Testemunhos de pedra: românico e gótico

In:

  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos grandes ideais – Vol. 4: São Paulo: Vida Nova, 1981 (1ª edição), pág. 151 a 169.

“Sempre estive convicto que o que há de mais precioso e sublime deve ser dedicado sobretudo à administração da santa eucaristia… Se por algum milagre fôssemos transformados em serafins e querubins, ainda assim não poderíamos oferecer serviço digno e suficiente para uma Vítima tão grande e inefável.”

São Dionísio

Os séculos que expressaram seus ideais elevados em movimentos de reforma monástica e papal, no empreendimento das cruzadas, e na teologia escolástica, expressaram-nos também nos edifícios que dedicaram ao serviço de Deus. Assim como a “era dos mártires” nos legou seu testemunho escrito em sangue, a “era dos altos ideais” nos deixou o seu escrito em pedra. Em uma época utilitarista como a nossa, em que o valor das coisas é medido pelo proveito imediato que podem proporcionar, aquelas igrejas construídas por nossos antepassados na fé nos lembram que há outras maneiras de encarar a vida e seus valores. Olhadas da nossa perspectiva, aquela era e as pessoas que nela viveram deixam muito a desejar; mas olhadas à luz daquelas igrejas e do seu testemunho, também nossa era e nossa dedicação deixam muito a desejar.

As igrejas da Idade Média tinham dois propósitos principais, um de didática e o outro de culto. O propósito didático compreendemos recordando que era uma época em que os livros eram escassos, bem como os que sabiam lê-los. Nesta situação as igrejas se transformaram nos livros dos analfabetos. Nelas tentava-se apresentar toda a história bíblica, a vida dos grandes mártires da igreja, os vícios e virtudes, as lendas piedosas, e tudo que pudesse ser útil à vida religiosa dos fiéis. Se nós ficamos confusos com muitas destas igrejas antigas, isto em parte é porque não sabemos ler seu simbolismo. Mas os que viveram naquela época conheciam os mínimos detalhes da sua igreja, onde seus pais e avôs lhes tinham explicado e contado desde criança as histórias maravilhosas dos Evangelhos, dos santos e das virtudes, que eles por sua vez tinham ouvido de gerações anteriores.

O propósito de culto destas mesmas igrejas está expresso na citação que inicia este capítulo. Através da “era das trevas” tinha se desenvolvido um conceito de comunhão que a relacionava mais com a crucificação que com a ressurreição, ao mesmo tempo em que predominava o pensamento que no ato da consagração o pão deixava de ser pão e o vinho deixava de ser vinho, convertendo-se em corpo e sangue de Cristo. Em sua forma explícita esta maneira de encarar a comunhão é a chamada doutrina da “transubstanciação”, que foi oficialmente promulgada somente no IV concílio de Latrão, em 1215. Mas muito tempo antes da sua declaração oficial esta doutrina já era a opinião comum do povo e do clero. Chegou-se inclusive a pensar que a celebração da comunhão era em certo sentido uma repetição do sacrifício de Cristo, que não sofria nele, mas cujos méritos eram aplicados diretamente aos presentes e às pessoas cujo nome era citado na missa.

Tudo isto implicava em que a igreja em que era celebrado um ato tão prodigioso deveria ser digna dele. A igreja não era simplesmente um lugar de reunião, nem um lugar onde os fiéis adoravam a Deus. A igreja era um lugar onde o Grande Milagre acontecia, e onde era guardado o corpo de Cristo (a hóstia consagrada) mesmo quando os fiéis não estavam presentes. Portanto, o que uma cidade ou aldeia tinha em mente ao construir uma igreja era edificar um estojo para guardar e honrar sua joia mais preciosa.

A arquitetura românica

No início da “era dos altos ideais”, e durante boa parte dela, a arquitetura mais comum era a que os historiadores chamam de “românica”. Neste estilo a planta das igrejas geralmente era a mesma das basílicas que discutimos anteriormente. Consistiam de uma grande nave, frequentemente com outras naves paralelas, e duas alas transversais, que davam à planta a forma de uma cruz. Por último, bem do lado oposto à porta principal, o abside semicircular rodeava o altar. A modificação mais importante que o estilo românico introduziu nesta planta foi prolongar esta extremidade da igreja onde ficava o abside. Isto porque, a partir do século VI, estava se concretizando uma distinção cada vez mais exagerada entre o clero e o povo, enquanto a participação deste no culto se tornava cada vez mais passiva, e os coros de monges ou cônegos ocupavam seu lugar. A reforma de Cluny, por exemplo, enquanto tornava mais austera a vida nos mosteiros, complicou a liturgia a tal ponto que somente os monges que se dedicavam exclusivamente a ela podiam segui-Ia e cantar todos os salmos e hinos. Lembremo-nos também que era impossível que todos os presentes tivessem hinários ou ordens de culto. Portanto, quando havia mais hinos do que uma pessoa média podia memorizar, os únicos que podiam cantar eram os monges ou cônegos que formavam o coro. Diante destes estava o facistol, um grande atril ou estante em que eram colocados os livros litúrgicos, escritos em letras de tamanho suficiente para serem lidos de certa distância.

