A era dos novos horizontes (VI) – Horizontes Geográficos: O Século do Colonialismo

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos novos horizontes – Vol. 9. São Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª ed.), pág. 117 a 127.

“Afirmo que somos a primeira raça do mundo, e que quanto maior for a parte do mundo que povoemos, mais se beneficiará a humanidade.” (Cecil Rhodes)

Desde o fim do século XV, varias nações europeias se haviam lançado à empresa da colonização do resto do mundo. As duas potências que tomaram a iniciativa foram Espanha e Portugal, e à sua expansão colonizadora e missionária dedicamos nossa atenção no volume VII desta história. Nos meados do século XVI, segundo registramos ali, a Grã-Bretanha começou também suas atividades colonizadoras, particularmente na América do Norte e no Caribe. Ao mesmo tempo, Espanha e Portugal começavam a perder sua hegemonia sobre os mares e, portanto, a sua expansão colonial se deteve. Então, entraram em cena, além dos britânicos, os franceses, holandeses e dinamarqueses. Portanto, durante os séculos XVII e XVIII, essas potências foram estabelecendo enclaves coloniais em diversas regiões do globo.

O propósito dessa colonização não era a conquista militar, ao estilo dos espanhóis no México, mas o estabelecimento de relações comerciais. Por exemplo, o que os ingleses desejavam não era criar um vasto império britânico, nem forçar outros povos a aceitarem seu idioma e religião, como haviam feito os espanhóis e portugueses. O seu objetivo era, antes, criar as condições necessárias para que posteriormente se pudessem beneficiar economicamente dos produtos de uma região. Para isso, a conquista militar não era sempre necessária, e muitas vezes podia acabar sendo contraproducente. Já Portugal havia dado o exemplo desse tipo de colonização, na Ásia, onde, em lugar de procurar conquistar regiões inteiras – coisa que em todo caso teria sido impossível – contentou-se em estabelecer centros comerciais como Goa, na índia, e Macau, na China. Igualmente, os interesses portugueses em Angola e Moçambique se limitaram às costas ou litorais, cuja posse lhes garantia lugares de abastecimento para os navios que navegavam em direção ao Oriente.

Quando Grã-Bretanha e Holanda começaram a sua expansão colonial, este não foi um empreendimento nacional, como havia sido a conquista da América pela Espanha e Portugal. Pelo contrário, o empreendimento colonizador foi colocado nas mãos de interesses privados que se encarregaram da criação, exploração e governo das colônias. Isto foi o que vimos ao discutir a fundação das colônias britânicas na América do Norte, várias das quais foram criadas por companhias comerciais, enquanto que outras foram postas à disposição de nobres ingleses. Igualmente, durante as primeiras décadas da colonização britânica na índia, esse empreendimento esteve nas mãos da Companhia Britânica das Índias Orientais. E os holandeses colocaram suas colônias sob a supervisão da Companhia Holandesa das Índias Orientais. O governo limitou-se a reconhecer essas companhias, que se encarregaram do governo de seus enclaves comerciais intercontinentais.

Quando começou o século XIX, podia se pensar que o colonialismo europeu estava chegando ao fim. Particularmente no hemisfério ocidental, as potências europeias perderam a maior parte de suas colônias. A independência dos Estados Unidos deixou para a Grã-Bretanha, além do Canadá, algumas ilhas no Caribe e porções da costa de Belize e a Guiana. Os franceses perderam o Haiti. E a Espanha, todos os seus territórios, exceto Cuba e Porto Rico, os quais conservaria até o fim do século. Ao mesmo tempo, as guerras napoleônicas esgotaram a Europa e, portanto, era natural supor-se que não restaria muita energia para ser dedicada à empresa colonial.

Todavia, o que aconteceu foi bem ao contrário. As guerras napoleônicas contribuíram para concentrar a atenção da Grã-Bretanha sobre as colônias francesas e espanholas. Quando Napoleão chegou à conquista de quase todo o continente europeu, a Grã-Bretanha se susteve graças à sua superioridade naval. Os navios ingleses, além de impedir que os franceses cruzassem o Canal da Mancha, dedicaram-se a interceptar o trânsito entre a Europa continental (França, Espanha, Holanda e Portugal. todas sob o domínio napoleônico) e suas colônias. O público britânico, desalentado pelas notícias das constantes vitórias do Imperador na Europa, encontrava alento nas notícias de feitos de guerra em praias remotas, onde a marinha inglesa destruía algum forte francês, ou onde uma batalha naval impedia a chegada à Europa de recursos que o Imperador necessitava para sua máquina de guerra. O resultado foi que, ao terminar as guerras napoleônicas, a Inglaterra se havia tornado a dona dos mares e de várias antigas colônias francesas e holandesas.

