A era dos sonhos frustrados: os movimentos populares

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  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos sonhos frustrados – Vol. 5. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 109 a 121

“Os bispos, príncipes, condes e cavaleiros deveriam ter permissão para possuir somente tanto quanto o povo em geral. Virá o dia em que também eles terão de ganhar a vida trabalhando.” (Hans Böhm)

Nos últimos três capítulos, e em diversos dos que seguirão e este, dedicamos nossa atenção a movimentos reformadores cuja origem foi principalmente acadêmica. Os conciliaristas na universidade de Paris, Wycliff na de Oxford, e Huss na de Praga, foram todos respeitados em sua época por seus conhecimentos. Mesmo sendo acusados de hereges e sediciosos, ninguém se atrevia a dizer que seus erros provinham da ignorância.

Ao lermos os anais da época, no entanto, nos assalta a suspeita de que estes movimentos reformadores entre pessoas eruditas eram somente uma parte muito pequena do bulir religioso, que fervia principalmente no povo pobre e iletrado. Não devemos esquecer, por exemplo, que tanto o movimento de Wycliff como o de Huss, mais tarde, não tiveram sua expressão mais permanente nas universidades, mas entre o povo. Sem os lolardos ou os taboritas, os dois movimentos teriam ficado esquecidos em documentos antigos. E também é muito improvável que Wycliff e os seus pudessem convencer os que seguiram suas ideias entre as classes baixas, se neste povo já não existisse antes um fervor que encontrou sua expressão nas doutrinas que vinham de Oxford. O mesmo podemos dizer, talvez com mais justeza, dos taboritas da Boêmia, que vieram a ser os defensores mais decididos do movimento hussita, mas provavelmente não derivavam a maior parte das suas doutrinas do reformador de Praga, mas de ideias que circulavam entre o povo.

Por quê, então, os livros de história dão tanta atenção ao movimento conciliar, a Wycliff e a Huss, e tão pouca a estes outros movimentos populares? Simplesmente porque as informações sobre estes últimos são muitíssimo escassas, e pouco confiáveis. Sobre o movimento conciliar, por exemplo, temos as obras dos seus principais líderes, bem como as atas dos concílios e as crônicas da época. Apesar de muitas destas fontes terem coloração partidária, sua abundância permite que as comparemos, para assim tentar equilibrar nosso julgamento. Mas no caso dos movimentos populares a situação é bem diferente. Seus seguidores eram quase totalmente pessoas sem instrução, que ou não sabiam escrever, ou não sentiam o desejo de deixar registros para a posteridade. Muitos destes movimentos eram de caráter apocalíptico, e os que deles faziam parte criam que o fim estava próximo, e por isto não viam razão alguma para narrar sua história, ou para pôr seus ensinos no papel. É bem possível que, se tivessem a intenção de fazê-lo não o teriam conseguido, pois tratava-se de correntes de entusiasmo, que apareciam de repente em algum lugar, para logo depois desaparecer, continuar correndo sob a superfície, e irromper novamente em outra época e outro lugar. Os próprios integrantes dos movimentos desconheciam sua história.

Quanto aos testemunhos dos seus inimigos, sua veracidade é muito duvidosa. Nesta época fazia-se uma série de acusações contra qualquer movimento que parecesse ser sedicioso ou herético. Dizia-se que os líderes destes movimentos eram pessoas que utilizavam o entusiasmo religioso para soltar as rédeas da imoralidade e do roubo, odiavam os sacerdotes e toda a hierarquia da igreja, profanavam o sacramento do altar, criam que o fim do mundo estava próximo, diziam ter recebido uma nova revelação de Deus, ou que o Espírito Santo se tinha encarnado nelas, etc. É bem possível, e até provável, que em alguns casos parte disto tenha sido verdadeiro. Mas o fato de as mesmas acusações terem sido feitas contra movimentos claramente diferentes nos faz suspeitar que frequentemente eram falsas.

