A era dos sonhos frustrados: as novas condições

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  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos sonhos frustrados – Vol. 5. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 009 a 033.

É melhor evitar os pecados que fugir da morte. Se hoje não estás pronto, como estarás amanhã? O amanhã é incerto; como sabes que viverás até lá? De que serve viver muitos dias, se nossa vida não melhora? (Kempis).

No século XIII, como vimos no volume anterior, pareciam estar se cumprindo os mais elevados ideais da cristandade medieval. Na pessoa de Inocêncio III o papado chegou à plenitude do seu poder, enquanto as ordens mendicantes se empenhavam em conquistar o resto do mundo para Cristo, e nas universidades eram construídas grandes catedrais do pensamento teológico. Pelo menos em teoria, a Europa estava unida sob um cabeça espiritual, o papa, e outro temporal, o imperador. Durante boa parte deste século, enquanto os cruzados ocidentais reinaram em Constantinopla, aparentemente as igrejas latina e grega finalmente se tinham reunificado.

Mas em meio a todos estes elementos de unidade, à primeira vista inquebrantáveis, existiam tensões e pontos fracos, que mais tarde derrubariam o grande edifício que a cristandade medieval tinha construído com seus ideais elevados. A união com a igreja grega era somente aparente, pois sob a superfície fervia o ressentimento de um povo que se sentia oprimido por invasores estrangeiros. Por isto assim que os bizantinos conseguiram reconquistar sua capital eles cancelaram todos os acordos que os patriarcas latinos de Constantinopla tinham feito com a igreja ocidental. A unidade política da Europa era mais fictícia que real, pois os imperadores fora da Alemanha tinham uma autoridade somente nominal, e mesmo em seu próprio país se viam obrigados a lutar quase constantemente contra os nobres rebeldes. Os grandes sistemas escolásticos do século XIII também traziam dentro de si os germes da sua própria destruição, como veremos mais adiante no presente volume. A arquitetura gótica, feito supremo da civilização medieval, logo se dedicou à ornamentação excessiva que é característica de qualquer arte em decadência.

O papado não estava isento das mesmas forças de destruição. Através de toda a “era dos ideais elevados” tinha existido uma tensão quase constante entre o papado e o império, pois os limites da autoridade de cada um dos poderes não podiam ser fixados com exatidão. Na própria cidade de Roma, onde os papas supostamente reinavam como soberanos, o papado foi joguete frequente das ambições dos poderosos, ou dos caprichos do povo. O espírito republicano, que se fortalecera no norte da Itália, se fizera sentir em Roma. Dadas todas estas circunstâncias, foram muitas as ocasiões em que os papas se viram obrigados a ir ao exílio, ou a se refugiar em algum dos castelos fora da cidade, ou a apelar para o imperador contra os republicanos, ou ao povo contra os nobres, ou para os normandos para contrabalançar as ameaças do Império.

Mas apesar de tudo isto, durante o século XIII o papado teve o respeito da Europa. Quando cara em circunstâncias tristes a cristandade ficava comovida, e por isto os que o oprimiam se viam obrigados a agir com moderação. Como aprenderam por experiência própria os nobres italianos, os imperadores e os republicanos romanos, um papa cativo ainda era um inimigo temível.

No período que estudamos agora estas circunstâncias mudaram. A triste história da decadência do papado, que ocupa boa parte do presente volume, teve por consequência que a cristandade ocidental perdeu o respeito pelo papa. O grande sonho de Inocêncio III de um povo cristão unido sob um só pastor tinha sido frustrado muitos anos antes de Lutero começar a reforma protestante.

Contra a corrupção do papado e da igreja em geral surgiram diversos movimentos de reforma. Alguns deles se ocupavam quase que exclusivamente da prática da vida cristã, enquanto outros atacavam as doutrinas que se tinham desenvolvido durante os séculos anteriores. Alguns eram dirigidos por eruditos e pregadores, outros tinham raízes mais populares. Estes movimentos de reforma também ocuparão boa parte da nossa atenção.

Mas antes de passar a narrar toda esta história convém que nos detenhamos para descrever um pouco o pano de fundo de todos estes acontecimentos.

A peste e suas consequências

A economia europeia, que antes estivera em expansão, estancou em princípios do século XIV, e em meados deste século começou a declinar. Isto era causado pela instabilidade política, o fim das cruzadas e a decadência da agricultura. Mas a causa principal foi a epidemia de peste bubónica que açoitou repetidamente a Europa ocidental a partir de 1347.

