A era dos novos horizontes (II) – horizontes políticos: Europa

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos novos horizontes – Vol. 9. São Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª ed.), pág. 057 a 076.

“Não existe sistema religioso nem superstição alguma que não se baseie no desconhecimento das leis da natureza. Os criadores e defensores de tais disparates não previram o progresso da mente humana. Convencidos de que em sua época se sabia tudo o que se deveria saber,  …construírem os seus sonhos sobre as opiniões daquele tempo.” (Antoine-Nicolas de Condorcet)

Na Europa, os últimos anos do século XVIII trouxeram profundas convulsões políticas e sociais. Embora, de fato, tenha havido abalos em diversos países, os mais notáveis ocorreram na França, na série de acontecimentos conhecidos como Revolução Francesa.

A Revolução Francesa

Luiz XVI (o mesmo que em 1787 decretou a tolerância para os protestantes franceses) não foi administrador hábil nem político sábio. Durante o seu reinado, as condições econômicas da França se deterioraram, ao mesmo tempo que os gastos do Rei e de sua corte aumentaram desmesuradamente. Desprovida de fundos, a coroa procurou obtê-los do clero e da nobreza, dois grupos que tradicionalmente sempre haviam sido isentos de impostos. Diante da resistência que era de se esperar, o Rei e seus ministros convocaram os Estados Gerais. Estes eram uma espécie de parlamento, constituído por três “ordens”: o clero, a nobreza e a burguesia. Como o propósito do Rei era utilizar os Estados Gerais para vencer a resistência do clero e da nobreza, os seus ministros sugeriram que a convocação se fizesse de tal modo que a Terceira Ordem, a saber, a burguesia, tivesse maior representação do que as outras duas. Sob a direção do primeiro ministro Necker, um banqueiro protestante em quem o Rei confiava para obter os fundos necessários, os Estados Gerais foram convocados. Além de dar à Terceira Ordem tanta representação quanto a do clero e nobreza somados, a convocação e as regras de eleição asseguravam que entre os representantes do clero houvesse delegados não apenas da hierarquia, em sua quase totalidade aristocrática, mas também dos curas locais, gente do povo que se mostraria disposta a tomar medidas contra a aristocracia.

Quando, por fim, foram abertas as sessões dos Estados Gerais, em 4 de maio de 1789, a Terceira Ordem contava com mais representantes do que as outras duas combinadas, e entre os quase trezentos representantes do clero, menos de um terço era de prelados. Os demais eram curas do povo, os quais, ao mesmo tempo que representavam a igreja, sentiam profunda simpatia para com as queixas da população.

Tão logo foram convocados os Estados Gerais, o conflito surgiu. A Terceira Ordem insistia em que a assembleia devia reunir-se em uma única câmara, e as decisões deviam ser tomadas por maioria de votos. O clero e a nobreza, por sua parte, preferiam as sessões e votações em separado, de modo que ambos os grupos tiveram dois votos frente ao voto único da burguesia. Todavia, a Terceira Ordem mostrou-se inflexível. Uns poucos curas, desgostosos com a atitude aristocrática dos prelados, uniram-se à Terceira Ordem que, por fim, em 17 de junho, declarou-se “Assembleia Nacional”, reclamando que, de qualquer forma, contava com a maioria dos votos dos Estados Gerais. Dois dias depois, o clero votou a favor da união com essa assembleia. No dia seguinte, quando os delegados dessa assembleia verificaram que o governo havia fechado a sua sala de sessões, eles se reuniram em uma quadra de tênis e fizeram um voto solene de não se dispersarem enquanto não dessem uma constituição à França.

Resultado de imagem para BastilhaNesse ínterim, as dificuldades econômicas iam aumentando, e a fome se fazia cada vez mais geral entre as baixas camadas da população. O Rei e os seus, por sua parte, aquartelaram tropas nas cercanias de Paris, e se desfizeram de Necker. A reação popular não se fez esperar. Por toda a cidade houve motins que chegaram ao auge quando, em 14 de julho de 1789, o povo amotinado se apoderou da Bastilha, um castelo velho que servia de prisão para os inimigos do Rei.

