A era dos sonhos frustrados: o grande Cisma do Ocidente

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  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos sonhos frustrados – Vol. 5. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 057 a 063.

“Por causa do perigo e das ameaças do povo ele foi entronizado e coroado, e chamado papa e apostólico. Mas de acordo com os santos pais e a lei eclesiástica deveria ser chamado apóstata, anátema, anticristo, e perversor e destruidor da fé.” (Conclave rebelde contra Urbano VI)

O sonho de Catarina de Siena parecia ter se cumprido quando Gregório XI levou o papado de volta para Roma. Mas as condições políticas que tinham causado o “cativeiro babilônico da igreja” não tinham desaparecido. Em pouco tempo as dificuldades eram tão grandes que Gregório chegou a considerar a possibilidade de regressar a Avignon, e provavelmente o teria feito se a morte não o tivesse surpreendido. E então o sonho de Catarina se transformou em um pesadelo ainda pior que o papado de Avignon.

Com a sede pontifícia vaga, o povo romano receou que o novo papa quisesse voltar para Avignon, ou ao menos fosse um joguete nas mãos dos interesses franceses, como tantos dos seus predecessores mais recentes o tinham sido. Estes receios não eram infundados, pois os cardeais franceses eram mais numerosos que os italianos, e vários deles tinham dado mostras que preferiam Avignon a Roma. O que o povo temia era que os cardeais fugissem, e, uma vez a salvo, se reunissem em outro lugar, possivelmente dominados pela ala simpática ao rei da França, e elegessem um papa francês que decidisse residir em Avignon. Por esta razão o povo romano se amotinou e impediu a fuga dos cardeais. O lugar onde o conclave deveria se reunir foi invadido por multidões armadas, que somente concordaram em sair depois de receberem permissão para vigiar o edifício, para ter certeza de que os cardeais não escapariam. Enquanto tudo isto acontecia o povo gritava, exigindo que fosse nomeado um papa romano, ou pelo menos italiano.

Nestas circunstâncias o conclave teve muitas dificuldades para deliberar. Os cardeais franceses, que de outro modo teriam podido dominar a eleição, estavam divididos, pois o nepotismo dos papas anteriores resultara na nomeação de um bom número de cardeais procedentes da diocese de Limoges. Estes estavam decididos a fazer eleger um dentre eles, e o restante dos franceses estava decidido a evitá-lo. Entre os italianos o mais poderoso era Jacobo Orsini, que ambicionava a tiara papal, e possivelmente instigava o levantamento do povo.

Mais tarde, enquanto o povo gritava no primeiro andar do edifício, os cardeais, reunidos no andar de cima, decidiram eleger Bartolomeu Prignano, arcebispo de Bari. Mesmo não sendo romano, ele pelo menos era italiano, e com isto o povo se acalmou. No domingo da ressurreição Prignano foi coroado com a participação de todos os cardeais que o tinham eleito, com grande pompa, e tomou o título de Urbano VI.

Em meio àquela igreja corrupta a eleição de Prignano pareceu ser um ato da providência. De origem humilde e hábitos austeros, não havia dúvidas de que o novo papa se dedicaria à reforma que a igreja tanto precisava. Nisto era inevitável que ele se chocasse com os cardeais, que estavam acostumados a levar uma vida ostentosa, sendo que muitos consideravam seu cargo como uma maneira de enriquecer a si e seus familiares. Por isso, mesmo que Urbano fosse um homem cuidadoso e prudente, sua posição sempre seria difícil.

Mas Urbano não era nem cuidadoso nem prudente. No seu afã de erradicar o absentismo, ele chamou os bispos que formavam sua corte, e que por causa disto não estavam em sua diocese, de traidores e perjuros. Do púlpito ele trovejou contra o luxo dos cardeais, e depois declarou que qualquer prelado que recebesse qualquer privilégio com isto já era culpado de simonia, e merecia ser excomungado. Em seus esforços para livrar o papado da sombra da França, ele decidiu nomear um número tão grande de cardeais italianos que os franceses acabaram perdendo seu poder. Só que antes de dar este passo ele cometeu a indiscrição de anunciar seus projetos aos franceses.

Tudo isto constituía a tão ansiada reforma por que anelavam os fiéis de toda a cristandade. Mas, provocando a inimizade dos cardeais, Urbano em pouco tempo começou a ser chamado de louco por eles. E suas atitudes em reação a estes rumores até pareciam confirmá-los. Além disto, ao mesmo tempo em que se proclamava líder da reforma de toda a igreja, ele começou a colocar seus parentes em posições de destaque, tanto eclesiásticas como temporais. Com isto seus opositores podiam dizer que o que o motivava não era o zelo reformador, mas a sede pelo poder.

