A era dos novos horizontes (VII) – Horizontes Geográficos: Ásia

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos novos horizontes – Vol. 9. São Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª ed.), pág. 128 a 157.

“Não discutirei o caráter particular dos missionários, alguns dos quais, antes de se tornarem apóstolos, foram fabricantes de anil. …Em lugar de fermentar uma erva, o que se faz em vinte e quatro horas, eles se dedicaram a fermentar todo o país, e os seus resultados se farão sentir durante anos.” (William F. Elphinstone, Diretor da Companhia das índias Orientais)

Durante séculos, as antigas civilizações do Oriente haviam fascinado os europeus. Em livros medievais incluíam-se vagos rumores acerca dos estranhos costumes e dos incríveis monstros que havia nessa região. As viagens de Marco Polo e outros haviam levado à Europa notícias de fabulosas riquezas das cortes da China e da Índia. No século XVI, os portugueses estabeleceram contatos permanentes com essa região, e a partir de então o comércio entre a Europa e o Oriente continuou sem interrupção. Logo que puderam, outras potências europeias reclamaram a sua parte nesse rico butim. Embora o seu objetivo não fosse realizar conquistas entre os asiáticos, mas comerciar com eles, pouco a pouco a necessidade de conseguir ou de manter concessões ou vantagens comerciais foi levando as potências europeias a intervir militarmente, até que, ao começar a Primeira Guerra Mundial, eram poucos os territórios que não estavam sob o domínio colonial. Junto com essa expansão económica, militar e política, marcharam os missionários, às vezes ao lado dos colonizadores, outras vezes atrás deles, outras antes. Em todo caso, ao terminar o século XIX, havia poucas regiões do Oriente em que não se conhecia, pelo menos superficialmente, a mensagem de Jesus Cristo.

Índia

O território onde, em primeiro lugar e mais profundamente, se fez sentir o impacto colonial e missionário foi o subcontinente hindu – correspondente hoje à Índia, Paquistão, Bangladesh e SriLanka. Ali existia desde tempos imemoriais, como registramos em nosso primeiro volume, uma igreja cristã que dizia haver sido fundada pelo apóstolo Tomé. Depois, essa igreja teve contatos com os jacobitas da Síria, e então se uniu a eles em seu esforço para rejeitar o Concílio de Calcedônia, motivo por que foi apelidada de “monofisita”. Quando os católicos chegaram no século XVI, procuraram forçar a conversão desses antigos “cristãos de São Tomé”, com o resultado de que alguns se tornaram católicos e outros continuaram em sua antiga fé. Esse remanescente recebeu mais tarde o impacto do protestantismo, particularmente anglicano, e como consequência disso alguns se separaram da antiga igreja e formaram a Igreja de Mar Thoma, protestante em suas doutrinas, ao mesmo tempo que guarda a sua liturgia e costumes tradicionais. Essa igreja é forte especialmente no sul da índia, onde se tem distinguido por seu trabalho evangelístico.

Os católicos, que chegaram no século XVI debaixo da bandeira portuguesa, continuaram o trabalho iniciado por Francisco Xavier, o grande missionário jesuíta. Mas a decadência do poderio português acarretou-lhes grandes dificuldades. À semelhança do que anotamos no caso da América Latina, estas dificuldades foram devidas principalmente a disputas com respeito ao patronato que os papas haviam concedido à coroa portuguesa sobre a igreja em suas colônias. Roma desejava retirar os antigos direitos e privilégios que Portugal considerava seus perpetuamente. Por fim, Gregório XVI, que tinha profundos interesses no trabalho missionário, decidiu intervir diretamente nos territórios antigamente reservados para o colonialismo português. Em 1833, o governo português rompeu com Roma, e esta fez com que fossem enviados para a Índia e outras regiões do Oriente fortes contingentes de missionários, particularmente jesuítas, que logo entraram em conflito com as autoridades portuguesas, tanto civis como eclesiásticas. O resultado final desses conflitos, em que ambas as partes se acusavam mutuamente de hereges e cismáticos, foi que durante o século XIX as missões católicas avançaram muito lentamente.

Enquanto isso, os protestantes se haviam estabelecido na Índia. Os primeiros a fazê-lo foram comerciantes que não tinham grande interesse na conversão dos naturais do país. Pelo contrário, muitos desses comerciantes temiam que a pregação do evangelho aos hindus acarretasse motins que redundariam em prejuízo para o comércio. Todavia, como vimos no volume anterior, o século XVIII foi a época do pietismo, e este tinha profundo interesse na obra missionária. Portanto, desde o começo desse século houve pessoas na Europa que se interessaram pela pregação do evangelho aos hindus.

Uma dessas pessoas foi o rei Frederico IV da Dinamarca, que decidiu enviar missionários à Índia. Em particular, o rei pensava que a pequena estação dinamarquesa de Tranquebar, que desde 1620 se havia dedicado ao comércio, devia ser também um centro missionário. Visto que em toda Dinamarca não foi possível encontrar ministros dispostos a empreender essa tarefa, o rei recorreu à universidade alemã de Halle, centro intelectual do pietismo, e então Ihe foram enviados dois missionários. Esses chegaram a Tranquebar em 1706, e ali começaram uma obra que perduraria até o século XX, com quotas de contribuição tanto dinamarquesas quanto alemãs e britânica. Os missionários de Tranquebar traduziram as Escrituras para vários idiomas da Índia, e até a segunda metade do século XVIII conseguiram tal respeito dos naturais do país, que em mais de uma ocasião o missionário alemão Christian Friedrich Schwartz foi chamado para intervir, evitando encontros bélicos entre diversos potentados hindus.

