A era dos dogmas e das dúvidas (XI): a opção geográfica

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos dogmas e das dúvidas – Vol. 8. São Paulo: Vida Nova, 1984 (1ª ed.), pág. 187 a 210.

“Deus não requer que se estabeleça e force em estado algum, uma uniformidade de religião que, cedo ou tarde resulte em guerra civil, violação da consciência, perseguição contra Jesus Cristo nas pessoas de seus servos, hipocrisia e destruição de milhões de almas.” (Roger Williams)

Ao estudar a Era dos conquistadores, vimos como os motivos religiosos se mesclaram com os políticos e econômicos na empresa colonizadora da Espanha e Portugal. A grande expansão ibérica teve lugar no século XVI e em fins desse século, especialmente depois da destruição da Armada Invencível em 1588, outras potências marítimas começaram a disputar o domínio dos mares com a Espanha e Portugal. Dessas, a mais pujante era a Inglaterra, que se dispunha a estabelecer um amplo império ultramarino. Os três séculos que vão do XVII ao XIX, foram a grande época do colonialismo britânico. E este, por sua vez, segundo veremos no próximo volume, teve grandes repercussões para a história do protestantismo.

De imediato, o que aqui nos interessa é a colonização britânica na América do Norte, particularmente nas “treze colônias”, que depois se rebelariam e se uniriam para formar os Estados Unidos.

Ao estudar superficialmente a história dessas colónias, frequentemente se tem a impressão de que os motivos que levaram a sua fundação contrastavam radicalmente com os que impulsionaram a colonização espanhola. Assim diz-se, por exemplo, que enquanto os espanhóis vieram buscando ouro, os ingleses vieram por razões religiosas; que os espanhóis foram cruéis com os índios e os ingleses buscaram viver em paz com eles; que os espanhóis trouxeram a inquisição e os ingleses a liberdade religiosa; que os espanhóis vieram em tom de aristocratas para enriquecerem-se à base do trabalho dos índios e os ingleses vieram para lavrar a terra.

Ainda que haja algo de certo em algumas dessas asseverações, o fato é que a verdade histórica é muito mais complexa. A empresa colonial inglesa teve os mesmos motivos econômicos que a espanhola. O que sucedeu foi que os espanhóis já haviam conquistado os mais ricos impérios e não existiam mais nestas terras tesouros como os astecas e os incas. Portanto, a fim de se enriquecerem, os empresários britânicos não podiam aspirar a conquista como as de Cortês e Pizarro, mas viam-se obrigados a fundar colônias com fins comerciais. Quando ficou claro que o comércio com os índios não daria os resultados desejados, iniciaram-se empresas agrícolas à base de mão de obra britânica. Mas essa mão de obra não previa colonos livres, cada um em sua terra. Ao contrário, quem trabalhava na terra eram pessoas trazidas ao Novo Mundo pelas companhias proprietárias da colônia, sendo que, a princípio, se proibia que os colonos tivessem terras próprias. Quanto à liberdade religiosa, ainda que as colônias de Rhode Island e Pensilvânia tenham tido notáveis experiências neste sentido e que, por último, seus princípios se impuseram à constituição norte americana, também é certo que os “peregrinos” puritanos da Nova Inglaterra não foram mais tolerantes que os inquisidores espanhóis. E, por último, no referente ao maltrato dos índios, a destruição da população índia nas colônias inglesas foi muito maior do que a que ocorreu nas espanholas. Isto não ocorreu porque os espanhóis foram melhores ou mais compassivos. Foi devido às diversas circunstâncias econômicas. O que os espanhóis desejavam dos índios era seu trabalho e, portanto, seu interesse estava em não dizimá-los. Os ingleses, por sua parte, cobiçavam as terras dos índios e, por este motivo, frequentemente agiram contra eles, tanto no período colonial como após a independência norte americana, implantando uma política de aniquilação.

Certo é que as novas circunstâncias na Europa, particularmente na Grã-Bretanha, levaram muitos a emigrarem para América por motivos religiosos. O dogmatismo que se havia posicionado nas diversas confissões, as muitas divisões que tinham surgido no protestantismo europeu, criavam graves dificuldades para os dissidentes em matérias religiosas. Ao tratar acerca da revolução puritana na Inglaterra, mencionamos a diversidade de opiniões e de práticas religiosas que apareceram nesse tempo. Tal diversidade não cabia nos desígnios de muitos governantes, que, todavia, sonhavam com um estado em que reinasse a uniformidade religiosa. Entretanto, as leis que visavam essa uniformidade eram mais difíceis de aplicar em ultramar, e, portanto muitos dissidentes partiram para as colônias na América do Norte. Como veremos mais adiante, muitos destes colonos não estavam dispostos a conceder a outros o mesmo gozo de liberdade religiosa que tinham vindo buscar nestas praias, enquanto outros chegavam à conclusão de que a tolerância religiosa era necessária, não somente por conveniência, mas também porque tal era a vontade de Deus.

Tudo isso quer dizer que, como em outros casos, a história do cristianismo nas treze colônias que vieram a ser os Estados Unidos é uma complexa realidade em que se mesclam motivos e fatos admiráveis com outros que não o são tanto, e que a tarefa dos historiadores é consignar tanto uns como outros.

Por outro lado, as colônias fundadas na América do Norte guardavam no princípio pouquíssima relação entre si. Cada uma dependia diretamente da Inglaterra. Isto por sua vez quer dizer que, pelo menos no que se refere a seus primeiros anos de existência, mostra-se, mais útil narrar a história de cada colônia do que buscar esboçar a um tempo o que estava sucedendo em todas elas.

