A era dos sonhos frustrados: o papado sob a sombra da França

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  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos sonhos frustrados – Vol. 5. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 035 a 056.

“É absolutamente necessário para a salvação que todas as criaturas humanas estejam sob o pontífice romano.” (Bonifácio VIII)

Durante a “era dos altos ideais”, como já vimos, houve conflitos constantes entre papas e imperadores. Os dois reclamavam para si uma autoridade universal e, mesmo existindo uma distinção teórica entre o poder temporal e o espiritual, o choque era inevitável.

No período que estamos narrando conflitos semelhantes continuaram existindo. A principal diferença era que estes não envolviam tanto os imperadores, mas alguns dos monarcas cujo crescente poder eclipsava o do Império. Particularmente as relações entre o papado e a monarquia francesa foram um dos principais fatores na história da igreja nos séculos XIV e XV.

Bonifácio VIII e Filipe, o Belo

No fim do volume anterior dissemos que o papa Celestino V, um homem de profundas convicções franciscanas, renunciou ao seu posto, sendo eleito em seu lugar Bonifácio VIII. Benedetto Gaetani – era este o nome original do novo papa – era um homem de caráter oposto ao de Celestino. Enquanto este mostrara ser um fracasso por causa da sua extrema simplicidade, que não lhe permitia reconhecer as motivações obscuras que o coração humano abriga, Gaetani tinha vasta experiência diplomática como legado pontifício, e tinha tratado com reis e poderosos em diversos países da Europa. Nesta atividade ele tinha desenvolvido um conhecimento profundo das intrigas que eram tramadas nas cortes europeias. E, enquanto a humildade extrema levou Celestino a renunciar à tiara, a origem aristocrática de Bonifácio, e as ideias ambiciosas que tinha sobre as prerrogativas papais, fizeram dele um dos papas mais altivos que a história conheceu.

A sua eleição já é um exemplo da sua maneira de proceder. O conclave cardinalício tinha se reunido em Nápoles à sombra do rei Carlos, e não conseguia chegar a um acordo sobre quem seria o novo papa. As poderosas famílias dos Colonna e dos Orsini disputavam o papado; nenhuma estava disposta e eleger um membro do grupo oposto. Durante os dez dias que durou o conclave Bonifácio foi trabalhando para ser eleito, e conta-se que ele o conseguiu persuadindo os dois grupos que o deixassem apresentar um candidato imparcial. Depois de conseguir de ambos a promessa de que aceitariam o seu candidato, Bonifácio apresentou a si mesmo. Restava ainda a questão se Carlos aceitaria este novo papa, pois o rei tinha dado mostras de querer um instrumento dócil ocupando a Santa Sé, e todos sabiam que Benedetto Gaetani tinha um temperamento altaneiro e independente. Bonifácio, todavia, como diplomata hábil, convenceu Carlos que não lhe convinha ter em Roma um títere, mas um papa poderoso que fosse seu aliado. Além disto parece que Bonifácio ofereceu apoio a Carlos na sua luta para se apossar da Sicília, que estava nas mãos da casa de Aragão.

A eleição de Bonifácio não agradou a todos. O ideal franciscano, com seus profundos elementos bíblicos, exercia uma forte atração sobre os corações da época. Entre as classes pobres a eleição de Celestino V parecera ser a promessa de que por fim a igreja deixaria de servir aos interesses dos poderosos e ricos. Entre os monges mais entusiastas chegou-se a pensar que com aquela eleição começara a “Era do Espírito” profetizada por Joaquim de Fiore. Mesmo se, ao que tudo indica, a renúncia de Celestino foi totalmente voluntária, provocada por sua profunda humildade e simplicidade franciscanas, logo surgiram rumores de que Bonifácio o obrigara a renunciar, para poder tomar posse do trono papal. Além disto, mesmo que sua renúncia tivesse sido voluntária, alguns dos seus partidários argumentavam que abdicar não fazia parte das prerrogativas papais – a atitude não tivera precedentes em toda a história da igreja – e por isto a renúncia de Celestino não era válida, e o monge franciscano, mesmo contra a sua vontade, continuava sendo o papa legítimo. Este movimento “celestinista” logo se misturou com o dos franciscanos extremistas, ou “fraticelli”, e convenceu a muitos de que Bonifácio era um usurpador, um homem indigno de ocupar o trono de São Pedro. Quando, pouco tempo depois, Celestino morreu, a oposição perdeu o argumento de que havia outro papa legítimo, mas não deixou de fazer circular notícias, provavelmente falsas ou pelo menos exageradas, no sentido de que a morte de Celestino fora causada pelos maus tratos que sofrera por ordem de Bonifácio.

Apesar desta oposição, os primeiros anos do pontificado de Bonifácio contribuíram para reforçar seu conceito de autoridade do papa. O novo pontífice cria firmemente que o papa era superior a todos os soberanos da terra, e entre as suas tarefas estava a de estabelecer a paz entre estes soberanos. Ele mesmo disse mais tarde ao rei da França que se o imperador Teodósio se humilhou diante de Ambrósio, o arcebispo de Milão, quanto mais um rei qualquer, que é menos que um imperador, deve se humilhar diante do papa, que é muito mais que um arcebispo.

