O ápice do papado

In:

  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos grandes ideais – Vol. 4: São Paulo: Vida Nova, 1981 (1ª edição), pág. 171 a 185.

“Tu és tanto o herdeiro como a herança do mundo. … Mas eu creio que o que tens recebido não é tua possessão, mas tua administração. … Por isto, o que eu mais temo que possa te suceder não é o veneno ou a espada, mas os desejos de dominar.” (Bernardo de Claraval a Eugênio)

No capítulo III seguimos a história do papado em seus conflitos com o poder imperial, até o momento em que Calixto II e Henrique V chegaram ao acordo de Worms. Calixto morreu em 1124, e Henrique em 1125. Podemos dizer que a partir de então o papado irá aumentando seu poder, enquanto o Império está lentamente decaindo. Este processo, todavia, não era contínuo, mas tinha flutuações nos dois partidos, até que o papado chegou ao ápice do seu poder com Inocêncio III.

O papado sob a influência de São Bernardo

Quando Calixto morreu, duas poderosas famílias romanas, os Frangipani e os Pierleoni, disputaram o poder. Cada uma elegeu seu próprio papa, mas felizmente o candidato dos Pierleoni renunciou para evitar o cisma. O papa restante, Honório II, garantiu a autenticidade da sua eleição também renunciando, para ser eleito novamente pelos cardeais. Pouco depois, quando da morte de Henrique V, o trono imperial ficou vago, e sua sucessão em disputa. Honório apoiou Lotário da Saxônia, que prometeu respeitar o acordo de Worms. Quando mais tarde foi restaurada a paz no Império o papado ficou em boa posição, pois o imperador devia a Honório boa parte do seu êxito.

Mas a morte de Honório provocou novo cisma. Um grupo de cardeais elegeu Inocêncio II, enquanto outro (ao que parece, a maioria) nomeou Anacleto II. Este último contava com o apoio dos Pierleoni e do duque da Sicília. Inocêncio, por seu lado, era o papa dos Frangipani e do imperador. Os dois partidos se apressaram em obter o reconhecimento dos demais países.

Na França o rei Carlos, o Gordo, convocou um concílio que se reuniu em Etampes, e que logo requereu a presença do famoso abade de Claraval, Bernardo. Este acudiu em obediência ao mandado do rei e dos prelados, que então lhe declararam que tinha decidido unanimemente confiar a ele a decisão quanto a quem era o papa legítimo. Sobre o monge que desejara se dedicar à vida contemplativa de Maria recaíam agora as responsabilidades mais graves de Marta. Bernardo decidiu a favor de Inocêncio, e todo o reino aceitou sua decisão.

Fugindo de Roma, onde o poder dos Pierleoni era uma ameaça constante, Inocêncio foi para a França, onde foi recebido com toda a pompa pelo rei. Aquele exílio do papa na França era um dos primeiros augúrios do que sucederia séculos depois, quando o papado ficaria subordinado aos interesses franceses. Mas naquele momento o que aconteceu foi que Inocêncio começou uma marcha triunfal que mais tarde destruiria seu rival.

Henrique I da Inglaterra não tinha ainda decidido de que lado ficar. Seus prelados o aconselharam a apoiar Anacleto. Em parte porque o rei da França apoiava Inocêncio, e os dois países viviam em constante tensão. Mas Bernardo foi se entrevistar com Henrique, e lhe fez ver que estas considerações não eram válidas quando se tratava de questões espirituais, e acrescentou que, se o que o preocupava era o possível pecado de apoiar o papa errado, “ocupe-se com seus outros pecados, e deixe este cair sobre minha cabeça”. Contra o que pareciam ser seus melhores interesses, o rei da Inglaterra se declarou a favor de Inocêncio.

