A era dos conquistadores (II): um novo mundo

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos conquistadores – Vol. 7. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 032 a 049.

“Eu te ordeno que, com todas as pessoas que tratarem contigo, trate-as com honras e trate-as bem, desde o maior até o menor, porque são povo de Deus nosso Senhor.” (Cristóvão Colombo para seu filho Diego)

Apenas terminava a Espanha de ganhar sua unidade nacional, graças ao casamento de Fernando e Isabel, e de alcançar a integridade territorial com a conquista de Granada, quando lhe foram oferecidos novos mundos para descobrir, conquistar, colonizar, e evangelizar. Poucos episódios na história humana são tão surpreendentes como a enorme expansão espanhola do século XVI, sobretudo se tivermos em conta que uns poucos anos antes os reinos de Castela e Aragão estavam separados, que os mouros retinham o reino de Granada, e que a própria Castela se encontrava dividida pela discórdia das lutas sucessórias. Atribuir a Isabel toda a glória desse inesperado despertar espanhol seria cair no erro daqueles que creem que a história é uma sucessão de personagens heroicos, e não se apercebem dos muitos fatores que fazem possível a façanha do herói. Mas, mesmo levando isso em conta, não resta dúvida de que Isabel foi a personagem do momento, soube dar forma às circunstâncias que a rodeavam, fazendo possível o nascimento da Espanha moderna e do império espanhol.

O empreendimento de Colombo

Quase que ao mesmo tempo da rendição de Granada, apareceu na história um personagem de origem obscura e, todavia muito discutido, que compartilharia com Isabel a glória de fundar o império espanhol do além-mar. Cristóvão Colombo era de origem genovesa, ao que parece, filho de um penteador de lã, e que com vinte e cinco anos chegou a Portugal, onde começou a conseguir fortuna casando-se com dona Felipa Muniz, que pertencia à nobreza de Portugal, e cujo pai era governador da Madeira.

Sobre o motivo e a maneira da chegada de Colombo a Portugal, os historiadores diferem, pois enquanto uns dizem que formava parte da tripulação de uma pequena frota genovesa que foi atacada pelos portugueses, e que foi feito prisioneiro, outros sustentam que em realidade, era um pirata, ou pelo menos um corsário, e apontam que houve um corsário de nome Coulom que tomou parte ativa a favor da França e Portugal nas guerras que temos comentado anteriormente com relação ao direito da sucessão da Beltraneja. Se assim for, se explica o fato pelo qual Colombo foi tão pouco explícito com respeito a suas origens e carreiras anteriores.

Em todo caso, Colombo conheceu em Portugal, vários navegantes e cartógrafos, e, além disso, teve oportunidade de navegar tanto para Madeira e Porto Santo como para a Guiné, na África. Posteriormente chegou a sua famosa conclusão de que, se o mundo era redondo, como afirmavam tantos sábios, deveria ser possível chegar ao Oriente navegando constantemente para o Ocidente. Se esse foi seu projeto inicial, ou se a princípio pensava somente descobrir novas terras, inclusive as “Antilhas” que alguns cartógrafos colocavam a oeste do oceano, não está de todo claro. Ao que parece, o projeto de Colombo apresentado à corte portuguesa não consistia em buscar uma nova rota para as Índias, mas simplesmente em explorar o Atlântico ocidental.

Morta sua esposa, sem esperança de que a coroa portuguesa apoiasse seu empreendimento, e carregado de dívidas; Colombo abandonou o país em secreto, e dirigiu-se ao sul da Espanha. Em Huelva vivia a irmã de sua falecida esposa, e possivelmente o futuro descobridor queria deixar com ela o seu pequeno filho Diego. Além disso, alguns antigos escritores falam de um piloto de Huelva, Alonso Sanches, que tinha vislumbrado terras ao oeste quando seu navio foi arrastado nessa direção por uma tormenta.

Em vários lugares de Andaluzia, e particularmente em La Rábida, Colombo encontrou ouvidos atentos e pessoas de prestígio dispostas a apadrinhar seu projeto na corte castelhana. Visto que a corte residia em Córdoba, de onde se dirigiam os assuntos da guerra granadina, Colombo radicou-se nessa cidade.