A peste bubónica é propagada principalmente por pulgas que, depois de picar ratos infeccionados, a transmitem aos seres humanos. Perto do fim do século XIII, quando os genoveses conseguiram derrotar os marroquinos e abrir o estreito de Gibraltar à navegação, o contato entre o norte da Europa e as costas do Mediterrâneo foi se estreitando cada vez mais. A navegação tinha sido muito melhorada neste mesmo século, e por isto, mesmo no inverno, constantemente havia barcos procedentes do Mediterrâneo nos portos do Atlântico. Isto contribuiu para difundir a população de ratos negros, que são os portadores da terrível enfermidade. Além disto, a prosperidade econômica do século XIII tinha levado a um grande aumento da população, de modo que restavam poucos lugares isolados na Europa ocidental. Quando a praga apareceu nas costas do Mar Negro e no sul da Itália, encontrou condições ótimas para sua propagação. Em três anos ela varreu o continente europeu, e calcula-se que uma terça parte da população morreu. Depois desta terrível mortandade a epidemia amainou, embora voltando repetidamente, com menos virulência, a cada dez ou doze anos. Em cada uma destas novas irrupções e enfermidade atacava principalmente a geração mais jovem, que não ficara imunizada pela epidemia anterior, e por isto a Europa levou dois séculos para voltar a estabelecer um equilíbrio demográfico.

As consequências da praga foram enormes, tanto no aspecto econômico quanto no aspecto religioso. No econômico a epidemia afetou diversas regiões de diferentes maneiras. Em alguns lugares a falta de mão de obra aumentou o preço dos produtos manufaturados. Em outros a falta de compradores produziu um excesso de produção, com desemprego como conseqüência. Mas no final das contas o que surgiu foi um desequilíbrio econômico que se manifestou numa instabilidade política nunca vista. Nos arredores de Paris, na Inglaterra e em Flandres houve revoltas populares. Em alguns casos, como em Flandres, estas revoltas conseguiram firmar pé, e foi necessária a intervenção de todo o poderio da coroa francesa para sufocá-las, depois de diversos anos de lutas. Nas principais cidades manufatoras, por causa da retração do mercado, os mestres artesãos tentaram evitar que os aprendizes chegassem a ser mestres, e competissem com eles. O resultado foi uma tensão cada vez maior entre mestres e aprendizes ou jornaleiros, que levou os dois grupos a se organizarem para proteger seus interesses. As greves ficaram cada vez mais frequentes. Em termos gerais a produção diminuiu, e aumentaram os preços e as exigências feitas aos trabalhadores.

No aspecto religioso a peste também teve profundas consequências. Por causa do caráter da enfermidade, que frequentemente parecia atacar de repente pessoas perfeitamente sãs e matá-las em poucas horas, começou-se a duvidar do universo racional e ordenado que os escolásticos tinham concebido. Entre os intelectuais alastrou-se a opinião que no fim das contas o universo não é racional, e eles começaram a duvidar cada vez mais da capacidade da mente humana de penetrar nos mistérios da existência. Entre o povo menos culto aumentou a superstição, que sempre tinha existido. Como dissemos anteriormente, vários “gigantes” do século IV se tinham oposto ao auge que as peregrinações alcançaram em sua época. Agora, mil anos mais tarde, estas peregrinações eram uma das manifestações religiosas mais populares. Os ricos partiam para os lugares tradicionais de peregrinação: Terra Santa, Roma e Compostela. Os pobres acudiam a santuários mais próximos, cuja eficácia era considerada grande, mesmo que não igual à dos três lugares mencionados. Da mesma forma aumentou o culto às relíquias, que fora abrindo caminho através de toda a Idade Média. Logo, as superstições contra as quais protestaram os reformadores do século XVI, se bem que tinham raízes que em muitos casos remontavam a mais de mil anos atrás, tinham se tornado exageradas e especialmente comuns a partir de meados do século XIV.

Outra conseqüência da praga foi uma grande preocupação com o tema da morte. Como até mesmo os mais jovens – e particularmente eles nas epidemias posteriores – podiam morrer inesperadamente, toda a vida era vista à luz desta possibilidade. A morte era o acompanhante secreto e constante de todo ser humano, disposta a reclamá-lo a qualquer momento e a levá-lo, ou à pátria celestial, ou ao castigo eterno. Quando um enfermo agonizava, anjos e demônios disputavam a alma do moribundo, e a função da igreja e dos seus ministros consistia em facilitar a vitória dos anjos. A morte, pois, e seu triunfo aparentemente universal, passaram a ser temas constantes na literatura e na arte, onde frequentemente era representada festejando sua vitória.