Tudo isto coincidiu com a principal causa da enorme expansão colonial europeia no século XIX: a revolução industrial. Foi precisamente nessa época que a revolução industrial chegou a tal grau de desenvolvimento que começaram a fazer falta novos mercados. Segundo se foi aplicando a tecnologia à produção industrial, essa produção foi requerendo cada vez maiores capitais e mercados mais amplos. Visto que vários dos países da Europa ocidental competiam entre si no desenvolvimento industrial, e procuravam fechar os seus mercados para os produtos estrangeiros, era necessário encontrar ou criar mercados fora desse âmbito. Até certo ponto, esses mercados existiam na Europa não industrializada, mas não bastavam para satisfazer as necessidades das grandes indústrias que começavam a aparecer. Por isso, os ingleses primeiro, e depois os franceses, alemães e outros, lançaram-se em busca de novos mercados além dos mares.

Um dos resultados dessa competição entre as potências industrializadas foi o “neocolonialismo” na América Latina. Nem bem as antigas colônias espanholas se haviam tornado independentes, e o Brasil deixava de ser colônia portuguesa, quando os britânicos, franceses e norte-americanos começaram a competir entre si pelo domínio dos novos mercados. De fato, foi nessa época que se criou o termo “América Latina“, cunhado pelos franceses para indicar que eles, como latinos, tinham mais afinidade com as novas repúblicas do que os britânicos ou norte-americanos. Mas ulteriormente a França, carente do desenvolvimento industrial que a Grã-Bretanha possuía, perdeu a disputa. Ao começar a Primeira Guerra Mundial, as inversões de capital estrangeiro na América Latina somavam cerca de oito bilhões e quinhentos milhões de dólares, dos quais três bilhões e setecentos milhões eram ingleses, um bilhão e setecentos milhões norte-americanos, e pouco mais de um bilhão franceses. Esses investimentos se fizeram com o consentimento e o apoio das classes crioulas abastadas e, portanto, se estabeleceu uma aliança entre o capital estrangeiro e o nacional. Visto que esse capital podia funcionar melhor em governos oligárquicos, a cargo da aristocracia crioula, esses governos encontraram apoio internacional, e tornou-se mais difícil produzir mudanças radicais na estrutura social dos novos países.

À medida que se foi desenvolvendo a tecnologia dos países industrializados, essa situação foi se tornando cada vez mais tensa. Assim, enquanto a princípio os investidores ingleses estavam interessados principalmente nos mercados urbanos da América Latina e nos produtos agrícolas facilmente obtidos nos portos, por volta de 1870, com a construção de ferrovias, tornou-se possível explorar melhor o interior dos países. Por exemplo, enquanto que a Argentina contava com menos de cinquenta quilômetros de ferrovias em 1860, já em 1914 havia no país mais de trinta mil quilômetros de vias férreas. O resultado foi o aparecimento da grande agricultura e pecuária para exportação, com o consequente crescimento dos latifúndios e da monocultura. A mesma coisa aconteceu no resto do continente.

Na Ásia, a revolução industrial europeia teve consequências semelhantes, embora posteriormente chegou-se à colonização não apenas econômica, mas também política, mediante a conquista militar. Ali também o propósito das potências industrializadas foi criar novos mercados e, por isso, elas se contentaram em estabelecer centros de comércio na Índia, China e outros lugares. Mas em sua maior parte, muitas vezes a contragosto, elas tiveram de intervir militarmente, e governar diretamente grandes porções dos territórios com os quais haviam desejado apenas comerciar. O que acontecia era que, de vez em quando, os comerciantes, vendo os seus interesses ameaçados por algum movimento político no país, pela fraqueza do governo local ou pela proximidade de outra potência industriai, apelavam a seus próprios governos, que se viam forçados a intervir militarmente.

