A era dos dogmas e das dúvidas (II): a guerra dos trinta anos

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos dogmas e das dúvidas – Vol. 8. São Paulo: Vida Nova, 1984 (1ª ed.), pág. 020 a 036.

“Onde, ai, onde teremos liberdade de nos apresentarmos em público diante do Senhor em sua própria casa, sem que nossas vidas corram perigo por isto?” (Sermão protestante de 1638)

A última vez que nos ocupamos da história religiosa da Alemanha, no volume seis desta série, Carlos V  havia renunciado a dignidade imperial e seus dois sucessores imediatos, Fernando I e Maximiliano II, haviam seguido uma política relativamente tolerante com relação aos protestantes. Entretanto, a Paz de Augsburgo, que pôs fim às contendas religiosas que sacudiram a Alemanha no século XVI, não podia durar. O que nela se estimulava era que cada príncipe ou senhor, fosse católico ou luterano, teria direito de praticar sua própria religião e que os seus súditos que não se encontravam à vontade por questões de consciência poderiam mudar para outro senhorio que fosse mais do seu agrado. Mas, aquele acordo tinha, todavia, sérias deficiências. Em primeiro lugar, não se reconhecia nele senão aos luteranos e todos os demais protestantes, entre eles os calvinistas, seriam considerados hereges. Em segundo lugar, a liberdade dos cultos se limitava aos senhores e o povo não tinha outro direito que o de emigrar. Por último, como parte daquele tratado, promulgou-se a “reserva eclesiástica”, segundo a qual os territórios que estavam sob o senhorio eclesiástico continuariam católicos até que seu bispo se fizesse protestante.

Prepara-se a tormenta

Em 1576, Rodolfo II sucedeu a Maximiliano II no trono Imperial. Com ele anunciava-se uma mudança de política pois, conquanto Maximiliano tinha sido tolerante até ao ponto de ser visto como herege por ambos os lados, o novo imperador parecia ser joguete dos jesuítas, que o tinham educado na Espanha. Contudo, Rodolfo era também um personagem fraco e indeciso e, por ele, durante os primeiros anos de seu reinado, o protestantismo continuou estendendo-se, apesar da oposição do Imperador.

Os primeiros conflitos que posteriormente levaram à guerra tiveram lugar em Donauwörth. Era esta uma cidade imperial, que, como tal, contava com certas leis e privilégios e, entre eles, o de decidir acerca de sua própria religião e que havia optado pelo luteranismo vários anos antes. Seguindo a prática comumente aceita a partir de então, só se aceitavam protestantes como cidadãos. O resultado foi que, praticamente toda a população era protestante, com a notável exceção de uns monges, a quem se permitia o livre exercício de sua religião, desde que não molestassem aos cidadãos com procedimentos ou outras mostras externas de sua fé.

Em 1606, por razões que não estão de todo claras, mas, quem sabe, animados por profunda convicção católica do Imperador e seus conselheiros, os monges de Donauwörth saíram em procissão. O povo os recebeu a pauladas, e os obrigou a se retirarem novamente ao seu mosteiro. Tais encontros eram frequentes no Império e, até então, não havia tido maiores consequências, mas agora o partido católico acreditava-se disposto para tomar medidas mais fortes.

Pouco mais de um ano depois do incidente que acabamos de narrar, o duque Maximiliano de Baviera apresentou-se diante da cidade com forte exército. Maximiliano era um católico convencido, cria que a heresia protestante devia extirpar-se a sangue e fogo. Armado de um edito imperial que o autorizava, instalou-se em Donauwörth e começou a obrigar seus habitantes a serem católicos.

A reação não se fez esperar. No princípio de 1608, os protestantes organizaram a União Evangélica com o propósito de defender-se frente aos católicos. Estes responderam no ano seguinte fundando a Liga Católica. Desse modo, o Império Alemão parecia ficar dividido em dois lados. Mas, era certo que a Liga Católica era muito mais forte que a União Evangélica. Muitos príncipes e cidades protestantes negaram-se a tomar parte da União, uns por temor à represália e outros por diferenças teológicas e políticas. A Liga contava, por sua vez, com a hábil direção de Maximiliano de Baviera, que conseguiu convencer a vários senhores e bispos da necessidade de prover fundos para sustentar um exército. Logo, chegado o momento do conflito armado, não restava dúvida que as tropas católicas sairiam vencedoras.