Pelas mesmas razões, e estreitamente unida com este interesse na morte, começou a surgir a ideia de que Jesus Cristo era mais juiz do que redentor. A ira de Deus, aparentemente presente nesta vida na epidemia e na fome, seria manifestada de maneira especial no juízo final, quando Jesus Cristo, sentado sobre o arco-íris, julgaria toda a humanidade. E neste juízo não haveria nenhuma palavra de perdão, a não ser para os que nesta vida o mereceram por causa das suas boas obras e de seu uso dos meios da graça.

Por último convém assinalar que a peste contribuiu para aumentar a inimizade entre cristãos e judeus. Entre os cristãos pensava-se que as bruxas eram em parte culpadas pela peste, enfermando seus inimigos com suas maldades. Com este argumento perseguiram mulheres inocentes, a quem davam este título. Perseguiram também os gatos, que diziam ser amigos das bruxas. Por causa disto aumentou a população dos ratos. Já que tudo isto não acontecia entre os judeus, os casos de peste eram menos frequentes entre eles. A conseqüência foi que eles foram acusados de envenenar os poços onde os cristãos bebiam, e em represália a isto houve terríveis matanças.

A aliança entre a burguesia e a coroa

Além da peste bubónica outros fatores contribuíram para as condições sociais e políticas dos séculos que estamos estudando, o XIV e o XV. O principal destes provavelmente foi a aliança entre a alta burguesia e a coroa. Nos dois séculos anteriores a economia manufatureira e mercantil apresentara um progresso considerável. Para mantê-lo difundiram-se os sistemas de crédito, e como conseqüência as casas bancárias se enriqueceram. Como a indústria manufatureira, o comércio e os bancos estavam em mãos da alta burguesia, esta nova classe, que surgira com o desenvolvimento das cidades, era a mais beneficiada com estas atividades. Seus interesses se opunham aos dos grandes senhores do sistema feudal. As pequenas guerras entre senhores vizinhos, os impostos que cada nobre impunha sobre os produtos que passavam por seus territórios, e o sonho dos grandes barões de criar unidades autossuficientes, atuavam em prejuízo do comércio. Do ponto de vista da alta burguesia um governo centralizado e forte, que protegesse o comércio, erradicasse o banditismo, regulamentasse a moeda e evitasse as constantes guerras entre pequenos vizinhos era altamente desejável. Por isto esta classe deu apoio decidido aos esforços por parte dos reis de limitar o poder da nobreza.

Os reis também recebiam benefícios com esta aliança. O único meio eficaz de fazer valer a sua autoridade era ter um exército permanente, sob as ordens da coroa, que pudesse agir de maneira rápida e eficiente contra qualquer rebelde. Isto custava dinheiro. A maior parte das terras estava nas mãos dos nobres, que usavam este recurso para levantar exércitos próprios, de acordo com a necessidade do momento. Mas a coroa não podia exigir destes nobres que mantivessem um exército permanente. Pelo menos não podia fazê-lo enquanto a autoridade da coroa sobre a nobreza não estivesse firmemente estabelecida. Nestas circunstâncias, os reis tinham de recorrer à burguesia, cujo apoio econômico lhes permitia manter os exércitos de que precisassem.

O nacionalismo

Este processo deu origem aos estados modernos. A França e a Inglaterra, junto com os países escandinavos, foram os primeiros que se uniram sob monarquias relativamente fortes. A Espanha só chegou a este ponto no fim do período que estamos estudando, pois a unidade nacional só foi alcançada com o casamento de Isabel e Fernando. Portugal era uma monarquia no início deste período, mas através de todo ele a coroa foi aumentando seu poder em relação aos nobres. A Alemanha e a Itália chegaram à unidade nacional somente muito tempo depois.

Isto, por sua vez, deu origem a um crescente sentimento nacionalista. Nos séculos anteriores a maior parte do povo europeu se sentia cidadã de algum pequeno condado ou burgo. Mas agora começava-se a falar de uma nação francesa, por exemplo, e os habitantes desta nação começaram a evidenciar que estavam possuídos de certo espírito nacional. Isto sucedeu também em países que não se encontravam unidos sob uma monarquia florescente. Em fins do século XIII várias municipalidades alpinas se rebelaram e fundaram a Confederação Helvética, que foi crescendo através de todo o século XIV, derrotando repetidamente os exércitos que os imperadores alemães enviavam para sufocar a rebelião. Por fim, em 1499, o imperador Maximiliano I se viu obrigado a reconhecer a independência da Suíça. Na Alemanha, mesmo não havendo um movimento de insurreição semelhante ao da Suíça, houve todo tipo de indícios de que os habitantes dos diversos eleitorados, ducados, cidades livres, etc., começavam a se sentir alemães, e a invejar a ingerência de outros países nos assuntos nacionais cuja unidade lhes dava maior poder.

