A era dos reformadores (XIII): o Protestantismo Espanhol

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos reformadores – Vol. 6. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 201 a 213.

“Coragem, camaradas! Esta é a hora em que devemos nos mostrar valentes soldados de Jesus Cristo. Demos fiel testemunho de sua fé diante dos homens e dentro de poucas horas receberemos o testemunho de sua aprovação diante dos anjos!” (Julianillo Fernandez)

Nos capítulos anteriores tratamos principalmente daqueles países em que o protestantismo conseguiu ganhar fortes raízes: Alemanha, Suíça, Holanda, Inglaterra, etc. Houve outros onde seu impacto foi menor, apesar de, também notável, e que não temos discutido aqui por razões de falta de espaço. Entre estes últimos devemos mencionar a Itália, Polónia, Hungria, Rússia, Grécia e outros. Em certo sentido, a Espanha também pertence a esta segunda categoria. A história do protestantismo na Espanha é uma série de perseguições, reuniões clandestinas, mortes e exílios. Posteriormente, não restaram vestígios daquele antigo protestantismo que possam assinalar-se com certeza. Porém, por outra parte, a história daqueles antigos reformadores espanhóis, perseguidos, exilados, torturados e mortos, é também um capítulo importante da nossa [o autor é cubano], pois falamos o mesmo idioma (o espanhol). Por essa razão, antes de deixar a “era dos reformadores” devemos dar ao leitor pelo menos uma rápida olhadela nela.

A história do protestantismo na Espanha está ainda por ser escrita. Há numerosos ensaios e monografias sobre personagens ou fatos relacionados. Porém um movimento que foi em sua maior parte clandestino é sempre difícil de se investigar, pois frequentemente se acha escondido em episódios que o tempo e a falta de atenção têm-se encarregado de manchar. Portanto, o que tentaremos fazer aqui não será narrar a história do protestantismo espanhol, mas oferecer um pequeno esboço dela, com alguns episódios que sirvam para dar ao leitor uma ideia da fé e do heroísmo daqueles personagens quase esquecidos.

Erasmismo, Reforma e Inquisição

Ao começar a “era dos reformadores”, havia poucos países na Europa onde o espírito reformador parecia ter maiores probabilidades de êxito que na Espanha. Erasmo tinha cifrado nela suas esperanças de ver uma reforma segundo ele a concebia. A obra de Isabel, a Católica, e de Cisneros tinha dado frutos, e as reformas que eles tinham empreendido, ainda que distassem muito de ser universais, iam abrindo o caminho. O rei Carlos, neto de Isabel, era admirador do movimento humanista, e se tinha feito rodear de vários conselheiros que pertenciam a ele. Entre eles se achava seu secretário Alfonso de Valdés, que o acompanhou à dieta de Worms. A universidade de Alcalá, e várias outras, tinham-se tornado em centros da reforma.

Então surgiu a reforma luterana na Espanha, e a velha reforma espanhola transformou-se numa contrarreforma. Como toda reação, essa contrarreforma começou a ter inimigos, não só no protestantismo, como também nos erasmitas que não estavam dispostos a ser tão extremistas quanto ela. O resultado foi que muitos deles foram obrigados a abandonar o país e impulsionados a tomar atitudes mais radicais com respeito às questões religiosas que se debatiam.

Ao mesmo tempo, a Inquisição que até então tinha-se ocupado principal mente dos supostos judaizantes e dos mouriscos falsamente convertidos, começou a dirigir sua atenção para os “luteranos” (título que davam a toda pessoa que tomasse posições remotamente parecidas com as de Lutero).

Todo esse processo, sem dúvida, levou algum tempo. Durante o reinado de Carlos V foram poucos os espanhóis que se sentiram atraídos pelo protestantismo e a maioria deles preferiu viver no exílio. No início do reinado de Felipe II as autoridades se aperceberam de que as ideias “luteranas” (na realidade quase todos os protestantes espanhóis eram mais calvinistas que luteranos) tinham penetrado profundamente no país. Foi então, como veremos mais adiante, que se desatou a verdadeira perseguição.

