceu, e, sentindo a morte se aproximar, regressou a Montecassino, onde morreu depois de um pontificado brevíssimo.

Seu sucessor foi Ode de Chatillon, bispo de Ostia, que tomou o nome de Urbano II. Assim como Hildebrando, Urbano era um homem de convicções monásticas profundas, formado à sombra de Bruno, o fundador dos cartuxos. Pouco depois da sua eleição o vaivém da política fez com que ele tornasse dono de toda Roma, de onde o antipapa foi expulso. Urbano é conhecido principalmente porque deu impulso à primeira cruzada (veja o capítulo IV). Mas, além disto, ele continuou a política reformadora de Hildebrando, e sua luta contra o imperador. Em seu zelo reformador ele rompeu com o rei Felipe I da França, que excomungou por ter abandonado sua esposa e tomado outra. Na Inglaterra, graças à intervenção de Anselmo de Canterbury (de quem falaremos mais adiante), ele conseguiu que o rei se declarasse a seu favor, contra o papa do imperador. Na Espanha ele apoiou a reconquista, que estava em uma das suas épocas mais gloriosas.

O acontecimento mais notável do pontificado de Urbano, entretanto, no que se refere ao seu relacionamento com o imperador, foi a rebelião de Conrado, o filho de Henrique IV, que se declarou rei da Itália, e foi proclamado como tal pelo partido papal, em troca de que renunciaria a qualquer direito de investidura eclesiástica. Pouco depois, em um concílio reunido em Piacenza, a imperatriz Adelaide, esposa do imperador, o acusou de crimes graves contra sua pessoa. Henrique foi excomungado mais uma vez, apesar de a sentença de excomunhão anterior não ter sido revogada.

Pascoal II e os dois Henriques

Quando Urbano II morreu Henrique IV estava começando a se recuperar do golpe que foi a traição de Conrado. No princípio ele se deixara abater pela notícia terrível de que seu filho predileto tinha se rebelado contra ele. Porém mais tarde ele invadiu a Itália, e conseguiu recobrar parte do seu poder nesta região.

O sucessor de Urbano II foi Pascoal II, que teve esperanças de ver o cisma terminado quando o antipapa Clemente morreu. Mas o imperador fez eleger em rápida sequência outros três, e o cisma continuou.

Voltando para a Alemanha, Henrique desfrutou um novo despertar da sua antiga popularidade. A rebelião de Conrado despertou a simpatia dos seus súditos, e o velho rei gozou vários anos de renovado vigor. Durante este período ele obteve da dieta do Império que Conrado fosse deserdado, e que Henrique, o segundo filho do imperador, fosse declarado herdeiro da coroa. Além disto ele proclamou a “paz do Império”, que consistia em uma proibição de guerrear durante quatro anos. Com suas novas forças Henrique conseguiu impor esta paz aos seus nobres, e o comércio prosperou. Isto conquistou para ele a afeição do povo, que gozou dos benefícios da paz; e o ódio dos nobres, que perderam os da guerra. Ninguém, todavia, se preocupava com sua excomunhão, apesar de Pascoal a ter repetido.

O golpe fatal e inesperado veio em fins de 1104, quando Henrique, seu segundo filho, seguiu o exemplo do seu irmão Conrado e se rebelou, dizendo que lhe era impossível obedecer a um soberano excomungado. Pai e filho se declararam guerra, e ao redor de cada um deles se reuniu um exército. O filho dizia que assim que seu pai se submetesse à autoridade papal e a excomunhão fosse revogada sua rebelião terminaria. Várias vezes os dois contendentes se entrevistaram, e por fim o rebelde, através de uma artimanha, se apossou da pessoa de seu pai, e o fez prisioneiro. A dieta do Império se reuniu, elegeu Henrique V rei, e enviou uma embaixada a Roma para conversar com o papa sobre o fim das hostilidades. Mas Henrique IV escapou, e logo contou com numerosos seguidores. Os dois exércitos se preparavam para a batalha quando o velho imperador morreu, depois de quase meio século de turbulento reinado.

