A era dos conquistadores (VII): Nova Granada

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos conquistadores – Vol. 7. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 110 a 124.

“… aqueles índios estão fartos de guerra e escandalizados pelos maus tratos que os espanhóis lhes tem dado… tomando por várias vezes seus filhos, mulheres e parentes e fazendo-os escravos e roubando suas fazendas.” (Frei Martin de Calatayud)

A pequena colônia de Santa Maria a Antiga, à qual já nos referimos no capítulo anterior, era tudo o que restava da concessão feita pela coroa a Alonso de Ojeda em 1508, de quase toda a costa norte do que é hoje a Colômbia, desde o Golfo de Urabá até o Cabo da Vela. Posto que já contamos as peripécias da colônia de Santa Maria a Antiga, não as repetiremos, mas nos contentaremos em assinalar que foi ali que se empreendeu a conquista do continente sul-americano, se bem que, como temos visto, logo o empreendimento se concentrou para o oeste e o norte, isto é para os atuais territórios do Panamá e América Central. Posteriormente Santa Maria foi abandonada, e durante quase dois séculos os contatos entre os europeus e os habitantes da região foram escassos e esporádicos.

Santa Marta

A colonização permanente do continente sul-americano começou então em 1525, quando Rodrigo de Bastidas fundou a cidade de Santa Marta, que ainda hoje existe. Bastidas soube cultivar e conservar as boas relações com os índios. Porém para conseguir isso teve que mostrar-se duro com seus próprios compatriotas, que o obrigaram a regressar a Espanhola. A partir de então os colonos se dedicaram a assaltar e explorar os índios, com os mesmos resultados que já temos visto em Santa Maria a Antiga. Em 1531, o dominicano frei Tomás Ortiz foi feito bispo de Santa Marta e, junto a vinte correligionários seus, dedicou-se a regular a vida religiosa e moral da colônia e a restabelecer as boas relações com os índios. Porém a isto se opunham os colonos, que se tinham deixado deslumbrar pelas lendas do Eldorado, onde o ouro era abundante, e assim tratavam de descobrir a mística terra assaltando os índios no seu afã de forçá-los a dizer-lhes onde havia ouro. Os espanhóis não contavam com o valor dos índios, que os derrotaram em várias de suas saídas e por fim atacaram a própria cidade. Mas, vencidos finalmente os índios, desatou-se contra eles uma onda de terror e crueldade que o bispo se viu impossibilitado de impedir. Desalentado, e talvez com o propósito de prestar contas às autoridades espanholas, o bispo Ortiz partiu para a Espanha, onde morreu sem poder fazer gestão alguma.

Venezuela

Enquanto isso, Carlos V, cuja política europeia requeria fundos que todas as suas colônias não conseguiam suprir, fez um acordo com os banqueiros alemães da casa de Welzer. Segundo ficou estipulado nesse convênio, os alemães tinham direito a explorar e exportar, debaixo da jurisdição e autoridade do rei da Espanha, todo o território para o leste e o sul do Cabo da Vela, isto é, aproximadamente o que é hoje a Venezuela. Em 1528 partiu da Espanha essa estranha expedição, cujos chefes e empresários eram alemães, embora os soldados, e mais vinte missionários dominicanos que tomavam parte da mesma, fossem na sua maioria espanhóis.

O território destinado aos alemães tinha sido visitado antes pelos espanhóis, que não tinham conseguido estabelecer-se nele permanentemente. Sabia-se na Espanhola que havia pérolas naquela costa, e portanto foram muitos os aventureiros que a visitaram e que com seus desmandos granjearam o malquerer dos índios para com os espanhóis. Os que tinham-se estabelecido em Cumaná cometeram tais atropelos que os índios os mataram, e junto com os colonos morreram dois sacerdotes que tinham tratado de defender os nativos. Próximo de Cumaná se fundou depois um convento dominicano que também foi destruído. Foi na mesma região, junto a um convento franciscano, que Las Casas fêz seu intento de evangelização pacífica. Porém esse projeto estava condenado ao fracasso devido ao modo pelo qual os espanhóis de Cumaná tinham tratado os índios.

Pouco antes da chegada dos alemães, tinha-se fundado finalmente, na Venezuela, por meios pacíficos e sob a direção de Juan de Ampués, a colônia de Santa Ana de Coro, na qual as relações com os índios vizinhos eram relativamente amistosas. Em pouco tempo se nomeou um bispo para aquela cidade que parecia tão prometedora.

