A era dos conquistadores (VIII): os filhos do Sol

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos conquistadores – Vol. 7. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 125 a 158.

“Deem-me os capitães mais famosos, franceses e espanhóis, sem os cavalos, armaduras, armas, sem lanças e espadas, sem bombardas e fogos, mas com uma só camisa e só seus punhos … Se desta maneira saíssem vencedores, diríamos que mereciam a fama de valentes entre os índios.” (Blas Valera).

De acordo com o que vimos no capítulo anterior, desde que Balboa andava pelas terras panamenhas foi recebendo notícias de um grande império nas costas do Mar do Sul, do qual procediam barcos que, segundo os índios do istmo, eram tão grandes como os dos espanhóis. Foi o sonho de conquistar esse império que moveu Balboa a solicitar a Espanha maiores recursos, e por essa solicitação foi nomeado em seu lugar Pedrarias Dávila, pois não se cria que um homem de origem humilde como Balboa fosse digno de tal empreendimento. Entretanto Pedrarias não era também o homem de estatura para a necessidade, e passou todo seu tempo em intrigas centro americanas. Posteriormente, o conquistador do grande império do sul seria um homem de origem ainda mais humilde que a de Balboa, pois se conta que em sua infância se alimentou de leite de porca, e que depois se dedicou a apascentar os porcos de seu pai. Porém antes de passar a narrar tal aventura devemos deter-nos para passar uma vista d’olhos, se bem que leve, pelo império que se pretendia conquistar.

EI Tahuantinsuyu

Resultado de imagem para EL TahuantinsuyuSe bem que logo de início os espanhóis começaram a chamar aquela região de “Perú” ou “Pirú”, por causa do nome do rio que corria por ela, os nativos do país a chamavam de Tahuantinsuyu, que quer dizer, “os quatro cantos do mundo”. Cuzco, sua capital, se considerava o centro do mundo, e dali se dividiam os quatro cantos: o Chinchasuyu para o norte, o Antisuyu para a cordilheira, o Contisuyu para o mar, e o Collasuyu para o sul e o leste, incluindo o altiplano boliviano e o norte do Chile. E razão tinham aqueles índios para chamar seu império de “os quatro cantos do mundo”, pois era um dos mais Vastos impérios que a história tem conhecido. Estendia-se desde as fronteiras da atual Colômbia até adentrar-se bastante no Chile, e para o leste incluía boa parte do que hoje é a Bolívia, e uma porção da Argentina. Se bem que até o presente não se tenha definido o todo de seus limites, calcula-se que compreendia algo em torno de dois milhões de quilômetros quadrados.

Tratava-se de um império relativamente jovem, que em suas lendas não se ia mais adiante do que doze gerações. Segundo essas lendas, seus fundadores tinham sido Manco Cápac e sua irmã e esposa Mama Ocllo. Essa dupla foi criada pelo Sol, e por isso seus descendentes diretos, os únicos aos quais se aplicava verdadeiramente o nome de “incas”, se diziam filhos do Sol. Manco Cápac e Mama Ocllo, nasceram no lago Titicaca, e dali partiram para Cuzco, onde ensinaram aos humanos as artes do governo, da agricultura, e da guerra. Aos próximos sete incas são atribuídos fatos legendários, e ainda que seja muito provável que tenha havido reis de Cuzco com tais nomes, não pode dizer-se que sejam verdadeiros personagens históricos no sentido de que se conhecessem seus feitos ou sua contribuição para o desenvolvimento do império. Foi o nono inca, Pachacútec, que ocupou o trono de 1438 a 1471, que deveras fundou o grande império dos filhos do Sol. Ele e seu filho e sucessor Tupac Inca conquistaram regiões tão extensas que as campanhas de Júlio Cezar empalidecem-se ao ser comparadas com as destes dois grandes reis. O filho de Tupac Inca, Huayna Cápac, continuou a obra de seu pai e de seu avô. Quando de sua morte, o Tahuantinsuyu tinha chegado a sua máxima extensão. Huayna Cápac morreu em 1527, e já tinham chegado a ele as primeiras notícias de estranhos personagens, de rosto barbudo e pele desbotada, que rondavam pelo extremo norte do império. Portanto, o grande império inca, diferentemente do romano, não chegou nem ao primeiro século de existência antes de ser invadido e destruído pelos bárbaros do norte.

Resultado de imagem para atahualpa incaO regime dos incas consistia numa autocracia paternalista. O inca era tudo. A ele pertenciam, não só a terra, mas também as feras e as pessoas. Não sem razão se conta que Atahualpa disse a Pizarro: “se eu não quiser, nem as aves voam nem as copas das árvores se movem em minhas terras“. As terras do inca se distribuíam e redistribuíam periodicamente entre a população para seu cultivo, segundo o tamanho de cada grupo. Feita tal distribuição, e tendo já assinalado cada qual o terreno que lavrar, uma terceira parte do produto se utilizava para as necessidades imediatas dos lavradores, outro terço era dedicado aos deuses, e o terceiro terço era dado ao inca. A porção que correspondia aos deuses se utilizava para os sacrifícios, a manutenção dos sacerdotes e as virgens dedicadas aos deuses e ainda para as grandes festas religiosas, nas quais o povo gozava de abundante alimentação, proveniente dessa parte supostamente separada para os deuses. A porção do inca se dedicava a sustentar a todos os funcionários imperiais, ao exército e ao inca e sua enorme família (suas esposas e concubinas se contavam em centenas).

