A era dos reformadores (V): Ulrico Zwínglio e a Reforma na Suíça

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos reformadores – Vol. 6. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 089 a 096.

“Se o homem interior é tal que acha seu deleite na lei de Deus, porque tem sido criado conforme a imagem divina, com a finalidade de ter comunhão com Ele, é certo que não haverá lei nem palavra alguma que lhe cause mais deleite do que a Palavra de Deus.”

Ulrico Zwínglio

Ao estudar Lutero e o movimento reformador que ele dirigiu na Alemanha, vimos que o nacionalismo alemão e o humanismo moveram-se paralelamente à obra do grande Reformador, que na verdade não era nem nacionalista nem humanista. O caso de Ulrico Zwínglio é muito distinto, pois nele os princípios reformadores, o sentimento patriótico e o humanismo se conjugaram em um programa de reforma religiosa, intelectual e política.

A Peregrinação de Zwínglio

Resultado de imagem para ulrico zuínglioZwínglio nasceu em janeiro de 1484, menos de dois meses depois que Lutero, em uma pequena aldeia suíça. Depois de receber as primeiras letras de seu tio, foi estudar em Basileia e Berna, onde o humanismo estava em moda. Depois foi para a Universidade de Viena e de novo voltou a Basileia. Quando recebeu seu título de Mestre em Artes, em 1506, deixou os estudos formais para ser sacerdote na aldeia de Glarus. Porém, ainda ali continuou seus estudos humanistas e chegou a dominar o grego. Nisto era excepcional, pois sabemos por outros testemunhos que havia muitíssimos sacerdotes ignorantes e até nos dizem que eram poucos os que haviam lido o Novo Testamento.

Em 1512 e 1515, Zwínglio acompanhou os contingentes de mercenários procedentes de seu distrito, em campanhas pela Itália. A primeira expedição foi vitoriosa e o jovem sacerdote viu seus compatriotas entregues ao saque. O resultado da segunda foi totalmente oposto e deu a Zwínglio a oportunidade de ver de perto o impacto da derrota sobre os vencidos. Tudo aquilo lhe foi convencendo que um dos grandes males da Suíça era que sua juventude estava constantemente envolvida em guerras que não eram de sua incumbência e que o serviço mercenário destruía a fibra moral da sociedade.

Depois de passar dez anos em Glarus, Zwínglio foi nomeado cura de uma abadia que era o centro das peregrinações e ali sua pregação contra a ideia de que tais exercícios procuravam a salvação atraiu a atenção de muitos.

Quando por fim chegou a ser cura da cidade de Zurich Zwínglio tinha chegado a idéias reformadoras muito parecidas com as de Lutero. Porém seu caminho para essas idéias não tinha sido o tormento espiritual do reformador alemão, mas sim o estudo das Escrituras utilizando os métodos humanistas, e a indignação diante das superstições do povo, a espoliação de que era objeto por parte de alguns líderes eclesiásticos e o serviço militar mercenário.

Assim a autoridade de Zwínglio em Zurich foi grande. Quando alguém chegou vendendo indulgências, o cura reformador conseguiu que o governo o expulsasse. Quando Francisco I pediu à Confederação Suíça soldados para as suas guerras contra Carlos V, todas as regiões cederam, porém Zurich se negou, seguindo o conselho de seu pregador. Pouco depois os legados do papa, que era aliado de Francisco I, prevaleceram sobre o governo de Zurich, mostrando que existiam tratados que o obrigavam a proporcionar-lhes soldados. Isto fez que a partir daí boa parte dos ataques de Zwínglio, antes dirigidos de maneira impessoal contra as superstições, se transferissem mais diretamente contra o papa.

Era nessa época que Lutero estava causando grande revolução na Alemanha, enfrentando o Imperador em Worms. E assim os inimigos de Zwínglio começaram a dizer que suas doutrinas eram as mesmas do alemão. Mais tarde o próprio Zwínglio diria que antes de ter conhecido as doutrinas de Lutero, havia chegado a conclusões semelhantes com base em seus estudos na Bíblia. Assim, percebe-se aqui não um resultado direto da obra de Lutero, mas sim de uma reforma paralela à da Alemanha, que logo começou a estabelecer contatos com ela, cuja origem porém era independente. Em todo caso, em 1522, Zwínglio estava pronto a empreender sua obra reformadora e o Conselho de Governo de Zurich o apoiava.

