A era dos conquistadores (IV): o empreendimento Antilhano

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos conquistadores – Vol. 7. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 066 a 075.

“… procurareis com toda diligência animar e atrair os naturais das ditas Índias a toda paz e quietude, e que nos sirvam e estejam sob nosso senhorio e sujeição benignamente, e principalmente que se convertam a nossa santa fé católica.” (Os reis católicos)

Como vimos no capítulo anterior, as primeiras terras que Colombo visitou no Novo Mundo formavam parte do arquipélago antilhano, e foi nele, na ilha que se chamou Espanhola, que o Almirante fez a primeira tentativa de colonização, que fracassou. Em sua segunda viagem, Colombo trazia instruções mais precisas dos soberanos, no sentido de que estabelecesse colônias permanentes nas novas terras, e fizesse todo o possível pela evangelização dos índios. Com a finalidade de ajudá-lo neste último propósito o acompanharam, além do padre beneditino Bernardo Boil, que já temos mencionado anteriormente, três franciscanos, um mercedário e um jerônimo.

Colonização da Espanhola

Depois de encontrar destruído o forte Natividade, Colombo e os seus seguiram navegando ao longo da costa da Espanhola, até que chegaram a um lugar que lhes pareceu propício para fundar um povoado, a quem nomearam A Isabel, em honra à rainha. Ali os sacerdotes celebraram missa solene no dia dos Reis de 1494, e imediatamente começou a construção dos principais edifícios. A igreja, o quartel general de Colombo e o armazém foram construídos de pedra. Os demais edifícios, para a morada dos colonos, foram feitos de madeira e de palha.

Quando os alimentos começaram a escassear, Colombo enviou um de seus tenentes de regresso à Espanha, com a incumbência de procurar provisões. Além do mais, foi com ele um contingente de índios que eram canibais, e ele sugeria aos reis que os repartissem entre as melhores famílias do reino para que aprendessem a língua espanhola e a fé cristã. Além disso, dizia Colombo, capturando e desterrando esses índios canibais ganhava-se a simpatia dos demais índios, que viam nos espanhóis uma força benfeitora. Porém o fato é que o Almirante tinha outros propósitos, pois nas mesmas instruções propunha que se pagassem com escravos índios as mercadorias que os expedicionários necessitavam. A resposta real foi ambígua, pois ao mesmo tempo em que aceitaram os índios que Colombo enviara se insistia na procura da conversão dos habitantes da região sem o uso da violência nem do desterro.

Enquanto isso, as coisas na nova colônia não marchavam muito bem. Antes da saída do contingente que iria para a Espanha, muitos trataram de desertar e partir com ele. Depois de castigar severamente aos rebeldes, Colombo enviou uma pequena coluna à região que os índios chamavam “Cibao”, pensando que talvez esse nome indicasse que se tratava de Cipango, o nome que então era dado ao Japão. Quando os enviados regressaram com algum ouro, e com notícias de terem sido bem recebidos pelos índios, Colombo foi até Cibao com um grupo maior. Porém nessa segunda ocasião os índios fugiram, talvez atemorizados pelo aparato bélico dos espanhóis. Em Cibao, o Almirante construiu uma fortaleza que chamou de São Tomé, porque os incrédulos que não criam que houvesse ouro foram refutados.

Entretanto, os índios não estavam dispostos a permitir aos espanhóis marcharem impunes por suas terras e cometerem contra eles os abusos que cada vez mais se faziam frequentes. O cacique Caonabo, a quem se acusava de haver organizado o ataque ao forte Natividade, uniu-se a outros chefes para marchar contra São Tomé. Diante de tais notícias, Colombo mandou uma força de várias centenas de homens para defender a fortaleza, com instruções de aplicar castigos severos aos índios rebeldes, cortando-lhes as orelhas e os narizes. O chefe dessa expedição não vacilou em aplicar tais instruções com implacável crueldade. Por exemplo, quando um índio roubou as roupas de um espanhol toda sua aldeia foi tomada, e cortaram as orelhas do cacique.

Enquanto isso, não há notícias de que os supostos missionários fizessem grandes coisas em favor da conversão dos índios. O principal deles, Boil, parecia estar mais interessado no seu próprio poder do que na sua obra missionária. Isto chegou a tal ponto que, enquanto Colombo estava ausente numa expedição a Cuba, Boil uniu-se a um grupo de rebeldes e repudiaram a autoridade de Diego Colombo, apoderando-se de três naves e partiram para a Espanha.

Os que ficaram para trás, desmoralizados e carentes de liderança, se dispersaram por toda região, cometendo furtos e violações entre os índios. Estes, por sua vez, aproveitaram a ocasião para vingarem-se, e não poucos espanhóis foram aprisionados e mortos por eles.

