A era dos sonhos frustrados: Jerônimo Savonarola

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In:

  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos sonhos frustrados – Vol. 5. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 157 a 166.

”Estes senhores, como se não soubessem que são tão humanos como os demais, querem que todos os honrem e bendigam. Mas o verdadeiro pregador não pode adulá-los, pois tem de atacar seus vícios. Por isto não podem suportá-lo, porque não se comporta com eles como os demais o fazem.” (Jerônimo Savonarola)

Girolamo Savonarola statuePerto do fim da primavera de 1490 um frade dominicano de trinta e sete anos de idade se apresentou diante das portas de Florença. Seu nome era Jerônimo Savonarola, natural de Ferrara, onde seu avô paterno o tinha educado, um médico conhecido tanto por seu conhecimento como por sua devoção e retidão moral. Deste avô, Savonarola tinha recebido princípios que nunca o abandonariam, e que o levaram a se unir, ainda jovem, à ordem dos pregadores de São Domingos. Em pouco tempo o frade dominicano se distinguiu por sua dedicação ao estudo e à santidade, e por isto a ordem lhe conferiu responsabilidades cada vez mais importantes. Anos antes ele tinha morado já uma vez em Florença, onde foi admirado por sua erudição bíblica, se bem que não por seus sermões, cuja veemência e sotaque ferrarense não soavam bem aos ouvidos renascentistas dos florentinos. Depois ele tinha sido mestre de estudos no convento dominicano de Bologna.

Agora ele estava voltando a Florença a pedido do senhor da cidade, Lourenço de Médicis. Talvez o que tinha inspirado neste tirano esta estranha petição tenha sido a recomendação de Pico de la Mirandola, que tinha feito amizade com o frade e se tornara seu admirador. Seja como for, Lourenço não tardaria em descobrir que o pregador que tinha convidado para sua cidade lhe acarretaria problemas.

No começo Savonarola se limitou a expor as Escrituras para os frades do convento dominicano de São Marcos. Mas sua fama logo se espalhou, e um grande número de pessoas começou a acorrer às suas conferências. Em conseqüência estas foram transferidas do jardim onde até então tinham tido lugar para a igreja do convento. Durante quase meio ano o eloquente frade expôs o livro do Apocalipse. No começo tratava-se de conferências, mas que logo se transformaram em sermões. Neles Savonarola atacava a corrupção da igreja, e profetizava que a igreja teria de passar por uma grande tribulação antes de ser restaurada. Ao mesmo tempo que comentava o Apocalipse ele atacava também os poderosos, cujo luxo e avareza se contradiziam com a fé cristã.

Sua popularidade cresceu rapidamente, e na quaresma de 1491 ele foi convidado para pregar em Santa Maria das Flores, a igreja mais importante da cidade. Ali viu-se claramente que sua pregação não era do agrado dos poderosos. Lourenço de 1V’lédicistentou fazê-lo se calar; mas o frade lhe respondeu que ninguém podia mandar se calar a Palavra de Deus. Seus ataques, dirigidos contra a corrupção que reinava em todos os níveis sociais, não deixavam de fazer referência aos impostos pesados que Lourenço exigia, com os quais custeava a pompa da sua casa e dos seus favoritos. Lourenço tentou lhe roubar a audiência incitando outro pregador a atacar Savonarola do seu púlpito. Mas este acabou provando ser mais popular que seu oponente, e mais tarde o malfadado rival foi para Roma, para ali tramar a ruína do dominicano.

Poucos meses depois Savonarola foi eleito prior de São Marcos. Quando alguns frades lhe disseram que era costume que cada novo prior fizesse uma visita de cortesia a Lourenço, para agradecer-lhe sua boa vontade para com a casa, frei Jerônimo simplesmente contestou; dizendo que devia sua eleição a Deus e não a Lourenço, e que por isto tinha de se retirar para dar graças a Deus e se colocar sob suas ordens. Pouco depois ele mandou vender todas as propriedades do convento para dar o dinheiro aos pobres. A vida dos frades passou a ser um exemplo proverbial de santidade e serviço. Inclusive outras casas de cercanias pediram ao ilustre prior de São Marcos que efetuasse nelas reformas semelhantes às que instaurara no convento florentino. Quanto a Lourenço, em seu leito de morte ele mandou chamar o santo frade, de quem pediu e obteve a absolvição de todos os seus pecados.