No entanto, o grande progresso missionário na índia teve lugar no século XIX, que foi também a época do crescente poderio britânico. Durante o século anterior, embora o mapa da Índia fosse um mosaico de estados relativamente independentes, o poderio do Grã-Mogul lhe dava certa unidade à região, e nenhum europeu sonhou em conquistá-la. Em 1717, mediante donativos e serviços médicos, a Companhia Britânica das Índias Orientais conseguiu algumas concessões do Grã-Mogul. A partir de então, enquanto o poderio dos grão-mongols se desfazia, o da Companhia aumentava. Nos princípios do século XVIII, quase toda a costa oriental da Índia estava sob o governo da Companhia. Além disso, em 1796, os britânicos invadiram a ilha de Ceilão, hoje Sri-Lanka. Em meados do século XIX, quase toda a Índia estava sob o domínio direto ou indireto da Companhia. Mas em 1857 e 1858 produziu-se uma grande rebelião. Os “cipaios”, soldados hindus a serviço dos britânicos, tiveram uma parte ativíssima na revolta, que proclamou imperador da Índia o último dos grão-mongóis. Quando os britânicos conseguiram esmagar os rebeldes, enviaram o pressuposto imperador para o exílio, onde morreu, e resolveram tirar das mãos da Companhia o governo da Índia, colocando-o diretamente sob o domínio da coroa e dando ao governador o título de vice-rei.

A Companhia Britânica das Índias Orientais opunha-se ao trabalho missionário, pois temia que a pregação cristã, e em particular a conversão de alguns hindus, pudesse causar uma reação por parte destes, e que isso redundaria em prejuízos para o comércio. Por isso, durante quase um século não houve nenhum missionário entre as colônias britânicas, mas somente capelães cujo ministério se limitava aos europeus que viviam no lugar. Ademais, tal política por parte da Companhia não provocava grande oposição na Grã-Bretanha, onde o interesse missionário era escasso, e o pouco que havia era dedicado principalmente aos índios da América do Norte.

Resultado de imagem para William CareyPor todas estas razões, pode se dizer que o fundador das missões modernas, pelo menos no que se refere à Grã-Bretanha, foi William Carey. Ele havia sido criado no lar de um professor anglicano, e em sua mocidade, depois de uma profunda experiência religiosa, havia se tornado batista. De seu lar havia adquirido o hábito da leitura, que nunca abandonou, e lendo acerca das viagens do capitão Cook e outros, despertou-se nele um profundo interesse por terras distantes e culturas diferentes. Isso o levou a preparar um mapa do mundo que incluía notas acerca da cultura e da religião de cada lugar, e a estudar, além do latim, o grego e o hebraico, o holandês e o italiano.

Tudo isto, juntamente com a sua profunda fé e seu constante estudo das Escrituras, convenceu-o de que a obrigação de pregar o evangelho a toda humanidade não era uma ordem dada apenas aos apóstolos, como muitos pensavam naquela época, mas era também a obrigação dos cristãos de todas as gerações. Depois de publicar um ensaio onde propunha esta tese, em 1792 pregou perante a Associação de Ministros Batistas um famoso sermão de exortação às missões, com o resultado de que logo se fundou a Sociedade Batista Particular para Propagar o Evangelho entre os Pagãos. O seu objetivo era coletar fundos para enviar missionários, e recrutar pessoas idôneas para essa tarefa. No entanto, posteriormente o resultado foi que o próprio Carey se sentiu chamado a empreender pessoalmente a tarefa missionária.

Em 1793, William Carey desembarcou em Calcutá, em companhia de sua família e do Dr. John Thomas, que esperava utilizar sua renda como médico para sustentar a todos. Visto que a Companhia das Índias Orientais se opunha ao trabalho missionário, eles não declararam a sua intenção. Mas as primeiras dificuldades não foram resultados da oposição da Companhia, mas do manejo deficiente das finanças por parte do Dr. Thomas, que já na Inglaterra se vira imerso em dívidas, e agora se inclinava para o mesmo caminho. Apesar disso, Carey continuou em seu empenho, dedicando-se a qualquer ocupação que lhe parecia oferecer meios de sustento. Uma delas foi a produção de anil mediante a fermentação de folhas e talos de índigo, e é a isto que se refere a citação que encabeça este capítulo. No momento de maiores dificuldades ele escreveu a seus amigos na Inglaterra: “A minha posição já é insustentável… Há dificuldades por toda parte, e muitas mais à minha frente. Portanto, precisamos seguir avante“. Tal firmeza não ficou sem recompensa. Logo chegaram da Inglaterra, além dos fundos necessários para a subsistência de Carey e seus acompanhantes, outros missionários dispostos a sofrer as mesmas dificuldades e participar da mesma aventura.

