A era dos novos horizontes (IX) – A África e o Mundo Muçulmano

In:

GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo: a era dos novos horizontes – Vol. 9. São Paulo: Vida Nova, 1988 (1ª ed.), pág. 172 a 185.

“Oportunidade não falta. Há tribos e aldeias sem número, ao norte e à leste daqui, e todas ficariam orgulhosas em ter um homem branco. Não sei de nenhum obstáculo à obra missionária em todo o território ao norte do Zambese e em direção ao centro do continente. E todos os dias recebemos notícias de como o comércio está se estendendo em todas as direções.” (David Livingstone)

Durante séculos, a expansão europeia para o sul e o sudeste havia sido impedida pelo poderio muçulmano. Ao sul dos territórios muçulmanos que bordejavam o litoral norte da África, encontravam-se regiões desérticas, e além havia densas selvas tropicais. Nem uma coisa nem outra despertou o interesse das potências europeias, que, por muito tempo, viram o mundo muçulmano e a África negra como obstáculos a serem rodeados, antes de se chegar às promissoras terras do Oriente. Mas no curso do século XIX, e nos últimos anos antes da Primeira Guerra Mundial, essa situação mudou.

O mundo muçulmano

Resultado de imagem para Canal de SuezQuando começou o século XIX, a maior parte do Oriente Próximo e da costa norte da África pertencia ao Império Otomano, cujo governo estava nas mãos do sultão, em Istambul, antiga Constantinopla. Mas esse vasto império começava a apresentar mostras de desintegração. Em 1830, declarando que era necessário destruir a pirataria que florescia nos litorais argelinos, os franceses invadiram a Argélia, onde haveriam de permanecer por mais de um século. Pouco depois, o governador do Egito, Mohamed Ali, rebelou-se contra o Sultão, e em seguida conseguiu estabelecer um reino independente. Foi com as autoridades desse reino que os franceses negociaram para a construção do Canal de Suez. Os ingleses opunham-se a esse empreendimento, que daria à França acesso fácil ao Oriente. Mas, ulteriormente, o canal foi aberto ao tráfego marítimo em 1869. Seis anos depois, a Grã-Bretanha aproveitou as dificuldades econômicas do governo egípcio, e comprou as ações que este possuía na Companhia do Canal, por cem milhões de francos. A Tunísia foi invadida pelos franceses em 1881. No ano seguinte, uma rebelião contra o soberano egípcio provocou a intervenção da Grã-Bretanha, que bombardeou Alexandria e invadiu o Cairo. Essa intervenção, que teoricamente seria passageira, continuou indefinidamente, e em 1914 proclamou-se oficialmente o “protetorado” da Grã-Bretanha sobre o Egito. Três anos antes, em 1911, a Itália havia se estabelecido na Líbia. Portanto, quando teve início a Primeira Guerra Mundial, o Império Otomano havia perdido uma boa parte de seus territórios. Esse processo continuaria até a abolição do sultanato, em 1922, e a proclamação da república, em 1923.

No Oriente Próximo continuavam existindo várias das mais antigas igrejas cristãs. Foi nessas terras que o cristianismo nasceu e viveu alguns dos seus dias mais gloriosos. Portanto, quando raiou o século XIX, já havia ali antiquíssimas igrejas cristãs, às quais nos referimos anteriormente: os cópticos do Egito, os jacobitas da Síria, os ortodoxos disseminados por toda a região, etc. Todas essas igrejas haviam conservado a sua fé através de longos anos de dominação muçulmana. Mas, em meio a circunstâncias extremamente adversas, elas haviam perdido o seu zelo evangelístico. Em países onde se permitia que os cristãos vivessem em paz, sempre que não parecessem desonrar o nome do Profeta, e onde a conversão ao cristianismo era castigada com a morte, não é de estranhar que os cristãos acabaram por se contentar em conservar a sua fé e transmiti-la a seus descendentes. Essa fé era alimentada principalmente pelo culto divino e, por isso, a liturgia tinha uma importância vital para as antigas igrejas, que por tanto tempo haviam sobrevivido à sombra do Islã.

A decadência do Império Otomano, e a crescente pujança das potências ocidentais, levaram muitas pessoas a pensar na possibilidade de começar uma obra missionária na região. Ao mesmo tempo, visto que já havia ali outros cristãos, todos os missionários, tanto católicos como protestantes, precisavam enfrentar a questão de como se relacionar com eles.

