A era dos sonhos frustrados: o renascimento e o humanismo

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  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos sonhos frustrados – Vol. 5. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 135 a 155.

“Oh! Suprema generosidade do Pai Deus! Oh! altíssima e maravilhosíssima sorte do ser humano! A ele foi concedido ter o que decidir, ser o que quiser.”

Pico de la Mirandola

Poucos termos na história são usados com maior ambiguidade que os de “Renascimento” e “humanismo”. O próprio título “Renascimento”, aplicado a uma época histórica, implica em um juízo negativo da época que lhe precedeu. Neste sentido o termo foi usado pelos que o cunharam. Para eles a Idade Média era somente isto: um período intermediário entre as glórias da antiguidade e as dos tempos modernos. Ao chamar a arte medieval de “gótica” estavam expressando novamente um conceito pejorativo – “gótico” quer dizer “proveniente dos godos”, e assim é sinônimo de “bárbaro”. Já dissemos no volume anterior que a arte chamada “gótica”, longe de ser um sinal de barbárie, foi um dos maiores feitos da civilização ocidental. Mas seja como for, os que deram o nome de “Renascimento” ao movimento intelectual e artístico que surgiu na Itália nos séculos XIV e XV, além de com isto evidenciar seus preconceitos com relação aos séculos anteriores, davam sinais de ignorância destes séculos.

De fato, o suposto “Renascimento”, apesar de em parte ter ido às fontes clássicas de literatura e arte, se inspirou muito mais nos séculos XII e XIII. Sua arte tem profundas raízes no gótico; sua atitude em relação ao mundo empresta tanto de São Francisco como de Cícero; e sua literatura se inspira em parte nos cânticos medievais que os trovadores levavam de região para região.

Mas apesar de tudo isto ainda podemos, particularmente na Itália, dar o nome de “Renascimento” a este período. Muitos dos principais intelectuais da época viam no passado imediato, e às vezes no presente, uma época de decadência com respeito à antiguidade clássica, e por causa disto se empenhavam em provocar um renascer desta antiguidade, em voltar às suas fontes, e em imitar sua linguagem e estilo. É a isto que nos referimos aqui quando falamos de “Renascimento”.

Quanto ao termo “humanismo”, a ambiguidade não é menor. Por um lado este termo traz em si a tendência de colocar a criatura humana no centro do universo, e fazer sobressair seu valor. Por outro lado o mesmo termo se refere ao estudo das “humanidades”. Um “humanista”, então, não é alguém que exalta o valor humano, mas que se dedica às belas artes, em particular à literatura. Como veremos no restante deste capítulo, muitos “humanistas” dos séculos XIV e XV, e mesmo depois, o eram nos dois sentidos. Seu interesse pelas letras clássicas freqüentemente andava junto com uma grande admiração pela criatura capaz de produzir estas obras de arte. Mas nem sempre houve esta união. Por isto, à guisa de simples esclarecimento, diremos que ao falarmos do “humanismo” neste contexto não nos referimos a uma opinião sobre o valor da criatura humana, mas a um movimento literário que se caracterizou pelo estudo cuidadoso das letras clássicas, e por sua imitação.

A Itália nos séculos XIV e XV

O Renascimento teve na Itália sua origem e sua melhor expressão. Podemos ver as causas disto, pelo menos em parte, nas condições políticas e econômicas desta península.

Assim como o restante da Europa ocidental, a Itália sofreu os estragos da peste bubónica e das guerras, que pareciam ter se tornado endêmicas. E sofreu, muito mais que o restante da Europa, as consequências do “cativeiro babilônico” e do grande cisma do Ocidente. Quase constantemente ela foi cenário de guerras entre papas rivais, ou entre nobres ou republicanos que apoiavam um ou outro dos pretendentes. Ao mesmo tempo o movimento republicano enfrentava continuamente a velha aristocracia, e por isto havia em cidades como Florença e Veneza revoluções que com frequência desembocavam em conflitos armados que se estendiam inclusive aos territórios vizinhos.