Por estas razões Bonifácio achava que cabia a ele pacificar a Itália, constantemente sacudida por guerras internas. Sua política italiana fracassou somente no seu intento de cumprir a promessa de colocar o rei de Nápoles sobre o trono da Sicília. No demais, os principais inimigos do novo papa na Itália foram afastados. Os Colonna, inimigos irreconciliáveis de Bonifácio desde a sua eleição, perderam quase todas as suas possessões, e se viram obrigados a partir para o exílio. Bonifácio conseguiu isto convocando uma cruzada que, com os recursos dos Orsini, tomou todos os castelos e lugares fortificados dos Colonna. Apesar dos ressentimentos que isto provocou em muitos, quase toda a Itália parecia acatar as instruções do papa.

Também no Império, Bonifácio fez valer sua autoridade, quando o inepto imperador Adolfo de Nassau foi deposto por um grupo de nobres, que elegeram em seu lugar Alberto da Áustria. Pouco depois, perto de Worms, os dois rivais se encontraram no campo de batalha, e Adolfo de Nassau foi morto. Bonifácio considerou todos estes acontecimentos um crime duplo de rebelião e regicídio, e se negou a ratificar a eleição de Alberto, ou a coroá-lo imperador. Durante os primeiros anos do pontificado de Bonifácio, Alberto pôde fazer pouco contra ele, e se viu obrigado a procurar a reconciliação com um inimigo aparentemente poderosíssimo. Mas Bonifácio se mostrava inflexível no que dizia ser a causa da justiça.

A principal preocupação política do novo papa foi a reconciliação entre França e Inglaterra. Seus esforços neste sentido se viram a princípio coroados com seu maior triunfo; mas mais tarde foram a causa da sua queda.

Quando Bonifácio foi eleito em 1294 (bem antes da guerra dos cem anos que narramos no capítulo anterior), França e Inglaterra estavam a ponto de mutuamente se declararem guerra. Através de um subterfúgio o rei da França, Filipe IV, o Belo, tinha se apoderado da Guyenne, propriedade hereditária de Eduardo I da Inglaterra. Em resposta este último, que em suas possessões francesas era vassalo de Filipe, se declarou em rebeldia e apoiou economicamente Adolfo de Nassau e o conde de Flandres, inimigos de Filipe. O rei da França por seu lado, prestou ajuda à resistência que os escoceses opunham a Eduardo.

Nestas circunstâncias Bonifácio enviou seus legados à corte da Inglaterra, objetivando obrigar Eduardo a abrir negociações com Filipe. Quando Eduardo opôs objeções, o papa simplesmente ordenou aos dois soberanos que fizessem uma trégua, primeiro de um ano, e depois de mais três. A Adolfo de Nassau, que ainda reinava e era aliado de Eduardo, Bonifácio enviou ordens semelhantes. Mas tanto Eduardo como Filipe continuaram seus preparativos para a guerra, sem dar muita atenção ao mandado papal.

Vendo o pouco caso que os monarcas faziam dele, Bonifácio decidiu levantar obstáculos aos seus intentos. Tanto Eduardo como Filipe necessitavam de muito dinheiro para cobrir seus gastos militares, e para comprar o apoio dos aliados. Nos dois reinos existia a regra de que as propriedades eclesiásticas estavam isentas de impostos. Mas tanto na Inglaterra como na França a coroa tinha descoberto meios de burlar esta norma, geralmente exigindo contribuições “voluntárias” do clero. Estas contribuições eram ainda mais necessárias diante da ameaça da guerra. E ao mesmo tempo provocavam a ira do clero, que se via despojado de um dos seus privilégios mais apreciados. Portanto, na tentativa de proteger as propriedades da igreja, ganhar a simpatia do clero, e opor obstáculos à política bélica de Eduardo e Filipe, Bonifácio promulgou em 1296 a bula Clericis laicos, que transcrevemos a seguir:

Os tempos antigos mostram que os leigos foram sempre inimigos do clero; e a experiência dos tempos presentes o confirma, pois os leigos, insatisfeitos com suas limitações, querem conseguir o que lhes está proibido, e abertamente procuram obter o que ilicitamente cobiçam. Prudentemente eles não admitem que qualquer domínio sobre o clero lhes é negado, bem como sobre qualquer pessoa eclesiástica e suas propriedades, impondo pesadas cargas aos prelados, às igrejas, e às pessoas eclesiásticas … E, dói-nos dizê-lo, certos prelados e pessoas eclesiásticas, … temendo mais a soberania temporal que a eclesiástica, … admitem estes abusos. Por isto, para pôr um fim nestas práticas iníquas declaramos que qualquer prelado ou pessoa eclesiástica … que pague ou prometa pagar qualquer quantia … a qualquer imperador, rei, príncipe … ou alguma outra pessoa, não importa sua posição, que o exija, requeira ou receba este pagamento está automaticamente, por sua própria ação, sob a sentença de excomunhão.

A resposta dos reis não se fez por esperar. Eduardo declarou que, já que o clero estava isento de toda contribuição ao estado, estava fora do alcance protetor da lei, e sem direito a acesso aos tribunais de justiça. Em seguida ordenou que fossem tirados dos clérigos seus melhores cavalos, e que suas queixas não fossem aceitas pelos tribunais. Naturalmente isto nada mais era que um indício da situação difícil em que o clero se encontrava, e estava claro que Eduardo tomaria medidas extremas se não obtivesse os fundos de que necessitava. Sem demora todo o clero, com a exceção notável do arcebispo de Canterbury, decidiu transferir para o rei a quantia exigida, recorrendo ao subterfúgio de não entregá-la diretamente, mas de colocá-la em um fundo que ficava à disposição da coroa “para casos de emergência”, e estipulando que o rei tinha autoridade para determinar quando uma situação qualquer se caracterizava como emergência.