Virgínia

Os primeiros esforços colonizadores por parte dos britânicos na América do Norte fracassaram. Em 1584, Sr. Walter Raleigh, favorito da rainha Isabel, recebeu permissão real para colonizar a costa da América do Norte, a que deu o nome de “Virgínia” em honra a Isabel, a “Rainha Virgem“. Mas seus esforços, primeiro em 1585 e depois em 1587, fracassaram. Os colonos do primeiro contingente regressaram sem alento à Inglaterra e os do segundo simplesmente desapareceram, possivelmente mortos pela fome ou às mãos dos índios.

Foi na primavera de 1607 que verdadeiramente começou a colonização permanente da Virgínia. No mês de Maio, cento e cinco colonos puseram os pés perto da foz de um rio que chamaram James, em honra ao rei James que, na ocasião, governava na Inglaterra. Isabel tinha morrido quatro anos antes. Pouco depois fundaram a cidade de Jamestown, cujo nome também pretendia honrar o Rei. Com eles ia um capelão, pois parte do plano da Companhia de Virgínia, sob cujos auspícios tinha lugar o projeto colonizador, era estabelecer no país a Igreja da Inglaterra e oferecer-lhes seus recursos religiosos, não somente aos colonos mas também aos índios. Além disso, desejava colocar limites aos espanhóis, que iam avançando para o norte e nesse empenho por parte dos ingleses se mesclavam os motivos nacionalistas com o desejo de deter o avanço do “papismo”.

Todavia, estes processos de índole religiosa não eram a principal razão pela qual os acionistas da Companhia de Virgínia haviam empreendido a nova colônia. Sua meta era obter benefícios econômicos do comércio que esperavam estabelecer com os índios e da agricultura que se desenvolveria na região.

Posto que os primeiros anos da colônia de Virgínia coincidiram com o auge do movimento puritano no seio da Igreja Anglicana, muitos dos colonos e dos acionistas entendiam que a colônia devia governar-se segundo os princípios puritanos. As Leis divinas, morais e marciais, que um dos primeiros governadores promulgou, estabeleciam a assistência obrigatória ao culto divino duas vezes ao dia, a observância estrita do Dia do Senhor e penas civis por pecados tais como a linguagem profana ou o uso de roupas sem modéstia. O ideal de tais leis, como a dos puritanos da Inglaterra, era uma sociedade santa, tanto em suas leis e sua vida diária, como na religião.

Tais sonhos estavam destinados a desaparecer, postos de lado, pelas realidades econômicas. Os primeiros anos da nova colônia foram bastante difíceis, pois os rigores do clima eram grandes e o que se produzia acarretava poucos benefícios aos acionistas. Repetidamente a Companhia de Virgínia tomou medidas para o melhoramento das condições da colônia e para que esta conseguisse maior proveito econômico. Porém, nenhuma delas teve grande êxito.

A grande mudança ocorreu quando começou a se cultivar tabaco por iniciativa do colono João Rolfe. Este havia se casado com a “princesa” índia Pacahontas, filha do cacique Powhatan. Ainda que Pacahontas tenha se convertido em uma personagem lendária, o que nos importa saber aqui é que algum tempo antes tinha sido sequestrada por um colono que esperava, desse modo, conseguir uma paz permanente com os índios. Pacahontas criou-se e educou-se entre os brancos e, por último, recebeu o batismo. Fez uma viagem à Inglaterra, onde serviu de amostra do êxito que a colônia estava tendo, evangelizando os índios e tornou-se tema de discussão nos círculos aristocráticos. Mas o fato é que as relações com os índios se deterioravam progressivamente e pouco se havia conseguido quanto à sua evangelização. Em todo caso, muito mais importante para o destino da Virgínia, foram as experiências que seu esposo fez cruzando diversas variedades de tabaco, de modo que em 1619 havia feito deste um produto de exportação para a Inglaterra. A partir de então, a grande riqueza de Virgínia esteve no tabaco.

O cultivo do tabaco requeria maior mão-de-obra; portanto, já em 1619, começou-se a importá-la da África. Assim teve início a sociedade escravista que se tornou característica da Virgínia e das demais colônias do sul.

Durante todo este tempo, sob o governo da Companhia de Virgínia, sediada na Inglaterra, a vida religiosa da Virgínia seguiu a linha do puritanismo que já descrevemos. Mas o rei James não estava disposto a tolerar esse estado de coisas, pois, como vimos ao tratar da revolução puritana na Inglaterra, detestava as ideias puritanas. Além disso, graças ao tabaco, a colônia começou a despertar ganâncias. Uma guerra com os índios em 1622, lhe serviu de escusa e, em 1624, James colocou Virgínia sob seu governo direto. Algum tempo depois, Carlos I, seguindo a política de James contra os colonos da Virgínia, criou a nova colônia de Maryland, com territórios que antes pertenciam à Virgínia e a concedeu a um proprietário católico.

Apesar de tudo isto, a revolução puritana produziu pouca mudança na Virgínia. Os colonos estavam mais interessados no cultivo do tabaco e na preparação de novas terras para esse fim do que nos debates religiosos que comoviam a Inglaterra. Seu antigo puritanismo tinha perdido força em meio às novas condições de relativa prosperidade. O princípio puritano do valor do trabalho havia perdido vigência devido ao incremento da escravidão. Portanto, quando a revolução estourou na Inglaterra e depois quando os Stuart foram restaurados, a colônia continuou sua vida sem maiores desordens.

Em meio a tudo isto, a Igreja Anglicana seguiu sendo a da maioria dos colonos. Não se tratava já do anglicanismo de tendências puritanas dos primeiros anos, mas um anglicanismo fácil e aristocrático, adaptado para a sociedade escravista que ia aparecendo, e carente de impacto religioso, não somente entre os escravos, mas também entre os colonos brancos de classes inferiores.

