A era dos conquistadores (I): Isabel, a Católica

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos conquistadores – Vol. 7. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 013 a 031.

“… que nisso ponham muita diligência, e não consistam nem deem lugar a que os indivíduos vizinhos e moradores das ditas Índias e terra firme, ganhas e por ganhar, recebem agravo em suas pessoas e bens; e assim ordeno que sejam bem e justamente tratados.”

(Testamento de Isabel, a Católica.)

Isabel, a Católica, a rainha cuja política religiosa nos serviu como ponto de partida no volume anterior, encabeça também o presente. Este procedimento serve para destacar dois fatos fundamentais. O primeiro é que, na questão do tempo, a “era dos reformadores” coincidiu com a “era dos conquistadores”. Enquanto Lutero se ocupava em dar os primeiros passos que levariam à reforma da igreja, Cortés e Pizarro sonhavam em conquistar glórias e impérios. O segundo fato é que, quando abandonamos a perspectiva germânica ou anglocêntrica que tem dominado boa parte da história eclesiástica, o papel da Espanha na história do século XVI se agiganta. E, como fundadora dessa Espanha, se vislumbra sempre a figura destacada de Isabel, a Católica.

Herança incerta

Quando Isabel nasceu, no Madrigal das Altas Torres, em 22 de abri I de 1451, não se esperava que herdasse o trono de Castela. Tal herança correspondia a seu meio irmão Henrique, nascido da primeira esposa de João II, dona Maria de Aragão, vinte e cinco anos antes. Em fins de 1453, a mãe de Isabel, dona Isabel de Portugal, dava a João outro filho varão, Alfonso, e com isso parecia certo que o cetro de Castela nunca chegaria às mãos da infanta Isabel.

Oito meses depois do nascimento de Alfonso, morreu João II, e o trono passou, sem problema algum, para seu filho mais velho, Henrique IV. Entretanto, este não tinha dons de governante, e logo apareceram os descontentamentos. O novo rei empreendeu repetidas campanhas contra os mouros de Granada, estimulado por aqueles que ambicionavam glória e despojos de guerra. Porém todas suas campanhas não passaram de meras incursões nos territórios mouros, onde os soldados se dedicavam a destruir colheitas do inimigo. Desta maneira o rei esperava debilitar os granadinos. Porém o que na verdade conseguia era granjear a inimizade dos guerreiros castelhanos, que viam nele um príncipe titubeante. Ao mesmo tempo, outros se queixavam de que a justiça do rei se vendia por dinheiro, e que o monarca, que se mostrava misericordioso para com os mouros, era cruel com os castelhanos que criassem obstáculos para seus desejos. Entre eles se contava sua madrasta dona Isabel de Portugal, e os dois filhos desta, Isabel e Alfonso.

O ódio do rei fez recolher Dona Isabel no castelo de Arévalo, onde aquela que tinha sido até pouco tempo antes rainha de Castela, perdeu a razão. Foi em tais condições, odiada e afastada da corte por seu irmão, e em companhia de sua mãe louca, e de seu pequeno irmão, que a futura rainha Isabel passou os primeiros anos de sua vida. Em 1460,quando tinha nove anos, foi afastada à força de sua mãe e levada de novo para a corte, onde a colocaram sob a custódia dos capitães do rei. Ao que parece, a razão que levou Henrique a tomar tal decisão foi que se apercebeu das tramas que começavam a formar ao redor de seus meio-irmãos, e que iam se avultando porque Henrique não tinha filhos que pudessem herdar o trono.

Quando era muito jovem, e antes de morrer seu pai Henrique tinha-se casado com a princesa Branca de Navarra. Logo correu a notícia de que o príncipe era incapaz de consumar o matrimônio e posteriormente, quando por motivos de estado decidiu dissolver a união, as autoridades castelhanas obtiveram do papa a sua anulação. A razão que então se deu, e que tornou-se importantíssima para a história posterior da Espanha era que, por “algum feitiço”, Henrique era incapaz de unir-se a sua esposa. A partir disso, seus inimigos começaram a chamá-lo de “Henrique, o Impotente”, e por esse nome ficou conhecido na história.