Em geral, os católicos continuaram a política de procurar atrair igrejas inteiras à comunhão romana e à obediência ao papa. Desse modo, eles provocaram cismas na maior parte das igrejas antigas, pois enquanto um ramo delas aceitou a autoridade papal, outro a rejeitou. Assim, foram criadas em toda a região “igrejas orientais unidas” que conservam os seus rituais e tradições antigos, mas doutrinariamente são católicas. Cada um desses grupos se distingue, então, como um “rito” dentro do catolicismo, e para se ocupar deles criou-se em Roma, em 1862, a Congregação dos ritos orientais. Em geral, nem as antigas igrejas orientais nem os seus ramos que se uniram à Roma se distinguiram por seu zelo missionário.

Charles Lavigerie.jpgAlguns católicos europeus procuraram converter os muçulmanos. Deles o mais notável foi o bispo de Argel, Charles M. A. Lavigerie, que fundou a Sociedade dos missionários de Nossa Senhora da África, comumente conhecida como “os padres brancos”. Todavia, embora o propósito inicial dessa organização fosse pregar entre os muçulmanos do norte da África, posteriormente os seus sucessos mais notáveis tiveram lugar entre a população negra, mais ao sul.

A política da maioria dos protestantes perante as igrejas orientais antigas foi de lhes prestar ajuda, particularmente no campo da educação, esperando que, desse modo, elas recebessem nova vida. Essa política teve um êxito moderado. Mas posteriormente surgiram conflitos entre os que aceitavam algumas das ideias protestantes e os que as rejeitavam, com o resultado de que alguns cismas tiveram lugar em várias das antigas igrejas. Foram desses cismas que as igrejas protestantes obtiveram a maioria dos seus membros, embora também tivessem conseguido alguns convertidos do Islã. Desse modo foram fundadas algumas igrejas protestantes na região, particularmente no Egito, Síria e Líbano.

Porém tendo dito tudo isto, é necessário observar que o século XIX, era dos novos horizontes missionários, não presenciou no mundo muçulmano o mesmo crescimento numérico do cristianismo que teve lugar no Oriente ou na África negra.

África

Resultado de imagem para Colonização da África - 1914Quando começou o século XIX, as possessões europeias na África eram relativamente pequenas. A Espanha tinha no litoral norte algumas praças fortes, conquistadas dos mouros em séculos anteriores. Em Angola e Moçambique, o domínio português se limitava ao litoral, dedicado principalmente ao tráfico de escravos. Em 1652, os holandeses haviam fundado uma colônia no Cabo da Boa Esperança, no extremo sul do continente. Pouco depois, os franceses estabeleceram um pequeno posto comercial na costa do Senegal. Em 1799, foi criada, para escravos libertos, a colônia britânica de Serra Leoa.

Num contraste marcante com essa situação, quando se desencadeou a Primeira Guerra Mundial em 1914, não restavam na África outros Estados independentes, a não ser a Etiópia e a Libéria. Esta última, na verdade, não era uma antiga nação africana, mas havia sido criada pelos Estados Unidos, como lar para os negros livres que desejassem voltar à África. Todo o resto do continente estava sob o governo colonial de uma ou outra potência europeia.

No princípio do século XIX, esse processo de colonização foi relativamente lento. Em 1806, os britânicos tomaram a colônia holandesa no Cabo da Boa Esperança. As leis britânicas, opostas à escravidão e aos abusos cometidos contra os trabalhadores negros, não foram bem vistas pelos colonos de origem holandesa (os “boers”. de uma palavra holandesa que significa “camponês”) e, por volta de 1835, estes começaram a emigrar para o nordeste, onde criaram a República de Natal, e o Estado Livre de Orange e a República de Transvaal. Todos esses Estados tinham o objetivo de evadir-se às leis britânicas, particularmente no que se referia ao tratamento dispensado aos negros. Segundo diziam os boers, eles faziam isso como cristãos, porque as leis britânicas se opunham às de Deus, ao colocar os escravos no mesmo nível dos cristãos. Em todo caso, assim se expandiu a colonização europeia para o interior da África. Enquanto isso, em 1820, haviam chegado os primeiros negros norte-americanos à Libéria, que se tornou independente em 1847. Mas, até então, os territórios colonizados eram somente uma fração do continente. E então, em meados do século, o interesse das potências europeias em relação ao continente negro começou a crescer. As explorações de missionários como Livingstone, de quem falaremos mais adiante, despertaram a imaginação de cristãos interessados na obra missionária. Em muitos casos, os missionários penetravam em regiões onde o poderio colonial não chegava; mas então, a fim de evitar uma invasão da parte de alguma tribo vizinha, apelavam às autoridades coloniais, que enviavam tropas e acabavam por anexar o território.