A partir de então, os acontecimentos se sucederam com vertiginosa rapidez. O Rei capitulou ao ordenar à nobreza e ao clero que se reunissem com a Terceira Ordem para formar uma Assembleia Constituinte. Esta assembleia promulgou então a Declaração dos direitos do homem e cidadão, que veio a ser um dos documentos fundamentais dos movimentos democráticos, tanto na França quanto em outras partes do mundo. Quando o Rei se negou a aceitar esta e outras ações da Assembleia, o povo de Paris se sublevou, e a partir de então a família real ficou praticamente prisioneira em Paris.

Seguindo as linhas traçadas por sua própria Declaração de direitos, e pelos filósofos a que nos referimos no volume anterior, que advogavam uma ordem política diferente, a Assembleia reorganizou o governo nacional, não apenas quanto aos assuntos políticos e fiscais, mas também religiosos. Neste último campo, o passo decisivo foi a promulgação da Constituição civil do clero, em 1790.

Durante séculos a igreja francesa havia se orgulhado de suas “liberdades gaulesas”, frente à autoridade romana. Logo, a Assembleia Constituinte, que se considerava depositária da soberania nacional, tinha razões para se considerar também autorizada a reorganizar a vida eclesiástica. Essa reorganização de qualquer forma era necessária, pois os abusos eram muitos. Os altos cargos eclesiásticos, ocupados quase em sua totalidade por membros da aristocracia, não eram utilizados para pastorear a grei, mas para o benefício pessoal dos homens que os ocupavam. Vários dos antigos mosteiros e abadias haviam se tornado centros de folgança, e altos salários eram pagos aos privilegiados. Tudo isto requeria reforma. Mas também havia na Assembleia Constituinte um bom número de delegados que se consideravam instruídos e que criam que a igreja não passava de um baluarte de superstição e de privilégios sociais. Assim, na promulgação da Constituição civil do clero conjugaram-se diversos interesses e opiniões.

Em geral, o propósito da Constituição era reformar a igreja. Quase tudo o que nela se estipulava beneficiava a vida religiosa. O problema estava na questão de se a Assembleia tinha ou não o direito de reformar a igreja, como diziam alguns, “sem consultar a igreja”. Quem era essa “igreja” que devia ser consultada, não estava claro. Alguns defendiam um concílio nacional. Mas a Assembléia Constituinte não podia se dar ao luxo de convocar tal concílio, que seria dominado pelos prelados e daria nova culminância aos privilégios da aristocracia. Outros sugeriam que se consultasse o papa, e esse foi o caminho que o Rei seguiu antes de sancionar o que fora promulgado pela Assembleia. Mas isto por si mesmo parecia ser uma violação da soberania nacional. Ao mesmo tempo, visto que a própria Assembleia havia revogado as leis sobre os dízimos, parecia necessário que ela mesma se fizesse responsável pela reorganização e sustento da igreja.

Quando o papa, na época Pio VI, comunicou ao Rei que a Constituição era cismática e que não a aceitaria, o Rei, temeroso pela reação da Assembleia, não deu a conhecer a decisão pontifícia, e continuou fazendo gestões para que o papa mudasse de opinião. Posteriormente, levada a posições cada vez mais extremadas, a Assembleia decretou que todos os que tivessem cargos eclesiásticos deviam aceitar com juramento a Constituição civil do clero, sob pena de perder os referidos cargos. Já a essa altura o Rei havia capitulado mais uma vez à pressão da Assembleia, e se havia declarado a favor da Constituição civil, com a ressalva de que esperava que o papa a aprovasse.

O resultado foi que toda a igreja francesa se dividiu. Em teoria, o único castigo que os “não juramentados” receberiam seria a deposição de seus cargos. Com base na Declaração dos direitos, não se lhes podia privar” sua liberdade de consciência, e quem quisesse continuar a considerá-los como sacerdotes poderia fazê-lo, com a única ressalva de que precisariam cobrir os seus próprios gastos, enquanto que os “juramentados” seriam sustentados economicamente pelo governo. Mas na realidade logo se desencadeou a perseguição contra os não-juramentados, a quem se considerava suspeitos de falta de patriotismo ou de sentimentos antirrevolucionários.