A resposta de Filipe foi mais direta e extrema. Um edito real proibiu qualquer transferência de dinheiro para o exterior, bem como de metais preciosos, cavalos, armas ou qualquer outro objeto de valor, sem a autorização expressa do rei. Outro proibiu que bancos e instituições de crédito exportassem qualquer riqueza.

A intenção clara destes dois editos era privar o papa de toda receita procedente da França. Mas o rei tomou o cuidado de ditar medidas aparentemente gerais, que colocavam em suas mãos a decisão a respeito de qualquer exportação, e que portanto podiam ser aplicadas ou não, de acordo com a conveniência do momento. Nisto ele seguia os conselhos de dois de seus conselheiros, que estavam entre os juristas mais famosos da época, Pedro Flotte e Guilherme de Nogaret. O resultado foi uma longa e complexa correspondência entre as duas partes, em que tanto o rei como o papa, enquanto se ameaçavam mutuamente em termos gerais, em termos concretos se expressavam de maneira ambígua. Os dois sabiam que tinham inimigos poderosos, e não queriam chegar a uma ruptura aberta e definitiva.

Enquanto isto a guerra prosseguia, sem vantagens decisivas para qualquer dos lados, e tanto Eduardo como Filipe estavam com poucos recursos para continuá-la. Foi esta realidade que mais tarde os levou a aceitarem a mediação de Bonifácio, cuja trégua ambos tinham violado. Então, Filipe mesmo insistiu em aceitar a mediação particular de Benedetto Gaetani, e não do papa. Apesar disto Bonifácio obteve um grande triunfo quando os dois reis, obrigados pelas circunstâncias, concordaram com as condições de paz ditadas por ele, e os oficiais do papa ficaram provisoriamente de posse dos territórios que continuavam em disputa.

Enquanto tudo isto acontecia Bonifácio ainda teve satisfação de ver a Escócia se declarar feudo seu. Por causa da invasão dos ingleses os escoceses não tiveram outro recurso que apelar às suas próprias armas e à proteção do papado. Como base para solicitar esta proteção eles declararam que a Escócia desde tempos antiquíssimos sempre fora feudatária da Santa Sé. Bonifácio respondeu ordenando a Eduardo que desistisse do seu intento de se apoderar da Escócia, pois este país pertencia ao papado. Apesar de Eduardo não dar muita atenção à ordem pontifícia, Bonifácio viu na atitude dos escoceses mais uma prova da elevada dignidade do papado.

Aproximava-se o ano 1300, e Bonifácio proclamou um grande jubileu eclesiástico, prometendo indulgência plenária aos que visitassem o sepulcro de São Pedro. Roma se viu inundada por peregrinos que acorriam para render homenagem não só a São Pedro, mas também a seu sucessor, e parecia ser a pessoa mais poderosa da Europa.

Mas o entusiasmo do jubileu não durou muito tempo, e o grande papa logo viu seu poder se desvanecer. Suas relações com Filipe, o Belo, ficavam cada vez mais tensas. O rei da França tomou posse de diversos territórios eclesiásticos, deixou Sciarra Colonna, o mais temível membro desta família inimiga do papa, se refugiar em sua corte, e ofereceu a mão de Suo irmã ao imperador Alberto da Áustria, que Bonifácio tinha declarado usurpador e regicida. Pedro Flotte, enviado como embaixador francês a Roma, pareceu ofensivo ao papa. A mesma impressão Filipe teve do legado papal, que mais tarde mandou prender através de uma manobra legal. As cartas e bulas dos dois poderosos ficaram cada vez mais ácidas, até que, em princípios de 1302, uma bula papal foi queimada na presença do rei. No mesmo ano Filipe convocou os estados gerais – o parlamento francês – onde pela primeira vez esteve representado, ao lado dos “estados”, tradicionais que eram a nobreza e o clero, o “terceiro estado”, a burguesia. Estes estados gerais enviaram diversos comunicados para Roma, em defesa do rei. A resposta de Bonifácio foi a famosa bula Unam sanctam, que citamos brevemente no fim do volume anterior, em que ele expunha a autoridade papal em termos sem precedentes.

Bonifácio pôs em ação seu conceito elevado de autoridade pontifícia ordenando a todos os prelados franceses que viessem a Roma em princípios de novembro, para tratar ali do caso de Filipe. Este retribuiu proibindo que qualquer bispo ou abade abandonasse o reino, sob pena de confisco de todos os seus bens. Além disto se apressou em fazer as pazes com Eduardo. O papa, por seu lado, se esqueceu de que, na sua opinião, Alberto da Áustria era um rebelde regicida, e fez um acordo com ele, enquanto ordenava a todos os príncipes alemães que aceitassem o senhorio de Alberto. Em mais uma sessão dos estados gerais franceses, Nogaret acusou Bonifácio de ser um papa falso, herege, sodomita e criminoso, e a assembleia pediu a Filipe que ele, como guardião da fé, convocasse um concílio universal para julgar o papa usurpador. Para cobrir sua retaguarda e assegurar o apoio do clero Filipe promulgou as “ordenanças da reforma”, em que confirmava os antigos privilégios do clero francês.

