A era dos novos horizontes (I) – horizontes políticos: os Estados Unidos

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos novos horizontes – Vol. 9. São Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª ed.), pág. 017 a 056.

“Aqui termina o século XVIII. O século XIX começa com uma bela brisa matutina do sudoeste; e o horizonte político também aparece promissor sob a administração de Jefferson… com o avanço irresistível dos direitos humanos, a erradicação da hierarquia, da opressão, da superstição e da tirania sobre o mundo…”

(Diário de Nathaniel Ames, 31 de dezembro de 1800.

 

Os últimos anos do século XVIII e os primeiros do XIX trouxeram consigo uma série de mudanças políticas que sacudiram a Europa e o Hemisfério Ocidental. Em termos gerais, essas mudanças foram o resultado da convergência das novas ideias políticas a que nos referimos no volume anterior, com os interesses da pujante burguesia. Durante a segunda metade do século XVIII, tanto na França, quanto em todo o Hemisfério Ocidental, uma nova classe havia feito crescer o seu poder econômico. Na França, tratava-se da burguesia, que havia conseguido maior notoriedade com o crescimento das cidades, do comércio e da indústria. No Hemisfério Ocidental, a nova riqueza devia-se principalmente à agricultura e ao comércio que resultava dela, e que deu origem a uma abastada classe crioula, que bem poderia chamar-se de nova aristocracia. Os interesses dessa aristocracia, e os da burguesia francesa, chocavam-se com os da velha aristocracia por nascimento. Na França, os burgueses, e por trás deles os artesãos e outras classes sociais mais baixas, viam boa parte do produto dos seus esforços acabar nas arcas da coroa e dos nobres, que esbanjavam  dinheiro em passatempos e diversões. No Novo Mundo, a aristocracia crioula, e junto com ela as classes mais baixas, suspeitavam das autoridades europeias, cujo interesse parecia ser enriquecer a velha aristocracia por nascimento, com base no produto de seus esforços. Por fim, esse choque de interesses levou à independência dos países americanos e à Revolução Francesa. Neste capítulo, trataremos da América do Norte, para no próximo abordarmos a França e depois a América Latina.

A independência das Treze Colônias

Ao terminar o volume anterior, vimos como, por diversas vezes e variados meios, os ingleses haviam estabelecido na costa atlântica da América do Norte uma série de colônias, e como vários acontecimentos haviam paulatinamente criado um certo sentimento de comunidade entre treze delas. Visto que embora durante o século XVIII, a Inglaterra passara por um período de grandes incertezas políticas – recorde-se a revolução puritana e a deposição dos Estuardo – foi pouco o que ela quis ou pôde fazer para impor a sua vontade e seus interesses às suas colônias ultramarinas. Por isso, essas colônias, algumas das quais haviam gozado, desde o princípio, de certo grau de autonomia, acostumaram-se a dirigir os seus próprios destinos, particularmente o seu comércio, não segundo os interesses da metrópole, mas segundo os delas próprias. Muitas das leis elaboradas na Inglaterra, para regular o comércio das colônias, cumpriam-se apenas pela metade, e outras eram simplesmente omitidas.

Já no fim do século XVIII, o governo britânico começou a tomar medidas para governar as colônias de maneira mais direta, e a partir de então, os conflitos foram se tornando cada vez mais agudos. As principais causas de desavença foram três. Uma delas foi a presença de dezessete regimentos britânicos nas colônias. Posto que a defesa das colônias não parecia requerer contingente militar tão forte, muitos os viam como um instrumento de repressão nas mãos das autoridades britânicas e como uma ameaça às liberdades a que os colonos estavam acostumados. A presença desses regimentos foi uma das principais causas do segundo motivo de atrito: os impostos. As autoridades da metrópole determinaram que as colônias deviam cobrir uma parte substancial dos gastos com esses regimentos, assim como com outras funções do governo. Com este propósito estabeleceram nas colônias uma série de impostos que se tornaram altamente impopulares. Visto que na Inglaterra se aceitara, havia muito tempo, o princípio de que o lançamento de tributos devia ficar nas mãos de uma assembleia representativa (o parlamento), os colonos sentiam-se justificados em sua negativa de aceitar os impostos que a metrópole determinava sem lhes consultar. Por fim, a terceira causa de conflitos foi a questão das terras dos índios. Movidas por uma série de considerações tanto morais quanto de conveniência, as autoridades britânicas proibiram a ocupação de territórios localizados além dos montes Apalaches. Esta era uma lei impopular nas colônias, visto que muitos pobres desejavam estabelecer-se como agricultores nas terras que agora se encontravam vedadas, enquanto que entre a aristocracia existiam especuladores que haviam formado companhias para explorar esses territórios. De fato, vários dos capitães da independência dos Estados Unidos tinham inversões nessas companhias.

Por todas estas causas, a tensão entre as colônias e a metrópole foi aumentando. Às medidas cada vez mais severas, os colonos respondiam com uma desobediência cada vez mais obstinada. Em 1770, as tropas inglesas abriram fogo sobre uma multidão, em Boston, e cinco pessoas foram mortas. Diante das ameaças desses regimentos estrangeiros, as milícias coloniais se tornaram mais ativas e aumentaram o seu material de guerra. Em 1775, quando um contingente britânico se dispunha a destruir um arsenal colonial, a milícia ofereceu-lhe resistência, e com isso começou a Guerra da Independência norte-americana.

Resultado de imagem para depois da independencia das treze colonias em 1776No dia 4 de julho de 1776, mais de um ano depois de iniciadas as hostilidades, os delegados das treze colônias, reunidos em um congresso continental em Filadélfia, proclamaram a sua independência da coroa britânica. Imediatamente, a França e a Espanha declararam-se aliadas da nova nação, enquanto que a Inglaterra pôde contar com o apoio de muitas tribos indígenas, que temiam que a independência daqueles estados unidos tivesse como consequência a sua destruição, como de fato aconteceu.

Por fim, em 1782, chegou-se a um acordo provisório, confirmado no ano seguinte, no Tratado de Paris. Segundo os termos desse tratado, a Inglaterra reconhecia a independência dos Estados Unidos, cujo território se estendia até o Mississipi, e cedia a Flórida à Espanha. Por sua parte, os cidadãos norte-americanos deviam honrar as dívidas que tinham para com os súditos da coroa britânica, e medidas seriam tomadas para proteger os direitos de quem, nas colônias, se havia demonstrado fiel à coroa. Portanto, como em tantos outros episódios da história do hemisfério ocidental, os verdadeiros perdedores daquela guerra acabaram sendo os índios, cujas terras foram ocupadas imediatamente por aquela nova nação.

Tudo isto teve grande impacto na vida religiosa estadunidense. Boa parte da ideologia que serviu de base para o movimento separatista, e para o estabelecimento da democracia capitalista norte-americana, consistia de uma religiosidade “ilustrada” e antidogmática, como a que vimos surgir na Europa, conforme relatado no volume anterior desta obra. O “culto à razão” difundiu-se entre a aristocracia crioula, e junto com ela uma atitude de ceticismo para com tudo o que não fizesse parte de uma “religião natural“, ou no melhor dos casos, de um “cristianismo essencial“. Por conseguinte, as doutrinas dos diversos grupos eclesiásticos deviam ser abandonadas ou relegadas a segundo plano. A Providência era sobretudo um princípio de progresso. A nova nação era prova palpável do progresso humano. As doutrinas e as práticas eclesiásticas, exceto no que era absolutamente essencial, pareciam ser restos de uma época passada, lastro desnecessário que se opunha ao progresso universal. Diante de tais ideias da parte de muitos dos principais personagens da nova república, não é de estranhar que logo boa parte da população estivesse participando delas.

Estas ideias tomaram forma institucional em dois movimentos, a princípio independentes, mas que se entrelaçaram: o unitarismo e o universalismo. O primeiro surgiu praticamente junto com a independência norte-americana, e principalmente no seio de igrejas anglicanas e congregacionais que não estavam dispostas a seguir a ortodoxia tradicional. Embora essas igrejas tivessem recebido o nome de “unitárias” ou “unitarianas”, porque rejeitavam a doutrina da Trindade, o fato é que elas diferiam da ortodoxia em muito mais do que isto. Elas eram essencialmente racionalistas, que sublinhavam a liberdade e o intelecto humanos frente à ênfase mais tradicional no mistério divino e no pecado. Em geral, o movimento unitário disseminou-se principalmente entre as classes mais elevadas da sociedade mercantil da Nova Inglaterra.

O universalismo, em outras palavras, a doutrina segundo a qual todos hão de se salvar, foi introduzido nos Estados Unidos, pouco antes da independência, por metodistas ingleses que se haviam convencido de que a doutrina da eterna perdição de alguns negava o amor de Deus. Pouco depois da independência, eles organizaram na Nova Inglaterra a sua primeira igreja. Posteriormente, os unitários e os universalistas se uniram. Foi principalmente entre unitários que surgiu o movimento dos “transcendentalistas”, cujo principal expoente foi Ralph Waldo Emerson. Nesse movimento se misturavam as ideias do romantismo e do idealismo europeus. O que se sublinhava era a capacidade do indivíduo de se conhecer a si mesmo, como meio de entender o universo e o seu propósito. Como o unitarismo, o transcendentalismo conseguiu os seus principais adeptos entre as classes altas, embora várias de suas ideias pouco a pouco tenham penetrado em todo o país.

Contudo, a principal dificuldade que as diversas igrejas das treze colônias tiveram de enfrentar foi a de suas relações com a Grã-Bretanha. Como era de se esperar, a que mais sofreu devido às suas conexões com a metrópole foi a Igreja da Inglaterra. Desde muito antes da independência, havia quem considerasse os bispos anglicanos como agentes da coroa e, portanto, se opunham a que se nomeassem bispos para as colônias. Quando aumentaram as tensões entre estas e a metrópole, a Igreja da Inglaterra se distinguiu pelos muitos partidários da coroa que nela havia. Como consequência da guerra e da independência norte-americana, várias dezenas de milhares de anglicanos partiram para a Inglaterra e o Canadá. Por fim, em 1783, os anglicanos que permaneceram no país organizaram a Igreja Protestante Episcopal, que incluía boa parte da aristocracia americana.