Entre os escravos, os anglicanos levaram a cabo pouco trabalho missionário. Uma das razões era que havia antigos princípios que proibiam ter como escravo um irmão na fé. Portanto, tinha quem afirmasse que, quem recebia o batismo não podia continuar submetido à escravidão. Isto, por sua vez, queria dizer que os senhores tinham interesse em evitar as conversões de seus escravos. Em 1667, em vista do debate que se verificava, promulgou-se uma lei, segundo a qual o batismo não mudava a condição de servidão dos escravos – a qual era um exemplo mais do modo como a religião estabelecida se amoldava aos interesses dos poderosos.

Apesar dessa lei, pouco se fez para educar ou converter os escravos, pois muitos pensavam que mantê-los na ignorância era um dos melhores modos de assegurar-se de seus serviços e docilidade.

Entre os brancos, a adaptação da igreja aos interesses dos poderosos também teve consequências. Enquanto a nascente aristocracia da Virgínia continuava em sua maior parte fiel ao anglicanismo, muitas das classes mais baixas inclinavam-se para os movimentos dissidentes. Contra tais movimentos tomaram-se várias medidas e foram centenas os que preferiram abandonar a colônia, estabelecendo-se na católica Maryland onde havia maior liberdade religiosa. Também os quakers penetraram na Virgínia e ainda que existissem leis contra eles, seu número aumentou. Quando Jorge Fox visitou a colônia em 1662, regozijou-se com o grande número de “amigos” que encontrou nela. Deixou a certeza de que, embora o movimento houvesse se estendido principalmente entre as classes mais baixas, alguns membros da aristocracia o viam com bons olhos. Mais tarde, graças à obra de Asbury e de seus companheiros, o metodismo avançou rapidamente na Virgínia. Embora, no começo, muitos dos metodistas virginianos fossem anglicanos pelo menos de nome, quando se constituiu nos Estados Unidos a Igreja Metodista Episcopal, essas pessoas abandonaram a comunhão anglicana.

Ao sul da Virgínia, fundaram-se outras colônias. As Carolinas, concedidas pela coroa a um grupo de aristocratas e inversionistas [ou invencionistas?] em 1663, contaram durante bom tempo com um número considerável de colonos. Para incentivar a imigração, os proprietários estabeleceram a liberdade de consciência e boa parte dos primeiros colonos da Carolina do Norte eram dissidentes que provinham da vizinha Virgínia. Pouco a pouco, em ambas as colônias e particularmente na Carolina do Sul, foi-se criando uma aristocracia agrícola e surgiu uma sociedade estratificada muito semelhante à da Virgínia. Nessa sociedade, as camadas mais elevadas pertenciam à Igreja Anglicana que, por isso, contava com certo poder. Muitos dos colonos das classes mais baixas tornaram-se quakers ou batistas. Na realidade, a maior parte da população, sem contar os índios nem os escravos, não parecia haver pertencido a igreja nenhuma.

Geórgia, ao sul das Carolinas, foi fundada com dois propósitos fundamentais. O primeiro era deter o avanço dos espanhóis que, desde sua base em Santo Agostinho, na Flórida, ameaçavam as colônias inglesas. O segundo era servir de refúgio a quem, por causa de suas dívidas, havia sido encarcerado na Inglaterra. Nessa época, ou melhor dizendo, no começo do século XVIII, começava a ocorrer na Inglaterra um fermento religioso que buscava melhorar as condições dos deserdados. Parte desse movimento dirigiu-se para os cárceres, cujas condições desumanas foram repetidamente atacadas no Parlamento.

Um dos chefes desses ataques foi o herói militar Jaime Oglethorpe, que, por fim, decidiu fundar na América uma colônia onde pudessem estabelecer os condenados por causa de suas dívidas. Obtida a permissão real em 1732, os primeiros convictos chegaram no ano seguinte, sendo-lhes depois acrescentados outros contingentes. Ao mesmo tempo, Geórgia se tornava um sítio de refúgio para exilados morávios e outros. Muitas destas pessoas vinham impulsionadas por profundas convicções religiosas. Porém, as dificuldades do clima, a falta de recursos econômicos e a escassez de pastores dificultaram o progresso da colônia, tanto econômica quanto religiosamente. Já vimos algo das decepções dos Wesley no lugar. No geral, o anglicanismo, que era a confissão oficial da colónia, não conseguiu grande estabilidade. Os morávios tiveram melhor êxito, mas nunca em grande número. Os religiosos mais notáveis nas primeiras décadas da existência da colônia se relacionaram com a obra de Jorge Whitefield, o ardente pregador de quem tratamos ao narrar as origens do metodismo. Whitefield conseguiu atrair grandes multidões aos seus cultos e, quando morreu, em 1770, deixou implantado o selo de seu fervor em boa parte da população.

As colônias puritanas do norte

Foi muito mais ao norte que boa parte do movimento colonizador deu as mais claras amostras de se apresentar como uma alternativa do dogmatismo e a intolerância que reinava na Inglaterra e outras partes da Europa. Ali, onde logo se chamou Nova Inglaterra, fundou-se uma série de colônias, nas quais a motivação religiosa era um dos impulsos predominantes.