Com o tempo os cardeais o foram abandonando. Primeiro os franceses, depois os italianos, fugiram para Anagni, e ali declararam, no manifesto que citamos no começo deste capítulo, que Urbano tinha sido eleito sem que o conclave tivesse liberdade de ação, e que esta eleição sob pressão não tinha validade. Os que fizeram esta declaração estavam se esquecendo de que quase todos eles tinham estado presentes não só na eleição, mas também na proclamação e coroação de Urbano, sem que sequer um levantasse sua voz em protesto. E também esqueciam que durante diversos meses eles tinham formado a corte de Urbano, considerando-o papa verdadeiro, sem pôr em dúvida a validade da eleição.

A resposta de Urbano foi simplesmente nomear vinte e seis novos cardeais de entre os seus adeptos. Se os outros cardeais não o aceitassem como o papa legítimo, eles perderiam seu poder. Por isto não lhes restava outra alternativa que declarar que, já que a eleição de Urbano não era válida, a nomeação dos novos cardeais também não o era, e proceder à eleição de um novo papa.

Reunidos em conclave, os mesmos cardeais – exceto um – que tinham eleito Urbano, e que por algum tempo tinham servido a ele, elegeram um novo pontífice. Os cardeais italianos que estavam presentes se abstiveram de votar, mas não protestaram.

Surgiu assim um fenômeno sem precedentes na história do cristianismo. Diversas vezes houvera pessoas que declaravam que o papa era ilegítimo. Mas pela primeira vez havia dois papas eleitos pelo mesmo colégio de cardeais. Um deles, Urbano VI, fora repudiado pelos que o tinham eleito, e criara seu próprio colégio de cardeais. O outro, que tomou o título de Clemente VII, tinha o apoio dos cardeais que representavam a continuidade com o passado. E toda a cristandade ocidental se viu obrigada a se decidir por um ou outro pretendente.

A decisão não era fácil. Urbano VI tinha sido eleito legitimamente, apesar dos protestos atrasados dos que o tinham eleito. Seu rival, só pelo fato de tomar o nome de Clemente, se mostrava disposto a seguir a tradição do papado de Avignon. Mas também era verdade que Urbano apresentava cada vez mais evidências de estar louco, ou pelo menos embriagado com seu poder, e que Clemente era um diplomata hábil e moderado – se bem que a diplomacia não bastava para recomendar este pretendente ao papado, pois anteriormente ele estivera envolvido em episódios sangrentos, e nem mesmo seus partidários defendiam sua piedade e devoção.

Assim que se viu eleito, Clemente tentou se apoderar de Roma, onde se entrincheirou no castelo de Santo Ângelo. Mais tarde, porém, ele foi derrotado pelas tropas de Urbano, e se viu obrigado a sair da Itália e estabelecer sua residência em Avignon. O resultado foi que a partir de então houve dois papas, um em Roma e outro em Avignon. Os dois imediatamente enviaram legados por toda a Europa, tentando garantir para si o apoio dos soberanos.

Como era de se esperar a França optou pelo papa de Avignon, sendo acompanhada nesta decisão pela Escócia, sua antiga aliada na guerra contra a Inglaterra. Este último país seguiu o caminho oposto, pois o papado de Avignon era contrário aos seus interesses nacionais. Também a Escandinávia, Flandres, Hungria e Polônia se declararam a favor de Urbano. Na Alemanha o imperador fez o mesmo, pois era aliado da Inglaterra contra a França. Muitos dos seus nobres e bispos independentes, no entanto, se opuseram a esta decisão, ou estavam indecisos entre os dois pretendentes. Na península ibérica, Portugal mudou de parecer diversas vezes; Castela e Aragão, que a princípio se inclinavam para o lado de Urbano, mais tarde optaram pelo grupo de Avignon, graças à hábil política do cardeal Pedro de Luna. t\a Itália cada príncipe ou cidade seguiu seu próprio caminho, e o reino de Nápoles mudou de partido diversas vezes.

Catarina de Siena dedicou os poucos anos de vida que lhe restavam para defender a causa de Urbano. Mas esta causa era difícil de ser defendida, pois o papa de Roma decidiu colocar seu sobrinho Butillo Prignano sobre o principado de Cápua, especialmente criado para ele. Esta atitude o levou a guerras injustificáveis, que fizeram com que ele perdesse parte do apoio que tinha na Itália. E quando alguns dos seus próprios cardeais tentaram aconselhá-lo a seguir uma política diferente Urbano os mandou encarcerar e torturar. Até hoje não se sabe como morreram diversos deles.

Clemente VII, por seu lado, adotou uma política bem mais cautelosa, e, mesmo não conseguindo fazer valer sua autoridade no resto da Europa, pelo menos se fez respeitar nos países que o reconheciam como papa, dando assim certo prestígio ao papado avinhonês.