A princípio, o metodismo sofreu reveses parecidos e por causas semelhantes. John Wesley era partidário decidido da coroa, e exortou os metodistas norte-americanos a obedecerem os editos reais. Depois da declaração de independência, todos os pregadores metodistas ingleses, exceto Asbury, regressaram à Grã-Bretanha. Por estas razões, os metodistas tornaram-se impopulares entre os patriotas norte-americanos. Todavia, graças à tenacidade de Asbury, o metodismo norte-americano recuperou a sua própria forma e independência, e recrutou novos pregadores. Por fim, em 1784, na “Conferência de Natal”, organizou-se a Igreja Metodista Americana, com sua hierarquia própria, separada tanto da Igreja Episcopal quanto do metodismo britânico. Ao contrário deste último, o metodismo norte-americano ficou debaixo da direção de bispos, cuja autoridade era grande. A partir de então, e por várias décadas, o metodismo continuou crescendo no país.

O outro grupo que obteve grande crescimento nos primórdios da independência foi o dos batistas, cujo número aumentou notavelmente na Virgínia e outras regiões do sul, e dali se estendeu para os novos territórios de Tennessee e Kentucky.

As outras igrejas seguiram diversos rumos. Os congregacionais, apesar do grande prestígio que lhes havia dado o seu apoio à revolução, só se estenderam para os territórios colonizados a partir da Nova Inglaterra. Os presbiterianos tiveram algum crescimento, embora não tanto quanto os metodistas e os batistas. As demais denominações dedicaram-se a reorganizar-se, segundo requeria a nova situação política, e a reparar os danos causados pela guerra.

Esta palavra que acabamos de empregar, “denominação”, representa uma das características principais do cristianismo que resultou da experiência norte-americana. A própria palavra dá a entender que as diversas “igrejas” são na realidade “denominações”; quer dizer, nomes diferentes que os cristãos dão a si próprios. Já indicamos que, para muitas pessoas, as diferentes doutrinas das igrejas eram questão de pouca importância, ou até de valor negativo. Estas ideias, levadas para o âmbito da vida eclesiástica, subentendiam que os distintos grupos ou “igrejas” não pretendiam ser “a igreja”, mas somente “denominações” que os cristãos davam a si mesmos. Daqui surge um modo de ver a igreja que se generalizou cada vez mais no cristianismo norte-americano: a Igreja verdadeira é invisível, e consiste de todos os crentes; as “igrejas” são organizações voluntárias de membros da Igreja, que se reúnem segundo as suas convicções e desejos.

Uma conseqüência prática deste modo de ver a “Igreja” e as “igrejas” é que os grandes debates que dividiram o cristianismo norte-americano não se limitaram a uma ou outra “igreja”, mas atravessaram as barreiras “denominacionais”. Assim, por exemplo, temas como a escravidão, as atitudes diante da teoria da evolução, o fundamentalismo, o liberalismo e as lutas raciais, dividiram várias denominações ao mesmo tempo, e os partidários de determinada posição uniram-se através das supostas barreiras denominacionais.

Um dos resultados mais interessantes desse modo de ver as “denominações” foi a formação dos “discípulos”. Os iniciadores desse movimento, Thomas Campbell e seu filho Alexander, não queriam fundar uma nova igreja; contudo, desejavam chamar todos os crentes à unidade cristã, mediante a proclamação do evangelho em sua pureza original. Alexander Campbell, que logo se tornou chefe do movimento, era um homem em quem se combinavam algo do racionalismo comum em sua época e um profundo sentido da autoridade do Novo Testamento. Por ele, boa parte da sua interpretação do Novo Testamento tomava forma parecida com a dos racionalistas, mas com um zelo que não se encontrava entre eles. Convencido de que a sua interpretação do cristianismo primitivo levaria à unida de cristã, Campbell lançou-se a um plano de reforma que, posteriormente, produziu uma nova denominação, a Igreja Cristã (Discípulos de Cristo). Devido às tensões presentes no pensamento do próprio Campbell, assim como a várias influências posteriores, os “discípulos” abrigaram, através da sua história, uma ala racionalista e uma outra muito mais conservadora. Todavia, em geral, todos conservaram o seu interesse original na unidade cristã.

A imigração

As treze colônias que, ulteriormente, vieram a ser os Estados Unidos, haviam sido fundadas por imigrantes, em sua maioria da Inglaterra, mas também da Alemanha e outras regiões da Europa. Contudo, já quase no fim do século XVIII, e durante o século XIX, desencadeou-se uma grande onda migratória da Europa para os Estados Unidos. Isto se deveu, em parte, às drásticas mudanças que estavam acontecendo na Europa – as guerras napoleônicas, as convulsões sociais causadas pela industrialização, a tirania de alguns regimes, etc. e, em parte, às grandes extensões de terra que pareciam estar disponíveis ao ocidente da nova nação. A outra grande imigração, a involuntária, dos escravos procedentes da África, também assumiu novas dimensões, segundo foi aumentando a necessidade de mão de obra barata.

As consequências de tudo isto para as igrejas norte-americanas foram notabilíssimas. Assim, por exemplo, a Igreja Católica, que por ocasião da independência não contava senão com uma pequena fração da população, nos meados do século XIX havia se tornado a mais numerosa de todas as igrejas do país. A princípio, quase todos os católicos norte-americanos eram de origem inglesa, aos quais, depois, se juntaram franceses e alemães. Porém, por volta de 1846, houve uma grande fome na Irlanda, que durou várias décadas, e logo os imigrantes irlandeses e seus descendentes tornaram-se o grupo mais numeroso dentro da Igreja Católica. Tudo isto, por sua vez, ocasionou tensões dentro dessa igreja, tanto a nível local como nacional. Na paróquia, os diversos grupos de imigrantes viam na igreja um dos principais meios de manter as suas tradições culturais e, por isso, os irlandeses queriam paróquias e sacerdotes irlandeses, ao mesmo tempo que os alemães os queriam alemães, e assim por diante. Em nível nacional, logo começou a haver lutas pelo poder da parte dos diversos grupos, porque, por exemplo, os católicos irlandeses não estavam dispostos a se submeter a uma hierarquia completamente inglesa. Estas tensões continuaram através dos anos, à medida que outros grupos foram sendo acrescentados à grei católica: os italianos, os poloneses e outros por imigração; os franceses da Luisiana, pela compra desse território, e os hispânicos do México e Porto Rico, por conquista militar.

Tudo isto deu origem a um catolicismo tipicamente norte-americano, que difere do catolicismo de outros países, precisamente por sua diversidade cultural e pela forma como essa diversidade e as tradições democráticas do país limitaram o poder tradicional da hierarquia. Assim, houve paróquias que se negaram a aceitar um pastor de outra origem cultural, e a hierarquia viu-se obrigada a ceder às suas exigências. Pelo menos até data bem avançada no século XX, continuaram existindo essas tensões no seio da Igreja Católica norte-americana.

Ku-klux-klanO crescimento da Igreja Católica também criou uma forte reação em vários centros. Já no princípio do século XIX, havia pessoas que se opunham à imigração ilimitada de católicos, alegando que a democracia norte-americana, de origem protestante, era incompatível com o catolicismo romano e seu conceito hierárquico de autoridade, e que o crescente número de católicos era uma ameaça para a nação. Mais tarde,Ku Klux Klan desencadeou o seu fanatismo xenófobo, não apenas contra os negros, mas também contra os católicos e os judeus, tendo como base a mesma ideia de que os Estados Unidos haviam sido chamados para ser uma nação branca, protestante e democrática, e que estas três características eram inseparáveis. Quando, em 1864, o papa Pio IX condenou uma lista de oitenta “erros”, entre os quais se encontravam várias das teses fundamentais da democracia estadunidense, houve numerosos norte-americanos, tanto liberais como conservadores, que viram nesse ato uma confirmação de seus piores temores com respeito aos desígnios políticos do catolicismo romano. Tudo isto teve como conseqüência uma forte resistência e antipatia contra o catolicismo durante todo o século XIX e boa parte do século XX.

A outra confissão cristã que recebeu grande aumento em seu número de adeptos graças à imigração foi o luteranismo. A princípio, a quase totalidade dos imigrantes luteranos era de origem alemã. Mas depois somaram-se a eles fortes contingentes procedentes dos países escandinavos. Cada um desses grupos trouxe consigo as suas tradições próprias e, por isso, a principal agenda do luteranismo norte-americano, por muito tempo, foi o modo como esses diversos corpos eclesiásticos deviam relacionar-se entre si.

Além dos católicos e luteranos, os novos imigrantes representavam todos os outros matizes da tradição cristã: menonitas, morávios, hussitas, ortodoxos gregos e russos, etc. Todos esses, juntamente com os judeus, fizeram a sua contribuição ao complicadíssimo caleidoscópio religioso dos Estados Unidos.

Uma consequência notável das muitas ondas de imigração foi a fundação de comunidades religiosas. Desde os primórdios da colonização britânica na América do Norte, um dos impulsos que haviam trazido os europeus a estas plagas era a possibilidade de se criar uma nova sociedade em uma nova terra. Atrás dos peregrinos do Mayflower vieram milhares de pessoas com sonhos parecidos, embora diferentes em alguns pontos. Os morávios fundaram suas comunidades na Pensilvânia, e o mesmo fizeram os menonitas e outros anabatistas, buscando um lugar onde lhes fosse possível praticar seu pacifismo e separar-se da corrupção do resto da sociedade. Os pietistas alemães fundaram no mesmo estado a comunidade de Efrata, e várias outras, tanto na Pensilvânia como em Ohio. Em alguns casos, essas experiências comunitárias chegaram a extremos, como na comunidade de Oneida, onde se chegou a praticar não apenas a comunhão de bens, mas também o que chamavam de “matrimônio complexo”, em que todos os adultos diziam estar casados entre si.