Os reis católicos não receberam com grande entusiasmo o projeto colombino. Submeteram-no a várias juntas de doutores, e o informe recebido não foi satisfatório. Ao que parece, além da questão geográfica de se o que Colombo projetava era possível, havia dúvidas acerca da legitimidade de tal empreendimento. Em todo caso, foi dito ao futuro Almirante que, por causa da guerra de Granada, a coroa espanhola não estava em condições de adotar seu projeto.

Em vista da continuação da guerra, Colombo começou a falar da possibilidade de marchar para a França ou para Inglaterra, e oferecer-lhes seus serviços. Parece que realmente se preparava para viajar, quando um personagem influente, convencido do valor de seu projeto, ou pelo menos temendo as consequências se Colombo se colocasse a serviço de outro país e seu empreendimento resultasse em bom êxito, interviu uma vez mais diante de Isabel em prol do empobrecido aventureiro. A rainha lhe concedeu então alguns fundos, e com eles sustentou Colombo até que a rendição de Granada lhe deu novas esperanças.

As condições que Colombo estabelecia para colocar-se ao serviço da coroa espanhola pareciam muito exageradas aos reis, e por algum tempo o projeto ficou em suspenso. Finalmente em abril de 1492, foram firmadas as Capitulações de Santa Fé, que lhe concediam os títulos de Almirante do Mar Oceânico e Vice-Rei e Governador Geral das terras colonizadas. Além disso, visto que a empresa era principalmente comerciai, levada pela esperança de chegar-se às Índias, foi outorgado ao Almirante e a seus sucessores a décima parte de todo O comércio que produzisse o empreendimento. É muito provável que estas Capitulações, que têm despertado o interesse dos historiadores, tenham sido vistas pela corte castelhana como de pouca importância. Ninguém sonhava que a viagem que se preparava pudesse ter os resultados que teve e, portanto a coroa, que arriscava bem pouco na empresa, estava disposta a mostrar-se pródiga.

São de todos conhecidas as dificuldades que teve Colombo para reunir a tripulação para suas três caravelas. Foi graças à intervenção e o apoio decidido do prestigioso navegante Martin Alonso Pinzón que a flotilha pode afinal fazer-se ao mar, em 3 de agosto de 1492.

Resultado de imagem para Gerard Depardieu no Filme 1492,[Na imagem, cena  de Colombo, chegando à América, em 12 de outubro de 1492, representado por Gerard Depardieu, no filme “1492, a conquista do paraíso“].

Depois de uma escala nas Canárias, as três caravelas partiram para o ocidente desconhecido. Colombo dirigiu sua embarcação, seguindo sempre o paralelo 28. Porém seu cálculo da circunferência da terra era inexato ao extremo, pois a fixava na terceira parte do que na verdade o era. Portanto, em princípios de outubro a tripulação começou a duvidar de todo o empreendimento. Se chegou a ocorrer motim ou não, não está claro. Porém em todo caso foi Martin Afonso Pinzón que, com seu prestígio entre a tripulação, conseguiu acalmar os ânimos e prolongar a busca por mais uns dias. Finalmente, em 12 de outubro de 1492, os cansados aventureiros puseram seus pés na ilha de Guanahaní, nas Lucaias, a qual chamaram São Salvador.

Depois de navegarem pelas Lucaias, a flotilha colombina dirigiu-se para o sul, onde encontrou as terras de Cuba e do Haiti. A primeira recebeu o nome de Joana em honra ao infante dom João, e a segunda o nome de A Espanhola. Na Espanhola, a principal das três caravelas, a Santa Maria, encalhou, e com suas madeiras Colombo construiu o forte Natividade, na baía de Samaná. Ali deixou, como guarnição, alguns de seus homens, os da Santa Maria, prometendo-lhes visitar o lugar em sua próxima viagem.

As duas caravelas restantes empreenderam viagem de retorno. Mas o mal tempo as separou, e foram aportar em dois distintos portos da Península Ibérica. Porém posteriormente regressaram a Paios de Moguer, de onde tinham partido, em 14 de março de 1493.