Por estas razões a história dos movimentos religiosos populares do fim da Idade Média ainda está por ser escrita. Não é possível saber com exatidão como este grupo se relacionava com aquele, nem a origem dos seus nomes, nem sequer o que muitos destes nomes significavam. Por isto não podemos narrar aqui a história destes movimentos. Podemos, isto sim, assinalar suas características comuns, e o que significavam para a história do cristianismo.

Desde os tempos de Constantino o problema dos bens e da pobreza tinha sido uma preocupação quase que constante dos cristãos. Quando o Império Romano se tornou cristão, e a igreja ficou cheia de luxo e pompa, o monaquismo [ou monasticismo] surgiu como movimento de protesto. Quando, nos séculos XII e XIII, a economia monetária começou a mudar a paz social da Europa, houve novos sinais de inconformismo. O mais notável foi o franciscanismo, cujo fervor varreu toda a Europa ocidental. Mas tanto na época de Constantino como no século XIII a igreja soube assimilar estes movimentos, dar-lhes um lugar na estrutura eclesiástica, e mais tarde transformá-los em instrumentos dóceis nas mãos da hierarquia.

Na época que estamos estudando, a igreja tinha perdido esta flexibilidade. Já no século XIII houve quem temesse que surgissem mais movimentos como o franciscanismo, prevendo que a igreja não poderia controlá-los. Por isto em 1215 o quarto concílio de Latrão proibiu a fundação de novas ordens. Agora, nos séculos XIV e XV, a tendência que se manifestara em 1215 chegou ao seu ponto culminante. A hierarquia sentia seu poder ameaçado pelo fervor dos novos movimentos de pobreza. A pobreza franciscana tinha sido reinterpretada de modo que não requeria a pobreza da ordem em si, mas somente dos seus membros como indivíduos. Como ordens, tanto a de São Francisco como a de São Domingos se tornaram ricas e poderosas. Os prelados, agora senhores poderosos, e os frades, cujo espírito de crítica profética tinha sido esquecido, viam nos novos movimentos que exaltavam a pobreza uma censura a eles. Por isto tinham a tendência de rotulá-los de heréticos e corruptos.

A questão da pobreza tinha duas origens. De um lado estavam pessoas relativamente conscienciosas, que abraçavam uma pobreza voluntária, por motivos de renúncia. Este tinha sido o caso, no século XIII, de São Francisco de Assis. Durante os séculos que estamos estudando – o XIV e o XV – continuaram existindo pessoas da mesma origem social, que se sentiam impelidas por motivos semelhantes. Mas já que o franciscanismo e outras ordens parecidas tinham abandonado seu espírito inicial, estas pessoas se viam obrigadas a procurar maneiras próprias de expressar e viver o que pensavam ser sua vocação de pobreza voluntária, e por isto criavam grupos ou movimentos que não eram bem vistos pela hierarquia da igreja. Outras se juntavam a movimentos que existiam entre as classes humildes, porque parecia-lhes que ali seria mais fácil cumprir o ideal evangélico da pobreza que São Francisco e tantos outros antes dele tinham pregado.

Bem – e agora chegamos à outra origem da questão – se a pobreza voluntária é uma virtude, a involuntária, que é resultado não de uma decisão própria, mas das condições sociais, também não o seria? Nas Escrituras há numerosas indicações de que Deus julga a favor dos pobres e contra os ricos que os oprimem. Por diversos meios esta ideia central da Bíblia chegava aos marginalizados. Um destes meios provavelmente eram pessoas de posição social melhor, que voluntariamente compartilhavam da sorte dos pobres, mas cujo nível de instrução lhes permitia apelar para as Escrituras para defender o valor da pobreza, e cujos argumentos e ensinos os marginalizados escutavam. Outro meio eram as muitas histórias de mártires e milagres que circulavam entre o povo. Nestas freqüentemente havia um confronto entre um senhor poderoso e uma pessoa oprimida, e não havia dúvida de que Deus estava do lado desta última.