Provavelmente o mais notável desses experimentos foi o dos shakers [ramificação de uma comunidade Quaker] ou “tremedores”, sob a direção da profetisa Ann Lee Stanley, conhecida dentro do movimento como Mãe Ann Lee. Em seus primórdios, os shakers tentaram viver segundo as suas aspirações na sua Inglaterra natal. Contudo, posteriormente as pressões sociais foram tais que eles decidiram emigrar para a América do Norte. Nos novos territórios, inspirados talvez pelos muitos outros exemplos que viam ao seu redor, eles decidiram levar uma vida comunitária. As doutrinas dos shakers, e suas práticas, eram únicas. A Mãe Ann Lee dizia ser a Segunda Vinda de Cristo, que havia regressado agora em forma feminina, como antes havia vindo em forma masculina. Ulteriormente todos se salvariam e, portanto, a função da comunidade de crentes era ser a vanguarda da salvação final. Nesse ínterim, era necessário abster-se do sexo, que era a raiz de todo mal. No culto, uma das características dos shakers era o baile com que adoravam a Deus. Durante umas poucas décadas, esse movimento floresceu, e fundaram-se várias comunidades. Como experiência de vida comunitária, eles foram um verdadeiro êxito, pois as condições de vida eram melhores do que as da sociedade circunjacente. Todavia, depois, por falta de convertidos e de novas gerações, eles desapareceram.

O Segundo Grande Avivamento

Timothy Dwight IV by John Trumbull 1817.jpegNo fim do século XVIII começou na Nova Inglaterra um Segundo Grande Avivamento, semelhante ao primeiro, do qual tratamos nas últimas páginas do volume anterior. Contrariamente ao que se poderia pensar, este avivamento não se caracterizou por grandes explosões emotivas, mas o que sucedia era que, de modo inusitado, as pessoas começavam a encarar a sua fé com maior seriedade, reformando os seus costumes para se ajustarem melhor às exigências dessa fé. A assistência aos cultos aumentou notavelmente, e eram numerosas as pessoas que contavam experiências de conversão. A princípio, este avivamento também não teve os matizes anti-intelectuais que caracterizaram outros avivamentos. Pelo contrário, ele abriu caminho entre muitos dos mais notáveis teólogos da Nova Inglaterra, e logo um de seus principais pregadores se tornou o presidente da Universidade de Vale, Timothy Dwight, neto de Jonathan Edwards. Nessa universidade, e em muitos outros centros docentes, notou-se um grande despertamento religioso, que encontrava eco no resto da comunidade.

Como resultado daquela primeira fase do avivamento, fundaram-se dezenas de sociedades com o propósito de difundir a mensagem do evangelho. Dentre elas, as mais importantes foram a Sociedade Bíblica Americana, fundada em 1816, e a Junta Americana de Comissionados para Missões Estrangeiras, fundada seis anos antes. Esta última foi o resultado de um compromisso mútuo que um grupo de estudantes havia feito alguns anos antes, quando, reunidos sobre um monte de feno, haviam decidido se dedicar às missões estrangeiras. Quando um dos missionários enviados por essa organização, Adoniram Judson, se tornou batista, os batistas norte-americanos sentiram-se chamados a deixar um pouco de lado o seu congregacionalismo e organizar uma convenção geral cujo propósito original era apoiar missionários batistas em outras partes do mundo.

Frances Willard.jpgOutras sociedades surgidas como resultado daquele avivamento se dedicaram a diversas causas sociais, tais como a abolição da escravatura (a Sociedade Colonizadora, de que trataremos mais adiante) e a guerra contra o álcool (a Sociedade Americana para a Promoção da Temperança, fundada em 1826). As mulheres foram ocupando uma posição cada vez mais destacada nesta última causa. Na segunda metade do século, sob a direção de Frances Willard, a União Feminina Cristã pró- Temperança tornou-se um instrumento na luta pelos direitos femininos. Em grande medida, portanto, o feminismo norte-americano tem suas origens no Segundo Grande Avivamento.

Entretanto, o avivamento havia rompido as barreiras da Nova Inglaterra e das classes mais educadas, começando a abrir caminho entre as pessoas menos instruídas, muitas das quais se dirigiam para os novos territórios do oeste. (É bom recordar que, segundo o Tratado de Paris, os Estados Unidos tinham o direito de colonizar todas as terras entre os Apalaches e o Mississipi.) Muitas das pessoas que se dirigiam para o oeste levavam consigo a fé vibrante que as primeiras fases do avivamento haviam despertado, e em seus novos lugares de residência procuraram manter viva essa chama. Embora ali a situação fosse diferente, logo o despertamento religioso assumiu um tom mais popular, mais emotivo, e menos intelectual, até o ponto em que, mais tarde, se tornou anti-intelectual.

Imagem relacionadaTalvez o passo mais notável dessa transformação tenha sido o avivamento de Cane Ridge, no estado de Kentucky, organizado – na medida em que o foi – pelo pastor presbiteriano da igreja local. Com o fim de despertar a fé dos habitantes da comarca, aquele pastor anunciou uma grande assembléia de avivamento, ou “reunião de acampamento”. Ao chegar o dia marcado, dezenas de milhares de pessoas se congregaram. Em uma região em que eram poucas as oportunidades para reunir-se e festejar, o anúncio daquele pastor atraiu toda classe de pessoas. Muitos foram por motivos religiosos. Outros foram para jogar e embriagar-se. Possivelmente muitos nem sabiam ao certo por que estavam indo. Além do pastor presbiteriano do lugar, havia outros pregadores batistas e metodistas. Enquanto uns jogavam e outros bebiam, os pastores pregavam. Um inimigo do movimento chegou a dizer que em Cane Ridge se conceberam mais almas do que as que se salvaram. Inesperadamente, começaram a ocorrer inauditas expressões de emoção, pois uns choravam, outros riam, outros tremiam, alguns saíam correndo, e não faltavam pessoas que latiam…

Aquela reunião perdurou por uma semana, e ao sair dali muitos estavam convencidos de que aquela era a verdadeira forma de dar a conhecer a mensagem do Senhor. A partir de então, nos Estados Unidos, quando se falou em “evangelização” ou em “avivamento”, pensava-se em termos parecidos com os de Cane Ridge. Logo em muitos círculos começou o costume de se organizar um “avivamento” todos os anos.

Embora a reunião de Cane Ridge tivesse sido organizada por um pastor presbiteriano, essa denominação não via com bons olhos as manifestações de emoção desenfreada que estavam acontecendo. Logo se tomaram medidas disciplinares contra os pastores que participavam de cultos no estilo de Cane Ridge, e a Igreja Presbiteriana, por isso, não teve nos novos territórios o impacto que tiveram os batistas e os metodistas. Estas duas denominações tiveram a ideia de celebrar “reuniões de acampamento” e, embora poucas tenham chegado aos extremos de Cane Ridge, esse foi o seu principal método de trabalho nos novos territórios. Em lugares em que, como dissemos, as pessoas não tinham ocasião de se reunirem em grandes multidões, o “avivamento” periódico preenchia uma grande necessidade, não só religiosa, mas também social.

Outra das razões do crescimento batista e metodista foi que essas duas denominações se demonstraram dispostas a apresentar a sua mensagem da forma mais simples possível, e a utilizar para isso pregadores de escassa preparação. Enquanto as outras denominações careciam de pessoal, porque não havia onde nem como ministrar instrução a candidatos, os metodistas e batistas estavam dispostos a utilizar a quem se sentisse chamado pelo Senhor. A vanguarda dos metodistas eram os pregadores leigos, a quem se permitia pregar, embora não recebessem ordenação. Alguns deles tinham vários lugares de pregação, no que se chamava um “circuito”. Os escassos pastores ordenados, que em sua maioria tinham mais instrução, nunca haviam sido capazes de alcançar o número de pessoas que os pregadores leigos influenciavam com suas mensagens simples, no idioma do povo. Tudo isto, todavia, se encontrava sob o governo rígido da “conexão” e de seus bispos. Os batistas, por seu lado, utilizavam sobretudo agricultores que viviam do seu trabalho e serviam de pastores na igreja local. Era essa igreja que os ordenava e lhes dava autorização para pregar. Quando se abria algum território novo, nunca faltava entre os novos colonos algum batista disposto a tomar sobre si as responsabilidades do ministério da pregação. Assim, por métodos diversos, os batistas e metodistas conseguiram arraigar-se nos novos territórios e, em meados do século [XIX] eram as principais denominações protestantes do país.

Uma consequência importante desse Segundo Grande Avivamento, a que a história da igreja se refere, foi que ele contribuiu para romper as barreiras da origem étnica. Entre os novos batistas e metodistas havia ex-luteranos alemães, ex-presbiterianos escoceses e ex-católicos irlandeses. Portanto, embora ainda em termos gerais, tenha continuado a ser verdade que as divisões denominacionais coincidiram com a origem de diversos grupos de imigrantes, essa coincidência tornou-se menor.

O “Destino Manifesto” e a guerra com o México

Desde a chegada dos “peregrinos” do Mayflower, existia a ideia de que as colônias britânicas da América do Norte haviam sido fundadas com o auxílio divino, para cumprir uma missão providencial. Para muitos dos imigrantes posteriores, a América do Norte era uma terra prometida de abundância e liberdade. Para os porta-vozes da independência, era uma nova experiência que marcaria a pauta que o mundo deveria seguir, no caminho para a liberdade e o progresso. Frequentemente, tais ideias se entrelaçavam com a da superioridade do protestantismo sobre o catolicismo. Desde muito cedo, a Inglaterra sentiu que as suas colônias estavam sendo ameaçadas pelos católicos espanhóis ao sul, e pelos católicos franceses ao norte, e por isso considerava as suas colônias como um baluarte da causa protestante. A tudo isto se juntava uma atitude racista que considerava como fato provado que a raça branca era superior, e que servia para justificar tanto a escravidão dos negros quanto o roubo das terras dos índios.[1]

Resultado de imagem para Destino ManifestoEmbora tudo isto estivesse presente na história norte-americana, desde muito antes, em 1845 apareceu pela primeira vez a frase destino manifesto, que resumia a convicção dos brancos norte-americanos de que o seu país tinha um objetivo assinalado pela divina providência de guiar o resto do mundo nos caminhos do progresso e da liberdade. Embora em 1823 o presidente James Monroe tivesse proclamado a sua famosa doutrina de que os Estados Unidos não tolerariam novas incursões colonizadoras europeias no hemisfério ocidental, o “destino” dos Estados Unidos parecia ser particularmente “manifesto” no que se referia a esse hemisfério. À mesma época, o Ministro Plenipotenciário do México nos Estados Unidos havia notado que muitos norte-americanos estavam convencidos de que o resultado final das façanhas de independência hispano-americanas seria que boa parte do continente acabaria debaixo do poderio dos Estados Unidos.