A defenestração de Praga

Enquanto tudo isto acontecia na Alemanha, na vizinha Boêmia estavam tendo lugar acontecimentos não menos notáveis. Por algum tempo, o Reino da Boêmia, ao qual pertenciam as províncias da Boêmia, Morávia e Silésia, havia sido parte integrante do império. De fato, os últimos imperadores da Casa de Áustria haviam residido em Praga, capital do País. Mas, devido em parte a herança dos husitas [ou hussitas], e em parte a uma forte emigração de luteranos alemães, a Boêmia era na maioria protestante. Só entre a alta nobreza ficaram fortes núcleos de católicos. Quando o Imperador Rodolfo enviou seu irmão Matias para exterminar os protestantes da Hungria e fracassou, os boêmios seguiam de perto o que estava acontecendo no país vizinho. Matias firmou a paz com os protestantes rebeldes na Hungria, mas Rodolfo negou-se a confirmá-la, pois não queria fazer pacto algum com os hereges. Matias então rebelou-se contra seu irmão e prontamente contou com o apoio da Morávia. Para não perder a Boêmia, Rodolfo viu-se obrigado a firmar o documento chamado Majestat, que concedia aos protestantes boêmios toda sorte de garantias. Quando, pouco depois, o Imperador tratou de invalidar a Majestat e vingar-se de seu irmão, o resultado foi que perdeu a disputa e viu-se obrigado a abdicar.

Matias, agora coroado imperador, decidiu mudar sua capital para Viena, em seus estados hereditários da Áustria. Aparentemente, uma de suas razões foi que não confiava nos boêmios, mas, em todo caso, sua decisão aumentou os temores que estes abrigavam. Era a época em que a União Evangélica e a Liga Católica organizavam suas forças na Alemanha e os boêmios suspeitavam que logo se desencadearia uma reação católica, apoiada pelo Imperador. Em 1617, este fez nomear rei da Boêmia a seu sobrinho Fernando de Estiria, católico convencido que havia sido educado pelos jesuítas e acreditava que a sua missão era acabar com o protestantismo. Logo, as autoridades imperiais e reais começaram a violar as estipulações da Majestat. Entre os boêmios comentava-se de rebelarem-se contra o Imperador e seu sobrinho o Rei. Quando em uma reunião em Praga, o Conselho Real, negou-se a dar ouvidos aos reparos dos protestantes, estes se exaltaram e jogaram pela janela a dois dos principais católicos, o que não resultou em ferimentos porque caíram sobre um montão de lixo. Esse episódio, que se conhece como a “Defenestração de Praga“, marcou o começo da Guerra dos Trinta Anos, provavelmente a mais cruel e desastrosa que a Europa conheceu antes do século vinte.

A Guerra na Boêmia

Resultado de imagem para federico v del palatinadoOs rebeldes boêmios escolheram, então, para rei o eleitor do Palatinado, Federico V. As razões de sua eleição foram várias, mas uma das mais importantes foi que este príncipe parecia contar com o apoio de fortes aliados protestantes. Sua esposa era filha de Jaime I, da Inglaterra (Jaime VI da Escócia), e o próprio Federico era, além do mais, um dos chefes da União Evangélica. Nomeando-o rei, os boêmios esperavam poder contar com o apoio dos ingleses e da União. Ademais, a Silésia uniu-se à rebelião da Boêmia e, algum tempo depois, a Morávia a seguiu.

Entretanto, Matias havia morrido, e seu sobrinho Fernando II o sucedeu no trono imperial. A situação do novo imperador parecia irremediável. A Boêmia tinha-se declarado em rebelião aberta e contava com o apoio da União Evangélica e da Inglaterra. Os poderosos vizinhos escandinavos, Dinamarca e Suécia, ameaçavam em intervir na disputa. E Fernando não contava com um exército capaz de opor-se a tal aliança.