Da Alemanha esperava-se que o imperador apoiasse Inocêncio, e a confirmação chegou enquanto ele estava na França, em companhia de Bernardo. Depois de coroar em Reims o rei da França e seu filho, Inocêncio partiu para a Alemanha. No seu caminho todas as grandes cidades lhe abriram as portas, rendendo-lhe homenagem. Junto a ele, companheiro inseparável, andava Bernardo. Chegando à Alemanha Lotário os recebeu com todo tipo de honras. Seu propósito era aproveitar a difícil situação em que Inocêncio estava para desfazer o acordo de Worms, e voltar a reclamar o direito de investidura. Parece que o papa vacilou, ao se ver nas mãos do imperador. Mas Bernardo enfrentou o soberano, e somente com a autoridade da sua pessoa e seu prestígio ele o obrigou a desistir do seu propósito.

O único lugar onde Inocêncio não foi recebido com grande pompa e alvoroço foi a abadia de Claraval. Ali não ressoaram campainhas, os monges não vestiram seus melhores trajes, nem o ouro brilhou. Pelo contrário, tudo seguiu seu curso normal, e conta-se que muitos monges nem sequer levantaram os olhos do chão para ver o papa. A pompa era necessária para impressionar os senhores do mundo. Mas os monges de Claraval não precisavam dela para honrar o sucessor de um pescador galileu, o representante do carpinteiro que entrou em Jerusalém montado em um jumento.

Por fim, em 1133, com o apoio das tropas imperiais, Inocêncio pôde regressar a Roma por uns poucos meses. Ali ele coroou Lotário em Latrão. Mas quando este e a maior parte dos seus exércitos voltaram para a Alemanha Inocêncio se retirou para Pisa, onde passou mais de três anos. Mesmo não residindo em Roma, quase toda a Europa o reconhecia papa legítimo, e somente Roma e o sul da Itália reconheciam Anacleto. Em 1137, com a ajuda do imperador, Inocêncio pôde voltar para Roma. [\;0 castelo de Santo Ângelo, Anacleto ainda resistia, mas estava cada vez mais ilhado. Quando da sua morte em 1138 os Frangipani elegeram seu sucessor Vítor VI, cujas pretensões papais não duraram muito, pois não restava dúvida de que os partidários de Inocêncio tinham vencido.

Lotário morrera em fins de 1137, e a Alemanha estava dividida entre o partido dos Hohenstaufen e a casa da Baviera. Por diversas razões o grupo dos Hohenstaufen recebeu o nome de “gibelinos”, e o grupo oposto de “guelfos”. Esta divisão imediatamente teve implicações na Itália, onde os guelfos eram o partido papal. Quando Conrado III Hohenstaufen finalmente conseguiu se apossar do trono os guelfos italianos, com o apoio de Inocêncio, continuaram tentando minar o poder imperial no norte da Itália. Com este propósito o papa apoiou o movimento republicano, inspirado nos ensinos de Arnaldo de Bréscia, que estava sendo difundido pela região. Com grande alvoroço dos guelfos várias cidades imperiais se rebelaram, e se proclamaram repúblicas.

Mais tarde esta política redundou em prejuízo para o papa, pois as ideias de Arnaldo foram penetrando no sul da Itália, onde estavam os estados pontifícios. Um destes, a cidade de Tívoli, se declarou independente do poder papal, e se organizou no estilo republicano. Os romanos, sob o comando de Inocêncio, atacaram e tomaram Tívoli, mas quando o papa se negou a deixá-los saquear a cidade o povo de Roma se reuniu no capitólio e se constituiu em república, sob um senado eleito pelo povo. Ao mesmo tempo que reconheciam a autoridade espiritual do papa, negavam-lhe o poder temporal. E apelaram ao Imperador para que regressasse a Roma e restaurasse o verdadeiro Império Romano, com sua capital na Cidade Eterna e o papado submetido a ele.

