A era dos reformadores (I): Isabel, a católica

In:

  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos reformadores – Vol. 6. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 019 a 041.

“Primeiramente, encomendo meu espírito às mãos do meu Senhor Jesus Cristo, o qual do nada o criou, e por seu preciosíssimo sangue o redimiu”.

(Testamento de Isabel, a Católica).

Mesmo que seja costume começar os livros acerca da Reforma tratando sobre a Alemanha e a experiência e a teologia de Lutero, o fato é que o pano de fundo político e eclesiástico da época pode ser melhor entendido tomando outros pontos de partida. O que aqui temos escolhido, que poderá parecer estranho ao leitor, tem contudo certas vantagens. A primeira delas é que mostra a continuidade entre os desejos reformadores que temos visto repetidamente no livro anterior, e os acontecimentos do século XVI. Lutero não apareceu no meio de um vazio, mas foi o resultado dos “sonhos frustrados” de gerações anteriores. E seu protesto tomou a direção que é de todos conhecida, devido em parte às condições políticas que se relacionavam estreitamente com a hegemonia espanhola.

A segunda vantagem do nosso ponto de partida é que nos ajuda a traçar o marco político dentro do qual tiveram lugar acontecimentos que frequentemente se descrevem num plano puramente teológico. Catarina de Aragão, a primeira esposa a quem Henrique VIII da Inglaterra repudiou, era filha de Isabel Carlos V, o imperador a quem Lutero enfrentou em Worms, era neto da grande rainha espanhola e, portanto, sobrinho de Catarina. Felipe II, o filho de Carlos V, bisneto de Isabel, casou-se com sua prima em segundo grau, Maria Tudor, rainha da Inglaterra e neta de Isabel. Tudo isso, apresentado tão rapidamente pode parecer complicado, mas será explicado adiante no decurso desta história. Temos entretanto, mencionado logo de início, para demonstrar a importância de Isabel e sua descendência dentro do processo político e religioso do século XVI.

Por último, a partir de nossa perspectiva espanhola, este ponto de partida nos ajuda a corrigir várias falsas impressões que possamos ter recebido de uma história escrita principalmente sob uma perspectiva alemã ou anglo-saxônica. Durante a época da Reforma, a Espanha era um centro de atividade intelectual e reformadora. Embora seja certo que a Inquisição foi frequentemente uma força opressora, não é menos certo que em muitos outros países, tanto católicos como protestantes, havia outras forças na mesma índole. Ademais, muito antes do protesto de Lutero, os desejos reformadores se haviam instalado em boa parte da Espanha, precisamente graças a obra de Isabel e seus colaboradores. A Reforma católica, que muitas vezes recebe o nome de “contrarreforma”, é anterior a protestante, se não nos esquecermos do que estava acontecendo na Espanha nos tempos de Isabel, e nos primeiros anos de reinado de Carlos V.

Também não devemos esquecer que esta “era dos reformadores” que agora estudamos, foi a mesma “era dos conquistadores” a quem dedicaremos o próximo livro. Para a história escrita a partir de uma perspectiva alemã ou anglo-saxônica, a conquista da América pelos povos ibéricos tem pouca importância e aparece como um apêndice aos acontecimentos supostamente mais importantes que estavam ocorrendo na Alemanha, Suíça, Inglaterra e Escócia. Porém o fato é que essa conquista foi de tão grande importância para a história do cristianismo como foi a Reforma Protestante. E ambos os acontecimentos tiveram lugar ao mesmo tempo.

Aniversário do falecimento da rainha Isabel a Católica é comemorado na Espanha.jpgPara acentuar essa concordância cronológica entre a “era dos reformadores” e a “era dos conquistadores”, temos decidido começar ambos os livros com o mesmo personagem, frequentemente esquecido na história eclesiástica, em que se encontram tanto as raízes da Reforma como as da Conquista: Isabel de Castela, “a Católica,”.

Isto, por sua vez, quer dizer que ao tratar de Isabel neste livro, dirigiremos nossa atenção quase que exclusivamente para a sua luta reformadora, deixando para o próximo livro tudo o que se refere à sua marcha para o trono, a conquista de Granada, o descobrimento da América, e as primeiras medidas colonizadoras e evangelizadoras.

