A era dos sonhos frustrados: a reforma conciliar

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  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos sonhos frustrados – Vol. 5. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 065 a 079.

“Um concílio pode retirar os privilégios dos papas, e não há apelação possível contra ele. Pode também eleger, rebaixar ou depor o papa. Pode fazer novas leis, e anular as antigas.” (Dietrich de Niem)

Durante a “era dos gigantes”, quando a igreja ameaçava se dividir por causa da controvérsia ariana, Constantino  decidiu convocar uma assembleia a que viessem bispos de todo o Império. A partir daquele concílio de Nicéia, e durante vários séculos, cada vez que a igreja se encontrava em situação semelhante apelava-se ao recurso de convocar um concílio universal ou “ecumênico”. Durante a “era dos altos ideais” o poder do papa era tão grande que os concílios estavam subordinados aos papas. Exemplo disto foi, como vimos, o IV Concílio de Latrão, convocado por Inocêncio ‘” para aprovar uma série de medidas que ele e sua cúria tinham determinado de antemão.

Mas agora, com as experiências tristes do “cativeiro babilônico” e do Grande Cisma do Ocidente, começou a predominar a ideia de um concílio que não somente julgasse as ações dos papas, mas reformasse a igreja, resolvendo os problemas que os papas tinham criado com suas ambições, disputas e corrupção.

A teoria conciliar

Se bem que os papas e cardeais parecessem estar surdos durante muito tempo, na verdade toda a cristandade ocidental estava cansada dos desmandos dos potentados eclesiásticos, e anelava por uma reforma moral da igreja. Durante o período do “cativeiro babilônico” as vozes de protesto vinham, principalmente dos países que estavam em guerra com a França. Mas o Grande Cisma criou um clima universal de impaciência com as maquinações dos papas. Como eram os eruditos que constantemente punham na forma escrita seu inconformismo, vemo-nos obrigados a dirigir nossa atenção principalmente para estes testemunhos. Mas ao fazermos isto não devemos esquecer que para as massas não se tratava somente do escândalo que era a existência de dois papas, mas também e sobretudo da exploração econômica que a ostentação e as necessidades políticas e militares dos contendentes acarretavam. p\ simonia, o absentismo e o pluralismo, que incendiavam a ambição dos poderosos, resultavam em impostos cada vez mais elevados para as massas. Assim a igreja, que em seus primeiros séculos e mesmo depois em seus melhores momentos fora defensora dos pobres, se converteu em mais um peso que oprimia as classes já oneradas.

Enquanto isto, principalmente nas universidades, o descontentamento ia assumindo formas teológicas. Os estudiosos sabiam que o bispo de Roma nem sempre tivera as prerrogativas que agora exigia, e de que gozara nos séculos anteriores. A este conhecimento se unia o antigo espírito do franciscanismo, que não morrera, e para o qual a pobreza voluntária era uma das virtudes mais recomendáveis. Por isto muitos dos que se opunham à demasiada autoridade do papa e advogavam um concílio que reformasse a vida e os hábitos da igreja eram eruditos, franciscanos, ou as duas coisas.

A teoria conciliar tinha velhas raízes históricas. Para nossos efeitos podemos dizer que o grande mestre dos principais expoentes do conciliarismo foi Guilherme de Occam, ao qual já fizemos referência quando falamos do “cativeiro babilônico” do papado, e que ocupará boa parte da nossa atenção, quando, no próximo capítulo, tentaremos resumir a teologia da época.

