A era dos dogmas e das dúvidas (X): a opção pietista

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos dogmas e das dúvidas – Vol. 8. São Paulo: Vida Nova, 1984 (1ª ed.), pág. 156 a 186.

O mais notável movimento de protesto contra o tom de fria intelectualidade que parecia dominar a vida religiosa, foi o pietismo. Este, por sua vez, se opôs ao dogmatismo que reinava entre teólogos e pregadores e ao racionalismo dos filósofos. Ambos lhe pareciam contrastar com a fé viva que é a essência do cristianismo.

Mas, antes de prosseguir, convém que nos detenhamos para esclarecer o que quer dizer “pietismo”. Como tem acontecido em tantos outros casos, este foi um emblema que seus inimigos colocaram ao movimento, cujos líderes não se davam tal nome. Logo, a palavra “pietismo” frequentemente teve conotações negativas de beatice. Como veremos no presente capítulo, os Iíderes deste movimento ainda que se preocupassem pela santidade de vida e pelos exercícios religiosos, estavam longe de serem santarrões: de rostos pálidos e expressões amargas. Ao contrário, parte do que lhes preocupava era que a fé cristã parecia haver perdido algo de seu gozo, que era necessário redescobrir.

Por outro lado, o termo “pietismo” às vezes se utilizava para referir-se unicamente ao movimento que teve lugar na Alemanha, entre luteranos, sob direção de pessoas tais como Spener e Francke. Mas aqui incluiremos sob esse título outros movimentos de semelhante inspiração, dirigidos por Zinzendorf e Wesley.

O pietismo luterano: Spener e Francke

Ainda que muitos dos elementos que, depois, receberam o nome de “pietismo”, circulavam na Alemanha muito antes, deu-se o nome de “o pai do pietismo” a Felipe Jacó Spener (1635-1705). Este nasceu na Alsácia, em territórios que hoje são franceses, mas faziam parte da Alemanha. Ali, criou-se entre aristocratas de profunda convicção luterana. Entre os livros que leu quando jovem, havia vários que insistiam na necessidade de uma fé pessoal, acima da crença na reta doutrina. Além do mais, nos círculos em que andava condenavam-se as diversões frívolas e a falta de seriedade. Aos dezesseis anos de idade começou seus estudos teológicos, primeiro na vizinha Estrasburgo, depois em Basiléia e em Genebra. Nesta última cidade conheceu o francês Jean de Labadie, que era um dos principais críticos da frieza intelectual e dogmática em que havia caído o protestantismo. Quando, após estudar em vários outros centros, recebeu o título de doutor, Spener estava pronto para dedicar-se ao pastorado e, em 1666, foi chamado ao púlpito de Frankfurt. Ali fundou em 1670 seus “colégios de piedade”, que eram grupos dedicados à devoção e ao estudo cuidadoso da Bíblia. Cinco anos mais tarde, publicou sua obra Pia Desideria – desejos piedosos – que logo se tornou a carta fundamental do pietismo.

Para quem não conhece o espírito da época, o que Spener propunha naquela breve obra, poderá parecer questão de sentido comum. Sem dúvida, os “desejos piedosos” do pastor de Frankfurt logo lhe provocaram amargos ataques.

O que Spener desejava era um despertar na fé de cada cristão. Para isso apelava à doutrina luterana do sacerdócio universal dos crentes e sugeria que se desse menor ênfase nas diferenças entre leigos e clérigos, e maior na responsabilidade de todos os cristãos. Isto, por sua vez, queria dizer que devia haver mais vida devocional, mais estudo bíblico por parte dos leigos, como já estava acontecendo nos “colégios de piedade”. Quanto aos pastores e teólogos, o primeiro que se devia fazer era assegurar-se de que os candidatos a tais posições eram “verdadeiros cristãos” de fé profunda e pessoal. Mas, além disso, Spener convidava os pregadores a deixarem seu tom acadêmico e polêmico, pois o propósito da pregação não era mostrar a sabedoria do pregador, mas chamar todos os fiéis à obediência à Palavra de Deus.

Em tudo isto, não havia ataque algum à doutrina da igreja, para a qual Spener mostrava grande respeito e afirmava estar de acordo. Mas havia um intento de colocar essa doutrina em seu justo lugar, de tal modo que não viesse a ser o centro da fé. O propósito do dogma não é servir de substituto para a fé viva e pessoal. É certo que o erro em questões de dogmas pode ter funestas consequências para a vida cristã, mas certo também é que quem fica no dogma não tem penetrado ao centro do cristianismo e confunde o invólucro com a substância.

O que Spener propunha era nada menos que uma nova reforma, ou ao menos que se completasse a que havia começado no século XVI e havia ficado interrompida em meio às lutas doutrinárias. Logo, alguns dentre seus seguidores começaram a ver nele um novo Lutero. De todas as partes da Alemanha chegavam cartas agradecendo sua inspiração e solicitando seus conselhos.

Os líderes da ortodoxia luterana não viam com bons olhos o movimento que Spener encabeçava. Este parecia prestar pouca atenção às questões que haviam custado tantas disputas. As doutrinas luteranas e os grandes documentos confessionais lhe pareciam úteis como modo de resumir os ensinos bíblicos; e o mesmo se dava com respeito aos escritos de Lutero, a quem Spener citava frequentemente. Porém, nada disso podia pôr-se ao nível das Escrituras. Ainda mais, estas não deviam ser lidas com a atitude fria e objetiva de quem lê um documento jurídico, mas era preciso lê-Ias com fé pessoa e sob a direção do Espírito Santo. Tudo isto não era senão o que o próprio Lutero havia dito. Entretanto, agora, a ortodoxia luterana via nele uma negação da autoridade do grande Reformador e por isso atacou veementemente Spener e seus seguidores.