Quando apareceu pela primeira vez, em 1845, a frase “destino manifesto“, ela se referia particularmente à expansão do país na direção do Pacífico, ocupando o território de Oregon, que estava em disputa com a Grã- Bretanha, e todos os territórios que o México possuía à oeste dos Estados Unidos. Embora a questão acerca do Oregon se tenha resolvido pacificamente, através de negociações, o que ainda estava pendente era a posse do território mexicano.

O expansionismo norte-americano se havia manifestado desde antes, no caso do Texas. Esse território, que pertencia ao estado mexicano de Coahuila, havia sido invadido em 1819 pelo aventureiro James Long, senão com o beneplácito, pelo menos sem a oposição dos Estados Unidos. Essa invasão foi derrotada pelo exército mexicano, e pouco depois começou a imigração pacífica de norte-americanos para o Texas. A fim de dissuadir outros aventureiros como Long, o México começou a permitir a imigração de colonos norte-americanos, sempre que fossem católicos e que jurassem a sua adesão à sua nova pátria, o México. Entretanto, o que resultou foi uma grande imigração de norte-americanos que se faziam nominalmente católicos, a fim de obter terras, e que, como brancos, se sentiam superiores aos mestiços que governavam a província em nome do México. Entretanto, Estêvão Austin declararia que “durante quinze anos trabalhei como um escravo para americanizar o Texas“, e acrescentaria que seus competidores eram “uma povoação de índios, mexicanos e renegados, todos misturados e inimigos naturais dos brancos e da civilização“.

No caso do Texas, o “destino manifesto” dos Estados Unidos se uniu com a questão da escravatura e a da especulação de terras. Quando o México declarou a abolição da escravidão em 1829, os norte-americanos residentes no Texas, que estavam enriquecendo às custas do trabalho dos seus escravos, responderam com o subterfúgio de declará-los livres, para em seguida obrigá-los a assinar contratos de servidão vitalícia. Além disso, considerando que tal situação não podia perdurar, deram novo impulso às conspirações que já existiam anteriormente, com vistas a separar-se do México e unir-se aos Estados Unidos. Isto, por sua vez, ganhou o apoio dos estados escravagistas do Sul norte-americano, que começavam a temer as consequências do movimento antiescravagista e viam no Texas um possível aliado. Além disso, havia nos Estados Unidos e entre os americanos texanos, alguns que viam possibilidades de se enriquecerem às custas das terras dos mexicanos, se o Texas se tornasse independente, ou fosse anexado aos Estados Unidos.

O governo norte-americano mostrava-se interessado em adquirir o território texano, até o ponto que o legado estadunidense perante o governo do México tentou subornar um alto oficial mexicano oferecendo-lhe duzentos mil dólares para que ele fizesse gestões que resultassem na venda do Texas aos Estados Unidos.

Por fim estourou a guerra. Os mexicanos contavam com mais soldados, mas os texanos norte-americanos estavam melhor armados, com rifles cujo alcance era quase três vezes maior do que o dos mosquetes mexicanos. Na antiga missão EI Álamo, em San Antonio, menos de duzentos defensores fizeram frente a todo um exército mexicano. A luta foi feroz, pois além da superioridade de seus rifles, os rebeldes contavam com vinte canhões, frente aos dez dos mexicanos. Por fim, os últimos defensores se renderam e foram executados por ordem do Presidente do México, Santa Anna. A versão que correu nos Estados Unidos, e que posteriormente se tornou oficial, foi que eles haviam morrido lutando até o último homem. A partir de então o lema de “Remember the Alamo” (lembre-se de EI Álamo) tornou-se grito de guerra dos rebeldes, e foi usado nos Estados Unidos para recrutar reforços e arrecadar fundos. De fato, os historiadores têm mostrado que a maioria dos defensores de EI Álamo não eram verdadeiramente texanos, mas aventureiros recém-chegados, e que a mesma coisa acontecia com o exército rebelde que lutou pela causa da independência. Portanto, a rebelião texana tornou-se uma confrontação entre mexicanos e norte-americanos. Repetidamente, os primeiros venceram os últimos, mas, em abril de 1836, Sam Houston, comandando um forte contingente norte-americano, surpreendeu o quartel general de Santa Anna e se apoderou de sua pessoa. Diante disso, não restou ao presidente cativo outra saída, senão concordar com a independência do Texas. Pouco depois, Houston foi eleito presidente da República do Texas.

O México consentiu com essa decisão, contanto que o Texas continuasse sendo independente e não se anexasse aos Estados Unidos, pois conhecia os impulsos expansionistas que existiam nessa nação. Em 1844, esses impulsos obtiveram uma grande vitória com a eleição de James K. Polk para a presidência, e mesmo antes que o novo presidente tomasse posse do seu cargo, mediante resolução conjunta do Congresso dos Estados Unidos, o Texas passou a ser um estado norte-americano.

Contudo, isto não bastava para os desígnios de Polk e do partido expansionista. Lembre-se de que, como já registramos, 1845 foi o ano em que se cunhou a frase do “destino manifesto” estadunidense. Esse destino, e diversos interesses econômicos, requeriam a expansão dos Estados Unidos, pelo menos até o Pacífico. Para conseguir essa expansão, não havia outro meio senão provocar uma guerra com o México, e a política de Polk se engendrou com esse objetivo.

No entanto, havia nos Estados Unidos sentimentos que se opunham a uma possível guerra com o México, por crer que ela era injusta. Esses sentimentos haviam sido expressos em 1836 pelo ex-presidente John Quincy Adams, que declarou, perante a Câmara de Representantes, que nessa guerra “os estandartes da liberdade serão os do México; e os de vocês, fico ruborizado ao dizê-lo, serão os da escravidão”. Por essas razões, era necessário provocar o México, de tal forma que o povo norte-americano se sentisse agredido e requeresse vingança.

Com esse objetivo, o presidente Polk ordenou que um contingente militar, sob as ordens do general Zachary Taylor (mais tarde presidente da república) ocupasse o pequeno povoado de Corpus Christi, que se encontrava em uma faixa de terreno em disputa entre o México e os Estados Unidos. Anos mais tarde, o então tenente Ulysses S. Grant declarou: “Enviaram-nos para provocar uma guerra, mas era necessário que fosse o México que a iniciasse“. Quando os mexicanos se limitaram a protestar, sem atacar as tropas de Taylor, este recebeu ordens para adentrar o território em disputa, e continuou marchando nele até que os mexicanos, exasperados, abriram fogo. O presidente Polk, então, apresentou-se perante o Congresso norte-americano, e com base no ataque suspostamente não-justificado por parte do exército mexicano, conseguiu uma declaração de guerra. Grant, a quem citamos acima, estava convencido de que por trás de tudo isto havia uma conspiração para aumentar o número dos estados escravagistas.

A guerra foi breve. Taylor atacou Monterrey e, devido a numerosas baixas, viu-se obrigado a permitir que o exército mexicano se retirasse da cidade sem se render. Então Polk enviou reforços comandados pelo general Winfield Scott, que desembarcou perto de Veracruz, sitiou e invadiu a cidade, e marchou contra a capital. Nessa marcha tiveram lugar várias batalhas sangrentas, culminando com a de Chapultepec, onde os cadetes conhecidos na história mexicana como “meninos heróis” preferiram jogar-se num abismo a render-se ao exército invasor. Taylor entrou então vitorioso na capital. Embora o exército mexicano continuasse oferecendo resistência no interior do país, a guerra estava perdida, e então começaram as negociações com vistas a um tratado de paz.

Nos Estados Unidos, as opiniões estavam divididas quanto ao que se devia fazer. Uns poucos, em sua maioria cristãos de profunda convicção, continuavam declarando que a guerra era injusta, e que Deus não se agradaria dessas conquistas territoriais. Outros criam que o “destino manifesto” dos Estados Unidos devia levá-lo a anexar todo o território mexicano, e assim estender a essas terras os benefícios da democracia e do progresso estadunidenses. Muitos se opunham a tal anexação, não por considerá-la injusta, mas porque temiam a inclusão, no país, de número tão grande de católicos, índios e mestiços. Posteriormente, ainda contra a vontade do presidente Polk, que aspirava a maiores concessões territoriais, chegou-se ao tratado de Guadalupe-Hidalgo (1848). Nesse acordo, o México cedia aos Estados Unidos, em troca de quinze milhões de dólares, um território de mais de três milhões de quilômetros quadrados (os atuais estados de Novo México, Arizona, Califórnia, Utah, Nevada e parte do Colorado) e, além disso, reconhecia o Rio Grande como fronteira entre Texas e México. Os Estados Unidos, por sua parte, garantiam certos direitos aos mexicanos que decidissem permanecer dentro do território conquistado. Como nos muitos casos de acordos com os índios, esta segunda parte do tratado nunca se cumpriu cabalmente, e os mexicanos que permaneceram debaixo da soberania estadunidense bem depressa foram objeto de discriminação por parte dos novos residentes.

Para as igrejas norte-americanas, tudo isto teve varias consequências. Uma que se pode citar foi o debate que teve lugar dentro delas, acerca da justiça da causa estadunidense, que frequentemente se entrelaçou com outro debate que trataremos mais adiante, em torno da escravatura. Porém, uma vez firmado o tratado de Guadalupe-Hidalgo, quase todos os norte-americanos esqueceram os métodos por que eles haviam adquirido essas terras, e começaram a colonizá-las, como se não tivessem nenhum dono. Junto com os colonizadores foram pregadores e missionários de diversas igrejas, que viam em todos esses acontecimentos uma “grande porta” que Deus havia aberto para a pregação do evangelho. Semelhantemente ao que havia acontecido nos outros territórios recentemente tomados dos índios, a princípio foram os batistas e metodistas que conseguiram maior aumento no número de seus membros.

