A era dos conquistadores (IX): a Flórida

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos conquistadores – Vol. 7. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 159 a 164.

“Não por serem franceses, mas por serem luteranos. Pedro Menéndez de Avilés. Não por serem espanhóis, mas por serem traidores, ladrões e assassinos.” (Dominique de Gouges)

Desde muito cedo os espanhóis souberam que existiam extensas terras ao norte. Em 1513 Juan Ponce de León, governador de Porto Rico, recebeu uma cédula real que o autorizava a descobrir e colonizar a ilha que os espanhóis chamavam “Bímini”, na qual se dizia que existia uma fonte maravilhosa cujas águas devolviam a juventude, ou pelo menos tinha surpreendente poder curativo. O resultado foi o descobrimento da Flórida, que recebeu esse nome porque os exploradores tomaram posse dela em nome do rei da Espanha na festa da Páscoa Flórida. Depois de navegar por ambas as costas da península, e ter alguns encontros violentos com os nativos, Ponce de León regressou a Porto Rico. Levava notícias de um poderoso cacique na costa ocidental da península (perto de onde hoje está a cidade de Tampa). Visto que os nativos falavam do cacicado de Calus, os espanhóis deram àquele cacique o nome de “Carlos”, por tal nome se conheceu-o desde então. Vários anos mais tarde, Ponce de León empreendeu uma segunda expedição com o propósito de conquistar aquela terra supostamente rica. Porém foi ferido pelos índios e morreu em Cuba em consequência disso.

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                 ergue em São João de Porto Rico

Em 1528 Pánfilo de Narváez, de quem já temos tratado ao falar de Cuba e do México, tentou conquistar o país. Sua expedição foi um fracasso no qual o próprio Narváez perdeu a vida. Oito anos mais tarde Alvar Núñez Cabeza de Vaca e outros três sobreviventes chegaram, cansados e maltrapilhos, aos territórios espanhóis do México.

Hernando de Soto explorou a região em 1539 e 1540, porém, não a colonizou. E a tentativa de Tristán de Luna em 1559 não durou mais do que dois anos.

O desafio francês

Foi a penetração francesa na região que obrigou os espanhóis a dar-lhe mais atenção. Enquanto não existia a ameaça francesa, as autoridades espanholas estavam mais interessadas no México e no Peru, de onde fluía mais ouro e prata. Porém a presença dos franceses poderia interromper as comunicações espanholas. E em todo caso todas essas terras supostamente pertenciam ao rei da Espanha por doação papal, e qualquer outro europeu era considerado um intruso.

Portrait of Pedro MenendezPara o cúmulo dos males desde o ponto de vista espanhol, os franceses que em 1562 se estabeleceram nas costas da Flórida sob o comando de Jean Ribaut eram quase todos huguenotes, isto é, calvinistas. Pouco tempo depois fundou-se outra colônia semelhante sob a direção de René de Laundoniere. Em resposta a tudo isso, a coroa espanhola comissionou a Pedro Menéndez de Avilés, que chegou a São Agostinho com uma forte esquadra e atacou aos franceses. Destes, os que não fugiram e foram depois mortos pelos índios, foram mortos pelos espanhóis, que degolaram cento e trinta e dois soldados. Somente perdoaram as mulheres e os meninos menores de quinze anos. Ribaut não foi capturado nesta ocasião, pois estava ausente. Porém quando naufragou e se rendeu aos espanhóis, estes o mataram, assim como aos seus setenta e tantos companheiros. Menéndez de Avilés fundou então a cidade de São Agostinho, que a partir daí seria o principal baluarte espanhol na Flórida.

Ribaut e os seus não ficaram sem vingança. O ousado francês Dominique de Gourges, que não era protestante porém amigo de Ribaut, preparou secretamente uma expedição que desembarcou na Flórida, no mesmo lugar da matança anterior, capturou um bom número de espanhóis, e os enforcou. Visto que Menéndez tinha dito que matava suas vítimas “não por serem franceses, mas por serem luteranos”, Gourges deixou junto aos mortos um cartão em que dizia que os tinha enforcado “não por serem espanhóis, mas por serem traidores, ladrões e assassinos”. Então, antes de que pudessem chegar reforços de São Agostinho, partiu para a França. Porém ainda ali o perseguiu a ira de Felipe II, que reclamava vingança contra ele, e teve então que passar escondido o restante de seus dias.

O empreendimento espanhol

Menéndez de Avilés e seus lugar-tenentes fundaram várias colônias na Flórida, porém nenhuma delas, exceto São Agostinho, conseguiu prosperar. O clima era inclemente, e os nativos eram grandemente hostis. O ouro era pouco, e também pouco foi o número dos espanhóis dispostos a partir para essas terras. De fato, enquanto rapidamente a coroa teve que regulamentar a emigração para o México e para o Peru, para Flórida não iam mais que militares e missionários. Logo, a suposta colonização da região nunca passou de uma série de postos militares, cuja função era assegurar-se de que não se estabeleceriam ali outros europeus.