Pedro de Médicis tinha sucedido a Lourenço, e provara ser um tirano pior que o anterior, quando chegaram rumores de que o rei da França, Carlos VIII, se preparava para invadir a Itália com o propósito de conquistar o Reino de Nápoles, cuja coroa reclamava. Florença tremeu diante do avanço das tropas francesas, que Savonarola tinha predito dois anos antes. Pedro se mostrou incapaz de organizar as defesas da cidade, e tentou comprar o favor do rei francês entregando-lhe literalmente vilas e castelos. Irados, os florentinos enviaram a Carlos VIII uma embaixada encabeçada por Savonarola. Este se apresentou diante do rei, chamou-o de instrumento da justiça de Deus, declarou-o bem-vindo em nome dos florentinos, e lhe disse que tinha profetizado sua vinda dois anos antes; depois o ameaçou, e lhe profetizou grandes males se não se comportasse da maneira devida com os florentinos. Enquanto isto estes aproveitavam as circunstâncias para expulsar Pedro da cidade, e com ele o jugo dos Médicis.

Pouco depois o rei entrou triunfante em Florença. Quando tentou impor condições insuportáveis em troca de não saquear a cidade, os florentinos recorreram mais uma vez ao seu pregador, que enfrentou o rei e conseguiu dele condições muito mais favoráveis. Poucos dias depois, tendo estabelecido uma aliança com Florença, o rei francês partiu com suas tropas.

A cidade estava agora acéfala. Poucos desejavam que os Médicis regressassem. Muitos esperavam poder se aproveitar das circunstâncias para dar rédeas soltas aos ódios que tinham se acumulado nas últimas semanas de incertezas. Por isto Savonarola se viu colocado, quase sem querer, na posição de determinar o rumo a ser seguido. Graças a ele foi estabelecido um governo republicano e evitado o derramamento de sangue. Até mesmo os amigos dos Médicis foram perdoados, graças à intervenção do fogoso pregador.

Praticamente dono da cidade, Savonarola usou o púlpito para propor as reformas que Ihe pareciam necessárias. Insistiu em que o comércio fosse reaberto, que tinha sido interrompido durante a invasão francesa, dizendo que era necessário dar emprego aos pobres, que tinham perdido seus poucos rendimentos. Quanto àqueles para os quais estas medidas não bastavam, deveriam ser alimentados derretendo e vendendo o ouro e a prata das igrejas.

Seu interesse pelos pobres sem demora lhe acarretou a má vontade de boa parte da aristocracia. O mesmo aconteceu com muitos clérigos, atingidos muito de perto pela reforma eclesiástica proposta. Mas Savonarola contava com a quase totalidade do povo, e não teria tido maiores problemas, se não fosse por causa da política internacional.

A campanha de Carlos VIII na Itália tinha sido facílima. Em seguida o papa – na época o tristemente famoso Alexandre VI – vários estados italianos e os monarcas da Espanha e da Alemanha se uniram em uma “Santa Aliança” contra o rei da França. A cidade de Florença, graças a Savonarola, permaneceu firme no acordo que tinha feito com os franceses. Seus aliados encarregaram Alexandre VI da tarefa de dobrar o monge inflexível. O cenário estava preparado para a grande tragédia que mais tarde teria lugar em Florença.

Enquanto isto o movimento reformador chegou a seu apogeu em Florença. Apesar de ter sido dito que Savonarola era um monge obscurantista, a verdade é o contrário. O frei dominicano se opunha às letras renascentistas como desculpa para todo tipo de excessos morais e um retorno ao paganismo. Mas sua atitude em relação ao estudo em si sempre foi positiva. Seu sonho era que São Marcos se convertesse em um centro missionário, e por isto eram estudados neste convento, além do latim do grego, hebraico, o árabe e o caldeu.