Ao papa só restava a última arma que seus predecessores tinham utilizado contra os monarcas recalcitrantes, a excomunhão. Reunido com seus conselheiros em sua cidade natal de Anagni, ele redigiu a bula de excomunhão, que deveria ser promulgada no dia 8 de setembro. Sciarra Colonna e Guilherme de Nogaret, porém, sabendo que a confrontação estava chegando ao seu ponto culminante, viajaram para a Itália, com a autorização de Filipe de obter crédito ilimitado dos banqueiros italianos. Com este dinheiro, e o apoio dos muitos inimigos que Bonifácio fizera durante sua carreira, eles organizaram um pequeno grupo armado.

No dia 7 de setembro de 1303, um dia antes da planejada excomunhão de Filipe, Sciarra Colonna e Guilherme de Nogaret invadiram Anagni, e não tiveram problemas para se apossar da pessoa do papa, enquanto o povo saqueava sua casa e as dos seus parentes. O propósito dos franceses era obrigar o papa a abdicar. Mas o velho papa ficou firme, respondendo simplesmente que não abdicaria e que, se quisessem matá-lo, “aqui está meu pescoço; aqui minha cabeça”. Nogaret o esbofeteou, e depois o humilharam obrigando-o a montar de costas em um cavalo não muito manso, conduzindo-o pela cidade.

Somente dois cardeais, Pedro da Espanha e Nicolau Boccasini, ficaram firmes no meio do tumulto. Mais tarde Boccasini conseguiu comover o povo, que se sublevou, libertou o papa e expulsou os franceses e seus partidários.

Mas o mal estava feito. Voltando para Roma, Bonifácio não conseguiu inspirar mais nem uma sombra do respeito que tivera antes. Mais ou menos um mês depois ele morreu. E ainda depois da sua morte seus inimigos o perserguiram, espalhando boatos de que ele tinha se suicidado, quando tudo indica que ele morreu serenamente, rodeado dos seus seguidores mais fiéis.

O momento era difícil para o papado, e os cardeais elegeram sem demora Boccasini papa, o mesmo que conseguira libertar Bonifácio. Este papa, que tomou o nome de Benedito XI, era um homem de origem humilde e hábitos irrepreensíveis, membro da ordem dos empregadores [sic] de São Domingos. Tendo em vista o poder de Filipe, o Belo, o mais sábio parecia ser seguir uma política de reconciliação, e foi isto que o novo papa tentou fazer. Restituiu as Colonna as terras que Bonifácio VIII tirara deles, começou a tentar fazer as pazes com Filipe, o Belo, e perdoou a todos os inimigos de Bonifácio, menos Sciarra Colonna e Nogaret. Mas suas gestões não tiveram bom êxito. Os partidários de Bonifácio se queixavam do que aos seus olhos eram concessões excessivas aos que tinham cometido crimes graves contra o papado. O grupo contrário não se considerava satisfeito com as medidas conciliatórias do pontífice. Impelido por Nogaret e outros, Filipe, o Belo, insistia em que fosse convocado um concílio para julgar o papa falecido. Benedito não queria dar este passo, que seria um rude golpe para a autoridade e o prestígio dos papas. O sucessor de Bonifácio, portanto, estava em dificuldades sérias, acossado por membros dos dois partidos, quando morreu. Logo se espalhou o boato de que ele tinha sido envenenado com uns figos que alguém lhe enviou, e cada grupo acusava seus opositores de ter cometido a ação nefanda. Mas nunca foi provado se Benedito XI foi mesmo envenenado.

O papado em Avignon

Os cardeais não conseguiram logo chegar a um acordo sobre quem seria o sucessor de Benedito. Por um lado os partidários da boa memória de Bonifácio, sob a direção do cardeal Mateo Rosso Orsini, insistiam em que fosse eleito alguém que seguisse a política do pontífice ultrajado. Contra estes, outro grupo encabeçado por Napoleão Orsini, sobrinho do anterior, dócil aos manejos do rei da França, procurava um meio de eleger um papa também dócil. Depois de muitos meses de discussões os cardeais conseguiram chegar a uma conclusão, graças a uma artimanha de Napoleão Orsini e dos seus. Um dos candidatos que o partido dos outros Orsini tinha sugerido, no princípio das negociações, era Bertrand de Got, arcebispo de Bordeaux. Ele tinha sido nomeado por Bonifácio, e, além disto, Bordeaux pertencia naquela época à coroa inglesa. Por estas razões o tio Orsini supunha que Bertrand se oporia aos desígnios do rei da França. Mas durante o conclave o sobrinho enviou agentes para Bordeaux, e conseguiu a adesão do candidato originalmente proposto por seu tio. Então, enquanto os defensores da memória de Bonifácio acreditavam que seus opositores, vencidos pela resistência, concordavam com a eleição de um dos seus candidatos, o que na verdade estava sucedendo era que este candidato secretamente mudara de lado.