Enquanto isso, o rei necessitava providenciar um sucessor para o trono, e por isso contraiu um novo casamento com Joana de Portugal, irmã do rei desse país. Até o dia de hoje os historiadores não concordam sobre o fato de ter-se consumado ou não aquele casamento. Os cronistas da época se contradizem mutuamente, de acordo com os seus interesses partidários. Uns dizem que a impotência do rei com sua primeira esposa não se manifestou com a segunda, e apontam para o fato de que depois Henrique teve várias amantes. Outros afirmam o contrário, dizem – o que já era comentado enquanto Henrique estava vivo – que tais suspeitas amantes não foram verdadeiras, senão que simplesmente se prestaram a dissimular a incapacidade do soberano. Estes mesmos cronistas acrescentam ainda que Henrique, diante da necessidade de prover um herdeiro para o trono, procurava amantes para sua mulher.

Foi a presença de um desses pretensos amantes que provocou um escândalo e, por fim, a guerra civil. Dom Beltrão da Cova, a quem o rei cumulara de honras, costumava visitar a lugar a conjecturas, que os inimigos do rei e de Dom Beltrão não deixaram sem explorar. Quando finalmente a rainha deu a luz uma menina, a infanta Dona Joana de Castela, não faltaram aqueles que diziam que a pretensa herdeira do rei, era na verdade a filha de Dom Beltrão.

Contudo, a menina foi declarada herdeira da coroa e os poderosos do reino lhe juraram obediência. Em seu batismo, Isabel a futura rainha de Castela, foi sua madrinha.

A oposição ao rei ia crescendo, e com ela o partido daqueles que, sinceramente ou por conveniência, chamavam a herdeira de “a Beltraneja”. O marquês de Villena, antigo favorito do rei que via-se eclipsado por Dom Beltrão da Cova, uniu forças com seu tio Alonso Carrilo, arcebispo de Toledo, e ambos promoveram uma rebelião na qual vários dos mais poderosos nobres e prelados do reino se atreveram a exigir do rei a declaração de sua própria desonra, fazendo seu herdeiro o seu meio irmão Alfonso e negando a legitimidade da “a Beltraneja”.

Contra o conselho dos seus achegados, que estimulavam a pegar as armas contra os rebeldes, Henrique capitulou. Mesmo sem declarar explicitamente que dona Joana não era sua filha, nomeou Alfonso herdeiro da coroa. Dom Beltrão teve que ausentar-se da corte, e o marquês de Vilhena recebeu a custódia do jovem herdeiro. Mas isso não satisfez os rebeldes, que estavam empenhados em despojar a coroa de toda autoridade, e nem ao rei que sentia-se humilhado. Crendo contar com o apoio do arcebispo Carrillo, Henrique marchou contra os rebeldes. Sua desilusão foi grande quando descobriu que Carrillo e os rebeldes tinham-se organizado para coroar Alfonso, e declará-lo deposto, ele, Henrique. Assim os rebeldes marcharam para reunirem-se em Ávila, e enquanto isso o rei fugia para Salamanca. Alfonso, que na ocasião contava com pouco mais de onze anos, se deixou levar pelas promessas dos conspiradores e aceitou o título real, contra os conselhos de sua irmã mais velha Isabel, que lhe disse que um trono fundado na usurpação necessitava de bases mais sólidas. Porém Alfonso não teve tempo para ver cumprida a profecia de sua irmã, pois morreu pouco depois de coroado, deixando acéfalo o partido rebelde.

Alonso Carrillo correu então ao convento cisterciense de Santa Ana, em Ávila, onde residia Isabel, para oferecer-lhe a coroa que antes tinha cedido a seu irmão. Porém a princesa se mostrou inflexível, argumentando com o arcebispo de igual maneira como fizera antes com seu irmão: “Se eu ganhar o trono rebelando-me contra ele (Henrique), como poderei condenar amanhã alguém que porventura me desobedecer?” Mas finalmente, junto aos velhos Touros de Guisando, chegou-se a um acordo entre as partes em luta. Segundo este acordo, os rebeldes reconheciam Henrique como soberano, e este em troca disso nomeava Isabel como sua sucessora. Deste modo o partido dos rebeldes, carentes de uma base sobre a qual colocassem a coroa da rebeldia, ganharam pelo menos a humilhação do rei.