Os reis, que se encontravam em Barcelona, fizeram trazer-lhes o intrépido marinheiro, que trouxe consigo várias provas de seus descobrimentos, inclusive alguns habitantes das terras descobertas, aos quais se chamou “índios” por procederem supostamente das índias. Ainda que se tenha exagerado a recepção dada pelos reis ao Almirante, não resta dúvida de que foi cordial, e que logo começaram fazer planos para uma outra viagem, ao mesmo tempo que se expediam solicitações a Roma para que o papa, naquela ocasião o aragonês Alexandre VI, desse as bulas necessárias para um empreendimento de colonização e evangelização.

Não é necessário relatar aqui os pormenores das demais viagens colombinas. Sobre a segunda, é preciso destacar que nela navegou, como legado apostólico, o religioso frei Bernardo Boil. Além de descobrir Porto Rico e várias ilhas menores, Colombo e os seus se dirigiram de novo a Espanhola, onde encontraram destruído o forte Natividade. Os índios, fartos do mal trato dispensado pelos espanhóis, tinham-se sublevado e matado a todos os colonizadores. Ali deixou Colombo o frei Bernardo, com a responsabilidade de evangelizar a ilha, junto com o militar Pedro Margarit, com a incumbência de conquistá-la. Assim começou o que seria tão característico dos empreendimentos espanhóis na América, isto é, a união dos interesses de conquista e colonização com a tarefa evangelizadora.

Depois de visitar de novo a Cuba, e registrar em ata que se tratava de terra firme, e que, portanto havia chegado na Ásia, Colombo regressou à Espanha. Durante esta segunda viagem se manifestaram algumas atitudes de Colombo que começaram a produzir desconfiança entre as autoridades espanholas, que duvidavam sobre suas aptidões de comando, e além disso temiam que ele tivesse a intenção de seguir o exemplo dos grandes da Espanha. Em conseqüência disso, mesmo que tenha sido muito bem recebido no seu regresso à corte, Colombo não pode partir em sua terceira viagem tão logo quanto planejara.

Além disso, enquanto o Almirante navegava em sua segunda viagem, Espanha e Portugal concluíram o Tratado de Tordesilhas, que demarcava os campos de exploração e colonização de cada uma das duas potências marítimas. Isto era indício de que a corte espanhola se apercebeu da possível importância dos descobrimentos de Colombo mesmo que os ideais do Almirante, no sentido de que as Índias produziriam riquezas suficientes para organizar uma nova cruzada que tomasse Jerusalém, fossem recebidos com sorrisos por parte dos reis.

A terceira viagem terminou mal para o Almirante. Nas Canárias dividiu sua frota em duas, e enviou uma diretamente para a Espanhola, enquanto ele se dirigiu para o sudoeste, onde foi parar na ilha de Trindade. Dali atravessou a península de Paria, e, portanto tocou pela primeira vez o continente americano, ainda que somente vários dias depois, convencido pelo fluxo das águas do sistema Orenoco, declarou que, tinha descoberto “outro mundo”. O tratamento dos nativos, doce e acolhedor, o ouro e as pérolas que pareciam abundar, e toda uma série de supostos indícios geográficos, convenceram o almirante que havia chegado ao paraíso terrestre, e assim o fez mencionar. Do paraíso, entretanto, Colombo passou ao inferno. Quando chegou na Espanhola descobriu que as notícias da sua má administração e de seus irmãos Diego e Bartolomeu já haviam chegado na Espanha, e que a rainha tinha enviado Francisco de Bobadilha com amplos poderes para julgar o assunto. Sobretudo se dizia que a administração dos Colombos era por vezes débil e cruel, e que isto tinha provocado a rebelião de alguns espanhóis. Quando Bobadilha chegou a São Domingo, a primeira coisa que viu foi um cadafalso onde jaziam os cadáveres de sete espanhóis. Ao pedir contas de Diego Colombo, este simplesmente lhe disse que outros cinco seriam enforcados no dia seguinte. Sem dar mais voltas em torno do assunto, Bobadilha tomou posse do local em nome da coroa e fez encarcerar a dom Diego. Quando o Almirante se apresentou um pouco depois, também foi preso. E o terceiro dos irmãos, Bartolomeu, que na ocasião se encontrava fora da cidade com um pequeno exército e poderia ter resistido, rendeu-se às insistências do Almirante, que não desejava resistir à autoridade real.