Como se pode imaginar, um império de tal magnitude necessitava de uma grande máquina de governo. Os incas fizeram construir duas grandes estradas que corriam paralelas de norte a sul, uma ao longo da costa e outra pelas montanhas. Visto que todo aquele império era governado sem o conhecimento da roda, nos lugares mais íngremes da estrada das montanhas havia na realidade, uma escadaria empedrada. Ao longo dessas duas artérias, e por mil caminhos secundários, iam e vinham os correios ou chasquis, a pé, e com um sistema de sinais que permitia que as mensagens se transmitissem com relativa rapidez. Visto que na zona andina não se conhecia a escrita, as mensagens eram na maioria verbais, ajudados por um sistema de nós amarrados nas cordas [quipu] de tal maneira que permitia aos chasquis recordar os detalhes das mensagens, especialmente os números. Sobre essa base, os contadores do império, desde sua capital em Cuzco, o administravam. Ao longo dos caminhos havia grandes armazéns nos quais se conservava grande parte dos alimentos que pertenciam ao inca. Esses armazéns serviam, em tempos de escassez para alimentar a população. E em tempos de guerra se utilizavam como centros de abastecimento para os exércitos em marcha. Desse modo os exércitos imperiais podiam mover-se rapidamente, sem necessidade de carregar seus próprios alimentos.

Tratava-se, pois, de uma sociedade altamente organizada, na qual, pelo menos em teoria, ninguém passava fome ou necessidade, se bem que tudo estava já regulamentado.

A religião daquele vasto império era de índole politeísta, e nela se davam alguns casos de sacrifícios humanos, ainda que não na frequência com que ocorriam no México. O deus criador era Viracocha, que segundo a lenda tinha criado a humanidade em Tiahuanaco, uma cidade em ruínas no altiplano boliviano cujas origens os próprios incas desconheciam. O enorme tamanho dos monolitos de Tiahuanaco os levou a crença de que os primeiros seres humanos eram demasiadamente grandes, e que então Viracocha os destruiu e criou de novo com as proporções atuais. Porém o nome de “Viracocha” se dava também a outras divindades menores. O sol era o principal objeto de adoração para os incas, pois dele vinha toda a vida e o calor necessário para a subsistência naquelas altas terras andinas. As principais festividades religiosas tinham que ver com os solstícios, que apontavam a graça que o sol lhes fazia de brilhar por mais um ano. Como filho do Sol, o inca era também seu supremo sacerdote e representante na terra.

A fim de manter puro esse sangue supostamente divino, os incas se casavam com seus irmãos. Ainda que tinham muitas outras mulheres, e todos os seus filhos fossem considerados nobres, só os filhos de suas irmãs podiam herdar o trono, pois unicamente eles tinham o puro sangue divino, procedente de Manco Cápac e sua irmã e esposa Mama Ocllo.

Francisco Pizarro

Resultado de imagem para francisco pizarroCom a finalidade de conquistar esse vasto império, sem pensar na magnitude de tal empreendimento, porém só com uma ânsia insaciável por ouro, é que se lançou na luta Francisco Pizarro. Este era filho ilegítimo do fidalgo Gonzalo Pizarro, que não parece ter-se ocupado com ele mais do que o normal, pois queria pô-lo cuidando de suas manadas de porcos. Quando um belo dia estes se dispersaram, Francisco não se atreveu a voltar para sua casa pelo temor ao castigo, fugindo para Sevilha, de onde mais tarde embarcou, como tantos outros aventureiros, para tentar a sorte nas Índias. Em 1510 andava com Ojeda na sua expedição, e dali passou a formar no grupo de Balboa, cuja confiança conquistou. Ao chegar Pedrarias Dávila, passou para seu lado, e o novo governador também depositou confiança nele.

Em 1522, Pedrarias mandou uma expedição sob o comando de Pascual de Andoyaga, que explorou o litoral colombiano, porém nunca chegou a estabelecer contato com os súditos dos incas. Em 1524, com licença de Pedrarias e em sociedade com Diego de Almagro, que o havia acompanhado em muitas aventuras, Pizarro se fêz ao mar. Em diversos lugares do litoral encontraram-se com alguns índios, aos quais trataram com as costumeiras violências, arrebatando-lhes todo o ouro que pudessem. Porém a escassez e a enfermidade logo fizeram suas presas os aventureiros, que teriam perecido se não fossem os reforços trazidos por Almagro, que tinha zarpado do Panamá algum tempo depois deles. De regresso ao Panamá, e com base nas notícias do império inca que tinham conseguido nessa expedição, os dois amigos entraram em sociedade com o sacerdote Hernando de Luque, que providenciou os fundos para uma nova expedição. A incredulidade dos panamenhos diante das promessas de Pizarro e Almagro pode ser vista no apelido que puseram em Hernando de Luque, chamando-o de “Hernando Louco”.

A segunda expedição de Pizarro teve a princípio a mesma sorte da anterior. Foi encontrado abandonado na Ilha do Galo, para onde Pedrarias Dávila mandou uma expedição de resgate sob o comando de Juan Tafur. Porém Almagro e Luque escreveram dizendo-lhe que a situação política do Panamá era tal, que se desistisse naquele momento seria necessário abandonar o projeto, porém se permanecesse na ilha eles lhe mandariam reforços e sustento com a maior brevidade possível. Foi então que se deu a famosa cena em que Pizarro traçou com sua espada uma linha na praia e disse: “Por aqui se vai até o Peru para se ficar rico. Por ali se vai ao Panamá para continuar pobre. Escolha o que seja bom castelhano o que melhor estiver“.

Treze deles cruzaram a linha e se dispuseram a continuar com a aloucada empresa de conquistar o Tahuantinsuyu. Com esses, e logo que recebeu a ajuda de seus aliados no Panamá, Pizarro voltou a explorar o litoral, e ao chegar na grande e rica cidade de Tumbes, foi bem recebido obtendo provas concretas da existência da grande civilização de que tanto se havia falado. Depois de outras breves explorações, regressou ao Panamá com bastante ouro para provar o valor de sua viagem. Dali seguiu para a Espanha, onde obteve da coroa os cargos de governador, capitão geral e principal de “Nova Castela”, nome que se deu à comarca. Visto que o acertado era que Almagro seria o principal, desse ponto em diante começaram entre os dois capitães as desavenças que depois levariam a uma cruenta guerra civil. Para Luque foi dado o bispado de Tumbes.