Enquanto isso, no resto da Europa, os elementos revolucionários, que pouco antes haviam sido derrotados em diversas intentonas nos Países Baixos (Holanda) e Suíça, cobravam novo alento, ao mesmo tempo que as monarquias e as aristocracias temiam que o que estava sucedendo na França repercutisse em seus próprios territórios. Isto, por sua vez, deu mais força aos elementos extremistas na França. Quando, em 1791, a Assembleia Constituinte cedeu lugar à Assembleia Legislativa, no novo grupo havia muito menos vozes moderadas. Meio ano mais tarde, a França declarava guerra à Áustria e à Prússia, fato com que se iniciou uma série de conflitos bélicos, que continuaram quase sem interrupção até o fim das guerras napoleônicas, em 1815. Quando a guerra com a Áustria e a Prússia tomou um rumo indevido, a inimizade da Assembleia se voltou contra o Rei, de todas as formas simpatizantes dos aristocratas e dos monarcas estrangeiros. No dia seguinte à batalha de Valmy, em que, por fim, os franceses conseguiram deter o avanço dos prussianos, a Convenção Nacional ocupou o lugar da Assembleia Legislativa. Em sua primeira sessão, a Convenção aboliu a monarquia e proclamou a república. Quatro meses mais tarde, o Rei, condenado por alta traição, era executado. Em poucos meses, na região de Vendée, produziu-se um levante sanguinolento, especialmente por parte de camponeses pobres exasperados com o governo da burguesia, que só havia conseguido desmantelar a economia sem resolver as dificuldades da classe baixa rural. A pressão por parte das potências estrangeiras aumentava. Em todo o país desencadeou-se uma onda de terror que, um após outro, foi levando para a guilhotina todos os principais chefes revolucionários.

A tudo isto se acrescentou uma forte reação contra o cristianismo, tanto protestante como católico. Os novos chefes da revolução estavam convencidos de que eram arautos de uma nova era em que a ciência e a razão se sobreporiam a todas as superstições e sistemas religiosos, que, afinal de contas, não passavam de produtos da ignorância humana. Com o nascimento dessa nova era, chegava o tempo de deixar de lado as superstições da velha era.

Foi com base nessas ideias que a Revolução Francesa criou a sua própria religião, que se chamou primeiramente “Culto à Razão“, e depois “Culto ao Ser Supremo“. Levada a seus extremos, a Revolução não se ocupou mais de fazer valer a Constituição civil do clero, mas preferiu criar a sua própria religião, com suas cerimônias próprias. A princípio, isto não foi política oficial do governo, mas surgiu em diversas partes do país, onde pessoas ilustres, procurando fazer com que a religião se conformasse com a nova era, começaram uma grande campanha de “descristianização”. Ulteriormente, o governo nacional assumiu a direção do novo movimento. Como parte dele, aboliu-se o velho calendário e criou-se um outro mais “razoável”, com nomes de meses tomados da natureza, como “Bruma rio”, “Vendimiário” e “Termidor”, e com semanas de dez dias. A isto se acrescentaram grandes cerimônias que ocuparam o lugar das antigas festividades religiosas. A primeira delas foi a procissão e as cerimônias que acompanharam o traslado dos restos mortais de Voltaire para o “Panteão da República”. Depois foram construídos templos à Razão, foram criados “santuários” que incluíam, junto com Jesus, Sócrates, Marco Aurélio e Rousseau, e foram inventadas cerimônias para os casamentos, dedicação de filhos à Liberdade e funerais. De certo modo, os esforços da parte do governo para criar uma nova religião com base em cerimônias civis e em decretos oficiais fazem-nos lembrar as tentativas fracassadas de Juliano, o apóstata, muitos anos antes, de ressuscitar o antigo paganismo. De maneira semelhante ao paganismo de Juliano, o “Culto ao Ser Supremo” carecia de força vital, e desapareceu tão logo deixou de ser política oficial do governo.

Tudo isto não passaria de algo ridículo, a não ser pelas milhares de vidas que custou. Juliano se havia limitado a zombar dos “galileus” e a fomentar o paganismo. Mas os promotores da nova religião francesa usaram da guilhotina com cruel liberalidade. Teoricamente, o culto cristão era permitido. Mas qualquer clérigo que se negasse a prestar juramento à Liberdade, ou qualquer pessoa que tivesse o menor contato com forças ou ideias opostas às da Revolução, era guilhotinado. Assim morreram entre dois mil e cinco mil sacerdotes, várias dezenas de freiras e numerosos leigos. E o número dos que morreram nos cárceres também foi avultado. Posteriormente, não somente a igreja dos que se haviam negado a prestar juramento, mas também a dos juramentados, e a protestante, sofreram tais pressões que quase chegaram a desaparecer. (É triste dizê-lo, mas o protestantismo francês, a antiga “igreja do deserto”, não contou nessa hora com os vigorosos heróis que foram a glória do catolicismo. Passada a Revolução, a tarefa de reconstrução do protestantismo foi, portanto, muito mais árdua do que a do catolicismo).