Os três irmãos foram enviados prisioneiros para a Espanha, onde seis semanas depois de sua chegada foram convocados a presença real em Alhambra, em Granada. Apesar de serem declarados inocentes de todo delito, sua má administração ficou patente; e os soberanos não estavam dispostos a conceder ao velho marinheiro o poder quase absoluto que reclamava sobre o novo mundo que tinha descoberto. Visto que o Almirante também não era uma pessoa que se contentasse com pouco, posteriormente foram de novo conferidos a ele os títulos de Almirante e Vice Rei, porém a administração de Espanhola – a única colónia que até então havia fundado – foi confiada a Nicolás de Ovando. A amargura do Almirante pode ser vista nestas linhas, escritas quando estava ainda em cadeiras: “Se eu roubasse as Índias, …e as desse aos mouros, não poderia na Espanha mostrar-se maior inimizade“.

Não restava então outro recurso ao velho lobo do mar que empreender outra viagem. As demoras foram muitas, e enquanto isso, outros navegantes partiam para as supostas Índias e regressavam com informações de novos descobrimentos. Finalmente, em princípios de 1502, os reis autorizaram uma nova viagem de exploração comissionando o Almirante para que buscasse o estreito que se supunha existir entre o Caribe e o Oceano Índico. Com quatro caravelas e uma tripulação composta em sua maioria de moços sem experiência, Colombo se fez ao mar. Levava entre outras coisas, uma carta de apresentação para o navegante português Vasco da Gama, que tinha partido para o Oriente rodeando a África, e com o qual o Descobridor espera encontrar-se nas Índias, depois de cruzar o estreito que procurava.

A travessia do Atlântico, completada no tempo insólito de três semanas, foi a única parte feliz dessa terceira viagem. Ao chegar ao Caribe, Colombo descobriu os indícios, aprendidos anteriormente numa amarga experiência de que um furacão se aproximava. Contra as instruções reais, pediu refúgio em São Domingo, onde seu inimigo Nicolás de Ovando negou-lhe, esquivando-se da pretendida adivinhação de que poderia ocorrer o temporal. Colombo achou abrigo num porto próximo, e Ovando continuou com seus planos de enviar a Espanha uma frota de trinta navios. O vendaval surpreendeu a esquadra de Ovando no passo da Mona. Vinte e cinco navios naufragaram, quatro regressaram em más condições a São Domingos, e o único que chegou Espanha foi o que levava o dinheiro que Colombo tinha conseguido cobrar do que se lhe devia na Espanhola, por alguns de seus direitos. Entre os afogados naquele desastre se encontrava Francisco de Bobadilha.

Depois de esperar o furacão passar, Colombo continuou sua viagem para Jamaica, dali a costa sul de Cuba, e estava a ponto de descobrir o estreito de Yucatán quando voltou para o sul, e foi parar nas costas de Honduras. Seguiu-se então um largo período de navegação ao longo da América Central, buscando sempre o suposto estreito que o levasse a mar aberto. Depois de diversas dificuldades nas quais perderam dois de seus quatro navios, os exploradores chegaram à costa da Jamaica. Os dois que ainda restavam estavam tão perfurados pelas bromas – moluscos em forma de bichos que comiam madeiras submersas – que Colombo não teve outro recurso além de encalhá-los e esperar que de algum modo viesse socorro de Espanhola. Entretanto os que ficaram parados na Jamaica trataram de subsistir através do comércio com os índios, e duas canoas foram enviadas à Espanhola em busca de auxílio. Porém em São Domingo, Ovando não se mostrava disposto a ajudar seu rival a quem havia suplantado e a quem depois não dera ouvidos recebendo desastrosa consequência. Na Jamaica a espera já era longa, e boa parte da tripulação se amotinou e tratou de ir a São Domingo com canoas tomadas dos índios. Quando essa alternativa fracassou, o contingente espanhol ficou dividido em dois bandos que posteriormente resolveram suas diferenças mediante as armas. O bando de Colombo triunfou, ainda que não sem baixas. Os índios se recusaram a dar mais provisões aos espanhóis, pois as suas começavam a escassear. Foi então que Colombo apelou para uma artimanha que depois os autores de ficção tem atribuído a muitos personagens. O almanaque apontava que logo haveria um eclipse lunar. Colombo convocou os chefes indígenas, e lhes disse que o Deus Todo Poderoso estava zangado porque eles não alimentavam adequadamente os cristãos, e predisse o eclipse. Quando a Lua se escureceu os caciques lhe imploraram perdão, e Colombo esperou para aceitar suas petições até o momento preciso em que o astro haveria de brilhar de novo. A partir de então os seus não tiveram mais dificuldades de sustentarem-se.