Inocêncio morreu antes de poder responder ao desafio dos republicanos, e seu sucessor foi Celestino II, de quem, por ser amigo de Arnaldo de Bréscia, se esperava que pudesse chegar a um acordo com os republicanos. Mas ele morreu poucos meses depois. O próximo papa, Lúcio II, procurou ajuda com Rogério da Sicília, que desejava que o papa o coroasse rei. Os republicanos, por sua vez, se aliaram à família dos Pierleoni, dando o título de “patrício” a um de seus membros, e negando-se a conceder ao papa qualquer autoridade temporal. Lúcio morreu de uma pedrada, quando suas tropas atacavam o Capitólio.

Seu sucessor, Eugênio III, surpreendeu o mundo. Na época em que ele foi eleito ninguém queria ser papa, por causa daquela situação turbulenta; Eugênio, um velho abade cisterciense, amigo de Bernardo, não parecia ter a força nem a firmeza necessárias para enfrentar os republicanos. Além dos Alpes, Bernardo recebeu com desgosto a notícia da eleição de seu amigo para o pontificado. Mas apesar disto lhe enviou um longo tratado em que lhe dava conselhos sobre como deveria conduzir seu cargo. Eugênio, por seu lado, reuniu as tropas de diversas cidades próximas e derrotou os romanos, em cujo auxílio tinha acudido o próprio Arnaldo de Bréscia com um contingente suíço. Eugênio entrou em Roma, cujos cidadãos se declararam dispostos a obedecer-lhe, desde que ele traísse seus antigos aliados. Antes de fazer isto Eugênio se retirou da cidade, primeiro para Viterbo e depois para Siena, de onde continuou dirigindo a vida da igreja na Europa, sempre com a ajuda de Bernardo, que na época estava pregando a segunda cruzada, servindo de árbitro entre reis e arcebispos, e comovendo a Europa com sua palavra inflamada. Mas o grande feito de Eugênio foi solapar a popularidade de Arnaldo e da república. Por causa da grande revolução que tinha tido lugar, Roma não gozava do prestígio e das vantagens econômicas de ser o centro religioso da Europa, e muitos romanos começaram a evidenciar seu ressentimento para com os Iíderes republicanos. Enquanto isto, Eugênio conquistava as simpatias do povo. Já que a república não lhe negava o título de bispo da cidade, mas somente o poder temporal, o papa visitou Roma em duas ocasiões, ganhando cada vez mais apoio popular com sua humildade, retidão e paciência. Quando ele morreu em 1153 a república já encontrava muitas dificuldades para se manter.

Sob a sombra de Frederico Barbaroxa

Pouco antes da morte de Eugênio, faleceu também o imperador Conrado III, e sucedeu-lhe Frederico I Barbaroxa, o maior imperador que a Europa conheceu desde o tempo de Carlos Magno. Enquanto Frederico ocupou o trono o papado viveu à sombra deste grande monarca, cuja ambição parecia não ter limites.

Depois do breve pontificado de Anastácio IV ocupou a cátedra de São Pedro, Adriano IV, o único inglês que alcançou esta dignidade. Quando um dos cardeais foi morto em um tumulto em Roma, Adriano interditou a cidade. Privada de qualquer serviço eclesiástico a velha capital da igreja não tardou em capitular. Além disto, ela começava a se cansar de Arnaldo e seus seguidores, dos quais muitos eram estrangeiros. Mais tarde a república foi abolida, Arnaldo partiu para o exílio, e Adriano entrou triunfalmente na cidade. Pouco depois Arnaldo foi raptado e trazido de volta para Roma onde, temendo uma rebelião popular, o papa e os seus o mataram e lançaram suas cinzas ao Tibre.

Enquanto isto Frederico Barbaroxa tinha cruzado os Alpes à testa de um grande exército para reclamar o título de rei da Itália. Todas as cidades republicanas do norte se submeteram, e os republicanos de Roma lhe enviaram uma petição de apoio contra Adriano. Este pedido foi um erro, pois Frederico de forma alguma simpatizava com a causa republicana, e despediu encolerizado os delegados. Depois marchou contra Roma, onde foi coroado por Adriano.