Em meio a estas circunstâncias a Itália não conseguia seguir o exemplo da França, que tinha conseguido sua unidade nacional, nem da Espanha, que se aproximava deste objetivo. Os espíritos mais patrióticos entre os italianos lamentavam esta situação. Dentro deste contexto devemos entender a mais famosa obra de Nicolau Maquiavel, O príncipe. Maquiavel era um patriota florentino que sonhava com a unidade italiana. Suas convicções eram republicanas, mas ele estava convicto também que somente um príncipe astuto e sem muitos escrúpulos poderia unir o país. Por isto ele dedicou sua obra ao cardeal Lourenço de Médici, que na época governava Florença, incentivando-o a deixar de lado “as debilidades da nossa religião” e se lançar a esta empresa.

Não só Maquiavel estava descontente com as condições da época. Este tema era característico de toda a Europa, açoitada pela praga, pela guerra dos cem anos e pelo grande cisma. A diferença com a Itália era que nesta a insatisfação ocorria dentro de um ambiente de prosperidade econômica. As cidades de Florença, Veneza, Gênova e Milão eram importantes centros de indústria e comércio. A posição geográfica da Itália, no centro do Mediterrâneo, permitia a estas cidades beneficiar-se do comércio com os países muçulmanos e com o Império Bizantino. A burguesia italiana, que surgiu desta indústria e deste comércio, era poderosíssima. Daí o conflito quase constante entre esta burguesia com seus ideais republicanos e a velha aristocracia.

A prosperidade econômica, unida à instabilidade política, deu lugar a uma aristocracia intelectual, de origem principalmente burguesa, que buscou inspiração nos tempos clássicos da Grécia e da Roma republicana.

O despertar das letras clássicas

Um dos principais propulsores desta nova tendência foi o poeta Petrarca, que em sua juventude tinha escrito sonetos em italiano, mas depois passou a escrever em latim, imitando o estilo de Cícero. Ele logo teve muitos seguidores, que também começaram a imitar as letras clássicas. Com este propósito copiaram manuscritos dos velhos autores latinos. Outros viajaram até Constantinopla, e de volta à Itália trouxeram consigo manuscritos gregos. Mais tarde, quando Constantinopla foi tomada pelos turcos em 1453, muitos exilados bizantinos chegaram à Itália com seus manuscritos e conhecimentos da antiguidade grega. Tudo isto contribuiu para um despertar literário que começou na Itália e foi se estendendo por toda a Europa ocidental.

Este interesse pelo clássico em pouco tempo incluía também as artes, e não só as letras. Os pintores, escultores e arquitetos foram buscar sua inspiração não na arte cristã dos séculos imediatamente anteriores, mas na arte pagã da antiguidade. Naturalmente eles não conseguiram se desvencilhar totalmente da sua herança direta, mesmo querendo fazê-lo, e por isto boa parte da arte do Renascimento tem suas raízes no gótico. O ideal de muitos artistas italianos da época, no entanto, era redescobrir os cânones de beleza da antiguidade, e assimilá-los em suas obras.

Todo este interesse na antiguidade clássica coincidiu com a invenção da imprensa, que por sua vez teve um impacto profundo sobre o humanismo. Mas não devemos pensar que isto fez das letras renascentistas um movimento popular. Ao contrário, os livros que os renascentistas mandaram imprimir eram obras difíceis de serem lidas, compostas em latim clássico ou em grego. Além disto a arte tipográfica da época fez todo o possível para imitar os manuscritos que eram impressos. As muitas abreviaturas, muito difíceis de entender, que os copistas usavam para facilitar seu trabalho, continuaram sendo usadas nos livros impressos. Para os humanistas a imprensa era um meio magnífico para se comunicarem entre si, ou para reeditar as obras da antiguidade, mas não para difundir as ideias entre o povo. Estas ideias continuaram sendo posse exclusiva da aristocracia intelectual. Exceto o caso de Savonarola, somente quando do advento da Reforma protestante a imprensa começou a ser usada como meio de comunicação com as massas, para a divulgação de ideias teológicas e filosóficas.