Visto que a Companhia das Índias Orientais não permitiu que os recém-chegados desembarcassem em Calcutá, eles se estabeleceram na colônia dinamarquesa de Serampore, fronteiriça a Calcutá. Mais tarde, Carey se uniu a eles, e a partir de então Serampore foi o centro da obra missionária batista na região. Ali os missionários se dedicaram a múltiplas tarefas, todas com o propósito de dar a conhecer o evangelho aos hindus. O próprio Carey, que possuía habilidades linguísticas extraordinárias, dedicou-se a traduzir a Bíblia em diversos idiomas da Índia. Por ocasião de sua morte, havia ele traduzido as Escrituras, ou porções delas, para trinta e cinco idiomas. Outro dos missionários, Ward, era impressor, e produziu as matrizes necessárias para a impressão das traduções de Carey. Outro, Marshman, dedicou-se ao ensino, e logo se formou em Serampore uma escola de estudos superiores, onde estudavam tanto hindus como europeus. A ambos os grupos se ensinavam as Escrituras cristãs, a ciência ocidental e os livros sagrados da Índia. Deste modo esperava-se que os europeus chegassem a compreender melhor a cultura do país, e que os naturais, que posteriormente seriam encarregados de levar o evangelho às diversas regiões da Índia, pudessem fazê-lo com pleno conhecimento, não apenas das Escrituras cristãs, mas também das hindus e budistas.

Tudo isto indica que Carey e os seus sentiam um profundo respeito pela cultura e pelas tradições da Índia. O seu propósito era criar uma igreja que fosse fiel a essa cultura, sempre que isso não se opusesse aos mandamentos bíblicos.

Havia dois costumes na Índia que horrorizavam a Carey e seus companheiros: os sacrifícios de crianças no rio Ganges e a queima das viúvas nas piras fúnebres de seus esposos. O governador Wellesley demonstrava desejos de proibir os sacrifícios de crianças, mas não se atrevia a fazê-lo se com isso contradissesse o que era ordenado nos livros sagrados da índia. Por isso, pediu a Carey que lhe apresentasse um estudo a esse respeito. Quando, depois de minuciosa pesquisa, Carey lhe informou que os sacrifícios de crianças não encontravam nenhum apoio nos seus livros, mas eram, antes, um costume de origem obscura, Wellesley proibiu que se continuasse sacrificando crianças. A princípio foi necessária uma vigilância constante para evitar que esse costume continuasse. Mas, pouco a pouco, em parte convencidos pelos argumentos de Carey, os próprios hindus concordaram em abandoná-la.

O costume de queimar viúvas nas piras fúnebres de seus esposos – ritual chamado sati – foi muito mais difícil de desarraigar [ou desarraigar]. O próprio Carey conta que na primeira vez que presenciou tão horrível rito, ao ver o que estava para acontecer, dirigiu-se aos presentes, apelando aos sentimentos humanos que tivessem, acabando por chamá-los de assassinos. Mas tudo foi em vão; a própria viúva, zombando da sensibilidade do missionário, dançou ao redor da pira, e encostou-se ao cadáver de seu esposo. Então colocaram em cima dela duas varas fortes, e a ataram toda, de tal forma que não conseguia levantar-se. Quando Carey protestou, dizendo que se supunha que a viúva devia morrer voluntariamente e que, atada, ela não poderia abandonar a pira ao sentir as chamas, disseram-lhe que as varas e a corda não eram para amarrar a viúva, mas para que a lenha não se espalhasse. Além disso, convidaram-no a ir embora, dizendo que não se intrometesse nos assuntos alheios. Mas Carey decidiu permanecer no meio daquela turba hostil, disposto a saltar e a livrar a viúva diante da sua menor queixa. Quando puseram fogo na pira, todos os presentes começaram a dar gritos de júbilo, e foi tal a algazarra que Carey nunca soube se a viúva gritou de dor ou não. Mas a partir de então ele ficou convencido da necessidade de abolir o ritual do sati.

A luta foi árdua. As autoridades britânicas, mais interessadas no comércio do que em qualquer outra coisa, temiam que a proibição do sati resultasse em motins que interrompessem o comércio. Carey mais uma vez se dedicou a demonstrar que esse costume não encontrava nenhum apoio nos livros sagrados. Sobretudo, ele e os seus companheiros, mediante informações e correspondências criaram na Inglaterra uma forte corrente de opinião pública contra o sati. Por fim, depois de longa luta, chegou o edito que proibia tal rito. Era o dia do Senhor, e alguns dos missionários achavam que deviam dedicar-se a assuntos religiosos, deixando a tradução do edito para segunda-feira. Contudo, recordando o exemplo do Senhor ao curar no dia de descanso, e pensando que o peso em suas consciências seria enorme se uma só viúva morresse por causa de sua negligência, correram a traduzir e imprimir o edito.

Se nos detivemos para narrar com tantos detalhes a obra de Carey, isto é porque a obra dele serviu de inspiração e de exemplo para boa parte do trabalho missionário realizado durante o século XIX. As informações de Carey despertaram o interesse missionário, não apenas entre batistas, mas também entre outros cristãos, tanto na Grã-Bretanha como nos Estados Unidos. Logo se formaram as muitas sociedades missionárias a que nos referimos no último capítulo. Não apenas na Índia, mas também em outras regiões, a obra de Carey foi a medida que muitos missionários aplicaram a si mesmos. E, graças ao caráter amplo da visão de Carey, que incluía os estudos linguísticos e culturais, a educação de ministros nativos, a tradução das Escrituras e o conhecimento e apreço pela cultura do lugar, muitos dos missionários do século XIX gozaram da mesma amplidão de horizontes.

No que se refere à Índia, a partir de então o trabalho missionário avançou rapidamente. Em 1813, ao expirar a concessão que o Parlamento havia feito à Companhia das Índias Orientais, incluiu-se na nova lei de concessão uma cláusula que garantia o livre acesso de missionários britânicos à Índia, sem os empecilhos que até então a Companhia lhes havia causado. Vinte anos mais tarde, esses privilégios foram estendidos às sociedades missionárias de outros países.