Mas os romanos resistiam à autoridade imperial, e no conflito resultante, várias centenas deles foram mortos. Quando Frederico decidiu voltar para a Alemanha, Adriano viu-se obrigado a deixar Roma, para nunca mais voltar. Mesmo que a Europa, tentando contrabalançar o crescente poder de Frederico, acatava sua autoridade pontifícia, a entrada em Roma lhe estava vedada.

Começou assim uma luta surda entre o papa e o imperador, em que cada um dos contendentes incentivava o movimento republicano nos territórios do outro. Enquanto Adriano apoiava o movimento republicano na região da Lombardia, onde as cidades tentavam declarar sua independência do Império, o imperador favorecia sentimentos semelhantes entre o povo romano.

Alexandre III, o sucessor de Adriano, teve de enfrentar um antipapa eleito pelos partidários do imperador. Este convocou um grande concílio em que seria decidido quem seria o verdadeiro papa. Alexandre se negou a assisti-lo, e declarou que o imperador não tinha autoridade para tanto. Seu rival, que tinha tomado o nome de Vítor IV, cedeu aos desejos imperiais, e por isto o concílio depôs Alexandre e declarou que Vítor era o papa legítimo. Só que o restante da Europa não fez caso do concílio imperial. Somente o Império e onde este fazia sentir seu poder (Hungria, Boêmia, Noruega e Suécia) tomaram o partido de Vítor, enquanto o restante da Europa, bem como o Império Bizantino e o Reino de Jerusalém, se declararam favoráveis a Alexandre. Na Itália o conflito era geral, e as cidades se declaravam a favor de um ou de outro papa de acordo com a proximidade das tropas imperiais.

Por causa do caos que reinava na Itália, Alexandre partiu para a Franca, onde recebeu homenagem do rei deste país e do da Inglaterra. Quando Vítor IV morreu, os que o tinham apoiado elegeram outro antipapa, que tomou o nome de Pascoal III; a este sucedeu Calixto III depois da sua morte. Quando por fim Alexandre decidiu voltar para Roma o clero e o povo o receberam alvoroçados. Pouco tempo depois Frederico atravessou os Alpes e atacou a cidade, e o papa teve de fugir disfarçado.

O triunfo do imperador e do seu partido parecia definitivo quando irrompeu uma epidemia terrível entre seus soldados, que morriam aos milhares. As cidades da Lombardia aproveitaram a ocasião para se rebelar. Os restos do exército imperial conseguiram atravessar os Alpes a duras penas para se refugiar na Alemanha, enquanto seu Iíder, como pouco antes o papa o fizera, fugia disfarçado. Quando, três anos mais tarde, Frederico voltou para a Itália com um novo exército, a Liga Lombarda era tão poderosa que o derrotou na batalha de Legnano.

Nestas circunstâncias não restou outra coisa a Frederico que fazer as pazes com Alexandre. O antipapa Calixto III, sem qualquer apoio, abdicou. Com benevolência exemplar Alexandre o perdoou, e logo lhe confiou cargos de importância. O povo romano, por sua vez, pediu ao papa que fixasse novamente sua residência em Roma. Durante toda esta luta a velha cidade tinha perdido boa parte do seu prestígio e dos seus rendimentos, que dependiam de existir nela o cabeça da cristandade ocidental.

Alexandre entrou novamente em Roma em meio a grandes cerimônias e festejos. Uma vez dono do poder eclesiástico ele convocou um concílio que promulgou uma série de editos para desta forma continuar a antiga reforma de Hildebrando, que ficara interrompida por tanto tempo.