Apesar disto a imprensa teve um impacto notável sobre as letras renascentistas. Em primeiro lugar os livros se tornaram relativamente mais acessíveis. Quando somente havia manuscritos, e mesmo durante várias décadas depois da invenção da imprensa, os livros eram tão caros que em muitas bibliotecas eles estavam amarrados às estantes com correntes. Um erudito de recursos médios podia possuir apenas alguns poucos. Com a invenção da imprensa foi possível começar a reproduzir em quantidades maiores alguns dos livros mais apreciados da antiguidade.

Isto, por sua vez, fez com que os humanistas vissem até que ponto os erros dos copistas se tinham introduzido em uma obra. Se um humanista, por exemplo, tomasse um livro impresso em outra cidade com base em outro manuscrito, logo encontrava diferenças entre este livro e outro manuscrito da mesma obra. Nos séculos anteriores os eruditos não estavam de todo ignorantes desta situação, mas a invenção da imprensa a fez mais palpável.

Bem, a própria imprensa oferecia um meio de remediar a situação, mesmo que não de todo. Agora era possível produzir várias centenas de exemplares de um livro idênticos entre si. Já não era necessário confiar a reprodução de obras literárias a uma multidão de copistas, sob o risco de que cada um deles introduzisse nelas novos erros. Se um erudito se dedicava à árdua tarefa de comparar vários manuscritos de um mesmo livro e tentar chegar a um texto fiel ao original, sua obra podia culminar em uma edição impressa, sem mais erros que os que o próprio erudito deixara passar. Assim surgiu a “crítica textual”, cujo propósito não é criticar os textos, como podemos supor, mas aplicar todos os recursos da crítica histórica para chegar novamente ao texto original de uma obra.

Tudo isto deu lugar a uma desconfiança entre os legados da tradição imediata. Se os manuscritos não eram totalmente fidedignos, não era também possível que algumas destas obras fossem completamente falsas, produto da imaginação de algum século posterior? Logo alguns dos documentos mais respeitados da Idade Média foram declarados espúrios. Um dos casos mais notáveis foi o da Doação de Constantino, em que o famoso imperador concedia ao papa jurisdição sobre o Ocidente. O erudito Lourenço Valia estudou este documento, e chegou à conclusão de que era falso, por diversas razões de estilo, vocabulário, etc., que impossibilitavam a datação pelo século IV. Da mesma forma Valla atacou a lenda de acordo com a qual o Credo tinha sido composto pelos apóstolos, antes de se separarem para partir cada um em sua própria missão.

Tudo isto não teve imediatamente consequências graves para a vida da igreja. O próprio Valla serviu como secretário do papa, sem que seus estudos e suas conclusões lhe acarretassem maiores problemas. Isto porque, como já dissemos, toda esta atividade literária se limitou a uma aristocracia intelectual, que tinha a tendência de desprezar as massas, e que não tinha grande interesse em divulgar os resultados das suas investigações.

Mas apesar do pouco impacto que teve de imediato este despertar literário contribuiu, junto com o misticismo e a devoção moderna, para marcar o fim da época em que a escolástica dominava a vida intelectual.

A nova visão da realidade

Historiadores preconcebidos têm tido o costume de pintar a Idade Média com cores sombrias, para dar assim maior destaque às glórias da época moderna, mas a verdade é que na Idade Média houve, ao lado dos ascetas que desprezavam o mundo presente na expectativa pelo vindouro, outra corrente que se gloriava nas maravilhas da criação. Podemos ver isto no naturalismo de São Francisco, entoando louvores às aves, à água, aos astros, e mesmo à morte. Seu canto não era de negação do mundo, mas de concordância com ele. Para ele e para os que seguiram sua inspiração, o mundo vindouro era glorioso não porque contrastasse com o presente, mas porque o superava. Se este mundo já é belo e digno de admiração, quanto mais o será o outro, que o Criador de ambos nos prometeu! Nas catedrais góticas os escultores se regozijavam esculpindo cenas da natureza, reais ou imaginárias. Ali aparecem, entre frondosas vides, mil avezinhas, lesmas e camaleões que dão testemunho do mesmo Criador universal cantado por São Francisco.

Não é verdade, portanto, que o Renascimento tenha descoberto a beleza da criação, supostamente esquecida pelo homem medieval. Pelo contrário: a arte renascentista, inspirada em parte na arte clássica, prestou mais atenção à beleza e perfeição do corpo humano.