O Rompimento com Roma

Zurich estava debaixo da jurisdição eclesiástica do episcopado de Constança, que começou a dar sinais de preocupação pelo que se estava pregando em Zurich. Quando Zwínglio pregou contra as leis do jejum e da abstinência, e alguns membros de sua paróquia se reuniram para comer salsichas durante a quaresma, o bispo eleito de Constança acusou o pregador diante do Conselho de Governo. Porém Zwínglio se defendeu baseando-se nas Escrituras, e lhe foi permitido continuar pregando. Pouco depois Zwínglio começou a criticar o celibato, dizendo que não era bíblico e que em todo caso aqueles que o ensinavam não o cumpriam. O papa, na ocasião Adriano VI, tratou de acalmar seu zelo fazendo-lhe promessas tentadoras. Porém Zwínglio persistia em sua posição e conseguiu que o Conselho convocasse um debate entre ele e o vigário do bispo sobre essas doutrinas que ele pregava.

Chegado o momento do debate, várias centenas de pessoas se reuniram para presenciá-lo. Zwínglio propôs e defendeu suas diversas teses baseadas nas Escrituras. O vigário não respondeu às suas teses e disse prontamente que reuniria um concílio universal que decidiria sobre as questões que se debatiam. Quando foi pedido a ele que provasse que Zwínglio estava enganado, ele se negou a fazê-lo. Em conseqüência, o Conselho declarou, que visto que ninguém havia aparecido para refutar as doutrinas de Zwínglio, este podia continuar pregando livremente. Essa decisão por parte do Conselho marcou o rompimento de Zurich com o episcopado de Constança e, portanto, com Roma.

A partir daí, Zwínglio, com o apoio do Conselho, foi levando avante a sua reforma, que consistia na restauração da fé e práticas bíblicas. Em relação a isso Zwínglio diferia de Lutero, pois embora o alemão cria que deviam ser preservadas todas as práticas tradicionais, exceto aquelas que contradissessem a Bíblia, O suíço sustentava que tudo o que não fosse encontrado explicitamente nas Escrituras devia ser rechaçado. Isto o levou, por exemplo, a suprimir o uso dos órgãos nas igrejas, pois se tratava de um instrumento que não aparecia na Bíblia.

Sob a direção de Zwínglio, houve rápidas mudanças em Zurich. A ceia começou a ser oferecida em ambas as espécies. Muitos sacerdotes, monges e freiras se casaram. Foi estabelecido um sistema de educação pública geral, sem distinção de classes. Ao mesmo tempo, pregadores e leigos procedentes de Zurich propagavam suas doutrinas por outras regiões suíças.

A Confederação Suíça, como seu nome o indica, não era um estado centralizado, mas sim um complexo mosaico de diversos estados, cada um com seu próprio governo e suas próprias leis, que se haviam reunido com certos propósitos concretos, particularmente o de garantir sua independência. Dentro desse mosaico, rapidamente algumas regiões se tornaram protestantes, embora outras continuassem obedientes a Roma e sua hierarquia. Essa divergência religiosa somou-se a outras diferenças profundas e a guerra civil chegou a parecer Inevitável.

As regiões católicas começaram a dar passos para uma aliança com Carlos V e Zwínglio aconselhou aos protestantes que atacassem os católicos antes que fosse tarde demais. Porém as autoridades não estavam dispostas a serem os primeiros a partir para as armas. Quando finalmente Zurich decidiu-se a atacar, as demais regiões não estavam de acordo. Por fim, contra o conselho de Zwínglio, tomaram medidas econômicas contra as regiões católicas, a quem acusavam de haver traído a Confederação ao aliar-se com Carlos V, e através dele com a odiada casa dos Habsburgo.

Em outubro de 1531 as cinco regiões católicas reuniram seus exércitos e atacaram Zurich de surpresa. Os defensores tiveram apenas tempo de se prepararem para o combate, pois não sabiam quem lhes atacava até que viram os pendões do inimigo no horizonte. Zwínglio saiu com os primeiros soldados, disposto a oferecer resistência enquanto o grosso do exército se preparava para a defesa. Ali, em Cappel, as regiões católicas derrotaram Zurich e Zwínglio morreu em combate.

Pouco mais de um mês depois foi firmada a paz de Cappel e por ela os protestantes se comprometiam pagar os gastos da recente campanha, porém era permitido a cada região decidir qual seria a sua fé. A partir daí, o protestantismo ficou estabelecido em várias regiões suíças e o catolicismo em outras.

A Teologia de Zwínglio

Não podemos nos deter aqui para expor detalhadamente a teologia do reformador suíço, que em todo caso coincidia em muitos pontos com a de Lutero. Portanto, nos limitaremos a assinalar os principais pontos de contraste entre ambos os reformadores.

A principal diferença entre ambos os reformadores se relaciona com o caminho que cada um deles seguiu para chegar às suas doutrinas. Enquanto Lutero foi a alma atormentada que por fim encontrou sua paz na mensagem bíblica da justificação pela fé, Zwínglio foi o erudito humanista, que se dedicou a estudar as Escrituras porque elas eram a fonte da fé cristã, e parte do movimento humanista consistia precisamente em regressar às fontes da antiguidade. Isto, por sua vez, quer dizer que a teologia de Zwínglio é mais racionalista que a de Lutero.