Para a igreja católica, a conquista dos novos territórios teve consequências diferentes. A principal foi que se agregou ao seu rol um número considerável de fiéis que pertenciam a uma cultura diferente da norte-americana. Em lugar de aceitar essa diferença, e procurar servir aos católicos de origem mexicana segundo as suas próprias tradições, a igreja católica estadunidense se dedicou à “americanização” desses fiéis. A partir de 1850, o catolicismo da região passou para as mãos da hierarquia norte-americana, e o número de sacerdotes de tradição hispana foi diminuindo. Além disso, alguns historiadores têm registrado um contraste entre os novos sacerdotes, que se dedicavam a servir principalmente as novas classes ricas de origem anglo-saxônica, e os velhos sacerdotes mexicanos, que demonstravam verdadeira compaixão pelo povo, e se ocupavam em ajudá-lo em problemas de toda sorte.

Isto se pode verificar no conflito entre o padre Antonio José Martinez, conhecido como “o cura de Taos”, e o vigário geral para o Novo México, Jean B. Lamy. Embora de origem francesa, Lamy trabalhava sob as ordens da diocese de Baltimore, e era amigo de muitos dos novos cidadãos da região, entre eles Kit Carson, famoso por seus abusos contra os mexicanos. Desde 1824, Martinez havia dirigido um seminário em Taos, onde se havia formado boa parte do clero do Novo México. Embora não fosse celibatário, muitos dos fiéis da região o tinham por santo, pois se ocupava assiduamente das necessidades dos pobres. O contraste com Lamy era notável, e logo este começou a insistir para que os sacerdotes mexicanos exigissem os dízimos e as primícias dos pobres. Martinez e os seus o contestaram, dizendo que era imoral tomar o dinheiro dos pobres, e se negaram a fazê-lo. Lamy excomungou o cura desobediente e seus seguidores, porém Martinez continuou administrando os sacramentos e servindo aos pobres. Depois de sua morte, em 1867, houve outros que continuaram a sua obra por algum tempo. Depois diminuiu o número de sacerdotes mexicanos, e a hierarquia eclesiástica se “americanizou”, a tal ponto que só bem mais tarde, no século XX, houve na região bispos de origem hispânica.

A questão da escravatura e a Guerra Civil

A questão da escravatura havia ferido a consciência norte-americana desde a era colonial. Quando se aproximou a época da independência, não faltaram as pessoas que sustentaram que a nova nação devia nascer limpa de tão execrável mal. Todavia, a fim de poder apresentar uma frente unida diante do inimigo britânico, a voz antiescravagista foi silenciada, e os Estados Unidos, ao esmo tempo que se proclamavam o país da liberdade, continuavam praticando a escravidão. A essa prática se opunham os Amigos, que em 1776 expulsaram do seu seio as pessoas que insistiam em ter escravos; os metodistas, que em sua Conferência de Natal de 1784, ao mesmo tempo que organizavam a igreja norte-americana, excluíam dela os donos de escravos; e os batistas, que não tomaram medidas semelhantes por carecer da organização necessária para tal, mas que sustentavam posturas abolicionistas.

Essas atitudes temporãs, no entanto, foram se modificando com o correr do tempo. Unicamente os Amigos, que não contavam com grande número de adeptos no sul do país, permaneceram firmes. Tanto os metodistas como os batistas, a fim de atrair os brancos do Sul, amoldaram-se progressivamente ao fato da escravidão, até o ponto em que, em 1843, havia cerca de mil e quinhentos escravos nas mãos de mil e duzentos ministros e pregadores metodistas.

Outras denominações adotaram posturas igualmente ambíguas. Por exemplo, em 1818, a Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana, ao mesmo tempo em que declarava que a escravidão era contrária à lei de Deus, declarava-se também contrária à sua abolição, e depunha um ministro por sustentar teses abolicionistas. Durante esses primeiros anos do século, os sentimentos antiescravagistas se faziam ouvir no Norte como no Sul. Em 1817, foi fundada a Sociedade Colonizadora, cujo propósito era arrecadar fundos para a compra de escravos, a fim de libertá-los e devolvê-los ao continente africano. Como consequência dos seus esforços, fundou-se na África a República da Libéria. Porem, de fato esse trabalho serviu, mais para libertar escravos do que para se desfazer de negros libertos. Apesar de todos os seus esforços, o número de escravos não diminuiu.

Pouco a pouco, o sentimento abolicionista foi se concentrando no Norte, enquanto que no Sul, onde a economia dependia da escravidão em grau muito maior, começou-se a buscar justificativas para continuá-la. A isto se acrescentava o temor dos brancos sulistas de que, uma vez libertados, os negros, que eram em número elevadíssimo, se tornassem uma ameaça. Tais opiniões pareceram confirmar-se com a rebelião que, em 1831, foi dirigida pelo pregador negro Nat Turner, e com outros episódios semelhantes. Logo boa parte da pregação no sul se dedicou a demonstrar como a escravidão era da vontade divina, e como era grande a ganância dos negros, que, se tivessem permanecido na África, nunca teriam ouvido a mensagem do evangelho. Enquanto isso, no Norte, o sentimento antiescravagista ia aumentando. A novela de Harrie Beecher Stowe, A cabana do Pai Tomás, sacudiu as consciências. Na Igreja Metodista os abolicionistas norte-americanos começaram a exigir que se regressasse às antigas posturas antiescravagistas. Quando em 1844 os abolicionistas conseguiram que a Conferência Geral condenasse o Bispo da Geórgia, que era dono de escravos, os metodistas sulistas se separaram do resto da igreja. No ano seguinte, fundaram a igreja Metodista Episcopal do Sul. Algo parecido aconteceu com os batistas, pois quando a sua agência missionária se negou a comissionar um elemento recomendado pela Convenção da Geórgia, que tinha escravos, os batistas desse estado e do resto do sul se reuniram para formar a Convenção Batista do Sul. Semelhantemente, em 1857, os presbiterianos do Sul se separaram da Igreja Presbiteriana e fundaram sua própria denominação. Todas essas divisões perduraram até o século XX, quando a Igreja Metodista conseguiu reunir-se. Também os presbiterianos voltaram a reunir-se, enquanto que os batistas do sul continuaram separados dos do norte. Das principais igrejas denominacionais, somente a católica e a episcopal conseguiram permanecer unidas, dando-se por desentendidas em relação ao conflito e seus motivos.

Em 1861, seis estados sulistas romperam com o resto da nação e fundaram os Estados Confederados da América. Pouco depois, nesse mesmo ano, estourou o conflito armado. Nessa guerra, tanto as igrejas do sul como as do norte apoiaram suas respectivas causas: as do norte proclamando que a escravatura era desumana, e as do sul argumentando que a Bíblia falava dela sem condená-la. Embora, a princípio, as tropas sulistas tivessem conseguido penetrar no norte do país, logo o curso da guerra mudou, e o principal campo de conflito foi o sul, que ficou devastado. Quando, por fim, a Confederação reconheceu a sua derrota, o seu ressentimento para com o norte era grande. E esse ressentimento aumentou na época da “Reconstrução”, quando, a pretexto de reconstruir o sul, numerosos nortistas se dedicaram a explorá-lo.

Nessas circunstâncias, as igrejas do sul preferiram permanecer separadas de suas supostas irmãs do Norte, e se tornaram porta-vozes da causa perdida. Entre os brancos do Sul havia grande temor dos negros libertos, e houve numerosos púlpitos dos quais se fomentou esse temor e até se chegou a conclamar os brancos a tomar medidas contra os negros. Quando esses temores deram origem à Ku Klux Klan e seus atropelos, não faltaram pregadores que manifestassem o seu regozijo. De fato, até ocasião bem avançada no século XX, boa parte dos membros do Klan eram também membros de igrejas.

Enquanto isso, ao período da Reconstrução seguiu-se um acordo tácito entre os magnatas econômicos do Norte e os brancos do Sul. Deu-se liberdade a estes últimos para dirigir os assuntos políticos e sociais da região, sempre que não servissem de obstáculos aos interesses nortistas no sul. O resultado foi que a região acabou convertida em colônia econômica do norte e reduzida a condições econômicas deploráveis. Como reação a essas condições, o ódio dos sulistas para com os brancos nortistas (os “yankees“) e para com os negros se exacerbou ainda mais.

Posto que os brancos sulistas não podiam exercer de maneira efetiva o seu ódio contra os “yankees”, eles o manifestaram contra toda ideia que procedesse ou parecesse proceder do Norte. Por isso, as igrejas continuaram separadas por muito tempo. Além disso, visto que tradicionalmente os principais centros docentes estavam no Norte, logo um anti-intelectualismo agudo se apossou da mentalidade sulista. Toda ideia que, de algum modo, pudesse proceder do Norte era rejeitada unicamente por essa razão. E, visto que muitas ideias novas vinham do Norte, o Sul se tornou cada vez mais conservador.

Por outro lado, o ódio contra os negros podia tornar-se efetivo. Durante o período da Reconstrução, o racismo sulista foi obrigado a se conter. Mas, depois, explodiu em uma série de práticas e leis, em prejuízo dos negros. Quando, em 1829, o Supremo Tribunal aprovou a segregação, declarando que os negros podiam ser tratados “separadamente, mas com equidade”, surgiu uma onda dessas leis, que receberam o nome de “leis de Jim Crow“. Foi negado aos negros o acesso ao voto, aos lugares públicos, à melhor educação pública, etc. Tais leis não foram ab-rogadas senão em meados do século XX.

Enquanto isso, as igrejas brancas do sul continuavam a sua mensagem e as suas práticas racistas. Recomendou-se que as abandonassem os negros que as haviam frequentado durante os tempos da escravidão. Embora essas mesmas igrejas rejeitassem a teoria da evolução, por considerá-la anti-bíblica, nelas se ouvia dizer às vezes que os negros eram “o elo perdido” entre o ser humano e o macaco. Até o século XX, quando por fim as diversas igrejas metodistas se reuniram, criou-se uma jurisdição separada para os negros. Depois, essa jurisdição se dissolveu e se integrou ao resto da igreja. Porém, até a data em que estas palavras estão sendo escritas, a Jurisdição Sudeste, que inclui os antigos territórios da Confederação, não elegeu ainda o seu primeiro bispo negro.