Isabel aceitou este acordo porque estava convencida de que dona Joana, a Beltraneja, levava com justiça esse “apelido”, e não era, portanto, a legítima herdeira do trono. Assim, quem nunca esperou ocupar o trono de Castela, e passou seus primeiros anos em meio a penúrias e solidão, foi transformada na legítima herdeira de seu meio irmão Henrique IV.

Henrique não ficou contente com esse acerto que, afinal de contas, era uma mancha em sua honra. Ao reunirem-se as cortes do reino, elas se negaram a ratificar o acordo dos Touros de Guisando. E os partidários de Henrique se dedicaram a alijar Isabel procurando casá-Ia com algum potentado estrangeiro, enquanto fortaleciam sua posição oferecendo a mão da Beltraneja ao rei de Portugal.

Entretanto Isabel não estava disposta a deixar que lhe arrebatassem a coroa que agora, depois da morte de Alfonso, lhe pertencia legitimamente. Depois de fazer suas próprias investigações, decidiu casar-se com o príncipe herdeiro de Aragão, dom Fernando, que vinha bem recomendado por vários dos conselheiros da princesa. Quando Henrique inteirou-se das gestões independentes que Isabel levava a efeito com respeito ao seu casamento, ordenou que fosse encarcerada. Porém o povo de acanha se amotinou e impediu que se cumprisse a ordem do rei. Dali Isabel passou ao Madrigal das Altas Torres, e depois a Valladolid, onde se sentia segura por contar com numerosos simpatizantes.

Enquanto isso, em Aragão, os agentes do rei de Castela estavam vigiando Fernando, para que não fosse até Castela casar-se com Isabel ou incitar uma rebelião. Mas o príncipe conseguiu burlar a vigilância dos castelhanos e, enquanto supostamente dormia, escapou. Assim, disfarçado de tropeiro e com uma tropa de mulas que levava escondidos em grosseiros fardos os trajes necessários para o casamento, chegou a Valladolid, onde o esperava sua prometida.

A única dificuldade que se interpunha então era o fato de que Fernando e Isabel eram primos em segundo grau, e por isso era necessário uma dispensa papal antes da celebração do matrimônio. a papa Paulo II se negava a dar tal dispensa, solicitada repetidamente pelo rei de Aragão, dizendo que o rei de Castela não estava de acordo com o casamento projetado. Porém ao chegar o momento do casamento o arcebispo Carrilo apresentou uma suposta dispensa papal, e o casamento se realizou. Mais tarde os historiadores chegaram à conclusão de que tal dispensa era espúria, mesmo que, no parecer de Isabel, o arcebispo não fizera tal arranjo. Em todo caso, quando os ventos políticos sopraram decididamente a favor de Isabel e Fernando, Roma confirmou a validade do casamento.

Enquanto isso, Henrique declarou guerra contra Aragão, alegando que o reino vizinho tinha-se intrometido nos assuntos internos de Castela. Porém, o papado estava interessado em fomentar a unidade e a harmonia entre os príncipes cristãos, porque a ameaça turca se fazia presente na Europa. Rodrigo Bórgia, o futuro Alexandre VI, foi enviado a Espanha como delegado do pontífice. As gestões do delegado tiveram bom êxito, e Henrique consentiu em fazer as pazes com os aragoneses, aceitar o matrimônio entre Isabel e Fernando, e declarar uma vez mais que sua meia irmã era a legítima herdeira do trono.

As diversas partes que aceitaram este acordo esperavam novas tensões e lutas. Porém pouco depois dos fatos que acabamos de relatar, Henrique IV morreu inesperadamente, e no dia seguinte, 12 de dezembro de 1474, Isabel foi coroada, em Segóvia, rainha de Castela.

O trono se afiança

A urgência com que Isabel foi coroada destaca a incerteza de sua posição. Embora Fernando estivesse fora de Castela, combatendo junto com seu pai no Rosellon, Isabel e seus conselheiros decidiram não aguardar seu retorno. E o que sucedeu foi que o partido da chamada “Beltraneja” que não havia desparecido de todo se movimentou. Tão logo teve notícias do acontecido, o rei de Portugal, que tinha recebido em promessa a mão dessa infortunada princesa, reclamou para si o título real em nome de sua futura esposa e invadiu as terras castelhanas.