A maior parte dos teólogos medievais de antes do século XIV estivera convicta de que as ideias universais eram anteriores às coisas concretas incluídas nestas ideias. Assim, por exemplo, a ideia de “cavalo” era anterior aos cavalos individuais, e tem uma realidade própria, à parte destes. Esta posição, que veio a ser clássica, é chamada de “realismo”, porque afirmava que as ideias universais eram reais. Occam e boa parte da sua geração teológica, pelo contrário, criam que real é antes de tudo o indivíduo concreto, e que as ideias universais são nomes ou conceitos que existem somente na mente. Por isto são chamados de “nominalistas”

 Aplicando isto à igreja, a conclusão a que chegavam Occam e seus seguidores era que a igreja não era uma realidade celestial ou ideal, representada na terra pelo papa e a hierarquia derivada dele, mas era o conjunto dos fiéis. Os fiéis constituem a igreja, e não vice-versa, Se isto é verdade, conclui-se que a autoridade eclesiástica não está arraigada intrinsecamente no papa, mas nos fiéis, de quem o pontífice deriva sua posição. Em conseqüência, um concílio universal que representasse os fiéis de toda a cristandade deveria ter mais autoridade que o papa.

Isto não quer dizer que o concílio seria necessariamente infalível, pois, como veremos mais adiante, Occam não crê que haja instituição que não erre, e insiste na liberdade de Deus para se revelar de acordo com sua vontade soberana. Mas significa que, em um caso em que a igreja claramente precisa de uma reforma, e o papa se nega a dirigi-la, um concílio universal tem a autoridade necessária para reformar a igreja, mesmo contra a vontade do papa.

Occam desenvolveu estas teorias enquanto o papado estava em Avignon. Depois, com o Grande Cisma, quando ficou claro que os dois contendentes estavam mais interessados em seu próprio poder que no bem-estar da igreja, as teorias conciliaristas receberam um novo ímpeto. Para seus principais expoentes a ideia de um concílio universal não somente seria uma maneira de pôr fim ao cisma, mas também o melhor instrumento para reformar a igreja. Os graves males da época eram então atribuídos à excessiva centralização do poder eclesiástico. A função do concílio, portanto, não poderia ser limitada à escolha entre os dois papas existentes, ou à nomeação de outro em seu lugar, mas o concílio teria de se ocupar diretamente da reforma da igreja, e parte desta reforma era a descentralização do poder. Como muitos diziam, “sem concílio não há reforma”.

Durante muito tempo todas estas ideias foram discutidas nas universidades, e nas principais cortes da Europa. Mas sempre existia a dificuldade de que os conciliaristas não concordavam entre si quanto a quem deveria convocar o tão ansiado concílio. Durante os últimos séculos os papas tinham convocado os concílios. Mas agora havia dois papas, e por isto a convocação por um deles faria perigar a imparcialidade da assembleia. Como os primeiros concílios foram convocados pelos imperadores, alguns argumentavam que esta tarefa cabia ao imperador, ou pelo menos a soberanos temporais. Todos estes soberanos, no entanto, simpatizavam com um ou outro dos pretendentes, e por isto um concílio reunido por iniciativa deles também não poderia ser o melhor caminho para reformar a igreja.

As coisas estavam nisto quando os avanços e retrocessos de Benedito XIII e Gregório XII levaram os cardeais a intervir diretamente na questão, abandonando seus respectivos papas e fazendo uma convocação conjunta para um grande concílio universal, que deveria se reunir em Pisa no ano seguinte (1409).

O concílio de Pisa

Enquanto os cardeais reunidos em Pisa acusavam seus ex-líderes dos crimes mais baixos, estes apressadamente fugiram para se esconder, Benedito XIII em Perpinhão, que então fazia parte de Aragão, e Gregório XII em Veneza, sua cidade de erigem. Assim que se viram a salvo os dois tentaram se adiantar aos cardeais, convocando cada qual um concílio universal.

O concílio de Benedito XIII teve certo êxito inicial, pois um respeitável número de prelados atendeu ao seu convite. Mas não tardaram a surgir discórdias entre os presentes, e pouco a pouco todos foram abandonando o lugar, até que a assembleia se dissolveu. Benedito então se retirou para a fortaleza de Penhíscola, onde viveu mais quinze anos, sempre insistindo em que ele era o legítimo sucessor de São Pedro.

Quanto a Gregório, sua situação era ainda mais precária, pois não tinha um reino que o protegesse, como Benedito tinha Aragão. Seu pretenso concílio nunca passou de um punhado de partidários de quem ninguém fez caso. Por fim ele se retirou para Rímini.