Como acabamos de dizer, as igrejas do Sul insistiram para que os negros, que a elas pertenciam, as abandonassem. Essa foi a origem de várias denominações negras, paralelas às denominações brancas. Foi esse particularmente o caso dos batistas, cujas igrejas negras depois se uniram na Convenção Batista Nacional, e dos metodistas, que formaram a Igreja Metodista Episcopal de Cor (C. M. E., que depois se chamou “Metodista Episcopal Cristã”).

Ao mesmo tempo, as igrejas brancas do Norte, particularmente a presbiteriana e a metodista, dedicaram-se a trabalhar entre os negros libertos do Sul. Assim, aconteceu que a maioria dos negros presbiterianos no Sul pertencia à igreja do Norte. E o mesmo acontecia com os metodistas antes da reunião das igrejas.

Richard AllenTodavia, também no Norte existiu a discriminação racial, e desde antes da Guerra Civil haviam surgido ali duas denominações negras que depois tiveram grande impacto entre os libertos do Sul: a Igreja Metodista Episcopal Africana e a Igreja Metodista Episcopal Africana de Sião. A primeira foi fundada por Richard Allen, um liberto que foi o primeiro negro ordenado diácono pelos metodistas norte-americanos. Allen organizou uma igreja metodista para negros em Filadélfia, porém repetidos conflitos com a hierarquia branca resultaram posteriormente na fundação de uma denominação separada para negros. Cinco anos mais tarde, em 1821, outro episódio semelhante, desta vez na cidade de Nova Iorque, deu origem à Igreja Metodista Episcopal Africana de Sião. Estas duas denominações desempenharam um papel importante entre os negros do Norte e, depois da Guerra Civil, entre os libertos do Sul. Ademais, elas se distinguiram por suas missões à África.

Estas duas igrejas, e as muitas outras resultantes da expulsão dos negros das igrejas brancas, logo se constituíram numa das principais instituições da sociedade negra. Visto que a única posição de prestígio a que os negros tinham acesso relativamente livre era o ministério, durante um século, muitos dos negros mais notáveis foram pastores. Em algumas dessas igrejas se pregava a submissão à injustiça reinante, ligada à espera da vida celestial. Em outras se pregava uma mensagem mais radical. Porém, todas contribuíram para dar à população negra o sentido de identidade e de coesão que cem anos mais tarde haveria de se manifestar em sua luta pelos direitos civis.

Da Guerra Civil à Guerra Mundial

Os anos que se seguiram à Guerra Civil testemunharam a complicação ainda maior dos problemas econômicos e sociais das décadas anteriores. O Sul, convertido em colônia econômica do Norte, se entrincheirou em seu racismo e anti-intelectualismo. No Norte, a imigração produziu um enorme aumento da população urbana, e as estruturas eclesiásticas se mostraram cada vez menos capazes de responder adequadamente ao desafio dessa população ou ao de muitos negros procedentes do Sul, que chegavam em busca de melhores condições de vida. No Oeste continuou a pressão inexorável sobre as terras dos índios, e a população de origem espanhola estava sendo objeto de humilhação cada vez maior.

Em meio a tal diversidade, um dos elementos que contribuíam para unificar o país era a ideia de que este tinha um destino providencial para o bem do resto da humanidade. Em geral, esse destino era visto em termos de superioridade racial, religiosa e institucional, ou seja, da superioridade da raça anglo-saxônica, da fé protestante e do governo democrático. Assim, por exemplo, já nos fins do século, o secretário geral da Aliança Evangélica, Josiah Strong, declarava que Deus estava adestrando a raça anglo-saxônica para um grande momento, “a competição final entre as raças, para a qual a anglo-saxônica está sendo preparada“. Então essa raça, que representaria “a mais ampla liberdade, o cristianismo mais puro e a mais elevada civilização“, cumpriria o seu destino de desapossar as mais fracas, assimilar outras e moldar as demais, até que houvesse “anglo-saxonizado a humanidade”. E esses sentimentos, expressos por um dos chefes da ala conservadora do protestantismo norte-americano, eram semelhantes aos dos chefes do liberalismo, que sustentavam que o protestantismo e o direito de pensar livremente eram a grande contribuição das raças nórdicas, em comparação com o catolicismo e a tirania das raças do Sul da Europa, e que, portanto, os nórdicos tinham a responsabilidade de civilizar as raças mais “atrasadas” do resto do mundo.

Tais ideias, entretanto, contrastavam com a realidade urbana dos próprios Estados Unidos, onde os novos imigrantes viviam em condições de promiscuidade e exploração terríveis, carentes de todo cantata com as igrejas, particularmente as protestantes.

O protestantismo respondeu a esse desafio de diversos modos. Um deles foi a fundação de várias organizações que se distinguiram por seu trabalho nas cidades. Delas, as que mais êxito tiveram foram as sociedades de jovens: a Young Men’s Christian Association (YMCA; no Brasil, ACM) para rapazes e a Young Women’s Christian Association (YWCA) para mulheres. Trazidas da Europa em meados do século XIX, essas instituições se distinguiram pelo modo como propiciavam vários serviços e programas, não somente religiosos, mas também de lazer e educação.

Outro modo pelo qual as igrejas protestantes responderam às necessidades das massas foi a escola dominical. Em uma época em que não se podia considerar como certo o fato de que as pessoas estudavam a Bíblia no seio de suas famílias, e em que o conhecimento das Escrituras parecia diminuir, esta instituição preencheu um grande vazio, ao ponto que chegou a haver igrejas em que a escola dominical passou a ter mais importância do que o culto. Em 1872, as principais denominações adotaram a prática de coordenar os textos bíblicos que estudavam a cada domingo, e isto por sua vez contribuiu para uma aproximação maior entre as igrejas.

Contudo, os principais métodos, através dos quais o protestantismo respondeu ao desafio urbano, foram a adaptação dos “avivamentos” ao contexto das cidades e a formação de novas denominações.

http://planteumasemente.files.wordpress.com/2008/09/dl-moody1.jpgA principal figura dos avivamentos urbanos em seus primeiros anos foi Dwight L. Moody. Ele era um vendedor de sapatos em Chicago, que se sentiu comovido com a falta de vida religiosa entre as massas populares daquela grande cidade. Primeiramente ele se dedicou a levar pessoas à sua igreja, que era congregacional. Mas, em 1861, decidiu dedicar-se inteiramente a suas atividades religiosas, e dois anos depois fundou em Chicago uma igreja independente. Ao mesmo tempo, ele se envolveu no trabalho da ACM, onde se distinguiu por seu zelo evangelístico. Foi em 1872, enquanto estava em Londres em virtude do seu trabalho com a ACM, que se viu convidado a pregar. O resultado foi tão bom que, a partir de então, Moody se sentiu chamado a pregar às grandes massas urbanas, primeiro na Inglaterra e depois nos Estados Unidos. O seu método constituía-se numa pregação simples e emotiva, conclamando as pessoas ao arrependimento e aceitar a salvação oferecida em Cristo Jesus. A sua mensagem tocava a alma das massas urbanas, embora não se ocupasse diretamente com os grandes problemas da cidade. Conforme Moody esperava, a conversão das massas levaria à melhora das condições de vida na cidade.

Logo Moody teve numerosos imitadores, uns com maior êxito do que outros. O “avivamento” tornou-se um dos fenômenos característicos das cidades norte-americanas. Os sucessores de Moody começaram a fazer uso das práticas de organização e publicidade que se utilizavam nas empresas comerciais. Muitos tomaram providências para conseguir popularidade, convertendo as suas campanhas em grandes espetáculos. Por tudo isso, já no fim do século, o movimento era fortemente criticado.

Resultado de imagem para William Booth e sua esposa Catherine MumfordA outra forma pela qual o protestantismo respondeu ao desafio urbano foi a criação de novas denominações, particularmente de inspiração wesleyana. Dentro da tradição metodista, tanto nos Estados Unidos como na Inglaterra, havia muitas pessoas que deploravam a maneira como a Igreja Metodista havia abandonado vários aspectos da pregação de Wesley. Isto havia acontecido paulatinamente, conforme o metodismo foi avançando na direção das classes médias, ocupando-se menos com os pobres, particularmente nas cidades. Na Inglaterra, isto deu origem ao Exército de Salvação, fundado pelo pregador metodista William Booth e por sua esposa Catherine Munford, também pregadora, pois uma das características do Exército de Salvação foi a sua ênfase na igualdade de sexos. O Exército de Salvação, ao contrário de muitas outras denominações surgidas de semelhantes impulsos, ocupou-se das massas urbanas, não apenas no que se refere à sua vida religiosa, mas também no que se relaciona com as suas necessidades materiais, e se distinguiu por sua obra de auxílio aos pobres, dando-lhes comida, abrigo, trabalho, etc. Devido às condições de vida urbana nos Estados Unidos, esta nova denominação encontrou campo fértil nas cidades norte-americanas.

Ao mesmo tempo, surgiam nos Estados Unidos numerosos grupos, quase todos de origem metodista, que sentiam a necessidade de voltarem a se ocupar das classes mais humildes, como Wesley havia feito. Como esses grupos enfatizassem a doutrina wesleyana da santificação, passou-se a chamá-los de “igrejas de santidade“. A princípio, tais grupos não guardavam relações institucionais entre si, mas, pouco a pouco, foram se organizando em novas denominações, das quais a mais numerosa foi a Igreja do Nazareno, surgida em 1908 da união de vários grupos de santidade. Não obstante, a maior força do movimento residiu nas muitas igrejas independentes, e nas denominações minúsculas, que estavam disseminadas por todo o país.

Sede das Assembléias de DeusA princípio, muitas das igrejas de santidade se caracterizavam por cultos em que se manifestavam os “dons do Espírito”: as línguas, os milagres de cura, a profecia, etc. Embora muitos tenham paulatinamente abandonado tais práticas, estas apareceram de novo com redobrada força em 1906, na Missão da Rua Azusa, em Los Angeles. A partir desse “avivamento da Rua Azusa”, o “fogo pentecostal” foi se espalhando por todo o país. Visto que aquela missão tinha membros brancos e negros, logo ocorreu um forte movimento pentecostal entre os negros. Ao mesmo tempo, entre os brancos, o movimento se estendeu não apenas entre pessoas de tradição wesleyana, mas também entre batistas e outros. Por fim, em 1914, o diretor de uma publicação pentecostal convocou uma grande reunião de “crentes no batismo do Espírito Santo”, e de lá surgiram as Assembleias de Deus, principal denominação pentecostal dos Estados Unidos. Esta denominação, e muitas outras, tiveram grande êxito entre as massas norte-americanas, tanto urbanas como rurais, e bem depressa contaram com missionários em diversas partes do mundo.