Resultado de imagem para Guerra dos BoersPor volta de 1870, começou a corrida precipitada, em busca de colônias africanas. Em 1867, foram descobertas grandes minas de diamantes no sul do continente. Depois, este e outros motivos levaram à cruenta “Guerra dos Boers“, em que a Grã-Bretanha acabou vencedora e anexou os antigos territórios dos boers. Enquanto isso, a França, temerosa do avanço britânico, começou a estender as suas possessões, com o objetivo final de criar um vasto império que fosse desde a Argélia até o Senegal. Em 1884, a Alemanha entrou nessa competição, assenhoreando-se da África Sudoeste Alemã – a Namíbia. Leopoldo II da Bélgica, que em seu país tinha apenas os poderes limitados de um monarca constitucional, assumiu a colonização do Congo como empresa pessoal, e fez da nova colônia uma possessão direta da coroa belga, até que, em 1908, por ação do Parlamento, criou-se o Congo Belga. Em 1885, o governo espanhol reclamou para si Rio do Ouro e a Guiné Espanhola. Pouco depois, a Itália reclamou a Eritréia. Enquanto isso, outros empreendimentos britânicos, franceses e alemães haviam completado a repartição do continente.

Em todo esse processo, despertou-se na Europa e nos Estados Unidos um crescente interesse pelas missões na África. Isto aconteceu tanto entre católicos como entre protestantes. Em termos gerais, embora com notáveis exceções, os católicos tiveram sua base de operações nas colônias francesas, belgas, italianas e espanholas; os protestantes, nas britânicas e alemãs.

As missões católicas foram debilitadas pelos constantes conflitos de jurisdição. Portugal continuava reclamando os antigos direitos de patronato sobre a igreja em todos os territórios que supostamente lhe haviam sido concedidos por Roma. A França e a Bélgica disputavam entre si o vale do Congo, e cada uma temia que os missionários procedentes da sua rival fossem a vanguarda de uma empresa colonizadora. Quando Leopoldo II reclamou para si o Congo, sem proibir a entrada dos protestantes – coisa que a Grã-Bretanha não lhe havia permitido – Roma mostrou-se extremamente suspeita, e não lhes prestou grande apoio às missões empreendidas pelo Rei. Além disso, frequentemente se encontra nos documentos da época o temor constante de que os africanos se tornassem protestantes, e em mais de uma ocasião foi esse temor, e não o impulso missionário, que inspirou o estabelecimento de missões católicas em uma ou outra região.

O catolicismo contou com notáveis missionários que dedicaram a sua vida à África. Já mencionamos os “padres brancos” de Lavigerie, a quem as autoridades romanas confiaram o trabalho missionário no interior da África. Além deles, estabeleceu-se na ilha de Zanzíbar um centro missionário que teve certo êxito limitado na penetração do continente a partir do leste. Porém, apesar destes e de outros esforços, o século XIX foi, na África como no resto do mundo, o grande século das missões protestantes.

A obra protestante na África foi mais extensa, e não podemos descrevê-la adequadamente aqui. Na Libéria e em Serra Leoa trabalharam missionários norte-americanos, muitos deles negros enviados pelas igrejas negras dos Estados Unidos, a que nos referimos anteriormente. Os anglicanos fundaram em Serra Leoa uma igreja de grande vigor, e o mesmo fizeram em Nigéria, Gana e outras colônias. Mas foi a partir do sul da África que se iniciaram os empreendimentos missionários mais notáveis.

Durante muito tempo, alguns dos colonos holandeses e britânicos da África do Sul haviam se interessado em levar a mensagem cristã para os naturais do país. Assim, por exemplo, um colono holandês escreveu em seu diário, em 1758:

17 de abril. Começamos a ter escola para os jovens escravos, sob a responsabilidade de um capelão. Para estimular a atenção dos escravos, e para induzi-los a aprender as orações cristãs, prometemos a cada um que, ao terminar a sua tarefa, daríamos a cada um uma garrafa de bebida e duas polegadas de tabaco.