Por todas estas razões, e porque os tempos economicamente eram maus, surgiu rapidamente uma multidão de movimentos que se confundiam entre si. Alguns procuravam somente uma oportunidade para praticar a pobreza voluntária. Outros viam nos males da época um sinal dos tempos apocalípticos. O anticristo viria em breve, ou já estava no mundo. Era necessário arrepender-se, castigar o corpo, para assim se salvar do mal que viria sem demora. Outros, enfim, passaram do arrependimento à ação. Os últimos tempos, que se aproximavam, deveriam ser marcados pela fidelidade ao evangelho e pela justiça. Nesta hora a tarefa do cristão consistia em empunhar as armas e marchar em direção ao Reino de Deus, contra os que falsificavam a verdade evangélica, ou contra os que destruíam a justiça oprimindo os pobres.

Já que aqui é impossível narrar a história de toda esta agitação, iremos nos limitar a dar uma ideia superficial de um movimento cujo ponto central foi a pobreza voluntária – o das beguinas e dos begardos – de outro cuja característica foi a penitência extrema – os flagelantes – de um terceiro que tentou estabelecer a verdade evangélica mediante a força das armas – os taboritas – e  por fim um dos muitos que sonharam com o Reino da justiça – o de Hans Böhm.

Beguinas e begardos

O monaquismo sempre tinha exercido uma forte atração sobre as mulheres. No século XIII o despertamento religioso que deu origem ao franciscanismo se fez sentir também entre elas. Muitas se uniram aos ramos femininos dos franciscanos e dos dominicanos. Outras engrossaram as fileiras das ordens mais antigas. Mas em pouco tempo seu número era tão grande que os homens começaram a se queixar, e a limitar o número de mulheres que estavam dispostos a aceitar no ramo feminino das suas ordens. É muito provável que em parte este impulso entre as mulheres foi motivado pelo fato de a vida monástica ser o único meio em que elas, mesmo as mais ricas, podiam escapar de uma vida completamente dirigida pelos desejos e decisões dos outros – pais, irmãos, esposos e filhos.

Seja como for, os conventos tradicionais em pouco tempo não tinham mais espaço para todas as candidatas, e um grande número de mulheres passou a se reunir em pequenos grupos que viviam juntos e levavam uma vida de oração, devoção e relativa pobreza. Estas passaram a ser chamadas de “beguinas”, e as casas em que viviam de “beguinagens”. A origem deste nome é obscura, mas tudo parece indicar que ele era depreciativo, pois era usado freqüentemente como sinônimo de “herege” ou de “albigense”. Isto é um indício de como o restante da sociedade as considerava, e também a maior parte da hierarquia eclesiástica. Alguns bispos apoiaram o movimento, mas outros o proibiram em suas dioceses. Em fins do século XIII começou a haver legislação contra este tipo de vida, que ameaçava a estrutura da igreja porque não constituía uma ordem oficialmente estabelecida, e também não seguia o tipo de vida do restante dos leigos.

Na mesma época o movimento começou a assumir coloração um pouco diferente. No começo muitos beguinagens aceitavam somente mulheres que tivessem meios para suprir sua própria subsistência. Mas depois começaram a ingressar neles outras de origem mais simples, cuja pobreza não era totalmente voluntária, mas mais real que a das primeiras. Sem demora os beguinagens começaram a ser acusados de centro de ociosidade, onde se refugiavam mulheres que não queriam assumir as responsabilidades da sociedade. Com cada vez mais insistência os bispos começaram a lhes antepor obstáculos. Como consequência as beguinas se afastaram cada vez mais da igreja hierárquica, e algumas chegaram a abraçar doutrinas supostamente ou realmente erradas. Em alguns poucos lugares, particularmente nos Países Baixos, elas conseguiram sobreviver até tempos recentes. Mas em muitos outros elas foram proibidas, ou se juntaram a movimentos mais radicais.

Em menor número e em data um pouco posterior os homens seguiram o mesmo caminho das mulheres. Estes receberam o nome de “begardos”, e também foram acusados mais tarde de heresia, e destruídos.