Um papa eleito nestas circunstâncias não podia ser um modelo de firmeza e retidão. De fato, o pontificado de Clemente V – assim Bertrand de Got se chamou depois de aceitar a tiara papal – foi funesto para a igreja romana. Durante todo o seu reinado este papa não esteve em Roma nem uma vez. Parece que isto não foi causado por alguma decisão sua, mas simplesmente por seu caráter indeciso. Como interessava ao rei da França ter o papa perto de si, seus agentes faziam todo o possível para adiar a partida do pontífice para a Itália. Mês após mês, ano após ano, Clemente viajou pela França e regiões vizinhas, sem dar ouvidos às petições que os romanos lhe faziam, rogando-lhe que fosse à sua cidade. Um dos lugares em que ele passou boa parte do seu pontificado foi Avignon, cidade perto da fronteira com a França que era propriedade papal, e onde seus sucessores fixaram residência depois por muitos anos.

A política de Clemente ficou clara na primeira nomeação de cardeais, porque nove dos dez nomeados eram franceses. Em seu pontificado ele nomeou ao todo vinte e quatro cardeais, e vinte e três eram franceses. Além disto vários eram seus sobrinhos ou parentes, e com isto Clemente fez chegar ao auge o nepotismo, que seria uma das grandes manchas da igreja até o século XVI.

Mas foi principalmente no que refere à memória de Bonifácio e à supressão dos templários que Clemente se mostrou instrumento dócil aos desígnios franceses. A questão da memória de Bonifácio era uma arma poderosa nas mãos dos franceses, que sabiam que o novo papa não poderia permitir que fosse convocado um concílio para julgar seu antecessor. Por isto, sempre ameaçando Clemente com a possível convocação deste concílio, os franceses obtiveram dele tudo o que desejavam em termos de anulação das decisões de Bonifácio. As bulas Clericis laicos e Unamsanctam foram revogadas, ou pelo menos reinterpretadas de modo que não dissessem o que Bonifácio intentara. Os Colonna tiveram toda a sua dignidade restaurada. Nogaret foi perdoado, sob a condição de que em futuro não determinado fosse em peregrinação até a Terra Santa. Por fim, em uma bula de 1311, Clemente declarava que, no que referia às ações contra Bonifácio, Filipe tinha agido com um “zelo elogiável”. Todas estas concessões foram arrancadas do papa que tinha sido feito arcebispo pelo próprio Bonifácio. E lhe foram arrancadas de uma maneira tal, que sempre parecia que os franceses, mesmo tendo o direito de pedir mais, estavam dispostos a ceder em alguma das suas exigências mais extremas, e que por isto o papa deveria estar agradecido.

O caso dos templários foi ainda mais vergonhoso. No fim das cruzadas a antiga ordem tinha perdido a razão da sua existência. Mas, pelo menos em teoria, os papas continuaram pregando o ideal da cruzada para reconquistar a Terra Santa. Portanto, mesmo se em certo sentido a ordem sem dúvida estava destinada a desaparecer, também não restam dúvidas de que o momento e a maneira com que desapareceu eram devidos à avareza de Filipe, o Belo, e à debilidade de Clemente. Através dos séculos os templários tinham acumulado grandes riquezas e extensões de terra. Para uma monarquia pujante como a francesa, os bens e o poder dos templários eram um obstáculo para sua política centralizadora. Em outras regiões da Europa outros monarcas davam mostras de sentimentos semelhantes. Pouco a pouco, em parte graças ao apoio da burguesia, os reis iam enfraquecendo o poder de que os grandes senhores feudais tinham gozado até então. Mas o caso dos templários era diferente, pois, por ser uma ordem monástica, não podia ser submetida diretamente ao poder temporal. Por isto recorreu-se ao subterfúgio de acusá-lo de heresia e imoralidade, e forçar o débil Clemente V a suprimir a ordem e a dispor dos seus bens em proveito da monarquia.

De repente, e de maneira totalmente ilegal, os templários que se encontravam na França foram presos. Através de torturas eles foram obrigados a confessar os crimes mais vergonhosos. Se bem que muitos se negaram a trair seus companheiros e suportaram valentemente os tormentos mais cruéis, mais tarde foram reunidas declarações suficientes para justificar o ato ilegal do rei. Alguns confessaram que a ordem dos templários na verdade era uma fraternidade oposta à fé cristã. Os neófitos eram obrigados a praticar a idolatria, cuspir na cruz e maldizer a Cristo. Outros declararam sob torturas que havia a prática da sodomia na ordem, que era incentivada de diversas maneiras. Entre os que se renderam diante dos suplícios estava Jacques de Molay, o grão-mestre da ordem, que até enviou uma carta aos seus companheiros, pedindo-lhes que confessassem o que soubessem. Alguns pensam que Molay fez isto porque estava certo de que as acusações eram tão absurdas que ninguém lhes daria crédito, e que o escândalo seria tamanho que o rei se veria obrigado a pôr em liberdade os cativos. Outros acham que ele o fez simplesmente porque fraquejou sob as torturas.

Quando o papa recebeu notícias do acontecido, e de como as confissões tinham sido arrancadas aos torturados, era de se esperar que ele acorresse em defesa dos membros de uma ordem que estava sob sua proteção, e cujos direitos o rei tinha violado. Mas aconteceu algo muito diferente. Clemente ordenou que em todos os países os templários fossem presos, impedindo desta maneira qualquer atitude que o restante da ordem pudesse tomar contra Filipe. Quando ficou sabendo que muitas confissões tinham sido obtidas à força, tentou evitar estes abusos declarando que, por causa da importância do caso, ele mesmo serviria de juiz, e que por isto as autoridades locais não tinham jurisdição para continuar as torturas. Mas isto foi tudo que o débil papa fez em defesa dos que lhe tinham jurado obediência e confiavam em sua proteção. Enquanto esperavam o dia do julgamento os templários continuaram encarcerados.