A Itália tinha belezas exuberantes. Em suas principais cidades havia dinheiro suficiente para construir grandes edifícios, e para reunir neles todos os recursos artísticos imagináveis. Os nobres e os grandes burgueses tinham meios para suprir o custo de uma arte dedicada, não para a glória do céu, mas do mecenas que custeava o empreendimento. A arte, portanto, até então dedicada quase exclusivamente ao ensino religioso e à glória de Deus, passou a se ocupar do esplendor humano. Nos modelos clássicos da Grécia e de Roma estava manifesta uma admiração pela criatura humana que boa parte da arte medieval tinha esquecido, e que agora os pintores e escultores da Renascença assimilaram, em pedra e pintura. O Adão que Miguelângelo pintou na abóbada da Capela Sixtina, que recebe do dedo de Deus poder para governar a criação, é bem diferente do Adão débil dos manuscritos medievais. Nele está concretizada a visão renascentista do ser humano, nascido para criar, para governar, para deixar sua marca no mundo que o rodeia.

A mesma visão toma carne e osso na pessoa de Leonardo da Vinci. Houve poucas atividades humanas em que este gênio da Renascença não interveio ou tentou mostrar sua maestria. A posteridade o conhece principalmente como pintor, mas Leonardo dedicou muito da sua atenção à engenharia, à arquitetura, à ourivesaria, à balística e à economia. Sua ambição era ser o “homem universal” que era o ideal da época. Seus grandes projetos de canalização fluvial, máquinas militares e aparatos de voo nunca foram realizados. Muitas das suas esculturas e pinturas ficaram inconcluídas, ou não passaram de esboços que são conservados até hoje como peças valiosas. Seus interesses múltiplos, unidos às flutuações políticas que não lhe permitiram residir por muito tempo no mesmo lugar, deram à sua obra um caráter fragmentário e inconcluído. Mas apesar disto Leonardo, e as lendas que se formaram ao redor da sua personalidade, passou a ser símbolo e encarnação do ideal renascentista do “homem universal”.

Esta visão do ser humano e da sua capacidade sem limites, tanto para o bem como para o mal, é o tema principal do autor renascentista Pico de la Mirandola, que citamos no começo deste capítulo. Continuando esta citação Pico diz que Deus deu ao homem todo tipo de sementes, para que as semeasse dentro de si mesmo, e assim determine o que há de ser. Quem escolher a semente vegetativa, ou a sensível, não será mais que uma planta ou um bruto. Mas quem escolher a semente intelectual, e a cultivar dentro de si, “será um anjo e filho de Deus”. E se ele se volta para o centro da sua alma, insatisfeito com o fato de ser uma criatura, “seu espírito, unido a Deus em obscura solidão, se elevará por cima de todas estas coisas”. Tudo isto levou Pico a exclamar, em estranhas palavras de louvor à criatura humana: “Quem não há de admirar este camaleão que nós somos?”

Os papas do renascimento

Quando deixamos a história do papado vários capítulos atrás (capítulo IV), este acabara de triunfar sobre o movimento conciliar. Na época Eugênio IV o ocupava, que se ocupou, além dos conflitos com o concílio de Cesareia, do embelezamento da cidade de Roma. Isto era o primeiro indício de que o espírito do Renascimento começava a se apossar do papado. A partir de então, e mesmo depois de iniciada a Reforma protestante, o pontificado romano estaria em mãos de homens cujos ideais eram os que a Renascença defendia. Quase todos eles eram amantes das belas artes, e um dos propósitos fundamentais dos seus pontificados foi trazer para Roma os melhores artistas, e dotar a cidade de palácios, igrejas e monumentos dignos de sua posição como capital da cristandade. Alguns tomaram do espírito da Renascença seu amor pelas letras, e por isto enriqueceram as bibliotecas do Vaticano. Mas muito poucos deles se ocuparam verdadeiramente da reforma da igreja. Quase todos tomaram do espírito da época seu amor pelo luxo, o poder despótico e os prazeres sensuais. Vejamos brevemente sua história.