Por volta de 1870, com o novo desenvolvimento industriai, essa situação se agravou. Já não se procuravam apenas mercados para os produtos manufaturados, mas também para matérias primas. Então a Europa começou a cobiçar territórios a que antes havia dado pequena atenção, particularmente no interior da África. Além disso, mais ou menos à mesma época, produziu-se uma modificação na maneira pela qual os europeus consideravam as colônias. Até então, estas só haviam despertado interesse da parte dos comerciantes, marinheiros e missionários. Mas agora se produzia em toda Europa um furor imperialista. As demais nações perceberam que, quase sem notarem, a Grã-Bretanha havia criado um vasto império intercontinental. Unicamente a França se havia ocupado em criar um império semelhante, embora muito menor. Começou então a circular na Europa a ideia de que, para ser uma potência europeia, era necessário possuir um império ultramarino, e países como a Bélgica, Itália e Alemanha, que até então pouco se haviam ocupado do resto do mundo, se lançaram a conquistá-lo. Particularmente na África, produziu-se uma divisão territorial onde quase todo o continente acabou sob o domínio de alguma potência europeia. E a mesma coisa aconteceu nas ilhas do Pacífico, que logo foram repartidas entre os diversos impérios coloniais.

Tudo isto foi possível graças a outra grande consequência do desenvolvimento tecnológico do Ocidente: a sua superioridade militar. O Ocidente contava com armas que não tinham rival no armamento dos países colonizados, e com as quais era possível derrotar exércitos muito mais numerosos. A infantaria contava com rifles de alta precisão e armas de repetição; a artilharia, com canhões de grande alcance e relativamente fáceis de transportar. A marinha, de 1880 em diante, com navios de guerra a vapor, capazes de destruir frotas inteiras de barcos a vela, de subir rios para atacar o interior dos países e de interromper o tráfego de cabotagem ao largo das costas. Ante tal superioridade militar, até os impérios mais orgulhosos e antigos – o da China, por exemplo – tiveram que se humilhar.

Só alguns países da Ásia e da África conseguiram conservar a sua independência política, e até a esses não se permitiu conservar a sua independência econômica. A China e o Japão, por exemplo, embora não tenham sido conquistados pelas potências ocidentais, foram forçados, mediante a intervenção militar, a se abrir para o comércio internacional. Economicamente, e pela primeira vez na história, o mundo passou a ser uma vasta rede comercial.

Na Europa e nos Estados Unidos se discutia amplamente o que estava acontecendo. Houve quem se opusesse a diversos empreendimentos coloniais, por considerá-los contrários ao interesse nacional. E algumas vezes relativamente isoladas se levantaram em protesto contra o modo pelo qual se tratavam os habitantes dos territórios colonizados. Contudo, em termos gerais, os colonizadores estavam convencidos de que a sua empresa se justificava devido aos benefícios que as populações colonizadas receberiam. A Cecil Rhodes que encabeça este capítulo é característica do espírito da época. Deus havia colocado nas mãos dos europeus e dos brancos norte-americanos os benefícios da civilização ocidental, incluindo a fé cristã, para que eles os compartilhassem com o resto do mundo. Essa responsabilidade era vista como “encargo do homem branco”, que devia levar ao resto do mundo as bênçãos da industrialização, o capitalismo, a democracia e o cristianismo. Se os empreendimentos colonizadores destruíam de passagem as velhas culturas, ou as antigas bases econômicas de uma civilização, isto se desculpava, pois mais tarde a nova cultura e as novas bases econômicas redundariam no bem de todos.

Tais argumentos não eram sem base. Os progressos da ciência médica, por exemplo, chegaram a lugares antes ilhados. Como veremos mais adiante, Livingstone estava convencido de que o único modo pelo qual se poderia deter o tráfico de escravos era abrir a África para o comércio internacional, e provavelmente ele tinha razão. Nas nações colonizadas, houve muitas pessoas que receberam a nova ordem com entusiasmo, e que se beneficiaram com ela.

Mas o sistema todo se baseava em uma arrogância étnica e cultural que logo acarretaria o repúdio dos povos colonizados. Já no fim do século XIX, havia nesses povos pessoas que assinalavam com argumentos convincentes o fato de que muitos dos supostos benefícios do regime colonial em verdade não eram benefícios. Outros muitos, ao mesmo tempo que estavam dispostos a aceitar a tecnologia, não estavam dispostos a aceitar a tutela ocidental. Assim surgiu o movimento anticolonialista que seria uma das características distintivas do século XX.