Fernando acudiu pressurosamente em defesa da herança de sua esposa, enquanto essa, apesar de encontrar-se no meio de sua segunda gravidez (pouco antes tinha dado a luz a sua primogênita, a quem chamou Isabel), dedicou-se a percorrer o país recrutando um improvisado exército. O magnetismo pessoal da rainha se manifestou então, e logo Fernando pode opor-se ao invasor diante de um exército de quarenta e dois mil homens.

Os dois exércitos se enfrentaram nos campos de Touro, e a batalha ficou indecisa. Porém, enquanto o rei de Portugal se dedicava a reorganizar suas tropas, Fernando enviou correios a todas as cidades de Castela, e a vários reinos estrangeiros, dando-lhes a notícia de uma grande vitória, na qual as tropas portuguesas tinham sido aniquiladas. Diante de tais notícias, o partido da Beltraneja se dissolveu, e os portugueses foram forçados a regressar ao seu reino. Entretanto, como conseqüência de suas longas cavalgadas em defesa do reino, a rainha perdeu o bebê de sua segunda gravidez.

Após todas essas vicissitudes, Isabel ficou dona dos reinos de Castela e Leão, que antes tinham pertencido a seu pai João II e a seu meio irmão Henrique IV. Porém aqueles reinos se encontravam num estado tremendamente grave. Os grandes nobres e prelados tinham-se aproveitado da debilidade dos monarcas anteriores para encherem-se de poder. E era a eles a quem Isabel devia, pelo menos em parte, o poder que agora possuía. Porém a ideia de realeza que Isabel tinha não lhe permitia acomodar-se às pretensões dos poderosos. Além disso, a administração pública, depois de longos anos de incertezas, estava no mais completo abandono. A administração da justiça, que Henrique tinha confiado a subalternos ineptos e indignos, deixava muito a desejar. Os campos dentre as montanhas estavam nas mãos de pequenos bandos armados, que viviam do saque. Porém o problema mais urgente, porque impossibilitava todo plano de governo por parte da rainha, era a atitude turbulenta dos magnatas, que durante o reinado de Henrique IV tinham-se acostumado a agir conforme seus caprichos, e a impor suas vontades sobre a do rei.

A atitude de Isabel diante dos poderosos se manifestou de imediato. Logo que surgia a mais tênue fagulha de rebelião, se apresentava a rainha, combinando a autoridade de sua posição e pessoa com a das armas que a acompanhavam, e acabava com a rebelião. Ao mesmo tempo que perdoava os que tinham sido enganados pelos grandes, castigava os chefes da revolta, para não parecer débil como seu falecido irmão. Porém, geralmente seus castigos se limitavam a tirar os sediciosos de suas posses, e quando muito, punia-os com o desterro. Assim foi a rainha afiançando seu poder por todos seus territórios, desde a Galícia ao norte até Andaluzia ao sul.

As ordens militares, nascidas nos tempos das constantes guerras contra os mouros, eram outra ameaça ao poder real. As três mais importantes eram as de São Tiago, ade Alcântara, e a de Calatrava. Para dar uma ideia do poder de tais ordens, basta dizer-se que a de São Tiago contava com duas centenas de vilas e praças fortes, além das rendas de outras paróquias. Por várias décadas o cargo de grão-mestre de qualquer destas ordens tinha sido cobiçado por magnatas, e os que o alcançavam se atreviam a enfrentar o poder real.

Quando o cargo de grão-mestre de São Tiago ficou vago, a rainha pediu ao papa que lhe concedesse autoridade para nomear a pessoa que o ocuparia. Um nobre, dom Alonso de Cardenas, tratou de adiantar-se aos desígnios de Isabel convocando uma eleição urgente, que devia ter lugar em Uclés. Porém Isabel ali se apresentou inesperadamente e ordenou que a eleição fosse suspensa até que chegasse a resposta do papa. Quando esta resposta chegou, a rainha num golpe mestre de habilidade política, nomeou grão mestre o próprio dom Alonso, deixando bem claro que lhe dava “graciosamente o que ele pretendia como direito”. A partir de então a grande ordem de São Tiago serviu de instrumento dócil nas mãos de Isabel.