Havia, sem dúvida, certos elementos em que Spener ia mais além do que tinha dito Lutero. Como assinalamos anteriormente, o reformador estava tão preocupado com a doutrina da justificação, que prestou pouca atenção à santificação. Em meio às lutas pela doutrina da justificação pela fé, Lutero havia insistido em que o importante não era a pureza do crente ou a classe de vida que levava, mas a graça de Deus, que perdoa o pecador. Calvino e os reformados, ao tempo em que concordavam com Lutero, assinalavam que o Deus que justifica é também o Deus que regenera e santifica o crente. Portanto, há um lugar importante para o processo de santificação. A santidade de vida não é o que justifica o cristão. Mas Deus oferece seu poder santificador ao crente, a quem justifica. Neste ponto Spener e os seus se achegavam mais a Calvino que a Lutero. O próprio Spener havia conhecido em Estrasburgo e em Genebra as doutrinas e práticas da tradição reformada e lhe parecia que o luteranismo necessitava de maior ênfase no processo da santificação. Esta era parte da reforma que agora propunha e, por isso, alguns dos teólogos luteranos acusavam-no de ser um calvinista disfarçado de luterano.

Por fim, ainda que seja de passagem, convém mencionar um aspecto de sua doutrina, no qual Spener se tornou vulnerável aos ataques de seus opositores. Desesperado pelas condições reinantes na vida da igreja, chegou à conclusão de que as profecias do Apocalipse estavam se cumprindo. Cada símbolo que figura nesse livro, lhe parecia ter seu correspondente nas coisas e acontecimentos de sua época. O fim estava chegando. Como em tantas outras ocasiões na história da igreja, o curso dos acontecimentos mostrou que o profeta errava neste ponto e, portanto, seus inimigos puderam acusá-lo de errar também em outros.

Mas, em certo sentido, o que estava em jogo em toda esta controvérsia era a questão de se a fé serviria simplesmente para sancionar a moral da época ou se a vida cristã era algo diferente da do povo comum. A pregação ortodoxa, ocupada como estava em questões acadêmicas e detalhes de doutrina, dava a entender que o que Deus requeria dos crentes não era sim uma via decente, segundo os padrões da época. O pietismo insistia no contraste entre o que a sociedade espera de seus membros e o que Deus requer de seus fiéis. Para muitos, tanto leigos como pastores, tal pregação era um desafio incômodo.

Resultado de imagem para Augusto German FranckeEntre os muitos seguidores que Spener teve em toda Alemanha, o mais destacado foi Augusto German Francke. Este também havia se criado no seio de uma família luterana, de profunda devoção e boa posição econômica. Após estudar em vários centros teológicos e após um breve período de interesse no quietismo de Molinos – a quem nos referimos em outro  capítulo – Francke sentiu-se fortemente atraído pelas ideias e propostas de Spener. Depois de uma rápida visita, ficou tão afeiçoado a ele que, a partir de então, o tratou de “meu pai” e começou a utilizar suas conferências em Leipzig para divulgar e defender as propostas de Spener. Essas conferências chegaram a ser as mais populares em toda a cidade e logo os professores da Universidade começaram a se queixar que os estudantes preferiam escutar Francke, em lugar de se dedicarem a estudos “mais sérios” da teologia dogmática.

Entretanto, através de seus contatos com o governo de Brandenburgo, Spener havia conseguido fazer da Universidade de Halle um centro do movimento pietista e a essa entidade, Francke foi chamado no final de 1691.

Pouco antes, Francke tinha tido uma experiência de conversão que ele mesmo descreve nos seguintes termos:

De repente, Deus me ouviu. Assim como se alguém estendesse a mão, todas as minhas dúvidas desapareceram. Em meu coração tive a segurança da graça de Deus em Jesus Cristo. Desde então, pude chamar a Deus não somente ‘Deus’, mas também ‘Pai’. A tristeza e a angústia desapareceram imediatamente de meu coração. Repentinamente, me sobreveio uma onda de gozo, de tal modo que, em alta voz, louvei e magnifiquei a Deus, que me havia mostrado tal graça.

Esta descrição e a de outros como Wesley fizeram que depois se pensasse que os pietistas insistiam na necessidade de uma experiência semelhante. O certo era que tal coisa não era o tema fundamental do movimento. O importante era uma fé viva e pessoal e não o modo ou o momento em que se havia chegado a ela.

As ideias de Francke eram semelhantes às de Spener, ainda que nunca se deixou levar pelas tendências apocalípticas deste último. Ainda mais que Spener, Francke destacava o gozo da vida cristã, que devia converter-se em um canto ao Senhor. A nova reforma que devia ter lugar não consistiria em uma série de dogmas rígidos, nem em legalismos morais, mas em uma fé viva que, ao mesmo tempo em que aceitava os dogmas estabelecidos, os aplicava na vida cotidiana e em todas as decisões que essa vida requer. Para isso, era necessário que os cristãos envidassem o tempo e os esforços necessários, isto é, a vida toda. Deve-se estabelecer uma disciplina que inclua a leitura da Palavra, tanto em público como em particular, a participação frequente no sacramento da comunhão, a oração, o exame da própria vida e o arrependimento cotidiano.