Provavelmente o missionário mais notável da segunda geração foi o escocês Alexander Duff, que estava convencido de que o melhor modo de evangelizar o país era mediante a educação. Era a época em que um crescente número de hindus desejava aprender tudo o que pudesse acerca da técnica europeia e, assim, a obra de Duff no campo da educação teve grande êxito. Duff estava convencido de que a tecnologia ocidental era incompatível com as antigas religiões da Índia, e que, portanto, ao introduzir essa tecnologia, ele estava minando essas religiões. Em todo caso, mais tarde todo o sistema de educação na Índia foi organizado segundo os padrões de Duff. Um dos resultados dessa obra foi que, quando um século mais tarde a Índia conseguiu a sua independência, muitos dos dirigentes da nova nação, se não eram cristãos, pelo menos haviam recebido o impacto de professores cristãos.

Enquanto essa obra abria brechas no meio das classes mais educadas, produziam-se grandes movimentos de conversão em massa nas classes mais inferiores da sociedade. Desde o princípio, os missionários protestantes se haviam colocado em franca oposição ao sistema de castas, por considerá-lo contrário ao evangelho. Nisto eles diferiam dos católicos, que em geral seguiam os métodos que indicamos ao falar de Nobili no volume VII desta História, e que, portanto, não se opuseram tão radicalmente ao sistema de castas. Até os princípios do século XIX, houve nos templos católicos divisões para separar os crentes das diferentes castas. Entre os protestantes, todavia, anunciava-se que o evangelho abolia toda ideia de casta. Por conseguinte, como era de se esperar, logo muitas pessoas das castas mais desprezadas começaram a acudir às igrejas, onde pela primeira vez eram tratadas com dignidade. Assim, tiveram lugar conversões em massa entre as castas mais baixas. Algo semelhante aconteceu com algumas tribos que até então haviam vivido marginalizadas na sociedade hindu.

O cristianismo causou também grande impacto entre outro grupo de pessoas marginalizadas, as mulheres. O costume do sati era apenas um entre muitos que indicavam que as mulheres eram pessoas menos dignas do que os homens. O infanticídio feminino era relativamente comum. E em geral se considerava que as mulheres não deviam receber maior educação. Os missionários, e particularmente as missionárias, ocuparam-se das mulheres desde cedo. Em 1857, Alexander Duff fundou a primeira escola diária para meninas. Mas o melhor exemplo da obra entre as mulheres foi a hindu Ramabai.

Pandita Ramabai Sarasvati 1858-1922 front-page-portrait.jpg[Pandita] Ramabai havia sido criada em um lar excepcional, onde sua mãe se preocupou com que ela aprendesse o sânscrito, e que recebesse uma educação esmerada. Depois de várias tragédias em sua família, Ramabai decidiu dedicar-se ao cuidado de meninas e jovens viúvas. Visto que na Índia era costume prometer e casar as meninas desde a infância, havia viúvas de mui tenra idade, e Ramabai dedicou o seu tempo e a sua fortuna a cuidar delas. Foi então que alguns missionários cristãos, convencidos do valor da sua obra, animaram-na a viajar até a Inglaterra, para ali se preparar melhor. Durante a sua estada na Inglaterra, ela se converteu, e decidiu continuar a obra a que se havia dedicado, agora então, com uma ênfase cristã. Depois de visitar os Estados Unidos, onde obteve apoio para os seus projetos, ela voltou à Índia. Ali fundou um lar para viúvas, e depois outro para órfãs. Convencida de que as mulheres eram dignas de uma educação tão esmerada como a que os homens recebiam, Ramabai aplicou esse princípio a seus lares, de onde saíram mulheres, muitas delas cristãs, que causariam forte impacto na vida do país. Portanto, a obra de Ramabai constitui um marco na emancipação das mulheres na Índia.

O sudeste da Ásia

Também no sudeste da Ásia fez-se sentir o impacto colonizador. No centro dessa região encontrava-se o reino de Sião, que antes havia sido muito grande, mas que então estava limitado a uma faixa que dividia a região em duas. A leste de Sião, foram os franceses que colonizaram a região, hoje Vietnã, Laos e Camboja (Campuche’ia), enquanto que a Birmânia, a oeste, ficou sob a administração britânica da Índia.

Na zona de influência francesa, frequentemente foram os missionários que provocaram o avanço do colonialismo. Foi o que aconteceu nos reinos de Anam e Cochinchina, onde os católicos, perseguidos pelos governos locais, apelaram para as autoridades francesas, que acabaram por dominar a região. Além disso, a fim de facilitar a vida cristã aos novos convertidos, estes foram reunidos em aldeias católicas. Visto que, graças a seus conhecimentos técnicos e à ajuda proveniente da França, as aldeias católicas frequentemente acabavam mais prósperas que as budistas, logo houve inimizade entre umas e outras. Essa inimizade perdurou até data bem avançada no século XX, quando se manifestou nos graves conflitos que açoitaram a região.

