As ordens mendicantes

In:

  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos grandes ideais – Vol. 4: São Paulo: Vida Nova, 1981 (1ª edição), pág. 109 a 125.

“Os que injustamente nos causam tribulações, insultos, desonra, angústias, dores, tormentos, martírio e morte são nossos amigos, e devemos amá-los muito, porque graças a eles temos vida eterna.” (São Francisco de Assis)

No capítulo anterior dissemos que as novas correntes filosóficas provenientes do mundo muçulmano causaram grande impacto na teologia cristã ocidental. No próximo capítulo veremos algo deste impacto. Mas antes de continuar com este tema temos de nos deter para narrar as origens de um fenômeno sem o qual não é possível entender o curso que seguiram a igreja e a teologia ocidentais. Trata-se das ordens mendicantes.

Como já dissemos antes, no tempo em que as cruzadas chegavam ao seu fim estavam ocorrendo profundas mudanças na vida política e econômica da Europa ocidental. O crescimento das cidades e do comércio tinha originado uma nova classe, a burguesia, que estava florescendo cada vez mais. O comércio e o artesanato começaram a substituir a terra como fonte de riqueza. Isto, por sua vez, estimulou a economia monetária, de modo que o dinheiro circulava mais livremente, e a simples troca passava a ser menos comum.

Só que a economia monetária, ao mesmo tempo que tem a vantagem de permitir a especialização da produção e aumentar a riqueza coletiva, tem as desvantagens de fazer com que o comércio seja menos direto e humano, e de produzir diferenças crescentes entre ricos e pobres. Para cada comerciante rico cujo nome conhecemos havia centenas de pobres cuja condição ficava mais difícil com as mudanças que estavam ocorrendo na economia. Por isto não devemos estranhar que nos séculos XII e XIII a questão dos méritos da riqueza e da pobreza surja novamente.

O precursor: Pedro Valdo

O impacto da nova situação pode ser visto no caso de Pedro Valdo (ou Valdês) e do movimento que ele iniciou. Apesar de muitos documentos que se referem a ele serem relativamente recentes, e por isto duvidosos em questões de detalhes, o essencial da história confirma o que dissemos sobre a importância das novas condições econômicas para entendermos o auge a que chegou o ideal da pobreza no século XIII. De fato, Pedro Valdo aparece como precursor de São Francisco, com a grande diferença que em sua época a igreja ainda não estava pronta para aceitar os novos ideais, como estaria uma geração mais tarde, quando surgiu o santo de Assis.

Resultado de imagem para pedro valdoPedro Valdo aparentemente era um comerciante de relativo êxito em Lyon, quando ouviu falar da lenda de São Aleixo. De acordo com esta lenda o jovem Aleixo tinha abandonado seu povoado para se dedicar à vida ascética, e o fez com tal dedicação que alguns anos depois regressou sem ser reconhecido, e passou o resto dos seus dias pedindo esmolas diante da porta da sua própria casa. Somente quando ele morreu, e com ele foram encontrados documentos que o identificavam, foi que a família veio a saber de quem se tratava.

Comovido com a história, Valdo decidiu se dedicar à pobreza e à pregação. O arcebispo de Lyon não lho permitiu, e então ele apelou a Roma. Ali teve lugar um diálogo interessante, narrado por um dos protagonistas. Este era o teólogo Map nomeado pelo papa para examinar a ortodoxia de Valdo e dos seus seguidores: “Primeiro lhes propus algumas perguntas muito simples, que ninguém tem o direito de ignorar, sabendo que o asno que come um tipo de capim não come outro:

– Credes vós em Deus Pai?

– Cremos – responderam.

– E no Filho?

– Cremos.

– E no Espírito Santo?

– Cremos.

– E na mãe de Cristo?

– Cremos.

A esta altura todos gritaram zombando, e os valdenses se retiraram confusos, e com razão.”

A zombaria era porque Map tinha envolvido Valdo e seus seguidores em um subterfúgio, levando-os a declarar que Maria era “mãe de Cristo” e não “mãe de Deus”, como o terceiro concílio ecumênico o tinha promulgado. O que sucedia era simplesmente que Map e os seus estavam se vangloriando dos seus conhecimentos teológicos, e zombavam dos que, na falta destes conhecimentos, podiam cair em uma armadilha. Baseado nisto eles foram proibidos de pregar, a menos que seu bispo o permitisse. Como este já tinha dado mostras da sua antipatia por Valdo e seus seguidores, esta permissão era algo imprevisível.