Por outro lado, Savonarola se mostrou inimigo decidido do luxo e da ostentação. Isto ficou manifesto em seus repetidos ataques, a partir do púlpito, contra as joias e as sedas, bem como todos os vestidos demasiadamente chamativos de algumas mulheres. O resultado foi a “queima de vaidades”, que aconteceu diversas vezes enquanto o frei teve o apoio dos florentinos. No centro da praça principal da cidade era construída uma grande pirâmide escalonada de madeira, debaixo da qual eram colocados pólvora, palha e lenha. Depois as pessoas traziam “vaidades” – trajes, perucas, joias, etc. – que colocavam sobre os escalões da pirâmide, à qual no fim era ateado fogo. Estas grandes fogueiras, com os hinos que eram cantados, as procissões e as explosões de pólvora, vieram a substituir a celebração do carnaval em Florença.

A pregação de Savonarola, sempre inflamada, incluía profecias cujo cumprimento alimentava o fanatismo com que muitos veneravam o frade. Assim, por exemplo, quando um dos portos que pertenciam a Florença foi sitiado por um exército e uma esquadra da Santa Aliança, Savonarola declarou que, assim como os montes seriam jogados no fundo do mar, assim também a frota seria destruída. Pouco depois uma tempestade imprevista destruiu a esquadra da Santa Aliança, vários navios se afundaram, e os invasores se viram obrigados a levantar o sítio.

Mas isto, por sua vez, queria dizer que de Savonarola eram esperados cada vez mais e maiores milagres. Quando a situação econômica ficou difícil não faltaram os que criticaram o profeta por não tirar Florença dos seus problemas. E estas críticas  aumentavam, por estas dificuldades serem motivadas em parte por Florença, sob a influência de Savonarola, se negar a se juntar à Santa Aliança.

O papa também fez tudo que era possível para conseguir uma mudança na sua política, Sabendo que o frade dominicano era o grande obstáculo em seu caminho, enviou bulas de excomunhão contra ele. Mas Savonarola, com o apoio do governo florentino, declarou que a excomunhão não era válida, pois se baseava em supostas heresias que ele não tinha pregado. Quando o papa lhe ordenou que guardasse silêncio e não pregasse mais, o frade lhe obedeceu por algum tempo. Mas neste período se dedicou a escrever, com virulência cada vez maior, contra a corrupção da igreja. Pela primeira vez a imprensa foi usada como instrumento de propaganda religiosa, pois os escritos de Savonarola eram lidos avidamente tanto em Florença como fora da cidade.

Quando, tentando comprar seu silêncio, Alexandre VI lhe ofereceu o chapéu cardinalício, Savonarola lhe retrucou: “Não quero outro chapéu que um vermelho: vermelho de sangue“.

O papa então procedeu a medidas mais extremas. Ameaçou toda a cidade de interdito, e de prisão todos os mercadores florentinos que havia em Roma e nas demais cidades da Aliança. Além disto, por causa do interdito, todos os bens florentinos que caíssem em seu poder seriam confiscados. Isto era uma ameaça de ruína econômica para toda a cidade, e Savonarola logo perdeu o apoio que tinha entre os aristocratas e os burgueses.

Somente lhe restavam, ainda, seus próprios frades, alguns poucos amigos entre as pessoas abastadas, e o povo baixo. Este último, porém, estava em situação desesperadora, pois a fome aumentava, e pedia-se com cada vez mais insistência que o profeta fizesse um milagre.

A ocasião para este milagre pareceu surgir quando um frade franciscano, inimigo irreconciliável de Savonarola, desafiou para a prova de fogo qualquer pessoa que afirmasse que o dominicano era verdadeiramente um profeta de Deus. Sem consultar frei Jerônimo um dominicano aceitou o desafio. Depois de longas negociações foram firmados os termos da prova. Se o franciscano saísse vencedor, ou se os dois contendentes perecessem, Savonarola teria de abandonar a cidade.

Chegou por fim o dia da prova. No meio da praça foi construída uma grande plataforma retangular, coberta de terra para não se queimar, e sobre ela duas grandes piras, que deixavam uma passagem estreita entre si. Tinha sido combinado que os dois contendentes entrariam ao mesmo tempo no fogo, cada um por uma extremidade da passagem. O que saísse do outro lado seria o vencedor. Savonarola, que nunca concordou com a experiência, pois dizia que isto era tentar a Deus, por fim concordou em estar presente. Os mais fanáticos dos seus seguidores estavam certos de que ocorreria ali um grande milagre, e que ficaria provado de uma vez por todas que frei Jerônimo era profeta do Altíssimo.