Resultado de imagem para Plantação de PlymouthA primeira destas colônias foi a “Plantação de Plymouth“. Um grupo de dissidentes ingleses que haviam achado refúgio na Holanda, mas que não se sentiam completamente à vontade nesse país, cujos costumes não eram os seus, começaram a sonhar com a possibilidade de se estabelecerem no continente americano, organizando uma comunidade que se ajustaria a seus princípios religiosos. Esse grupo de dissidentes entrou em negociações com a Companhia de Virgínia, na qual não faltaram pessoas de inspiração puritana que viam o projeto com simpatia. Além do mais, a Companhia estava necessitada urgentemente de novos colonos. Por fim, a bordo do famoso Mayflower, cento e um colonos, homens, mulheres e crianças, partiram para o Novo Mundo. Durante a travessia, desviaram-se para o norte, mais além do que considerava os limites da colônia da Virginia e, portanto, antes de desembarcarem, alguns deles convenceram os demais para se constituírem num “corpo político”, sob a soberania da Inglaterra, mas com os atributos necessários para governar seus assuntos. Segundo aquele Pacto de Mayflower, todos se comprometiam a obedecer às leis “justas e iguais” que a comunidade promulgasse. Depois de desembarcarem no cabo Cod e decidirem que o lugar não era propício, fixaram-se em Plymouth.

Os primeiros meses da colônia de Plymouth foram trágicos. Uma epidemia varreu a população e somente ficaram cinquenta sobreviventes. Na chegada da primavera, os índios ensinaram-lhes a semear milho. Com base desse cultivo, da caça e da pesca, quando chegou o outono tinham suficientes provisões para o inverno e celebraram uma festa de ação de graças que depois se tornou tradicional em toda a nação norte americana.

Com base na cultura do milho e o comércio com os índios, os colonos conseguiram obter suficientes peles para cobrir suas dívidas na Inglaterra e importar as ferramentas de cultivo e outras utilidades necessárias. Assim, a colônia, ainda que não tenha prosperado, pelo menos conseguiu sobreviver.

Pouco depois, um grupo de puritanos ingleses, desejosos de organizar uma comunidade conforme os ditames de sua consciência, formou a Companhia da Baía de Massachusetts. Parte do acordo que estes colonos fizeram foi que, ao se mudarem para o Novo Mundo, levariam consigo a Companhia, cujo quartel general não estaria na Inglaterra, mas sim na América. Desse modo, esperavam evitar as intervenções reais, como havia acontecido na Virgínia. Conseguida a permissão da coroa, os colonizadores decidiram transferir a sede da companhia para Massachusetts. Após as preparações necessárias, mil puritanos partiram em mais de uma dezena de navios.

Estes colonos da Companhia da Baía de Massachusetts eram diferentes dos da Plantação de Plymouth – não eram separatistas. Eram simplesmente puritanos que desejavam que a Igreja Anglicana se adaptasse ao uso do Novo Testamento e, em vista disto não ocorrer na Inglaterra, esperavam concretizá-lo na nova e santa comunidade que iam fundar.

Estas colônias provavelmente não passaram de algumas centenas de habitantes, em virtude das medidas repressivas que o Arcebispo Laud começou a tomar contra os puritanos e que já registramos em outro capítulo deste volume. Em vista de tais medidas, foram muitos os que se dispuseram a abandonar sua pátria e partir para as novas colônias, onde se lhes permitiria adorar segundo seus princípios puritanos. Ademais, tal decisão não era vista em termos negativos de fuga, parecia mais um chamado divino para estabelecer uma nova comunidade na qual se cumprisse verdadeiramente a vontade de Deus. Assim, nos anos em que durou a perseguição de Laud, umas dez mil pessoas estabeleceram-se no que veio a chamar-se Nova Inglaterra. Essa onda migratória produziu, além disso, as colônias de Connecticut e New Haven, organizadas segundo o padrão de Massachusetts.

Carlos I dispunha-se a tomar medidas contra esse crescente foco de puritanismo, quando se viu envolvido na guerra civil que, por fim, lhe custou a coroa e a vida. Porém, a guerra em si e o triunfo dos puritanos fez diminuir a onda migratória, pois agora existia a esperança de estabelecer a comunidade santa não só nas longínquas praias americanas, mas também na própria Inglaterra. Embora simpatizassem com os rebeldes na Inglaterra, as colônias mantiveram-se neutras, dedicando-se a estender seus territórios e consolidar suas instituições. Portanto, a restauração dos Stuart não foi para elas o golpe que poderia ter sido. Pouco mais tarde, James II tentou consolidar várias das colônias no que chamou o “Domínio da Nova Inglaterra”. Todavia, sua deposição colocou fim a esse projeto e as colônias recuperaram muitos de seus antigos privilégios, ainda que sob estruturas diferentes. Foi daí que se impôs a tolerância religiosa, não pelo desejo dos colonos, mas por decisão da coroa.

Entretanto, as colônias puritanas da Nova Inglaterra (que ficaram consolidadas sob os nomes de Massachusetts e Connecticut) viram-se sacudidas por várias controvérsias teológicas. A principal dificuldade estava em que o que os puritanos, ao mesmo tempo que batizavam crianças, insistiam na necessidade de uma experiência de conversão para ser verdadeiramente cristão. Que sentido tinha então o batismo? Não seria melhor, como os batistas, que a pessoa tivesse essa experiência? Essa solução, que, como veremos mais adiante, alguns adotaram, proporcionou aos puritanos sérias dificuldades. Com efeito, seu propósito era fundar uma sociedade que se guiasse pelos princípios bíblicos – como alguns diziam “um pequeno modelo do Reino de Deus sobre a terra”. Tal coisa somente era possível se, como no antigo Israel, se fosse membro da comunidade por nascimento. Por esta razão, era necessário insistir no batismo dos “filhos do Pacto“, assim como Israel havia circuncidado os filhos de seu pacto quando ainda eram pequenos. Mas, por outro lado, se todos os batizados eram membros do pacto, como garantir a pureza de vida e da doutrina, que era tão importante para aqueles que tinham a experiência pessoal da graça redentora? Ainda mais, se somente os “filhos do Pacto” deviam receber o batismo, deviam ou não ser batizados os filhos daqueles que, embora batizados quando criança, nunca tinham tido a experiência da salvação? Assim se chegou ao que alguns chamaram o “pacto do meio”, dizendo do estado daqueles que, tendo sido batizados, não haviam tido a experiência pessoal. Essas pessoas eram membros do Pacto e, portanto, seus filhos eram batizados. Mas, não eram membros da igreja em todo o sentido da palavra até que não tivessem a experiência que lhes faltava. Como é de se imaginar, estes problemas que descrevemos em poucas linhas, criaram amargos debates entre os colonos e contribuíram para enfraquecer o espírito de otimismo que havia reinado nos primeiros anos.