Na Birmânia, a figura missionária mais notável foi o norte-americano de origem congregacional Adoniram Judson, um dos fundadores da Junta Americana de Comissionados para Missões Estrangeiras, a que nos referimos anteriormente. Depois de muitas vicissitudes, Judson e sua esposa embarcaram para a Índia. Durante a viagem, eles se dedicaram a estudar o Novo Testamento, e chegaram à conclusão de que o batismo de crianças, prática comum entre os congregacionais, não era bíblico. Ao chegar à Índia, eles estabeleceram contato com Carey e os seus auxiliares, e foram batizados como batistas. Naturalmente, isto queria dizer que eles renunciavam ao sustento da Junta Norte-Americana de Comissionados e, portanto, foi necessário fundar nos Estados Unidos, como já registramos, uma sociedade missionária batista. Assim, neste caso deu-se a estranha circunstância de que primeiramente houve missionários e depois uma sociedade para sustentá-los.

Embora a princípio Judson e sua esposa houvessem planejado estabelecer-se perto de Carey, as autoridades britânicas lhes antepuseram muitos empecilhos, e por isso eles decidiram empreender a sua obra na Birmânia, onde um dos filhos de Carey, Félix, era médico, e onde o poderio britânico ainda não se havia estendido. A travessia foi difícil, e nela ocorreu o nascimento prematuro e sem vida do primogênito dos missionários. Na Birmânia, o Dr. Carey lhes prestou um apoio insuficiente. Apesar disso, os Judson continuaram a sua obra, seguindo em grande parte o padrão estabelecido por Carey. Eles se dedicaram especialmente ao estudo dos idiomas e à tradução das Escrituras. Ambos aprenderam o birmanês, e, além disso, ele estudou o antigo idioma pali, em que estavam escritos os livros budistas, e ela, o tai, que se falava em Sião (Tailândia). Os batistas norte-americanos enviaram um impressor, e em 1817 apareceu a tradução birmanesa do Evangelho de Mateus. Dois anos mais tarde, eles batizaram o primeiro convertido, e por fim os seus esforços começaram a produzir resultados quando explodiu a guerra entre a Birmânia e a Grã-Bretanha. Judson havia recebido, através da Inglaterra, fundos procedentes dos batistas norte-americanos, e por isso as autoridades birmanesas suspeitaram que ele estava servindo como agente britânico, e o encarceraram. A sua esposa interveio a seu favor, e depois de várias semanas ele foi colocado em liberdade, embora com a saúde prejudicada. Nos Estados Unidos, as notícias da sua prisão e da heroica atitude de sua esposa despertaram novo interesse pela missão na Birmânia. Mas as semanas de angustiosa incerteza afetaram a saúde da senhora Judson, que faleceu em 1826. Judson continuou em seu empenho e, por fim, em 1834, terminou a tradução da Bíblia em birmanês. Nesse mesmo ano ele se casou com a viúva de outro heroico missionário, George D. Boardman, que havia morrido prematuramente três anos antes. Em 1845, a segunda esposa de Judson ficou enferma, e ambos decidiram regressar aos Estados Unidos. Mas ela faleceu durante a viagem, e no ano seguinte Judson, depois de contrair novas núpcias, voltou à Birmânia, onde passaria o resto de seus dias.

Judson e os primeiros missionários viram poucas conversões. Todavia, pouco depois, graças a um convertido da tribo dos karens, Ko Tha Byu, começou a conversão em massa dos membros dessa tribo. Até o dia de hoje, a principal força numérica dos protestantes na Birmânia está entre os karens. Esta tribo, que se considerava oprimida pelos birmaneses, viu com bons olhos o crescente poderio britânico, e por isso se mostrou mais disposta do que os birmaneses a aceitar a fé pregada pelos missionários.

Sião (Tailândia), como dissemos, foi o único reino do sudeste da Ásia que conservou a sua independência. Até meados do século, as autoridades siamesas (tailandesas) começaram a permitir a obra missionária, tanto católica como protestante. Embora tenham havido breves períodos de perseguição, até o fim do século ambos os grupos haviam conseguido estabelecer congregações em vários lugares do país. Ali também os católicos manifestaram a tendência de viver em comunidades fechadas, separados do resto da população. Os protestantes distinguiram-se particularmente na educação pública, mediante a qual causaram um forte impacto sobre o país.

China

Repetidamente no curso desta história fizemos referência ao cristianismo na China. E várias vezes o vimos desaparecer, ou pelo menos passar por períodos tão obscuros que dificilmente se encontraram vestígios dele. Os primeiros a levar o cristianismo à grande nação oriental foram os nestorianos, a quem nos referimos no terceiro volume da presente História, e cujos últimos vestígios desapareceram no século IX. Depois, na chamada “era dos altos ideais”, os franciscanos enviaram missionários à China. Mas também essa semente malogrou devido à perseguição e ao fato de que os católicos europeus não contaram com os recursos necessários para continuar a sua obra em país tão distante.  Por fim, Mateus Ricci e seus correligionários jesuítas conseguiram estabelecer-se permanentemente em Pequim, e o catolicismo romano de hoje é descendente direto de sua obra. Mas quando começou o período que agora estamos estudando, essa obra não estava alcançando mais do que uma pequena minoria, e se achava em condições precárias, pois a China havia voltado a se fechar para todo contato com o estrangeiro.

O século XIX e os anos que vão até 1914 ocasionaram grandes modificações na China, nem sempre felizes. A nação que até então se havia considerado o centro do mundo, guardiã de conhecimentos imemoriais e fonte de toda civilização, repentinamente se viu humilhada, dividida e conquistada por exércitos e doutrinas estranhos. Uma dessas doutrinas, certamente a mais discutida, era o cristianismo.