Embora a onda de terror tivesse amainado em 1795, a política do governo continuou sendo anticristã. Ao mesmo tempo, as vitórias militares do regime revolucionário na Suíça, Itália e na Holanda estenderam essa política a novos territórios. Em 1798, os franceses se apossaram dos territórios papais e da própria pessoa de Pio VI, a quem levaram prisioneiro para a França.

Porém, no fim do século, Napoleão Bonaparte ia adquirindo proeminência na França, até que se apossou do poder mediante o golpe de estado de 18 de Brumário do ano VIII da Revolução (9 de novembro de 1799). Pio VI havia falecido, ainda nas mãos dos franceses, alguns meses antes. Mas Napoleão estava convencido de que a melhor política não era a de tornar-se inimigo da igreja católica, mas ao contrário. Logo ele começou negociações com o novo papa, Pio VII. Conta-se que, ao enviar um emissário a Roma, Napoleão o mandou dizer ao papa que desejava “presenteá-lo com quarenta milhões de franceses“. Por fim, em 1801, chegou-se a um acordo entre o papado e o governo francês. Nesse tratado reconhecia-se que a religião católica era a da maioria dos franceses, e estabelecia-se a forma pela qual os bispos e curas seriam nomeados, de tal modo que se salvaguardaram tanto os interesses do Estado como os da igreja. Três anos mais tarde, quando Napoleão decidiu que o título de “cônsul” não lhe bastava, assumiu o de “imperador”, e como tal o coroou Pio VII, na catedral de Nossa Senhora de Paris, a 2 de dezembro de 1804. Ao mesmo tempo que se aproximava de Roma, Napoleão havia determinado a liberdade religiosa para os protestantes.

De certo modo, o papado saiu ganhando de todas estas vicissitudes. Até então, as “liberdades da igreja gaulesa” haviam sido zelosamente defendidas, tanto pelos reis franceses como pelos bispos do país. Mas agora, ao chegar o momento de reorganizar a vida eclesiástica da França, Napoleão procurou manter negociações diretas com o papa, que por sua vez assumiu sobre a igreja francesa, com o beneplácito do imperador, uma autoridade que os seus predecessores não tinham podido exercer.

Mas aquela paz não durou muito tempo. Logo as ambições do imperador se chocaram com a firmeza do papa, que viu seus territórios invadidos de novo, e por fim acabou prisioneiro dos franceses. Ainda no meio do seu cativeiro, Pio VII negou-se a dobrar-se diante do Imperador, cujo divórcio de Josefina lhe acarretou novos conflitos com a Igreja Católica. Estes conflitos não amainaram até a queda de Napoleão, quando Pio VII, restaurado à sua sede em Roma, concedeu uma anistia geral a todos os que haviam sido seus inimigos, e intercedeu perante os ingleses para que estes garantissem que Napoleão seria tratado digna e humanamente.

A nova Europa

As guerras napoleônicas haviam levado o caos à boa parte da Europa. Na Espanha, Portugal, Itália, Holanda e Escandinávia, várias casas reinantes haviam sido destruídas. Depois da derrota de Napoleão, as principais potências que o haviam vencido – Inglaterra, Áustria, Prússia e Rússia – negociaram entre si a forma que passaria a ter o mapa político da Europa. A França regressou às suas antigas fronteiras anteriores à Revolução, e a casa de Bourbon foi restaurada na pessoa de Luiz XVIII, irmão de Luiz XVI. Fernando VII, da Espanha, e outros vários monarcas depostos por Napoleão, foram restaurados. João VI, João VI, de Portugal, que se havia refugiado no Brasil, demorou algum tempo a voltar à Lisboa, e quando o fez, deixou o governo do Brasil nas mãos de seu filho Pedro. Holanda e Bélgica ficaram unidas sob uma só coroa. Na Suécia continuou reinando Bernardotte, um dos antigos marechais de Napoleão, que havia dado provas de ser bom governante.