De regresso daquela segunda expedição, Pizarro levou consigo vários índios. Um deles, a quem a história conhece com seu nome batismal de Felipinho, foi quem ocupou na conquista do Peru o papel que dona Marina tinha ocupado no México. Além disso, nessa expedição Pizarro deixou atrás de si, sem sequer saber, um de seus mais poderosos aliados: uma epidemia de varíola, enfermidade até então desconhecida no país, que dizimou a população e transtornou os sistemas de produção e de assistência social do Tahuantinsuyu.

A terceira e definitiva expedição partiu em 1531. Ao chegar à ilha de Puná e a Tumbes, no Golfo de Guayaquil, Pizarro e os cento e oitenta e três espanhóis que o acompanhavam receberam as primeiras notícias da guerra civil que convulsionava o país. Huayna Cápac, o neto de Pachacútec, tinha morrido, e tinha deixado o trono imperial ao seu filho Huáscar. Porém também tinha separado do império o reino de Quito, e o havia entregue a seu outro filho Atao Hualpa (ou Atahualpa), que tinha sido gerado de uma princesa quitenha. Nem Huáscar nem Atahualpa se contentaram com aquela situação, e rapidamente este último empreendeu uma guerra contra seu meio irmão. Huáscar era, sem sombra de dúvidas, o soberano legítimo, pois era filho de Huayna Cápac e de sua irmã. Por isso tinha o apoio da velha aristocracia de Cuzco e dos sacerdotes. Atahualpa, que a todos os olhos era o usurpador, de acordo com o ponto de vista da lei inca, contava com o apoio dos mais hábeis generais, os quais viam nele o espírito conquistador de seu bisavô Pachacútec.

A sorte da guerra, no princípio indecisa, parecia inclinar-se para Atahualpa, cujos generais tinham conseguido várias vitórias importantes e se aproximavam cada vez mais de Cuzco. A sangue e fogo, Atahualpa e os seus tinham-se imposto nas regiões por onde agora marchava Pizarro, que por isso encontrou grande inimizade contra o usurpador, e com base nela foi muito bem recebido pela maioria dos nativos das terras que atravessava.

Dentro de pouco tempo chegou aos espanhóis uma estranha embaixada. Vinham emissários da parte de Huáscar e de seus sacerdotes, perguntando-lhes se na verdade eram eles os “viracochas” que segundo uma antiga profecia viriam do ocidente, para salvar o país em momentos de grave crise. Pizarro reconheceu nisso as circunstâncias semelhantes às que tinham facilitado Cortés, na conquista do México, sobre as quais tinha ouvido (não podemos dizer que as tinha lido porque ele, o governador de Nova Castela, era analfabeto). Com o estrépito de suas armas e os saltos de seus cavalos, Pizarro fez todo possível para dar a entender-lhes que tinha poderes divinos, e lhes disse que em efeito ele e os seus eram os viracochas prometidos, que vinham para fazer justiça. A partir de então, entre os partidários de Huáscar, se chamou os espanhóis de “os vira cochas”. Atahualpa, por sua vez, descrente como era, os chamava simplesmente de “sungasapa”, que quer dizer barbudos. Quando mais tarde, chegaram os emissários de Atahualpa, Pizarro pôs-se também a seu serviço. Porém na caminhada pelos povoados ia proclamando que vinha restaurar o rei legítimo.

Atahualpa nunca pareceu ter sentido grande temor ou respeito por aquele punhado de estrangeiros. Porém em sua retaguarda alguns se rebelavam contra ele, e por isso decidiu não marchar para Cuzco até que não se explicasse o mistério dos pretensos viracochas. Várias vezes poderia ter eliminado os espanhóis nos passos das montanhas. Porém a curiosidade de vê-los em pessoa, e seu sentido de que em sua terra “nem as aves voam sem sua permissão”, provocaram sua perda.

Nos arredores de Cajamarca, com umas dezenas de milhares de soldados, Atahualpa esperou seus estranhos visitantes, ao mesmo tempo que o grosso de seu exército continuava a marcha para Cuzco. Assim, aquele exército que tanto impressionou os espanhóis não era mais que a guarda pessoal do imperador. Depois de várias idas e vindas que não é necessário relatar aqui, se acertou que o inca visitaria os espanhóis em Cajamarca.

Atahualpa estava tão seguro de seu poder, que ordenou ao general Rumi Nahui que cercasse a cidade com tropas armadas de cordas para prender os espanhóis que tentassem fugir. Além disso, ao aproximar-se de Cajamarca, ordenou a quase todos seus soldados que permanecessem fora, e ele entrou na praça com uns cinco ou sete mil acompanhantes, a maioria deles cortesãos sem armas.

Enquanto isso, na cidade, se preparava o grande golpe. Pizarro colocou suas peças de artilharia de tal modo que cobrissem as duas únicas saídas da cidade, e escondeu todos os seus soldados e cavalos onde não poderiam ser vistos por quem entrava na cidade e deu ordem e instruções a que estivessem todos dispostos para começar a disparar suas armas quando chegasse o momento oportuno.