A igreja participou de todas estas circunstâncias. O século XIX, que foi a época da expansão das potências protestantes, foi também o período do grande avanço das missões protestantes. A relação entre ambos os elementos, colonialismo e missões, é demasiado complexa, segundo veremos no restante deste volume. Não é totalmente exato dizer que os missionários foram agentes do colonialismo, pois, em algumas vezes, se opuseram a ele, e em muitíssimos casos criticaram as suas práticas. Tampouco é certo que a grande expansão missionária entrou pelas portas abertas pelo colonialismo, pois, se bem seja verdade que muitas vezes as colônias foram a porta de entrada para os missionários, também é verdade que houve lugares em que os missionários chegaram muito antes dos comerciantes e colonizadores e que, em muitos casos, as autoridades coloniais se opuseram à obra missionária. O que é indubitável, e o restante deste volume provará por completo, é que uma inumerável hoste de cristãos, levada por motivos muito sinceros e por um inegável amor ao resto da humanidade, lançou-se à tarefa de evangelizar o mundo, precisamente na mesma época em que outros se dedicavam a explorá-lo, e que o resultado foi que, no fim do século XIX, dificilmente havia um território afastado do mundo onde existisse uma comunidade que não louvasse o nome de Jesus Cristo.

Considerando a forma como essa obra se realizou na Ásia, no Pacífico, na África e na América Latina, dedicaremos o restante do presente volume à sua descrição. Mas antes de passar a narrar esses fatos, devemos prestar atenção a algumas características gerais desse grande movimento missionário.

Resultado de imagem para Adoniram JudsonTalvez o fato mais notável desse período tenha sido a fundação de inúmeras sociedades, cujo objetivo era apoiar a obra missionária. Algumas dessas sociedades trabalhavam exclusivamente entre os membros de uma determinada denominação. Outras atravessavam as barreiras denominacionais. Mas todas eram sociedades voluntárias, de tal modo que o sustento financeiro da obra missionária não procedia normalmente dos cofres oficiais da igreja como instituição, mas das contribuições dos membros da igreja que se interessavam pela evangelização do mundo. Algumas dessas sociedades foram fundadas muito antes do período que estamos estudando. Entre as mais antigas se encontram a Sociedade para Promoção do Conhecimento Cristão (Society for Promoting Christian Knowledge, ou S.P.C.K.l e a Sociedade para a Propagação do Evangelho em Terras Estrangeiras (Society for the Propagation of the Gospel in Foreign Parts, ou S.P.G.l. A primeira foi fundada em 1698, e a segunda, em 1701. Ambas eram anglicanas, e durante muito tempo a maior parte do seu trabalho teve lugar entre os britânicos que viviam além-mar, embora elas também se tenham ocupado dos habitantes nativos das colônias britânicas. Durante o século XVIII, devido ao impacto dos pietistas, morávios e metodistas, foram fundadas outras sociedades com propósitos missionários. Porém, o auge das sociedades missionárias aconteceu no fim do século XVIII, e durante todo o século XIX. Em 1792, graças ao empenho de William Carey – de quem trataremos mais adiante – foi fundada a Sociedade Batista Particular para Propagar o Evangelho entre os Pagãos, que depois assumiu o nome de Sociedade Missionária Batista. Três anos depois, em parte devido ao exemplo dos batistas, foi fundada a Sociedade Missionária de Londres (London Missionary Society, ou L.M.S.) constituída principalmente de metodistas, presbiterianos e congregacionais. Em 1799, a ala mais evangélica da Igreja Anglicana fundou a Sociedade Missionária da Igreja (Church Missionary Society, ou C.M.S.). A partir de então, as sociedades missionárias se multiplicaram. Na Inglaterra foram fundadas várias dezenas delas com fins específicos, tais como a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira (1804). Dali o movimento se transferiu para outras partes da Europa e para os Estados Unidos. Logo foram fundadas sociedades semelhantes na Holanda, Suíça, Dinamarca, Alemanha e outros países. Na França apareceram sociedades tanto protestantes como católicas. Nos Estados Unidos foi fundada entre os congregacionais a Junta Americana de Comissionados para Missões Estrangeiras (American Board of Commissioners for Foreign Missions). Quando uma pessoa dentre os seus enviados, o famoso Adoniram Judson, se tornou batista, essa denominação se sentiu impulsionada a organizar a sua própria sociedade missionária, e posteriormente foi dessa sociedade que surgiu a Convenção Batista Americana. Outras sociedades foram fundadas, como já consignamos, para devolver escravos libertos à África, para combater o uso do álcool, para abolir a escravidão, etc. Em 1816, foi fundada a Sociedade Bíblica Americana.