Também houve controvérsias quanto ao modo como as igrejas deviam se governar e, em particular, quanto ao relacionamento entre elas. Por fim, chegou-se a um sistema de governo congregacional. Mas a independência das congregações era limitada, porquanto se fazia necessário aceitar uma Confissão de Fé, que era apenas uma revisão da de Westminster e as autoridades civis ficavam encarregadas de castigar quem se afastasse dela.

Um dos mais tristes episódios na história dessas colônias foi o dos “bruxos” de Salem, em Massachusetts. Antes de 1692, existiram vários processos de bruxaria nas colônias e três pessoas foram enforcadas em Massachusetts devido a supostas práticas de feitiçaria. Mas, nesse mesmo ano de 1692, aparentemente baseados em falsas acusações de uns jovens que somente desejavam distrair-se, começaram a circular rumores sobre a existência de um forte círculo de feiticeiros em Salem. Logo os rumores tornaram-se histeria. Por fim, vinte pessoas foram enforcadas (catorze mulheres e seis homens). Além disso, várias morreram na prisão. Os cárceres transbordavam de acusados e muitos confessavam práticas de feitiçarias e acusavam outros porque assim conseguiam o perdão para sua vida. Quando as acusações chegaram a personagens mais elevadas, como membros mais distintos do clero, mercadores e a esposa do governador, as autoridades concluíram que tinham exagerado e puseram fim às investigações. Vinte anos mais tarde, os tribunais de Massachusetts determinaram que tinham cometido uma grave injustiça, ordenando que se indenizassem as famílias das vítimas.

Durante todo este tempo, alguns colonos mostraram interesse na evangelização de seus vizinhos, os índios. Uma das mais notáveis manifestações desse interesse foi a obra da família Mayhew, que a partir de 1642, recebeu a ilha conhecida como “Martha’s Vineyard”. Lá, dedicaram-se à conversão e educação dos índios do lugar. Continuaram essa obra pelo espaço de cinco gerações, até que, em 1806, morreu Zacarias Mayhew, o último desses notáveis evangelistas.

Muito maior impacto teve a obra de João Eliot, que, em 1646, com o apoio da Companhia de Massachusetts, começou a trabalhar entre os moicanos. Eliot estava convencido de que os índios eram as dez tribos perdidas de Israel e com suas conversões se cumpririam certas profecias antigas. Por essa razão, organizava os seus convertidos em aldeias, nas quais se aplicava a lei mosaica. Além disso, ensinando artes agrícolas e mecânicas, guiava-os no estudo da Bíblia, que havia traduzido para o seu idioma (com esse propósito, estudou o idioma com lentidão e produziu um modo de escrevê-lo). Eliot fundou catorze aldeias e outros que seguiam seus métodos fundaram várias outras.

Em meados de 1675, alguns dos índios não convertidos, sob a direção de um cacique a quem chamavam “o rei Felipe“, decidiram pôr fim aos abusos de que eram objetos por parte dos brancos, e à contínua e progressiva invasão de suas terras. Nessa “Guerra do Rei Felipe”, muitos dos índios convertidos dominaram os grupos dos brancos. Apesar disso, centenas deles foram arrancados de suas aldeias e obrigados a viverem aglomerados em uma ilha na Baía de Boston. Alguns brancos, convencidos de que todos os índios eram seus inimigos, mataram quantos puderam. Por fim, quando os colonos derrotaram os índios, os que se renderam foram feitos cativos e repartidos entre os brancos – as mulheres e as crianças como serviçais nas colônias, os homens como escravos, eram exportados ao Caribe e África. Quase a totalidade da obra de Eliot perdeu-se em meio a tais contratempos.

Rhode Island e os batistas

Resultado de imagem para Roger WilliamsA intolerância religiosa que existia nas colônias puritanas, logo obrigou alguns a abandoná-las. O mais famoso destes foi Roger Williams que chegou a Massachusetts em 1631. Após negar-se a servir como pastor em Boston, declarou que os puritanos dessas colônias equivocaram-se ao darem aos magistrados civis a autoridade de fazer cumprir os mandamentos que são ligados ao relacionamento da pessoa com Deus. A autoridade dos magistrados devia limitar-se, segundo Williams, aos mandamentos que se relacionavam com a maneira dos seres humanos tratarem uns aos outros. Além disso, dizia Williams, as terras que os colonos reclamavam para si, pertenciam, na realidade, aos índios, sendo o estabelecimento da colônia, portanto, uma usurpação. Estas e outras ideias que então pareciam radicais, o fizeram “persona non grata” em Boston e partiu para Plymouth, onde passou dois anos, quando estabeleceu boas relações com os índios vizinhos. Depois, foi pastor em Salem que pertencia a Massachusetts. Mas quando tratou de fazer com que sua igreja se separasse das do resto da colônia, as autoridades decidiram deportá-lo. Então Williams fugiu de Massachusetts e se fixou com um pequeno grupo de amigos, primeiro em terras que pertenciam a Plymouth, depois em outras na Baía de Narragansett que comprou dos índios. Fundou lá a colônia de Providence – hoje capital do Estado de Rhode Island – a base do postulado da liberdade de consciência.