O movimento pietista logo cativou o interesse e a dedicação de milhares de cristãos. Muitos dos teólogos o atacavam repetidamente, acusando-o de ser em extremo individualista, subjetivo, emotivo, e até herético. Mas, apesar disso, o número de pessoas continuava aumentando, pois viam nele um retorno à fé do Novo Testamento e dos reformadores.

Por último, apesar da oposição de muitos círculos oficiais, o pietismo adentrou de tal modo no luteranismo, que deixou sobre este um selo indelével e pôs fim à frieza da ortodoxia luterana.

O pietismo teve outra conseqüência de grande importância para a história do cristianismo: o começo do movimento missionário protestante. Os reformadores do século XVI não haviam prestado grande atenção às missões, pois estavam mergulhados em difíceis lutas em suas próprias terras. Alguns chegaram até a dizer que a comissão dada por Jesus de ir por todo o mundo e pregar o evangelho se aplicava aos apóstolos e que a tarefa dos cristãos, a partir daí, consistia em permanecer no lugar em que Deus os havia colocado. Os primeiros pietistas tão pouco mostraram interesse pelas missões. Mas preocupavam-se pelas necessidades das pessoas ao seu redor, fundando escolas, orfanatos e outras instituições de serviço social. Foi em 1705 que o Rei da Dinamarca, admirador dos pietistas, decidiu enviar uns missionários às suas colônias na Índia. Em seu próprio país não encontrou grande interesse na empresa e solicitou então que lhe fossem enviados dois dos mais promissores discípulos de Francke na Universidade de Halle. Estes dois, Bartolomeu Ziegenbalg e Henrique Plütschau, fundaram, em 1706, a missão de Tranquebar, na Índia. Suas cartas e informações foram muito bem recebidas pelos pietistas alemães que as fizeram circular. Logo, sob a direção de Francke, a Universidade de Halle tornou-se um centro no qual se arrecadavam fundos e preparavam-se pessoas para a obra missionária. Também fundou-se em Copenhague, com o apoio do Rei e sob inspiração pietista, uma escola de missões que se interessou particularmente pela Lapônia e Groenlândia.

Zinzendorf e os morávios

Resultado de imagem para Nícolas Luís, conde de ZinzendorfEntretanto, o impacto de Spener e do pietismo se havia feito sentir no jovem Nícolas Luís, conde de Zinzendorf, em cujo batismo Spener serviu de padrinho. Desde criança, Zinzendorf mostrou profundos sentimentos religiosos e ele mesmo dizia, diferentemente de muitos outros pietistas, que mesmo recordando várias experiências religiosas, nunca se sentiu afastado de Deus e, portanto nenhuma dessas experiências poderia verdadeiramente chamar-se conversão. Quando chegou a hora de fazer estudos superiores, seus guardiães, pietistas convencidos, o enviaram à Universidade de Halle, onde estudou sob a direção de Francke. Dali passou para a Universidade de Wittenberg, que era um dos principais centros da ortodoxia dogmática, e seus conflitos com vários professores e companheiros serviram para firmar ainda mais suas convicções pietistas. Mais tarde, viajou pela Europa e, por insistência de sua família, estudou Direito. Depois se casou e entrou no serviço da corte de Dresden.

Foi então que Zinzendorf entrou pela primeira vez em contato com os morávios, que mudaram o curso de sua vida. Anteriormente, nos referimos a João Huss e à Unitas Fratrum ou “Unidade dos irmãos” e dissemos que esse movimento chegou a ficar forte na Morávia. Pois bem, os desastres da Guerra dos Trinta Anos e sua conseqüência, haviam levado a alguns destes morávios a emigrar e Zinzendorf lhes ofereceu asilo em algumas terras que tinha comprado recentemente. Ali se estabeleceram os morávios e fundaram uma comunidade que chamaram Herrnhut (o redil do Senhor), que estava destinada a fazer parte de um papel importantíssimo na história das missões. Logo, Zinzendorf interessou-se tanto por aquela comunidade, que renunciou as suas responsabilidades em Dresden e se estabeleceu nela. Sob sua direção os morávios decidiram fazer parte da paróquia luterana que lhes correspondia. Sempre existiram tensões, pois os luteranos não estavam dispostos a aceitar em seu seio aquela comunidade que Zinzendorf havia tornado um foco do pietismo.