Nisso chegou Colombo, cansado e amargurado pela viagem infrutífera pelas costas de Cuba, disposto a despejar sobre os índios o furor de sua cólera. Os índios mortos foram contados aos milhares, e muitas centenas foram feitos prisioneiros e enviados a Espanha como escravos. Caonabo, que reuniu um exército de cinco mil homens e pôs sítio a São Tomé, foi derrotado e feito prisioneiro. Ao final de dez meses, os espanhóis tinham destruído todo vestígio de resistência entre os rebeldes. Porém isto não pôs fim à obra conquistadora. Os espanhóis invadiram novos territórios e submeteram seus caciques, exceto o de Jaraguá, que se fez vassalo e ofereceu pagar tributo, e o de Higuey, cujo território estava bastante afastado.

Os muitos escravos feitos nessa guerra alentaram a cobiça dos conquistadores, que durante algum tempo continuaram pagando com escravos índios as mercadorias trazidas da Espanha. Além do mais, decretou-se que cada índio conquistado teria que pagar um tributo trimestral de certa quantidade de ouro, ou de uma arroba de algodão. Os que não pagavam eram reduzidos a escravos. Diante de tal situação, muitos fugiram e se refugiaram nos montes, onde os espanhóis os caçavam com cachorros.

Nem todos os colonizadores concordavam com tais medidas. Quando o almirante estava ausente na viagem à Espanha, um forte grupo, dirigido por Francisco Roldão Jimenes, rebelou-se e fugiu para o território de Jaraguá. Ainda que o partido de Roldão não se mostrava muito amável para com os índios, foram menos cruéis que os de Colombo, que continuava exigindo pesados tributos e enviando carregamentos de escravos para Espanha. Foi em consequência de tal situação que a rainha questionou o direito do Almirante em vender índios como escravos, e posteriormente Bobadilha depôs os Colombo, enviando-os presos a Espanha. Entretanto Bobadilha não foi melhor governante para os naturais, aos quais continuou oprimindo em benefício dos trezentos espanhóis que possuía a colónia na ocasião.

A esquadra de trinta e dois navios que levou Nicolas de Ovando para tornar a cargo a Espanhola, levava também dezessete franciscanos encarregados de continuar a obra de evangelizar os índios. Porém estes novos missionários, como os anteriores, encontraram muitas dificuldades em seus trabalhos devido às más relações que existiam entre os índios e os espanhóis. Pouco tempo depois de ter chegado ao país, Ovando tinha conquistado a região de Higuey. Porém no território de Jaraguá, a cacique Anacaona dirigiu uma rebelião que logo se estendeu até Higuey, e que foi afogada em sangue. Anacaona, feita prisioneira pelos espanhóis, foi enforcada. Enquanto isso os índios submissos eram entregues em encomenda aos espanhóis, com a condição de que estes os ensinariam na fé cristã e lhes pagariam um salário. Porém o sistema de encomendas não era mais que um subterfúgio para a escravidão, proibida pela coroa. Segundo conta Las Casas, os missionários não fizeram mais que tomar em suas casas algumas crianças, filhos dos caciques, com o propósito de ensinar-lhes as letras e a fé e bons costumes.

Em 1503 a coroa deu instruções a seus representantes na Espanhola no sentido de que os índios deveriam viver em povoados e não disseminados por toda a comarca, e que em cada povoado deveria haver um oficial do governo e um capelão. Porém tais povoados não foram os lugares felizes que os reis esperavam, pois os índios arrancados deles, e submetidos a trabalhos forçados nas minas, as vezes não podiam ver suas famílias por meses.

Enquanto isso, na Europa, se faziam gestões para o estabelecimento da hierarquia eclesiástica nas novas colônias. Depois do intento falido de fundar três sedes na Espanhola, em 1511 foram fundadas por fim nesta ilha as sedes de São Domingo, Conceição da Vega, e a de São João de Porto Rico. É interessante e revelador notar que nas instruções reais aos novos bispos se lhes indicava que não deveriam estorvar os trabalhos de extração do ouro, mas pelo contrário, deveriam dizer aos índios que o ouro seria destinado às guerras contra os infiéis, e que em todo caso os bispos tinham que ensinar “as outras coisas que vissem que poderiam ser aproveitadas para que os índios trabalhassem bem“.

Alguns dos primeiros bispos do Além Mar foram pessoas dignas, que se ocuparam de melhorar as condições em que viviam os índios. Porém muitos outros foram indolentes, partidários decididos dos colonos, ou nunca chegaram a tomar posse de suas dioceses.