Mas esse interesse era muito limitado, e raras vezes alcançava alguém além dos limites da colônia, até que no século XIX começou um despertamento, que convenceu muitos holandeses e britânicos de que eles tinham a obrigação de levar o evangelho para o interior da África.

Resultado de imagem para Johannes Theodorus VanderkempA figura mais notável entre os missionários dessa primeira geração foi o holandês Johannes Theodorus Vanderkemp. Ao contrário dos boers que o rodeavam, Vanderkemp não cria na superioridade dos brancos e de sua civilização sobre os negros e a deles. Pelo contrário, ele sentia verdadeiro apreço pelos costumes dos africanos, que considerava admiravelmente adaptados ao ambiente africano, enquanto pensava que era absurdo o desejo dos brancos de criar na África uma nova Europa. Vanderkemp chegou ao Cabo da Boa Esperança em 1799, enviado sob os auspícios da Sociedade Missionária de Londres. Depois de uma tentativa fracassada entre a tribo dos cafires, dedicou-se ao trabalho entre os hotentotes, para quem estabeleceu um centro onde eles trabalhavam e eram instruídos. Logo as críticas dos colonos se fizeram ouvir, sobretudo quando Vanderkemp comprou e libertou uma escrava, para se casar com ela. Contudo, apesar dessas críticas, Vanderkemp continuou a sua obra, com a ajuda de outros missionários oriundos da Inglaterra. Quando vários desses contraíram núpcias com mulheres hotentotes, eles foram acusados de imoralidade e de subverter a ordem estabelecida por Deus. Sobretudo, visto que os missionários enviavam para a Inglaterra relatórios acerca dos maus tratos aplicados aos negros, conseguindo que se empreendessem reformas, os boers se convenceram de que os missionários eram seus inimigos acérrimos e também inimigos de Deus.

Resultado de imagem para robert moffatOutro missionário notável foi Robert Moffat, que se estabeleceu entre os bantus, para cujo idioma traduziu a Bíblia e outros livros. Conhecedor de técnicas agrícolas, esforçou-se muito para melhorar a alimentação dos bantus. Além disso, as suas explorações, e os relatórios que enviava para a Grã-Bretanha, fizeram com que um exército de jovens missionários se oferecesse para seguir o seu exemplo.

Resultado de imagem para David LivingstoneMas a figura culminante das missões à África em todo o século XIX, foi, sem dúvida, David Livingstone. Nascido na Escócia, em 1813, em um humilde lar de profunda convicção cristã, Livingstone não pôde se prestar ao luxo de uma educação formal. Desde bem pequeno, ele teve de trabalhar em uma fábrica de algodão, onde colocava um livro diante de si, e o lia ao mesmo tempo que trabalhava. Assim ele chegou a possuir cultura regular, de tal modo que, quando se decidiu dedicar à obra missionária, pôde estudar na Universidade de Glasgow sem maiores dificuldades. O seu propósito era ir para a China, e para isso se preparou seguindo as indicações da Sociedade Missionária de Londres. Mas a Guerra do Ópio não lhe permitiu partir e, então, depois de conhecer Robert Moffat, decidiu ir para a África. Pouco antes de partir, em 1840, recebeu o diploma de médico, e foi ordenado. Em meados de 1841, chegou à cidade do Cabo, e dali marchou mais de mil quilômetros em direção ao norte, para se estabelecer na avançada missão que Moffat havia fundado em Kuruman.

Depois de dois anos de aprendizagem sob a orientação de Moffat, partiu para Mabotsa, a trezentos quilômetros de distância. Ali fundou uma missão e construiu uma casa que compartilhava com sua esposa Mary, filha de Moffat. O seu plano era permanecer ali. Mas teve desentendimentos com outro missionário, e decidiu deixar o campo livre, marchando mais para o norte, para a aldeia de Chonuana. Depois de três anos de trabalho, batizou o chefe da tribo. Mas uma seca obrigou a tribo a emigrar, e Livingstone, sua esposa e filhos, partiram com a tribo, em direção a outras terras. Quando, em uma segunda migração, as condições físicas se tornaram difíceis, a família de Livingstone ficou para trás, enquanto o missionário se ocupava em procurar um bom lugar onde a tribo pudesse se estabelecer. Pouco depois, ao receber notícias de que outro chefe se interessava pelo evangelho, Livingstone e sua família partiram para essa aldeia, onde o trabalho teve certo êxito. Mas o clima não era bom, e Livingstone acompanhou sua família até o Cabo, de onde esta partiu para a Inglaterra, enquanto ele regressava para o interior do país.