A Reforma do Clero

Quando Isabel e Fernando herdaram a coroa de Castela, devido a morte do meio irmão de Isabel, Henrique IV, a Igreja espanhola se encontrava em grande necessidade de reforma. Durante os anos de incertezas políticas que precederam a morte de Henrique IV, o alto clero havia-se dedicado às práticas belicosas que, segundo vimos no livro anterior, era característica de muitos dos prelados do fim da Idade Média. Nisto, a Espanha não se diferenciava do resto da Europa, pois seus bispos, com frequência, se tornavam mais guerreiros do que pastores e se envolviam em cheio nas intrigas políticas da época, não para o bem dos seus rebanhos, mas por seus próprios interesses políticos e econômicos. Exemplo disto foi o arcebispo de Toledo, dom Alonso Carrilo de Albornoz, que, como veremos no próximo livro, foi um dos principais arquitetos da subida política de Isabel e do seu casamento com Fernando.

O baixo clero, mesmo que distante do poder e dos luxos dos prelados, não estava em melhores condições de servir ao povo. Os sacerdotes eram ignorantes, em sua maioria, incapazes de responder às mais simples perguntas religiosas por parte dos seus paroquianos, e muitos deles não sabiam nada mais que dizer a missa, sem sequer entender o que estavam dizendo. Além do mais, visto que o alto clero recolhia a maior parte das entradas na igreja, os sacerdotes se viam envoltos em uma pobreza humilhante, e freqüentemente descuidavam dos seus trabalhos pastorais.

Nos conventos e mosteiros a situação não era muito melhor. Ainda que em alguns se continuava tratando de cumprir a regra monástica, em outros se praticava avida mole. Havia casas religiosas governadas, não segundo as regras, mas segundo os desejos dos seus monges e madres da alta esfera. Em muitos casos se descuidavam da oração, que supostamente era a ocupação principal dos religiosos.

Além de tudo isso, se somava o pouco caso que se fazia ao celibato. Os filhos bastardos dos bispos se moviam no meio da nobreza, reclamando abertamente o sangue de que eram herdeiros. Até o digníssimo dom Pedro Gonzáles de Mendonza, que sucedeu a dom Alonso Carrillo como arcebispo de Toledo, tinha pelo menos dois filhos bastardos, a quem mais tarde, com base no arrependimento do arcebispo, Isabel declarou como legítimos. Se isso ocorria no alto clero, a situação não era melhor entre os padres paroquianos, muitos dos quais viviam publicamente com suas concubinas e filhos. E visto que tal situação não tinha a permanência do casamento, eram muitos os sacerdotes que tinham filhos de várias mulheres.

Isabel e Fernando haviam subido juntamente ao trono de Castela, ainda que, segundo o estabelecido antes do casamento, Fernando não pudesse intervir nos assuntos internos de Castela contra o desejo da rainha, que era a herdeira do trono. A atitude dos dois cônjuges para com a vida eclesiástica e religiosa era muito distinta. Fernando tinha tido amplos contatos com a Itália, e a atitude renascentista de quem via na igreja um instrumento para seus fins políticos se havia apegado a ele. Isabel, por sua parte, era uma mulher devota e seguia rigorosamente as horas de oração. Para ela, os costumes licenciosos e belicosos do clero eram um escândalo. Para Fernando a preocupação era o excessivo poder dos bispos, convertidos em grandes senhores feudais. Em conseqüência, quando os interesses políticos de Fernando coincidiam com os propósitos reformadores de Isabel a reforma marchava adiante. E quando não coincidiam, Isabel fazia valer sua vontade em Castela, e Fernando em Aragão.

Com a finalidade de reformar o alto clero, os reis católicos obtiveram de Roma o direito de nomeação. Para Fernando se tratava de uma medida necessária, do ponto de vista político, pois a coroa não podia ser forte enquanto não contasse com o apoio e a lealdade dos prelados. Isabel via essa realidade, e concordava com Fernando, pois sempre foi mulher sagaz em assuntos de política. Entretanto, estava convencida da necessidade de reformar a igreja em seus domínios, e o único modo de fazê-lo era tendo à sua disposição a nomeação daqueles que deveriam ocupar os altos cargos eclesiásticos. Prova dessa atitude divergente entre os soberanos é o fato de que, embora em Castela, Isabel se esforçasse para encontrar personagens idôneos para ocupar as vagas, em Aragão Fernando fazia nomear arcebispo de Zaragoza a seu filho bastardo dom Fernando, que contava com seis anos de idade.