No ano seguinte o rei e o papa deveriam se reunir em Poitiers. Chegando nesta cidade, Clemente constatou que ele era acusado de instigar as supostas práticas dos templários. Nas sessões públicas, a instâncias [sic] de Nogaret, ele foi insultado e ameaçado. Além disto, para acalmar sua consciência, foram apresentados a ele alguns dos templários mais dóceis, que repetiram em sua presença as confissões que o medo da dor lhes tinha arrancado anteriormente. Por fim o papa concordou em deixar o assunto nas mãos de um concílio que se reuniria na cidade francesa de Viena.

No dia primeiro de outubro de 1311, quase quatro anos depois do encarceramento dos templários, reuniu-se o concílio. As esperanças de Filipe, de que a assembleia, dominada por franceses, chegasse logo à condenação da ordem, mostraram ser infundadas. A comissão que o concílio nomeou para analisar o assunto dos templários insistia em que era preciso ouvir a defesa dos acusados. O rei trovejou e ameaçou; mas os prelados, talvez envergonhados com a fraqueza do seu I(der, permaneceram firmes. Por fim, enquanto a assembleia se demorava com assuntos de menos importância, o rei e o papa chegaram a um acordo. A ordem dos templários seria suprimida, não através do julgamento, mas por decisão administrativa do papa. Ao concílio não restou outra alternativa que concordar. Depois de outra série de negociações decidiu-se cumprir os desejos do rei da França, e transferir os bens dos templários para os hospitalários. Esta transferência, entretanto, foi inexpressiva, pois demorou diversos anos, durante os quais o rei fez chegar ao papa uma conta dos gastos do julgamento dos templários, a ser cobrada dos bens da ordem suprimida antes da transferência para os hospitalários, conta esta que quase alcançava a totalidade destes bens.

Quanto aos acusados, muitos foram condenados à prisão perpétua. Quando Jacques de Molay e um dos seus principais assessores foram levados para a catedral de Nossa Senhora de Paris para confessar publicamente os seus crimes, se retrataram. Foram queimados vivos no mesmo dia.

Clemente V morreu em 1314. Seu pontificado foi um sinal das condições sob as quais o papado existiria durante diversas décadas. É verdade que nem todos os papas deste período quiseram transformar a igreja em um instrumento da política francesa. Mas é verdade também que, às vezes com pesar, se viram obrigados a apoiar esta política.

Não podemos narrar aqui os detalhes dos pontificados que sucederam a Clemente. Basta assinalar alguns dos acontecimentos mais importantes, e por último destacar as principais características do papado naqueles dias aziagos.

João XXII foi eleito passados mais de dois anos da morte de Clemente, pois os cardeais não conseguiram chegar a um acordo. Já que o novo papa tinha setenta e dois anos de idade ao ser eleito, é de se supor que o conclave decidiu nomeá-lo na esperança de que durante seu breve pontificado surgisse outro candidato. Mas o papa ancião foi inesperadamente longevo e ativo. Sua preocupação principal durante seu longo pontificado (1316-1334) foi tentar restaurar a autoridade papal na Itália. Sua política neste sentido consistiu em intervir em uma série de guerras que dividiram a região, em que os interesses papais se confundiam cada vez mais com os da França. Para poder sustentar esta política, que foi um fracasso total, João XXII se viu obrigado a procurar aumentar as receitas do papado. Deve-se a ele em grande parte o complexo sistema de impostos eclesiásticos cujo propósito era fazer fluir para as arcas pontifícias os recursos necessários para os desígnios políticos e os sonhos arquitetônicos do papado. Como era de se esperar, em muitos casos este sistema de impostos eclesiásticos redundou em prejuízo da vida religiosa.

Avignon, Palais des Papes depuis Tour Philippe le Bel by JM Rosier.jpg

Benedito XII (1334-1342), ao mesmo tempo que prometia aos romanos regressar em breve à sede de São Pedro, começou a construção de um grande palácio em Avignon [foto], que a partir de então seria a residência papal. Além disto, dando a entender com isto que Roma não era a residência habitual dos papas, ele fez buscar de lá os arquivos papais. Mesmo usando os distúrbios que havia na Itália como desculpa para não ir a Roma, a verdade era que muitos destes distúrbios eram causados pela política do papa, e que sua ausência contribuía para aumentá-los. Durante seu pontificado ficou claro que o papado estava nas mãos da coroa francesa, pois era a época da guerra dos cem anos, e tanto os recursos econômicos como a rede de informações dos pontífices foram colocados à disposição dos franceses. Tudo isto alienou cada vez mais o papado da Inglaterra e do seu principal aliado, o Império.

O próximo papa, Clemente V I (1342-1352), continuou apoiando o esforço bélico francês. Mesmo servindo às vezes cie mediador entre os adversários, ele sempre o foi em benefício e conveniência da França. Além disto foi ele quem levou ao seu ponto culminante duas das piores características do papado de Avignon: o nepotismo e o excessivo desperdício da sua corte, que não podia ser diferenciada da de qualquer outro senhor poderoso. Quando a peste bubônica irrompeu durante o seu pontificado, não faltaram os que viram nela um castigo do céu por causa do nível a que descera a vida eclesiástica.