A existência de todas essas sociedades é uma indicação de outra característica do enorme progresso missionário do século XIX: esse avanço teve lugar com escasso apoio das autoridades civis. Desde os tempos de Constantino, as autoridades “haviam apoiado decididamente a expansão da fé cristã. Recordemos, por exemplo, a conversão forçada dos saxões por parte de Carlos Magno, ou a conquista da América pelos espanhóis e portugueses. Mas agora, no século XIX, a maioria dos governos europeus se fez alheio às atividades missionárias. Por muito tempo, a Companhia Britânica das Índias Orientais procurou impedir a entrada de missionários nos territórios que estavam a seu cargo. Os governos europeus, e o dos Estados Unidos, geralmente adotaram em face das missões uma atitude neutra. Os missionários desses países, pelo menos em teoria, não deviam contar com mais proteção do que a que era estendida a outros cidadãos da mesmas nações. Essa proteção era importante, e em mais de uma ocasião uma potência ocidental acudiu em defesa dos seus missionários. Mas como um todo, as missões não eram empreendimento oficial dos governos, e raras vezes contaram com subsídios governamentais. Foi precisamente por isso que as sociedades missionárias se tornaram tão necessárias, pois eram elas que arrecadavam os fundos e recrutavam o pessoal necessário para os empreendimentos missionários e evangelísticos.

Como consequência de tudo isso, pela primeira vez na história os empreendimentos missionários cativaram o interesse dos membros comuns das igrejas. Naturalmente, os que verdadeiramente se interessavam foram apenas uma parte deles. Mas todos podiam contribuir de algum modo. Até para as crianças foram fundadas sociedades missionárias, para cujos fundos cada criança contribuía com uma pequena quantidade semanal ou mensal. As sociedades missionárias também se ocupavam em dar conhecer a seus membros o que acontecia na Ásia ou na África, e assim se tornaram uma das principais fontes de informação a respeito de outras civilizações com que o Ocidente entrou em contato. Logo, graças às sociedades missionárias, começou a haver muitas pessoas que tinham notícias acerca dos lugares mais remotos da África, ou dos costumes da China ou da índia.

As mulheres desempenharam um papel importante em tudo isso. A princípio, os missionários eram homens, embora muitos deles casados, e acompanhados de suas esposas. Porém, logo as mulheres começaram a ocupar um lugar destacado, tanto nas sociedades como no pessoal missionário. Em várias denominações foram fundadas sociedades missionárias de mulheres. Algumas delas enviaram missionárias de cujo sustento se ocuparam. Entre os católicos, essas mulheres eram geralmente freiras, e se ocupavam de tarefas semelhantes às que desempenhavam em seus países: o ensino, o cuidado dos enfermos, os asilos para órfãos e para anciãos, etc. Entre os protestantes, muitas mulheres começaram a exercer funções que lhes eram vedadas em suas próprias igrejas, tais como a pregação. Naturalmente, isto se devia a uma atitude de superioridade racial e cultural, que considerava como certo o fato de que as mulheres brancas dos Estados Unidos, por exemplo, não podiam pregar a norte-americanos, mas sim a pessoas de outras culturas e raças. Em todo caso, posteriormente o exemplo das missionárias, que assumiam responsabilidades que estavam proibidas a suas irmãs na Europa e nos Estados Unidos, encontrou eco em seus países de origem, e por isso o movimento feminista no protestantismo ocidental tem algumas de suas raízes na participação das mulheres no movimento missionário.

Por fim, uma das consequências mais notáveis do movimento missionário, particularmente entre os protestantes, foi o espírito de cooperação que começou a aparecer entre as diversas denominações. As rivalidades que pareciam ser justificadas na Europa ou nos Estados Unidos eram um verdadeiro tropeço para a obra missionária na Índia ou na China. Por isso, os missionários primeiro, e depois os dirigentes nacionais das novas igrejas, procuraram métodos para romper as antigas barreiras entre as denominações. Várias sociedades missionárias que mencionamos contavam com membros de várias denominações. Nos campos missionários, os cristãos se viram diante da necessidade de apresentar uma frente única, desenvolvendo estratégias baseadas na cooperação, e não na competição. Assim foi que o movimento ecumênico, pelo menos entre os protestantes, surgiu em boa parte a partir do movimento missionário do século XIX, tema a que dedicaremos o último capítulo deste volume.

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