De todas as nomeações que a rainha pôde fazer graças a suas gestões em Roma, nenhuma teve consequências tão notáveis como a de Francisco Ximenez de Cisneros, a quem fez arcebispo de Toledo. Cisneros era um frade franciscano em quem se combinavam a pobreza e a austeridade franciscanas com o humanismo erasmista. Antes de ser arcebispo, havia dado amplas mostras tanto de seu temperamento como de sua erudição. Desde jovem havia se chocado com os interesses do arcebispo Alonso Carrilo de Albornoz, e passou dez anos preso, sem ceder. Depois se dedicou a estudar hebraico e aramaico, e foi visitante da diocese de Singuenza, cujo bispo se ocupava com seu rebanho mais do que era o costume naquela época. Decidiu então retirar-se a um mosteiro franciscano, onde abandonou seu nome anterior de Gonçalo e tomou o de Francisco, pelo qual foi conhecido posteriormente.

Quando dom Pedro Gonzáles de Mendonça sucedeu o arcebispo Carrilho, o recomendou à rainha que já tomara como seu confessor o douto e devoto Frei Francisco. Este acedeu, com a condição que lhe permitissem continuar vivendo num mosteiro e guardar estritamente seu voto de pobreza. Assim, logo se converteu num dos conselheiros da rainha, e quando ficou vaga a sede de Toledo, pela morte do cardeal Mendonça, a rainha decidiu que Frei Francisco era a pessoa chamada para ocupar esse cargo. A isso se opunha o rei, que queria nomear seu filho dom Fernando, e a família do falecido arcebispo, que esperava que se nomeasse um dentre eles. Entretanto a rainha se mostrou firme na sua decisão e, sem deixar saber a Ximenes de Cisneros, enviou seu nome a Roma, de onde obteve de Alexandre VI sua nomeação como arcebispo de Toledo e primeiro prelado da igreja espanhola. É assim, de modo irônico, que aconteceu por intermédio do papa Alexandre VI, de tristíssima memória e pior reputação, a doação das bulas de nomeação de Cisneros, o grande reformador da igreja espanhola.

Quando o frei recebeu das mãos da rainha a nomeação pontífica, prontamente se negou a aceitá-la, e foi necessária outra bula de Alexandre, para obrigá-lo a ceder.

Isabel e Frei Francisco colaboraram na reforma dos conventos. A rainha se ocupava prioritariamente das casas das religiosas, e o arcebispo dos monges e frades. Seus métodos eram distintos, pois embora Cisneros fizesse uso direto de sua autoridade, ordenando que se tomassem medidas reformadoras, a rainha utilizava procedimentos menos diretos. Quando decidia visitar um convento, levava consigo sua roca ou algum outro trabalho manual, ao qual se dedicava em companhia das freiras. Assim, em suave conversação, se inteirava do que estava sucedendo no local, e, se encontrasse algo fora do lugar  dirigia às freiras palavras de exortação. Insistia particularmente em que se guardasse a mais estrita clausura. De modo geral, com isso tudo voltava ao normal. Porém quando chegavam notícias de que algum convento não havia melhorado sua disciplina apesar de suas exortações, usava de sua autoridade real, e em tais casos suas penas eram severas.

Os métodos de Cisneros logo lhe criaram inimigos, e tanto os cônegos de Toledo como alguns dentre os franciscanos enviaram protestos a Roma. Em resposta a tais protestos, Alexandre VI ordenou que se detivessem as medidas reformadoras, até que pudesse investigar o assunto. Porém mais uma vez a rainha interveio, e obteve de Roma, não só a permissão para continuar o trabalho reformador, como também a autoridade necessária para fazê-lo de modo mais eficiente.

As Letras e a Poliglota Complutense

A erudição de Cisneros, e em particular seu interesse nas letras sagradas, ocupavam um lugar importante no projeto reformador de Isabel. A rainha estava convencida de que tanto o país como a igreja tinham necessidade de dirigentes melhor adestrados e, portanto, se dedicou a fomentar os estudos. Ela mesma era uma pessoa erudita, conhecedora de latim, e se envolveu com outras mulheres de dotes semelhantes. Mesmo que Fernando não fosse a pessoa ignorante, que por vezes se fez demonstrar, não resta dúvida de que seu interesse pelas letras era muito menor do que o da rainha. A Espanha deve a Isabel o haver firmado as bases para o Século de Ouro.

Cisneros estava de acordo com a rainha na necessidade de reformar a igreja, não somente mediante medidas administrativas, como também com o cultivo das letras sagradas. Nesta empresa a imprensa era uma grande aliada e, assim, Isabel, com a concordância de Fernando, promoveu o seu desenvolvimento na Espanha. E rapidamente iniciou-se a imprensa em Barcelona, Saragoça, Sevilha, Salamanca, Zamora, Toledo, Burgos e várias outras cidades. Porém as contribuições mais importantes de Cisneros (com o apoio da rainha) para a reforma religiosa na Espanha dentro do estilo humanista, foram a Universidade de Alcalá e a Bíblia Poliglota Complutense.