Nicolau V sucedeu a Eugênio IV quando da morte deste. Os anos de seu pontificado, de 1447 a 1455, foram dedicados principalmente ao fortalecimento da posição política de Roma entre os estados italianos e a do papa dentro dela. Sua meta era fazer de Roma a capital intelectual da Europa, trazendo para ela os melhores pintores e autores da época. Sua biblioteca pessoal chegou a ser a melhor do século XV. Ele fortificou também a cidade e mandou expulsar os que se opunham ao seu poder monárquico. Em 1453 a queda de Constantinopla, a que nos referiremos mais adiante, sacudiu a consciência da cristandade ocidental, e o papa tentou organizar uma cruzada contra os turcos, sem ter nenhum êxito. Na reforma da igreja ele pensou pouco ou nada.

Seu sucessor, Calixto III, foi o primeiro papa da família espanhola dos Borja – que na Itália recebeu o nome de Bórgia. A única coisa que este papa emprestou dos ideais da Renascença foi o sonho de ser um grande príncipe secular. Com a desculpa de que era necessário unir a Itália para empreender uma cruzada contra os turcos, ele se dedicou mais à guerra que às suas responsabilidades religiosas. Além disto seu pontificado ficou caracterizado por um dos piores males da época, que a partir de então se tornaria endêmico do papado, o nepotismo. Um dos parentes que ele cobriu de honras foi seu neto Rodrigo, a quem fez cardeal e que mais tarde seria o tristemente famoso Alexandre VI.

O próximo papa, Pio II, foi o último que em todo este período cingiu com certa dignidade a tiara papal. Em sua mocidade ele tinha sido um homem característico da Renascença. Mas depois decidiu que precisava emendar sua vida, e assumiu suas responsabilidades pontifícias com toda a seriedade. Como a Europa estava ameaçada pelos turcos ele dedicou boa parte dos seus esforços para deter seu avanço e tentar organizar uma cruzada. Apesar de seus feitos não terem sido especiais, seus erros também não o foram.

Paulo II era um oportunista que, quando soube que seu tio Eugênio IV tinha sido feito papa, decidiu que a carreira eclesiástica lhe prometia mais que o comércio a que se dedicava. Seu interesse principal era acumular objetos de arte, em particular joias e artigos de ourivesaria. Seu gosto pela pompa se tornou proverbial. O fato de agora ser papa não fez com que ele abandonasse suas concubinas, que a corte, ao que parece, reconhecia publicamente. Ele se dedicou a restaurar a glória da Roma pagã, mandando restaurar os arcos do triunfo dos imperadores Tito e Sétimo Severo, e a estátua de Marco Aurélio. Morreu ainda jovem de apoplexia, em conseqüência de seus excessos sexuais, de acordo com cronistas da época.

Sixto IV comprou o papado, fazendo-se eleger com base em promessas e presentes que fez aos cardeais. Durante seu pontificado o nepotismo e a corrupção chegaram a níveis nunca vistos no papado. A essência da sua política consistiu em enriquecer sua família, em particular seus cinco sobrinhos. Um destes, Juliano della Rovere, mais tarde ocuparia o papado com o nome de Júlio II. Sob Sixto a igreja se transformou em negócio da família. Toda a Itália se viu às voltas com guerras e conspirações cujo único objetivo era conquistar territórios, riquezas e honras para os sobrinhos do papa. Seu sobrinho predileto, Pedro Riário, tinha vinte e seis anos quando foi feito cardeal, patriarca de Constantinopla e arcebispo de Florença. Seus vícios e excessos ficaram famosos em toda a Itália, e se diz que foi em conseqüência deles que ele morreu poucos anos depois. Outro deles, Jerônimo Riário, urdiu uma trama em que um dos Médicis foi assassinado diante do altar, enquanto ouvia missa, por um sacerdote. Quando os familiares e amigos do defunto se vingaram enforcando o sacerdote assassino, o papa excomungou toda a cidade de Florença, por ter violado a pessoa sagrada de um sacerdote, e lhe declarou guerra. Para manter esta política, e a pompa de seus sobrinhos, ele impôs a todos os territórios papais o monopólio do trigo. O melhor grão era vendido para encher as arcas papais, e o povo somente recebia pão da pior qualidade. Mas apesar de tudo isto a posteridade conhece Sixto IV como o mecenas que mandou construir a Capela Sixtina, chamada assim em sua honra.