Estes sentimentos nacionalistas, cada vez mais comuns na Europa nos séculos XIV e XV, militavam contra a relativa unidade conseguida em épocas anteriores. Se o papado aparentemente se inclinava para os interesses franceses, como o fez durante sua residência em Avignon, os ingleses não vacilavam em se opor a ele. Se, no entanto, ele se negava a ser um instrumento dócil nas mãos da coroa francesa, esta apoiava o outro papa, como aconteceu durante o Grande Cisma. Mesmo se nos séculos anteriores houve situações semelhantes, neste período do fim da Idade Média estas situações passaram a ser a regra, e não mais a exceção. O mesmo aconteceu com respeito ao Império, principalmente nas regiões fronteiriças da Suíça e da Boêmia. À rebelião suíça fizemos referência mais acima. O sentimento nacionalista boêmio nos interessará quando falarmos de João Huss e dos seus.

A guerra dos cem anos

O surgimento das grandes nações modernas, e o uso da artilharia no campo de batalha, deram lugar a guerras muito mais sangrentas e longas que as dos séculos anteriores. Destas a de mais destaque foi a guerra dos cem anos, que envolveu de tal maneira não só a França e a Inglaterra, mas também o restante da Europa, que alguns historiadores têm dito que ela deveria ser chamada de “primeira guerra europeia”.

A causa inicial das hostilidades foi a questão da sucessão à coroa francesa. O rei da França, Filipe IV, o Belo, tinha deixado três filhos homens; mas um após outro reinaram e morreram, sem deixar descendência masculina. Quando o último, Carlos IV, morreu, surgiu a questão da sucessão. Na França, Filipe de Valois, sobrinho de Filipe IV, foi coroado rei. Mas na Inglaterra o parlamento inglês declarou que seu rei, Eduardo III, era o legítimo herdeiro da coroa, e enviou uma delegação à França para reclamá-la. A alegação inglesa se baseava no fato de Eduardo ser filho da irmã dos três últimos reis, e neto do pai deles, Filipe IV. O novo rei da França, Filipe VI de Valois, respondeu dizendo que, assim como as mulheres não podiam herdar o trono, dever-se-ia preferir a descendência por linha masculina à por linha feminina.

Como rei da França Filipe VI era senhor, entre outros territórios, do ducado de Guyenne. Como Eduardo III era duque de Guyenne, cabia-lhe prestar homenagem ao novo rei da França. Depois de vacilar por algum tempo Eduardo consentiu com esta cerimônia, se bem que se retratou depois dela, dizendo que tinha participado ainda menor de idade, e seguindo os conselhos de conselheiros incapazes.

Tudo isto contribuiu para aumentar a inimizade entre os dois monarcas, até que os assuntos da Escócia os levaram à guerra. Durante várias gerações a França tinha sido o principal aliado da Escócia contra as intensões de conquista que os ingleses abrigavam em relação a este território ao norte do seu país. Quando, por causa da política imperialista da Inglaterra, o rei Davi da Escócia se viu obrigado a abandonar o país, a França o asilou, e apoiou seus partidários que continuavam lutando contra as tropas de Eduardo III. Este protestou, e se preparou para atacar a França.

Mas Eduardo, envolvido em uma guerra com a Escócia, não podia querer derrotar Filipe sozinho, e por isso passou a tecer uma extensa rede de alianças contra seu inimigo. Seu principal aliado era o imperador Luís da Baviera, que lhe deu o título de “vicário imperial”. Além disto, ele contava com o apoio de diversos duques e outros nobres de menor categoria, e com o das cidades de Flandres, que se rebelaram contra seus senhores. O Iíder da rebelião, o cervejeiro Jacobo Von Artaveldt, temia com razão que os nobres que os rebeldes tinham expulso buscassem ajuda na coroa francesa, e por isto ele buscou a de Eduardo.

Filipe, por sua vez, organizou outra rede de alianças, da qual faziam parte os reis de Navarra e Boêmia, bem como os duques de Bretanha, Áustria e Lorena, e vários nobres alemães que se opunham à política do imperador.