Em 1731, em uma visita a Copenhague, Zinzendorf conheceu alguns esquimós que haviam se convertido graças ao trabalho do missionário luterano Hans Egede e, a partir daí, seu entusiasmo pela obra missionária não teve limites. Logo a comunidade de Herrnhut contagiou-se com o mesmo entusiasmo e, em 1732, partiram os primeiros missionários para o Caribe, onde se estabeleceram primeiro nas Ilhas Virgens e depois na Guiana. Em 1735, um grupo de morávios partiu para Geórgia na América do Norte, para evangelizar os índios e pouco depois outro contingente o seguiu. Este segundo grupo, todavia, acabou por se estabelecer na Pensilvânia. Naquela ocasião, Zinzendorf achava-se desterrado por causa de seus conflitos com as autoridades luteranas da Saxônia e havia ido para a América do Norte para ver o que podia fazer pelos índios. Além disso, sonhava em estender as ideias e o estilo de vida dos morávios a outros grupos religiosos. Quando o contingente morávio da Pensilvânia decidiu estabelecer sua própria comunidade, Zinzendorf estava presente e na Noite de Natal de 1741 fundou a aldeia de Belém (Bethlehem). Essa comunidade e as posteriores de Nazaret (também na Pensilvânia) e Salém (na Carolina do Norte) foram o centro do movimento morávio na América do Norte. Ali estabeleceu-se um estilo de vida semi-monástico e semi-comunitário. Essas comunidades se dedicaram a produzir os recursos necessários para sustentar a obra missionária entre os índios. Sua obra entre eles conseguiu bons resultados, ainda que parte tenha sido destruída após a independência dos Estados Unidos, como conseqüência dos ataques e atropelos cometidos contra os índios pelos brancos (e pelo governo da nova nação). Não foi somente na América do Norte que os morávios estabeleceram missões, mas também na América do Sul, África e Índia, Logo aquele movimento, que a princípio contava com duzentos refugiados, tinha mais de cem missionários nessas regiões.

Entretanto, em 1747, permitiu-se a Zinzendorf regressar à Saxônia e, no ano seguinte, as pazes foram feitas entre os luteranos e a comunidade de Herrnhut, que foi reconhecida como verdadeiramente luterana. Zinzendorf passou algum tempo a mais na Inglaterra, onde conseguiu que o Parlamento reconhecesse a legitimidade do movimento morávio e suas ordens (o próprio Zinzendorf havia se tornado bispo dos morávios). Por fim, em 1755, regressou definitivamente a Herrnhut, onde morreu em 1760. Pouco depois, o movimento morávio rompeu de uma vez com os luteranos. Ainda que Zinzendorf desejasse que seu movimento permanecesse dentro da igreja luterana, o certo é que tal desejo havia se tornado impossível desde que, em 1735, o devoto conde aceitou o título de bispo e foi consagrado como tal por aqueles que continuavam a sucessão da antiga Unitas Fratrum.

A igreja dos morávios nunca contou com grandes multidões e logo o resultado foi que se tornou impossível continuar sustentando um número muito elevado de missionários. Entretanto seu impacto na história do cristianismo protestante foi notável; em primeiro lugar, porque contribuiu para o grande despertar missionário do século XIX; e, em segundo lugar, porque imprimiu seu selo sobre João Wesley e, através dele, sobre o metodismo.

João Wesley e o metodismo

Durante os últimos dias de 1735 e os primeiros de 1736, a bordo do navio Simmonds, o segundo contingente dos morávios se dirigia para a Geórgia para evangelizar os índios, A bordo ia também um sacerdote anglicano de vida austera, a quem Oglethorpe, o governador da Geórgia, havia convidado para servir de pastor da congregação inglesa de Savannah. O sacerdote em questão havia aceitado com a esperança de poder também pregar aos índios, sobre cujas virtudes, havia formado ideias românticas. A princípio, tudo foi bem na viagem e o anglicano, homem de inteligência excepcional, aprendeu o alemão suficientemente para poder comunicar-se com aquele estranho contingente de homens, mulheres e crianças que se dirigia para terras desconhecidas a fim de transmitir o evangelho.

Após algum tempo de travessia, o tempo mudou e uma forte tormenta açoitou o navio. O pastor anglicano, que havia começado com grande entusiasmo seus trabalhos como capelão do navio, teve que confessar a si mesmo que estava mais preocupado com sua própria vida do que com as almas de seus companheiros de viagem. O perigo se fez iminente quando o mastro maior se quebrou e o pânico tomou conta dos passageiros e até da tripulação. Mas o grupo de morávios, sem deixar de cantar hinos e com uma unanimidade surpreendente, conseguiu acalmar a todos.

Passado o perigo, os morávios disseram ao ministro anglicano que a razão porque podiam se comportar de tal maneira era que não temiam a morte. O pastor que até esse momento havia se considerado bom cristão, começou então a duvidar da profundidade de sua fé.

Chegando por fim a Savannah, o jovem anglicano teve a oportunidade de conhecer o morávio Gottlieb Spangenberg, a quem pediu conselho sobre seu labor como pastor e como missionário aos índios. Em seu diário, deixou firmado aquela conversa:

– Meu irmão – disse-me – primeiro, devo fazer-te
duas perguntas. Tens o testemunho dentro de ti?
Dá testemunho o Espírito de Deus a teu espírito,
de que és filho de Deus?
Eu me mostrei surpreso e não sabia como respon-
der-lhe. Ele percebeu e me perguntou:
– Conheces a Jesus Cristo?
– Sei que é o Salvador do mundo.
– Certo – respondeu-me – mas, sabes que Ele
salvou a ti?
– Tenho a esperança de que morreu para salvar-me.
– Mas, o conheces?
– Sim, o conheço.

Depois, em seu diário, o jovem sacerdote acrescentou as palavras:

“Mas, temo que o que eu disse foram somente palavras vazias”.