Porém com a chegada dos alemães e dos soldados espanhóis a situação mudou. Os alemães vinham em busca das riquezas do Eldorado, e sonhavam em transformar Santa Ana de Coro em sua base de operações. Neste caso, o bispo da cidade, que não era partidário dos meios pacíficos empregados na sua fundação, deu todo seu apoio aos aventureiros, até o ponto em que após a morte do chefe alemão ficou sob a responsabilidade da empresa. Com ordens suas, os expedicionários marcharam para o Lago Maracaibo, onde fizeram escravos índios com o propósito de vendê-los e custear assim a marcha para o Eldorado.

Cartagena e Bogotá

Enquanto isso, os espanhóis de Santa Marta continuavam suas explorações e conquistas, tanto ao longo do litoral como para o interior. Na costa, fundaram em 1533, a cidade de Cartagena, que mais tarde chegaria a ser uma das mais ricas e fortificadas do Novo Mundo. Antes de possuí-Ia, e mesmo depois, tiveram que lutar encarniçadamente com os índios do lugar. Pouco depois, com a esperança de que lhes servissem como intérpretes e lhes ajudassem a estabelecer melhores relações com os índios, lhes foram enviados vários índios cristãos de Santa Marta. Entre eles se encontrava a índia Catalina, que ocuparia na Colômbia um papel semelhante ao de dona Marina no México.

De Santa Marta partiu também a expedição de Gonzalo Jimenez de Quesada, que se enfronhou no território e fez guerra ao cacique Bogotá, de cujas terras se apoderou. Ali se fundou a cidade de Santa Fé de Bogotá, que pouco a pouco iria eclipsando Santa Marta, até que o episcopado foi transferido para ela em 1562.

Em Bogotá, a expedição alemã se encontrou com a de Jimenez de Quesada. E logo a seguir chegou outra coluna procedente de Quito sob o comando de Sebastián de Benalcázar. Faltou pouco para que os diversos pretendentes às riquezas do Eldorado chegassem às armas. Foi graças a intervenção e mediação do dominicano Domingo de Las Casas, parente de Bartolomeu, que os alemães e os quitenhos aceitaram abandonar seus supostos direitos sobre a região, em troca de altas somas e outras concessões. Este dominicano, diga-se de passagem, mostrou-se zeloso seguidor dos princípios de seu primo, defensor dos índios. Porém a situação da colónia e a ânsia pelo ouro eram tais que muito pouco se podia fazer nesse sentido.

Isto pode ser visto no caso de Martín de Calatayud cujas palavras citadas no cabeçalho do presente capítulo, poderiam dar a entender que se tratava de um zeloso defensor dos índios. Porém o fato é que o frei, que chegou a ser o terceiro bispo de Santa Marta, apesar de deplorar os desmandos que se cometiam contra os índios, chegou a convencer-se de que eram um mal necessário, pois os espanhóis necessitam de quem os servisse e os índios não estavam dispostos a fazê-lo.

Seu sucessor, Juan de los Barrios, se mostrou mais firme, e chegou até a impor censuras eclesiásticos aos encomendadores que não se ocuparam de ensinar a doutrina cristã a seus índios, como se supunha que o fizessem, ou que abusaram deles contrariando a lei. Porém os encomendadores protestaram diante da audiência real, que determinou que a questão das encomendas era da competência das autoridades civis e não das eclesiásticas, e sobre essa base ordenou-se ao bispo que suspendesse as censuras.

Os mesmos conflitos surgiram em Cartagena, onde o governador Juan Badillo escravizou centenas de índios e os enviou a suas possessões na Espanhola. Isto estava proibido pela lei, porém os bispos e demais autoridades religiosas nada puderam fazer.