Foi grande a alegria dos “encalhados” quando apareceu no horizonte uma caravela espanhola. E ainda maior foi sua decepção ao descobrirem que se tratava de um bote enviado por Ovando com instruções precisas de inteirar-se do que estava sucedendo na Jamaica, porém sem recolher ninguém.

Finalmente, quando os infelizes já estavam há mais de um ano na Jamaica, chegou um velho bote que apenas flutuava, com as velas podres fustigado pelas bromas, que foi tudo o que puderam encontrar e contratar os que Colombo tinha enviado a Espanhola. Embarcados nele, os sobreviventes demoraram mais de um mês e meio para chegar a São Domingo. Ali Colombo contratou outro navio e partiu pela última vez das terras que havia descoberto. Com seu filho, seu irmão, e uns poucos marinheiros, chegou finalmente a São Lucas de Barrameda, depois de dois anos e meio de viagem.

O momento não era propício para a Espanha. A rainha estava gravemente enferma, e morreu três semanas depois do regresso do Almirante. No meio de tais circunstâncias, ninguém se ocupava do velho marinheiro, principalmente porque Fernando nunca tinha sido tão entusiasta como sua esposa no empreendimento das Índias. O próprio Colombo estava enfermo, embora não seja certo se estava empobrecido também. Os fundos levados à Espanha pelo navio que tinha sobrevivido quando o furacão destruiu a frota de Ovando, e algum ouro que Colombo trouxe consigo da quarta viagem, constituíam uma boa soma. Além do mais, a coroa respeitava seu direito a décima parte do ganho nas Índias, se bem que com uma interpretação bem diferente da do Almirante: Colombo dizia que lhe correspondia a décima parte de tudo que fosse ganho, enquanto a coroa entendia que o que lhe pertencia era os dez por cento da quinta parte que o Rei recebia. Em 1505 Fernando o recebeu, e começou uma longa série de negociações nas quais o rei lhe ofereceu bons rendimentos, enquanto o Almirante insistia em seus títulos e no cumprimento estrito das Capitulações de Santa . Depois de ter estado na corte, o velho lobo do mar viajou de Segóvia a Salamanca, e dali até Valladolid, onde morreu em 1506.

A importância do empreendimento colombino

Se temos nos detido nesta narrativa das viagens e peripécias de Colombo, o temos feito porque nisso tudo vemos o primeiro exemplo de muitos elementos característicos do empreendimento espanhol no Novo Mundo: o arrojo audaz e visionário do Almirante, sua busca constante de lugares míticos, levado por vagos rumores, e a conquista de grandes façanhas com um grupo muito pequeno de homens. E tudo isso dá grande importância à empresa colombina, diminuindo assim a constante discussão sobre se foi Colombo o verdadeiro descobridor da América, ou se antes dele chegaram a estas terras os normandos ou outros viajantes. O fato é que, se tratássemos de descobrimentos, os únicos verdadeiros descobridores do hemisfério ocidental são os antepassados dos índios americanos que primeiro chegaram a essas praias, provavelmente seguindo a ponte que lhe oferecia as ilhas Aleutas. Depois foram chegando outros, e há indícios de viagens, não só através do Atlântico, mas também do Pacífico. E em todo caso, os moradores originais das chamadas “Índias” não estavam esperando ser “descobertos”, pois tinham sua cultura e civilização próprias. A importância das viagens de Colombo não é diminuta, como poderemos pensar, não tanto pelo fato dele ter sido ou não o primeiro a ver terras americanas, mas se tornam importantes, porque de suas viagens se despreendeu uma vasta empresa de conquista, colonização e evangelização que posteriormente uniria ambos os hemisférios. Vistas sob tal perspectiva, as quatro viagens de Colombo, e tudo o que ao redor delas aconteceu, são muito mais que uma interessantíssima aventura marítima. São o primeiro indício da forma que tomaria o encontro entre os dois mundos que pela primeira vez se viram face a face naquele 12 de outubro de 1492.