Enquanto isto chegara o dia marcado para o concílio de Pisa. Na catedral desta cidade se reuniu uma multidão que incluía, além dos cardeais dos dois colégios, um grande número de arcebispos, bispos, abades e ministros gerais de ordens, bem como várias centenas de doutores em direito canônico e em teologia.

Como todos os presentes sabiam que a legalidade do concílio teria de ser inapelável, as sessões foram extremamente bem dirigidas. Quando chegou o momento de julgar o caso dos dois papas, foi seguido com todo o cuidado o processo formal. Por três dias consecutivos, na porta da catedral, eles foram chamados pelo nome (isto é, seus nomes antes de serem papas, Pedro de Luna e Ângelo Correr), e solicitados a se apresentarem, ou a enviarem representantes. Quando, como era de se esperar, esta convocação não teve resultados, procedeu-se a um julgamento formal. Depois de muitos dias de testemunhos contra os dois papas, eles foram depostos, e o papado declarado vago:

O santo concílio ecumênico, que representa a católica Igreja de Deus, e a quem corresponde julgar este assunto, reunido pela graça do Espírito Santo na catedral de Pisa, e depois de ter escutado os que querem a extirpação do cisma abominável e profundo, e a união e restauração da nossa santa mãe igreja, contra Pedro de Luna e Ângelo Correr (que alguns chamam de Benedito XIII e Gregório XII), declara que os crimes e abusos destes dois, como foi demonstrado diante do sacro condi ia, são verdadeiros e conhecidos. Os dois pretendentes, Pedro de Luna e Ângelo Correr, foram e continuam sendo cismáticos manifestos, partidaristas obstinados, que aprovam, defendem e promovem o cisma. São evidentemente hereges que se apartaram da fé. Cometeram perjúrio, e suas promessas nada valem. Sua disputa manifesta e repetida escandaliza a igreja. Seus enormes abusos e iniquidades os fazem indignos de toda honra e dignidade, e em particular do pontificado supremo. E mesmo se os cânones da igreja já mostram que eles são automaticamente rejeitados por Deus e separados da igreja, nós, através desta sentença definitiva, os depomos, rejeitamos e expulsamos, e proibimos aos dois que continuem se chamando de pontífices supremos, ao mesmo tempo que declaramos que o papado está vago.

Notemos que este decreto não declara que a eleição deste ou daquele papa tenha sido nula. Se a questão fosse levantada desta maneira, o concílio se teria dividido, pois nele estavam presentes cardeais que tinham votado neste ou naquele pretendente. Portanto, em vez de tentar resolver a questão, como tinha sido feito até então, com base em que os dois pretendentes não tinham sido eleitos legalmente, ela foi resolvida deixando este problema de lado, e o concílio os depôs por causa de sua conduta indigna. Era impossível determinar qual dos dois era o papa legítimo, mas era de se supor que um dos dois o fosse. Por isto o concílio declarou indiretamente que um papa, mesmo sendo eleito de maneira correta, poderia ser julgado e deposto por uma assembleia que representasse toda a igreja.

Com o papado vago, era necessário eleger um novo papa. Com a presença dos cardeais dos dois partidos esta eleição podia ser realizada imediatamente. Mas a assembléia tinha outro propósito fundamental em sua agenda. Não bastava eliminar o cisma. Era necessário dar pelo menos os primeiros passos em direção à reforma que todos queriam. E para muitos dos presentes uma das causas principais dos males que afligiam a igreja era a excessiva centralização do poder. Por isto, antes de um novo papa ser eleito e a reunião dissolvida, era necessário garantir que o pontífice eleito reconheceria a necessidade do concílio, e estaria disposto a acatar sua autoridade. Por esta razão todos juraram:

Todos e cada um de nós, bispos, sacerdotes e diáconos da santa igreja romana, reunidos na cidade de Pisa para terminar o cisma e restaurar a unidade da igreja, empenhamos nossa palavra de honra e prometemos … que, se um de nós for eleito papa, ele continuará o presente concílio, sem dissolvê-lo nem permitir, até onde estiver ao seu alcance, que seja dissolvido, até que tenha ocorrido a reforma adequada, razoável e suficiente da igreja universal, tanto em seu cabeça como em seus membros.