Resultado de imagem para João WesleyEssas experiências com os morávios comoveram ao jovem João Wesleyassim se chamava aquele ministro anglicano. Desde sua juventude havia se considerado um bom cristão. Seu pai, Samuel, também ministro anglicano, inculcara nele os mais rígidos princípios morais. Sua mãe, Suzana, cujo pai havia sido ministro, ocupava-se cuidadosamente com sua educação, tanto em letras como em religião e vida devocional. Em meio àquela família numerosa (Suzana e Samuel tiveram dezenove filhos), o jovem João sempre se mostrou ávido leitor de obras de devoção. Quando o menino tinha cinco anos, ocorreu um incêndio na casa pastoral e João ficou no andar de cima. Com singular presença de ânimo, como se uma força superior o inspirasse, tomou as medidas necessárias para que pudessem resgatá-lo. A partir daí, Suzana referia-se a ele como “um tição arrancado do fogo” e via naquele incidente uma indicação que Deus tinha planos para seu filho. Na Universidade de Oxford, havia se distinguido por sua dedicação aos estudos e por suas leituras de obras de devoção.

Ali ficara convencido de que era necessário levar uma vida santa e sóbria para ser aceito diante dos olhos de Deus. Seu êxito nos estudos foi tal que recebeu nomeação para dar aulas de grego e filosofia. Depois de um interlúdio como ajudante de seu pai na paróquia, regressou a Oxford, onde se uniu a uma sociedade religiosa que seu irmão Carlos e outros amigos haviam fundado. Os membros dessa sociedade se comprometiam a levar uma vida santa e sóbria, a receber a comunhão uma vez por semana, a cumprir fielmente suas devocionais particulares, a passar três horas reunidos cada tarde, estudando as Escrituras e outros livros religiosos, e a visitar os cárceres regularmente. Por ser o único sacerdote ordenado entre eles e quem sabe também por seus dotes naturais, João havia se convertido em líder daquela sociedade, que recebia os nomes depreciativos de “clube santo”, “devoradores da Bíblia” e “metodistas”.

Assim foi a história de João Wesley, antes de seu encontro com os morávios. Portanto, as perguntas que Spangenberg lhe fez e seu temor de não haver respondido com sinceridade, o surpreenderam e deixaram um vago sentimento de dúvida e de angústia.

Prontamente, sem dúvida Wesley dedicou-se a seus trabalhos pastorais. Seu irmão Carlos, que havia viajado à Geórgia no mesmo navio, foi trabalhar no povoado de Frederica e João tornou-se encarregado da paróquia de Savannah. Ambos fracassaram terminantemente. Seu ideal de paróquia era o de “clube santo” de Oxford e os membros não respondiam como eles esperavam. Pouco tempo depois, Carlos regressou à Inglaterra. João permaneceu, não porque tivera êxito, mas por não se dar por vencido.

Todavia, João também se viu obrigado a regressar à Inglaterra em difíceis circunstâncias. Uma jovem a quem havia cortejado casou-se com outro. Quando certas atitudes da jovem esposa lhe pareceram frívolas, Wesley negou-se a lhe dar a comunhão e isto, por sua vez, resultou em um pleito onde o acusavam de difamação. Confuso e fracassado, Wesley decidiu regressar à Inglaterra e no final das contas parecia ser o que seus fiéis desejavam.

Resultado de imagem para Pedro BoehlerDe volta à Inglaterra, sem saber que caminho tomar, estabeleceu relações com os morávios, que tanto o haviam impressionado. Um deles, Pedro Boehler, converteu-se em seu mentor nos assuntos religiosos. Após várias conversas, Wesley chegou à conclusão que não tinha a verdadeira fé que salva, e, portanto, devia deixar de pregar. Mas Boehler aconselhou-o que pregasse a fé até que a tivesse, e que quando a tivesse, continuasse a pregá-la precisamente porque a tinha.

Finalmente, em 24 de Maio de 1738, Wesley teve a experiência que mudou o curso de sua vida. Ele mesmo narra que:

À noite, fui de muita má vontade a uma sociedade na rua Aldersgate, onde alguém lia o prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos. Quando faltava um quarto para as nove, enquanto ele descrevia a mudança que Deus opera no coração mediante a fé em Cristo, senti em meu coração um ardor estranho. Senti que confiava em Cristo, e somente nele, para minha salvação e me foi dada a certeza de que ele havia resgatado os meus pecados, os meus, e me havia salvo da lei do pecado e da morte.

Aquela experiência foi tal que, a partir daí, Wesley não voltou a duvidar de sua salvação. Ainda mais, a questão de sua própria salvação perdeu o interesse absorvente que havia tido até então. Ali na Geórgia, Spangenberg lhe havia perguntado se tinha o testemunho do Espírito Santo, de que era filho de Deus. Agora confiava nesse testemunho e, portanto, todas as energias que antes vertera em sua própria salvação, podia dedicá-las à salvação dos outros. Apesar de sua gratidão, decidiu não se tornar morávio.

Resultado de imagem para George WhitefieldEnquanto isto tudo acontecia na vida de Wesley, outro membro do “clube santo” de Oxford se tornara um famoso pregador. Impulsionado por uma experiência semelhante à de Wesley, três anos antes, Jorge Whitefield decidiu partir para Geórgia, onde esperava servir como pastor da nova colônia. Antes se dedicou a pregar na Inglaterra e seu êxito foi notável, particularmente na cidade de Bristol e seus arredores. A partir daí, ainda que servindo como pastor na Geórgia, passou boa parte do tempo pregando na Grã-Bretanha. Seu estilo de pregação era emotivo e quando começaram a criticá-lo pelo uso que fazia dos púlpitos, decidiu pregar em campo aberto, como era frequente na Geórgia.