As primeiras campanhas da guerra foram desvantajosas para os ingleses. Em 1338 Eduardo se apresentou diante das fronteiras da França, e começou a devastar a região. Mas Filipe sabia que seu rival estava esgotando o tesouro da Inglaterra, e que não podia manter seu exército em pé de guerra durante muito tempo. Por isto se negou a enfrentá-lo numa batalha, e mais tarde Eduardo teve de voltar para a Inglaterra, empobrecido e decepcionado. Em 1340 os franceses, junto com os normandos e os genoveses, reuniram uma frota enorme para apertar os ingleses, mas estes, com a ajuda dos flamengos, os derrotaram decisivamente. Quase toda a esquadra francesa foi destruída, e milhares de soldados morreram afogados depois de se lançarem ao mar, fugindo do inimigo. Conta-se que ninguém se atrevia a dar a Filipe a notícia da terrível derrota, até que seu bobo-da-corte lhe disse que parecia que os franceses eram mais valentes que os ingleses, porque se atreviam a saltar no mar. Mas também desta vez Eduardo não pôde tirar vantagem dos seus triunfos iniciais, pois seu grande exército se desfez quando os fundos começaram a escassear. Exasperado, o rei da Inglaterra convidou o da França para um encontro no campo da honra. Mas Filipe sabia que o tempo agia a seu favor, e por fim Eduardo se viu obrigado a aceitar um armistício e voltar para a Inglaterra, onde tinha de enfrentar as enormes dívidas que tinha contraído para financiar sua campanha.

A próxima expedição inglesa, em 1346, teve resultados melhores. Eduardo surpreendeu os franceses desembarcando inesperadamente na Normandia, onde passou a devastar a região. Depois de uma longa e complicada série de marchas e contramarchas os dois exércitos se chocaram finalmente na batalha de Crécy, onde os arqueiros ingleses derrotaram decisivamente o exército francês. Eduardo aproveitou então a vitória para sitiar Calais, que se rendeu no ano seguinte e desde então foi uma das mais importantes possessões inglesas no continente.

Pouco depois da capitulação de Calais a peste bubônica varreu toda a Europa, forçando os dois contendentes a abandonar as hostilidades. Quando estas foram reiniciadas vários anos mais tarde, Filipe VI tinha morrido, e foi seu filho e sucessor João II quem enfrentou os invasores ingleses, que marchavam sob o comando de Eduardo, príncipe de Gales e filho de Eduardo III. Por causa da cor da sua armadura este grande príncipe recebeu o nome de “Príncipe Negro”, pelo qual a posteridade o conhece. Sua estratégia consistiu em desolar os campos da França, destruindo assim a base econômica do seu oponente. João respondeu reunindo um grande exército que surpreendeu os ingleses perto de Poitiers. Mas uma vez mais a disciplina melhor do exército inglês, e a destreza dos seus arqueiros, se impuseram no campo de batalha. Contra todas as previsões o Príncipe Negro e suas tropas derrotaram em Poitiers um exército muitíssimo mais poderoso, e coroaram seu triunfo capturando o rei João. Este foi levado prisioneiro para a Inglaterra, onde permaneceu até que o tratado de Bretigny, em 1360, lhe devolveu a liberdade. Neste tratado Eduardo III renunciava a todas as pretensões à coroa da França, enquanto João se comprometia a lhe pagar uma indenização de três milhões de escudos, e a reconhecer sua soberania sobre Calais e sobre boa parte da Aquitânia.

Mas a guerra, que se tornara endêmica, agora se passou para a Espanha. Em diversas regiões da França havia bandos de mercenários, as chamadas “companhias brancas”, que ficaram desempregadas com o acordo de paz, e não tinham outro meio de subsistência que o roubo e a violência. Para livrar-se deles Carlos V, sucessor de João II, decidiu enviá-los a Castela, onde Pedro, o Cruel, tinha matado ou mandado matar diversos nobres, e enviado ao exílio outros tantos. Entre estes últimos estava seu irmão bastardo Henrique de Trastâmara, cuja mãe tinha sido assassinada por ordem de Pedro. Os desmandos do cruel rei de Castela enraiveceram os franceses quando receberam a notícia de que sua esposa Blanca de Bourbon, princesa francesa que Pedro tinha humilhado repetidamente, tinha morrido em circunstâncias misteriosas. Logo surgiu o boato de que ela tinha sido envenenada, e não faltaram cavaleiros franceses que se dispusessem a vingar a morte da sua princesa. Sob o comando de Henrique de Trastâmara, e com dinheiro proveniente da coroa francesa e do papa, um grande exército de cavaleiros franceses e de “companhias brancas” cruzou os Pirineus, atravessou Aragão e penetrou em Castela. Quando seus nobres se negaram a defendê-lo, Pedro, o Cruel, fugiu para Portugal, e depois para Bayonne.