Estes territórios também receberam o tribunal da Inquisição, se bem que não se empregou geralmente contra os índios, que estavam isentos dele por serem neófitos na fé, nem contra os escravos, que pareciam preferir seus rigores do que os dos seus amos. Com efeito, logo se divulgou a notícia entre os escravos de que se seus amos se apresentassem para castigá-los tudo o que tinham que fazer era gritar: “renego a Deus”, e os amos estavam obrigados a entregá-los imediatamente a Inquisição, cujos castigos eram mais suaves. Posteriormente se chegou a um acordo tácito entre os amos e a Inquisição, no sentido de que, exceto em casos extremos, os escravos ficavam fora da jurisdição desta última. Houve sim alguns casos de espanhóis condenados à morte por serem judaizantes. Porém, sobretudo, a Inquisição se ocupou de assegurar-se de que o “contágio protestante” não penetrasse na Nova Granada. O suposto contágio chegava por intermédio dos marinheiros, comerciantes, corsários e piratas ingleses e holandeses que por diversas razões desembarcavam nos territórios da colônia espanhola. Neste caso, as autoridades tinham grande interesse em que se aplicasse todo o rigor da Inquisição. A maioria dos capturados se convertia ao catolicismo, alguns ao que parece sinceramente e outros porque nele se achava a “vida” e, em todo caso nunca tinham sido protestantes de convicções profundas. Porém houve também casos de heroica resistência. Um deles foi o do jovem John Edon, que fora capturado em Cumaná quando tentava fazer uma transação para comprar tabaco. Depois de três anos de prisão, admoestações e torturas, foi condenado a morrer queimado em Cartagena em março de 1622. As testemunhas oculares, todos eles católicos, dão testemunho do valor daquele jovem que, mesmo sem estar amarrado, sentou-se sobre a pira e não se moveu enquanto seu corpo ardia.

O apostolado entre os índios: São Luiz Beltrão

Ainda que a quase totalidade dos documentos que se tem conservado preocupa-se grandemente com os feitos dos grandes conquistadores, com seus desmandos com os índios, e de seus conflitos com alguns dos missionários, essa não é toda a história. De fato, a penetração espanhola de Nova Granada, como em tantas outras regiões, não foi unicamente obra das armas espanholas, mas foi também trabalho dos missionários. Muito além dos limites do poderio espanhol, em lugares onde a proteção militar de seus compatriotas era praticamente nula, trabalharam dezenas e centenas de missionários abnegados. Algumas vezes marchando de lugar em lugar, e outras vezes estabelecendo longas cadeias de postos missionários que se aprofundavam para o interior do país, conseguiram estabelecer com os índios contatos que seriam impossíveis para os colonos. Todos sofreram penúrias, enfermidades e vitupérios por parte tanto dos índios como dos espanhóis e alguns até a morte. Nas cidades ficavam os prelados vindos em busca de postos hierárquicos. Nelas ficavam também o pior do clero espanhol, vindo para essas terras em busca de um ambiente mais frouxo do que o que era na Espanha, e muitos deles com a esperança de tornarem-se ricos. Porém pelos montes e serras marchava uma hoste consagrada de homens dedicados a seu ministério, dispostos a dar a vida pela conversão dos índios, arriscando-se a tudo por causa da sua sagrada vocação.

Para dar uma ideia do alcance deste apostolado, é bastante apontar alguns números. Antes de terminar o século XVI, os franciscanos tinham na Colômbia 25 conventos e quase outros tantos centros missionários. Nos cinquenta anos posteriores, essa cifra foi duplicada. Os dominicanos tinham vinte mosteiros até o fim do século XVI. Três deles, os de Bogotá, Cartagena e Tunja, estavam adequadamente dotados e estabelecidos. Porém muitos dos outros levavam uma existência precária em locais que não eram senão aldeias das quais os missionários saiam para levar a efeito seus trabalhos. Os grandes missionários da Venezuela foram os capuchinhos e os franciscanos, aos quais não faltaram mártires na obra evangelizadora. Em ambos os países os jesuítas, vindos mais tarde, se aprofundaram para zonas que os missionários anteriores não haviam tocado. Posteriormente, por volta do final do século XVII, havia por toda Nova Granada uma rede de mosteiros e missões que foi um dos principais elementos unificadores da região.

Imagem relacionadaDe todos estes missionários o mais famoso é São Luiz Beltrão, o primeiro santo da América, se bem que, ironicamente, só trabalhou nessas terras pelo espaço de sete anos.

Luiz Beltrão procedia de uma família valenciana relativamente acomodada. Desde muito jovem sentiu-se chamado para o mosteiro, se bem que vacilava entre a vida contemplativa dos cartuchos e a dos dominicanos, que combinavam a contemplação com a ação. Finalmente se decidiu pelos dominicanos, e logo sua santidade foi respeitada pelos seus companheiros de ordem. Com a idade de vinte e três anos já era mestre dos noviços no mosteiro de Valência. A fama de sua humildade e devoção, assim como de sua sabedoria, se espalhou por toda a Espanha, a tal ponto que mais tarde Santa Tereza o consultou antes de empreender sua reforma na ordem das carmelitas.