Os flagelantes

Os flagelantes apareceram pela primeira vez em 1260, mas tiveram uma expansão súbita no século XIV. Eles eram pessoas que castigavam seus próprios corpos com chicotes, em penitência por seus pecados. Isto não era novidade, pois diversos grandes mestres do monaquismo o tinham praticado. Mas até então isto sempre ocorrera dentro do âmbito da vida monástica, e quase sempre tinha sido regulamentado pelas autoridades. Agora passou a ser um movimento popular. Convictos de que o fim do mundo se aproximava, ou de que Deus o destruiria se a humanidade não desse mostras convincentes de arrependimento, centenas e milhares de cristãos começaram a se chicotear a ponto de fazer correr sangue.

Não se tratava, ao contrário do que poderíamos supor, de um movimento histérico momentâneo e desordenado, mas de uma disciplina rígida e às vezes até mesmo ritualista. Alguém que quisesse se juntar ao movimento tinha de se comprometer a segui-lo durante trinta e três dias e meio. Durante este tempo tinha de obedecer totalmente aos seus superiores. Depois, mesmo voltando para casa, o flagelante ficava comprometido a se chicotear todos os anos na Sexta-feira Santa.

Durante os trinta e três dias da sua obediência o flagelante se unia a um grupo que seguia diariamente um ritual prescrito. Iam em procissão até a igreja, marchando de dois em dois e cantando hinos. Depois de rezar à Virgem na igreja se dirigiam para uma praça pública, sempre entoando hinos. Ali desnudavam as costas e formavam um grande círculo. Depois de se prostrarem em oração, ficavam de joelhos e, ao mesmo tempo que continuavam cantando, se flagelavam até sangrar. Outras vezes, enquanto se chicoteavam, um dos Iíderes pregava, geralmente sobre os sofrimentos de Cristo. Depois se levantavam, cobriam novamente suas costas, e voltavam marchando em procissão. Faziam isto duas vezes por dia, além de outra flagelação individual, à noite.

Apesar de serem acusados de gente desordenada, a verdade é que os flagelantes tinham uma disciplina rígida. A princípio a hierarquia não os viu com maus olhos, mas pouco a pouco sua atitude foi mudando. A causa disto foi principalmente que aparentemente os flagelantes ofereciam um caminho de salvação dissociado dos sacramentos da igreja. Se sua flagelação constituía uma penitência, como eles diziam, isto implicava em que era possível uma penitência válida à parte da confissão ao sacerdote. Além disto alguns começaram a se referir à flagelação como um “segundo batismo”, imitando o que tinha sido dito muitos séculos antes do martírio. Em consequência diversos prelados os acusaram de querer usurpar “o poder das chaves” que tinha sido dado a Pedro e a seus sucessores. A isto foram acrescentadas outras acusações. Vestir um hábito especial sem ter permissão para isto era um ato de desobediência. Quando suas reuniões foram proibidas, os que continuaram se reunindo foram acusados de participar de reuniões ilícitas. Em vários países eles foram perseguidos. Mais tarde deixaram de praticar sua flagelação em público. Mas parece que o movimento continuou de maneira clandestina por várias gerações.

Os taboritas

Quando estudamos os hussitas tivemos oportunidade de nos referirmos aos taboritas. Seu contato com os hussitas de Praga, e a necessidade de formar uma frente unida contra as repetidas cruzadas que foram lançadas contra a Boêmia, levaram os taboritas a abrandar algumas das suas doutrinas originais. Ao que parece estas doutrinas se baseavam no começo em um milenarismo exagerado. O fim estava às portas. Então Jesus Cristo castigaria os ímpios, e exaltaria os eleitos. Nos últimos dias, à espera do fim, era tarefa destes eleitos empunhar a espada e preparar o caminho do Senhor. Não havia motivo para ter misericórdia daqueles que de qualquer forma o Juiz Supremo iria condenar ao fogo eterno. Por isto todos os que agora se opunham à vontade de Deus deveriam ser destruídos pelas milícias cristãs. Quando chegasse a hora final Deus restauraria o paraíso. Quando alguns dos taboritas, os adamitas, levaram estas doutrinas ao extremo de andarem nus, imitando Adão e Eva no paraíso, e se dedicaram a uma vida licenciosa, afirmando que não poderiam ser condenados porque já faziam parte dos eleitos, o restante dos taboritas se voltou contra eles e os passou ao fio da espada.