Como em tantos outros casos, as origens do interesse missionário protestante na China remontam à obra de Carey, de quem um dos acompanhantes, Marshman, começou a traduzir a Bíblia para o chinês em 1806. Depois, o escocês Robert Morrison quis empreender uma obra semelhante, mas as autoridades britânicas não viam com bons olhos a presença de missionários na China, fato que poderia impedir o comércio que então começava a florescer. Por isso, Morrison se viu obrigado a viajar primeiro para os Estados Unidos, onde obteve passagem para Cantão. Ali se estabeleceu, disposto a seguir um método semelhante ao usado anos antes pelo jesuíta Ricci. Conhecedor de medicina e astronomia ocidentais, Morrison dedicou-se a estudar profundamente tanto a cultura como o idioma chineses. Visto que o interior do país lhe estava vedado pelas leis chinesas, ele fez a maior parte do seu trabalho mediante a produção de literatura em chinês, com a esperança de que algum convertido a levasse a outras partes da nação, ou que gerações posteriores de missionários pudessem aproveitar a sua obra. Assim, com a ajuda de um contingente de naturais do país, ele traduziu para o chinês toda a Bíblia e vários outros livros. Depois de sete anos de trabalho, batizou o primeiro de seus convertidos, que sempre foram poucos. As notícias da sua obra e a existência da Bíblia em chinês despertaram o interesse de outros cristãos na Europa e nos Estados Unidos. Logo outros missionários foram se instalar nas fronteiras do império chinês, com a esperança de encontrar uma forma pela qual os seus ensinamentos pudessem penetrar na grande nação. Contudo, as autoridades do país, que persistiam em considerar os estrangeiros como bárbaros, permitiram apenas a presença, em zonas muito restritas, de um número limitado de comerciantes europeus.

Imagem relacionadaEntão, produziu-se um dos mais sufocantes atropelos de toda a era colonial, a Guerra do Ópio. Os comerciantes europeus, especialmente britânicos, tinham interesse em obter seda e outros produtos chineses, para vendê-los com enormes lucros na Europa. Mas os produtos europeus não despertavam maior interesse entre os chineses, por serem de qualidade inferior. A Companhia Britânica das Índias Orientais encontrou a solução de pagar os produtos chineses com ópio produzido na Índia. Este comércio teve tanto êxito, que logo a seda não bastou para pagar o ópio, e os chineses começaram a pagar com metais preciosos. Embora a importação do ópio tivesse sido proibida por edito imperial desde 1800, o nefando comércio continuava ao abrigo da corrupção das autoridades locais. Por fim, o governo interveio, preocupado tanto pelos danos que o ópio causava, como pela sangria econômica que esse comércio representava para o país. Em 1839, um delegado imperial chegou a Cantão, onde confiscou mais de um milhão de libras esterlinas em ópio que estava nas mãos de comerciantes estrangeiros. A reação não se fez esperar. Os comerciantes declararam que a honra britânica havia sido ultrajada. No parlamento inglês, a questão foi debatida calorosamente, pois muitos afirmavam que acudir em defesa do tráfico de ópio era uma desonra maior do que qualquer outra que os chineses pudessem ter perpetuado. Posteriormente, o partido dos comerciantes acabou vencedor, e em 1840 começaram as hostilidades. Desde o princípio, a superioridade da marinha britânica se impôs, e vários portos chineses foram ocupados pelo invasor. A guerra durou pouco mais de um ano, e por fim a China, humilhada pelos bárbaros ocidentais, se viu obrigada a firmar o tratado de Nanquim, que concedia à Grã-Bretanha a ilha de Hong-Kong, e além disso garantia aos comerciantes ingleses o livre acesso a cinco importantes portos chineses. A partir de então, em uma série de guerras cada vez mais humilhantes, a China se viu obrigada a fazer concessões sempre crescentes a várias potências europeias, aos Estados Unidos e, no fim do século, ao Japão.

A França, na ocasião sob o governo de Napoleão III, viu nessas condições a oportunidade para aparecer como a grande paladina do catolicismo. Por isso, assegurou-se de que em seus tratados com a China se garantissem não apenas os direitos dos comerciantes, mas também os dos missionários. Embora a Grã-Bretanha temesse envolver-se em questões religiosas, posteriormente também se viu obrigada a seguir o exemplo francês, estendendo sua proteção aos súditos britânicos que serviam como missionários na China. Isto chegou a tal ponto que a proteção estrangeira se estendeu não apenas aos missionários, mas também aos convertidos chineses, que ficaram fora da jurisdição dos tribunais nacionais. O resultado foi que a conversão ao cristianismo acabou parecendo vantajosa para muitos chineses, que se fizeram batizar mais por conveniência do que por convicção.

Em geral, os protestantes seguiram uma política mais moderada. Embora muitos se tenham oposto à participação britânica na Guerra do Ópio, em grande parte eles viram esse fato como uma “porta aberta” para a pregação do evangelho. Mas ainda assim muitos dos missionários protestantes, conhecedores do ressentimento que a intervenção estrangeira havia causado, negaram-se a apelar à proteção de seus países de origem. Apesar desta atitude da parte dos missionários mais sábios, do ponto de vista do chinês médio todo cristão era estrangeiro, em certa medida, embora por raça fosse chinês, e contra ele se dirigia a fobia que os chineses sempre haviam sentido para com os estrangeiros, e que a essa época se havia exacerbado devido às repetidas humilhações a que o país fora submetido.