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Julgamento da Inquisição, na praça Real de Madrid (séc. XVII). Sob um toldo que os cobre do Sol, o Rei, e os grandes personagens do reino. Numa das escadarias à esquerda, os conselheiros da Inquisição. Nas da direita, os acusados, cada um acompanhado por um “familiar da Inquisição”. A frente, à esquerda, o púlpito e o altar de onde se pregava e se dizia a missa. No centro, os altares que se usavam para ler as sentenças, enquanto os acusados estavam de pé nas jaulas do centro. À direita, na frente, as efígies de quatro hereges que seriam condenados em sua ausência.

A Reforma Mística e Humanista: João de Valdez

A João de Valdez, cujo irmão, Alfonso, era secretário do imperador, cabe a honra de ter sido o primeiro autor “luterano” em espanhol. Dizemos “luterano”, porque foi esse o título que lhe deram seus inimigos. Na realidade, a doutrina de Valdez nunca teria sido aceita pelo Reformador de Wittenberg, pois Valdez era um místico que combinava a larga tradição espanhola com o humanismo no estilo de Erasmo.

Quando a Inquisição começou a suspeitar dele, e ficou claro que seu irmão Alfonso não teria poder necessário para defendê-lo, João de Valdez decidiu abandonar a Espanha e refugiou-se em Nápoles, que também pertencia a Carlos V, onde, porém, a Inquisição não teria o alcance que tinha na Espanha. Ali passou o resto de seus dias dedicado à meditação religiosa. Ao seu redor reuniu-se um círculo de aristocratas que admiravam seus ensinos. Visto que seu propósito, mais que reformar a igreja, era conseguir uma vida mais espiritual e mais profunda para o indivíduo, Valdez pôde evitar ser condenado pelas autoridades eclesiásticas. Com sua morte, sua discípula Giulia de Gonzaga continuou reunindo o grupo fundado por ele, até que ela também morreu.

O próprio Valdez não parece ter sido verdadeiramente protestante. Sua ênfase na vida do espírito, e às vezes em posição contra, não só aos ritos externos, mas também ao estudo das Escrituras, era muito distinta do que pregavam os reformadores luteranos e calvinistas. Porém, em todo caso, vários de seus discípulos, entre eles o famoso pregador Bernardino de Ochino, general da ordem dos capuchinos, tornaram-se protestantes, e tiveram que emigrar para a Itália. O próprio Ochino teve uma carreira acidentada, pois depois de tornar-se protestante e refugiar-se em Genebra começou a formular declarações contra a doutrina da Trindade, e a favor do ensino de Servetto, e posteriormente viu-se obrigado a partir para a Polónia, onde morreu anos depois, quando se preparava para emigrar uma vez mais por questões doutrinais.

As Comunidades Protestantes da Espanha

O contato entre a Espanha, por uma parte, e a Alemanha e os Países Baixos, por outra, não podia levar a outra coisa, senão à introdução do protestantismo na Península Ibérica. Em 1519 foram enviados à Espanha os primeiros escritos de Lutero, e no ano seguinte foi traduzido para o espanhol seu comentário sobre Gálatas. A partir daí e de maneira esporádica, continuaram infiltrando na Espanha, principalmente procedentes dos Países Baixos, livros dessa índole. Visto que no principio se confundia a reforma que era pretendida por Erasmo com a que tinha sido iniciada por Lutero, os livros luteranos foram populares nos círculos humanistas, e a Inquisição tomou medidas para descobri-los e destruí-los. Porém, tudo isso não passa de mera curiosidade ou, quanto mais, de desejos de que na Espanha se começasse uma reforma parecida à que estava ocorrendo na Alemanha.

Até o fim do reinado de Carlos V já haviam sido fundadas as primeiras comunidades ou igrejas protestantes, em Valladolid e em Sevilha. Mesmo assim não se tratava verdadeiramente de gente que estivesse convencida de que era necessário seguir as doutrinas de Lutero ou de Calvino, mas de membros da igreja católica que sonhavam com sua reforma e que recebiam inspiração dos escritos protestantes.