Nessas circunstâncias, não houve outro remédio ao Imperador do que recorrer aos recursos da Liga Católica e de seu chefe Maximiliano de Baviera, que tinha sido seu companheiro de juventude. Maximiliano juntou todos seus recursos na aventura desesperada de invadir a Boêmia. Posto que seus fundos eram escassos, não poderia manter seus exércitos ali por longo tempo e os boêmios poderiam ter vencido, apenas esperando alguns meses até que chegasse o inverno. Mas Praga via-se ameaçada e os rebeldes se dedicaram à batalha com resultados desastrosos. Seu exército foi destruído e Federico teve de fugir. Prontamente os rebeldes se renderam e Fernando foi restaurado ao trono que, antes, o haviam negado. Ninguém socorreu o deposto e fugitivo Federico. Pouco antes, no verão daquele mesmo ano de 1620, um exército espanhol tinha se apresentado na Alemanha para defender os interesses de Fernando II e da Casa de Áustria (que também reinava na Espanha). Jaime da Inglaterra estava demasiadamente envolvido em negociações com os espanhóis para intervir a favor de seu desafortunado genro. Por fim, a União Evangélica dissolveu-se, e, tanto Federico como os boêmios, ficaram abandonados à sua própria sorte. O Imperador fez com que os nobres declarassem a Federico deposto como eleito do Palatinado e que conferissem esta dignidade a Maximiliano de Baviera, como prêmio por sua intervenção nos assuntos da Boêmia.

Tanto na Boêmia como no Palatinado, as consequências não se fizeram esperar. Na Boêmia, os principais chefes protestantes foram executados. A muitos outros, privaram-lhes de suas propriedades. Decretaram-se leis proibindo hospedar ou ajudar de qualquer modo os pastores luteranos e hussitas. Cada vez, eram mais os que sofriam por sua fé. Por último, determinou-se que, para a Páscoa da Ressurreição de 1626, quem não estivesse disposto a fazer-se católico, teria que abandonar o país. O resultado de tudo isto foi tal que se calcula que, nos trinta anos que durou a guerra, a população da Boêmia diminuiu em oitenta por cento.

Também no Palatinado, que era na maioria calvinista, Maximiliano de Baviera e os jesuítas seguiram uma política semelhante e logo havia multidões de exilados vagando por outras partes da Alemanha.

A Intervenção Dinamarquesa

Os triunfos das armas católicas causaram consternação entre as potências protestantes. Além disto, não se tratava unicamente de uma questão de religião senão também de política dinástica. A Casa de Áustria, que reinava na Espanha e à qual tinham pertencido por várias gerações os imperadores da Alemanha, estava voltando demasiadamente forte. Portanto, no fim de 1625, Inglaterra, Holanda e Dinamarca uniram-se em uma Liga Protestante, cujo propósito era invadir o Império e restaurar ao deposto eleito do Palatinado, Federico. Para isso, contavam com o apoio de vários príncipes protestantes alemães e até com a simpatia de alguns católicos que temiam que o crescente poder da Áustria os abandonasse, como havia feito com Federico.

Por seu lado, Fernando II procurava um modo de ser independente da Liga Católica e de Maximiliano de Baviera. De fato, vitórias obtidas na Boêmia eram da Liga e de Maximiliano, e não do Imperador. Por isso, este último apelou a Alberto de Wallenstein, que havia se enriquecido comprando a baixíssimo preço as propriedades confiscadas dos protestantes da Boêmia e se mostrava partidário decidido dos da Áustria. Em parte, com seus próprios fundos e em parte com os do Imperador Wallenstein, juntou um exército cujo propósito era servir aos interesses da Casa de Áustria.

Resultado de imagem para Cristiano IV da DinamarcaLogo, quando Cristiano IV da Dinamarca invadiu os territórios imperiais, eram dois os exércitos que se opunham; o da Liga e o de Wallenstein.

A guerra teve então seus altos e baixos e houve até um momento em que parecia que o exército da Liga Católica, sob o comando do General Tilly, se dissolveria. Mas, Wallenstein conseguiu algumas vitórias e os dinamarqueses se viram forçados a diminuir sua pressão sobre Tilly a fim de enfrentarem a Wallenstein. O exército de Tilly aproveitou a oportunidade para refazer-se. Por fim, na batalha de Lutter, Cristiano IV e seus aliados alemães foram derrotados.

Enquanto Tilly, segundo as instruções de Maximiliano de Baviera, ocupava boa parte dos territórios protestantes do norte da Alemanha, Wallenstein preparava-se para invadir as possessões de Cristiano IV e levar a guerra para a Dinamarca. Mas, nisto Wallenstein fracassou terminantemente. Seus esforços por apoderar-se das costas do Báltico não tiveram bom êxito. Os recursos escasseavam e a Suécia se opunha aos desígnios de Wallenstein. Por fim, Fernando II e Cristiano IV fizeram as pazes mediante o Tratado de Lübeck. Segundo esse acordo, firmado em 1629, o Rei da Dinamarca se retiraria da contenda e seus territórios lhe seriam devolvidos. Em conseqüência, tudo o que se havia conseguido era banhar em sangue, uma vez mais, o norte da Alemanha e deixar a população debaixo de uma miséria espantosa. Como antes na Boêmia e no Palatinado, agora em zonas mais extensas seguiu-se a política de conversões forçadas ao catolicismo, inspirada principalmente por Maximiliano de Baviera.