Pouco depois o conclave se reuniu e elegeu Pedro Filareto, o arcebispo de Milão, que tomou o nome de Alexandre V. Depois desta eleição o concílio decretou diversas medidas em favor da reforma eclesiástica, e se declarou dissolvido, congratulando-se por ter terminado o cisma e dado os primeiros passos em direção a uma reforma que eliminaria males tais como a simonia e o absentismo.

Os três papas

Mas o concílio de Pisa, longe de resolver o cisma, o complicou, pois agora havia três papas, e cada um se considerava legítimo sucessor de São Pedro e cabeça da igreja. Se bem que a maior parte dos países da Europa ocidental aceitava tanto o concílio de Pisa como o papa nele eleito, Benedito ainda era considerado papa legítimo por toda a península ibérica e pela Escócia. Gregório, por seu lado, contava com o apoio vacilante de Nápoles e Veneza, e com a ajuda decidida dos Malatesta, que eram donos da cidade de Rímini. Portanto, mesmo sendo o papa pisano sem dúvida o que gozava do reconhecimento mais geral, os outros dois ainda eram capazes de continuar mantendo suas cortes e pretensões.

Em vez de atacar imediatamente seus dois rivais, Alexandre V se dedicou a consolidar sua posição confirmando quase todos os cargos e honras que tinham sido conferidos pelos dois papas que o concílio tinha declarado depostos. Mas isto queria dizer que, mesmo sendo ele um franciscano de vida austera e leal defensor da reforma, esta foi relegada a segundo plano, pois os privilégios confirmados por ele eram precisamente o pior dos males que deveriam ser erradicados. No momento sua principal tentativa de reforma consistiu em dar mais direitos e ingerência nos assuntos eclesiásticos aos seus companheiros de ordem. Como os franciscanos tinham feito votos de pobreza, e muitos deles ainda levavam estes votos muito a sério, Alexandre parece ter esperado que sua ordem pudesse ser seu braço direito quando chegasse a hora de se dedicar totalmente à reforma da igreja. Mas a única coisa que Alexandre conseguiu obter foi a inimizade do restante do clero, para quem os mendicantes eram um estorvo, e que estava insatisfeito porque nada tinha sido feito contra os males que afligiam a igreja quando o papa morreu, pouco mais de dez meses depois de ser eleito.

Alexandre morreu em Bologna, e ali mesmo os cardeais se reuniram para eleger seu sucessor, que acabou sendo o menos digno deles, Baltasar Cossa, que tinha começado sua carreira como pirata e na época era dono – mais que dono, tirano – de Bologna. Há diversas versões sobre o que aconteceu no conclave, mas não resta dúvida de que o fato de estarem reunidos em Bologna pesou sobre a decisão dos cardeais, e conta-se até que Cassa rejeitou altaneiramente todos os candidatos propostos, e que por fim tomou a estola papal, colocou-a sobre os seus ombros, e declarou: “Eu sou o papa”.

Seja qual for o modo com que o novo papa foi eleito, o fato é que ele tomou o nome de João XXIII, e que logo tentou encher suas arcas através de uma guerra contra Ladislau de Nápoles, onde esperava obter rica presa. Mas as coisas não saíram como João esperava, e ele logo se viu só e ameaçado pelos napolitanos, que quase tomaram sua cidade.

Em meio a estas dificuldades João XXIII pensou que a melhor maneira de garantir a segurança de Roma era convocar um concílio que se reunisse na cidade. Ladislau não se atreveria a agir militarmente contra a sede de uma tão augusta assembléia. Mas o pretenso concílio acabou sendo uma piada. Bem poucos prelados se atreveram a ir para uma cidade tão em perigo.

o-corvo-na-assembleia-de-joao-xxiiiQuando a pequeníssima assembleia por fim se reuniu, os cronistas nos contam que, quando durante a celebração da missa foi implorada a descida do Espírito Santo, apareceu um corvo dando gritos. O incidente se transformou em comédia quando alguém comentou: “Que forma rara assumiu o Espírito Santo!” No dia seguinte novamente foi necessário interromper as sessões para expulsar o corvo do recinto com varas e pedradas.