Outra denominação que tomou forma definitiva por essa época, mas que havia estado em processo de formação desde muito antes, é a dos Adventistas do Sétimo Dia. No princípio do século XIX, o batista William Miller, de Vermont, dedicou-se a estudar a Bíblia, particularmente o livro de Daniel. Unindo dados tirados de Daniel com alguns de Gênesis e de outros livros da Bíblia, Miller chegou à conclusão de que o Senhor voltaria à terra no ano de 1843. A princípio, ele não divulgou essa convicção. Porém, logo se sentiu chamado a pregar e a convidar as pessoas a se prepararem para a Segunda Vinda. O seu êxito, e o de outros que imediatamente começaram a pregar a mesma mensagem, foi enorme. Centenas de milhares de pessoas se convenceram de que o fim viria em 1843. Quando chegou essa data e nada aconteceu, quase todos os seguidores de Miller se sentiram enganados. Contudo, um pequeno grupo se reuniu ao redor dele e formou em Vermont uma igreja que continuava aguardando ansiosamente a Segunda Vinda de Cristo. Assim se passaram os anos, e o movimento continuou existindo até que apareceu a profetisa Ellen Harmo, cujo nome de casada era White. A sra. White, além de ter inúmeras visões, foi uma magnífica organizadora que popularizou as suas profecias em uma série de publicações. Pouco a pouco, os diversos grupos surgidos, devido à pregação de Miller e de outros como ele, foram se reunindo ao redor da sra. White, até que, em 1868, teve lugar a primeira conferência geral dos adventistas. Mediante o impulso da sra. White, os adventistas demonstraram grande interesse por Medicina, dietética e missões. Além disso, mesmo desde antes da intervenção da sra. White, devido em parte aos seus contatos com os Batistas do Sétimo Dia, os adventistas haviam começado a guardar o sábado em lugar do domingo. Quando a sra. White morreu em 1915, o movimento contava com milhares de adeptos, tanto nos Estados Unidos como em várias outras nações.

Por outro lado, o protestantismo norte-americano tinha de enfrentar desafios de caráter intelectual. Da Europa chegavam continuamente, além de imigrantes, novas ideias que colocavam em dúvida grande parte do que antes se havia considerado como definitivo. A Teoria da Evolução, proposta por Darwin, criou uma grande agitação, pois desafiava a história da criação registrada no Gênesis. Todavia, entre os teólogos tiveram maior importância os estudos históricos e críticos que estavam sendo feitos na Europa, especialmente na Alemanha. Esses estudos punham em dúvida a autenticidade histórica de vários livros da Bíblia. Em muitos casos, a própria metodologia dos que se dedicavam a esses estudos os levava a negar a veracidade de tudo o que pudesse parecer extraordinário ou milagroso. Ademais, esse ambiente intelectual caracterizava-se por um grande otimismo quanto ao ser humano e suas possibilidades. Graças à Teoria da Evolução e ao progresso que ela acarretava, parecia aproximar-se o momento em que os humanos se mostrariam capazes de resolver problemas que até então pareciam insolúveis.

Tais ideias deram origem ao “liberalismo”, que antes de tudo foi uma tentativa para se compreender a fé cristã, de tal modo que ela se mostrasse compatível com aquelas ideias. O liberalismo não foi de forma alguma um movimento monolítico. Pelo contrário, a própria noção de “liberalismo” implicava em liberdade para pensar de diferentes formas, desde que não se caísse no que os liberais chamavam de “superstição”. O que aconteceu foi uma ampla corrente de pensamento que muitas pessoas viram como uma negação da fé cristã. Dentro dessa corrente havia um pequeno número de radicais – os chamados “modernistas” – para quem a fé cristã e a Bíblia eram apenas uma religião e um grande livro entre muitas religiões e muitos livros. Todavia, em geral os liberais eram pessoas de profunda erudição religiosa, que se sentiam obrigadas por essa mesma erudição a responder aos desafios intelectuais do momento, e a tornar possível alguma fé ao ser humano moderno.

Ao mesmo tempo, cabe-nos dizer que o liberalismo firmou-se principalmente no nordeste do país, e, sobretudo entre pessoas da classe média, para quem as questões intelectuais da época pareciam ser um desafio mais urgente do que as condições sociais dos trabalhadores urbanos. No Sul e no Oeste, o liberalismo causou pequeno impacto.

A resposta não se fez esperar, pois muita gente considerava esse liberalismo uma ameaça ao próprio centro da fé cristã. Em nível popular, o que mais se discutiu foi a Teoria da Evolução, e houve até tentativas para se dirimir a questão nos tribunais de justiça. Até o fim do século XX, continuava-se discutindo, em algumas regiões dos Estados Unidos, se as escolas públicas deviam ou não expor a Teoria da Evolução, e como deviam fazê-lo, para não contradizer a Bíblia. Entre os teólogos conservadores, porém, a questão da evolução era somente um exemplo da forma como as novas ideias ameaçavam os “fundamentos” da fé, negando a autoridade das Escrituras.

Logo a palavra “fundamentos” tornou-se o tema característico da reação antiliberal, que por isso recebeu o nome de ‘fundamentalismo”. Em 1846, quando esse movimento começava a tomar forma, organizou-se a Aliança Evangélica, com o objetivo de unir a todos os que consideravam o liberalismo como uma ameaça à fé. Todavia, foi em 1895, em uma reunião perto das cataratas do Niágara, que o movimento anunciou os cinco “fundamentos” da fé que não podiam ser negados sem cair nos erros do liberalismo. Esses fundamentos eram a infalibilidade das Escrituras, a divindade de Jesus Cristo, seus nascimento virginal, seu sacrifício expiatório e substitutivo na cruz pelos pecados humanos, e sua ressurreição física e volta iminente. Pouco depois, a Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana adotou princípios semelhantes. A partir de então, e por várias décadas, o fundamentalismo conseguiu a adesão da maioria dos protestantes, particularmente no Sul do país.

Resultado de imagem para Cyrus ScofieldPor outro lado, é interessante notar que, embora o fundamentalismo se declarasse defensor da ortodoxia tradicional, ele também serviu para dar origem à novas interpretações da mensagem bíblica. A sua ênfase na infalibilidade absoluta das Escrituras, e a sua rejeição de boa parte dos estudos históricos acerca da Bíblia, tornavam possível a criação de interpretações em que diversos textos se justapunham, para, assim, criar novas doutrinas. De todos esses esquemas, o que mais êxito teve foi o “dispensacionalismo”, que assumiu várias formas, das quais a mais conhecida é a proposta por Cyrus Scofield. Esse teólogo dividia a história humana em sete “dispensações”, das quais a sexta é a atual. Em 1906, ele publicou a “Bíblia de Scofield“, que logo obteve grande popularidade em diversos círculos fundamentalistas. Assim o fundamentalismo aliou-se ao dispensacionalismo, embora nem sempre seguindo todos os detalhes do esquema de Scofield.

Resultado de imagem para Walter RauschenbuschNesse ínterim, o liberalismo fazia a sua contribuição mais notável, mediante o que veio a ser chamado de “evangelho social“. A maior parte dos liberais, por pertencer às classes médias e instruídas, não estava interessada nos graves problemas das massas urbanas. Por isso, a maioria dos liberais não seguiu o caminho do evangelho social. No entanto, um pequeno núcleo dedicou-se com afinco a mostrar as relações entre as exigências do evangelho e as condições deploráveis em que viviam as massas urbanas. O mais famoso dos proponentes do evangelho social, Walter Rauschenbush, foi professor de história eclesiástica, desde 1897 até falecer, em 1918. Todavia, o que o tornou famoso foi a sua insistência na necessidade de ajustar o sistema econômico norte-americano às exigências do evangelho. Segundo ele, o liberalismo econômico, ou seja, a doutrina de que a lei da oferta e da demanda basta para regular a economia, resulta em grande desigualdade e injustiça social. Portanto, a tarefa dos cristãos é pôr limites a esse liberalismo e ao poder desenfreado do capitalismo. Ao mesmo tempo, os cristãos precisam ocupar-se da promulgação de leis que reorganizem a sociedade, de tal modo que se alivie o sofrimento dos pobres, e se faça mais justiça.[2]

O ponto de união entre o evangelho social e o liberalismo em geral era o seu otimismo quanto à capacidade humana e ao progresso da sociedade. No entanto, os proponentes do evangelho social não concordavam com os demais liberais, para quem bastava confiar no progresso natural da criatura humana e da sociedade capitalista. Para os proponentes do evangelho social, o progresso devia dirigir-se no sentido da justiça social.

Tanto o liberalismo como o fundamentalismo alcançaram o seu apogeu em períodos em que o progresso econômico e político dos Estados Unidos parecia garantido. A guerra com o México, a abolição da escravatura e a guerra com a Espanha, em 1898 (que levou à anexação de Porto Rico e à independência de Cuba e, muito depois, das Filipinas), pareciam indicar que os Estados Unidos, e as raças nórdicas que neles predominavam, estavam destinados a guiar o mundo para uma época de progresso e prosperidade. Então estourou a Primeira Guerra Mundial, e muitas pessoas começaram a duvidar de tais esperanças. Todavia, a narrativa desses acontecimentos corresponde ao próximo volume desta história.

Novas religiões

Um dos fenômenos mais notáveis da vida religiosa norte-americana, durante o século XIX, foi o aparecimento de vários movimentos de inspiração cristã, mas que, por suas práticas e doutrinas, foram, antes disso, novas religiões. Dos muitos grupos surgidos dessa forma, os mais notáveis são os dos mórmons, os Testemunhas de Jeová e a Ciência Cristã.