Foram os dominicanos, chegados em 1510, os que mais se afadigaram pelo bem-estar e a verdadeira conversão dos índios. Entre eles se encontra Antonio de Montesinos, a quem já nos referimos anteriormente como o chefe do protesto contra o regime de encomendas. A comissão dos jerônimos que veio a Espanhola em consequência da agitação de Montesinos e Las Casas sugeriu que se devolvesse a liberdade aos índios ou que, se isso fosse impraticável, não se fizessem encomendas perpétuas, mas só por três anos, e que essas encomendas fossem estritamente supervisionadas pela coroa com o fim de evitar abusos. Quando a coroa decretou a liberdade dos índios, houve resistência por parte dos espanhóis, cujos argumentos pareciam confirmar-se com um rebelião dos índios. O resultado foi que estes perderam a pouca liberdade que tinham, e muitos também a vida. Posteriormente os poucos que conseguiram sobreviver aceitaram o batismo de igual modo que aceitaram o domínio espanhol, porque não lhes restava outra alternativa.

Porto Rico

A colonização da ilha de São João (mais tarde chamada de Porto Rico) seguiu um processo semelhante ao que temos visto em Espanhola. Em 1509 dom João Ponce de Leão explorou a ilha, e no ano seguinte Diego Colombo, que na ocasião governava a Espanhola autorizou a conquistá-la. Com uma centena de soldados, Ponce regressou a Porto Rico, onde estabeleceu residência em Caparra. Dali, numa série de incursões, foram-se fundando outros centros, inclusive a atual capital de São João, que os expedicionários transformaram em seu quartel general.

As capitulações que Ponce tinha firmado com Diego Colombo estipulavam que um dos propósitos da expedição seria a evangelização da ilha. As diretrizes enviadas pouco depois pela coroa ordenavam que se tratasse bem aos índios, evitando os abusos que tinham ocorrido na Espanhola, e que se fizesse reunir grupos de crianças índias que deveriam receber instrução religiosa e passá-las depois para o restante da população. Entretanto estas instruções não foram totalmente cumpridas. Em Porto Rico também se implantou o regime de encomendas, com todos seus abusos. Os índios morriam aos milhares. Os que fugiam para os montes eram caçados e castigados cruelmente. Os religiosos queixavam-se dos expedicionários, muitos deles casados na Espanha, que violentavam as Índias ou se amigavam com elas. Posteriormente a população indígena desapareceu, em parte por mortandade, e em parte por absorção.

Em 1512 chegou a Porto Rico seu primeiro bispo, dom Alonso Manso. Este era um homem culto e refinado, cuja principal contribuição foi a fundação de uma escola de gramática, com o propósito de ensinar o clero e a quaisquer outros que quisessem assisti-la. Porém, ainda que o bispo Manso seja venerado em Porto Rico por ter sido o primeiro prelado da ilha, o fato é que passou boa parte de sua carreira na Espanha. A sua morte em 1534, deixou a sede vaga, e não se nomeou outro sucessor senão em 1542.

Enquanto isso, o licenciado Antonio da Gama, tomou verdadeiro interesse pelos índios, e recebeu da coroa a tarefa de protegê-los. Como parte de seu programa de defesa dos índios, da Gama obteve na Espanha autorização para castigar os que maltratassem os naturais da ilha. Deste modo se suavizavam um pouco os rigores do regime de encomendas e outros abusos. O novo bispo, Rodrigo de Bastidas, conseguiu que devolvessem a liberdade a alguns índios. Porém tudo isto não bastou para salvar um povo condenado à opressão e ao desaparecimento.

De modo igual ao resto das Antilhas, Porto Rico ficou eclipsada com os descobrimentos e conquistas do México e do Peru. Muitos marcharam para essas terras onde o ouro era mais abundante. O próprio Ponce de Leão marchou para a Flórida, em busca de novas aventuras e maiores riquezas. Em conseqüência, para os fins do século XVI a ilha estava relativamente despovoada. No campo eclesiástico, havia, além do bispo, uma dezena de clérigos e um convento. Com esse escasso pessoal era necessário ministrar em toda a ilha.

Não foi senão algum tempo depois, quando São João veio a ser um importante porto por onde passava o ouro enviado à Espanha, vindo do México e do Peru, que foram construídas as fortificações de São João, e a ilha começou a ser repovoada.