O território onde Pedro, o Cruel, se tinha refugiado, estava sob o governo do Príncipe Negro, que lhe ofereceu seu apoio contra o “usurpador” Henrique. Ao que parece, uma das principais razões que levaram o chefe inglês a seguir esta política foi o desejo de se opor às intenções do rei da França, sem romper abertamente com o que o tratado de Bretigny estipulara. À frente do seu exército o Príncipe Negro cruzou os Pirineus em Roncesvales, conseguiu que o rei de Navarra alimentasse suas tropas em Pamplona, e penetrou em Castela. Ali ele derrotou decisivamente Henrique de Trastâmara, e recolocou Pedro no trono. Este tinha o propósito de matar os dois mil prisioneiros feitos no campo de batalha, mas seu aliado inglês o impediu, persuadindo-o a perdoar-lhes a vida e aceitá-los como súditos. Pouco depois, quando o restaurado rei de Castela começou a fechar os ouvidos para os pedidos do seu aliado, que precisava de provisões para o seu exército, este voltou para a Aquitânia, e entregou Pedro à sua própria sorte. Enquanto isto Henrique de Trastâmara voltou a apelar à França, e com a ajuda que dela recebeu se apresentou novamente em Castela, onde derrotou seu rival. Pouco depois, em circunstâncias que a história não conseguiu esclarecer, os dois irmãos rivais se encontraram frente a frente perto de Montiel, onde Pedro pereceu no combate mortal. A partir de então Henrique reinou em Castela, e a França pôde contar com um aliado além dos Pirineus. Esta aliança provou sua firmeza quando um irmão do Príncipe Negro, o duque de Lancaster, reclamou para si a coroa de Castela por ter se casado com a herdeira de Pedro.

A aliança entre Castela e França mudou o curso que a guerra vinha tomando. Com a ajuda da esquadra castelhana os franceses tomaram a ofensiva. Em 1372 os castelhanos destruíram toda a frota inglesa na batalha de La Rochelle. Dois anos mais tarde os ingleses não tinham mais nenhuma possessão no continente além de Calais, Bordeaux, Bayonne e outros lugares de menos importância. Por fim, em 1375, Eduardo se viu obrigado a aceitar uma trégua, que durou até 1415.

Eduardo morreu em 1377. Como pouco antes falecera o Príncipe Negro, o novo rei foi o filho deste, Ricardo II. Durante todo o seu reinado e o do seu sucessor, Henrique IV, a Inglaterra esteve em guerra com a Escócia, e enfrentando rebeliões e movimentos populares que a impediram de continuar com a política belicosa em relação à França. Um destes movimentos foi o de Wycliff e dos “lolardos”.

Foi o filho de Henrique IV, o quinto rei com o mesmo nome, que, depois de destruir a rebelião dos lolardos, se dispôs a empreender novamente as hostilidades contra a França. Assim que se sentiu seguro em seu trono ele reclamou a coroa francesa. Pouco depois ele desembarcou na foz do Sena, tomou a fortaleza de Harfleur, e adentrou a França. Esta invasão foi facilitada pelas lutas internas do país, por causa da loucura de Carlos VI. Dois partidos, o dos “borgonhões” e o dos “armagnacs”, disputavam a regência. Por isto as tropas francesas evitaram o combate por algum tempo, mas por fim, confiadas em sua superioridade numérica, tentaram deter o invasor, sendo vencidas na batalha de Agincourt (1415). Mais uma vez, no entanto, os ingleses se viram impossibilitados de continuar a campanha, pois as reservas financeiras estavam no fim e o exército tinha sofrido pesadas baixas durante a sua estadia na França. Henrique, então, se contentou em declarar que a vitória de Agincourt mostrava que Deus favorecia a sua causa, e que aos olhos de Deus a coroa francesa lhe pertencia. Depois desta declaração ele regressou à Inglaterra, onde foi recebido em triunfo.

Ali o visitou o imperador Sigismundo, que anteriormente estivera na corte francesa, tentando mediar entre as duas partes. Henrique se mostrou disposto a renunciar ao trono da França, desde que o tratado de Bretigny fosse cumprido. Como este tratado concedia ao rei da Inglaterra boa parte do território francês, as esperanças de chegar a uma reconciliação por este caminho eram escassas, e os ingleses continuaram se preparando para a guerra. Quando os franceses tentaram reconquistar Harfleur, Henrique estava preparado, e um contingente enviado da Inglaterra pôs fim ao sítio desta fortaleza.

Em Paris, estava no poder o partido dos armagnacs. Por isto o líder dos borgonhões, Carlos, o duque de Borgonha, se negou a enviar tropas contra os ingleses, e corriam rumores de que ele tinha feito um pacto secreto com Henrique. Seja isto verdade ou não, quando o rei da Inglaterra desembarcou novamente em território francês, na região da Normandia, os franceses não puderam lhe oferecer grande resistência, pois os exércitos borgonhões se encontravam diante de Paris. Enquanto os borgonhões tomavam a capital e matavam os principais líderes dos armagnacs, os ingleses se apossaram de boa parte da Normandia.