Então começou a famosa carreira de Livingstone como explorador. O missionário havia visto os horríveis estragos causados pelo tráfico de escravos, e além disso, estava convencido de que o tráfico não cessaria enquanto não se conseguisse abrir o centro do continente para o comércio lícito. As rotas desse comércio seriam então as mesmas que os missionário s seguiriam, e a África, além de ficar livre do tráfico de escravos, receberia a luz do evangelho. Portanto, para Livingstone, as suas explorações e o seu trabalho missionário eram duas faces da mesma moeda. Por toda parte ele falava do evangelho aos nativos. Mas o seu propósito não era conseguir pessoalmente a sua conversão, mas mediante as suas explorações, abrir o caminho para outros contatos que, posteriormente, trariam mais missionários, comerciantes honestos e felicidade para a região. Algumas vezes sobre o lombo de um boi, ao qual deu o nome de Simbad, e outras vezes em canoas, Livingstone percorreu milhares de quilômetros, tomando notas de tudo quanto via, fazendo observações astronômicas, curando enfermos, pregando o evangelho, e em geral ganhando a boa vontade dos africanos. Vinte e sete vezes ele foi prostrado por febres capazes de matar um homem menos robusto. Mas logo que a sua saúde melhorava, empreendia de novo as suas viagens. Em certa ocasião, ao chegar ao litoral, enfermo e cansado, encontrou ali um navio que se ofereceu para levá-lo de volta à Inglaterra. Embora o propósito de Livingstone fosse voltar à Inglaterra, ele se negou a aceitar aquela oferta, porque havia prometido ao chefe dos carregadores que o acompanhavam que regressaria com eles à sua aldeia.

Quando, por fim, Livingstone chegou à Grã-Bretanha, depois de dezesseis anos de ausência, foi recebido como herói. A Real Sociedade Geográfica havia recebido os seus relatórios, e lhe conferira as mais elevadas honras. Nas universidades onde ele falou, foram muitos os estudantes que decidiram dedicar a sua vida às missões na África. As suas descrições do tráfico de escravos sacudiram a consciência da Europa.

Livingstone regressou então à África, não como missionário, mas como agente do governo. Visto que estava convencido de que a sua obra devia consistir em abrir o interior do continente para o comércio e as missões, Livingstone continuava considerando-se missionário. Repetidamente ele se entranhou no coração da África. Sua esposa, que havia regressado à África alguns meses antes, morreu em 1862. Profundamente abalado, o explorador interrompeu suas viagens por algum tempo. Mas logo as empreendeu de novo, movido por um impulso irresistível. Em 1866 chegaram notícias de que ele havia sido morto por um bando de africanos. Durante cinco anos, pouca coisa se soube dele, até que as escassas notícias que chegaram fizeram duvidar da veracidade de sua morte. Para sanar as dúvidas, o diário New York Herald organizou uma expedição, sob a direção de Henry M. Stanley, que encontrou o missionário, fraco e enfermo na remota aldeia de Uyiyi, sendo que o velho missionário deixou o seu selo impresso indelevelmente sobre o jovem jornalista.

Livingstone continuou as suas viagens, até que os seus amigos africanos o encontraram morto, de joelhos junto à sua cama, com as mãos unidas, em atitude de oração. Segundo o seu desejo, enterraram o seu coração e suas vísceras em solo africano, e embalsamaram o seu corpo, que levaram então para o litoral. Dali os restos fúnebres foram levados para a Grã-Bretanha, onde foram enterrados com cerimônias honoríficas na Abadia de Westminster, local em que repousam os grandes vultos daquela nação.

Não houve mais digno representante da “era dos novos horizontes” do que este explorador, para quem cada horizonte era um desafio; este missionário, para quem cada aldeia além do horizonte era um chamado.

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