[Img #154642]O inca entrou carregado em liteira, sentado sobre um estrado de ouro, e rodeado de seu séquito. Saiu-lhe então ao encontro o padre Vicente Valverde, que valendo-se do intérprete Felipinho, fêz o “requerimento”, isto é, explicou-lhe a doutrina cristã, e disse-lhe quão grandes senhores eram o papa e o rei, e o convidou a declarar-se vassalo do rei da Espanha e permitir que se pregasse o evangelho em suas terras. Se o inca entendeu ou não o que se lhe dizia, nunca se saberá. Porém certamente não estava disposto a declarar-se vassalo de rei algum. Exasperado, tomou o Evangelho que o padre Valverde, levava nas suas mãos o examinou, e ao não encontrar nele nada mais do que gravações ininteligíveis atirou-o ao chão. Então, enquanto Felipinho recolhia o livro, o sacerdote corria para os espanhóis, gritando:

– Não veem o que se passa? Porque estais com prudência e requerimentos com esse cão cheio de soberba? Saiam a ele, que eu vos absolvo … Vingança, vingança, cristãos. Os Evangelhos foram depreciados e foram jogados por terra. Matem a esses cães que desprezam a lei de Deus.

Pizarro e os seus não necessitavam de tais exortações da parte do representante da igreja. E tão logo se cumpriu o requisito de apresentar o “requerimento” ao inca, o chefe espanhol deu o sinal já estabelecido para o ataque. Ao verem agitado seu lenço, os artilheiros soltaram seus projéteis sobre os principais índios, e ato contínuo a cavalaria atacou. Os índios não tinham visto ainda uma arma como as espadas castelhanas, capazes de cortar um membro com um só golpe. Muitos trataram de fugir, porém não encontraram saída alguma. Quando por fim a pressão das pessoas se tornou muito grande a parede de pedra cedeu, e muitos fugiram espavoridos, enquanto alguns espanhóis a cavalo saíram a dar-lhes caça em campo aberto. Ao redor do inca a resistência foi mais forte. Os índios, sem mais armas para se opor, colocavam seus próprios corpos entre os espanhóis e seu senhor. Quando os aventureiros chegaram à liteira que carregava o soberano, aconteceram atos de valor que depois eles mesmos narraram. Houve índios que, cortadas as mãos continuavam sustentando o inca em seus ombros. Outros ao verem cair os que levavam a liteira, corriam para seu lugar, mesmo sabendo que morreriam. Finalmente um espanhol agarrou a Atahualpa pelos cabelos e o atirou em terra.

No final da jornada, Atahualpa caiu prisioneiro dos espanhóis, vários milhares de índios morreram na cidade, e só um espanhol ficou levemente ferido. Foi o próprio Pizarro, que foi ferido por um compatriota seu quando tentava assegurar-se de que não fizessem qualquer dano ao inca prisioneiro.

A ironia de tudo isso foi que, quase ao mesmo tempo em que Atahualpa caía prisioneiro dos conquistadores, seu rival e meio irmão Huáscar caía em poder de suas tropas. Assim enquanto os espanhóis eram donos de um pretendente ao trono, este era dono de seu rival.

A pedido de Pizarro, o cativo inca ordenou que seus exércitos abandonassem as proximidades de Cajamarca. Depois de algumas negociações, Pizarro prometeu-lhe liberdade em troca de um resgate que consistia em todo ouro e prata necessários para encher uma casa com mais de cem metros quadrados até tão alto quanto alcançasse a mão do inca. Ato contínuo saíram os chasquis por todo o país, e logo o ouro e a prata começaram a chegar em Cajamarca.

Pouco depois tiveram lugar dois acontecimentos importantes para a história do Peru. Um deles foi a chegada de Almagro com um contingente de reforços. Visto que os recém-chegados não estavam presentes no feito de Cajamarca, não lhes correspondia nenhuma parte daquele enorme resgaste. Ainda que os pizarristas, quase que como esmola, deram-lhe a quantidade de cem mil ducados, a partir daí começaram as rivalidades entre almagristas e pizarristas.

O outro incidente de importância foi a morte de Huáscar. Este tratou de chegar a um acordo com os viracochas em troca de que estes liquidassem seu meio irmão. Inteirado Atahualpa – se por Felipinho ou pelo próprio Pizarro, os cronistas não concordam – deu ordem a seus generais de que matassem a Huáscar. Porém não se apercebeu de que isto deixava campo aberto a Pizarro, que estava de posse dele, o último pretendente do trono.

Apesar de pago o resgate, os espanhóis não soltaram seu prisioneiro. Assim decidiram fazer-lhe um julgamento, acusando-o de fratricida. Depois de um sumário processo, no qual estavam de acordo Almagro o padre Valverde, o inca foi condenado a morrer na fogueira. Quando, quase na hora, marchava para o suplício, o sacerdote lhe propôs que se se batizasse não seria queimado, mas que seria morto de outra maneira. Visto que na cultura inca a morte pelo fogo era ignominiosa, o inca aceitou e, depois de batizá-lo, os espanhóis o mataram por estrangulamento. Assim terminou aquele renovo de Pachacútec e Huayna Cápac, em cuja terra nem sequer as aves voavam sem sua permissão.

Resistência e guerra civil

Os espanhóis fizeram coroar o pequeno Tupac Hualpa, filho também de Huayna Cápac, com a esperança de contar com um inca dócil a seus propósitos. Com ele na liteira partiram de Cajamarca para Cuzco. Porém pouco antes de chegar na capital, Tupac Hualpa morreu misteriosamente, ao que parece envenenado por um dos generais do defunto Atahualpa. Enquanto isso, os invasores faziam todo o possível para desestabilizar o império que tentavam conquistar. Com esse propósito decretaram a liberdade de todos os “yanacunas”, que eram os servos do império. Apesar de que, posteriormente, planejavam converter a todos os índios em servos, no momento lhes convinha aparecer como libertadores das classes oprimidas.

Pouco depois receberam uma grata nova. Manco Inca, outro dos filhos de Huayna Cápac, a quem correspondia agora o trono segundo os principais chefes e sacerdotes do império, uniu-se a eles, crendo que deveras eram “viracochas” que tinham vindo para ajudá-lo a sufocar a rebelião dos quitenhos.