A universidade de Alcalá, iniciada em 1498, não teve seu término senão em 1508, depois da morte de Isabel. Seu nome original era Colégio Maior de São Ildefonso. O propósito de Cisneros era que aquele centro docente se tornasse o núcleo de uma grande reforma da igreja e da vida civil espanhola. E esse sonho se cumpriu, pois entre os que estudaram no famoso plantel se encontram Miguel de Cervantes, Inácio de Loyola e João Valdez. Entretanto, as obras da universidade de Alcalá são importantes, não só em si mesmas, mas também como símbolo do interesse da rainha e de Cisneros nos estudos superiores, pois Isabel protegeu da mesma maneira as universidades de Salamanca, Siguenza, Valladolid e outras.

Imagem relacionadaA Poliglota Complutense também não foi uma das obras diretas de Isabel, que morreu antes de que ela se completasse, foi sim mais diretamente de Cisneros, ainda que indubitavelmente seguindo a inspiração reformadora da grande rainha. Recebe o nome de “Complutense” por haver sido preparada em Alcalá, cujo nome em latim é “complutum”. Durante mais de dez anos trabalharam os eruditos na grande edição da Bíblia. Três convertidos do judaísmo se ocuparam com o texto hebreu. Um cretense e dois helenistas espanhóis se responsabilizaram pelo grego. E os melhores latinistas da Espanha se dedicaram a preparar o texto latino da Vulgata. Quando por fim apareceu a Bíblia, contava com seis volumes (os primeiros quatro compreendiam o Antigo Testamento, o quinto o Novo, e o sexto uma gramática hebraica, aramaica e grega). Apesar da obra ter sido impressa em 1517, não foi publicada oficialmente, senão em 1520. Conta-se que, ao receber o último volume, Cisneros congratulou-se por haver dirigido “esta edição da Bíblia que, nestes tempos críticos, abre as sagradas fontes de nossa religião, das quais surgirá uma teologia muito mais pura que qualquer que tenha surgido de fontes menos diretas”. Note-se que nestas palavras há uma afirmação clara da superioridade das Escrituras sobre a tradição, afirmação que rapidamente se tornaria uma das teses principais dos reformadores protestantes.

Medidas Repressivas

Tudo o que foi mencionado pode dar a impressão de que o governo dos reis católicos foi tal que nele se permitiu a liberdade de opiniões e de culto. Porém o certo é exatamente o contrário. As mesmas pessoas que defendiam o estudo da Bíblia e das letras clássicas estavam convencidas da necessidade de que não houvesse na Espanha mais de uma religião e que essa fosse perfeitamente ortodoxa. Tanto Isabel como Cisneros criam que a unidade do país e a vontade de Deus exigiam que se arrancasse todo o vestígio de judaísmo, maometanismo, e heresias. Foi esse o propósito da Inquisição espanhola, que data de 1478.

Porém, antes de passar a tratar dessa forma particular de Inquisição, devemos recordar ao leitor que essa instituição tinha velhas raízes na tradição medieval. Já no século IV se havia condenado à morte o primeiro herege. Depois a tarefa inquisitorial caiu nas mãos das autoridades locais. No século XIII, como parte do trabalho centralizador de Inocêncio III, se colocou sob a supervisão pontífica. Assim se praticou em toda a Europa por vários séculos, ainda que não sempre com o mesmo rigor.

A principal inovação da Inquisição espanhola esteve em colocá-la, não sob a supervisão papal, mas sob as ordens da coroa. Em 1478, o papa Sixto IV aceitou uma petição nesse sentido por parte dos reis católicos. Os motivos pelos quais os soberanos fizeram essa petição não estão de todo claros. De uma parte, o papado passava por tempos difíceis e não resta dúvida de que Isabel estava convencida de que a reforma e purificação da igreja espanhola teriam que originar-se da coroa e não do papado. De outro lado, a sujeição da Inquisição ao poder real era um instrumento valioso nas mãos dos monarcas, empenhados no grande projeto de fortalecer esse poder.