Regressando a Lyon, Valdo e seus discípulos se negaram a aceitar a decisão do seu bispo, e continuaram pregando. Em 1184 um concílio reunido em Verona os condenou. Mas apesar disto os valdenses persistiram em sua pobreza e pregação. Durante algum tempo se espalharam por diversas cidades. Mas mais tarde a perseguição foi total que se viram obrigados a procurar refúgio nos vales mais retirados dos Alpes.

Ali se reuniram a eles pouco depois os restos do movimento dos “pobres lombardos”, muito semelhante ao dos valdenses, e também perseguido pela hierarquia eclesiástica. Por causa da sua história os que se refugiaram naqueles esconderijos não sentiam nenhum apreço por Roma e a hierarquia eclesiástica. Quando no século XVI houve a reforma protestante alguns pregadores reformados estabeleceram contato com os valdenses, que aceitaram sua doutrina e assim se tornaram protestantes.

São Francisco e a ordem dos irmãos menores

O movimento franciscano foi muito semelhante ao dos valdenses, quanto à origem. O próprio Francisco pertencia, como Valdo, a uma família de comerciantes. Seu pai, Pedro Bernardone, pertencia à nova classe que tinha surgido pouco antes, graças ao comércio. E, como Valdo, Francisco passou os primeiros anos da sua vida nos interesses e ocupações comuns dos jovens da sua classe social.

Resultado de imagem para Francisco de AssisFrancisco de Assis. Seu verdadeiro nome era João (Giovanni). Mas sua mãe era francesa, e os interesses comerciais do seu pai o levaram a estabelecer relações estreitas com a França. Giovanni tinha a alma de um trovador, e por isto aprendeu a língua do sul da França, cujos trovadores eram famosos. Mais tarde ele ficou conhecido em Assis pelo apelido de “Francisco”, ou seja, o pequeno francês. Por este apelido seus seguidores o conheceram, e depois o mundo todo.

Francisco tinha mais de vinte anos quando houve uma mudança total em sua vida. Pouco antes ele tinha regressado de uma expedição militar no sul da Itália. Então, depois de ter passado por várias enfermidades que quase lhe custaram a vida, ele apreciava retirar-se a uma gruta, onde passava longas horas meditando e lutando consigo mesmo. Certo dia seus antigos companheiros de jogo o viram extremamente feliz, como há muito tempo não o viam.

– Por que estás alegre? – perguntaram-lhe.

– Porque me casei.

– Com quem?

– Com a senhora Pobreza!

Acontecera que, depois de uma longa luta, o jovem Francisco tinha decidido seguir a caminho que antes tinham tomado Pedro Valdo e os muitos eremitas e ascetas que tinham renunciado às comodidades e honras do mundo. Quando seu pai lhe dava dinheiro ele imediatamente procurava algum pobre a quem pudesse presentear. Suas vestimentas não eram mais que alguns velhos trapos. Se sua família lhe dava roupas novas, estas seguiam o mesmo caminho que antes tinha tomado o dinheiro. Em lugar de se ocupar dos negócios têxteis do seu pai, Francisco passava o dia louvando as virtudes da pobreza para qualquer pessoa que quisesse ouvi-lo, ou reconstruindo uma capela abandonada, ou desfrutando da beleza e da harmonia da natureza.

Seu pai, exasperado, o prendeu em um sótão e apelou às autoridades. Estas levaram o caso ao bispo, que por fim decidiu que, se Francisco não estava disposto a usar melhor os bens da sua família, deveria renunciar a eles. Isto era precisamente o que nosso jovem queria. Renunciando à sua herança, ele disse:

– Escutem-me, todos. De agora em diante não quero me referir a mais ninguém que a “nosso Pai que está no céu”.

Em seguida, para mostrar como sua decisão era absoluta, tirou as roupas que usava, devolveu-as a seu pai, e partiu nu.