Porém o jovem monge não estava seguro de que Deus o chamava a passar toda a vida no mosteiro. Da América chegavam notícias sobre milhares de índios que não tinham quem lhes pregasse o evangelho, e que não viam do cristianismo mais do que os abusos dos colonizadores. Em busca da vontade de Deus, desembarcou em Cartagena em 1562, quando tinha trinta e seis anos de idade. Depois de passar algum tempo nesta cidade, penetrou no país, por onde viajou constantemente pregando aos índios e condenando os abusos dos encomendadores. Mesmo que não se tenha um registro detalhado de suas viagens, parece que esteve nos atuais territórios de Bolívar, Atlântico, Antioquia e Magdalena, além do Panamá, e que seus convertidos foram uns dez mil. Aqueles que depois contaram sua vida dizem que quando percebeu que seus intérpretes não traduziam fielmente o que ele dizia, pediu ajuda ao céu, e recebeu o dom de línguas, não no sentido de que falasse línguas desconhecidas, mas no sentido tal qual aparece no livro de Atos, de maneira que os índios que o escutavam podiam entendê-lo.

Sua defesa aos índios diante dos encomendadores foi valente. Entre as lendas que dele se contam, e que apontam para o tom de seus ensinos, está a que se refere a certa ocasião em que comia na casa de uns encomendadores e a discussão girava em torno da justiça do sistema. Luiz Beltrão lhes disse que o que comiam estava amassado com sangue humano. Os encomendadores, enfurecidos, negaram as alegações do missionário. Então este pegou uma pequena torta de farinha e a espremeu. Diante dos olhos atônitos dos encomendadores gotejou sangue da torta.

Seja certa ou não a lenda, ela mostra que havia entre os missionários da época um profundo sentido da injustiça que se cometia contra os índios, e a disposição e o valor necessário para condená-la. Além disso, frequentemente aparecem descrições de Luiz Beltrão ou de outros missionários pregando contra a opressão com um fervor semelhante ao dos profetas do Antigo Testamento.

Enquanto isso as dúvidas do missionário quanto à sua vocação não cessavam. Bartolomeu de Las Casas escreveu-lhe uma carta na qual o aconselhava a que fizesse um profundo exame de consciência antes de dar a absolvição aos encomendadores. Em outra ocasião estava Beltrão pregando quando um encomendador chegou e levou todos os índios. Tudo isso alimentou as dúvidas de seu espírito. Posteriormente escreveu para a Europa, pedindo às autoridades de sua ordem que lhe ordenassem regressar à Espanha. Depois de somente sete anos de ministério no Novo Mundo, partiu para sua pátria, onde com sua profunda devoção e santidade conseguiu o respeito de seus contemporâneos.

Morreu em 1571, e em 1671 foi canonizado por Clemente X. Em 1690 foi feito santo patrono de Nova Granada.

O apóstolo dos negros: São Pedro Claver

Resultado de imagem para São Pedro ClaverBem diferente foi a vida de Pedro Claver, o outro grande santo colombiano. Nasceu em Catalunha em 1580, pouco antes da morte de São Luiz Beltrão, e desde muito jovem decidiu unir-se aos jesuítas e ser missionário no Novo Mundo. Seus superiores não criam que fosse muito inteligente nem que tivesse outros grandes talentos de índole alguma. Quando chegou a Cartagena em 1610 era um noviço, e teve que passar cinco anos antes de ser ordenado sacerdote. Quase todo esse tempo residiu nos mosteiros de Bogotá e de Tunja, dois dos principais que os jesuítas tinham nessa região. Durante esse período sentiu profunda dor ao ver os escravos que eram trazidos da África, e dos quais ninguém parecia cuidar. Quando por fim fez sua profissão final, em 1622, adicionou junto ao seu juramento outro voto: Petrus Claver, aethiopum semper servusPedro Claver, para sempre escravo dos negros.

Parte do interesse de Claver nos negros se devia ao exemplo de outro jesuíta seu companheiro, Alonso de Sandoval. Sandoval tinha-se dedicado a evangelizar os negros e a cuidar de suas necessidades. Visto que para isso era mister conhecê-los melhor, tratava de aprender com eles sobre os costumes africanos e os diversos idiomas que falavam. Foi assim que compôs sua obra, pioneira dos estudos etnográficos africanos, Naturalidade, polícia sagrada, e profana, costumes, ritos e superstições dos etíopes, que foi publicada em Sevilha em 1627. Sandoval foi então tanto o grande exemplo de Claver como seu primeiro mestre quanto ao melhor modo de alcançar os escravos.