Este processo de sujeitar as ordens militares à coroa foi levado a um final feliz quando Fernando foi nomeado como o grão mestre de Alcântara em 1487, e de Calatrava em 1492. Quando em 1499, morreu dom Alonso de Cardenas, o rei foi feito também grão mestre da ordem de São Tiago.

Um aspecto fundamental da política centralizadora de Isabel foi a reforma financeira. Até então eram muitos os que cobravam impostos de diversas classes, e só uma fração de tais impostos chegava à coroa. Com a finalidade de aumentar o poder do trono, e refrear o dos magnatas, era necessário estabelecer um sistema arrecadador que fizesse chegar os fundos às arcas reais. E foi isso que fez Isabel. Seu principal colaborador neste campo, dom Alonso de Quintanilha, mandou fazer um inventário de todas as riquezas do reino, que se compilaram em doze grossos volumes. Baseado nesse inventário se reformou o sistema de impostos, com tão bom êxito que nos oito anos de 1474 a 1482 as entradas para a coroa se multiplicaram quatorze vezes. E, graças às reformas implantadas, isso foi conseguido sem aumentar as taxações sobre os trabalhadores e os necessitados.

Por último, o trono de Castela se afiançou sobre a Santa Irmandade. Desde várias gerações anteriores, em diversas partes da Espanha, tinham-se organizado irmandades de defesa mútua. Porém estas tinham caído em desuso durante os reinados de João II e Henrique IV. E agora Isabel decidia dar nova vida a essa antiga instituição, se bem que colocando-a diretamente debaixo do poder real. Para por fim às rapinas e abusos que existiam por todas as partes, organizou-se uma força policial que recebeu o nome de “Santa Irmandade”. Para esta força cada cem vizinhos devia contribuir com a manutenção de um homem a cavalo que estaria sempre pronto a perseguir os malfeitores. Além disso, a Santa Irmandade recebeu poderes judiciais que lhe permitiam julgar e castigar os criminosos que capturasse. Tratava-se então de urna força militar permanente, de características populares, mas que servia tanto para limpar o país dos bandidos e outros criminosos, serviço esse prestado a coroa, como também servia para fortalecer sua política de limitar o poder dos magnatas. Posteriormente, a Santa Irmandade, conseguiu autoridade até para castigar os abusos dos poderosos. Assim, uma vez mais, a coroa se apoiou sobre as classes médias e baixas para liquidar com a alta nobreza e os prelados turbulentos.

Enquanto isso, continuavam as dificuldades com Portugal, cujo rei, insistindo sempre em seu propósito de casar-se com dona Joana, “a Beltraneja”, reclamava para si a coroa de Castela. A França, por sua parte, aproveitava as tensões que existiam na Península Ibérica para tratar de apoderar-se dos territórios vazios. Porém posteriormente, as tropas de Isabel e Fernando se impuseram em ambas as frentes, e liquidaram também os castelhanos que continuavam apoiando as pretensões de Portugal e da “Beltraneja”. Fernando se encontrava ausente em Aragão, tomando posse do trono de seu recém falecido pai quando Isabel conseguiu concluir a paz com Portugal.

Unidas então as coroas de Castela e de Aragão, firmada a paz com a França e com Portugal, e assegurando o poder real dentro de Castela, ficou aberto o caminho para a mais apreciada ambição de Isabel: completar a reconquista mediante a tomada de Granada.

A guerra de Granada

Desde o ano 711, os mouros tinham estado presentes na Espanha. Mesmo que posteriormente os cristãos chegassem a crer que os sete séculos entre os anos de 711 e o de 1492, fossem uma longa guerra de reconquista contra o poderio mouro, o certo é que boa parte desse tempo passou sem que houvessem maiores conflitos entre os mouros e os cristãos, e que repetidamente se fizessem alianças políticas e militares entre eles, diante de algum atacante de uma ou outra região. Em todo caso, a obra da reconquista tinha ficado praticamente paralisada desde o século XIII, quando o rei Fernando III, o Santo, tinha permitido que se estabelecesse, no extremo sul da Península, e como Vassalo de Castela, o reino mouro de Granada. A condição de vassalagem requeria que Granada pagasse tributos a Castela. Porém com o correr dos anos, o reino de Granada foi fortalecendo suas fronteiras, enquanto o de Castela via-se envolvido na anarquia, e os tais impostos ou tributos não foram mais pagos.