Inocêncio IV foi um papa relativamente bom, principalmente se comparado com seu predecessor imediato. Ele sempre sonhou em voltar para Roma, e com este propósito enviou para Itália como legado o cardeal Gil Alvarez de Albornoz. Este conseguiu restaurar em grande parte o poder e o prestígio do papa na Itália. Mas tanto o papa como seu legado morreram antes de conseguir levar o papado de volta para a cidade eterna.

Urbano V (1362-1370) era um homem de profundas convicções e rígida disciplina monástica. Sua principal tarefa foi simplificar a vida da cúria. Vários cortesãos papais de gostos mais ostentosos foram despedidos. O próprio papa deu o exemplo, negando-se a deixar seu hábito monástico e usar as roupas vistosas dos seus antecessores. Ele também incentivou o estudo e tentou reformar a vida eclesiástica. Por fim, em 1365, graças à obra tenaz e sábia que o cardeal Albornoz realizara, Urbano V pôde se transferir para Roma, que o recebeu com grande júbilo. Mas o santo papa não tinha a sabedoria necessária para enfrentar as complicações políticas da época. Por razões desconhecidas, e com certeza escusas, ele desfez a política de Albornoz e se lançou em novos empreendimentos fracassados. O resultado foi tal que em 1370 ele decidiu abandonar Roma e regressar para Avignon.

Gregório XI (1370-1378) fora nomeado cardeal por seu tio Clemente VI com somente dezessete anos de idade. Mesmo sentindo a necessidade de voltar para Roma, o fracasso de Urbano V o assustava. Foi então que ocorreu a intervenção de Santa Catarina de Siena.

Santa Catarina de Siena

Em 1347 nasceu em uma família numerosa no bairro dos curtidores em Siena a que depois seria chamada de “Santa Catarina de Siena”. Já muito jovem ela demonstrou uma inclinação singular para a vida religiosa, e com dezessete anos de idade se juntou às “irmãs da penitência de São Domingos”. Esta organização era muito flexível, e seus membros continuavam vivendo em suas próprias casas, dedicando-se ali à penitência e à contemplação. Para que a jovem Catarina pudesse levar este tipo de vida seu pai separou para ela um pequeno quarto, onde passou diversos anos da sua vida contemplativa.

Esta contemplação ia além de exercícios mentais e pensamentos piedosos. As visões e experiências de êxtase foram sendo cada vez mais frequentes na vida da jovem mística. Finalmente, em 1366, com dezenove anos de idade, ela teve a principal visão deste primeiro período da sua vida. Nesta visão lhe apareceu Jesus Cristo, contraindo com ela núpcias místicas.

Depois desta experiência das “bodas místicas com Jesus” o teor da vida religiosa de Catarina mudou. Até então ela tinha se ocupado quase exclusivamente da sua própria vida espiritual. Mas agora, seguindo o exemplo do seu esposo místico, ela iniciou um ministério em prol da humanidade. Parte deste ministério consistiu em servir aos pobres e enfermos. Muitos diziam ter sido curados por sua intercessão, e quase todos afirmavam que somente a sua presença já trazia consigo uma profunda paz espiritual.

A outra parte notável do seu ministério foi o ensino. Ao redor dela se formou um círculo de mulheres e homens que escutavam avidamente seus ensinos sobre a vida espiritual. Muitos destes discípulos eram sacerdotes, monges e nobres que a excediam tanto em idade como em posição social. Ao mesmo tempo de alguns destes discípulos – principalmente os dominicanos – Catarina aprendeu boa parte da teologia da igreja, evitando assim o perigo de tantos outros místicos, de desconhecer o pensamento religioso do restante da igreja, e em conseqüência serem acusados de hereges.

Sua fama já era grande quando em 1370 ela teve outra experiência, que iniciou a terceira e última etapa da sua vida religiosa. Durante quatro horas seu corpo esteve tão imóvel que os que estavam junto dela pensavam que ela tinha morrido. Ao despertar declarou que na verdade estivera com o Senhor, e que lhe rogara que lhe permitisse ficar com ele. Mas Jesus tinha retrucado: “Muitas almas, para serem salvas, exigem que tu voltes …. A partir de agora, e para o bem das almas, sairás da tua cidade. Eu sempre estarei contigo, e te guiarei, e te trarei de volta.”

Daquele momento em diante Catarina se dedicou à árdua tarefa de levar o papado de volta para Roma. Para isto era necessário restaurar a paz na Itália, e convencer o papa de que era necessário voltar. Com este propósito ela viajou de cidade em cidade. Onde ela chegava as multidões acorriam para vê-la. Dizia-se que aconteciam milagres em sua passagem. Ao papa ela escreveu diversas vezes dizendo-lhe que o Senhor lhe tinha revelado que era da sua vontade que o papado voltasse à sede romana. Estas cartas mostram ao mesmo tempo um profundo amor e respeito, e uma firmeza inquebrantável. Enquanto o estado da igreja a entristece, ela chama o papa de “nosso doce pai”. E em suas missivas mais respeitosas ela se queixa, sem com isto se deixar levar pelo ódio ou pela amargura, de “ver Deus assim ultrajado”.