Depois de deixar sua família Francisco foi para o bosque próximo. Ali ele foi assaltado por um bando de ladrões, que, ao vê-lo somente vestido com. uma túnica que um ajudante do bispo lhe tinha dado para se cobrir, lhe perguntaram quem ele era.

– Sou o arauto do Grande Rei – ele afirmou. E eles, rindo e zombando, bateram nele e o deixaram estirado na neve.

Por algum tempo Francisco se dedicou a levar a vida típica de um eremita. Sua única companhia eram os leprosos a quem servia, e as criaturas do bosque, com quem, dizem, ele gostava de falar. Também se dedicou à reconstrução da velha igreja chamada de “a Porciúncula”.

Em fins de fevereiro de 1209 a leitura do Evangelho daquele dia sacudiu todo seu ser:

À medida que seguirdes, pregai que está próximo o reino dos céus. Curai enfermos, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expeli demônios; de graça recebestes, de graça dai. Não vos provereis de ouro, nem de prata, nem de cobre nos vossos cintos; nem de alforje para o caminho, nem de duas túnicas, nem de sandálias, nem de bordão; porque digno é o trabalhador do seu alimento (Mateus 10:7-10).

Aquelas palavras lhe deram um novo sentido de missão. Até então a preocupação principal do monasticismo tinha sido a própria salvação, e os monges fugiam de qualquer contato com pessoas que pudessem afastá-los da contemplação religiosa. O movimento que Francisco fundou foi exatamente o contrário. Ele e seus seguidores iam precisamente em busca das ovelhas perdidas. Sua ação não estava restrita a mosteiros afastados do movimento do mundo, mas se espalhava pelas cidades cuja população aumentava rapidamente, entre os enfermos, os pobres e os desprezados. Para ele era necessário ser pobre. E sê-lo com toda a alegria da confiança de que Deus cuida de nós.

A primeira coisa que Francisco fez foi abandonar seu lugar retirado e regressar a Assis, onde começou a pregar. Não faltaram zombaria e insultos. Mas pouco a pouco ele foi reunindo ao seu redor um pequeno núcleo de seguidores cativados por sua fé, seu entusiasmo, sua alegria e sua simplicidade. Por fim, acompanhado de uma dezena de seguidores, decidiu ir a Roma para solicitar que o papa, na época Inocêncio III, o autorizasse a fundar uma nova ordem.

O encontro entre Francisco e Inocêncio deve ter sido dramático. Inocêncio era o papa mais poderoso que a história tinha conhecido. Como veremos mais adiante, à sua disposição estavam as coroas dos reis e os destinos das nações. Diante dele o pobrezinho de Assis, que pouco se importava com as intrigas da época, e cuja única razão para querer conhecer o imperador era para lhe pedir que promulgasse uma lei proibindo a caça de “minhas irmãs, as avezinhas”. Um altivo; o outro esfarrapado. O papa confiante em seu poder; o santo, no poder do seu Senhor. Conta-se que o pontífice recebeu o pobrezinho com impaciência.

– Vestido como estás, mais pareces porco que ser humano – lhe disse. – Vai viver com teus irmãos. Francisco se inclinou e saiu em busca de uma pocilga. Ali passou algum tempo entre os porcos, revirando-se no lodo. Depois regressou para onde estava o papa, e com toda humildade se inclinou novamente e lhe disse:

– Senhor, fiz o que me mandaste. Agora te rogo que faças o que te peço.

Se se tratasse de outro papa, a entrevista teria terminado ali mesmo. Mas parte do gênio de Inocêncio consistia exatamente em saber medir o valor das pessoas, e unir os elementos mais opostos sob sua direção. Naquele momento o franciscano nascente esteve na balança, como uma geração antes estivera o movimento dos valdenses. Mas Inocêncio foi mais sábio que seu antecessor, e a partir de então a igreja contou com um dos seus mais poderosos instrumentos.

De regresso para Assis com a sanção do papa Francisco continuou sua pregação. Mas o movimento não ficaria nisto. Não tardou para muitas pessoas pedirem ingresso na ordem. Por todas as partes da Itália c da França, e depois em toda a Europa, os “irmãos menores” – assim se chamavam os frades de Francisco – se deram a conhecer. Através da sua irmã espiritual Santa Clara, Francisco fundou uma ordem de mulheres, geralmente conhecida como “as clarissas”. Aqueles primeiros franciscanos estavam imbuídos do espírito do seu fundador. Iam por todas as regiões cantando, recebendo repreensões, alegres, pregando e mostrando sua simplicidade de vida admirável.