Em todo caso, quando chegou a bula papal, Isabel demorou algum tempo em aplicá-la. Primeiro desenvolveu uma vasta campanha de pregação contra as heresias, ao pensar com esperança que muitos abandonassem seus erros voluntariamente. Quando por fim se começou a aplicar o decreto papal, primeiramente só em Sevilha, houve fortes protestos que chegaram a Roma. Em 1482, quando as relações entre o Papa e a Espanha eram tensas devido aos vários conflitos políticos na Itália, Sixto IV cancelou sua bula anterior, cedendo às queixas que haviam chegado da Espanha. Porém, no ano seguinte, após uma série de gestões nas quais esteve envolvido Rodrigo Bórgia, o futuro Alexandre VI, a Inquisição espanhola foi restaurada. Foi então que se nomeou Inquisidor Geral da Coroa de Castela o dominicano Tomás de Torquemada, cuja intolerância e crueldade se tornaram famosas.

Em Aragão, o reino que correspondia como herança a Fernando, o curso da Inquisição foi paralelo ao que ocorreu em Castela. Nos últimos anos antes do advento de Fernando ao trono, a atividade inquisitorial tinha sido menor em Castela do que em Aragão e, portanto, o país estava mais acostumado tais processos. Porém ali também surgiu oposição, particularmente por parte daqueles que criam que a Inquisição real era uma usurpação da autoridade eclesiástica. Do mesmo modo que em Castela, houve um breve período em que, pelas mesmas razões políticas, o Papa retirou da coroa o poder de dirigir a Inquisição, que antes lhe tinha outorgado. Porém, mais tarde Roma aceitou as petições espanholas e o Santo Ofício ficou sob a orientação da coroa. Poucos meses depois de ser nomeado Inquisitor Geral de Castela, Torquemada recebeu uma autoridade semelhante para o reino de Aragão.

Muito se tem discutido sobre a Inquisição espanhola. De modo geral os autores católicos conservadores tratam de provar que as injustiças cometidas não foram tão grandes como se tem dito e que o Santo Ofício era uma instituição necessária. Contrários a eles, os protestantes têm-na descrito como uma tirania insuportável e uma força sombria. A verdade é que ambas as interpretações são falsas. Os crimes da Inquisição não podem ser cobertos dizendo-se simplesmente que não foram tantos nem tão graves, ou argumentando que era uma instituição necessária para a unidade religiosa do país. Porém, da mesma maneira não há provas de que a Inquisição espanhola, especialmente em suas primeiras décadas, foi uma instituição impopular, nem que se comprazia em perseguir os estudiosos. Ao contrário, houve muitos casos em que os letrados empregaram os meios do Santo Ofício para fazer calar aos místicos e visionários que representavam as classes mais baixas da sociedade (e em particular as mulheres que diziam ter visões). Embora alguns sábios, como Frei Luiz de Leão, passaram alguns anos nos cárceres inquisitoriais, a maioria dos eruditos da época via na Inquisição um instrumento para a defesa da verdade.

Também há fortes indícios de que, pelo menos no princípio, a Inquisição foi uma instituição que gozou do favor do povo. As tensões entre os “cristãos velhos” e os convertidos do judaísmo eram enormes. Por boa parte da Idade Média, a Espanha tinha sido mais tolerante para com os judeus do que o resto da Europa; na época que estamos estudando e já desde um século antes, as condições começaram a mudar. O crescente sentimento nacionalista espanhol, unido como estava à fé católica e à ideia da Reconquista, fomentava a intolerância contra os judeus e os mouros. A essa intolerância se dava um verniz religioso que parecia justificá-la. E quando, por motivos de convicção ou cedendo a enorme pressão que se aplicava aos judeus e aos mouros, eles se convertiam, se perdia essa desculpa religiosa para odiá-los, e aí aparecia uma nova razão para a discriminação: dizia-se que os convertidos não eram verdadeiros e que secretamente continuavam praticando os ritos de suas velhas religiões e que se furtavam em particular da fé cristã. Logo, muitos dos conversos, que haviam crido que as águas batismais os libertariam do estigma a que estavam unidos à sua velha religião, se viam agora acusados de hereges e sujeitos, portanto, aos rigores da Inquisição, no que consentiam os “cristãos velhos” que assim podiam sentir-se superiores aos conversos.