A existência do reino de Granada era um espinho na carne de Isabel, para quem a missão histórica de Castela requeria a conquista desse reino. Fernando, por sua parte, seguia a velha política aragonesa de estar mais interessado nos assuntos do Mediterrâneo que nos da Espanha. Assim, em certo sentido, o empreendimento da conquista de Granada foi um projeto isabelino e castelhano, se bem que Fernando tomou nele parte ativíssima.

Quando se sentiu suficientemente forte, Isabel tratou de fazer valer sua autoridade sobre Granada, exigindo o pagamento dos tributos que esse reino devia à coroa de Castela. É de se supor que a hábil rainha sabia que os mouros granadinos negar-se-iam a pagar, e que isso provocaria a guerra. Com efeito, os granadinos responderam que em Granada não se dedicavam a lavrar ouro nem prata, mas sim a fabricar armas contra seus inimigos. Diz-se que ao receber notícia desta resposta Fernando exclamou: “Dessa Granada, eu arrancarei os grãos um a um!” Pouco depois, os mouros tomaram surpreendentemente a praça de Zahara, com a qual deram começo as hostilidades.

A partir daí (1481), e até 1492, Fernando e Isabel se dedicaram, por assim dizer, a tomar os grãos de Granada um a um. Cada ano se levou a cabo uma campanha nas quais sitiaram e tomaram várias praças fortes dos mouros. Fernando dirigia os exércitos, enquanto Isabel, muito perto dos campos de batalha os encorajava com sua presença e se ocupava com seu sustento. Foi em 1489, quando os gastos com a guerra exigiam medidas drásticas, que a rainha enviou suas joias a Valência, em garantia de um empréstimo. Posteriormente se tem confundido este fato, dizendo-se erroneamente, que Isabel empenhou suas joias para o empreendimento de Colombo.

Cristo das batalhas [1]

Por fim, em 1490, Fernando e Isabel consideraram-se prontos para sitiar a própria cidade de Granada. E com a finalidade de mostrar aos mouros que o cerco era permanente, e que não o levantariam antes da vitória, os castelhanos construíram em frente a cidade muçulmana a vila de Santa Fé. No início, esta cidade militar foi feita com materiais provisórios; porém quando o fogo fez presa dela os reis católicos ordenaram que fosse reconstituída em alvenaria.

Enquanto isso o reino de Granada passava por profundas dificuldades internas. Boabdil, seu último rei mouro, tinha conseguido essa posição mediante uma rebelião, e durante a maior parte do período de guerra contra os castelhanos houve também dissenções e até guerras entre os próprios mouros.

Posteriormente, depois de firmar as Capitulações de Granada, os reis católicos entraram triunfantes na cidade em 2 de janeiro de 1492. A reconquista havia terminado.

Como destacamos no volume anterior desta História, as Capitulações de Granada garantiam aos mouros toda classe de direitos, que logo foram ab-rogados. Posteriormente os últimos mouriscos de Castela foram obrigados a receber o batismo e a adaptarem-se aos costumes dos cristãos.

A rendição de Granada permitiu a rainha ocupar-se com um marinheiro genovês que desde algum tempo antes projetava uma arriscada viagem às Índias navegando, não para o leste como era de costume, mas sim para o oeste. Foi a cidade de Santa Fé, nos arredores de Granada, onde se firmaram as Capitulações de Santa Fé, que serviu de base para o empreendimento colombino.

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  • [1] Nota: como já dissemos em outro momento, há uma tradição, aceita pela Igreja Católica que afirma que Tiago Maior, um dos apóstolos de Cristo esteve na Espanha, e que veio a se a chamar, neste país, Tiago de Compostela…. Leia mais sobre o assunto aqui… Mas, segundo nos informa GONZÁLEZ (pág. 29), “… este   ‘Cristo das Batalhas’ [imagem] acompanhava os reis católicos na guerra contra Granada, e que em certa ocasião, quando os cristãos rogavam a São Tiago que os ajudasse, ouviu-se este Cristo dizer: ‘Para que necessitais de São Tiago, quando me tendes a mim?’”

 

 

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