Francisco temia que o êxito do seu movimento fosse a sua ruína. Os franciscanos eram respeitados, e existia sempre a tendência de colocá-los em posições que enfraquecessem sua humildade. Por isto o fundador fez todo o possível para inculcar em seus seguidores o espírito de pobreza e de santidade. Conta-se que quando um noviço lhe perguntou se não era lícito possuir um saltério, o santo lhe respondeu:

– Quando tiveres um saltério, quererás também ter um breviário. E quando tiveres um breviário te ostentarás no púlpito como um prelado.

Em outra ocasião um dos irmãos regressou cheio de alegria, e mostrou a Francisco uma moeda de ouro que alguém lhe tinha dado. O santo o obrigou a tomar a moeda entre os dentes, e a enterrá-la em um monte de esterco, dizendo-lhe que este era o lugar que cabia ao ouro.

Preocupado com as tentações que o êxito trazia para sua ordem, Francisco fez um testamento em que proibia a seus seguidores possuir coisa alguma, e também lhes proibia qualquer alívio da Regra, ainda que fosse do papa.

No capítulo geral da ordem de 1220 ele deu uma prova final de humildade, renunciando à direção da ordem, e submetendo-se em obediência ao seu sucessor. Por fim, em 3 de outubro de 1226, ele morreu em sua amada igreja de Porciúncula. Diz-se que suas últimas palavras foram:

“Cumpri meu dever. Agora, que Cristo vos dê a conhecer o vosso. Benvinda, irmã morte!”

São Domingos e a ordem dos pregadores

Resultado de imagem para domingos de gusmãoSão Domingos [Domingos de Gusmão] era uns doze anos mais velho que São Francisco. Mas como sua atividade como fundador de uma ordem foi posterior, decidimos relatar sua história depois da do santo de Assis. Foi na pequena aldeia de Caleruega, perto de Burgos, no centro de Castela, onde Domingos nasceu. Ele era filho da ilustre família dos Gusmão, cuja torre ainda hoje se eleva no centro do povoado. Sua mãe, Joana, era uma mulher de grande fé, da qual ainda hoje se contam milagres em Caleruega. Em todo caso, desde muito jovem Domingos e seus irmãos cresceram em um ambiente cristão.

Depois de uns dez anos de estudo em Palência ele se uniu ao capítulo da catedral de Osma, como um dos seus cônegos. Quatro anos depois, quando Domingos tinha a idade de vinte e nove anos, o capítulo adotou a regra monástica dos cônegos de Santo Agostinho. De acordo com esta regra os membros do capítulo catedralício viviam em comunidade monástica, mas sem se retirar do mundo nem abandonar seu ministério para com os fiéis. Recordemos que, como vimos no capítulo anterior, era a época em que a Espanha estava se incorporando ao restante da cristandade ocidental. É muito possível que este tenha sido um dos fatores que levaram o capítulo a adotar a regra de Santo Agostinho.

Em 1203, Domingos e seu bispo Diego de Osma passaram pelo sul da França, onde nosso cônego se comoveu ao ver o auge a que chegara a heresia dos cátaros ou albigenses, e como tentava-se convertê-los à força. Apercebeu-se também que o principal argumento que os albigenses tinham era o ascetismo dos seus Iíderes, que contrastava com a vida acomodada e desregrada de muitos prelados e sacerdotes ortodoxos.

Convicto de que não era o melhor meio de combater a heresia, Domingos dedicou-se a pregar a ortodoxia, uniu sua pregação a uma vida de disciplina rigorosa, e fez uso dos melhores recursos intelectuais que estavam ao seu alcance. Nas encostas dos Pirineus ele fundou uma escola para as mulheres nobres que abandonavam o catarismo. Reuniu também ao seu redor um número crescente de converses e de outros pregadores dispostos a seguir seu exemplo. Seu êxito foi tal que o arcebispo de Toulouse lhes deu uma igreja onde pudessem pregar, e uma casa onde viver em comunidade.