Fugindo dos borgonhões o delfim Carlos, herdeiro da coroa francesa, escapou de Paris e estabeleceu seu governo em Poitiers, declarando-se regente de seu pai débil mental. Havia, portanto, um rei louco, e dois partidos que disputavam a regência; os borgonhões em Paris e os armagnacs em Poitiers. Diante da ameaça inglesa estes dois partidos começaram a negociar a paz entre si. Mas quando o duque da Borgonha foi assassinado durante uma entrevista com o delfim, e em presença deste, os borgonhões decidiram que não lhes restava outra alternativa que se aliar a Henrique, e com este propósito lhe prometeram a mão da princesa Catarina, filha do rei demente, a regência do reino, e a sucessão ao trono depois da morte do rei. Em troca disto Henrique respeitaria os antigos privilégios da nobreza francesa diante da coroa, devolveria ao reino os territórios que tinha tomado na Normandia, e conquistaria as terras que estavam sob o domínio do delfim. A esta empresa o rei inglês estava entregue quando adoeceu e morreu, deixando como herdeiro do trono inglês o pequeno filho que tivera de Catarina pouco tempo antes. O novo rei da Inglaterra, Henrique VI (1422-1471), tinha somente alguns meses de idade quando morreu também Carlos VI, que assim o deixara de posse das coroas da Inglaterra e da França.

Mas o delfim ainda tinha seguidores e territórios no centro e no sudeste do país, e se fez proclamar herdeiro do seu falecido pai, com o título de Carlos VII. Além disto, quando o rei louco morreu, muitos franceses começaram a se inclinar para o delfim, que no fim das contas era o herdeiro legítimo. A guerra, pois, continuou, já não entre franceses e ingleses, mas entre os partidos na França, um apoiado pelos ingleses, e o outro pelos escoceses. Durante cinco anos a guerra seguiu sem maiores acontecimentos. Mas perto do fim deste período os ingleses e seus aliados ganharam importantes batalhas, cruzaram o rio Loire e sitiaram Orleans.

A situação do delfim era cada dia mais desesperadora, quando vieram notícias de uma donzela, natural da pequena aldeia de Domremi, que dizia ter tido visões em que as santas Catarina e Margarida, além do arcanjo Miguel, lhe tinham ordenado que dirigisse as tropas do delfim para romper o cerco de Orleans, e que em seguida o conduzisse para ser coroado em Reims, tradicional lugar de coroação dos reis da França, e para onde Carlos ainda não pudera ir porque esta cidade estava em território inimigo.

joana-darcConta-se que Carlos VII mandou buscar a jovem Joana d’Arc (este era o nome da donzela) e que, pouco antes de ela lhe ser apresentada, se disfarçou e se misturou com seus nobres, colocando outro em seu lugar. Não está claro se ele fez isto para zombar dela ou para prová-Ia. Mas a jovem, ao entrar no salão onde estava o rei, se dirigiu diretamente para ele, sem prestar a mínima atenção ao que se fazia passar por rei. Surpreendido, Carlos foi com ela para um lugar separado, e ao voltar para a reunião declarou comovido que Joana sabia segredos de sua vida que mortal algum poderia conhecer.

Pouco depois “a donzela”, como seus contemporâneos a chamavam, estava entre as tropas vestida de armadura, e se mostrou hábil no manejo da sua cavalgadura e da lança. À medida que sua fama se espalhava, o entusiasmo entre os soldados do delfim aumentava, bem como o temor entre seus inimigos. Carlos reunira em Blois provisões que esperava poder levar para os que estavam sitiados em Orleans, e Joana se ofereceu para comandar a expedição. Graças a uma série de circunstâncias ao que parece inexplicáveis tanto a donzela como as provisões conseguiram atravessar o cerco, sem encontrar os sitiantes. Na cidade ela foi recebida com aclamações, e imediatamente começou a dirigir ataques contra as posições dos ingleses. Cada dia saía uma coluna de Orleans, comandada por Joana d’Arc, e cada dia caía um bastião inimigo. Mais tarde os ingleses decidiram levantar o sítio, e a heroína, desde então conhecida como “a donzela de Orleans”, proibiu que fossem perseguidos, lembrando que era domingo, dia de orações e não de batalhas.