Visto que seu propósito era extirpar a heresia, e, para ser herege era necessário ser cristão, a Inquisição não tinha jurisdição sobre judeus ou muçulmanos; somente sobre os convertidos. Contra eles se aplicou enorme rigor. Todavia, a Inquisição medieval tinha permitido que, em casos excepcionais, não se divulgasse os nomes dos acusadores de um réu, na Inquisição espanhola essa regra de exceção se tornou prática normal, pois se dizia que o poder dos convertidos era tal que, se soubessem quem os havia acusado, os demais tomariam atitudes de represália e, portanto, temia-se pela vida das testemunhas. O resultado foi privar o acusado de um dos elementos mais necessários para uma defesa eficaz. Além disso se aplicava a tortura com grande frequência e desse modo se arrancavam tanto confissões como novas acusações contra outras pessoas. Freqüentemente os processos demoravam vários anos, durante os quais eram cada vez mais os implicados. E se, caso raro, o acusado era absolvido, havia passado boa parte de sua vida encerrado nos cárceres inquisitoriais, e não tinha maneira alguma de estabelecer recursos contra seus falsos acusadores, pois não ficara sabendo quem eram eles. Por mais razões históricas que se apresentem, não é possível justificar tudo isso com base na fé cristã.

Também se tem discutido muito sobre os motivos econômicos envolvidos na Inquisição espanhola. Nela se aplicam os princípios medievais, segundo os quais os bens de todo condenado à morte eram confiscados. No princípio, tanto esses bens como as diversas multas que se impunham se dedicavam às obras religiosas, de modo geral nas paróquias dos condenados. Porém isso se tornou algo abusivo e os soberanos começaram a fiscalizar mais de perto os inquisitores, fazendo com que os fundos arrecadados fossem parar no tesouro real. Até que ponto estas medidas se devem à cobiça dos reis e até que ponto foram uma intenção sincera de evitar os abusos aos quais a Inquisição se prestou, não se tem modo de saber. Porém, em todos os casos, o fato é que a coroa se beneficiou com os processos inquisitoriais.

Outra fonte de renda eram as “reconciliações” que se faziam mediante o pagamento de uma soma. A mais notável foi a reconciliação geral dos anos de 1495 a 1497, que foi utilizada para cobrir as dívidas de guerra de Granada. Neste caso em particular, não resta dúvida de que a intenção dos reis era tanto evitar os sofrimentos que os julgamentos e castigos acarretariam para os convertidos e suas famílias, como também ressarcirem-se dos gastos com a guerra.

Quaisquer que tenham sido os motivos dos monarcas, não se pode duvidar que a Inquisição se prestou aos maus desejos e à cobiça desmedida. Pouco depois da morte de Isabel, o Santo Ofício havia caído em descrédito por essas razões e Fernando teve que intervir no assunto, nomeando Inquisitor Geral a Francisco Ximénez de Cisneros. Ainda que o franciscano não tenha sido tão terrível como Torquemada. deve-se notar que o inspirador da Poliglota Complutense e da Universidade de Alcalá foi também um grande inquisitor. Nele temos um exemplo do que seria a forma característica da reforma católica, particularmente na Espanha, de combinar a erudição com a intolerância.

Isabel não era mais tolerante que seu confessor, como pôde se ver na expulsão dos judeus. Todavia, a Inquisição se ocupando dos conversos, permitia que os judeus que permanecessem firmes na fé de seus antepassados não ficassem debaixo de sua jurisdição. Mas eram eles acusados de manter contatos com os convertidos, com o propósito, segundo se dizia, de levá-los a judaizar. Ademais, se comenta que os judeus tinham enormes riquezas e que aspiravam apoderar-se do país. Tudo isso não era mais que falsos rumores nascidos do preconceito, da ignorância e do temor. Nos meados de 1490 se produziu o incidente do “santo menino da Guarda”. Um grupo de judeus e convertidos foi acusado de matar um menino de forma ritual, com o propósito de utilizar seu coração, e uma hóstia consagrada, para malefícios contra os cristãos. No convento de São Domingos, em Ávila, Torquemada dirigiu a investigação. Os acusados foram declarados culpados e foram queimados em novembro de 1491 nas cercanias de Ávila. Até o dia de hoje os historiadores não concordam entre si se realmente houve um menino sacrificado ou não. Porém, do que não se tem dúvida é que, se existiu uma conspiração, se tratava de um pequeno grupo fanático, que não representava de modo algum a comunidade judaica. Em todo caso, o fato é que a inimizade entre os cristãos e os judeus se exacerbou, Em vários lugares se produziram motins e matanças dos judeus. De acordo com suas obrigações legais, os reis defenderam os judeus, se bem que essa defesa não foi decidida e os cristãos que cometeram esses atropelos contra os filhos de Israel não foram castigados. O que sucedia era, pelo menos em parte, que a rainha estava convencida de que era necessário buscar a unidade política e religiosa da Espanha. Essa unidade era uma exigência política e religiosa; política porque as circunstâncias a exigiam; religiosa, porque tal era, segundo Isabel, a vontade de Deus.