Pouco demorou Manco Inca em dar-se conta de seu erro. Depois de tentativas falidas, conseguiu escapar do acampamento espanhol, e a partir daí foi o principal chefe da resistência inca contra os invasores.

Enquanto isso, Diego de Almagro tinha ido com os seus buscar fortuna em outras partes. Primeiro marchou para o norte, onde o general Rumi Nahui tinha-se feito rei de Quito, Junto a Sebastián de Benalcázar conquistou essa cidade e destruiu a resistência nessas regiões do norte. Ali se encontrou também com Pedro de Alvarado, que dirigia uma expedição independente para Quito. Em troca de grande soma, Alvarado cedeu seus homens, armamentos e todos os seus direitos da expedição. Depois de regressar ao Peru, Almagro e os seus partiram para o Chile, onde sofreram grandes penúrias.

Manco Inca aproveitou a ausência de Almagro para reunir um exército de quarenta mil soldados e sitiou a Cuzco, que na ocasião estava sob o governo de Hernando e Gonzalo Pizarro, irmãos de Francisco. Este último, que se encontrava na recém-fundada Lima, não pode enviar-lhes socorro, pois ele mesmo se encontrava quase cercado. As primeiras cinco colunas que saíram em auxílio dos sitiados de Cuzco foram aniquiladas pelos índios.

Se a luta tivesse sido só de índios contra espanhóis, como talvez se entenda, estes não poderiam resistir por muito tempo. Porém contavam com a ajuda de muitos índios que aproveitaram essa oportunidade para sublevarem-se contra o regime inca. Eram dirigidos pelas velhas aristocracias locais, suplantadas pelo sistema de governo estabelecido pelos incas. Além do mais, os espanhóis tinham trazido numerosos índios nicaraguenses e negros do Panamá. Foram todas estas tropas auxiliares, além dos cavalos, das armaduras, e da pólvora, que permitiu aos conquistadores resistir os avanços das tropas incas.

Pouco a pouco, sem dúvida, os partidários de Manco Inca iam possuindo os conhecimentos bélicos dos invasores. E logo se viu o próprio Manco montado em um cavalo. Depois começaram a soar tiros de arcabuz do lado dos índios. Quando os de Manco fizeram alguns prisioneiros espanhóis, obrigaram-nos a ensinar-lhes como fabricar pólvora. Posteriormente se deram encontros em que ficou provado que a suposta superioridade espanhola se devia somente a suas armas e seus cavalos, como numa escaramuça em que quatro índios a cavalo derrotaram a trinta peões da infantaria espanhola.

A resposta dos Pizarro foi o terror. Tão logo Francisco conseguiu aliviar o cerco de Lima, enviou a seus irmãos uma forte coluna sob o comando de Alonso de Alvarado, que pelo caminho se dedicou a mutilar seus prisioneiros, cortando a mão direita dos varões, alguns deles ainda crianças de colo, e os seios das mulheres. O que escapavam de tão terrível sorte eram acorrentados como escravos e utilizados para carregar os víveres do exército, até que morressem de fadiga e inanição. Por todas as partes, pelo sangue, fogo e ferro, os espanhóis semearam o terror. Porém o grande alívio que chegou aos de Cuzco, foi o regresso de Diego de Almagro, que voltava do Chile. Acompanhava-o Paulo Inca, irmão de Manco, comandando um exército índio. Durante algum tempo pensou-se que Almagro e Paulo Inca tomariam o partido de Manco, e os pizarristas temeram. Porém posteriormente viu-se em Almagro a lealdade ao espanhol, e em Paulo a ambição de ser coroado inca.

Almagro, que dizia que Cuzco não pertencia a Pizarro, mas que era parte do novo governo criado pela coroa e entregue a ele se lançou sobre Cuzco, onde os únicos que lhe ofereceram resistência foram os Pizarro. Feitos prisioneiros estes, os demais espanhóis se juntaram sob o comando de Almagro e, coroando Paulo Inca como rei de Tahuantinsuyu, se dedicaram a fazer guerra a Manco Inca. Enquanto isso, se faziam gestões de paz com o chefe dos pizarristas, Francisco, que desde Lima exigia a liberdade de seus irmãos e a devolução de Cuzco. Porém não conseguiram fazer um acordo, e finalmente Almagro caiu prisioneiro de Francisco Pizarro que, esquecendo que este havia perdoado a vida de seus irmãos quando os teve prisioneiros, o fez justiçar.

Diante da insurreição de Manco Inca, Pizarro pediu reforços a outras colônias espanholas, e logo começaram a chegar do Panamá, México, Nicarágua e outras partes. Porém apesar disso, e de muitos índios e negros que o ajudavam, a sublevação continuou. Além disso, em lugares distintos, e ao que parece sem coordenar seus esforços com os de Manco Inca, outros índios se rebelaram também. Paulo Inca, a quem os pizarristas não reconheciam o título imperial dado pelos almagristas, lutava, sem dúvida, por sua parte, por temer a vingança de seu irmão. Houve batalhas nas quais as tropas de Manco derrotaram a exércitos espanhóis de quinhentos homens – número considerável nessa época no Novo Mundo – além de milhares de auxiliares índios e negros.

Francisco Pizarro não chegou a ver o país “pacificado”. Em meados de 1541, vários almagristas, cansado dos maus tratos que recebiam, assaltaram sua residência em Lima. Só os mais achegados servos do governador acudiram em sua defesa. Ferido mortalmente, conta-se que Pizarro pediu que trouxessem um confessor, e que seu pajem, que também morreu no encontro, lhe disse: “É no inferno que você merece ir confessar“.