Pouco depois, com o apoio do arcebispo, Domingos foi a Roma, onde na época se reunia o quarto concílio de Latrão, para solicitar a Inocêncio III a aprovação da sua regra. O papa se negou, pois se preocupava com a confusão que surgiria com a existência de demasiadas regras monásticas. Mas lhes deu licença para continuar o trabalho começado, desde que enquadrados em uma regra monástica já aprovada. De regresso a Toulouse, Domingos e os seus adotaram a regra dos cônegos de Santo Agostinho, e depois, mediante uma série de constituições, adaptaram esta regra às suas próprias necessidades. Talvez levados pelo impacto do franciscanismo nascente, os dominicanos também adotaram o princípio da pobreza total, para se sustentar somente através de esmolas. Por esta razão estas duas ordens (e outras que depois seguiram seu exemplo) são conhecidas como “ordens mendicantes”.

Desde seu início a ordem de pregadores (assim era chamada a que São Domingos fundara) teve o estudo em alta estima. Nisto diferia o santo espanhol do de Assis, que, como dissemos, não queria que seus frades tivessem nem sequer um saltério, e que em várias ocasiões se mostrou desconfiado do estudo e das letras. Os dominicanos, em sua tarefa de refutar a heresia, necessitavam armar-se intelectualmente, e por isto seus recrutas recebiam um adestramento intelectual esmerado. Em consequência a ordem de pregadores deu à Igreja Católica alguns dos seus teólogos mais distintos; se bem que, como veremos mais adiante, os franciscanos não ficaram muito atrás deles.

O curso posterior das ordens mendicantes

Tanto a ordem dos pregadores como a dos irmãos menores cresceram rapidamente em quase toda a Europa. Mas a fundada por São Domingos teve uma história muito menos acidentada que a de São Francisco.

Desde o princípio os dominicanos se tinham dedicado ao estudo e à pregação, particularmente entre os hereges. Para eles a pobreza não passava de um instrumento que facilitava e fortalecia seu testemunho. Por isto eles não tiveram maiores dificuldades para se adaptar às novas circunstâncias quando o crescimento da ordem requereu que esta tivesse propriedades, e que o ideal de pobreza fosse de certo modo abrandado. Além disto, eles logo se instalaram em universidades, pois isto provinha da sua inspiração inicial.

Nesta época os dois centros principais de estudos teológicos eram as nascentes universidades de Paris e Oxford. Nas duas cidades os dominicanos fundaram casas, e logo tinham professores nas universidades. Em Oxford isto sucedeu quando Roberto Bacon, que já era professor, decidiu tornar-se dominicano, e continuou ensinando. Em Paris o processo foi mais turbulento, pois em 1229 houve uma greve universitária e os dominicanos se negaram a participar dela, continuando as aulas em seu convento. Quando a universidade abriu suas portas de novo, o mestre dominicano que estivera ensinando no convento continuou como professor universitário.

Outro campo em que os dominicanos se distinguiram foi a pregação para muçulmanos e judeus. Entre os seguidores do Profeta o pregador mais famoso foi Guilherme de Trípoli. E entre os filhos de Abraão, São Vicente Ferrer. Ambos tiveram muito sucesso, se bem que nos dois casos parte do resultado da sua pregação fora produzida pela força: os cruzados contra os muçulmanos em Trípoli, e os cristãos contra os judeus na Espanha, onde São Vicente pregou.

Como os dominicanos, os franciscanos se distinguiram tanto por sua atividade missionária como por sua presença nas universidades. As missões sempre tinham sido uma das paixões de São Francisco, que várias vezes tentou partir para a terra dos infiéis, e que por fim conseguiu pregar ao sultão do Egito. Seguindo seu exemplo, os franciscanos empreenderam um trabalho missionário de alcance incrível. De fato, foram eles que, depois de séculos de esquecimento, voltaram a tomar a sério o mandado de Jesus de serem testemunhas “até os confins da terra”.