Cuba

A conquista de Cuba foi feita de modo mais sistemático do que ocorreu em Espanhola. Visto que Colombo tinha sustentado que se tratava de terra firme, a coroa sempre teve interesse por empreender a conquista, colonização e evangelização de Cuba. Posteriormente Sebastião de Ocampo, que demonstrou que era uma ilha, se apresentou em Espanhola com uma expedição de conquista e colonização. Diego Velasquez, com o título de Almirante, desembarcou no extremo oriente da ilha com uns trezentos acompanhantes. Ali fundou a cidade de Baracoa, e recebeu reforços procedentes da Jamaica sob o comando de Pánfilo de Narváez. A expedição dividiu-se então em três colunas. Duas seguiram pelas costas, marchando e navegando do leste para o oeste, e a terceira, sob o comando de Pánfilo de Narváez, marchou pelo centro.

Imagem relacionadaA única oposição séria por parte dos índios foi a que dirigiu o cacique Hatuey, que tinha chegado da Espanhola com notícias sobre a crueldade e a avareza dos conquistadores. Capturado finalmente, e condenado a morrer na fogueira, conta-se que Hatuey negou-se a receber o batismo que, segundo o sacerdote, lhe abriria as portas do céu, pois se os cristãos iam para o céu ele não desejava estar com eles naquele lugar.

Apesar dos índios praticamente não terem oposto resistência, os espanhóis, e em particular a coluna comandada por Pánfilo de Narváez, se irritaram com eles. A matança de Caonao, na qual os espanhóis destruíram toda uma aldeia de índios desarmados, foi somente um dos muitíssimos incidentes parecidos. Mais tarde se estabeleceu o regime de encomendas e o trabalho forçado em busca do escasso ouro que havia. O desalento dos índios foi tal que em muitos casos houve suicídios em massa. Outros morreram por causa das enfermidades até então desconhecidas entre eles, e trazidas pelos espanhóis. Como no resto das Antilhas, a raça índia estava destinada a desparecer, ou a ser absorvida pelos conquistadores que se juntaram com as índias, de modo legal, ou ilegalmente (ainda que quase nunca sem antes batizá-las, pois não podiam unir-se com os infiéis).

Cuba, em grau maior do que Espanhola e Porto Rico, tornou-se o centro de expedições para terra firme. Foi nela que se organizaram as empresas dirigidas para o México e Flórida. Em vista da escassez do ouro, muitos colonos se transferiram para essas novas regiões. O resultado foi que, já em 1525, a ilha estava submersa na pobreza. A sociedade indígena, desarticulada pela chegada dos espanhóis, e arrancada de suas tarefas na busca do ouro, não podia satisfazer as necessidades da escassa população. E logo houve revolta dos índios com as esperadas matanças. As comunicações entre as sete cidades fundadas por Velasquez eram más e, em todo caso, as supostas cidades não passavam de pobres casebres. Em tais circunstâncias, a igreja demorou para estabelecer-se devidamente, e não foi senão para os fins do século XVI, com o estabelecimento de um convento franciscano e outro dominicano em Havana, que a vida eclesiástica começou a ganhar vigor.

Os escravos negros

Desde muito cedo iniciou-se o tráfico de negros africanos para o Novo Mundo, para que se ocupassem dos trabalhos que os espanhóis não estavam dispostos a realizar. Já em 1502, Nicolas de Ovando levou consigo para Espanhola vários negros, ainda que não trazidos diretamente da África, mas de Sevilha, onde já eram escravos. Quando estes fugiram aproveitando as selvas tropicais, se deteve por algum tempo a importação de escravos negros. Porém em 1505 Ovando reacendeu o desumano tráfico ao solicitar da coroa que fosse enviada uma centena de escravos negros. A partir de então, e na medida em que ia desaparecendo a população indígena das Antilhas, a importação de escravos africanos aumentou. Em 1516, Las Casas chegou a sugerir, como um modo de proteger os índios, que se trouxessem mais escravos da África. Porém logo se arrependeu de ter aconselhado tal coisa, e dedicou-se também a defesa dos negros.

Alguns teólogos faziam reparos ao tráfico de escravos. Porém é notável que a principal discussão não tinha nada a ver com a injustiça da escravidão, mas sim com os direitos e interesses dos brancos envolvidos no assunto. Assim, por exemplo, quando em 1553 se autorizou a importação de 23.000 escravos para o Mundo Novo, os teólogos que se opuseram ao acordo basearam seus argumentos nos privilégios excessivos de certos banqueiros, que pareciam violar os direitos de outros espanhóis.

A conversão dos escravos se deu lentamente. Poucos se ocupavam com ela, e se dava por certo que a instrução religiosa para os escravos era responsabilidade de seus amos. Posteriormente toda população negra das Antilhas recebeu o batismo e se fez cristã, apesar de ainda restarem velhos vestígios das religiões africanas, talvez em parte como um meio pelo qual os negros “violentados” conservavam algo da sua dignidade e identidade.

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