O vice-reinado do Peru

Imagem relacionadaEm fins de 1542, Carlos V criou o vice-reinado do Peru, e nomeou para servir como vice-rei o cavalheiro abulense Blasco Núñez Vela, padrinho de Santa Tereza. A razão pela qual o rei deu esse passo foi que haviam chegado notícias dos desmandos cometidos no Peru por Pizarro e os seus. As notícias procedentes daquelas terras começaram a criar dúvidas e revoltas entre os teólogos, como veremos ao tratar de Francisco de Vitória. Em consequência de tudo isso, e em particular com as gestões de Bartolomeu de Las Casas, se decretaram as Novas Leis de Burgos, que proibiam os abusos dos encomendadores. Além disso, o rei queria assegurar-se de que não apareceria na América uma nova aristocracia feudal, como a que sua avó Isabe, a Católica, tinha tido que enfrentar na Espanha. Logo, Blasco Núñez Vela chegou ao Peru com a responsabilidade de por em ordem o governo espanhol, limitar o crescente poderio dos encomendadores, e por fim aos abusos contra os índios. Era uma difícil tarefa, pois quando tiveram conhecimento da missão do vice-rei os encomendadores se levantaram, e logo tiveram como chefe Gonzalo Pizarro, irmão do conquistador, que tinha-se assentado em um grande latifúndio vivendo do trabalho indígena. Diante de tais circunstâncias, Manco Inca, que ainda continuava sua resistência, se bem que agora reduzida a uma guerra de guerrilhas, fez-se aliado do vice-rei.

Em tais circunstâncias, a situação parecia desesperada para os encomendadores. Porém Manco Inca morreu assassinado por uns almagristas aos quais havia prestado refúgio, e pouco depois o vice-rei foi morto pelos encomendadores na batalha de Anaquito. Gonzalo Pizarro ficou então dono do Peru, com pouca resistência por parte dos nativos ou das autoridades espanholas.

Entretanto a coroa não podia permitir tamanha desobediência. E, posteriormente, Gonzalo Pizarro foi feito prisioneiro e decapitado, enquanto que seu irmão Hernando passaria vinte e um anos preso na Espanha.

O vice-reinado trouxe uma certa estabilidade ao Peru. Porém não demorou muito para que as Novas Leis fossem esquecidas, e os espanhóis continuaram explorando os índios pelo espaço de vários séculos.

A morte de Manco Inca não pôs fim à heroica resistência daquele povo. O filho de Manco Inca, Tupac Amaru, foi coroado pelos seus, e conseguiu certa medida de autonomia até que foi capturado e executado pelos espanhóis. Passado o tempo, um descendente seu, José Gabriel Condorcanqui, tomou a tocha da rebelião. Condorcanqui era um homem de refinada educação que ostentava o título espanhol de Marquês de Oropesa. Durante todo o ano de 1780, os índios se queixaram das crescentes taxas e impostos do governo espanhol. Em vários lugares houve levantes, que as autoridades conseguiam mais ou menos conter. Porém no dia 4 de novembro de 1780 Condorcanqui, tomando o nome de Tupac Amaru II se estabeleceu. Sua rebelião foi a mais difícil de apagar, pois soube atrair os mestiços, negros e os brancos pobres, que sentiam-se oprimidos pelos onerosos impostos, as meias, o serviço pessoal que os grandes terra-tenentes esperavam etc. Além do mais Tupac Amaru II insistia em que sua rebelião não era contra a religião católica, da qual se proclamava filho fiel, nem tão pouco contra os espanhóis pelo simples fato de serem espanhóis, mas contra as injustiças de alguns poucos espanhóis poderosos e corruptos. Por isso, foi necessário enviar de Buenos Aires um exército de 17.000 homens que por fim o bateu e o fêz prisioneiro. Levado diante do visitador José Antonio de Areche, um dos principais exploradores, se lhe perguntou quais eram seus cúmplices, e diz-se que sua resposta foi a seguinte: “Nós somos os únicos conspiradores. Vossa mercê, por ter afogado o país com taxações insuportáveis. E eu, por ter querido libertar o povo de semelhante tirania.”

Areche condenou Tupac Amaru à morte. Além disso, antes de ocorrer sua sentença, matou, em sua presença, sua esposa. Seu irmão, Diego Cristobal Tupac Amaru, continuou a rebelião até que ele mesmo também foi preso e enforcado.

A obra missionária

Como era de se esperar, devido a tais acontecimentos iniciais, a obra missionária no Peru não foi, a princípio, plena de êxito. A atuação de Valverde em Cajamarca indica o tom e caráter da maioria dos primeiros sacerdotes que visitaram o país. E até a própria coroa estava disposta a premiar tal conduta, pois Valverde foi feito o primeiro bispo de Cuzco. A atitude dos índios para tais bispos ficou manifesta quando os da Ilha de Puná puderam por as mãos no senhor bispo, em vingança pelos velhos crimes cometidos pelos conquistadores com sua anuência, o mataram e o comeram. Além do mais, não faltaram os curas que vieram para a América a fim de se tornarem ricos, como Hernando de Luque que custeou a empresa de Pizarro.

De igual modo que em outras regiões, o trabalho missionário caiu a cargo das quatro grandes ordens dos dominicanos (os primeiros a chegar), franciscanos, mercedários e jesuítas. Porém ainda essas ordens de estrita pobreza não estavam imunes das tentações produto da corrupção reinante. Dos mercedários se contava toda sorte de história de vícios, licenciosidade e roubos. Quando foi enviado um visitador para investigar a situação, este morreu misteriosamente em São Salvador, antes de chegar no Peru. Por longo tempo o alto clero se fêz cúmplice e se beneficiou da exploração de que eram objeto os indígenas. E também de nada adiantou o protesto quando se decidiu ter igrejas separadas, umas para os índios e outras para os brancos.