O que se esperava com esses arranjos era garantir a paz na Europa, que de certa forma estava aos cuidados das quatro potências vencedoras de Napoleão. E de fato, com exceção da guerra da Criméia, de 1854 a 1856, e da guerra entre França e Inglaterra, entre 1870 e 1871, o resto do século transcorreu em relativa paz internacional.

Todavia, debaixo dessa paz internacional existiam, dentro de cada país e em cada região, tensões internas que deram origem a repetidas conspirações, revoltas e quedas de governos. Um dos principais motivos de tensão era o nacionalismo alemão e italiano. Esses dois países ainda não haviam alcançado a sua unidade política e em cada um deles se debatia acerca do modo de alcançá-la. A tais aspirações se opunha a Áustria, cujos domínios careciam de unidade cultural e nacional, e incluíam extensas porções da Alemanha e da Itália. Sob a direção de Metternich, chanceler da Áustria, criou-se todo um sistema de espionagem internacional, com o propósito de deter o avanço de movimentos nacionalistas na Alemanha e Itália, e das correntes liberais e socialistas que existiam em toda a Europa.

O liberalismo econômico e político (que não se deve confundir com o teológico) era expressão dos interesses da crescente burguesia mercantil e capitalista. Esta classe via com bons olhos a teoria econômica do laissez-fairedo “deixar fazer” – segundo a qual a lei da oferta e da procura bastava para regular a ordem econômica. Os governos não deviam intervir para regulamentar o comércio nem o uso do capital. Embora essa fosse a época em que a revolução industrial estava causando o seu maior impacto sobre o continente europeu, essa também era a época em que se criaram os grandes capitais, precisamente a base do laissez-faire. Quanto às classes sociais baixas, pensava-se simplesmente que, com o desenvolvimento industrial, a sua condição econômica melhoraria, e desse modo todos sairiam ganhando.

A essas ideias econômicas se uniam frequentemente, embora não sempre, as do liberalismo político, que punha grandes esperanças no sufrágio universal (embora quase sempre unicamente das pessoas do sexo masculino), e nas monarquias constitucionais ao estilo inglês.

A luta entre estas ideias e o absolutismo tradicional teve diversos resultados, de acordo com o país em que se desenvolveu. Na Espanha, Fernando VII regressou ao absolutismo pré-revolucionário. Na França, Luiz XVIII, mais prudente, estabeleceu um sistema parlamentar. Na Alemanha, a Prússia tornou-se campeã do nacionalismo, enquanto que a Áustria sustentava a velha ordem social. Na Itália, uns buscavam a unidade nacional, sob a direção do Reino de Piemonte e Sardenha; outros procuravam estabelecer uma república; e ainda outros viam no papado o centro da futura unidade nacional. Em 1830, a Bélgica tornou-se independente da Holanda, e nessa luta as questões religiosas tiveram um papel importante, pois a Bélgica era católica, enquanto que a Holanda era protestante. Nesse mesmo ano, elementos republicanos procuraram derrotar a monarquia francesa. Embora não tivessem alcançado o seu objetivo, conseguiram que Carlos X, que havia sucedido a seu irmão Luiz XVIII, fosse deposto, e que Luiz Felipe de Orleans, um monarca de ideias muito mais liberais, fosse coroado em seu lugar.

O ano de 1848 trouxe novas revoluções. Na Itália, Bélgica, Grã-Bretanha, Suíça e França houve motins e levantes. A Suíça promulgou uma nova constituição. E, na França, Luiz Felipe foi derrotado, e proclamou-se a Segunda República, que perdurou até 1851, quando Luiz Napoleão, sobrinho do falecido Imperador, apoderou-se do poder e assumiu o título de imperador, com o nome de Napoleão III. Também em 1848 caiu Metternich na Áustria. E – fato que a princípio passou quase despercebido – nesse mesmo ano Marx e Engels publicaram o Manifesto comunista.

O mapa da Itália começou a mudar, pouco depois que Camilo de Cavour foi nomeado primeiro ministro do Reino de Piemonte, em 1852. Com a ajuda de Luiz Napoleão, da França (Napoleão III), Cavour começou a tarefa de unificação italiana. Por ocasião da sua morte, em 1861, só não tinham se unido ao novo Reino da Itália os territórios de Veneza e de Roma. Os primeiros foram anexados em 1866, com a ajuda da Prússia contra a Áustria.