Enquanto sucedia tudo isto os outros dois papas, Benedito XIII e Gregório XII, insistiam em suas pretensões. E, depois de uma breve trégua, Ladislau voltou a ameaçar Roma. Ao papa João não restou outro remédio que fugir da Itália e se refugiar sob a ala do imperador da Alemanha, Sigismundo. Foi isto que levou ao concílio de Constança e ao fim do cisma.

[Nota:] Antes de narrar estes acontecimentos precisamos nos deter para esclarecer uma dúvida que pode ter surgido na mente do leitor. Como é que o papa de que estamos falando se chamava João XXIII, se houve no século XX outro famosíssimo papa com o mesmo nome e número? Sucede que a igreja romana reconhece como papas legítimos durante o cisma somente Urbano VI e seus sucessores. Tanto Benedito XIII e seu predecessor Clemente VII como os papas pisanos, Alexandre V e João XXIII, são considerados antipapas. Isto é necessário para a igreja romana, ainda que na verdade Alexandre e João tenham gozado de um reconhecimento muito mais amplo que Gregório X II, porque de outro modo essa igreja teria de concordar que o concílio de Pisa depôs Gregório legalmente, e que assim os papas estão sujeitos aos concílios e não vice-versa.

O concílio de Constança

Sigismundo, o imperador da Alemanha sob cuja proteção João se colocou, era na época o soberano mais poderoso da Europa. Durante muito tempo a coroa alemã estivera em disputa. Mas agora estava firmemente colocada na cabeça de Sigismundo, que tomou o título imperial com toda a seriedade, e se dedicou a imitar Carlos Magno. As demais potências europeias eram mais fracas que ele. A França, a única que em outras circunstâncias poderia ter-lhe feito sombra, estava debilitada pela guerra dos cem anos e pela disputa entre armagnacs e borgonhões. Nestas circunstâncias Sigismundo sonhou em ser aquele que pusesse fim ao cisma, iniciando a tão ansiada reforma eclesiástica. Por isto, quando João XXIII recorreu a ele, o imperador concordou em protegê-lo, sob a condição de que convocasse um concílio universal, que deveria se reunir na cidade imperial de Constança.

Quando o concílio iniciou suas sessões, em fins de 1414, João XXIII tinha motivos para ter esperanças, pois tanto o imperador como a grande maioria dos presentes o tinham recebido com amplas mostras de respeito, dando a entender que o consideravam o papa legítimo. Mas ao mesmo tempo havia sinais de perigo. Em um sermão, o cardeal Pedro de Ailly, um dos homens mais eruditos e respeitados da época, declarou que o concílio tinha poder sobre o papado, e que somente era digno de ocupar esta alta dignidade quem levasse uma vida exemplar. Pouco depois correram comentários no sentido de que João era um papa indigno. Muitos dos presentes tinham dúvidas sobre se seria possível levar a cabo as reformas necessárias enquanto ele fosse papa. Quando chegaram os embaixadores de Gregório XII, declarando que ele estava disposto a renunciar se os outros dois papas fizessem o mesmo, a situação de João ficou desesperadora. Para cúmulo dos males o concílio decidiu que as votações seriam por nações. Toda a assembléia foi organizada em quatro “nações”: os ingleses, os franceses, os italianos, e os “alemães”, para os quais eram contados também os escandinavos, os poloneses e os húngaros – mais tarde, quando chegaram os delegados ibéricos, foi acrescentada a quinta nação, dos espanhóis. Esta maneira de organizar o sufrágio significava que os italianos, em cujo grande número João confiava, tinham somente um voto.

Mais tarde o concílio exigiu a renúncia de João XXIII. Este deu a impressão de que cederia, mas assim que surgiu a oportunidade ele se disfarçou de lacaio e fugiu de Constança.