A Intervenção Sueca

Resultado de imagem para Gustavo AdolfoEm 1611, quando estava com dezessete anos de idade, Gustavo Adolfo herdou o trono sueco. Tratava-se, na verdade, de uma pobre herança, pois o país se achava dividido em numerosas facções e os dinamarqueses ocupavam boa parte do território nacional. Mas o jovem rei soube governar e, pouco a pouco, foi unificando o país e retirando o invasor, até que conseguiu estabelecer sua autoridade sobre boa parte do Báltico. Entretanto, enquanto tomava as rédeas do poder em seu próprio país, Gustavo Adolfo nunca perdeu de vista o conflito que estava tendo lugar na vizinha Alemanha. O crescente poderio da Casa de Áustria o preocupava, pois temia que, se o Imperador e seus aliados não encontrassem quem pusesse termo às suas ambições, logo tratariam de se apoderarem do Báltico às custas da Suécia. Ademais, Gustavo Adolfo era luterano convencido e sofria profundamente com as atrocidades que se cometiam contra os protestantes na Alemanha e na Boêmia e, do modo com que os príncipes alemães punham seus interesses pessoais acima da unidade, necessária para a oposição dos desígnios do Imperador e da Liga Católica.

Entretanto, Fernando II, zeloso dos triunfos e da fama de Wallenstein e confiante de poder segurar o que havia conquistado, despediu o aventureiro que havia organizado seu exército. Portanto, quando em 1630, Gustavo Adolfo invadiu os territórios imperiais, Fernando viu-se obrigado a recorrer uma vez mais ao exército da Liga Católica, debaixo do comando do General Tilly.

A habilidade militar do Rei da Suécia era tal que, em gerações posteriores, Napoleão diria que foi um dos maiores generais de toda a história. Mas, a princípio, sua campanha foi difícil. Os príncipes protestantes não se decidiam a prestar apoio, porque suspeitavam das intenções do invasor estrangeiro e temiam as represálias do Imperador. Por vários meses, o exército sueco marchou lentamente, estabelecendo sua autoridade no norte da Alemanha. Em suas conquistas, a conduta daquele exército foi exemplar, pois se abstinha por completo dos roubos e violência que, normalmente cometia a soldadesca de qualquer facção. Nas cidades conquistadas, tratavam os habitantes com respeito e moderação. Ainda que o Rei e seus soldados fossem protestantes, não pretendiam impor sua fé sobre os católicos, mas somente voltar a estabelecer o equilíbrio que havia existido antes de começar a guerra. Portanto, pouco a pouco, Gustavo Adolfo foi se convertendo em um herói legendário. Quando a França lhe ofereceu ajuda financeira em sua campanha contra os da Áustria, aceitou-a unicamente com a condição de que ficaria bem claro que não se tratava de dividir a Alemanha e que nem sequer uma aldeia alemã passaria para a jurisdição francesa. Os príncipes protestantes da Saxônia e Brandeburgo que preferiram não participar na contenda, sentiram-se, por fim, obrigados a apoiarem os suecos.

Apressadamente, Fernando II recorreu de novo a Tilly e aos exércitos da Liga Católica. Estes sitiaram Magdeburgo com a esperança de que Gustavo Adolfo acudiria em auxílio da praça sitiada onde suas tropas cairiam entre dois fogos. Quando o sueco seguiu sua marcha sem auxiliar a Magdeburgo, Tilly e os seus tomaram a cidade e produziram nela uma horrenda carnificina. O contraste entre tal conduta e as tropas suecas era notável e fez com que muitos se inclinassem a seguir o invasor estrangeiro, que se mostrava menos disposto a destruir vidas alemãs que os próprios naturais do país.