Não é possível saber até que ponto tudo isto teve influência sobre Gregório XI. Mas é fato que por fim, no dia 17 de janeiro de 1377, somente três anos antes da morte de Catarina aos trinta anos de idade, Gregório XI entrou em Roma, em meio ao júbilo generalizado. Tinha terminado o período do papado em Avignon, que foi chamado, com certa razão, de “cativeiro babilônico da igreja”.

Catarina, como temos dito, morreu três anos depois de ver realizado o seu anseio. Pouco menos de um século mais tarde ela foi declarada santa pela igreja romana. E em 1970 Paulo VI lhe conferiu o título de “doutor ela igreja”. Ela e Santa Teresa de Jesus são as únicas mulheres que receberam este honroso título do papado, até então reservado para uns poucos teólogos homens.

A vida eclesiástica

As consequências do papado em Avignon foram funestas para o cristianismo de fala latina – ou seja, de toda a cristandade ocidental. As guerras constantes na Itália, e o luxo das suas cortes requeriam dos papas de Avignon amplos recursos econômicos. Como as diversas facções na Itália se apossaram dos territórios que antes tinham constituído o “patrimônio de São Pedro”, o único recurso que restava aos papas era obter fundos provenientes dos demais países da Europa ocidental. Os fiéis nestas regiões não estavam dispostos a contribuir voluntariamente para tudo o que o papado queria gastar, e por isto os pontífices de Avignon, particularmente João XXII, elaboraram todo um sistema de impostos eclesiásticos.

Estes impostos resultavam em prejuízo para a vida religiosa. Assim, por exemplo, quando um prelado era nomeado para ocupar uma nova sede, as receitas recolhidas ali durante o primeiro ano, chamadas de “anata”, pertenciam ao papa. Por isto o papado tinha interesse em frequentes transferências de prelados. Se uma diocese rica ficava vaga o papa podia demorar para preencher o cargo vacante, recolhendo para si as receitas da sede em questão. Estes hábitos, que pelo menos tinham aparência legal, faziam companhia à simonia – nome derivado do episódio em que Simão, o mágico, foi o primeiro a querer praticá-la – que consistia em comprar e vender cargos eclesiásticos.

O que o papa fazia com os prelados estes faziam com seus subordinados. Se tinham comprado sua diocese, eles precisavam se ressarcir dos gastos vendendo cargos inferiores, e exigindo que as contribuições do povo, que tinham força de lei, fossem cada vez mais elevadas. Portanto boa parte da vida eclesiástica nada mais era que um sistema de exploração dos escassos recursos do povo, arqueado debaixo de encargos cada vez mais onerosos.

À simonia e à exploração se juntaram males relacionados, como o nepotismo, o absentismo e o pluralismo. Como cargos eclesiásticos eram ricas prendas, os papas de Avignon deram rédeas soltas ao nepotismo, que consiste em nomear pessoas para ocupar cargos não com base em sua habilidade, mas em seu parentesco com quem é responsável pela nomeação. E o que os papas faziam os bispos e arcebispos imitavam. O absentismo, isto é, ocupar um cargo e residir em outro lugar, era cada vez mais comum entre pessoas que não tinham nenhuma vocação. E muitos ocupavam ao mesmo tempo diversos cargos eclesiásticos, sem cumprir as obrigações de nenhum deles – pluralismo.

A aliança estreita entre o papado e os interesses franceses, unida a um crescente sentimento nacionalista, contribuiu para aumentar a inimizade que boa parte da Europa tinha pelos papas. Estava em andamento a guerra dos cem anos, e a Inglaterra e os imperadores alemães se separaram cada vez mais do papado, que parecia servir aos interesses de seus inimigos, França e Escócia. Em conseqüência obtinha cada vez mais adeptos a teoria de que o estado tinha uma autoridade independente da do papa. Na Alemanha, por exemplo, o imperador Luís da Baviera tentou fortalecer ‘sua posição contra João XXII apoiando Marcílio de Pádua e Guilherme de Occam, dois pensadores que se dedicavam a defender esta teoria. Assim como Dante poucos anos antes, eles diziam que a autoridade secular vinha diretamente de Deus, e não através do papa.

Marcílio ensinava, além disto, que assim como Cristo e os apóstolos foram pobres e se submeteram à autoridade secular, assim também os prelados deveriam ser pobres, sem receber mais que o estado decidia lhes dar, e deveriam se submeter ao estado. Occam, por sua vez, declarava que o papado não era necessário para a igreja, que consistia no conjunto dos fiéis, e por isto poderia ser dirigida de outra maneira.

Tudo isto, bem como o modo com que foi acolhida a pregação de Catarina de Siena e de muitos outros iguais a ela, nos dá a entender que havia um profundo sentimento de insatisfação com a igreja e seus líderes. Através de todo o período que estudamos veremos que, enquanto a estrutura eclesiástica parece fundir-se cada vez mais, surgem numerosos movimentos reformadores. Uns tentavam reformar a igreja a partir do papado. Outros tinham interesses mais locais. Alguns concentravam sua atenção na vida privada e na experiência mística. Uns queriam reformar tanto os costumes como a teologia da época, enquanto outros se contentavam com conclamar as pessoas para uma dedicação nova. Foi uma época em que a triste realidade deu lugar a muitos e muito nobres sonhos. Mas também foi uma época em que quase todos estes sonhos acabaram frustrados.

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