Os estados pontifícios seguiram uma história acidentada durante todo esse período. Em 1849, a onda revolucionária que varreu a Europa levou à criação de uma “República Romana”, e o papa Pio IX, refugiado em territórios napolitanos, foi restaurado pelas tropas de Napoleão III. Sob a proteção da França, os estados papais conseguiram manter uma independência constantemente ameaçada. Por fim, por ocasião da guerra entre França e Alemanha, em 1870, o rei Víctor Manuel, da Itália, apoderou-se de Roma e com isso completou a unidade nacional.

Víctor Manuel concedeu então ao papa, além de uma boa renda anual, os palácios do Vaticano, de Latrão e de Castelgandolfo, com direitos de extraterritorialidade e de soberania. Porém, Pio IX declarou que isso não era aceitável e, portanto, passaram-se anos de tensão entre o Vaticano e o governo italiano, até que em 1929, ao se firmarem os tratados de Latrão, o papado aceitou os fatos consumados.

Resultado de imagem para Otto von BismarckEnquanto acontecia tudo isto na Itália, na Alemanha e no norte da Europa a figura dominante era Otto von Bismarck, que, em 1862, havia chegado à posição de chanceler da Prússia. A tarefa de Bismarck consistiu em excluir a Áustria da Confederação Alemã, e então criar uma nação constituída dos diversos Estados independentes que formavam essa confederação. Depois de dez anos de hábil diplomacia e conquistas militares, que culminaram na guerra com a França, em 1870 e 1871, a Alemanha se uniu sob o reinado do rei Guilherme da Prússia, que assumiu o título de Imperador da Alemanha.

Resultado de imagem para Pio IXA política religiosa de Bismarck dirigiu-se principalmente contra o catolicismo romano. Essa era a religião da maioria dos súditos da Áustria, e por isso o Chanceler temia que os católicos em seus próprios territórios sentissem simpatias pela Áustria. Ademais, a política internacional de Bismarck requeria boas relações com o Reino da Itália, e a insistência por parte dos católicos alemães, no sentido de que o seu país devia intervir para devolver ao papa os seus estados, causava-lhe inconvenientes. O Chanceler estava convencido de que o catolicismo era essencialmente obscurantista, e que o protestantismo liberal se adaptava melhor à grande missão histórica que aguardava a Alemanha em futuro próximo. Por todas essas razões, sob o governo de Bismarck tomaram-se medidas que não foram bem vistas pelos católicos. A Alemanha rompeu relações com o papado, ao mesmo tempo que várias ordens religiosas eram expulsas do país e alguns dos subsídios que até então os bispos recebiam do estado eram cortados. Embora em 1880, por motivos de conveniência, Bismarck tenha reatado as relações diplomáticas com o papa, e logo se ab-rogassem muitas das medidas contra o catolicismo, o conflito com Bismarck foi um dos muitos fatores que convenceram Pio IX, papa de 1846 a 1878, de que existia uma oposição inevitável entre o catolicismo romano e a ideia moderna de Estado. A este respeito discutiremos em outro capítulo deste volume. Por enquanto, basta sublinhar que a posição do papado na nova Europa, que surgiu depois das guerras napoleônicas, foi em extremo incômoda, e que, por isso, os papas do século XIX dirigiram a Igreja Católica no período mais reacionário da sua história.

Sem se contarem as correntes teológicas e a obra missionária de que falaremos em outros capítulos, os fatos mais notáveis no protestantismo do continente europeu durante o século XIX derivaram da crescente separação entre a igreja e o Estado. Depois da Reforma do século XVI, nos países em que o protestantismo triunfou, estabeleceu-se entre ele e o Estado uma relação semelhante à que antes havia existido com a Igreja Católica. Contudo, com a Revolução Francesa, esse estado de coisas começou a mudar. Na Holanda, por exemplo, a união entre a Igreja Reformada e o estado rompeu-se, quando os franceses conquistaram o país e criaram a República de Batávia. Depois da Restauração, a aliança entre igreja e Estado nesse país tornou-se muito menos estreita do que havia sido antes. Algo semelhante aconteceu em diversas regiões da Alemanha, onde as leis que fomentavam a uniformidade religiosa foram moderadas para beneficiar a unidade nacional. Na Escandinávia, o impacto do liberalismo político acarretou também consequências semelhantes.