Como exemplo deste trabalho podemos tomar João de Montecorvino, que, depois de ser [ou seu?] legado papal na Pérsia e na Etiópia, e depois de um breve período missionário na Índia, dirigiu-se para a China. Pouco antes este país tinha sido conquistado pelos mongóis, que tinham estabelecido sua capital em Cambaluc (hoje Pequim). Depois das suas enormes conquistas, e do caos que produziram, os mongóis se mostravam interessados em estabelecer relações cordiais com o restante do mundo, e em estimular o comércio. Como assinalamos anteriormente, nesta área já havia alguns cristãos nestorianos. Agora, com os novos contatos com o Ocidente, começaram a chegar ao país cristãos procedentes da Itália e de outras regiões europeias. Primeiro chegaram os comerciantes, dos quais o mais famoso, mesmo não sendo o primeiro, foi Marco Polo. Pouco depois foram enviados os primeiros missionários, entre os quais estavam alguns dominicanos, e muitos franciscanos. Guilherme de Trípoli, o famoso pregador dominicano, partiu para a China com outro frade e com Marco Polo, que regressava para o Oriente. Mas as dificuldades da viagem o fizeram desistir dos planos. Em 1278 outros cinco missionários franciscanos foram enviados para a China; mas seu destino nos é desconhecido. Por fim o franciscano João de Montecorvino chegou a Cambaluc com uma carta do papa, e começou o trabalho missionário nesta capital. Seu êxito foi tal que depois de poucos anos havia milhares de convertidos. Ao receber notícias destes resultados o papa o nomeou arcebispo de Cambaluc, e enviou outros sete franciscanos que o ajudassem como bispos de outras sedes. Daqueles sete somente três chegaram ao seu destino, o que é indício dos perigos que a viagem apresentava.

Mesmo sendo o Extremo Oriente o campo em que os missionários conseguiram resultados mais notáveis, foi entre os muçulmanos que trabalhou o maior número deles. Este tinha sido o interesse do próprio São Francisco, e através dos séculos sua ordem o manteve aceso, a ponto de os franciscanos perderem milhares de vidas neste campo missionário.

Seguindo o exemplo dos dominicanos os franciscanos se instalaram nas universidades, onde chegaram a ter professores de grande renome. Até certo ponto isto representava uma mudança na política traçada pelo fundador, que sempre desconfiou dos estudos e dos livros. Em 1236 um professor da universidade de Paris, Alexandre de Hales, decidiu se unir à ordem, e assim os franciscanos passaram a contar com sua primeira cátedra universitária. Poucos anos depois havia mestres franciscanos em todas as principais universidades da Europa ocidental.

Tudo isto não foi possível sem grandes lutas, tanto internas, dentro do franciscanismo, como externas, contra alguns membros das universidades, que se opunham à presença nela dos mendicantes. Particularmente em Paris o franciscano Boaventura e o dominicano Tomás de Aquino tiveram de enfrentar a oposição de mestres seculares como Guilherme de Santo Amor. Em seus atritos com os mendicantes os seculares chegaram a atacar não só seu direito de tomar parte nas universidades, mas também a validade dos seus votos de pobreza. Deste modo a questão da pobreza passou a ser debatida nas universidades, e professores como Boaventura mantiveram “disputas” acadêmicas acerca dela.

A principal mudança na política traçada por São Francisco, no entanto, teve lugar com respeito à pobreza. Como dissemos, o fundador sabia que o que exigia dos seus seguidores era duro, e por isto fez todo o possível para garantir que depois da sua morte os franciscanos não tentariam suavizar a regra da pobreza. Mas, como dizem que Inocêncio III disse ao santo, os ideais elevados de Francisco somente poderiam ser cumpridos por seres sobrehumanos. Com o crescimento da ordem, o espírito simples do seu fundador foi se perdendo, ao mesmo tempo que se fazia necessário organizar o movimento. Isto, por sua vez, requeria propriedades, e não faltaram os que as doaram aos franciscanos. A Regra de 1223 proibia que os franciscanos tivessem qualquer propriedade, e esta pobreza não deveria ser somente individual, mas também coletiva. O que Francisco queria era evitar o enriquecimento da sua ordem, como tinha sucedido com o movimento cluniacense. Para garantir que o princípio da pobreza absoluta seria cumprido cabalmente ele insistiu em seu testamento nisto, e proibiu explicitamente que fosse pedido ao papa qualquer abrandamento da Regra.