Resultado de imagem para julian hernandez julianilloUm dos principais promotores do protestantismo espanhol foi Juliano Hernandez, conhecido devido a sua pequena estatura como “Julianinho“. Quando finalmente foi oprimido pela Inquisição, comportou-se com singular valentia. Repetidamente foi levado à câmara de torturas, sem que pudessem arrancar-lhe uma negação, nem o nome de seus companheiros. Ao regressar a sua cela, depois de longas sessões de suplício, diz-se que ia cantando:

Vencidos vão os freis, vencidos vão; / Corridos vão os lobos, corridos vão.

Ao ser levado para a fogueira depois de três anos de prisão e torturas, pronunciou as palavras que temos citado no início deste capítulo, e morreu de maneira exemplar.

“Coragem, camaradas! Esta é a hora em que devemos nos mostrar valentes soldados de Jesus Cristo. Demos fiel testemunho de sua fé diante dos homens e dentro de poucas horas receberemos o testemunho de sua aprovação diante dos anjos!” (Julianillo Fernandez)

Em Sevilha, o mais renomado pregador da catedral, o doutor Constantino Ponce de la Fuente, fazia parte do círculo que estudava as doutrinas protestantes. Além disso, nos arredores da cidade, no convento de São Izidoro, em Santiponce, o movimento reformador tinha chegado até o ponto que toda vida monástica se reorganizou, para dar mais tempo ao estudo das Escrituras e menos aos ritos tradicionais.

No fim de 1557e início de 1558, começou a haver indícios de que a Inquisição se preparava para dar um rude golpe nos círculos de inclinações protestantes. Em Valladolid, o movimento havia infiltrado entre as freiras de Santa Clara e as cistercienses de São Belém. Em Sevilha, tinha passado do convento de Santiponce para outras casas vizinhas e abria caminho por entre os leigos da comarca. Aqueles que criam que o protestantismo era o pior mal que assolava o mundo tinham que tomar medidas para sua destruição.

Alertados, os monges de São Isidoro reuniram-se para discutir a situação e determinaram que cada qual ficasse livre para seguir o rumo que melhor lhe convinha. Doze deles decidiram partir por distintas rotas e reunirem-se no ano seguinte em Genebra. Assim o fizeram, e depois de longas e diversas odisseias todos chegaram à cidade suíça. Entre os refugiados sevilhanos se achavam João Pérez, Casiodoro de Reina e Cipriano de Valera, personagens de grande importância na história da Bíblia castelhana.

Poucos dias depois da partida daqueles frades, aconteceu a tormenta. Em Sevilha perto de oitocentas pessoas foram levadas aos cárceres da Inquisição, e umas oitenta, em Valladolid. Em Sevilha, o tumulto foi tal que a Inquisição foi obrigada a pôr guardas na ponte que separava seu castelo de Triana da cidade, por temer que o povo tentasse libertar os presos. Entre estes se encontrava Constantino Ponce de la Fuente, pois os inquisidores descobriram inesperadamente algumas de suas obras, conservadas em secreto, nas quais criticava as doutrinas e práticas mais comuns do catolicismo de sua época. Pouco depois foram dadas ordens para que noutras cidades se procedesse de igual maneira, e logo as prisões inquisitoriais nas principais cidades da Espanha estavam repletas de acusados.

Os processos que se iniciaram então duraram muito tempo. Constantino morreu de desinteria num cárcere mal cuidado e os inquisidores trataram de manchar sua memória dizendo que ele tinha se suicidado ingerindo vidro moído. Muitos dos condenados confessaram sua “heresia”, negando-a, e foram condenados a diversas penas. Porém, com a maioria, deu-se um julgamento tão prolongado que muitos morreram antes de receberem o veredito final.