 Como o cisma não se baseava somente na existência de dois papas, mas também na de dois partidos formados ao redor deles, a morte de um deles não seria suficiente para subsaná-lo. Assim que Urbano faleceu, em 1389, seus cardeais nomearam Bonifácio IX. Mais uma vez o nome adotado pelo novo papa indicava que ele seguiria a política de Bonifácio VIII, cujo grande inimigo tinha sido a coroa francesa. Este novo Bonifácio se esqueceu totalmente da reforma, e seu governo foi caracterizado pelo auge a que chegou a simonia.

O cisma em si estimulava a simonia. Os dois rivais tentavam vencer seu adversário, e para isto precisavam de dinheiro. Por esta razão a igreja se transformou em um sistema de impostos e exploração, mais terrível que os piores tempos do “cativeiro babilônico”.

Em meio a estas circunstâncias os teólogos da universidade de Paris começaram a pensar em um meio de unir novamente a cristandade ocidental. Em 1394 eles apresentaram ao rei três alternativas para acabar com o cisma: a primeira era que os dois pretendentes renunciassem, e fosse eleito um novo papa; a segunda previa a negociação entre os dois partidos, sujeita a arbitragem; e a terceira, um concílio universal. Destas três alternativas a universidade preferia a primeira, pois para poder aplicar as outras duas era necessário resolver as difíceis questões de quem seriam os árbitros, ou quem convocaria o concílio. O rei seguiu os conselhos da universidade, e por isto, assim que soube da morte de Clemente VII, pediu aos cardeais de Avignon que não elegessem outro papa, na esperança de poder obrigar o pretendente romano a abdicar.

Mas os cardeais temiam que se ficassem sem papa sua causa perderia sua força, e por isto se apressaram em eleger o cardeal Pedro de Luna, que tomou o título de Benedito XIII. Se depois disto o rei quisesse insistir na recomendação da universidade, teria de enfrentar os dois partidos, cada um com seu próprio papa, e não um partido acéfalo.

Carlos VI, o rei da França, insistiu no caminho que tinha traçado. Seus embaixadores tentaram persuadir Benedito a renunciar, enquanto outros se empenhavam em conseguir o apoio da Inglaterra e do Império, para que estas duas potências obrigassem o papa romano a fazer o mesmo. O papa avinhonês, todavia, que agora era o espanhol Pedro de Luna, se negou a abdicar. Então a igreja da França, reunida em concílio solene, lhe retirou a obediência, e pouco depois as tropas de Carlos VI sitiaram Avignon, no propósito de fazê-lo renunciar pela força. Pedro de Luna, entretanto, ficou firme. Mesmo abandonado pelos seus cardeais, ele reforçou a defesa de Avignon e resistiu ao cerco francês, até que conseguiu fugir disfarçado. Sua obstinação rendeu frutos, pois pouco tempo depois as circunstâncias políticas mudaram, e a França voltou a se declarar a seu favor.

Todos estes acontecimentos, porém, mostravam claramente que a cristandade estava cansada do cisma, e que se os dois papas não dessem sinal de estarem dispostos a resolver a questão, haveria outras pessoas que a resolveriam em seu lugar. Isto levou Benedito XIII a iniciar conversações com seu rival de Roma. Seu propósito não era nem ceder nem renunciar, mas ganhar tempo enquanto se preparava para vencer seu adversário, e então obrigar a Europa a aceitar um fato consumado. Seus embaixadores se entrevistaram com Bonifácio IX, e depois com o sucessor deste, Inocêncio VII.

Com a morte de Inocêncio, entretanto, o partido romano tomou a iniciativa. O novo papa, Gregório XII, declarou ao ser eleito que estava disposto a abdicar se Benedito fizesse o mesmo. Isto forçou o papa avinhonês a agir, pois se não o fizesse ele seria culpado por continuar o cisma, perdendo assim o apoio da França e de outros países. Os dois papas marcaram um encontro em Savona, para setembro de 1407. Mas logo surgiram dificuldades, e Gregório não foi ao encontro. Graças a uma longa série de negociações encetadas por cardeais dos dois partidos os dois rivais foram se aproximando até restarem poucos quilômetros de distância entre eles. Mas em maio de 1408 a entrevista ainda não tivera lugar, e Gregório se negava a ir até onde Benedito o esperava.

Diante desta negativa categórica os cardeais do partido romano abandonaram seu líder, e iniciaram por conta própria conversações com o partido avinhonês. Ao mesmo tempo a França retirou seu apoio a Benedito, e assim os dois papas estavam desamparados, enquanto o restante da cristandade procurava por seus próprios meios resolver o cisma. O movi mento conciliar, que estivera em formação já há muito tempo, via chegar a sua hora.

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