Alexandre morreu em 1181, e os próximos cinco papas foram pessoas que pouco se distinguiram. Lúcio III teve de fugir de Roma, que se rebelara novamente. Urbano III, o Turbulento, foi ao mesmo tempo papa e arcebispo de Milão, onde se dedicou a fomentar a causa republicana. Enquanto isto o imperador Frederico deu um golpe diplomático de grande importância, casando seu filho Henrique com a herdeira do trono da Sicília. Até então a Sicília tinha sido o último recurso dos papas contra pretensões dos imperadores. Mas agora a casa dos Hohenstaufen possuía também este reino. O próximo papa, Gregório VIII, reinou somente dois meses, e o fato mais notável do seu pontificado foi a notícia da queda de Jerusalém, que poucos dias antes tinha sido tomada por Saladino. A ele sucedeu Clemente III, que pôde regressar a Roma, cuja população uma vez mais tinha se cansado do governo republicano. Durante seu pontificado Frederico Barbaroxa morreu afogado, como já vimos, ao falarmos da terceira cruzada. Celestino III, o quinto desta rápida sucessão de papas, coroou Henrique VI imperador (filho de Frederico e rei da Sicília). Henrique era um homem cruel e ambicioso, que sonhava em restaurar o velho Império Romano e destruir o que ele chamava de “papado gregoriano”. Apesar de se encontrar quase totalmente cercado de territórios imperiais, Celestino teve a coragem de excomungar Henrique. A luta aberta parecia inevitável, e somente foi adiada porque o imperador tinha outros interesses mais urgentes, e morreu antes de poder responder ao desafio lançado pelo papa. Ele deixou como herdeiro uma criança de peito, Frederico. Três meses depois Celestino morreu.

Inocêncio III

Como o Império estava desorganizado por causa da morte inesperada de Henrique, os cardeais romanos puderam eleger um novo papa sem intervenção secular, e sem que houvesse um cisma. O novo papa, que na época tinha trinta e sete anos de idade, tomou o nome de Inocêncio III, e foi o pontífice mais poderoso que jamais ocupou a cátedra de São Pedro.

A viúva de Henrique, Constância, temia que as diversas facções que logo surgiram na Alemanha tentassem destruir seu filho Frederico, herdeiro da coroa da Sicília. Para evitar isto ela colocou seu filho e seu reino sob a proteção de Inocêncio, e transformou a Sicília em um feudo do papa. Deste modo desaparecia a ameaça que este reino tinha representado para o papado no tempo de Henrique VI.

A coroa imperial, que também pertencera ao falecido Henrique, não era hereditária, razão pela qual logo surgiu a discórdia na Alemanha. O filho de Henrique, Frederico, era muito jovem para ser imperador. Por isto os partidários de casa dos Hohenstaufen elegeram Felipe, irmão de Henrique. Mas seus opositores nomearam Oto, que logo contou com o apoio de Inocêncio. A verdade indubitável era que Felipe tinha mais direito ao trono, e que sua eleição tinha sido legal. Mas apesar disto o papa se opôs a ele, declarando que, de acordo com a Bíblia, Deus visita o pecado dos pais nos filhos, e que Felipe procedia da casa corrompida e repetidamente excomungada dos Hohenstaufen. Além disto, dizia Inocêncio, o papa tem autoridade sobre o imperador.

Assim como Deus, o criador do universo, estabeleceu dois grandes luminares no firmamento, o maior para presidir sobre o dia e o menor para presidir sobre a noite, assim ele também estabeleceu dois luminares no firmamento da Igreja universal. … O maior para que presida sobre as almas como dias, e o menor para que presida sabre os corpos como noites. Estas são a autoridade pontifícia e o poder real. Por outro lado, assim como a lua recebe a luz do sol, … assim também o poder real recebe da autoridade pontifícia o brilho da sua dignidade.

Com base nisto Inocêncio pretendia ter autoridade para determinar quem deveria ser imperador, e por isto declarou que Oto era o pretendente legítimo. O resultado foi uma cruenta guerra civil que durou dez anos, e em que Felipe parecia prevalecer quando foi assassinado. Oto ficou dono da Alemanha, e a guerra parecia ter terminado.