A morte de Henrique IV, porém, não pôs fim à contenda entre o papado e o Império. A questão das investiduras não era tão fácil de resolver, pois nela entravam em conflito os Interesses dos imperadores com os ideais dos reformadores. O jovem Henrique não tardou em nomear bispos com a mesma liberdade com que seu pai o tinha feito. Pascoal reuniu um sínodo em que, por um lado, lamentava os conflitos do reinado passado, e aceitava como válidas as nomeações que tinham sido feitas até então com investidura leiga, sempre e quando não houvesse mancha de simonia; mas por outro lado o mesmo sínodo declarou que a partir daquele momento investiduras leigas não seriam aceitas, e que quem desobedecesse este decreto seria excomungado.

Por diversas circunstâncias Henrique demorou três anos até poder enfrentar o desafio que o papa lhe lançava. Mas no fim deste prazo ele invadiu a Itália, e o papa se viu forçado u chegar a um acordo com o imperador, pois nenhum dos seus aliados militares acudiu em sua ajuda. Neste caso, o que Henrique propunha era simplesmente que, se o papa e a igreja estivessem dispostos a renunciar a todos os privilégios feudais que os prelados tinham, o imperador abandonaria toda pretensão ao direito de investidura, que ficaria exclusivamente em mãos eclesiásticas. Pressionado pela situação difícil, Pascoal concordou, com a única salvaguarda que o “patrimônio de São Pedro” ficaria nas mãos da igreja romana. Além disto, o papa coroaria Henrique imperador.

Como era de se esperar este acordo provocou uma reação violenta entre os prelados, que se viam despojados de todo seu poder temporal. Não faltou quem lançasse no rosto do papa a liberalidade com que tinha disposto dos privilégios dos outros, enquanto conservava os seus. Entre os nobres da Alemanha este acordo também causou receios, pois os grandes magnatas temiam que o imperador, depois de aumentar enormemente seu poder com as possessões eclesiásticas, se apossasse das suas. Para cúmulo dos males o povo de Roma, ao ver que o papa estava sofrendo violência, se sublevou, e Henrique abandonou a cidade levando Pascoal e vários cardeais e bispos prisioneiros. O pontífice, então, tentou resistir ao imperador, mas poucos meses depois se rendeu, e declarou que, para salvar a igreja de mais humilhações, ele estava disposto a fazer o que não faria para salvar sua própria vida. Henrique, então, levou o papa de volta para Roma, onde ele foi coroado na igreja de São Pedro, a portas fechadas, por medo do povo romano.

Mas assim que o imperador regressou à Alemanha ele começou a enfrentar novas dificuldades. Muitos dos nobres e do alto clero, sem outra alternativa, se rebelaram. Enquanto o papa permanecia calado, muitos prelados excomungaram o imperador. A eles se somaram mais tarde alguns sínodos regionais. Com certa vacilação Pascoal parecia apoiar a excomunhão de Henrique. Quando este protestou que o acordo feito estava sendo violado, o papa contestou, sugerindo que fosse convocado um concílio universal que dirimisse a questão. Isto era algo que o imperador não poderia permitir, pois ele sabia que quase todos os bispos estavam contra sua causa.

Então Henrique apelou novamente à força. Assim que a situação na Alemanha lho permitiu ele marchou contra Roma, e Pascoal se viu obrigado a abandonar a cidade e se refugiar no castelo de Santo Ângelo, onde morreu.