Durante mais de dois meses o antes poderoso papa vagou fugitivo. Sua situação ficava cada vez mais difícil, pois seu principal protetor entre os nobres, o duque da Áustria, foi vencido pelo imperador, e a partir de então era-lhe quase impossível encontrar asilo. Quando por fim foi aprisionado e levado de volta a Constança ele estava abatido e disposto a renunciar. Sem mais demora o concílio aceitou sua renúncia, e o condenou a passar o restante de seus dias prisioneiro, com medo de que voltasse a reclamar a tiara papal.

Ainda restavam dois papas. A 4 de julho, pouco depois da abdicação de João XXIII, Gregório XII seguiu seu exemplo. Quanto a Benedito XIII, seus seguidores ficaram reduzidos a um punhado quando o imperador Sigismundo, mediante uma série de negociações com os estados ibéricos, conseguiu que todos lhe retirassem sua obediência. De sua fortaleza em Penhíscola o velho cardeal Pedro de Luna continuou proclamando que ele era o único papa legítimo, com o título de Benedito XIII, mas ninguém já lhe prestava atenção.

Na falta de um papa, o concílio passou a ser o poder supremo, e se dedicou à reforma da igreja. Pouco antes, como veremos em outro capítulo, João Huss tinha sido condenado, e muitos dos presentes acreditavam que esta decisão era um passo necessário para a tarefa de livrar a igreja de qualquer mancha de heresia ou corrupção. Mas ainda faltava dar passos concretos para erradicar males como a simonia, o pluralismo e o absentismo. O concílio, então, se dedicou a esta tarefa, e logo descobriu que, além de uma série de decretos de caráter geral, pouco podia ser feito de imediato. Por isto a assembléia se contentou com promulgar uma série de medidas contra os abusos da época, e se dedicou a outras duas tarefas que ainda estavam pendentes. A primeira era a eleição de um novo papa. A segunda, muito mais importante do ponto de vista dos conciliaristas, era garantir que houvesse concílios periódicos que controlariam os papas, para que eles fizessem as reformas necessárias.

Cansados de um concílio que tinha durado três anos, os membros da assembléia decidiram que, em vez de insistir de imediato na reforma, eles simplesmente garantiriam que o movimento conciliar pudesse continuar, e depois elegeriam um novo papa. Asseguraram a continuação do movimento conciliar mediante o decreto Frequens, que ordenava que haveria novas assembleias conciliares em 1423, 1430, e a partir de então a cada dez anos. Feito isto, entre os cardeais presentes e uma comissão do concílio, foi eleito um novo papa, que tomou o nome de Martim V. O Grande Cisma do Ocidente tinha terminado. O movimento conciliar, entretanto, que por causa do cisma chegara ao seu auge, não tardou a decair.

O triunfo do papado

Os próximos anos foram um período de tensão constante entre a doutrina conciliarista e a da monarquia papal. Martim V, que era um diplomata hábil, tomou cuidado em não contradizer os decretos do concílio de Constança. Mas tampouco confirmou os que estavam dirigidos contra seu poder.

Em obediência ao ordenado no decreto Frequens do concílio de Constança, o papa convocou uma nova assembleia, que se reuniu em Pávia e depois se transferiu para Siena, fugindo da peste. Mas este concílio, agora que o cisma tinha terminado, teve pouca assistência, e no ano seguinte Martim o declarou concluído, sem que ele tivesse aprovado mais que alguns decretos de menor importância.

Quando se aproximou a data em que deveria se reunir o próximo concílio (1430), o papa deu mostras de querer ignorar o que fora decretado em Constança. Mas percebeu que as ideias conciliares ainda tinham muita força, e acabou convocando o concílio, que se reuniu em Basiléia.