As antigas basílicas tinham tetos de madeira, e a arte românica colocou em seu lugar tetos de pedra. A maneira característica de sustentar estes tetos era a “abóboda de cano”. Esta nada mais era que um arco de meio ponto repetido tantas vezes quantas fosse necessário para formar uma abóboda. O arco de meio ponto é um semicírculo de pedra, construído de maneira que o peso das pedras de cima é transferido mais por um empuxo lateral que vertical (veja a figura). Portanto, para sustentar este arco, ou uma abóboda edificada do mesmo modo, é necessário ter certeza que as paredes não vão se abrir. Esta é a razão das grossas paredes que caracterizam a arquitetura românica.

Por causa da necessidade de reforçar as paredes laterais a luz interior era escassa. Parte disto frequentemente era remediado abrindo janelas na fachada e no abside. Em muitos casos a principal fonte de luz era um grande vitral em forma de roseta, colocado diretamente acima da porta principal. As janelas nas paredes laterais tinham de ser pequenas para não enfraquecer a estrutura, que muitas vezes era reforçada com contrafortes (grossos muros exteriores, perpendiculares às paredes, que absorviam a pressão das abóbodas).

O arco de meio ponto era muito usado na arquitetura românica. Em muitos casos uma série decrescente de arcos circundava a porta, o que produzia um efeito sumamente artístico, como podemos ver, por exemplo, na igreja de São Pedro, em Ávila. Em outros casos utilizava-se o arco de meio ponto para adornar o exterior da igreja, como na catedral de Pisa.

Quando os arcos se apoiavam em colunas, os capitéis, em vez de seguir os estilos clássicos da Grécia e de Roma, eram grandes pedras em que eram esculpidos animais, figuras mitológicas, cenas religiosas, e outros temas. Para evitar a monotonia da pedra estas esculturas’ eram pintadas com diversas cores.

Em contraste com as antigas basílicas, as igrejas românicas tinham uma torre ou campanário. No princípio esta torre era uma construção à parte, como a famosa torre inclinada de Pisa. Mas logo se começou a incluí-Ia no edifício principal.

A impressão geral que o estilo românico causa, principalmente em suas formas menos elaboradas, é de uma grande solidez. A ornamentação é sombria. A espessura das paredes, os pesados contrafortes, as janelas pequenas e a pequena altura do edifício em proporção à planta parecem servir muito bem como comparação com o espírito pesado e áspero de personagens da época, como EI Cid, Hildebrando e Pedro, o Venerável.

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Catedral de Pisa, com sua famosa torre inclinada, é um magnífico exemplo de arquitetura românica, com bastante repetição dos arcos de meio ponto.

A arquitetura gótica

Em meados do século XII surgiu um novo estilo arquitetônico, que recebeu o nome de “gótico”. O nome foi dado em uma época em que a Idade Média era considerada nada mais que um período de barbárie, e por isto seu principal feito artístico foi chamado “gótico”, ou seja, procedente dos godos. Quando os historiadores mudaram sua opinião sobre a Idade Média, este nome já estava tão generalizado que continuou sendo usado, se bem que não mais em sentido pejorativo.

Apesar das muitas diferenças entre os dois estilos, o gótico deve boa parte da sua origem ao românico. A planta das igrejas góticas geralmente é igual à das românicas, apesar de se ter tornado mais complexa com o passar dos anos. Seus tetas também são abóbadas de pedra, se bem que construídas de acordo com um prindpio diferente do das abóbadas de cano.

Já foi discutido muito sobre as origens do gótico, se se trata de resultado de novas técnicas, ou de ideais diferentes em termos de beleza arquitetônica. O certo, aparentemente, é que na criação e desenvolvimento do gótico foi conjugado um novo gosto com a possibilidade de expressá-lo em pedra.