O acordo de Worms

Logo depois da morte de Pascoal os cardeais se apressaram para eleger seu sucessor, para evitar a intervenção do imperador. a novo papa, Gelásio II, teve um pontificado breve e cheio de incidentes. Um magnata romano, pertencente ao partido imperial, o aprisionou e torturou. Quando o povo se rebelou ele lhe devolveu a liberdade. Pouco depois o imperador voltou para Roma, e Gelásio teve de fugir para Gaeta, em meio a circunstâncias novelescas. Quando ele regressava o mesmo magnata tentou novamente se apossar da sua pessoa, e o papa teve de fugir da igreja e se esconder em um campo, onde foi encontrado, seminu e quase sem forças, por um grupo de mulheres. Então ele decidiu se refugiar na França, onde morreu pouco depois na abadia de Cluny.

A decisão de Gelásio de se refugiar na França era sinal de que o papado se via empurrado para uma política diferente. O Império parecia ser seu inimigo mortal, e a aliança com os normandos não tinha dado resultados esperados; portanto, os papas começaram a encarar a França como um aliado capaz de sustentar sua posição diante das pretensões dos imperadores alemães.

O próximo papa, Calixto II, era de origem francesa, descendente dos antigos reis da Burgúndia, e parente do imperador. Este estava cansado da contenda interminável, principalmente porque ainda não podia confiar no apoio dos nobres. Quando vários dos seus prelados mais importantes se declararam favoráveis a Calixto e contra o antipapa Gregório VIII, que Henrique fizera nomear, o soberano decidiu que tinha chegado a hora de fazer as pazes definitivamente com o papado reformador.

As negociações se estenderam por muito tempo, e não faltavam novas campanhas militares, receios e ameaças. Mas no fim as duas partes chegaram ao acordo de Worms. Nele ficava determinado que os prelados seriam nomeados através de uma eleição livre, de acordo com os costumes antigos, se bem que na presença do imperador ou de seus representantes. A investidura, com a entrega do anel e do cajado pastoral, ficaria entregue às autoridades eclesiásticas, mas seria o poder civil que concederia aos bispos e abades, com o cetro, todos seus direitos, privilégios e possessões feudais. O imperador se comprometia também a devolver à igreja todas as propriedades eclesiásticas que estavam em seu poder, e fazer todo o possível para que os diversos senhores feudais fizessem o mesmo.

Assim terminava este longo período de lutas entre o pontificado e o Império. Em várias ocasiões posteriores, e por diversas razões, o poder civil voltaria a se chocar com o eclesiástico. Mas no caso de que estamos tratando o que havia era um conflito entre o papado reformador e um poder civil que tinha se acostumado a tratar com uma igreja anterior à reforma.

Mais tarde a reforma que aqueles papas impulsionaram chegou a se impor. A lei (e muitas vezes a prática) do celibato eclesiástico passou a ser universal em toda a igreja ocidental. Por algum tempo a simonia foi quase totalmente erradicada. O poder do papado aumentava cada vez mais, até chegar ao seu ápice no século XIII.

No entanto, a querela das investiduras mostra que aqueles papas reformadores, ao mesmo tempo que levavam tão a sério o ideal monástico do celibato, e faziam o que era possível para transformá-lo em regra universal para o clero, não faziam o mesmo com o outro ideal monástico, a pobreza. A questão das investiduras era importante para o poder civil porque a igreja ficara extremamente rica e poderosa, e este poder não podia permitir que estes recursos estivessem nas mãos de pessoas que lhe não fossem afeiçoadas. Henrique V pôs o dedo na ferida ao sugerir que a investidura estivesse em mãos eclesiásticas, sempre e quando os prelados assim investidos precisassem dos poderes e privilégios dos grandes senhores feudais. Para os papas reformadores as possessões da igreja pertenciam a Cristo e aos pobres, e por isto entregá-las ao poder civil era quase apostas ia. Mas o fato é que estas possessões eram utilizadas para lucro pessoal, e para promover a ambição dos prelados que na teoria não passavam de zeladores. A igreja, enquanto insistia em sua independência nos assuntos espirituais, não estava disposta a renunciar à ingerência nos assuntos temporais. E esta ingerência já não favorecia os pobres e oprimidos, como em tempos anteriores, mas era feita com motivação de ambição pessoal e de dinastia.

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