Mas o novo imperador não demorou em romper com o papa que durante tanto tempo o tinha apoiado. Uma vez mais a causa da ruptura foi a questão da soberania sobre as cidades italianas, em que o imperador queria fazer valer a sua autoridade. Pouco depois da sua coroação em Roma suas relações com Inocêncio começaram a ficar cada vez mais tensas. O imperador decidiu se apoderar de Nápoles e da Sicília, que teoricamente pertencia ao papa, pois o rei Frederico, como dissemos, era seu vassalo. Ao mesmo tempo ele começou a alentar o antigo partido republicano em Roma.

Em resposta, Inocêncio excomungou o imperador, o depôs, e declarou que o legítimo herdeiro de Henrique VI era o jovem Frederico. Com o apoio do papa, Frederico atravessou os Alpes, apresentou-se na Alemanha, e arrebatou a coroa do seu tio, que quisera lhe tirar a da Sicília.

O resultado de tudo isto foi uma vitória estranha para o papado. Enquanto Inocêncio acabara por apoiar a restauração dos Hohenstaufen, inimigos tradicionais do papa, o novo rebento desta casa recebera a coroa com base na autoridade do papa de depor reis e imperadores. Portanto, apesar de Inocêncio reconhecer Frederico, este, o que era muito mais importante, com sua atuação reconhecia que Inocêncio tinha agido legitimamente depondo ato.

Na França, Inocêncio interveio na vida matrimonial do rei Felipe Augusto. Este tinha enviuvado, e em segundas núpcias se casou com a princesa dinamarquesa Ingeborg. Pouco depois ele a repudiou e tomou por esposa Agnes de Meran. Inocêncio repreendeu o rei, e quando isto não bastou ele interditou todo o país. Felipe Augusto convocou então um parlamento em que estavam presentes tanto os nobres como os bispos do reino. Quando este parlamento concordou com o parecer do papa, Felipe Augusto repudiou Agnes, e aceitou novamente Ingeborg, nas formas legais. A rainha deposta morreu pouco depois, em meio à mais intensa melancolia, enquanto a que tinha sido restaurada passou o restante dos seus dias se queixando que sua suposta restauração na realidade era um tormento. Mas em todo caso o papa fez valer sua autoridade sobre um dos reis mais poderosos da época.

Na Inglaterra reinava naquele tempo João Sem Terra, o irmão e herdeiro de Ricardo Coração de Leão. Se bem que as desordens matrimoniais de João tenham sido muito maiores que as de Felipe Augusto, Inocêncio não se atreveu a intervir, pois estas desordens ocorreram quando o papa precisava do apoio de João Sem Terra em seus esforços para colocar Oto no trono imperial. Pouco depois, quando esta questão ficou resolvida, o papa e o rei da Inglaterra entraram em choque por causa da questão de quem era o legítimo arcebispo de Canterbury. Quando ocorreu o cisma nesta sede, com dois arcebispos rivais, ambos apelaram a Roma. O papa simplesmente declarou que nenhum dos pretendentes era o legítimo primaz da Inglaterra, e nomeou em seu lugar Estêvão Langton. João se negou a aceitar a decisão do papa, que primeiro o excomungou e depois o declarou deposto, convocando uma cruzada contra ele. Esta cruzada foi confiada a Felipe Augusto, o velho inimigo da Inglaterra, que rapidamente se dispôs a pôr em prática o decreto papal. Nestas circunstâncias, e temeroso de que muitos dos seus súditos não lhe eram leais, João Sem Terra se apressou em fazer pazes com o papa, submetendo-se às suas ordens e fazendo do seu reino um feudo do papado, como Constância tinha feito antes com o reino da Sicília.

Inocêncio aceitou a submissão de João, deteve a cruzada que Felipe preparava, e a partir de então defendeu seu novo aliado. Isto passou a ser particularmente necessário porque os nobres ingleses, com o apoio de Estêvão Langton, obrigaram João a firmar a Carta Magna, que limitava o poder real em relação à nobreza. Inocêncio declarou que se tratava de uma usurpação de poder. Mas todas as suas medidas não foram suficientes para obrigar os nobres a desistir da sua atitude.