Uma consequência inesperada das missões foi a rebelião de T’ai P’ing – o Reino celestial. Este movimento foi iniciado por um professor que leu nove tratados cristãos e decidiu que havia chegado a hora de estabelecer o Reino Celestial da grande paz, cujo rei seria ele. Nesse reino, todas as coisas seriam possuídas em comum, haveria igualdade entre homens e mulheres, e a prostituição seria proibida, bem como o adultério, a escravidão, o costume de amarrar os pés das meninas, o ópio, o tabaco e as bebidas alcoólicas. Em 1850 esse movimento explodiu em uma rebelião militar, e as tropas do Reino celestial, melhor disciplinadas do que as do governo chinês, conseguiram importantes vitórias. Em 1853, eles estabeleceram a “Capital celestial” em Nanquim, e com base ali ameaçaram até a própria capital imperial de Pequim. Enquanto isso, as potências ocidentais continuavam em seu empenho de enfraquecer o império chinês, repartindo os despojos entre si. Em 1860, os franceses e britânicos invadiram Pequim e incendiaram o palácio imperial. Posteriormente, com a ajuda de contingentes ocidentais, as tropas imperiais chinesas esmagaram a rebelião de T’ai P’ing. Cerca de vinte milhões de pessoas morreram durante os quinze anos que durou essa revolta.

Foi durante a rebelião de T’ai P’ing que, pela primeira vez, chegou à China aquele que seria um de seus missionários mais famosos, J. Hudson Taylor. Essa primeira visita foi interrompida quando Taylor precisou regressar à Inglaterra por motivos de saúde. Ali, ele se dedicou a promover o interesse do povo pelas missões na China, e começou a organizar a Missão para o Interior da China (China Inland Mission), sob cujos auspícios regressou à China. A organização criada por Taylor tinha o propósito de evangelizar o interior da China, sem introduzir no país as divisões que existiam entre os protestantes no Ocidente. A Missão para o Interior da China aceitava missionários de todas as denominações, sempre que se mostrassem desejosos de proclamar o evangelho. As questões referentes à organização da igreja, a administração dos sacramentos e outros assuntos semelhantes em que as diversas denominações diferiam, ficavam a cargo dos cristãos em cada região da China. Além disso, Taylor julgava que o apoio por parte das potências estrangeiras, embora parecesse facilitar o trabalho missionário, na realidade o dificultava, pois ao mesmo tempo que criava incentivos para falsas conversões, provocava animosidade entre os chineses. Por isso, quase todos os missionários da Missão para o Interior da China se negavam a recorrer às autoridades estrangeiras quando a sua obra era ameaçada. Embora essa política fosse difícil, e nem sempre tenha sido cumprida cabalmente, ela contribuiu para mostrar a alguns chineses que nem todos os cristãos concordavam com as atitudes das potências invasoras.

Guerra dos BoxersA questão de qual devia ser a atitude dos chineses para com ideias e costumes recentemente introduzidos continuou ocupando o centro do cenário político chinês através de todo o século XIX e boa parte do XX. Em 1899-1901, a rebelião dos “boxers”, ajudada por certos elementos da corte imperial, foi a máxima manifestação do ódio que havia contra tudo o que fosse estrangeiro. Os rebeldes dirigiram a sua fúria contra os missionários e seus convertidos, que lhes pareciam ser aliados das potências estrangeiras, a saber, ocidentais. Os mortos foram contados aos milhares. Por toda parte, as igrejas ficaram em ruínas. As legações estrangeiras em Pequim, que até pouco antes se havia dedicado a repartir entre si os despojos da China, se viram sitiadas, até que uma forte coluna internacional abriu passagem até a capital e libertou os sobreviventes. Perto do fim de 1901, esmagado aquele movimento, o governo chinês, que o havia alimentado, foi humilhado uma vez mais, e forçado a fazer novas e enormes concessões às potências ocidentais, inclusive uma indenização de mais de 738 milhões de dólares. Conhecedoras do ressentimento que isto causava entre os chineses, várias agências missionárias se negaram a aceitar toda a indenização que fosse além do necessário para reconstruir os edifícios destruídos. Mais tarde, o impacto ocidental na China levou à queda do Império. Em 1911, a revolução explodiu, e no ano seguinte o Imperador abdicou. Com isso ficou aberto o caminho para a República das Províncias Unidas da China. As ideias e as armas ocidentais haviam destruído o velho império que, cem anos antes, se considerava centro do mundo e ponte entre a terra e o céu.

Durante esses anos, havia muitos que sonhavam com uma grande conversão da China, semelhante ao que havia acontecido no Império Romano nos séculos IV e V. Os missionários protestantes na China eram dezenas de milhares. Em todas as províncias havia igrejas, muitas delas florescentes, e começavam a aparecer chineses capazes de assumir a direção da igreja nascente. O futuro se mostrava cheio de promessas.

Japão

Durante a primeira metade do século XIX, o Japão fez o que pode para evitar todo contato com os estrangeiros, particularmente com as potências ocidentais. Estas procuraram estabelecer contatos comerciais com o Japão várias vezes, mas sempre fracassaram. Em 1854, o comodoro Perry, da marinha norte-americana, apresentou-se na baía de Edo, hoje Tóquio, com uma forte esquadra, e forçou os japoneses a firmar o primeiro tratado comercial com uma potência ocidental. Logo Grã-Bretanha, França, Holanda e Rússia conseguiram tratados semelhantes e, em 1864, uma expedição conjunta de britânicos, holandeses e norte-americanos esmagou toda resistência.