Em tais circunstâncias, não é de se estranhar que muitos índios se negassem a aceitar o cristianismo, e que até havia caciques que matavam aqueles entre seus súditos que se convertiam. A nova fé era símbolo da opressão e exploração do povo. Porém apesar disso, pouco a pouco, mal ou bem, todos os índios foram aceitando a fé dos vencedores. Missionários e “doutrinadores” (curas pagos pelos encomendadores para doutrinar seus índios) se ocuparam de que fossem entendendo a nova fé. E muitos se ocuparam também de que a entendessem de tal modo que se tornassem mais dóceis diante de seus senhores.

Turibius de Mongrovejo.jpgEm 1581 chegou a Lima, para tomar o cargo dessa arquidiocese, Toríbio Alfonso de Mogrovejo. Nessa época a arquidiocese era enorme, pois compreendia sob sua jurisdição metropolitana o que hoje é a Nicarágua, Panamá, parte da Colômbia, todo o Equador, Peru, Bolívia, Paraguai, Chile, e parte da Argentina. Vinha imbuído dos ditames renovadores do Concílio de Trento, de cujas seções tratamos no volume anterior.

Que sua atuação seria difícil pode ver-se pelo fato de que ao convocar um concílio provincial em Lima para julgar a atuação do bispo de Cuzco, de quem chegavam péssimas informações, o bispo de Tucumán tomou os documentos do processo e os queimou no forno de uma padaria. Entre tais pessoas, o novo arcebispo tratou de impor a disciplina tridentina, e o conseguiu pelo menos de certo modo. Graças a ele, aquele concílio proibiu o “comércio do clero”, e depois proibiu também aos sacerdotes que cobrassem pela administração dos sacramentos. Toríbio fêz também compor um catecismo que se publicou primeiro em espanhol, quichua e aymara, e depois em muitos outros idiomas índios. Este “Catecismo de São Toríbio” se utilizou em boa parte da América do Sul por mais de três séculos. Além do mais, determinou dom Toríbio que os sacerdotes permanecessem em cada paróquia pelo menos seis anos, e tinham também que aprender a língua de seus fiéis. E os encomendadores deviam respeitar as doze festividades católicas que os índios celebrariam, além dos domingos (os espanhóis tinham mais de trinta festas dessa natureza, porém se opunham a que os índios as celebrassem para não perderem seus trabalhos).

Os planos reformadores de dom Toríbio chocaram-se com os do vice-rei, que insistia nos direitos de Patronato Real que, como representante do rei, lhe correspondiam. Com firmeza e humildade o Arcebispo continuou sua obra reformadora. Em 1726, cento e vinte anos depois de sua morte foi declarado santo pela igreja católica.

A vida e obra de Santo Toríbio de Mogrovejo mostram o caráter da igreja que começava a tomar forma na região. Em luta constante com os elementos mais licenciosos, defendendo os índios e os pobres sem chegar a se opor à justiça fundamental do regime, tratando de aprofundar a fé dos nativos do país sem contar com recursos humanos adequados, o catolicismo latino americano ia se formando.

Resultado de imagem para Santa Rosa de LimaOs outros três grandes santos da igreja limenha mostram o tom desses catolicismo. Santa Rosa de Lima (1586-1617) foi membro da Terceira Ordem de São Domingo, isto é, permaneceu em sua casa e ali levou uma vida ascética. Seu ascetismo a levou ao mais alto grau de mortificação da carne, até o ponto de levar escondida sob seus cabelos uma coroa de cravos de prata que lhe dilaceravam a fronte. Igual a Santa Tereza, tinha desejado ser missionária, porém seu sexo a impedia. Portanto dedicou-se a vida de meditação, e teve experiências de bodas espirituais com Cristo e de êxtases. O seu era o mesmo ideal de Santa Teresa e de tantas “beatas” (esse era o nome oficial que lhes davam) que existiram na Espanha naquele século XVI.

Resultado de imagem para São Martin de PorresOutro santo limenho, São Martin de Porres, era mulato e, consequentemente, a ordem dos dominicanos não lhe permitiu passar do grau de “donado”, isto é, de servente de mosteiro. Porém logo chegou a ser um dos mais conhecidos residentes da prioría de Santo Rosário, em Lima, onde seu pai o colocou. Sua fama se deve a seu modo afável e serviçal. Apesar de ser dominicano, seu caráter era de franciscano. Visto que tinha sido barbeiro e aprendiz de farmacêutico antes de entrar no mosteiro, sabia de curas e de sangrias (naquele tempo eram os barbeiros os que se ocupavam com certos tipos de cirurgia), e, com isso e sua presença e cuidado aliviava aos enfermos, tanto humanos como animais. Logo teve todo um hospital no mosteiro, até que o obrigaram a transferir seus enfermos para uma outra parte, e os levou para a casa de sua irmã. Em seus momentos livres, ia pelos montes semeando figos e outras frutas, com a esperança de que um dia servissem de alimento a algum faminto. Porém o que surpreendia a todos era sua humildade, pois frequentemente se chamava a si mesmo de “cão mulato“. Foi essa humildade, além de muitos milagres que se lhe atribuem, que lhe valeu o título de santo, concedido pelo papa em 1888. Naturalmente, o que se destaca nele é a  verdadeira santidade que, no caso de uma pessoa “inferior” como um mulato, negro ou índio, consistia em estar disposto a aceitar o lugar que lhe correspondia na sociedade.

Resultado de imagem para São Franciscano SolanoO outro santo peruano, São Franciscano Solano (1549- 1610), mostra as tendências apocalípticas que tinham aqueles que buscavam ser fiéis cristãos no meio daquela sociedade corrompida e injusta. Francisco Solano era um homem calado que tinha servido de “doutrinador” na Argentina e Paraguai, e a quem todos conheciam pela sua amabilidade e seu bom humor. E, apesar disso, numa noite de dezembro de 1604 aquele espírito sossegado saiu correndo e clamando pelas ruas de Lima que Deus estava pronto para castigar aquela nova Nínive, e que se os limenhos não se arrependessem, nessa mesma noite a cidade seria tragada pela terra em meio de um grande terremoto. O impacto do novo Jonas foi grande, e as pessoas correram às igrejas, prometendo se corrigir em seus costumes.