Como Whitefield necessitava de ajuda na obra empreendida em Bristol e, contudo, tinha que partir para a América, convidou Wesley para que o ajudasse e se tornasse encarregado do trabalho durante a sua ausência.

Wesley aceitou o convite de Whitefield, ainda que os métodos do ardente pregador não fossem do seu agrado. A pregação ao ar livre o aborrecia. Muito depois, comentou sobre seus sentimentos naquela época, dizendo que estava tão convencido de que Deus queria que tudo se fizesse ordenadamente e quase pensou que salvar almas fora do templo era pecado. Pouco a pouco, em vista dos resultados alcançados mediante tal pregação, foi acostumando-se a praticá-la. Até o fim de seus dias, deplorou o que lhe parecia ser uma triste necessidade.

Outro fenômeno que lhe preocupava era o modo como seus próprios ouvintes respondiam a sua pregação. Começavam a chorar, condoer-se amargamente e em voz alta por seus próprios pecados. Alguns caíam desmaiados por causa da profunda angústia que sentiam. Depois um grande gozo tomava conta deles e diziam que estavam limpos de sua maldade. Tudo isto não era do agrado de Wesley, que preferia que o culto a Deus se levasse a cabo com mais solenidade. Por último, decidiu que o que estava acontecendo com tais pessoas era uma grande luta entre Satanás e o Espírito Santo e que ele não podia deter a obra de Deus. Em todo caso, essas manifestações, relativamente comuns ao princípio de sua pregação, depois se tornaram menos frequentes.

Wesley e Whitefield colaboraram durante algum tempo, ainda que pouco a pouco, devido em parte às responsabilidades de Whitefield na Geórgia e, em parte, a seus próprios dotes, Wesley foi se tornando o Iíder do movimento. Por fim, os dois pregadores se separaram por razões teológicas. Ambos eram calvinistas no que se referia a questões tais como o significado da comunhão, do modo em que a fé deve resultar em santidade de vida, etc. Mas, quanto à predestinação e o livre arbítrio, Wesley se separava do calvinismo ortodoxo e seguia a linha arminiana. Depois de vários debates sobre tais questões, os dois amigos decidiram cada um seguir o seu caminho e evitar controvérsias – mas, nem sempre seus seguidores se abstiveram delas. Com o apoio da Condessa de Huntingdom, Whitefield encabeçou um movimento que conseguiu particular êxito na região de Gales e que depois resultou na formação da Igreja Metodista Calvinista.

Wesley não estava interessado em fundar uma nova denominação. Ao contrário, era e continuou sendo ministro da Igreja Anglicana. Seu propósito era melhor despertar e cultivar a fé das massas dentro da igreja, como estava fazendo o pietismo dentro do luteranismo alemão. Por isso, suas pregações nunca ocorriam ao mesmo tempo que os serviços da igreja e sempre teve por certo que as reuniões de seus seguidores deviam servir de preparação para assistir à igreja no domingo e tomar a comunhão. De fato, para Wesley o centro da adoração cristã era a comunhão que se celebrava nos templos da Igreja Anglicana e à qual ele e todos seus seguidores deviam assistir ao menos uma vez por semana (recorde-se que este era um dos princípios do “clube santo” de Oxford).

Mas ainda que o movimento não pretendesse converter-se em denominação ou igreja à parte, era necessário dar-lhe uma forma organizada. Em Bristol, onde verdadeiramente começou o movimento, quem pertencia a ele formava “sociedade”, que se reuniam a princípio em casas particulares e depois chegaram a ter seu próprio edifício. As pessoas os chamavam “metodistas” em tom de zombaria e, ao longo do tempo, eles mesmos aceitaram aquele motejo. As “sociedades metodistas” não bastaram para o cuidado religioso de seus membros, pois rapidamente se tornaram demasiado grandes. Foi então que alguém sugeriu a Wesley o sistema de classes, que este adotou. Este sistema consistia em reunir os crentes em grupos de doze, com um Iíder de vida piedosa. Essas classes se reuniam uma vez por semana para estudar as Escrituras, orar, arrecadar fundos e conversar acerca de questões religiosas. Seus Iíderes não tinham que ser pessoas de alta educação ou prestígio social, pois eram escolhidos sobre uma base melhor: qualidade de vida, de sabedoria e da profundidade de sua fé. Portanto, as classes metodistas serviram para dar realce e autoridade a muitas pessoas que de outro modo não teriam. Também, posto que havia classes separadas para as mulheres, logo surgiu um bom número de hábeis dirigentes entre elas e, portanto, desde o princípio, o metodismo se destacou pelo lugar que as mulheres ocupavam dentro dele.

O movimento cresceu rapidamente. Logo Wesley viu-se obrigado a viajar não só por toda a Inglaterra, mas também pela Escócia, Gales e Irlanda. Quando o Bispo de Bristol tratou de submetê-lo à disciplina, ressaltando que sua pregação ambulante perturbava a ordem das paróquias, Wesley contestou: “Para mim, o mundo todo é minha paróquia“. Essas palavras depois se tornaram lema do metodismo, que o utilizou, não somente em seus conflitos com as estruturas eclesiásticas, mas em sua expansão missionária.