Para Roger Williams, essa liberdade era prova da obrigação que os humanos têm de adorar a Deus. Essa adoração deve ser sincera e, portanto, todo intento em forçá-la, na realidade a impossibilita. Como consequência de tais opiniões, Williams e seus companheiros decidiram, desde o princípio, que em sua nova colônia haveria liberdade de consciência, e os direitos de cidadania não se limitariam com base nas opiniões religiosas das pessoas.

O argumento de Williams, em prol da liberdade de consciência, foi exposto em seu tratado publicado em 1644, Discussão da sangrenta doutrina da perseguição por causa da consciência. Pouco depois, um dos principais pastores de Massachusetts contestou-lhe em outro tratado, A sangrenta doutrina lavada e embranquecida no sangue do Cordeiro.

Entretanto, outros haviam frequentado as redondezas de Providence por motivos semelhantes. No final de 1637, a profetisa Ana Hutchinson foi expulsa de Massachusetts, entre outras razões, por ter pretendido receber revelações pessoais. Ela e outras dezoito pessoas fundaram a comunidade de Portsmouth em uma ilha perto de Providence, também baseados na liberdade de consciência. Pouco depois, um grupo procedente de Portsmouth fundou Newport no outro extremo da mesma ilha.

Estas comunidades cresceram rapidamente com o fluxo de pessoas e ideias batistas, quakers, etc., procedentes das colônias puritanas. Mas, até então, seu único direito se baseava em haver comprado suas terras dos índios e parecia razoável que seus vizinhos puritanos tratassem de desfazer o que chamavam “a fossa da Nova Inglaterra”. Por isso, Williams viajou à Inglaterra e, em 1644, obteve do Parlamento autorização necessária para dar legalidade à nova colônia diante das autoridades inglesas. Os diversos povoados ficaram unidos sob o nome de “Plantações de Providence”. Williams e os seus deram à nova colônia um governo democrático. Após a restauração dos Stuart, Carlos II confirmou o fato.

Ao tratar sobre a revolução puritana na Inglaterra, dissemos que, entre os muitos grupos que surgiram nessa época, contavam-se os batistas. Ainda que algumas das ideias destes eram parecidas com as dos anabatistas do continente europeu, não parece que na realidade as tomaram deles, mas, verdadeiramente, do estudo intenso do Novo Testamento e do desejo de conformar-se a todas as suas práticas, que eram características do puritanismo. Alguns destes batistas ingleses passaram um tempo exilados na Holanda e regressaram à Inglaterra imbuídos de ideias arminianas. Outros permaneceram na Inglaterra e continuaram participando do calvinismo que era o contexto comum dos diversos movimentos puritanos. Assim, surgiram duas classes de batistas; os “gerais” e os “particulares”. Os “batistas gerais” recebiam esse nome porque sustentavam, como os arminianos, que Jesus Cristo havia morrido por todo o gênero humano. Os particulares sustentavam frente a eles a postura do calvinismo ortodoxo, segundo o qual Jesus Cristo morreu unicamente pelos que estavam predestinados à salvação.

A igreja que Williams dirigia em Providence tornou-se batista. Um de seus membros batizou Williams, que, por sua vez, lhe batizou e aos demais. Mas o próprio Williams não continuou muito tempo no seio daquela igreja, pois suas ideias iam se tornando cada vez mais radicais. Seus contatos com os índios, que mostravam um respeito inusitado entre os brancos dessa época, o levaram a dizer que, talvez, a religião dos índios era tão aceita aos olhos de Deus como a dos cristãos e que, em todo caso, os índios não tinham que se tornar cristãos para alcançarem a salvação.

Isto não foi do agrado de alguns de seus concidadãos em Providence e muito menos dos puritanos de Massachusetts e as demais colônias. Mas Williams foi mais longe, movendo-se progressivamente para um espiritualismo absoluto que o levou a declarar que todas as igrejas eram falsas ao interpretar as Escrituras em um sentido puramente “espiritual”.

Entretanto, os batistas de Providence tinham suas próprias controvérsias. Alguns adotavam o arminianismo dos “batistas gerais” e outros optaram pelo calvinismo dos “particulares”. Posto que os arminianos insistiam também na prática da imposição de mãos, baseados em Hebreus 6:1-2, onde se mencionam seis “princípios” da fé cristã, passou-se a chamá-los também de “batistas dos seis princípios”; e aos calvinistas “batistas dos cinco princípios”.

O movimento batista estendeu-se por todas as colônias, apesar de perseguido em várias delas. Congregações inteiras foram expulsas de Massachusetts sem que com isso se tenha conseguido deter o suposto contágio, que alcançou até as mais prestigiadas pessoas da comunidade, como o presidente de Harvard. Pouco a pouco, segundo se foi abrindo caminho à tolerância religiosa, os grupos batistas surgiram na superfície e mostraram quanta estabilidade haviam conseguido. De início, os batistas gerais tiveram maior êxito. Mas ao chegar o Grande Avivamento, de que trataremos mais adiante, este deu ao calvinismo grande auge, com o resultado de que os batistas particulares ou dos cinco princípios ultrapassaram em muito aos gerais.

Maryland e o catolicismo

O principal centro do catolicismo nas colônias britânicas na América do Norte foi Maryland. Em 1632, Carlos I outorgou a Cecilio Calvert, Lord Baltimore, os direitos de propriedade e colonização sobre uma parte do território que antes havia pertencido a Virgínia. Lord Baltimore era católico e a concessão destas terras era parte da política de Carlos I de buscar ganhar a amizade dos dessa fé. Como já vimos anteriormente, no final, essa política o levou ao patíbulo. O que se desejava de imediato, era fundar uma colônia onde os católicos pudessem viver livres das muitas restrições e dificuldades que os assediavam na Inglaterra. Mas, a fundação de uma colônia estritamente católica não era possível, devido às circunstâncias políticas da Inglaterra e os sentimentos anticatólicos do país. Portanto, o que se promulgou para a nova colônia foi a liberdade religiosa. Em suas instruções a seus representantes em Maryland, Lord Baltimore, explicitamente ordenava que se abstivessem de tomar medidas que pudessem servir de escusa para ações contra os católicos por parte dos protestantes.