Por terras de Collasuyu

Resultado de imagem para CollasuyoAté aqui temos nos ocupado principalmente daquelas porções do Tahuantinsuyu que hoje pertencem ao Peru e Equador, e temos dito pouco sobre a Bolívia e o Chile. Assim, mesmo que de forma ligeira, devemos destacar certos fatos da igreja nessas regiões, ocorridos naquela “era dos conquistadores”.

A queda de Cuzco nas mãos dos invasores europeus foi também a queda do planalto boliviano, apesar de que também por ali continuou a resistência por algum tempo. A primeira expedição espanhola à Bolívia foi a de Diego de Almagro, que em sua viagem para o Chile bordeou o lago Titicaca por terras que hoje são bolivianas. Pouco depois Gonzalo Pizarro dirigiu outra expedição, cujo resultado foi a fundação de Chuquisaca.

Porém a grande invasão espanhola da Bolívia teve lugar quando se descobriu que havia riquíssimas jazidas de prata na colina de Potosí. Os índios o sabiam, mesmo que não quisessem explorá-las. Mas, ao chegar ao conhecimento dos espanhóis, estes dispararam para a região, e por volta de 1573 Potosí era tão grande quanto Londres. Porém pelo próprio fato de suas grandes riquezas e pelo modo precipitado de seu crescimento, essa cidade era também o território mais corrompido e anárquico do continente. Logo se foram fundando outras cidades, a maior parte delas no caminho que deviam seguir as expedições que levavam à prata potosina.

Quanto à obra missionária, no Planalto, ela tomou a mesma forma que tomou no Peru. Logo, quase todos os índios estavam sob a encomenda de algum espanhol, e por esse meio, com base na lei do mais forte, pouco a pouco todos foram se tornando cristãos.

Nas regiões selvagens do que hoje é a Bolívia, sem embargo, seguiu-se uma ordem muito distinta do que ocorreu no Planalto. Ali foram os missionários, sobretudo os jesuítas, que serviram de vanguarda para a penetração europeia. Os índios mojos, por exemplo, não se deixavam ver pelos conquistadores, e foi só depois de árduos esforços que os jesuítas conseguiram estabelecer com eles contatos permanentes. Depois de viver com eles por vários anos, alguns dos índios aceitaram residir nos povoados, como os sacerdotes lhes sugeriam. E não foi senão longos anos mais tarde, em 1682, que por fim se começou a batizá-los em grande número. Muito parecida foi a história da obra entre os índios chiquitos, chamados assim, não por sua estatura, mas por serem pequenas as portas de suas choças. Em todo caso, pelas selvas amazônicas do oriente boliviano o trabalho evangelizador continuou por vários séculos, e houve vários mártires entre os missionários.

A conquista do Chile, na qual Almagro fracassou, foi empreendida depois de sua morte por Pedro de Valdivia, lugar-tenente de Pizarro. Em 1540, Valdivia marchou para o sul e fundou a cidade de Santiago. Ato contínuo, distribuiu as terras circunvizinhas, com seus índios, entre seus soldados, e se estabeleceu o mesmo sistema de exploração que temos visto nos outros lugares. Uns dez anos mais tarde, Valdivia cruzou o Bío-Bío, antiga fronteira do império inca, e fundou a cidade de Conceição. Porém os araucanos, sob o comando do famoso Caupolicán, lhe ofereceram forte resistência. O próprio Valdivia foi capturado e morto pelos nativos, e Caupolicán sofreu, depois, parecida sorte nas mãos dos espanhóis. Porém a insurreição continuou, pois os índios aprenderam as artes bélicas dos europeus, e não puderam ser dominados senão nos fins do século XIX. Portanto, do ponto de vista da “era dos conquistadores”, o Chile não se extendeu muito mais adiante do Bío-Bío e os arredores de Conceição.

Entre os primeiros conquistadores, houve sacerdotes muito parecidos com Vicente Valverde. De Juan Lobo se dizia que, em combate contra os índios, era como um lobo no meio de ovelhas. E vários outros pegaram também nas armas contra os índios. Quando finalmente chegaram os franciscanos e os dominicanos, em 1553 e 1557, respectivamente, a qualidade do clero, e sua atenção ao bem-estar dos índios, melhoraram notavelmente.

Entre aqueles primeiros dominicanos merece menção especial a figura esquecida do frei Gil González de San Nicolas, que foi um hábil e atrevido missionário entre os índios, e posteriormente chegou a conclusão de que a guerra que se lhes fazia era injusta. Atacar com o único propósito de conquistar pessoas que não tinham feito nenhum mal, dizia o clérigo, era pecado mortal, e portanto não deveria oferecer-se a consolação da penitência aos que dirigiam tais guerras e não se arrependessem disso. Logo as palavras do frei Gil fizeram eco entre os demais dominicanos e os franciscanos, e chegaram a negar a confissão aos que fomentavam guerras contra os índios. A situação era difícil para as autoridades, tanto civis como eclesiásticas, porque frei Gil e os seus tinham razão. Porém posteriormente, e depois de uma série de conflitos, se ateou fogo ao fogoso pregador mediante uma acusação de heresia porque tinha declarado que as futuras gerações espanholas sofreriam o castigo dos crimes que seus pais cometeram. Isto equivalia dizer que o pecado que se transmite de pais aos filhos não é só o original, mas também o atual, e tal opinião era herética. Com essa desculpa se lhe impôs silêncio, e no padre Gil González se afogou uma das vozes proféticas de sua época.

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