Depois disto as vitórias seguiram uma à outra, e Carlos pôde invadir o território inimigo e marchar para Reims, para ser coroado. Em sua passagem as cidades que durante anos estiveram dominadas por ingleses e borgonhões o recebiam com entusiasmo, ou pelo menos lhe enviavam provisões, quando não se atreviam a se declarar publicamente a seu favor. A cidade de Reims, ao receber notícias de que o rei e a donzela estavam a caminho, expulsou a guarnição dos borgonhões, e recebeu Carlos com festejos. Na catedral o delfim foi coroado, enquanto Joana, de pé diante do altar, via seus sonhos se tornarem realidade.

Depois de cumprir sua missão dupla de romper o cerco de Orleans e fazer com que o rei fosse coroado em Reims, a jovem visionária estava disposta a regressar à sua vida anterior, como aldeã de Domremi, repetidamente solicitando de Carlos permissão para isto. Mas o monarca não atendeu aos seus pedidos, e Joana continuou lutando até que foi capturada em uma escaramuça, e vendida aos ingleses.

Seus antigos aliados, ocupados em aproveitar as vantagens obtidas nos últimos meses, não se preocuparam mais com ela. Pelo que sabemos, o rei nem sequer se ofereceu para pagar seu resgate, como era costume naquela época fazer com os prisioneiros de vulto. É muito provável que seus conselheiros lhe tenham dito que não permanecesse à sombra de uma mulher plebeia. Os ingleses, por sua vez, a venderam por dez mil francos ao bispo de Beauvais, que queria julgá-la como herege e feiticeira.

O juízo teve lugar em Rouen, e Joana foi acusada como herege, entre outras coisas, por ter dito que recebera ordens diretamente do céu sem intervenção da igreja, por dizer que seus santos falavam com ela em francês, e por se vestir de homem. Quando, depois de vários meses na prisão, seus juízes lhe declararam que ela seria entregue ao “braço secular” para ser executada, ela concordou em assinar um documento abjurando, “sempre que agrade a Nosso Senhor”. Em troca disto em vez de ser queimada viva ela foi condenada à prisão perpétua. Mas poucos dias depois ela declarou que as santas Catarina e Margarida novamente se tinham apresentado a ela, repreendendo-a por causa da sua traição. Então ela foi levada à praça do Mercado Velho, em Rouen, e queimada. Suas últimas instruções, dadas ao sacerdote que a acompanhou até a pira, foram no sentido de que ele levantasse o crucifixo bem alto, e repetisse com voz bem alta as palavras da salvação, para que ela as pudesse ouvir acima do rugir das chamas. Era o dia 30 de maio de 1431. Quase vinte anos mais tarde, ao entrar vitorioso em Rouen, Carlos VII ordenou uma nova investigação que, como era de se esperar, a exonerou. Em 1920 o papa Benedito XV a declarou santa. Mas já séculos antes ela se transformara na heroína nacional da França.

A partir do episódio de Joana d’Arc as vitórias de Carlos VII se seguiram quase sem interrupção. Em 1435 ele conseguiu separar o duque de Borgonha (filho do que tinha sido assassinado) do partido inglês, assinando com ele a paz de Arras. Dois anos mais tarde suas tropas ocuparam Paris. Quando, em 1449, os reis da Inglaterra e da França acordaram uma trégua, os ingleses tinham sido expulsos de toda a França, a não ser de Calais e de alguns territórios na Guyenne e na Normandia. Carlos VII aproveitou os cinco anos de trégua para consolidar seu poder e organizar sua administração e seu exército. Isto teve resultados tão bons que quando as hostilidades foram reiniciadas os ingleses foram expulsos do território francês em somente quatro anos. No fim deste período restava-lhes na França somente Calais, que continuou sob seu domínio até 1558. Por isto, a partir de 1453 a guerra dos cem anos se limitou a pequenas escaramuças, até que por fim foi firmada a paz de Picquigny, em 1475.

Esta longa guerra teve consequências importantes para a vida da igreja, como veremos em diversos capítulos deste volume. O fato de que durante boa parte dela o papado esteve em Avignon, onde existia à sombra do trono francês, contribuiu para aumentar a inimizade entre os ingleses e o papado. Mais tarde, durante o grande cisma em que a Europa se dividiu em sua obediência a dois papas, as alianças estabelecidas durante a guerra dos cem anos foram um dos fatores que decidiam por qual papa cada país se decidia. Além disto a própria guerra dificultou a tarefa de sanar o cisma. Por último, tanto na França como na Inglaterra, Escócia e outros estados beligerantes, a guerra fortaleceu o crescente sentimento nacionalista, e assim contribuiu para debilitar qualquer pretensão que o papado pudesse ter em termos de uma autoridade universal.

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