Os primeiros colonos desembarcaram em 1634 e a composição desse grupo já destacava a ordem social e religiosa que existia na colônia. Uma décima parte dos colonos, além de católica, era aristocrática. Os demais eram protestantes destinados a servirem os aristocratas católicos. Tendo por base o cultivo do tabaco, fundaram-se grandes plantações que conseguiram certa prosperidade. Os católicos, donos das terras e do poder, governavam na colônia. Mas a maioria era protestante. Essa situação fez com que a ordem social na colônia fosse extremamente instável e por isso Maryland viu-se repetidamente sacudida pelas repercussões das mudanças políticas que ocorriam na Inglaterra. Cada vez que as mudanças sucediam, os protestantes tratavam de arrebatar o poder da aristocracia católica. Quando Jaime II foi destituído, esses desejos tornaram-se realidade e o anglicanismo se converteu na religião oficial da colônia, sustentada pelos impostos. Ao mesmo tempo restringiam-se os direitos dos católicos.

O catolicismo conseguiu penetrar em outras colónias, particularmente na Pensilvânia, onde a política da liberdade religiosa estabelecida por Guilherme Penn lhe permitia firmar. Também durante o período que seguiu ao da restauração dos Stuart, o catolicismo conseguiu estender-se. Mas a queda dessa dinastia em 1688, lhe criou novas dificuldades e durante todo o resto do período colonial, os católicos não passaram sempre de pequena minoria.

Entre Nova Inglaterra e Maryland

As colônias que se fundaram entre Nova Inglaterra e Maryland – Nova York, Nova Jersey, Pensilvânia e Delaware – não foram desde o princípio refúgio de um grupo religioso particular. Já nos referimos a Guilherme Penn e seu “experimento” de Pensilvânia. Ainda que nessa colônia a inspiração básica era quaker, logo houve grande diversidade de confissões. O mesmo sucedeu em Delaware, território comprado por Penn do Duque de York, que, por isso, foi parte da Pensilvânia até 1701.

A história política e religiosa de Nova Jersey é complexa. Mas em termos gerais a parte oriental do território foi uma réplica do puritanismo estrito da Nova Inglaterra, apesar de que, no ocidente, foram os quakers que determinaram o caráter da sociedade. Nesta zona ocidental de Nova Jersey, como na Pensilvânia, houve liberdade de consciência e a colonização prosperou rapidamente. Mas, pouco a pouco, os quakers foram se convertendo em uma aristocracia, em cujas mãos estava boa parte dos bens naturais e a riqueza baseava-se na escravatura.

Os territórios que depois foi Nova York, foram colonizados primeiro pelos holandeses, cuja Companhia das Índias Ocidentais estabeleceu uma base na ilha de Manhattan. Estes colonos holandeses eram, em sua maioria, protestantes de tradição reformada que trouxeram sua igreja consigo. Os holandeses conquistaram em 1655 a colônia rival da Nova Suécia, que os suecos haviam estabelecido em Delaware e, por sua vez, foram conquistados pelos ingleses em 1664. Então, o que antes se chamou Nova Holanda passou a ser Nova York, ao mesmo tempo que os habitantes holandeses que, apesar de estarem descontentes com o antigo regime, permaneciam ali e se tornavam súditos britânicos. Com os ingleses chegou a Igreja Anglicana, que, no começo, não teve mais membros que o governador, suas tropas e achegados. Mas, pouco a pouco, ao aumentar a imigração britânica, cresceu o número tanto dos anglicanos como dos membros de outros grupos religiosos.

Em resumo, no final do século XVII e começo do XVIII, existia uma longa cadeia de colônias britânicas na América do Norte. Várias destas tinham sido fundadas, pelo menos em parte, por motivos religiosos. Mas, em todas elas a uniformidade confessional tendia a desaparecer e, em várias, a liberdade de consciência dava mostras de ser uma alternativa viável à intolerância dogmática que tanto sangue havia custado na Europa. Ao mesmo tempo, o regime escravista, os sistemas das grandes plantações, a exportação dos índios e muitos outros fatores, haviam feito esquecer o fervor religioso que tinha impulsionado muitos dos primeiros colonizadores.

O Grande Avivamento

O século XVIII trouxe à América do Norte as mesmas  correntes pietistas que já vimos na Europa e na Inglaterra. Os presbiterianos, por exemplo, viram-se divididos por uma controvérsia entre os do “grupo antigo”, que exigiam diante de tudo uma adesão estrita às decisões de Westminster, e os do “grupo novo”, para quem a experiência da graça redentora era primordial. Ainda que no final os dois partidos tenham voltado a se unir em uma só organização eclesiástica, por algum tempo a controvérsia deu em cisma. O que agravou esse cisma foi a onda pietista que recebe o nome de “Grande Avivamento“.