Esta possibilidade surgiu principalmente com as abóbadas de arestas, que mais tarde deu seu lugar à de ogivas. A abóbada de arestas em suas origens era uma variante da abóbada de cano. Mas em vez de consistir de uma série de arcos de meio ponto em sequência, que formavam uma grande abóboda de forma cilíndrica, nela duas séries de arcos se entrecruzavam perpendicularmente. Desta maneira o peso não recaía sobre as grossas paredes laterais, mas sobre as quatro colunas das esquinas. Repetindo-se este processo várias vezes, era possível construir uma longa nave cujo teto não se apoiava sobre as paredes, mas sobre a série de colunas. Naturalmente o empuxo lateral sobre as colunas era grande, pois toda a força antes concentrada sobre as paredes agora se concentrava nelas. Para contrabalançar esta pressão eram necessários contrafortes ainda maiores que os primeiros.

Mas o gótico também se caracterizou por um arco diferente do românico. Enquanto este se baseava no arco de meio ponto, o gótico se baseou no ogival, onde dois arcos se entrecruzavam terminando em uma ponta, como o olho humano. Com base neste arco foi produzida a abóboda de ogivas, semelhante à de arestas anterior, mas que podia ser muito mais alta sem aumentar o empuxo lateral sobre as colunas. Colocando estas abóbodas em série era possível construir longas naves com tetos elevados, apoiados somente sobre colunas relativa mente delgadas. As arestas destas abóbodas ficavam ressaltadas na pedra, inclusive ao longo da coluna até o solo, dando assim a todo o edifício uma impressão de grande verticalidade. Com este mesmo propósito as colunas eram feitas muito mais altas que as românicas, e por isto os capitéis, longe do alcance da vista, perderam a importância decorativa que tinham antes.

Já que todo o edifício descansava sobre as colunas, as paredes já não eram mais necessárias como elementos de suporte, e foi possível transformá-las em grandes vitrais, formados com pedaços de vidro colorido. O período românico já tinha usado o vidro, mas sem poder fazer muito uso dele por causa do pequeno tamanho das janelas. O gótico, com suas novas possibilidades, deu rédea solta a esta arte, que logo produziu obras primas. Milhares de pedaços de vidro de matizes variados eram unidos mediante um esqueleto de cobre, produzindo cenas em que apareciam os grandes personagens de ambos os testamentos, os mártires da igreja, os mestres ilustres, os vícios, as virtudes e um sem número de símbolos cristãos. Além do seu efeito direto os vitrais góticos davam ao edifício uma iluminação clara e ao mesmo tempo surpreendente.

Restava ainda o problema do enorme empuxo lateral que as altas abóbodas exerciam sobre as colunas. No estilo românico este problema tinha sido resolvido com contrafortes exteriores, que sustentavam as paredes. O gótico, no seu afã de destacar a verticalidade do edifício, separou os contrafortes da parede, unindo-os a ela por meio de arcos que apoiavam precisamente o ponto onde o em puxo lateral era maior. Estes arcos de apoio são outra característica essencial do gótico.

Todo o conjunto foi, então, decorado com uma série de outros elementos que destacavam as linhas verticais, ou serviam para lhe dar o aspecto frágil de um encaixe. As fachadas eram decoradas com torres altas em que também predominava a forma ogival, e que terminavam em pontas que tentavam alcançar o céu. No centro do edifício frequentemente era acrescentada outra torre ou “flecha”, com a mesma aparência e intenção. Os arcos de apoio eram adornados com “gárgulas”, figuras de animais ou de monstros por cuja boca desaguavam os tetas. As portas também eram decoradas com arcos ogivais em série decrescente, como tinha sido feito antes com os arcos de meio ponto, no estilo românico.

O resultado final era, e ainda o é hoje em dia, imponente. A pedra parecia adquirir uma leveza inusitada, elevando-se ao céu. Todo o edifício, tanto em seu interior como no exterior, era um livro enorme, onde estavam refletidos todos os mistérios da fé e dos seres da criação. O ambiente interior, com suas naves longas e esbeltas, colunas que pareciam se perder nas alturas, vitrais policrômicos, e seu jogo de luzes, parecia ser o pano de fundo adequado para o grande mistério eucarístico que ali ocorria.

Nas catedrais góticas os ideais elevados da época foram modelados em pedra, e deixaram seu testemunho para os séculos vindouros. Houve casos como o da catedral de Beauvais, cuja abóboda ruiu quando o ideal da verticalidade levou os arquitetos a tentar elevá-la além dos limites das leis físicas. E talvez este esforço fracassado foi símbolo aos tempos em que os ideais de Hildebrando, Francisco e outros tropeçaram na resistência da natureza humana.

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Catedral de Colônia, vista lateral. observe a flecha no centro do edifício.

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