A greve dos urubus

A manhã estava linda. Um sol maravilhoso, o céu, muito azul, encontrava no horizonte com o mar que parecia um mingau de vidro. E tudo aquilo podia ser mais bonito se a praia estivesse branquinha, como Deus inventou.

Mas não estava. Naquele enorme areal não se podia dar um passo sem pisar em algum lixo. Era lata de cerveja vazia, era copo usado de plástico, era pauzinho de picolé chupado, era papel de tudo que era cor e feitio. Na beira d’água era mais triste ainda. Pedaços de pau, manchas pretas de óleo e uma porção de peixinhos mortos, com a barriga virada para cima.

Os banhistas ainda não tinham começado a chegar e só os urubus é que andavam no meio daquela lixarada, fazendo o seu serviço, limpando a praia do que havia de mais sujo e fedorento.

Mas não demorou muito e apareceu o primeiro. Era uma mulher, de óculos escuros e chapeuzinho de palha. Debaixo do braço trazia uma barraca, tipo guarda-chuva e uma toalha. Na mão, uma sacola, onde levava bronzeador, cigarro, fósforos, lápis e uma revistinha de palavras cruzadas. Levou um tempão para arrumar aquilo tudo na areia, sentar e começar a besuntar o corpo com uma coisa visguenta que saía da garrafinha.

Não muito longe, uma urubua tinha parado de ciscar na sujeira e ficou olhando para ela perder tanto tempo, só para acabar sentando e se sujar daquele jeito. A urubua continuou olhando para tanta esquisitice e uma porção de pensamentos subia e descia dentro da sua cabecinha cinzenta. Um desses pensamentos era assim: – “Todos os bichos que existem neste mundo gostam de se aquecer no sol quando é inverno e faz frio. Mas num dia de verão danado, como hoje, todos procuram uma sombrinha, onde é mais fresco. Só mesmo pra procurar comida ou ir pra casa é que qualquer um, seja de pele, pena ou pêlo, é que enfrenta um calorão desses. Mas o bicho homem é mesmo muito biruta. É o único que se mete debaixo do sol, até ficar com a pele dolorida de tão queimada, cheia de bolha, sem ter nada de importante para fazer ali.”

Sacudiu a cabeça de um lado para outro, tirou com o pé um pedaço de sardinha que ficou entalado no canto do bico e teve outro pensamento: – “Não entendo mesmo o que é que essa gente tem dentro da cabeça. Dizem que nós, os urubus, é que somos uns bichos diferentes porque gostamos de porcaria. O compadre porco gosta das mesmas coisas que nós gostamos mas os homens até fazem criação deles. E o que esse pessoal vem fazer numa praia imunda como esta se todos são tão cheios de chiques e não-me-toques, torcendo o nariz por qualquer coisinha…? coitados… É capaz até que eles não saibam que essa água do mar, onde eles adoram tomar banho, é tão suja como a água que sai das privadas das casas deles. Vi ver é isso mesmo… Vou avisar aquela mulher…

A urubua não tinha andado nem um metro na direção da banhista e levou com uma garrafa de guaraná vazia bem no meio do pescoço. E, de quebra, uma porção de: “chô… chô… Vai embora, bicho nojento. Fora daqui…”

Ela abriu as asas, deu uma corridinha para pegar impulso e levantou vôo. De todos os cantos da praia, outros urubus também estavam voando porque já eram muitas as barracas armadas e muitas a pessoas que tinham chegado, arranjando um lugarzinho no meio daquela lixarada toda.

E como sempre faziam, depois que comiam pela manhã, iam pousar no telhado do matadouro. Era ali o ponto de reunião da urubuzada daquele lugar. Ali é que eles batiam papão, contavam as novidades da família, e davam as dicas de onde podia ser encontrada comida pro bando todo.

A urubua, depois que alisou as penas e espreguiçou as duas asas, começou a conversar com o urubu que estava ao seu lado. E contou como quase-quase teve o pescoço quebrado aquela manhã, lá na praia. O urubu também lhe contou que estava ciscando naquela areia negra e oleosa, lá no Entreposto de Pesca, quando, de repente, olhou de banda e viu que um caixote velho vinha caindo direto em cima dele. Se não fosse de circo e não soubesse pular numa perna só, aquela hora não estava ali, contando o susto que levou. Não demorou muito e todos os urubus estavam falando sobre a mesma coisa: como cada dia a vida ficava mais difícil, como eram xingados de tudo que era nome feio e como precisavam estar sempre preparados para não levarem pauladas, garrafadas, pedradas e tudo que era adas que os homens podiam jogar em cima deles.

Urubu é bicho que não canta nem faz qualquer barulho. Mas naquela manhã eram tantos, falando ao mesmo tempo, que o zum-zum era tão forte que quem passasse na rua, olhava pra cima pra ver o que estava acontecendo.

Aí o Lula, que era o presidente do Sindicato dos urubus, resolveu falar. Bateu as asas três vezes… tlec… tlec… tlec… E todos se calaram. Quando aquela porção de bicos estava toda virada para o lado dele e todos os urubus ficaram quietos, ele falou:

– “Urubuzada, atenção, por favor! O que todos vocês estão reclamando hoje não é nenhuma novidade. Venho ouvindo essas queixas há muito tempo e acho que chegou a hora da gente fazer alguma coisa”.

Todos os urubus bateram as asas ao mesmo tempo porque esse é o jeito de urubu bater palmas.