Não é necessário relatar a história de todas aquelas missões, basta apontar o curso geral que seguiram. Os que mais de perto trabalharam com Menéndez de Avilés foram os jesuítas. Porém também houve missionários franciscanos e dominicanos. De modo geral, estes missionários se estabeleciam em algum lugar em que havia uma guarnição espanhola, e trabalhavam a partir desse centro. Porém o fato é que tanto os nativos como os espanhóis se mostravam receosos uns dos outros. Repetidamente se deram casos em que os espanhóis matavam os índios porque temiam que estes os atacassem de surpresa. E os próprios missionários tão pouco se confiavam eles, a quem viam como selvagens matreiros. O resultado foi que em quase todos os lugares se repetiu a mesma história. Algum cacique se mostrava amistoso, e os missionários esperavam sua pronta conversão. Porém alguém dizia ou suspeitava de que a suposta amizade do cacique não era mais que um subterfúgio, e que os índios pretendiam destruir os espanhóis. Aí então se matava o cacique, ou se cometia algum outro ato violento. Posteriormente, a missão fracassava, e em muitos casos a própria guarnição, rodeada de índios hostis, era obrigada a partir. Em toda essa história, não faltaram mártires entre os missionários, até o ponto em que os jesuítas decidiram abandonar a empresa e dedicar seus recursos humanos a campos mais prometedores.

Talvez o mais interessante projeto missionário desta época foi o colégio que Menéndez de Avilés se propôs fundar em Havana. O propósito daquele colégio seria educar nele os filhos dos caciques floridanos, e de outras terras, com a esperança de que aprendessem ali a fé cristã e mais tarde, casados com espanholas e de regresso a seus países, servissem para a conversão de seus povos. O que se esperava não era que aqueles filhos de cacique chegassem a ser sacerdotes, pois nessa época era proibido ordenar os índios. O que se esperava era que, visto que pertenciam às aristocracias locais, tais conversos tivessem muito peso em suas comunidades, e abrissem então o caminho para os missionários. Além do mais, dizia Menéndez, os discípulos de tal escola serviriam também como reféns que garantiriam a boa conduta de seus pais para com os espanhóis. Assim, naquele projeto, como em todos os que empreendia a Espanha, o propósito missionário ia unido ao interesse de conquista e colonização.

Da Flórida os espanhóis passaram para territórios mais ao norte, em parte porque temiam as incursões dos ingleses, que começavam a mostrar interesse nestas regiões, e em parte porque esperavam encontrar climas mais temperados e índios menos hostis. Assim se estabeleceram postos militares avançados e missões em Guale (hoje Geórgia), Santa Helena (Carolina do Sul) e Ajacán (Virgínia). Toda essa expansão tinha sua base de operações em Havana, de onde se mandavam pessoal e alimentos, pois os postos estabelecidos naqueles territórios inóspitos nunca conseguiram abastecer-se a si mesmos.

Em Ajacán ocorreu um trágico incidente que mostra as dificuldades do método missionário que Menéndez de Avilés se propunha seguir em seu colégio. Naquelas terras escreveram os jesuítas suas esperanças, pois foi oferecida a eles uma ajuda pelo irmão do cacique. Este jovem, que tomou o nome cristão de Luís, tinha sido arrancado de sua pátria pelos espanhóis, e de algum modo foi levado ao México. Ali se ofereceu para acompanhar e apoiar uma missão à sua nativa Ajacán porém, quando a expedição chegou na região não pode encontrar o povo de Luís, e a falta de alimentos a obrigou a partir para a Espanha. Quatro anos mais tarde Luís partia de Havana com uma missão jesuíta, composta por dois sacerdotes, três irmãos e quatro catequistas. Chegados a Ajacán, ficou claro que o verdadeiro propósito de Luís era simplesmente regressar aos seus, e tinha-se oferecido para o trabalho missionário porque sabia que era esse o único método que teria para poder voltar a ver sua pátria. Todo o contingente missionário foi morto pelos nativos, exceto o catequista Alonso Méndez, que conseguiu escapar e por quem se teve finalmente notícia desses fatos.

A colonização espanhola naquelas terras limitou-se às costas do Atlântico, exceto no caso da península floridana, em cuja costa ocidental os espanhóis fundaram a cidade de Pesacola, por temor aos franceses que tinham-se estabelecido em Luisiana. Os postos de Ajacán, Santa Helena e Guale tiveram que ser abandonados diante do avanço das colônias inglesas. Pouco a pouco, durante o século XVII!, os espanhóis foram tomando verdadeiramente posse do interior da Flórida. Porém em 1763 tiveram que ceder esses territórios aos ingleses em troca de Havana, que tinha sido tomada por eles. Vinte anos mais tarde a Flórida voltou para mãos espanholas, porém em 1819foi cedida formalmente aos Estados Unidos, que em todo caso havia já ocupado militarmente boa parte da região.

Da presença daquelas antigas missões no continente norte americano não restou mais que a lembrança, algumas ruínas, e os esquecidos ossos dos missionários que ofereceram ali suas vidas.

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