Sem dúvida, de imediato, Wesley e o metodismo nascente necessitavam de quem compartilhasse a tarefa de pregação. Junto a João Wesley estava seu irmão Carlos, também ministro anglicano, que se distinguiu pelos hinos que escreveu e que vieram a ser parte obrigatória nas reuniões metodistas. Ademais, vários clérigos anglicanos se uniram ao movimento e participaram dele em tudo o que suas obrigações pastorais lhes permitiram. O próprio João Wesley era, sem dúvida, quem levava a pesada carga da pregação constante, pregando vários sermões por dia e viajando a cavalo milhares de quilômetros todos os anos – pelo menos até quando atingiu os setenta anos de idade.

Foi devido a tais circunstâncias que apareceram os pregadores leigos. Quando Wesley soube que o leigo Tomas Maxfield havia pregado em uma sociedade metodista em Londres, se dispôs a tomar medidas contra tais práticas. Mas, sua mãe Suzana lhe pediu que, antes de fazê-lo, ouvisse o pregador em questão e, com base nisso, decidisse se o que estava ocorrendo era de Deus. Depois de escutar Maxfield, Wesley decidiu que os pregadores leigos eram a resposta à angustiante necessidade do movimento e se dedicou a preparar outros mais. Seu propósito não era que tais leigos tomassem o lugar dos clérigos. Recorda-se que o centro do culto cristão era a comunhão e que Wesley cria que esta somente podia ser administrada por pastores ordenados da Igreja Anglicana. A função dos pregadores leigos, como o das “sociedades” e “classes” metodistas, era paralela e complementava a função sacramental da Igreja Anglicana e seu pessoal ordenado. Porém, isso mesmo permitia a Wesley confiar a tarefa da pregação a leigos distinguidos por sua fé, devoção e sabedoria. Entre esses pregadores leigos, houve também mulheres, o que não era possível em meio ao clero anglicano.

Com todos estes elementos, Wesley organizou seus seguidores em uma “Conexão”. Várias sociedades formavam um “circuito” sob o cuidado de um “ajudante” que depois se chamou “superintendente”. Para ajudar a administrar a Conexão, Wesley começou a reunir periodicamente seus pregadores leigos e os clérigos que participavam do movimento. Com o correr do tempo, esta prática se tornou a Conferência Anual, na qual se nomeava os pregadores que deviam servir em cada circuito – normalmente por um período de três anos.

Em todo este processo, não faltaram conflitos. A princípio, houve frequentes atos de violência contra os metodistas. Alguns dos nobres e clérigos poderosos não viam com bons olhos a autoridade que o novo movimento dava às pessoas humildes. Portanto, as reuniões metodistas viram-se interrompidas por grupos de perversos pagos para isso. E a vida do próprio Wesley correu perigo em mais de uma oportunidade. Pouco a pouco, a oposição violenta foi se acalmando, até que quase cessou por completo.

Também houve conflitos teológicos e eclesiásticos. Muito contrariado, Wesley viu-se obrigado a romper com os morávios, de quem havia possuído o espírito do quietismo. Ainda que arminiano no que se refere à predestinação, Wesley seguia sendo calvinista no que se referia à importância da santificação e às obrigações dos cristãos dentro da sociedade. Portanto, o quietismo místico dos morávios ingleses definiu-se-lhe inaceitável e assim o fez constar.

Todavia, o principal conflito foi o que aconteceu com a Igreja Anglicana. Wesley não tinha desejo algum de separar-se dessa igreja, na qual tinha se criado e pela qual sentia grande respeito. E até o fim de seus dias repreendeu os metodistas que desejavam separar-se dela. Mas as causas de atrito eram muitas. Entre as autoridades anglicanas, havia quem visse nas atividades dos metodistas um índice acusador que ressaltava seus próprios fracassos. Outros viam na insistência de Wesley e de seus seguidores em pregar por todo o país. Um ato de desobediência contra a ordem estabelecida. O próprio Wesley sofria com a necessidade de falhar com a disciplina de sua igreja e pregar sem a permissão da autoridade de cada paróquia; mas se sentia obrigado a fazê-lo para não desobedecer a Deus. Em questões de doutrina, não havia conflito algum; mas, na prática, existiam dificuldades crescentes.

Um fator que impulsionou o metodismo a declarar-se independente, foi uma difícil situação legal. Segundo uma lei de 1689, toleravam-se na Inglaterra os cultos e edifícios religiosos que não fossem anglicanos, sempre que se inscrevessem como tais diante da lei. Os metodistas estavam então diante de um dilema, pois se não se inscrevessem, ficariam fora da lei e se o fizessem estariam declarando, informalmente ao menos, que não eram anglicanos. Após longas hesitações, Wesley decidiu que seus pregadores deviam cumprir a lei e, portanto, em 1787, deu-lhes instruções no sentido de que se inscrevessem. Ainda que ele, seus pregadores e suas sociedades continuassem se chamando anglicanos, havia sido dado o primeiro passo legal para sua separação da igreja nacional da Inglaterra.