Durante os anos da sua juventude, o fundador do mormonismo, Joseph Smith, pareceu ser um fracasso. Seus pais eram camponeses que haviam emigrado de Vermont para o estado de Nova Iorque, em busca de melhores condições econômicas, porém sem êxito. O jovem Joseph não tinha nenhum interesse nos trabalhos agrícolas, e dedicou-se a procurar tesouros ocultos, com base em supostas visões. Tais atividades ocasionaram-lhe conflitos com a lei, e em termos gerais o futuro profeta não era bem visto na comunidade. Então ele declarou que o “anjo Moroni” havia lhe aparecido, mostrando-lhe uma coleção de placas de ouro, escritas em hieróglifos egípcios. Ademais, Moroni entregou-lhe duas “pedras de vidente” que lhe permitiram ler os hieróglifos. Escondido atrás de uma cortina, Smith dedicou-se a traduzir as placas em alta voz, enquanto que outras pessoas, do outro lado da cortina, escreviam o que ele ditava. Assim surgiu o Livro de Mórmon, publicado em 1830. No princípio do livro incluía-se o testemunho de várias pessoas que diziam ter visto as placas originais, antes de Smith declarar que Moroni as havia reclamado e levado de volta. No mesmo livro narrava-se a origem dos índios americanos, a partir da confusão de Babel. Depois de uma longa luta entre os índios bons e os maus, só dois restaram dos bons: Mórmon e seu filho Moroni. Estes dois esconderam as placas de ouro, até que Moroni, reaparecendo na forma de anjo, mostrou-as a Smith.

Pouco tempo depois de publicado o seu livro, Smith contava com bom número de seguidores. Quando uma das muitas comunidades religiosas que então existiam nos Estados Unidos uniu-se a eles, os mórmons começaram a organizar-se em vida comunitária. Segundo eles, a sua nova religião era para o cristianismo o que este havia sido para o judaísmo: a sua culminação. Smith continuava tendo novas visões, que o afastavam cada vez mais do cristianismo ortodoxo. Depois de estabelecer-se durante algum tempo em Ohio, Smith e os seus mudaram pra Illinois, onde fundaram uma comunidade autônoma com sua milícia própria, e que chegou a chamar Smith de “Rei do Reino de Deus”. As tensões com a sociedade circunvizinha tornaram-se cada vez maiores, ao mesmo tempo que Smith se declarava candidato à presidência dos Estados Unidos e suprimia toda oposição às suas ideias. Posteriormente, uma turba enfurecida agarrou o profeta e um dos seus seguidores, e os linchou.

A direção do movimento ficou então nas mãos de Brigham Young, que guiou os mórmons (oficialmente chamados de “Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias“) para a região de Utah. Ali, eles fundaram um estado autônomo , até que, em 1850, em sua expansão na direção do Oeste, os Estados Unidos se apossaram daquela região. Isto ocasionou novos conflitos, particularmente porque dois anos depois Young declarou que Smith havia tido uma visão, até então guardada em segredo, ordenando a poligamia. Em 1857, explodiu a guerra entre os mórmons e os Estados Unidos. Mais tarde, os mórmons foram se amoldando à vida norte-americana, deixando de lado o seu espírito visionário e comunitário, acomodando-se à classe média e, por fim, em 1890, abandonando a poligamia de modo oficial, embora muitos tenham continuado a praticá-la por muito tempo. A partir de então, eles se tornaram uma grande força política no estado de Utah e seus arredores. E através da sua obra missionária, estenderam-se a diversas partes do mundo.

Os testemunhas de Jeová são resultado do modo como muitas pessoas nos Estados Unidos começaram a ler a Bíblia onde esperavam encontrar chaves escondidas acerca dos tempos futuros e do fim do mundo. O seu fundador, Charles Taze Russell, foi também expressão do sentimento profundamente arraigado nas classes mais inferiores, contra a ordem política, econômica e religiosa. Por isso, ele declarou que os três grandes instrumentos de Satanás eram o governo, os negócios e as igrejas. Além disso, pronunciou-se contra a doutrina trinitariana e a da divindade de Jesus, e declarou que a sua segunda vinda havia tido lugar em 1872, e que o fim ocorreria em 1914.

O ano de 1914, embora tenha trazido a Primeira Guerra Mundial, não trouxe o esperado Armagedom, e Russell morreu dois anos depois. O seu sucessor foi Joseph F. Rutherford, mais conhecido como “o juiz Rutherford”. Foi este que, em 1931, deu ao movimento o nome de “Testemunhas de Jeová”, e o organizou na forma de uma grande máquina missionária e publicitária, ao mesmo tempo que reinterpretava as profecias de Russell, de acordo com os novos tempos. A partir de então, o movimento cresceu rapidamente em diversas partes do mundo.

A Ciência Cristã é a principal expressão norte-americana de uma grande tradição religiosa que temos encontrado em vários pontos da presente História, ao abordar o gnosticismo, o maniqueísmo e o espiritualismo de Swedenborg. Em termos gerais, esta tradição afirma que o mundo material é, ou imaginário ou de importância secundária; que o propósito da vida humana está em viver em harmonia com o Espírito universal; e que as Escrituras devem ser interpretadas com base em uma chave espiritual, geralmente desconhecida pelos cristãos comuns.

A fundadora da Ciência Cristã, Mary Baker Eddy, sofreu diversas enfermidades desde a sua juventude, aparentemente várias delas de caráter emocional. Casada e enviuvando duas vezes, pobre e enferma, vítima de dores que a levaram ao uso inútil da morfina, Mary Baker recorreu, por fim, a P. P. Quimby, que sustentava que a enfermidade não passava de um erro, e que o conhecimento da verdade bastava para curá-la. Curada por Quimby, ela se dedicou a tornar conhecidas as suas ideias, até que, por ocasião da morte do seu mestre, converteu-se em sua principal expoente.

Vários anos depois, em 1875, Mary Baker publicou a primeira edição do seu livro Fé e Ciência, com chave das Escrituras. Este livro, que durante a vida de sua autora foi publicado 382 vezes, tornou-se o manifesto fundamental da nova doutrina. Nele, Mary Baker (que tomou de seu terceiro esposo o sobrenome de Eddy) utilizava os termos tradicionais da ortodoxia cristã (“Deus”, “Cristo”, “Jesus”, “Salvação”, “Trindade”, etc.), ao mesmo tempo que lhes dava um sentido “espiritual” diferente do tradicional. Nisto ela nos leva a recordar as interpretações gnósticas da Bíblia, onde palavras como “verdade”, “vida” e outras tomavam um sentido diferente do comumente adotado. Em todo caso, de maneira semelhante à Quimby, Mary Baker Eddy sustentava que as enfermidades não eram nada mais do que um erro mental, resultado de uma perspectiva equivocada, e que para curá-las não se devia recorrer a médicos nem a remédios, mas à “ciência” espiritual que Jesus empregou, e que agora ela havia redescoberto. De igual modo, o conhecimento dessa “ciência” produziria felicidade e prosperidade – segundo as entendia a classe média norte- americana.

Em 1879, fundou-se oficialmente a Igreja Científica de Cristo, que logo congregou adeptos em diversas partes do país, e dois anos depois Mary Baker fundou em Boston um “Colégio Metafísico” onde se adestravam os “praticantes” (e não “pastores”) da nova fé.

Mary Baker Eddy dedicou-se então, a centralizar cada vez mais o governo da Igreja Científica de Cristo. A de Boston foi declarada “Igreja Mãe“, à qual deviam pertencer todos os que verdadeiramente quisessem ser membros da Igreja Científica de Cristo. Ao mesmo tempo, tomaram-se algumas medidas para evitar que se introduzissem mudanças doutrinárias no movimento. Mary Baker Eddy declarou que a segunda vinda de Cristo havia acontecido na inspiração divina que a tinha dirigido a escrever o seu livro. Para evitar qualquer desvio doutrinário, os sermões foram proibidos, sendo substituídos pela leitura alternada de textos selecionados da Bíblia e do livro de Eddy, “a fim de que não se misturem erros humanos com a doutrina divinamente inspirada“. Esses textos, selecionados e ordenados por Mary Baker Eddy, são lidos até o dia de hoje no culto da Igreja Científica de Cristo, alternadamente, por um homem e uma mulher, pois as mulheres tiveram sempre lugar de destaque no movimento.

Apesar da saúde e da felicidade que suas doutrinas prometiam, os últimos anos da vida de Mary Baker Eddy foram períodos de dor e desassossego. Suas dores físicas não eram aliviadas, a não ser com doses repetidas de morfina, e sua angústia espiritual era tal que ela achava que tinha a necessidade de estar rodeada dos seus seguidores para evitar as ondas de “magnetismo animal” de seus inimigos.

Assim terminamos o nosso rápido panorama do cristianismo norte-americano durante o primeiro século posterior à independência do país. Ficou claro que esse cristianismo apresenta um mosaico tão complexo como o da sociedade norte-americana, e que talvez o leitor se sinta confuso ao ler acerca de um número tão grande e complicado de “denominações” e movimentos. Porém esses anos, e as décadas que os seguiram, marcaram a grande época de expansão da influência norte-americana; portanto, o cristianismo que acabamos de estudar, com todas as suas características peculiarmente norte-americanas, deixou a sua marca sobre o cristianismo em várias regiões do mundo.

Notas:

  • [1] Em meu trabalho Fundamentalismo protestante: dificuldades de interação e diálogo com a cultura brasileira, destaquei (no capítulo 3 do mesmo) como o “Destino Manifesto” norte-americano, protestante e anticatólico, teve influência no “fundamentalismo” protestante brasileiro.
  • [2] Alguns liberais de fato levantaram um clamor em favor das massas oprimidas de trabalhadores urbanos. Por outro lado, o liberalismo apressou a ruptura entre os crentes no evangelho da graça salvadora e os que apenas apoiavam mudanças sociais e pouco se interessavam no destino eterno dessas massas urbanas. Esta divisão se mantém até hoje; os liberais, dominando as denominações que aderem ao Conselho Mundial de Igrejas; e os evangélicos, esforçando-se para crescer numericamente, fundando igrejas e enviando missionários a todos os campos abertos para os receber. (Nota dos Editores)
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