Inocêncio VIII foi eleito depois de ter jurado pelo que havia de mais sagrado de que respeitaria os direitos dos outros cardeais, que não nomearia mais do que um da sua família, e que poria a sé romana em ordem. Mas assim que se viu de posse da tiara papal ele declarou que o poder do papa era supremo, e que por isto não precisava se sujeitar a nenhuma promessa, principalmente quando feita sob alguma pressão. Ele foi o primeiro papa a reconhecer publicamente seus vários filhos ilegítimos, que cumulou de honras e riquezas. A venda de indulgências se transformou em um negócio vergonhoso sob a administração e a serviço de um dos filhos do papa. Em 1484 Inocêncio quis livrar a cristandade de bruxas através de uma bula cujo resultado foi a morte de centenas de mulheres cujo único crime era serem impopulares, ou talvez um pouco excêntricas. Esta foi a única medida deste pontífice que nem mesmo de forma remota poderia ser considerada uma tentativa de reformar a vida religiosa.

Então Rodrigo Bórgia comprou os cardeais e foi eleito papa, com o nome de Alexandre VI. Com ele o papado chegou ao ponto culminante da sua corrupção. Alexandre era um homem forte e implacável, que praticava em público todos os pecados capitais – exceto a gula, pois tinha pouco apetite. Conta-se que o povo dizia: “Alexandre joga fora as chaves, os altares e até o Cristo. E no fim das contas ele tem este direito, pois os comprou”. Enquanto toda a Europa tremia diante do avanço dos turcos o papa travou contato com o sultão Baiaceto em segredo. Suas concubinas, esposas legais de alguns de seus subalternos, lhe deram filhos que Alexandre reconheceu como tais. Os mais famosos foram César e Lucrécia Bórgia. Mesmo nem sempre havendo certeza da veracidade das piores histórias que se conta desta família – seus crimes múltiplos e seus incestos – o que resta, mesmo se as descontamos, é uma corrupção e uma ambição sem limites. Suas conspirações e suas guerras banharam a Itália em sangue, e mancharam o papado como nunca antes.

Alexandre VI morreu repentinamente – há quem diga que depois de beber um veneno que tinha preparado para outra pessoa. Seu filho César, que tinha planos de se apoderar do papado quando seu pai morresse, estava de cama por causa da mesma doença – ou do mesmo veneno – e não pôde concretizar seus projetos. Então foi eleito Pio III, um homem de profundo espírito reformador que se propôs restaurar a paz na Itália. Mas morreu vinte e seis dias depois de ser eleito, e seu sucessor foi digno de Alexandre VI.

Júlio II, o mesmo Juliano della Rovere que seu tio Sixto IV tinha feito cardeal, tomou este nome porque queria imitar, não algum santo ou mártir cristão, mas Júlio César. Assim como a maioria dos papas da época ele foi um grande patrocinador das artes. Durante seu pontificado Miguelângelo terminou de pintar a Capela Sixtina, e Rafael decorou o Vaticano com seus famosos afrescos. Mas a ocupação favorita de Júlio II foi a guerra. Ele reorganizou a guarda papal, vestindo-a com uniformes que, diz-se, foram desenhados por Miguelângelo, e no comando dela se lançou ao campo de batalha. Hábil guerreiro e político, durante seu reinado chegou-se a pensar que talvez ele finalmente conseguisse a unidade italiana, sob a hegemonia papal. A França e a Alemanha se opuseram aos seus planos, mas o papa soube vencê-los tanto na diplomacia como no campo de batalha. Por fim, em 1513, a morte pôs um fim às aspirações de conquista daquele papa que recebeu com justiça o epíteto de o Terrível.

Seu sucessor foi o filho de Lourenço, o Magnifico, de Florença, João de Médicis, que tomou o nome de Leão X. Seguindo os passos de seu pai se dedicou a patrocinar as artes, ao mesmo tempo que tentava consolidar as conquistas políticas e militares de Júlio II. Nesta última tentativa ele fracassou, e em 1516 se viu obrigado a firmar com Francisco I da França um acordo que praticamente transformava a coroa na verdadeira cabeçada igreja francesa. Sua paixão pelas belas artes se sobrepôs a todo interesse religioso ou sacerdotal. Seu grande sonho foi completar a Basílica de São Pedro. Estava entregue a esta tarefa quando irrompeu a Reforma protestante. Mas esta história faz parte do próximo volume desta série.