Um bom exemplo disso é o modo pelo qual os dois reformadores discutiam a doutrina da predestinação. Ambos criam na predestinação, tanto porque ela é necessária para afirmar a justificação absolutamente gratuita, como também, porque se encontra nas epístolas de Paulo. Porém, enquanto para Lutero a predestinação era o resultado e a expressão de sua experiência de sentir-se impotente diante de seu próprio pecado e ver-se obrigado a declarar que sua salvação não era uma obra sua, mas de Deus; para Zwínglio a predestinação é algo que se deduz racionalmente do caráter de Deus. Para o reformador de Zurich, a melhor prova da predestinação é que, se Deus é onipotente e onisciente, tem de saber tudo e determinar tudo de antemão. Lutero não empregaria tais argumentos, mas se contentaria em dizer que a predestinação é necessária devido a impotência do ser humano para libertar-se de seu próprio pecado. Os argumentos no estilo de Zwínglio pareceriam, a ele, com o produto da “porca razão” e não da revelação bíblica nem da experiência do evangelho.

Também quanto ao alcance das reformas que deveriam ocorrer na igreja, os dois reformadores diferiam. Como já dissemos anteriormente, Lutero cria que bastava desfazer-se de tudo o que contradizia as Escrituras, enquanto Zwínglio insistia na necessidade de preservar somente o que se encontrasse explicitamente na Bíblia. Uma vez mais o que preocupava Lutero não eram as formas externas da religião, mas a proclamação do verdadeiro evangelho. Zwínglio cria que o retorno às fontes devia ser o princípio orientador da Reforma e parte desse retorno consistia em desfazer-se de todas as inovações que tinham sido feitas no decorrer dos séculos, por mais insignificantes que fossem.

O racionalismo de Zwínglio mesclava-se com certos elementos procedentes do neoplatonismo, que se haviam introduzido no cristianismo séculos antes, com Justino, o Mártir; Orígenes, Agostinho e outros. O mais notável desses elementos é a tendência a menosprezar a criação material e estabelecer um profundo contraste entre ela e as realidades espirituais. Esta era uma das razões pelas quais Zwínglio insistia num culto simples, que não levasse o crente para o material mediante o uso exagerado dos sentidos. Lutero, por sua vez, afirmava a doutrina bíblica da criação como boa e, portanto, tratava de não exagerar no contraste entre o material e o espiritual. Para ele, o material não era um obstáculo, mas sim uma ajuda à vida espiritual.

As consequências disto se observaram claramente na maneira pela qual os reformadores entendiam os sacramentos, particularmente a eucaristia. Enquanto Lutero cria que ao realizar-se a ação externa pelo ser humano tinha lugar uma ação interna e divina, Zwínglio não estava disposto a conceder-lhes tal eficácia, pois aquilo limitaria a liberdade do Espírito. Para Zwínglio, os elementos materiais, e a ação física que os acompanhava, não eram mais que símbolos ou sinais da realidade espiritual. Segundo ele, quando Jesus disse: “isto é o meu corpo”, o que ele queria dizer era: “isto significa meu corpo”.

Para os dois reformadores, suas doutrinas eucarísticas eram importantes, pois se relacionavam estreitamente com o restante de suas teologias. Por isso, quando as circunstâncias políticas fizeram que o magistrado Felipe de Hesse tratasse de unir os reformadores alemães com os suíços, a questão da presença de Cristo na ceia tornou-se o obstáculo intransponível. Isto teve lugar em 1529, quando por pedidos de Felipe se reuniram em Marburgo os principais chefes do movimento reformador: Lutero e Melanchthon, de Wittenberg; Bucero, de Estrasburgo; Ecolampádio, de Basileia e Zwínglio, de Zurich. Em todos os pontos principais pareciam estar de acordo, exceto no que se referia ao sentido e a eficácia da ceia. E ainda neste ponto talvez até se chegasse a um acordo, não fosse Melanchthon lembrar a Lutero que a doutrina de Zwínglio separaria ainda mais os luteranos dos católicos alemães, a quem Lutero e seus companheiros esperavam ganhar para sua causa. Algum tempo depois, quando o rompimento com os católicos se tornou irreversível, o próprio Melanchthon chegou a um acordo com os reformadores suíços e de Estrasburgo.

Em todo caso, não resta dúvidas de que a frase que se atribui a Lutero, no encontro de Marburgo, “não somos do mesmo espírito” refletia adequadamente a situação. A diferença entre os dois reformadores com respeito a ceia não era questão de detalhe sem importância, mas tinha a ver com o modo pelo qual os dois viam a relação entre a matéria e o espírito e, consequentemente, também com o modo pelo qual entendiam a revelação divina.

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