O estudioso moderno pode descobrir em todo este movimento as consequências de um profundo sentimento de opressão social, mas os taboritas não viam o Reino vindouro nestes termos, em primeiro lugar. Não se tratava tanto da vitória dos oprimidos sobre os opressores, como do triunfo dos santos sobre os pecados. Mas é realidade que quase todos os taboritas pertenciam às classes marginalizadas da Boêmia, e que os “pecadores” que eles condenavam eram os ricos e poderosos, primeiro na Boêmia, e depois da condenação de Huss de toda a Europa.

Outro fato significativo é que a expectação escatológica levou os taboritas a tomar atitudes concretas, e contribuiu para seus repetidos triunfos sobre os invasores alemães. É importante mencionar isto, porque freqüentemente se diz que esta expectação leva as pessoas ao conformismo, quando na verdade a história nos relata diversos casos que provam o contrário. Na realidade muita coisa depende do conteúdo concreto desta expectativa, e da maneira em que ela se relaciona com o presente.

Hans Böhm

Era a quaresma de 1476. As colheitas tinham sido fracas no sul da Alemanha. Na diocese de Wurzburg o bispo, que era também senhor da comarca, impunha impostos cada vez mais pesados. Na pequena aldeia de Nicklashausen havia uma imagem da Virgem que passara a ser alvo de peregrinação, pois dizia-se que ela tinha poderes milagrosos. Num certo dia do mês de março o jovem pastor Hans Böhm se levantou no meio dos peregrinos e começou a pregar. Suas palavras tocavam fundo no coração. Sua mensagem, que era necessário se arrepender, encontrou eco naquelas pessoas angustiadas, e em pouco tempo contava-se aos milhares os que acorriam para ouvir o jovem Böhm. Muitos deles permaneciam ali, e os cronistas nos contam que o número dos que se reuniram passou de cinquenta mil.

Então as mensagens de Böhm começaram a ser mais radicais. Diante de toda aquela miséria reunida ali, não era difícil ver o contraste entre a mensagem cristã e a vida luxuosa que o bispo de Wurzburg levava. Böhm começou a atacar a pompa, a avareza e a corrupção do clero. Depois anunciou que viria o dia em que todos os seres humanos seriam iguais, e todos teriam de trabalhar. Isto era o que o Senhor prometia. Mais tarde Böhm instigou seus seguidores a agirem em antecipação ao dia do Senhor, negando-se a pagar qualquer tipo de impostos, dízimos ou outras obrigações, e marcou um dia em que todos juntos marchariam para reclamar seus direitos.

Nunca se soube o que Böhm tencionava fazer, pois no dia anterior à data marcada os soldados do bispo se apoderaram dele e dispersaram seus seguidores a tiros de canhão. Pouco depois Böhm foi queimado como herege. Como aparentemente o fermento da sua pregação continuava, o bispo colocou toda a aldeia sob interdito, e proibiu as peregrinações para lá. Mas nem mesmo estas medidas sufocaram as últimas faíscas do movimento, até que a igreja foi destruída por ordem do arcebispo de Mainz.

Este episódio é somente um de várias dezenas que poderíamos ter contado. Os últimos anos da Idade Média foram caracterizados por um grande descontentamento popular, que combinava causas sociais com motivos religiosos. Os oprimidos viam que a vida dos opressores não só era injusta, mas também se vestia com um manto de piedade cristã, e inclusive se apoiava na autoridade da igreja. Contra esta situação houve inúmeros movimentos de protesto, e até rebeliões que só puderam ser sufocados mediante a ação militar. Em todos estes casos as autoridades eclesiásticas, que integravam o número dos que se beneficiavam com a situação existente, deram todo seu apoio aos poderosos. Em consequência disto floresceu o sentimento anticlerical, inspirado no início não por correntes modernas de secularização, mas pelo antiquíssimo sonho de justiça entre os seres humanos.

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