Três anos antes, Wesley havia dado outro passo muito mais drástico do ponto de vista teológico. Há muito tempo, havia se convencido de que no Novo Testamento, um “bispo” era o mesmo que um presbítero e que na igreja antiga, pelo menos durante mais de dois séculos, os presbíteros haviam tido o direito de ordenar a outros cristãos. Por longo tempo, se absteve de exercer essa prerrogativa que cria possuir, para não ter mais inimizades com as autoridades eclesiásticas. Mas a independência dos Estados Unidos (de que trataremos no próximo volume) mudou a situação. Durante a Guerra da Independência, a maior parte do clero anglicano na América do Norte havia tomado o partido inglês. Ao chegar a independência, quase todos eles se viram obrigados a regressar à Inglaterra. Em tais circunstâncias, tornara-se muito difícil e até impossível aos habitantes da nova nação participar frequentemente da comunhão. Wesley estava convencido de que tais serviços sacramentais eram fundamentais para a vida cristã. O Bispo de Londres, que supostamente tinha jurisdição sobre as antigas colônias inglesas, negava-se a ordenar novo pessoal para eles. Por fim, em Setembro de 1784, Wesley deu o passo definitivo e ordenou dois de seus pregadores leigos como presbíteros. Também consagrou o presbítero anglicano Tomas Coke como “superintendente”, sem dúvida tendo em mente que esse título não é senão a forma latina do termo grego “bispo”. Pouco depois ordenou outros para servirem na Escócia e outras terras.

Apesar de haver dado estes passos, Wesley continuava insistindo na necessidade de não romper com a Igreja Anglicana. Seu irmão Carlos lhe dizia que a ordenação por si mesma já era uma ruptura. Em 1786, a Conferência decidiu que, naqueles lugares em que os ministros anglicanos fossem decididamente inaptos, onde as igrejas não tivessem lugar para toda a população, permitiria-se celebrar as reuniões metodistas na mesma hora do culto anglicano. Uma vez mais, Wesley decidiu dar esse passo apesar de desgostoso, porém constrangido pela necessidade de servir a uma população urbana cada vez maior, para a qual não bastavam os serviços que a Igreja Anglicana oferecia.

Em parte, o êxito do metodismo deveu-se ao modo em que respondia as novas circunstâncias criadas pela chamada “Revolução Industrial”, de que trataremos mais amplamente no capítulo seguinte. Durante a segunda metade do século XVIII, começou a ter lugar na Inglaterra um rápido processo de industrialização. Depois esse processo apareceria em outros países. Mas o que aconteceu de imediato na Inglaterra foi um vasto fluxo da população para as cidades. Essas pessoas, arrancadas por circunstâncias econômicas das terras em que se haviam criado seus avós, tendiam perder seus vínculos com a igreja, cuja estrutura paroquial não bastava para responder às necessidades das novas multidões urbanas. Foi entre essas multidões que o metodismo logrou seu mais profundo arraigamento na Inglaterra.

Na América do Norte, um processo completamente distinto, a colonização de novas terras, ocorreu também a uma população carente de vínculos com a igreja tradicional. Foi entre essas pessoas que o metodismo cresceu mais rapidamente.

Oficialmente, os metodistas norte americanos converteram-se em uma igreja à parte, ainda antes que os britânicos. Em 1771, Wesley havia enviado para as colônias norte americanas o pregador leigo Francisco Asbury. Esse teve êxito notabilíssimo, pois insistiu em organizar o metodismo de tal maneira que se encontrava sempre presente na fronteira ocidental, de onde o processo colonizador ia avançando. Quando as treze colônias se declararam independentes da coroa britânica, Wesley escreveu contra essa atitude rebelde. Mas os pregadores metodistas norte americanos, em sua maioria nativos das colônias, se mostraram partidários da independência ou pelo menos neutros. O resultado foi que o movimento metodista norte americano, apesar de continuar admirando e respeitando Wesley, não estava disposto a seguir seus ditames. Contra os desejos de Wesley e, em resposta à falta de ministros anglicanos, a Igreja Metodista Episcopal dos Estados Unidos ficou formalmente constituída. O título de “Episcopal” era o resultado de um dos seus conflitos com Wesley. Ainda que este desse a si mesmo e havia dado a Coke, o título de “superintendente”, enojou-se quando Coke e Asbury – até então Superintendentes – começaram a se chamar de “bispos”. Desde então, os metodistas norte americanos tiveram bispos, e os britânicos não.

Wesley morreu em 1791. Após sua morte, os metodistas passaram por um longo período de lutas internas, principalmente em torno da questão de sua separação da Igreja Anglicana. Por último, tanto na Inglaterra como nos demais países onde o movimento havia deitado raízes, se constituíram igrejas metodistas completamente separadas da Anglicana. Além disso, o interesse missionário que Wesley havia herdado dos pietistas alemães e dos morávios, fez com que o metodismo se estendesse para diversas regiões do globo.

Ainda que Wesley fosse diferente em muito dos pietistas alemães e dos morávios, seu interesse em uma vida religiosa pessoal e o modo em que fundou sociedades dentro da igreja estabelecida no país, o colocaram dentro da tradição pietista. Mas também é certo que seu interesse na justiça social foi maior do que o dos mais famosos pietistas do continente europeu e que isto se deveu em parte às suas raízes calvinistas, em contraste com as luteranas dos pietistas alemães. Em todo caso, esse interesse pela justiça social que pode ver-se na citação que encabeça o presente capítulo, foi uma das características que Wesley tratou de infundir ao metodismo que este conservou, pelo menos em suas mais autênticas manifestações.

“Não será esta outra das razões pela qual se torna tão difícil aos ricos entrarem no Reino dos Céus? A grande maioria deles está debaixo de maldição, sob a maldição particular de Deus, porque … não roubam unicamente a Deus, mas também ao pobre, ao faminto e ao despido; … e se tornam culpados por toda a necessidade, aflição e dor que poderiam eliminar, mas não o fizeram.” (João Wesley)

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