Se considerarmos a história de Colombo deste modo, logo veremos que os conflitos entre as autoridades espanholas, que tanta amargura causaram ao Almirante, foram uma das características do empreendimento durante várias gerações. O que estava em jogo em tais conflitos era nada mais nada menos que a politica de Isabel e seus principais assessores, de limitar o poderio dos magnatas. Na Espanha, como temos narrado, a rainha teve de enfrentar repetidamente os poderosos, que aspiravam impor suas vontades sobre o trono. Os pequenos burgueses, aos quais convinha uma monarquia forte e centralizadora, mais que o velho sistema feudal que os grandes tratavam de restaurar, foram os principais aliados da coroa nos seus empenhos centralizadores. Ao abrirem-se então os enormes horizontes do Novo Mundo, os reis católicos queriam assegurar-se, por todos os meios, de que não se desenvolvesse aqui uma nobreza tão poderosa que pudesse opor-se aos desígnios reais. Esse perigo era tão mais real diante do fato de que as grandes distâncias dificultavam a tarefa do governo. Foi em parte por isso que os reis católicos negaram-se a cumprir o estipulado nas Capitulações de Santa Fé, pois elas haviam dado a Colombo recursos e poder superiores aos que tinham quaisquer dos velhos nobres contra os quais os soberanos tinham tomado severas medidas. Tão logo chegaram à Espanha as primeiras notícias dos abusos dos Colombo na Espanhola – e abusos houve – o  reis enviaram Bobadilha, e o Almirante e seus irmãos foram enviados presos para a Espanha. Isto, que muitas vezes tem sido descrito como um ato de ingratidão, se ajusta perfeitamente à política que Isabel seguia em Castela. Nem ainda os mais importantes estavam isentos da justiça real. Logo, as leis da coroa em defesa dos índios não tinham um interesse unicamente humanitário, mas se ajustavam aos propósitos políticos dos soberanos, que temiam que, se os conquistadores e colonizadores não tivessem limites em sua exploração dos índios, tornar-se-iam senhores feudais com o mesmo espírito independente que os grandes da Europa.

De outro lado, os conflitos entre os espanhóis no Mundo Novo não se limitaram a divergências sobre a autoridade civil, mas incluíram também as de natureza religiosa. Rapidamente os missionários estabeleciam com os índios laços mais estreitos que os estabelecidos pelos colonos, e assim começavam a protestar contra o tratamento dispensado aos habitantes naturais das terras. Os protestos dos missionários chegavam repetidamente ao trono espanhol, e por isso muitos dos colonizadores viam os missionários como obstáculos ao empreendimento colonizador. A resposta da coroa às comunicações dos missionários foi sempre ambígua, pois os soberanos estavam numa difícil situação. De um lado, a exploração dos índios era a base sobre a qual se levantavam grandes senhorios cuja obediência e lealdade à coroa não eram de todo seguras. Para evitar o desenvolvimento de um novo sistema feudal, era necessário editar leis que protegessem os índios contra a exploração por parte dos espanhóis. Além disso, não resta dúvida de que Isabel sentia verdadeira compaixão para com os seus recém descobertos súditos, e queria que, na medida do possível, fossem tratados como seus súditos espanhóis. Por outro lado, a exploração das novas terras – entenda-se, de seus habitantes – era necessária para manter o nascente império espanhol. Sem o ouro das Índias, a política espanhola na Europa não poderia subsistir. Logo, as leis que protegiam os índios nunca se cumpriram em totalidade. Eram obstadas tanto pelas distâncias e dificuldades na comunicação, como pelos conflitos de interesses nos quais a coroa se achava envolvida.

