A era dos conquistadores (XIV): a cruz e a espada

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos conquistadores – Vol. 7. São Paulo: Vida Nova, 1995, pág. 210 a 214.

“O método original que empregaram Cristo e os apóstolos é sem dúvida digno de todo louvor. Porém, somente pode empregar-se onde o evangelho pode ser pregado de modo evangélico. Isto é possível nos países orientais mais adiantados, como a China, o Japão, a Arábia, a Índia e os demais. Porém, querer que se siga o mesmo caminho nas Índias Ocidentais é loucura.” (José de Acosta)

A história que acabamos de narrar [post anterior] é, ao mesmo tempo, impressionante e triste.

É impressionante, porque ninguém negará o valor e o arrojo daqueles homens de ferro, que se lançaram a conquistar vastos impérios com um punhado de soldados. É impressionante, porque em pouco menos de um século Espanha e Portugal tinham conquistado e colonizado territórios muitíssimo mais vastos que os seus, com populações muitíssimo mais numerosas. É inegável o valor de Cristóvão Colombo, que se aventurou por mares desconhecidos nos quais se supunha existirem monstros marinhos terríveis, e toda a sorte de perigos. Poucos têm tido tanta fibra como Cortês, que depois da noite triste continuou firme em seu empenho de conquistar um império. E poucos têm sido tão ousados como Pizarro, que em Cajamarca se atreveu apoderar-se de Atahualpa.

Imagem relacionadaPorém, ao mesmo tempo é uma história triste. Triste porque naquele encontro foram destruídas populações inteiras e ricas culturas. Triste, porque os que fizeram isso sequer se aperceberam do enorme crime que cometiam. E triste porque, sobretudo, isso foi feito em nome da cruz de Cristo.

A cristandade ocidental tinha tido outros encontros com povos diferentes dela. A invasão dos povos germânicos foi um desses encontros, as cruzadas foram outro. Porém nem em um caso nem em outro deram-se as circunstâncias que se conjugaram na era dos conquistadores. O que sucedeu nesse Século XVI foi que aquela cristandade ocidental, convencida de sua superioridade pela sua fé cristã, seus cavalos e suas armas de fogo, acreditou-se chamada a impor sua civilização pela força. E esse chamado, como tão freqüentemente sucede, serviu por vezes como desculpa para a mais grassa exploração.

Só no Oriente foi seguida uma política diferente. Ali ficou bem claro que as armas ocidentais não eram suficientes para conquistar aqueles países. Em consequência, o mito da superioridade ocidental não teve a força que teve na África e na América. É por isso que puderam aparecer ali missionários tais como Nobili e Ricci, que com todos os seus defeitos, pelo menos mostraram respeito pelas civilizações em que trabalhavam.

Porém, na África e na América o armamento, acavalaria e o uso do engano logo convenceram a espanhóis e portugueses de que sua civilização era verdadeiramente superior e que, consequentemente, tinham a missão de implantá-la nessas terras. Se, como consequência se tornavam ricos, se conquistavam impérios, se se apoderavam de centenas de escravos, isso não era mais que a bem merecida recompensa por sua obra civilizadora e evangelizadora.

Tudo isso, sem dúvida, não foi unicamente produto da era dos conquistadores. Desde muito antes se tinha preparado o caminho para semelhante interpretação dos acontecimentos. Quando no século quarto, começou a desenvolver-se a teologia oficial do império romano, que tendia excluir de sua proclamação cristã a necessidade de justiça nas estruturas sociais, e dava especial autoridade na igreja aos poderosos da ordem social, começou-se a preparar a tragédia da era dos conquistadores. De fato, estes não fizeram mais que aplicar à nova situação criada pelos descobrimentos o modo de entender a fé cristã, e a missão evangelizadora, que fora criado através dos séculos para o beneplácito dos poderosos. Com a finalidade de salvar as almas, diziam os jesuítas do Brasil, era bom que os portugueses infundissem terror aos índios. E os escravos africanos saíam ganhando com sua escravidão, diziam os negreiros, porque se lhes dava a oportunidade de tornarem-se cristãos e assim obter a salvação eterna. Cortez e Pizarro, ao mesmo tempo que sabiam ser pecadores avarentos, criam ser evangelistas escolhidos e enviados por Deus. Porém, o mal já fora semeado séculos antes, quando houve cristãos que não vacilaram em chamar a Constantino de “o bispo dos bispos”.

Contra tais atropelos, houve sinais de protesto tanto entre os colonizadores como entre os cristãos. Entre os primeiros já temos assinalado que o culto à virgem de Guadalupe é, de um certo modo, a vindicação do elemento nativo frente à hierarquia dos espanhóis. Nesse caso a longa hierarquia conseguiu assimilar o protesto, e fazê-lo parte de sua própria doutrina. Porém a santidade no Brasil, e a “sataria” dos descendentes dos escravos negros, permaneceram freqüentemente fora do alcance do poder hierárquico.

Outras vezes esse protesto foi mais sutil, e então é impossível conhecer o alcance que teve. Tal é o caso do sucedido numa igreja do Planalto da Bolívia, onde o sacerdote pediu a um escultor índio que lhe fizesse imagens que representassem São Pedro e São Paulo. Algum tempo depois o índio trouxe as duas esculturas pedidas, e o sacerdote pô-las na entrada da igreja. Grande foi seu regozijo ao ver que muitos dos índios vinham para venerar aquelas imagens. Porém passados muitos anos, foi descoberto que, num lugar afastado, os pedestais em que antes se apoiavam aquelas duas estátuas, não eram senão dois dos mais antigos ídolos dos nativos. Assim, sem que os missionários suspeitassem, continuou por muito tempo o protesto surdo daquelas culturas que pareciam esmagadas.

E houve também protestos por parte dos cristãos. Bartolomeu de las Casas e Antônio de Montesinos não foram senão os primeiros de uma longa série de defensores dos índios e dos africanos. Muitos deles tinham sido esquecidos nos anais de uma igreja dominada pelos poderosos. Porém os nomes e feitos cuja memória tem chegado até nossos dias dão testemunho de que, ainda em meio àqueles tempos violentos, nas selvas mais afastadas e nos lugares mais perigosos, houve os que souberam ver a distância entre o evangelho de Jesus Cristo e os conquistadores, entre o amor a Deus e o amor a Mamom.

Até os dias de hoje perdura esse conflito na igreja que se fundou naquela era dos conquistadores. Por ter chegado a estas plagas sob o signo da espada, certos elementos dentro dela creram-se na obrigação de continuar sob esse signo, e seguir acomodando o evangelho aos desejos e conveniências daqueles que detinham o poder. Porém, por ter nascido sob o signo da cruz, há nessa mesma igreja os que insistem na necessidade de colocar todas as estruturas do poder humano sob o juízo da cruz. A destruição da Armada Invencível, pelos ingleses e pelo clima, em 1598, marcou o fim da hegemonia espanhola sobre os mares. O poderio português tinha começado a decair alguns anos antes. Outras nações tomariam o lugar dessas potências e sob seus auspícios se fundariam outras igrejas em diversas partes do mundo. Porém elas também teriam de enfrentar a mesma alternativa. O último capítulo da era dos conquistadores ainda não está de todo escrito.

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