– “Silêncio, por favor!” – disse o Lula. E continuou quando os tlec tlec pararam. – “Não podemos continuar sendo humilhado assim. Cada dia que passa a quantidade de lixo que é fabricado pelos homens vai aumentando. As praias, os rios, os monturos, estão cada vez mais fedorentos. E somos nós que damos um jeito, catando o dia todo, dando sumiço nas porcarias mais porcarias. A injustiça deles é tão grande que dão o nome de porcaria para as maiores  sujeiras e nunca se lembraram de chamar urubuzaria para qualquer coisa, em homenagem ao nosso trabalho, quando somos nós que fazemos a maior parte do serviço.”

Foi um tal de tlec tlec em cima do telhado do matadouro que chegou até fazer um ventinho. E o Lula foi em frente com o seu discurso:

– “Milhares de companheiros nossos da turma que mora lá no mangue da Baía da Guanabara, foram engaiolados para a Alemanha para serem estudados pelos cientistas que estão querendo descobrir a cura do câncer, uma doença que dá neles e nunca dá em nós. Desde que o mundo é mundo, o nosso trabalho é fazer que o lixo seja menos lixoso. Antigamente, no tempo em que os urubus ainda podiam escolher as cores de suas penas, em vez desse uniforme preto que usamos agora, éramos respeitados. Hoje em dia os homens xingam, maltratam e até matam qualquer urubu que não seja bastante vivo pra voar para longe, logo que um deles vai chegando perto. Por tudo isso, pra que eles vejam como somos úteis, acho que devemos entrar em greve geral. Não vamos mais tocar nos montes de lixo que eles fazem em volta das suas cidades e na beira de tudo que é praia, rio ou lago. E assim talvez as coisas mudem. Quem estiver de acordo, levante a asa direita.”

No mesmo instante, todas as asas direitas que estavam ali, ficaram esticadas para cima. Depois disso passaram-se dias, semanas e fazia quase um mês que nenhum urubu era visto voando ou ciscando por onde sempre andaram. Os montes de lixo tinham crescido uma barbaridade e ninguém agüentava mais o fedor que saía deles. Foi só aí que os homens entenderam a falta que os urubus faziam. Mas como é que iam fazer pros urubus voltarem?

Aí tiveram uma idéia. Se pedissem desculpas e mostrassem que haviam compreendido que, mesmo sendo feios e desajeitados, eles eram tão importantes como são importantes todos os bichos que existem neste mundo, eles talvez voltassem pra fazer o que sempre fizeram.

Reuniões no Ministério não sei do que, comissões de estudo na Secretaria do não sei que mais, mesa-redonda do isso-mais-aquilo e finalmente encontraram uma solução. Eles deviam organizar uma campanha em todo o país para que o povo entendesse como os urubus deviam ser tratados com respeito, como os urubus eram úteis, quanto os urubus ajudaram para se conhecer as correntes de ar, chamadas ascendentes e descendentes. E uma porção de outras coisas desse tipo.

Como nenhum bicho desse planeta consegue elogiar e puxar saco melhor que o bicho homem, a tal campanha foi um sucesso. Fizeram até uma musiquinha que tocava no rádio em todos os intervalos de propaganda.

Vamos todos bater palmas Pro nosso amigo urubu Pleft… pleft… É preciso que ele ouça Nosso recado do amor I love you… I alove you… Pleft… pleft… Não é um amor passageiro Pra esse grande lixeiro Que acaba com o fedor Pleft… pleft… Um cantor muito na moda, o Gilberto Jiló, inventou a “Dança do urubu”, para aproveitar a onda de u’m assunto que andava na boca de toda gente. Ele aparecia no palco vestido de penas pretas e com uma lata de lixo amarrada na cabeça. Como tudo que ele cantava era muito admirado por todos os rapazes e moças, por todos os estudantes universitários, logo apareceram as camisetas com o desenho de um urubu dizendo: “Help me”.

Na televisão, depois daquele plic plic que avisa que é hora das pessoas saírem da sala para irem até o banheiro ou até a cozinha para beber água, aparecia um filmezinho lindo, sobre a vida dos urubus. Era tão bem feito que nem dava pra desconfiar que era sobre urubus. Aparecia um deles voando mais bonito que uma águia e de um jeito que a sua cor preta virou prateada. Urubu não canta nem em Dia de Finados, mas vendo aquele filme qualquer um ficava com vontade de ter um urubu em casa, só pra ouvir uns gorjeios mais bonitos do que sabiá cantando no meio do mato.

Isso, sem falar nas reportagens que saíram em tudo que era tipo de revista. E nos cartazes coloridos, pregados nos muros de todas as cidades, com o retrato de um urubu sorrindo e segurando uma flauta. Em baixo, em letras bem grandes, a frase: “Ponha um urubu em sua vida! Ele merece!” Em todas as casas de discos não se encontravam mais nada que falasse de urubu. Esgotada a música do Gilberto Jiló e esgotada uma outra, dos tempos em que o almirante era cantor famoso e cantava um maxixe que dizia assim:

Urubu veio de cima Com fama de cantador Urubu chegou na festa Tirou dama e não dançou Ora dança urubu Eu não senhor Tira a dama, doutô Não sou doutô…

Não precisa dizer que em todas as escolas, os mais famosos urubuzólogos fizeram uma porção de conferencias. E que para completar a série, o governo instituiu o “Dia Nacional do Urubu”.

Quem é que pode resistir uma badalação dessas, não é mesmo? Aos pouquinhos os urubus foram voltando. E estão novamente por aí, ciscando o lixo, como fizeram sempre.

Fonte:

  • LUTZENBERGER. José. A Greve dos urubus. São Paulo: Brasiliense (?)
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