Na Espanha, Inocêncio interveio repetidamente através do seu legado Rainero. Pedro II, o Católico, rei de Aragão, tentou se casar com a irmã de Sancho VII de Navarra. Inocêncio se opôs a isto, pois ele tinha certo grau de parentesco com as duas famílias. Pouco depois Pedro, o Católico, foi coroado em Roma, na igreja de São Pancrácio, com a condição de que imediatamente se dirigisse para a igreja de São Pedro e ali se declarasse vassalo do papa, transformando o reino de Aragão em feudo papal. Isto causou muito ressentimento em Aragão, mas foi um grande triunfo para Inocêncio, que dizia que todos os territórios conquistados dos infiéis pertenciam ao papado. Uma das ironias desta história é que o rei de Aragão, conhecido como “o Católico”, morreu na cruzada contra os albigenses, lutando do lado dos hereges contra as tropas do papa.

Quando Afonso IX de Elão tentou selar sua amizade com Castela se casando com Berengária, a filha de seu primo-irmão Afonso VIII de Castela, Inocêncio ameaçou interditar os dois reinos. Castela se livrou desta ameaça quando seu rei se declarou disposto a receber Berengária de volta. Mas o de Leão insistiu em seu casamento, do qual teve cinco filhos. Quando os bispos de Castela e Leão convenceram o papa que a política de interditar Leão servia para fortalecer a causa muçulmana Inocêncio retrocedeu em seu intento, mas excomungou o rei de Leão, proibindo que fossem celebrados os sacramentos em qualquer cidade onde o rei estivesse presente. Depois de longos anos de tensão entre Leão e Roma Berengária se retirou para Castela. Os filhos nascidos daquele matrimônio condenado pela igreja foram declarados legítimos. E outra das ironias da história é que um deles, Fernando III de Castela e Leão, mais tarde recebeu o título de santo.

Os casos que citamos são somente alguns poucos exemplos da política internacional de Inocêncio. Sua autoridade se fez sentir em Portugal, Boêmia, Hungria, Dinamarca, Islândia, e até Bulgária e Armênia. Quando, se bem que contra as ordens do papa, a quarta cruzada tomou Constantinopla e instaurou ali uma igreja e um império latinos, a autoridade de Inocêncio se extendeu também a esta cidade.

Mas isto não foi tudo. Sob seu pontificado foram fundadas as grandes ordens dos franciscanos e dos dominicanos, teve lugar a grande batalha de Navas de Tolosa, que foi o ponto culminante da reconquista espanhola, e foi empreendida a cruzada contra os albigenses.

O ponto culminante de toda esta obra foi o IV concílio de Latrão, que se reuniu em 1215. Este concílio promulgou pela primeira vez a doutrina da transubstanciação, de acordo com a qual no ato de consagração o pão e o vinho da comunhão se transformam substancialmente em corpo e sangue de Cristo. Além disto, foram condenados os valdenses, os albigenses e as doutrinas de Joaquim de Fiore. Foi decretada a inquisição episcopal, que ordenava a cada bispo investigar as heresias que poderia haver em sua diocese, e extirpá-las. Foi proibido iniciar novas ordens religiosas com novas regras monásticas. Ordenou-se que fossem criadas escolas nas catedrais, e que nelas fosse dada educação aos pobres. Foi proibido que os clérigos participassem de teatro, de jogos, de caça e de outros passatempos semelhantes. Foi requerida a confissão de pecados por parte de todos os fiéis, que deveria ter lugar pelo menos uma vez por ano. Foi proscrita a introdução de novas relíquias sem aprovação papal. Ficou estabelecido que os judeus e muçulmanos deveriam usar roupas especiais, para se distinguirem dos cristãos. Foi proibido aos sacerdotes cobrar pela administração dos sacramentos. E muitas outras medidas semelhantes foram tomadas.