Martim V morreu pouco depois de convocado o concílio, e seu sucessor, Eugênio IV, cometeu o grave erro de tentar dissolver a assembléia. A reação foi imediata. O cardeal Cesarini, que Martim V nomeara presidente da assembléia, se negou a obedecer ao decreto de dissolução. Isto imediatamente concentrou a atenção da Europa no concílio, que até então não tinha causado muito impacto. Em Basiléia o conciliarismo mais extremado se apossou da reunião. O prestigioso erudito Nicolau de Cusa dizia que somente o concílio era infalível, e que por isto os ali congregados não tinham obrigação de obedecer ao papa, mas sim, de julgar se ele agia de maneira correta. Os cardeais Cesarini e Enéias Sílvio Piccolomini (que depois seria Pio II) defendiam teses semelhantes. O imperador Sigismundo se negou a reconhecer o decreto de dissolução, e pressionou o papa para que o retirasse. Por fim, vendo-se sozinho e desamparado, Eugênio IV se rendeu, e declarou que o concílio de Basiléia estava devidamente constituído.

Esta capitulação de Eugênio IV parecia indicar para o triunfo final das doutrinas conciliaristas. A partir de então o concílio de Basiléia deu mostras de pretender continuar se reunido indefinidamente, e governar a igreja diretamente. Uma série de medidas foi limitando o poder do papa, e cortando seus recursos econômicos. Enquanto isto, na Itália, a situação política de Eugênio era cada vez mais precária.

Um acontecimento inesperado, no entanto, veio fortalecer o prestígio papal. Constantinopla estava fortemente assediada pelos turcos. Do antigo Império Bizantino restava somente uma sombra, e esta sombra também desapareceria se o Ocidente não acudisse em socorro dos seus irmãos orientais. Isto não era fácil de conseguir, pois as igrejas do Oriente e do Ocidente tinham estado separadas por séculos, e se acusavam mutuamente de heresia. Em seu desespero o imperador de Constantinopla e o patriarca desta cidade decidiram que era necessário acabar com o cisma que já durava quase quatro séculos. Com este propósito eles recorreram ao papa, e se mostraram dispostos a participar do concílio, se este se reunisse em uma cidade mais acessível, a partir de Constantinopla.

O concílio de Basileia negou-se a se transferir, e o papa proclamou um decreto transferindo-o para Ferrara. A maior parte da assembléia fez caso omisso da ordem pontifícia e permaneceu em Basileia. Mas outros, vendo a oportunidade de reunir as igrejas do Oriente e do Ocidente, acudiram para Ferrara. Resultava, assim, que o movimento conciliar, que chegara ao ápice do seu poder em reação ao Grande Cisma do Ocidente, quando havia dois papas, por sua vez caía no cisma, pois agora havia um papa e dois concílios.

O concílio de Ferrara, que depois foi transferido para Florença, contava com poucos prelados, e o restante da cristandade lhe teria dado pouca atenção se em julho de 1439 não tivesse sido proclamada solenemente a reunião das igrejas bizantina e ocidental. Para conseguir esta união tanto o imperador como o patriarca de Constantinopla aceitaram a supremacia papal.

Enquanto isto, não restava ao Concílio de Basiléia, outra alternativa senão tomar medidas cada vez mais extremas contra o papa. Enéias Sílvio Piccolomini e Nicolau de Cusa abandonaram a ideia conciliar e passaram para o partido do papa. Um a um os diversos reinos e senhorios da Europa foram retirando seu apoio à assembléia de Basiléia, cujos membros se reduziam cada vez mais. O que restava do longo concílio, por sua vez, iniciou um processo contra Eugênio IV, declarando-o deposto. Em seu lugar foi nomeado Félix V. Assim, não só havia dois conflitos, mas o movimento conciliar ressuscitara o cisma papal. Mas já quase ninguém fazia caso daquele sínodo, que pouco depois se transferiu para Lausanne, e acabou se dissolvendo. Quando Félix V por fim renunciou, em 1449, o papado romano saíra indiscutivelmente vencedor sobre as ideias conciliares.

Estas ideias continuaram circulando por muito tempo, a ponto de, como veremos no próximo volume, Lutero chegar a pensar que um concílio universal seria a melhor maneira para defender sua causa reformadora. A partir da dissolução do concílio de Basiléia, todavia, não houve outra assembléia semelhante que não servisse aos interesses do papado, ou estivesse sob seu domínio.

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