O golpe decisivo contra os judeus chegou pouco depois da conquista de Granada. Uma vez destruído o último baluarte muçulmano da Península, pareceu aconselhável ocupar-se do “problema” dos judeus. Quase todos os documentos, tanto cristãos como judeus, dão a entender que Isabel foi, mais que Fernando, quem concebeu o projeto de expulsão. O decreto publicado em 31 de março de 1492, dava aos judeus quatro meses para abandonar todas as terras reais, tanto na Espanha como fora dela. Foi-lhes permitido vender suas propriedades, porém lhes era proibido tirar do país, ouro, prata, armas e cavalos. Logo, o único meio que os filhos de Israel tinham para salvar algo dos seus bens eram as letras de câmbio, disponíveis principalmente através de banqueiros italianos. Entre tais banqueiros e os especuladores que se dedicaram a aproveitar as circunstâncias, os judeus foram aviltados, embora os reis tratassem de evitar os abusos.

Ao que parece, os reis esperavam que muitos judeus decidissem aceitar o batismo ao invés de abandonar o país que era sua pátria e onde já haviam vivido por várias gerações. Com essa finalidade decretaram que quem aceitasse o batismo poderia permanecer no país, e assim enviaram pregadores que anunciavam, não só a verdade da fé cristã, mas também as vantagens do batismo. Umas poucas famílias ricas se batizaram e, por esse modo, conseguiram conservar seus bens e sua posição social. Esses poucos batismos foram feitos com grande solenidade, ao que parece, na esperança de induzir outros judeus a tomarem a mesma decisão. Porém a maioria deles mostrou uma firmeza digna dos melhores episódios do Antigo Testamento. Melhor marchar para o exílio do que inclinar-se diante do Deus dos cristãos e abandonar a fé dos seus antepassados. Os sofrimentos que aquele novo exílio trouxe ao povo de Israel foram indizíveis. Entre 50.000 e 200.000 judeus abandonaram sua terra natal e partiram para futuros incertos. Muitos foram saqueados ou assassinados por bandidos ou por aqueles que lhes ofereciam transporte. Dos que partiram para a costa norte da África, a maioria pereceu. Um bom número se refugiou em Portugal, na esperança que as circunstâncias mudassem na Espanha. Porém, quando o rei de Portugal quis casar-se com uma das filhas de Isabel, ela exigiu que os judeus fossem expulsos daquele reino enviando-lhes assim a um novo exílio.

A perda que tudo isso representou para a Espanha tem sido assinalada repetidamente pelos historiadores. Entre os judeus se contavam alguns dos elementos mais produtivos do país, cuja partida privou a nação de sua indústria e engenho. Além do mais, muitos deles eram banqueiros que repetidamente serviam a coroa em tempos difíceis. A partir de então o tesouro espanhol teria que recorrer a empréstimos italianos ou alemães, em prejuízo econômico da própria Espanha.

A situação dos mouros era semelhante a dos judeus. Embora restassem terras muçulmanas na Península, a maioria dos governantes cristãos seguiu a política de permitir a seus súditos muçulmanos praticar livremente sua religião, pois de outro modo estariam incitando-os à rebelião e à traição. Mas, uma vez conquistado o reino de Granada, a situação política mudou. Se bem que nas Capitulações de Granada se estabelecia que os muçulmanos teriam liberdade para continuar praticando sua religião, lei e costumes, esse tratado não foi respeitado, pois não havia um estado muçulmano capaz de obrigar os reis cristãos a cumpri-lo. De pronto o arcebispo Cisneros e o resto do clero se dedicaram a forçar os mouros a se converterem. O zelo de Cisneros levou os muçulmanos à rebelião, que foi posteriormente banhada em sangue. Com o fim de evitar outras rebeliões semelhantes, os reis ordenaram que também os mouros de Castela, como antes os judeus, tinham de escolher entre o batismo e o exílio. Pouco depois, quando se viu que possivelmente o êxodo seria maciço, proibiram-lhes de emigrar, de maneira que se viram obrigados a receber o batismo.

A esses mouros batizados foi dado o nome de “mouriscos” e do ponto de vista da igreja e do governo espanhóis, foram sempre um problema, por sua falta de assimilação. Em 1516 Cisneros como regente do reino, tratou de obrigá-los a abandonar seus trajes e seus costumes, porém sem êxito.