Enquanto Sandoval ia geralmente aos lugares em que os escravos serviam seus amos, Claver se dedicou a visitá-los desde o momento em que chegavam a Cartagena. Amontoada nas dispensas mal cheirosas dos navios negreiros, aquela pobre gente sofria uma travessia que podia levar até dois meses. Durante esse tempo, apenas lhes permitiam mover-se, pois os traficantes lhes amontoavam até o limite do impossível. Muitos criam que ao chegar nas terras desconhecidas para onde eram levados seriam engordados para servir de alimento para os brancos. A comida que lhes era dada era mínima, suficiente apenas para mantê-los vivos. O cheiro de seus excrementos era tal que quando os barcos se aproximavam do porto o fedor se podia sentir a distância.

Àquela gente desgraçada se dedicou Claver o resto de seus dias. Logo viu que não podia comunicar-se com eles, e tratou que os amos de escravos lhes emprestassem alguns que tinham aprendido o espanhol, para que lhe servissem de intérpretes. Porém os amos não estavam dispostos a servir-lhe nisso, pois não queriam perder o trabalho dos negros tradutores. Finalmente, Claver conseguiu que seu mosteiro comprasse alguns escravos para esse propósito. Isto pronto trouxe-lhe conflitos com seus irmãos de religião, pois alguns insistiam em tratar os escravos como tais, e requerer deles o serviço pessoal, enquanto que Claver os tratava como iguais, e desejava que os demais jesuítas respeitassem e amassem os intérpretes com os quais conviviam. Embora alguns destes tradutores não dessem o resultado esperado, outros se tornaram fiéis acompanhantes e amigos do missionário.

Quando chegava um barco, Claver e seus intérpretes iam onde estavam os escravos. Às vezes podiam visitá-los nos próprios navios. Porém quase sempre tinham que esperar que estivessem nos barracões onde eram colocados com a finalidade de prepará-los para o mercado. Estas edificações eram verdadeiros cárceres nos quais o único alívio era que havia neles mais espaço do que nos barcos, e que se lhes servia melhor alimentação, com o propósito de poder vendê-los por maior preço. Porém ali eram muitos os que morriam, vítimas das privações da viagem ou de novas enfermidades. Em certas ocasiões Claver e seus companheiros entravam naqueles barracões e encontravam vários mortos estirados no chão, completamente nus de igual maneira que os demais, e cobertos com moscas. O piso era de ladrilhos rotos, que feriam as carnes daqueles infortunados quando tratavam de descansar.

Para estes lugares, os missionários levavam frutas e roupas. Dirigiam-se primeiramente aos mais débeis e enfermos, e depois ao restante. Quando alguém estava em más condições de saúde, o próprio Claver ou algum de seus intérpretes o carregava até o hospital próximo que tinham feito para socorrer os escravos enfermos. Com os demais se começava de imediato a obra de evangelização e batismo, que tinha que ser rápida, pois logo a maioria deles partiria para as plantações de seus novos senhores, e por longo tempo não teriam ocasião de escutar de novo a pregação cristã.

Os métodos de Claver eram dramáticos e pitorescos. Visto que os escravos chegavam sedentos porque durante a travessia se lhes dava pouquíssima água, Claver lhes dava de beber, e logo lhes explicava que a água do batismo satisfaria as ânsias da alma, como a que lhes havia dado satisfazia a do corpo. Separados em grupos, segundo as línguas que cada qual entendia, Claver se assentava entre eles, dava a única cadeira ao intérprete, que se colocava no centro do grupo e assim ensinava os princípios da fé cristã. Às vezes lhes dizia que como a serpente troca a pele, assim era necessário trocar de vida para ser batizados. Ato contínuo beliscava-se por todo corpo, como se estivesse tirando sua pele, e lhes explicava as coisas que deveriam deixar. Como sinal de concordância, eles também se beliscavam. Em outras vezes, para explicar-lhes a doutrina da Trindade, pegava um pequeno lenço, e o dobrava de tal modo que se viam três pregas, e depois mostrava que se tratava de um só lenço. Desse modo, se diz que Claver batizou trezentos mil escravos durante seu ministério em Cartagena.