Em parte devido a estas novas condições políticas, e em parte devido ao individualismo que caracterizou o século XIX, houve um grande incremento do pietismo e das “igrejas livres”, ou seja, aquelas de que se é membro por decisão própria, e cujos membros as sustêm, em contraste com as igrejas sustentadas pelo Estado, das quais se é membro por ser cidadão desse Estado. Os metodistas e os batistas conquistaram território na Alemanha e em outros países do norte europeu. Ao mesmo tempo, o pietismo luterano e reformado alcançou maior ímpeto, e causou forte impacto na teologia da época.

Como assinalamos anteriormente, o pietismo caracterizou-se por seu profundo interesse missionário. Assim, o incremento do pietismo no século XIX foi uma das principais causas da grande expansão missionária protestante desse século. A outra causa foi a expansão econômica, comercial e política das potências protestantes. A Alemanha dominava a política e a economia do continente europeu. Tanto ela como a Holanda criaram vastos impérios intercontinentais, embora nenhum deles tenha chegado a ter a extensão do Império Britânico. Dadas essas circunstâncias, protestantes de tendências pietistas criaram várias sociedades missionárias, cujo propósito era levar o evangelho às colônias do além-mar. Na Alemanha e Holanda surgiram várias dessas sociedades. E o mesmo fenômeno logo apareceu também em países que não tinham tais impérios, como é o caso da Sociedade Missionária Evangélica de Basileia e da Aliança Missionária Sueca. Ao mesmo tempo, organizavam-se outras sociedades que se ocupavam dos problemas internos da Europa. Na Dinamarca, o luterano N. F. S. Grundtvig dedicou os seus esforços ao cooperativismo agrícola. Na Alemanha e outros países, as organizações de “diaconisas” consagraram-se ao serviço em hospitais, asilos, orfanatos e outras instituições. Por toda parte surgiram organizações dedicadas ao serviço dos necessitados.

Durante todo esse período, a Grã-Bretanha seguiu um curso paralelo ao do resto da Europa. Ali também a Revolução Industrial  causou impacto, porém mais cedo e em maior grau. Essa revolução foi benéfica para a classe média e os capitalistas, ao mesmo tempo que causou prejuízo à velha aristocracia e às classes mais pobres. Estas últimas se viram submersas em tristes condições de trabalho e de moradia. O crescimento das cidades, graças ao apogeu da indústria e do comércio, trouxe consigo o aparecimento de vastas zonas em que os pobres se viam obrigados a viver praticamente amontoados. Ao mesmo tempo, o liberalismo econômico e político avançava rapidamente, dando cada vez mais poder à Câmara dos Comuns em relação à dos Lordes.

Essas condições produziram vários resultados. Um deles foi uma grande onda migratória, não somente em direção aos Estados Unidos, mas também ao Canadá, Austrália, Nova Zelândia e sul da África. Outro [resultado] foi o surgimento do movimento trabalhista. No princípio do século, os sindicatos eram proibidos; mas em 1825 foram legalizados, e no início do século XX o Partido Trabalhista tornou-se uma grande força política. Foi também na Inglaterra, diante do espetáculo quotidiano das condições do proletariado londrinense, que Karl Marx desenvolveu as suas teorias econômicas e políticas.

 Tudo isto causou também um grande impacto sobre a Igreja. Ao estourar a Revolução Francesa, a Igreja Anglicana estava praguejada por muitos dos males que vimos terem existido antes na igreja medieval: o absenteísmo, o pluralismo e a falta de dedicação por parte de muitos membros da alta hierarquia, em sua maioria membros da aristocracia. Durante o século XIX, houve um grande despertamento dentro dessa igreja. O governo promulgou reformas práticas, proibindo os abusos mais extremos. Porém, houve também fortes correntes de reforma dentro da própria igreja. Uma dessas correntes, a dos anglicanos evangélicos, estava particularmente interessada em dar à Igreja Anglicana um tom mais protestante, às vezes com características semelhantes às do pietismo que ocorria no continente europeu.