Este fato iniciou um período em que os japoneses, convencidos da superioridade técnica do ocidente, dedicaram-se a absorver dela o quanto puderam. O processo de industrialização, com o consequente desaparecimento do poderio dos antigos senhores feudais, foi rapidíssimo. Já no fim do século havia no país mais de cinco mil quilômetros de vias férreas, várias centenas de fábricas modernas e uma rede nacional de telégrafo. Ao mesmo tempo, o exército se havia reorganizado e armado segundo padrões franceses e alemães. Tudo isto fez do Japão uma potência capaz de derrotar os chineses e os russos, anexando a si o antigo reino da Coreia (1910).

O catolicismo havia chegado ao país, como já observamos, graças à obra de Francisco Xavier e seus sucessores. Mas depois de uma violenta perseguição, e após o Japão se ter fechado para todo contato com o estrangeiro, parecia que aquela obra havia sido destruída. Portanto, grande foi a surpresa dos missionários protestantes que na segunda metade do século XIX descobriram, na região de Nagasáqui, mais de cem mil pessoas que ainda conservavam certos rudimentos da fé católica. Destes, muitos voltaram ao catolicismo, e outros se tornaram protestantes. Com base nesse núcleo católico, e em outra obra missionária, o catolicismo no Japão continuou crescendo até que, em 1891, estabeleceu-se uma hierarquia eclesiástica para o Japão, sob a direção do arcebispado de Tóquio. Porém, só no século XX (1937) esse arcebispado foi ocupado por um japonês.

Também é interessante notar que os ortodoxos russos começaram uma obra missionária no Japão em 1861, sob a direção do sacerdote russo Nicolai. Ele fundou a Igreja Ortodoxa Japonesa, e foi o seu primeiro bispo. Essa igreja foi verdadeiramente japonesa, ao ponto de, em 1904, quando se desencadeou a guerra entre Rússia e Japão, Nicolai aconselhar a seus fiéis japoneses que fossem leais à sua pátria, e que não demonstrassem simpatia para com a Rússia, apesar de terem recebido a sua fé desse país.

Os protestantes chegaram pouco depois da assinatura do primeiro tratado entre Japão e Estados Unidos, e eram em sua maior parte norte-americanos. Durante os primeiros anos, o trabalho foi duro, e por volta de 1872 somente uma dezena de japoneses se havia batizado. O período de rápida industrialização trouxe consigo uma grande avidez de aprender tudo quanto os ocidentais pudessem ensinar, e por isso o protestantismo cresceu a passos gigantescos, particularmente entre as classes mais educadas, onde o impacto do Ocidente era mais marcante. Por isso, logo houve dirigentes nativos, que se ressentiam de alguns dos erros cometidos na obra missionária. Provavelmente o mais sério desses erros tenha sido a divisão que se havia importado dos Estados Unidos e da Europa, e que constituía um verdadeiro escândalo para os japoneses que se interessavam pelo evangelho. Por essa razão, vários cristãos japoneses começaram a trabalhar pela união das igrejas protestantes e, em 1911, fundaram uma associação com esse objetivo. Rapidamente, a igreja japonesa ia se tornando uma igreja verdadeiramente nacional.

Coreia

O catolicismo chegou pela primeira vez à Coréia em 1777, ao que parece levado por chineses convertidos em Pequim pelos jesuítas. Logo os católicos coreanos se contavam aos milhares, apesar da oposição das autoridades do país. Em 1865, essa oposição acabou em perseguição, e durante os cinco anos seguintes morreram mais de dois mil católicos, incluindo alguns missionários franceses que se haviam infiltrado no país. À mesma época, diversas potências ocidentais procuravam, sem êxito, conseguir tratados comerciais com a Coreia. Por fim, em 1876, foram os japoneses que, mostrando que haviam aprendido bem a lição do comodoro Perry, obrigaram os coreanos a firmar o primeiro tratado. Logo vieram outros tratados com os Estados Unidos (1882), Grã-Bretanha (1883) e Rússia (1884).

Em 1884, sob a proteção desses tratados, chegaram os primeiros missionários protestantes, procedentes dos Estados Unidos. Eles eram principalmente metodistas e presbiterianos, e tiveram grande êxito. Parte da sua estratégia consistia em fundar igrejas que desde os seus primórdios conseguiram sustentar-se, com dirigentes nacionais, e capazes, por sua vez, de serem centros de obra missionária. Por essa razão, o protestantismo coreano cresceu rapidamente. Embora a dominação dos japoneses, que anexaram esse país em 1910, tenha trazido novas dificuldades, o cristianismo estava firmemente estabelecido, e soube sobrepor-se a elas. No século XX, os cristãos coreanos, espalhados por outros países por causa de repetidas guerras, dariam mostras da constância de sua fé.

Tudo isto nos indica por que dissemos que o século XIX foi uma época de novos horizontes para o protestantismo na Ásia. Ao se iniciar esse século, havia na região nada mais do que uns poucos protestantes, principalmente na Índia. Em 1914, quando se desencadeou a Primeira Guerra Mundial, havia não apenas missionários, mas também fortes congregações, em quase todas as principais cidades do Oriente e em muitas aldeias remotas. Este fenômeno, que se repetiu no Pacífico, na África e na América Latina, a longo prazo seria de maior importância para a história do cristianismo do que os debates que se realizavam em círculos teológicos europeus ou a interminável multiplicidade de denominações que apareciam nos Estados Unidos.

Esta entrada foi publicada em História, Teologia e marcada com a tag , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.