Embora tudo isso estivesse acontecendo em Castela, em Aragão havia muitos mouros que não tinham recebido o batismo. Mesmo que Carlos V houvesse prometido respeitar seus costumes, o papa Clemente VII o livrou do seu juramento e o Instou a forçar os mouros de Aragão a batizar-se. E a partir de então se seguiu uma política cada vez mais intolerante, primeiro para com os muçulmanos e depois para com os mouriscos, até que os últimos mouriscos foram expulsos no princípio do século XVII.

Tudo isso que foi contado ilustra a política religiosa de Isabel, que foi também a da Espanha por vários séculos. Ao mesmo tempo que se buscava reformar a igreja mediante a regularização da vida do clero e do incentivo aos estudos teológicos, era-se extremamente intolerante para com tudo que não se ajustasse à religião do estado. Logo, Isabel foi a fundadora da reforma católica, que deu o primeiro passo na Espanha e depois fora dela e essa reforma levou o selo da grande Rainha de Castela.

A Descendência de Isabel

O nome de Isabel, a Católica, mescla-se com a história da Reforma do século XVI, não somente por ela ser a principal promotora da reforma católica espanhola, como também porque seus descendentes se viram envolvidos em muitos do acontecimentos que temos de relatar.

Os filhos de Fernando e Isabel foram cinco. A filha maior, Isabel, casou-se primeiro com o Infante dom Alfonso de Portugal e com a morte deste, com Manuel I de Portugal. Deste segundo casamento teve um filho, o príncipe dom Miguel, cujo nascimento lhe custou a vida, e que também não viveu muito tempo.

João, o presumido herdeiro dos tronos de Castela e Aragão, morreu pouco depois de casar-se, sem deixar descendência. Sua morte foi um duro golpe para Isabel, tanto pelo amor materno que sentia para com o jovem príncipe como pelas complicações que esse acontecimento poderia acarretar para a sucessão do trono. Posto que dois anos depois, em 1500, morreu o infante dom Miguel de Portugal, ficou como herdeira dos tronos de Castela e Aragão a segunda filha dos reis católicos, Joana.

Joana se casou com Felipe, o Formoso, filho do imperador Maximiliano I, porém logo começou a dar os primeiros sinais de loucura. Felipe havia herdado de sua mãe os Países Baixos, e com a morte de Isabel reclamou para si a coroa de Castela, ainda que Fernando seu sogro se opusesse a isso. Mas Felipe morreu inesperadamente em 1506 e a partir daí a loucura de Joana se tornou inegável. Fez embalsamar o corpo do seu defunto esposo e passeava com ele por Castela, depois mudou-se para Tordesilhas, onde continuou guardando o cadáver até  que morreu em 1555.

Joana tinha tido de Felipe dois filhos e quatro filhas. O filho mais velho, Carlos, foi seu sucessor no trono de Castela, e depois, de Aragão. Visto que também foi imperador da Alemanha, é conhecido como Carlos V, ainda que na Espanha foi o primeiro rei com esse nome. O outro filho, Fernando, sucedeu a Carlos como imperador, quando este abdicou. A filha mais velha de Joana e Felipe, Eleonor, casou-se primeiro com Manuel I, de Portugal (o mesmo que antes casara com Isabel, a tia de Eleonor), e depois com Francisco I da França, que ocupará um papel importante em vários capítulos desta história. As demais se casaram com os reis da Dinamarca, Hungria e de Portugal.

A terceira filha dos reis católicos, Maria, foi a segunda esposa de dom Manuel I de Portugal (depois de sua irmã Isabel, e antes de sua sobrinha Eleonor),

Por último, a filha menor de Fernando e Isabel, Catarina de Aragão, mudou-se para a Inglaterra onde contraiu matrimônio com o príncipe Artur, herdeiro da coroa, Ao morrer Artur, casou-se com o irmão dele, Henrique VIII. A anulação deste casamento foi a ocasião do rompimento entre a Inglaterra e Roma, segundo veremos mais adiante, A filha de Catarina e  Henrique e, portanto, neta dos reis católicos, foi a rainha Maria Tudor, a quem se tem dado o sobrenome de “a Sanguinária”.

Em resumo, ainda que a história dos filhos dos reis católicos seja triste, as próximas gerações deixaram sua marca, não só na Europa como também na América, até o ponto que é Impossível narrar a história do século XVI sem se referir a eles.

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