A outra corrente reformadora que causou grande impacto sobre a Igreja Anglicana foi o “movimento de Oxford“. Esse foi um movimento anglo-católico, cujo objetivo era dar realce às grandes tradições cristãs. Para os membros desse movimento, a sucessão apostólica e a autoridade dos antigos escritores cristãos era de grande importância, como também o sacramento da comunhão, centro do culto cristão. Um dos principais chefes desse movimento, John Henry Newman, converteu-se ao catolicismo, e posteriormente foi feito cardeal, embora sempre tenha sido mal visto pelos católicos conservadores, devido a suas opiniões sobre a evolução dos dogmas. Todavia, a maioria dos membros permaneceu dentro da comunidade anglicana, e deu a essa igreja um firme fundamento na tradição cristã, unido a uma espiritualidade profunda. Também como resultado dessas tendências, surgiram na Igreja Anglicana ordens monásticas, tanto de homens como de mulheres. Várias dessas ordens se dedicaram ao serviço dos pobres e dos enfermos.

Contudo, foi entre as igrejas dissidentes que houve maior vitalidade durante o século XIX. A elevação da classe média acarretou a elevação das igrejas dissidentes, que eram fortes no meio dessa classe. Os metodistas, batistas e congregacionais deram mostras de grande vitalidade, não apenas em seu crescimento numérico, mas também nas muitas sociedades que fundaram para ajudar os necessitados, remediar os males sociais e levar o evangelho para o resto do mundo. Para alcançar as massas pobres e analfabetas, esses grupos organizaram as escolas dominicais, que depois se tornaram prática comum em quase todas as igrejas protestantes. Outros organizaram a Associação Cristã de Moços (YMCA) e sua correspondente para mulheres (YWCA). Também surgiram novas denominações, tais como o Exército de Salvação, fundado em 1864, precisamente como um veículo para alcançar as massas urbanas empobrecidas.

Todos esses grupos, juntamente com os anglicanos da ala evangélica, preocuparam-se com os males sociais de sua época. Foi com o apoio dos metodistas, quacres [quakers] e outros, que se organizaram sindicatos de trabalhadores, defendeu-se a reforma dos cárceres, e se criaram leis contra os abusos de que as crianças eram objeto, particularmente no trabalho.

Talvez a coisa mais importante que os cristãos britânicos conseguiram durante este período foi a abolição da escravatura. Já havia muito tempo, os quacres [quakers] e os metodistas tinham se colocado contra essa abominável instituição. Contudo, foi no século XIX, graças aos esforços de William Wilberforce e de outros cristãos de profunda convicção, que o governo britânico adotou medidas contra a escravidão. Em 1806 e 1811, o Parlamento promulgou leis proibindo o tráfico de escravos. Em 1833, determinou-se que todos os escravos das colônias britânicas no Caribe fossem colocados em liberdade, e isto se cumpriu em 1838. Pouco depois, adotaram-se medidas semelhantes, com respeito às demais colônias britânicas. Ao mesmo tempo, a marinha britânica dedicava-se a interromper o tráfico de escravos realizado por outras nações, firmando com elas tratados que proibiam o tráfico de escravos em alto mar. Pouco tempo depois, a maior parte dos países ocidentais havia abolido a escravidão.

Resumindo, o período iniciado com as revoluções havidas na França e na América, terminaram com a Primeira Guerra Mundial, trouxe grandes modificações nos horizontes políticos da Europa. Em geral, o catolicismo romano sofreu mais do que o protestantismo, por causa dessas mudanças; portanto, o século XIX foi para a Igreja Católica um período de reação contra as ideias modernas. Para o protestantismo, pelo contrário, o século XIX apresentou novas oportunidades. As potências protestantes aumentaram o seu poderio, tanto na Europa como em suas colônias. O liberalismo político e econômico se aliou repetidamente com o protestantismo, que também escreveu páginas digníssimas em sua luta contra a escravidão e outros males sociais. O resultado foi que, enquanto a Igreja Católica encarava os novos tempos com suspeita extrema, muitos protestantes os viam com excessivo otimismo. Isto se notou particularmente no liberalismo protestante, que já analisamos nos Estados Unidos, mas que alcançou sua maior popularidade e suas formas mais extremas na Alemanha, conforme veremos no capítulo IV do presente volume.

No entanto, antes de passar a esse tema, devemos nos deter na consideração de outra região do mundo onde o século XIX ocasionou novos horizontes políticos: a América Latina.

Esta entrada foi publicada em História, Teologia e marcada com a tag , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.