Tilly viu-se, então, obrigado a entrar em batalha e foi decididamente derrotado nos campos de Leipzig. Aproveitando a vantagem assim obtida, Gustavo Adolfo enviou seus aliados saxônios para invadir a Boêmia, enquanto ele penetrava rumo ao sul da Alemanha. Em Würzburg, derrotou novamente a Tilly e, novamente, junto às águas do rio Lech. Esta última vitória lhe abriu o caminho para a conquista de todo o território da Baviera, o principal membro da Liga Católica. Logo vieram chefes católicos e se achegaram ao Rei sueco para negociar a paz. Gustavo Adolfo lhes ofereceu termos magnânimos. Exigia somente que houvesse tolerância tanto para os católicos como para os protestantes, que se devolvessem seus antigos direitos ao reino da Boêmia, que Federico recebesse de novo seus territórios do Palatinado e que se expulsassem os jesuítas do Império.

Entretanto, o Imperador Fernando II recorreu a Wallenstein pedindo-lhe que se levantasse um novo exército e que se pusesse ao comando de tropas imperiais. O famoso militar não consentiu sem antes arrancar de Fernando tantos direitos e privilégios que praticamente era ele o verdadeiro imperador. Quando, por fim, saiu ao campo de batalha, Wallenstein atacou primeiro os saxônios que haviam se localizado em Praga e os obrigou a retirarem-se. Quando o pouco que ficou se uniu ao exército da Liga, marchou por fim contra Gustavo Adolfo. Mas as crueldades cometidas por suas tropas na marcha foram tais que por todas as partes se aclamava o sueco como um verdadeiro libertador.

Por último, os dois exércitos se encontraram nos campos de Lützen. A batalha foi sangrenta e, no meio dela, Gustavo Adolfo caiu ferido mortalmente. Mas, os suecos não se acovardaram por isso, porém, ao saber que o corpo do seu soberano havia sido ultrajado pelo inimigo, se jogaram sobre ele com tal redobrado ímpeto, que o exército de Wallenstein foi destroçado.

Seguiu-se, então, um grande período de indecisão. Wallenstein retirou-se para a Boêmia com o resto de sua tropa. O Chanceler Oxel Oxenstierna, a quem o governo sueco nomeou representante da coroa, desejava a paz, que pode ser conseguida à base dos termos antes oferecidos por Gustavo Adolfo. Mas os militares suecos que tinham se acostumado a viver da guerra, não queriam que terminasse. A eles juntaram-se vários nobres alemães, que esperavam dominar os territórios à base da guerra e a quem, portanto, os termos oferecidos pelo falecido rei não favoreciam. Durante vários meses, enquanto Oxenstierna se ocupava das negociações, a guerra limitou-se a rixas, marchas e contramarchas, Mas sempre resultava claramente que a vitória era dos suecos e de seus aliados protestantes. O pouco que sobrava dos exércitos e da Liga Católica sofria repetidas derrotas.

O único recurso que restou então ao Imperador era o remanescente do exército de Wallenstein. Mas este não se mostrava disposto a empreender uma grande campanha e limitava-se a pequenas excursões na Boêmia e Silésia. Pouco a pouco a corte imperial foi se prevenindo de que Wallenstein não tinha razão alguma para defender sua causa. Por que jogar-se de novo ao campo de batalha para defender a Casa de Áustria, que antes o havia despedido ingratamente, para salvar os territórios de seu rival, Maximiliano de Baviera? Que importava a ele a causa católica, quando ficava claro que muitos alemães o odiavam, que estavam cansados da guerra e que seguiriam a quem fizesse a paz?

De fato, se Wallenstein não deixava a Boêmia era porque estava negociando secretamente com os suecos, os franceses e os protestantes alemães. A todos estava disposto a conceder-lhes o que pediam, às custas do Império de Maximiliano de Baviera. Os suecos seriam indenizados com territórios na costa do Báltico. Aos franceses seriam concedidas as praças alemãs na margem esquerda do Rio. E aos nobres alemães que exigiam territórios se lhes dariam os de Maximiliano e outros de seus amigos. Mas tudo isto devia acontecer logo, pois aproximava-se um exército espanhol que novamente daria certa posição de guerra para a Casa de Áustria.

Wallenstein não pôde fazer tais negociações sem que chegassem rumores na corte imperial em Viena. O resultado foi que ele e vários de seus principais subalternos foram assassinados, embora não esteja claro que foi o próprio Imperador quem deu a ordem homicida.

Os representantes do Imperador tomaram a direção do exército de Wallenstein e, apoiados por tropas espanholas, conseguiram várias vitórias importantes. Durante quase quatro anos parecia que o partido do Imperador saía vencedor e, portanto, a aliança formada por Gustavo Adolfo começava a desaparecer.