Tudo isso pode ser visto na legislação de Isabel sobre as Índias. Sem repassar toda essa legislação, convém que nos detenhamos para ver como a rainha tratou da questão da possível escravidão dos índios. Quando Colombo regressou a Espanhola, em 1495, e encontrou os índios amotinados contra os abusos dos espanhóis, iniciou uma campanha de pacificação militar. Parte do resultado dessa campanha foi um número de prisioneiros de guerra, aos quais o Almirante enviou à Espanha para serem vendidos como escravos. A chegada dessa mercadoria humana causou revolta na Península, onde Colombo havia descrito a população americana como gente pacífica, doce e simples. Isabel recorreu aos juristas da época, a fim de averiguar se Colombo estava em seu direito escravizando os índios. Ao que parece, o que mais molestava a coroa não era que o Almirante escravizasse os índios, mas que ao fazê-lo apropriava-se de direitos que deviam pertencer somente à coroa. Quando finalmente Isabel proibiu que se escravizasse os índios, excluiu dessa legislação os caribes, por serem canibais. Pouco tempo depois permitiu escravizar aos que fossem tomados como prisioneiros nos combates, e aqueles que fossem comprados de outros amos índios. Além disso, se desenvolveu o sistema de encomendas, que em muitos casos não foi mais que um subterfúgio para impor de novo a escravidão. Quando os índios viram que os espanhóis que iam chegando eram cada vez mais numerosos, negaram-se a fazer plantações, e a partir de então foi determinado que era lícito obrigar os índios a trabalhar naquelas coisas que fossem necessárias para o bem comum. Assim se estabeleceu o sistema das “mitas” que perdurou por todo período colonial. Contra tudo isso o clero protestou repetidamente. A coroa respondeu com novas leis que supostamente limitavam os abusos contra os índios, as quais, contudo, raramente eram cumpridas, e às quais sempre houve numerosas exceções. Além disso, se editaram outras cujo propósito era regular a vida moral dos índios, ordenando-lhes que vestissem roupas, que não se banhassem tão frequentemente, que vivessem em povoados, etc. Porém, no final das contas, cumpriu-se neles o destino que os condenava a uma situação difícil, porque a coroa necessitava de seu trabalho para encher suas arcas, enquanto ao mesmo tempo queria evitar que os conquistadores se enriquecessem demasiadamente às custas desse mesmo trabalho.

Tudo isso, sem dúvida, não quer dizer que aqueles que se viram envolvidos em todo esse processo foram hipócritas desalmados, que se diziam cristãos, porém, ao mesmo tempo, com descaramento, burlavam os princípios de amor ao próximo. O dito de Colombo que encabeça este capítulo foi escrito pelo Almirante com toda sinceridade. De sua convicção religiosa não resta qualquer dúvida, e até em ocasiões que não sabemos precisar parece ter tido experiências místicas. Porém ao mesmo tempo, esse homem de profunda fé tratou de enriquecer-se estabelecendo um tráfico de escravos com os índios. O mesmo pode-se dizer de quase todos seus acompanhantes. A grande tragédia da conquista não foi que se derramou sobre o continente americano uma turba de desalmados espanhóis, mas que aqueles que chegaram a essas terras eram católicos sinceros que apesar disso não pareciam capazes de ver a relação que havia entre a sua fé e o que estava acontecendo em seus dias. Isto é certo, não só de Colombo e de muitos descobridores, mas também de conquistadores como Cortés e Pizarro, que viam suas empresas como um grande serviço prestado à pregação do evangelho. A tragédia foi então que, com toda sinceridade e em nome de Cristo, se cometeram os mais horrendos crimes. Aos habitantes destas regiões lhes arrebataram suas terras, sua cultura, sua liberdade, e sua dignidade, sob o pretexto de dar-lhes cultura e religião superiores, dos europeus. Em poucas ocasiões se tem visto tão claramente como somente a sinceridade não basta para o bem agir, pois o poder cega os poderosos de tal maneira que podem cometer os mais terríveis atropelos sem que, pelo que se percebe, suas consciências sejam molestadas.

O empreendimento colombino e sua sequela levaram à mais rápida e extensa expansão do cristianismo que a igreja tinha conhecido. Nessa expansão, apareceram personagens cuja dedicação ao nome e aos ensinos de Cristo eram tais que lhes permitiram prevenir do crime que se perpetrava. Porém a maioria dos que confessavam o nome de Cristo, e iam regularmente aos serviços religiosos, e se preocupavam pela salvação das almas, e tratavam de cumprir o que entendiam ser os preceitos do cristianismo, não sabiam elevar-se por cima dos interesses do país ou de sua esposa, e deu-se assim origem a chamada “lenda negra” sobre a conquista, que, como veremos, não é tão legendária.

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