Porém essa não era toda a obra do missionário, que continuava ocupando-se dos escravos mesmo depois do batismo. Visto que a lepra era uma enfermidade comum entre eles, e quando algum a contraía o seu senhor simplesmente o atirava para rua, Claver fundou um leprosário no qual passava boa parte de seu tempo quando não tinha barcos recém-chegados. Ali o veriam repetidamente seus companheiros, abraçado a algum escravo leproso de quem ninguém ousava aproximar-se, tratando de dar-lhe consolo em meio de sua solidão.

Ocorreram três grandes epidemias de varíola em Cartagena durante o ministério de Claver, e em todas elas ele se dedicou a limpar as chegas dos enfermos negros, dos quais ninguém se ocupava.

Ainda que seus superiores repetidamente o acusavam de não ser muito prudente, o santo missionário sabia os limites a que poderia chegar sem que seu ministério fosse sufocado pelos brancos. Nunca atacou os brancos, nem disse que a igreja devia condená-los. Porém era de todos sabido que quando caminhava pelas ruas somente saudava os negros e aqueles entre os brancos que apoiavam sua obra. Quando alguma rica senhora vinha pedir que recebesse sua confissão, Claver simplesmente respondia que tinha muitíssimos confessores disponíveis entre os espanhóis, todavia ele deveria dedicar todo seu tempo aos escravos, que não os tinham. Diz-se também que quando escutava confissões, e terminava com os escravos, dava preferência aos pobres, e depois às crianças. Talvez com essa conduta o que buscava era não ter que condenar abertamente a vida e a atitude dos que se beneficiavam com o regime da escravidão. Senão seguisse tal caminho, é muito possível que Claver tivesse sido mandado de volta à Espanha, e que sua própria consciência não lhe permitisse continuar seu ministério, como no caso de Luís Beltrão.

Entre os escravos de Cartagena, e especialmente as escravas, Claver encontrou fiéis discípulos e ajudantes. A escrava Margarida, com a anuência de sua senhora dona Isabel de Urbina, que apoiava o trabalho de Claver, preparava os banquetes que o missionário dava em honra dos leprosos e mendigos de Cartagena em ocasiões das grandes festividades eclesiásticas. Outras se dedicavam a enterrar os escravos mortos com os quais ninguém se ocupava. Outras visitavam os enfermos, recolhiam frutas e roupas para os necessitados etc.

Durante todo esse tempo, a sociedade branca de Cartagena prestava pouca atenção ao pobre jesuíta que passava sua vida entre os escravos. Dos que se atreviam falar-lhe, a maioria o fazia para opor-se a seu trabalho, pois se temia que se os escravos chegassem à convicção de que eram gente tão digna como as demais, se rebelariam contra seus senhores. Seus superiores continuavam informando a Espanha que o padre Claver era curto de inteligência, carente de prudência, e quase incapaz de aprender.

Já no final de seus dias, atacou-lhe uma enfermidade paralisante que por seus sintomas parece ter sido o que hoje se denomina de o mal de Parkinson. Recolhido em sua cela monástica, raramente era encontrado nas ruas. Suas últimas três visitas, espaçadas entre si, foram a casa de dona Isabel de Urbina, onde vivia Margarida, ao leprosário e a um barco recém-chegado carregado de escravos. Nesta última ocasião, não pode mais do que olhar do cais, enquanto suas lágrimas corriam diante de tanta dor, que já não podia mais aliviar.

Seus companheiros de mosteiro designaram um escravo para cuidar dele. Deu-se então o mais triste episódio da vida daquele santo varão, pois teve que sofrer em sua própria carne as consequências do mal que sua raça havia feito a raça negra. O escravo encarregado de cuidar-lhe irritou-se com ele, descuidando-se do seu leito, e de seu alimento, e fez-Ihe sofrer tormentos muito parecidos aos que os escravos sofriam na travessia do Atlântico.

Já próximo da morte do velho missionário, os habitantes da cidade se aperceberam de que estavam ao ponto de perder um santo. Então se afadigaram em ir visitá-lo em seu leito de enfermidade, o que muitas vezes lhe causou novas torturas. Todos queriam levar alguma relíquia ou recordação, e despojaram sua cela de tudo quanto havia nela. Nem sequer seu crucifixo deixaram para o santo, pois quando o Marquês de Mancera se agradou dele, o superior do convento lhe ordenou que lhe entregasse. Contudo, ninguém lhe ouviu pronunciar a mínima queixa, nem sequer solicitar algo para sua comodidade. Morreu na manhã de 8 de setembro de 1654, chorado por muitos dos que o haviam desprezado em vida. Mais de duzentos anos depois foi canonizado pela Igreja Romana.

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