A reforma humanista: Erasmo de Roderdã

Fora da Itália a Renascença tomou um rumo bem diferente. Na Espanha, Inglaterra, França, Alemanha e Países Baixos havia eruditos que sonhavam com uma restauração do cristianismo antigo, seguindo os métodos dos humanistas. No próximo capítulo desta história teremos ocasião de nos referirmos a vários deles. Aqui cabe falar dos sonhos do maior e mais famoso humanista, Erasmo de Roterdã.

Erasmo era filho ilegítimo de um sacerdote e da filha de um médico. Durante toda a sua vida ele teve de carregar a carga dupla das suas origens simples e de ser bastardo. Mas, criado em meio à grande atividade comercial da Holanda, em muitos aspectos suas opiniões refletiam os valores comuns entre a classe burguesa. Estudou um pouco a teologia escolástica, mas logo sentiu por ela uma grande repugnância, e se dedicou ao estudo das letras clássicas, Depois, em uma visita à Inglaterra, ele começou a se interessar pelas Escrituras na literatura cristã antiga, que a ele parecia que tinha de ser arrancada das mãos dos escolásticos. Começou a estudar grego, e chegou a dominar este idioma como poucos em sua época. Sua fama foi crescendo, e mais tarde ele passou a ser o centro de um círculo internacional de humanistas que queriam reformar a igreja, não por meios violentos, mas devolvendo-lhe sua fé simples e primitiva.

O modo de Erasmo entender esta fé era característico de seu espírito humanista, unido à devoção moderna, cuja influência tinha recebido quando estudou, ainda jovem, com os Irmãos da Vida Comum. Para ele o cristianismo é antes de tudo um tipo de vida decente, equilibrado e moderado. Os mandamentos de Jesus, que são o centro da fé cristã, são muito semelhantes às máximas dos estoicos e dos platônicos. Sua meta é chegar a dominar as paixões, colocando-as sob o governo da razão. Isto dá lugar a uma disciplina que tem muito de ascetismo, mas que não deve ser confundida com o monaquismo. O monge se retira do mundo; o verdadeiro “soldado de Cristo” tem por metas do seu treinamento a vida prática e cotidiana. A igreja precisa ser reformada porque abandonou esta disciplina, e se deixou levar pelos vícios dos pagãos.

Para Erasmo as doutrinas tinham importância secundária. Isto não quer dizer que ele era indiferente a elas, pois havia doutrinas que eram fundamentais, como a da encarnação. Mas uma vida reta era muito mais importante que a doutrina ortodoxa, e os frades que se ocupavam com distinções sutis enquanto levavam vidas escandalosas eram objeto frequente dos ataques mordazes de Erasmo.

Em resumo, o humanista holandês procurava uma reforma dos costumes, a prática da decência e a moderação. Pouco a pouco foi conquistando a admiração de boa parte dos eruditos da Europa, que se escandalizavam com as atividades dos papas da Renascença. Entre seus admiradores havia não poucos nobres e soberanos. Seu programa de reforma parecia ter boas possibilidades de êxito.

Então estalou a Reforma protestante. Os espíritos se inflamaram. As questões levantadas eram de teologia fundamental, e não tanto de moralidade. Os dois partidos tentaram conquistar o apoio do famoso humanista. Mas Erasmo não podia apoiar de todo coração nenhum dos dois. Por fim ele rompeu definitivamente com Lutero e os seus, mas sem dar ajuda aos católicos que se opunham à Reforma. Do seu escritório ele continuou pedindo moderação, uma reforma no estilo humanista, e a volta às virtudes dos estoicos e platônicos de antigamente. Mas ninguém lhe dava ouvidos. Erasmo não tinha percebido a profundidade das questões em debate, e a reforma por que ele tanto ansiara não ocorreu. Seu sonho, como tantos outros antes, foi frustrado.

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