Quando chegou o momento, todavia, o franciscano não apareceu. Seus companheiros de ordem apresentaram mil desculpas e explicações, que uma a uma foram eliminadas. E o desafiante ainda não tinha aparecido. Durante todas estas idas e vindas o céu tinha ficado escuro, e acabou caindo um aguaceiro tão forte que mesmo se os dois contendentes quisessem, teria sido impossível acender o fogo. Alguns poucos dos presentes disseram que se tratava de um milagre, pois frei Jerônimo sempre se opusera à prova. Mas os que tinham acorrido para ver um espetáculo se sentiram roubados.

Nesta noite os espíritos estavam exaltados. Correu o comentário de que, já que ninguém tinha ganho a prova, Savonarola tinha perdido, de acordo com o que tinha sido combinado. Os poderosos da cidade, que temiam por seu comércio, se uniram aos eclesiásticos que Savonarola tinha ofendido, e promoveram uma grande desordem. A turba acabou por se dirigir para São Marcos, e exigiu que Savonarola fosse entregue.

Enquanto o frade orava alguns dos seus seguidores mais fiéis empunharam as armas em sua defesa. Mas mais tarde o profeta se entregou aos que exigiam que ele fosse preso. Ao ver o antes tão poderoso pregador amarrado, muitos zombaram dele, cuspindo nele e dizendo-lhe palavrões.

Quando o conselho da cidade se reuniu para tratar do caso de Savonarola, seus amigos não se apresentaram, e imediatamente foram escolhidos alguns que os substituíssem. Assim ficava garantido que o acusado não teria quem o defendesse.

Mas ainda era necessário encontrar de que acusá-lo. Por vários dias ele foi torturado, e a única coisa que conseguiram arrancar dele, quando estava tão quebrantado que não conseguia nem mesmo levar comida à boca, foi que na realidade ele não era profeta, mas que as profecias eram invenção sua. E isto ele negou assim que a tortura amainou. Foram feitos três julgamentos, dois deles pelas autoridades florentinas e o terceiro pelos legados do papa. Este no começo quisera que os florentinos lhe entregassem o prisioneiro, para dispor dele a seu modo. Mas os florentinos se negaram a fazer isto, não para salvar seu profeta, mas por temor dos segredos que ele poderia revelar a Alexandre VI. Por fim o papa concordou em enviar os seus legados para que julgassem o caso em Florença mesmo; apesar disto lhes ordenou antes que partissem que o condenassem.

Nos três julgamentos Savonarola foi condenado sem misericórdia. Os legados do papa não conseguiram mais do que a confissão de que ele tivera a intenção de apelar a um concílio universal. Por fim, sem obter a confissão desejada, condenaram-no como “herege e cismático”, apesar de nunca terem declarado em que consistia sua heresia. Pouco antes tinham sido condenados, em circunstâncias semelhantes, dois de seus colaboradores mais chegados.

De acordo com o costume, não era a igreja quem castigava os hereges, mas estes eram entregues ao “braço secular”. Por isto o novo conselho de Florença foi convocado para ditar a sentença, e este decretou, como era de se esperar, que os três fossem mortos. A única misericórdia que tiveram com eles foi ordenar que fossem enforcados antes de serem queimados.

Assim sucedeu no dia seguinte. Os três morreram com serenidade exemplar. Depois suas cinzas foram lançadas ao rio Arno, para evitar que os seguidores do frade as recolhessem como relíquias, Mas apesar disto houve durante várias gerações em Florença, e em outras regiões da Itália, os que guardaram relíquias do santo frade. Quando, anos mais tarde, Roma foi saqueada por tropas alemãs, houve quem visse neste acontecimento o cumprimento das profecias de Savonarola em relação ao castigo que Deus preparava para a cidade corrupta.

Repetidamente, também no século XX, houve católicos que falaram em declarar santo aquele frade dominicano que morreu mártir das ambições de um papa. Talvez a igreja nunca chegue a dar este passo. Mas todos os historiadores concordam em que, naquele combate desigual, a justiça estava do lado do frade.

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