Em tais circunstâncias, Oxenstierna, não teve outro remédio senão recorrer aos franceses, que, a partir daí, intervieram mais ativamente na contenda. Além disto, os suecos fizeram as pazes com a Polônia, com quem tinham estado em guerra por algum tempo e, desse modo, tiveram mais recursos para aplicar na guerra na Alemanha. Entretanto, quando os franceses e os suecos pareciam estar a ponto de esmagar o partido do Imperador, a Dinamarca interveio atacando a Suécia e a luta prolongou-se.

Estes últimos anos da guerra foram os mais confusos. A maior parte dos contendores havia esquecido as causas originais do conflito e, cada qual, pelejava por seus próprios interesses. E, por isso, ainda que a princípio o partido imperial lutasse para exterminar o protestantismo e seus opositores e para protegê-lo, por último, os dinamarqueses, que eram luteranos, foram em auxílio do Imperador, enquanto a França, cujo primeiro ministro era nada menos que cardeal da igreja romana, aliava-se aos suecos para derrotar a Casa de Áustria.

Porém, o mais trágico foi a destruição de vidas e fazendas que aconteceu naqueles trinta anos de guerra. O único exército que respeitou os princípios da misericórdia e da igualdade foi o de Gustavo Adolfo e isto somente quando o Rei era vivo. Os outros viviam de violência e seu principal passatempo era ultrajar, não só vencidos, mas também os habitantes das comarcas por onde passavam. Em trinta anos de marchas e contramarchas, dificilmente ficou algum canto da Alemanha que não tenha sido assolado várias vezes.

A Paz de Westfalia

Resultado de imagem para paz de westfáliaPor fim, até os mais sanguinários estavam cansados da guerra e sua destruição. Fernando II tinha morrido em 1637 e seu filho e sucessor Fernando III, ainda que fiel católico, não participava do espírito de intolerância do seu pai. Os alemães viam seu país invadido por tropas estrangeiras, tanto a favor de um grupo como de outro. Os suecos haviam sustentado um exército no campo de batalha por longo tempo. A França sabia que o momento era propício para obter as melhores concessões. Portanto, após longas e complicadas negociações, chega-se à Paz de Westfalia, que se firmou em 1648, pondo fim à Guerra dos Trinta Anos.

Os principais vencedores, resultaram em Suécia e França, pois a primeira recebeu amplos territórios na costa do Báltico e do Mar do Norte, e a segunda estendeu suas fronteiras até o Rin. Posto que assim convinha tanto à França como à Suécia, os diversos príncipes alemães receberam maiores poderes da autoridade imperial. Em consequência, quem perdeu a guerra foi o imperador, cujo poder sobre seu suposto império ficou grandemente reduzido.

Sobre a questão religiosa decidiu-se que cada qual poderia seguir sua própria religião, sempre que esta fosse a católica, a luterana ou a reformada e que esta liberdade se estenderia, não somente aos príncipes, mas também a seus súditos. Após uma série de negociações, chegou-se à decisão de que cada edifício ou instituição religiosa seria da confissão a quem houvera pertencido em 1624. Ainda foi concedida uma anistia total (exceto nos territórios hereditários dos da Áustria) a qualquer que, no curso da guerra, tenha se rebelado contra seus senhores.

Esses foram os resultados daquela cruenta guerra que durou trinta anos. Mas houve também outros resultados, que apesar de não aparecerem nos tratados de paz, não eram menos certos. Os princípios de tolerância a que chegou a Paz de Westfalia não provinham tanto de uma melhor compreensão da caridade cristã, como de uma crescente indiferença diante de questões confessionais. A guerra havia dado mostras mais do que suficientes dos horrores que podiam acontecer quando se tentava determinar questões religiosas mediante o poder armado. O que se havia conseguido na última? Nada. Por que então não deixar as questões teológicas aos teólogos e resolver as políticas à base dos interesses de cada príncipe ou cada Estado?

De tal atitude, passou-se logo para a dúvida acerca do que os teólogos afirmavam. Que garantias tinham os teólogos das diversas confissões ao afirmar esta ou outra doutrina? Quão certa podia ser uma doutrina qualquer, capaz de produzir os atropelos recentemente vistos? Não haveria um modo mais tolerante, mais profundo e até mais cristão de servir a Deus, do que desejar-se levar pelo fanatismo de uma ou outra ortodoxia?

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