Pouco tempo depois da morte do santo apareceram dois partidos dentro da ordem. Os rigoristas insistiam na pobreza absoluta, em obediência às instruções de São Francisco. Os moderados argumentavam que, dadas as novas circunstâncias, era necessário interpretar a Regra menos literalmente, para que a ordem pudesse levar a cabo seu ministério fazendo uso das propriedades que lhe eram doadas. Em 1230 o papa Gregório IX declarou que o testamento de São Francisco não tinha valor de lei para os franciscanos, que por isto podiam pedir a Roma que modificasse a lei da pobreza. Em 1245 Inocêncio IV acudiu ao subterfúgio de declarar que todas as propriedades em questão pertenciam à Santa Sé, enquanto os franciscanos desfrutavam delas. Mais tarde também esta ficção foi abandonada, e a ordem do pobrezinho de Assis começou a ter vastas propriedades.

Enquanto isto o partido dos rigoristas adotou posições cada vez mais extremas. Para eles estava ocorrendo uma grande traição. Não demorou para alguns deles adotarem as ideias de Joaquim de Fiore, aplicando-as à sua situação.

Joaquim de Fiore, um monge cisterciense da geração anterior à de São Francisco, tinha proposto um esquema da história que, de acordo com ele, se baseava na Bíblia. Este esquema consistia em três etapas sucessivas: a do Pai, a do Filho e a do Espírito Santo. A era do Pai, que ia desde Adão até Cristo, durou quarenta e duas gerações. Logo, já que Deus ama a ordem e a simetria, a idade do Filho também deveria durar quarenta e duas gerações. E, como no Novo Testamento a obra de Deus é aperfeiçoada, estas gerações seriam todas iguais. Contando trinta anos para cada geração, Joaquim chegou à data de 1260 como o momento em que terminaria a era do Filho e seria inaugurada a do Espírito. Nesta nova era a vida religiosa chegaria ao seu ponto culminante.

Bem, em cada era Deus tinha levantado arautos da era por vir. Na era de Cristo os que apontavam para a era do Espírito Santo eram os monges, cuja pobreza e castidade lhes davam um nível de vida mais espiritual que o da gente comum, ou até dos dirigentes eclesiásticos.

Alguns franciscanos rigoristas abraçaram estas ideias. O ano 1260 estava se aproximando. Os altos ideais franciscanos pareciam estar sendo negados a cada momento, tanto pelos franciscanos moderados como pelo papa e o restante da hierarquia eclesiástica. Portanto, para manter acesos os ideais, os rigoristas adotaram o esquema de Joaquim, que lhes dava a esperança de estar vivendo nos últimos tempos de dificuldades, pouco antes da alvorada de um novo dia, quando seus ideais seriam reafirmados.

Com o nome de “espirituais”, aqueles franciscanos começaram a pregar as doutrinas de Joaquim de Fiore. Isto implicava em que o papa, o restante da igreja, e inclusive os demais franciscanos eram crentes de um nível inferior, que permaneciam na “era de Cristo”, enquanto eles, os espirituais, eram a “igreja do Espírito Santo”. Um dos que mais difundiram estas ideias era o ministro geral da ordem, João de Parma, e por algum tempo pareceu que os franciscanos seguiriam o caminho dos valdenses, rompendo toda comunhão com o restante da igreja. Mas o próximo ministro geral da ordem, São Boaventura, conseguiu combinar um espírito místico semelhante ao de São Francisco com a mais estrita ortodoxia, e deste modo a maior parte dos franciscanos se reconciliou com a hierarquia eclesiástica. João de Parma e seus principais seguidores foram recolhidos a conventos, mas fora isto eles não foram perseguidos enquanto Boaventura viveu. Depois da sua morte houve um ressurgimento do movimento dos “espirituais”, que foram então perseguidos até que desapareceram.

Um dos ideais mais elevados da época que estamos estudando foi o de uma pobreza absoluta, imitando o Senhor, que não tinha “onde reclinar a cabeça”. Ninguém encarnou este ideal como o fez São Francisco. Mas mais tarde os seguidores do pobrezinho de Assis chegaram a se combater por causa das suas riquezas; os discípulos do santo que amava a “irmã água” e o “irmão lobo” acabaram insultando, atacando e perseguindo seus irmãos de religião. Como Inocêncio tinha percebido tão bem, os ideais do pobrezinho eram elevados demais para a realidade humana.

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