Se tivermos em conta que o concílio fez tudo isto em três sessões de um dia cada, fica muito claro que quem tomou estas medidas não foi a assembleia, mas Inocêncio, que utilizou o concílio para referendar as medidas que ele decidira tomar.

Por tudo isto, não resta dúvida de que com Inocêncio o ideal de uma cristandade unida sob um só pastor, o papa, se aproximou da sua realização. Por isto não devemos nos surpreender se este papa chegou a dizer, no que muitos dos seus contemporâneos creram, que o papa “está entre Deus e o ser humano; debaixo do primeiro e acima do segundo. É menos que Deus, e mais que o homem. Ele julga a todos, mas ninguém o julga“.

Os sucessores de Inocêncio

Durante quase um século, os sucessores de Inocêncio gozaram do prestígio que o grande papa tinha conquistado. Seus sucessores imediatos, Honório III, Gregório IX e Inocêncio IV tiveram de enfrentar as ambições de Frederico II, que, como vimos, Inocêncio fizera imperador. Mas Frederico faleceu em 1250, e quatro anos mais tarde, com a morte de seu filho Conrado IV, desapareceu a dinastia dos Hohenstaufen. De 1254 até 1273 houve uma longa anarquia na Alemanha, e o papado pôde continuar sua política sem se preocupar com alguma intervenção do Império. Este interregno terminou quando o papa Gregório X pensou que a anarquia alemã redundava em prejuízo para a igreja, e apoiou a eleição de Rodolfo de Habsburgo. Pouco depois, quando Nicolau III era papa, este imperador declarou que o papado e seus territórios eram independentes do Império. Durante todo este período o poder da França ia aumentando, e os papas se apoiaram repetidamente nele. Também as ordens mendicantes, no princípio perseguidas por alguns soberanos, ficaram cada vez mais fortes. O primeiro papa dominicano foi Inocêncio V, que reinou poucos dias em 1276. O primeiro franciscano foi Nicolau IV, cujo pontificado durou de 1288 até 1292.

Quando Nicolau IV morreu os cardeais vacilaram na eleição. O ideal franciscano tinha penetrado em suas fileiras, e alguns pensavam que o novo papa deveria encarnar estes ideais, enquanto outros insistiam na necessidade de o papa ser uma pessoa conhecedora das intrigas e ambições do mundo. Por fim foi eleito Celestino V, um franciscano do grupo dos “espirituais”. Quando este se apresentou em Áquila, descalço e montado em um jumento, muitos pensaram que as profecias de Joaquim de Fiore estavam sendo cumpridas. Começava a nova era do Espírito, em que a igreja seria dirigida pelo ideal monástico. Mas Celestino, depois de um pontificado breve, decidiu abdicar. Apresentou-se diante dos cardeais, despojou-se das insígnias papais, sentou no chão o e declarou que ninguém seria capaz de fazê-lo mudar de ideia.

Seu sucessor, Bonifácio VIII, começou a reinar no século XIII, e morreu no XIV (1294-1303). Em sua bula Unam Sanctem o ideal do papado onipotente chegou à sua expressão máxima:

Uma espada deve estar sob a outra, e a autoridade temporal deve estar sujeita à potestade espiritual. … Por isto, se a potestade terrena se aparta do caminho reto será julgada pela espiritual. … Mas se ela se aparta da suprema autoridade espiritual, então somente pode ser julgada por Deus, e não pelos humanos. … Por outro lado, declaramos, dizemos e definimos que é absolutamente necessário para a salvação de todas as criaturas humanas que estejam sob o pontífice romano.

Mas apesar destas palavras de tão alto som, foi precisamente durante o reinado de Bonifácio que ficou patente que a decadência do papado começara. A “era dos altos ideais” tinha terminado, e começava a dos “sonhos frustrados”.

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