Resultado de imagem para Jonathan EdwardsDesde muito cedo, alguns entre os colonos norte americanos haviam insistido na importância para a vida cristã de uma experiência pessoal. Essa ênfase tomou maior ímpeto com uma série de acontecimentos que ocorreram a partir de 1734. Nessa época, apareceram em Northampton, Massachusetts, as primeiras manifestações do Grande Avivamento. O pastor dessa cidade era Jonathan Edwards, que havia se formado intelectualmente na Universidade de Yale e era calvinista convicto. Junto com os do “novo grupo”, Edwards cria também na necessidade de uma experiência pessoal de conversão e ele mesmo a tinha tido. Edwards levava vários anos pregando em Northampton sem obter resultados surpreendentes, quando ele mesmo maravilhou-se ao ver a resposta que sua pregação começou a provocar. Seus sermões não eram excepcionalmente emotivos, mas sim destacavam a necessidade de uma experiência de convicção do pecado e do perdão por parte de Deus. Nesse ano de 1734, as pessoas começaram a responder, alguns com demonstrações de profunda emoção, muitos com uma notável mudança de vida e com uma profundidade devocional até então insólita. Em poucos meses, o movimento varreu a comarca e chegou até Connecticut. Logo as experiências extraordinárias se fizeram menos frequentes e, após três anos, haviam cessado por completo. Sempre ficou a recordação daquele avivamento e a esperança de que ressurgirá.

Pouco depois, Jorge Whitefield visitou a Nova Inglaterra. Sua pregação causou grande agitação e novas experiências de conversões, unidas a um profundo sentimento de arrependimento e de gozo. Edwards, apesar de ser congregacionalista, convidou o anglicano Whitefield para pregar em sua igreja e disseram que enquanto o visitante pregava, o pastor chorava. A partir daí, o Grande Avivamento tomou força. Os ministros do “grupo novo” entre os presbiterianos se somaram a ele. Ao mesmo tempo que alguns pregadores seguiam o exemplo de Whitefield e iam pregando de lugar em lugar, muitíssimos pastores locais de diversas tradições (anglicanos, presbiterianos e congregacionalistas), começaram a pregar com novo brio em suas próprias igrejas e ali também se verificaram cenas extraordinárias. As pessoas arrependiam-se dos pecados em meio a lágrimas, davam gritos de entusiasmo pelo perdão alcançado e algumas até desmaiavam.

Por causa de tais experiências, seus inimigos acusaram o Grande Avivamento de destruir a solenidade do culto divino e de colocar a emoção em lugar do estudo e da devoção. Tal acusação não era de todo certa, pois muitos dos dirigentes do movimento não eram pessoas particularmente emotivas e, em todo caso, o que se procurava não era que os crentes tivessem constantes experiências religiosas. Tratava-se, sim, de uma experiência que ocorria de uma vez por todas, e que devia levar quem a tivesse a uma maior devoção e mais cuidadoso estudo das Escrituras. Em suas melhores manifestações, o que o Grande Avivamento buscava não era transformar o culto em uma série de experiências emocionais, mas fazer com que as pessoas tivessem uma experiência que desse novo sentido ao culto e à doutrina cristã.

Isto se pode ver nos sermões de Jonathan Edwards. Eles não tratam de um chamado à emoção, mas, ao contrário, de sermões altamente doutrinários, nos quais se discutem as mais profundas questões teológicas. A emoção era importante para Edwards. Mas essa emoção que chegava a seu topo na experiência da conversão, não devia ocultar a necessidade da doutrina certa nem do culto racional que Deus requer.

Os principais Iíderes do Grande Avivamento eram calvinistas convictos. Já mencionamos os conflitos de Whitefield com Wesley sobre este ponto. Jonathan Edwards escreveu sólida defesa da doutrina da predestinação, baseada na filosofia mais avançada da época. No final, as denominações que receberam melhor proveito não foram os presbiterianos nem os congregacionalistas, mas, sim, os batistas e os metodistas.

A princípio, os batistas se opuseram ao avivamento, que lhes parecia frívolo e superficial. O fato foi que o avivamento inclinou muitas pessoas para posições que concordavam com a dos batistas. Com efeito, se o fato de ter uma experiência de conversão era tão importante para a vida cristã, cabia pôr em dúvida o batismo das crianças. Logo, muitas pessoas de origem presbiteriana ou congregacionalista, levadas pela ênfase do avivamento sobre a experiência pessoal, acabaram por negar o batismo de crianças e rebatizaram-se, tornando-se batistas. Frequentemente, foram congregações inteiras as que deram esse passo. Assim, ainda que a princípio a maioria dos batistas das colônias eram “batistas gerais”, isto é, não calvinistas, após o avivamento os demais eram “particulares”.

Além disso, tanto os metodistas como os batistas sentiram-se impulsionados pelo Grande Avivamento, para as novas fronteiras. Nessa época, os brancos adentravam cada vez mais o país e foram os batistas e metodistas que, graças ao espírito do Grande Avivamento, tomaram para si a tarefa de pregar-lhes e prover-lhes a vida eclesiástica. Essa foi a principal razão pela qual essas duas denominações foram as mais numerosas nos novos territórios.

Em consequência daquele Grande Avivamento, boa parte do protestantismo norte americano reteve o ideal do “avivamento”. Várias décadas mais tarde, segundo veremos, houve outro grande despertar religioso. Em certos círculos protestantes norte americanos, chegou-se a pensar que o normal era se ter “avivamentos” periódicos e até houve igrejas que começaram a celebrar “cultos de avivamento” todos os anos.

Por último, o Grande Avivamento teve outras consequências de caráter político. Pela primeira vez, houve um movimento que se estendeu às treze colônias que depois seriam os Estados Unidos. Graças àquele movimento, começou a forjar-se um senso de comunidade entre as colônias que até então haviam existido em relativo isolamento uma das outras. Posto que, ao mesmo tempo, circulavam novas ideias com respeito aos direitos humanos e tinham lugar na Europa fatos portentosos, tudo isto se conjugou para produzir, tanto no Novo Mundo como na Europa, fortes sacudidas que apresentariam ao cristianismo novos desafios e novos horizontes. Todavia, a narração de tais acontecimentos corresponde ao próximo volume desta história.

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