O primeiro “ato de fé” contra os protestantes foi celebrado em Valladolid em 21 de maio de 1559, e nele quatorze pessoas foram mortas, enquanto outras dezesseis foram castigadas publicamente de maneiras distintas. No segundo, celebrado na mesma cidade no dia 8 de outubro do mesmo ano, os mortos foram treze, e dezesseis os castigados de outra maneira. Em Sevilha, onde o número de acusados era maior, o primeiro ato de fé teve acontecimento em 24 de setembro, e nele os condenados a morrer foram vinte e um. Entre eles estavam quatro freis de São Isidoro, que tinham decidido permanecer ali enquanto seus irmãos partiam para Genebra. O segundo ato de fé sevilhano aconteceu mais de um ano depois, em 22 de dezembro de 1560, e nele morreram 14 pessoas, entre as quais Julianinho Hernandez. A partir dai os atos de fé se multiplicaram, e durante cada um dos próximos dez anos houve pelo menos uma dúzia deles. Assim, o número dos

Apesar de Constantino Ponce de la Fuente ter morrido nos cárceres da inquisição, sua Suma da Doutrina Cristã, publicada sem o nome do autor pelo bispo Zumarraga, foi uma das primeiras obras impressas no Novo Mundo.

condenados à morte por serem “luteranos” foi considerável. E muito maior foi o dos que receberam penas menores, tais como o confisco de bens, prisão perpétua, carregar “Descrédito Público” etc. Porém, apesar disso, até o fim deste século, a Inquisição foi obrigada a continuar buscando e condenando os que persistiam em suas inclinações protestantes.

Os Protestantes Exilados

Diante da perseguição que os ameaçava constantemente, foram muitos os protestantes espanhóis que decidiram abandonar sua pátria e estabelecer-se em outros lugares. E assim logo surgiram igrejas protestantes espanholas em Amberes, Estrasburgo, Genebra, Hesse e Londres. Devido a instabilidade política dos tempos, os membros de tais comunidades viam-se às vezes, obrigados a emigrar de novo, como sucedeu em Amberes quando o duque de Alba tomou a cidade.

A obra mais notável desses exilados foi a tradução da Bíblia para o castelhano. Em 1543, em Amberes, Francisco de Enzinas publicou sua versão do Novo Testamento, baseado no texto grego de Erasmo. Era dedicada ao imperador Carlos V, a quem Enzinas presenteou pessoalmente em Bruxelas. O monarca lhe prometeu estudá-la, e a fez chegar a seu confessor. O resultado foi que Enzinas foi encarcerado por fomentar a heresia. Permaneceu quinze meses preso, até que um belo dia, encontrou abertas as portas de sua cela e escapou.

Em 1556, João Pérez, um dos sevilhanos que tinham fugido antes de ocorrer a perseguição, publicou sua versão do Novo Testamento, e pouco depois a dos Salmos. Quando morreu, em Paris, deixou toda sua herança para a publicação de uma Bíblia castelhana.

Resultado de imagem para A Bíblia do UrsoEntretanto, o grande herói dessa empresa foi Casiodoro de Reina. Do mesmo modo que seus companheiros de convento, Casiodoro tinha chegado a Genebra fugindo dos rigores da Inquisição, e logo começou a não sentir-se à vontade e a dizer que Serveto tinha sido queimado “por falta de caridade”, e que Genebra tinha-se transformado numa “nova Roma”. A partir daí viu-se obrigado a exilar-se repetidamente, em Frankfurt, Londres, Amberes, etc. Depois de longas penúrias e contratempos, pôde por fim ver publicada sua Bíblia em 1569. Sua vida, que pudemos ver relatada aqui em poucas linhas, é um dos capítulos mais dramáticos de toda a “era dos reformadores”.

A primeira edição da tradução de Casiodoro de Reina é conhecida como “A Bíblia do Urso“, pela razão da gravura que aparece na primeira página

Alguns anos mais tarde, em 1602, Cipriano de Valera publicou a revisão da Bíblia de Casiodoro que chegou a ser a versão das Escrituras mais usada entre os protestantes de língua espanhola, até o século XX.

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