Os dons ministeriais e de governo

Como parte de nossa série de estudos sobre doutrinas bíblicas, e acerca do Espírito Santo, já estudamos a Doutrina de Deus, artigo no qual estão inseridos comentários sobre a Pessoa do Espírito Santo como parte da Trindade, a personalidade do Espírito Santo, como divina, distinta do Pai e do Filho, mas ao mesmo tempo unida com ambos, e sobre os dons espirituais, mais especificamente os nove dons de que fala o apóstolo Paulo em 1Coríntios 12.

Mas além destes nove dons, a Bíblia destaca também outros dons específicos do Espírito Santo para habilitar homens cristãos com chamadas especificas para exercer os diversos ministérios ou cargos na Igreja Cristã.

Dons ministeriais e de governo:

Já vimos no artigo “os dons espirituais” nove dons destacados pelo apóstolo Paulo conforme 1Coríntios 12.8-10. Agora, queremos destacar os dons ministeriais registrados em Romanos 12.4-8 e os de governo mencionados em Efésios 4.8-13. As duas listas de dons são habilidades ou vocações especiais dadas por Deus, mediante a graça e a medida da fé das pessoas chamadas para o ministério cristão (Rm 12.3), visando “… o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.12). Tanto em Romanos quanto em Efésios, Paulo está pensando claramente na comunidade cristã como organismo social, com os seus vários membros cooperando em serviço mútuo.

Mas a divisão aqui, dons de serviço ou ministeriais, baseados em Romanos, e dons de governo, baseados em Efésios, é apenas didática, uma vez que os termos podem ser sinônimos, embora, no caso dos cinco dons de Efésios, estes são mais relacionados a cargos voltados para a interpretação da Palavra de Deus, cuja doutrina é a base de sustentação e fundamentação da igreja.

  1. Dons de serviço ou ministeriais (Romanos 12.4-8)

Assim como cada um de nós tem um corpo com muitos membros e esses membros não exercem todos a mesma função, assim também em Cristo nós, que somos muitos, formamos um corpo, e cada membro está ligado a todos os outros. Temos diferentes dons, de acordo com a graça que nos foi dada. Se alguém tem o dom de profetizar, use-o na proporção da sua fé. Se o seu dom é servir, sirva; se é ensinar, ensine; se é dar ânimo, que assim faça; se é contribuir, que contribua generosamente; se é exercer liderança, que a exerça com zelo; se é mostrar misericórdia, que o faça com alegria (Ro 12.4-8-NVI).

Para que o ministério ou serviço (gr. diakonia) tenha mais eficácia alguns dons são extremamente importantes, pois capacita os portadores dos mesmos com mais disciplina e espiritualidade para suprir as necessidades da igreja. Além disso, segundo Paulo, esses dons devem ser recebidos e usados com humildade. Os que têm dons especiais são tentados a fazer alto conceito e si mesmos e a se tornar importantes. Daí, o apóstolo avisar que os que tais se devem olhar com seriedade evitar vaidade, isto é, cada um “não pense de si mesmo além do que convém” (v. 3). Uma atitude razoável quanto a isso baseia-se no fato de os dons procederem de Deus, e, na verdade, da interdependência de todos, visto como Deus “repartiu a cada um segundo a medida da fé” (v. 3).

Neste propósito de distribuição dos dons segundo a fé, o apóstolo presenta a figura do corpo com seus membros (vs. 4 e 5), isto é, a igreja cristã como organismo social, com os seus vários membros cooperando em serviço mútuo. E com este intuito, uma lista de sete dons é mencionada por Paulo:

  1. Profecia (v. 6):

A profecia (προφητειαν) aqui tem o mesmo sentido de 1Co 12.10, como já vimos, de  capacitar o ministro cristão a falar com franqueza e perspicácia, mediante revelação, na qual o profeta proclama uma mensagem previamente recebida por meio dum sonho, uma visão ou ainda (e principalmente), mediante a exposição da Palavra do Senhor. Neste caso, trata-se de declarar a verdade inspirada mediante aconselhamento ou pregação. O profeta neotestamentário, diferentemente dos profetas do A.T., exerce o seu serviço cristão por meio de uma mensagem especial que exorta, consola e edifica a Igreja (I Co 14.3), com base na palavra de Deus, que, não obstante, é a espada do Espírito (Ef 6.17), a verdadeira profecia (2Tm 3.16), que educa o povo na justiça do Senhor: “Para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (2Tm 3.17).

  1. Ministério / Diácono (v. 7):

Ministério (διακονιαν) aqui tem o sentido de um trabalhador (diácono) que se ocupa das obras materiais necessárias da igreja cristã, antes que às espirituais. Por isso, trabalhos como obras de limpeza, secretaria, infantil, organização dos elementos e da ordem da ceia, ofertas serviços gerais, portaria, estacionamento,  atendimento aos órfãos, viúvas e necessitados ou qualquer outra forma de ministração física ou material são tão importantes e bem vindos como os de ordem especificamente espirituais. O importante é que quem exerça este dom de ministério faça-o com dedicação (cf. v. 7).

  1. Ensino (v. 7):

O sentido de ensino (διδασκων) aqui é o de um professor ou mestre que expõe a verdade bíblica. Tem o mesmo sentido de didática, arte de transmitir conhecimentos, uma parte da pedagogia que se ocupa dos métodos e técnicas de ensino, visando uma atividade educativa de modo a torná-la mais eficiente.

Como dom (dádiva divina), ensino é aquela especial iluminação do Espírito Santo que habilita o ministro cristão a explicar as coisas difíceis, tornando estas verdades acessíveis a todos. Quem ensina deve cultivar um forte amor pelo ensino, pois isso é a base da Igreja. A tarefa primordial do ensinador é levar o aluno a uma transformação radical de vida, por intermédio da mensagem de edificação cristã. E “o que ensina, esmere-se no fazê-lo…” (cf. Rm 12.7).

  1. Exortação/dar ânimo (v. 8):

A expressão traduzida por exortação (προτρεπει τις) ou “dar ânimo”, na versão que estamos utilizando aqui, é uma continuação do dom de ensino, uma forma convincente de pregação ou ensino que visa o coração do homem, a fim de que este ensino alcance a consciência e vontade dos fiéis, estimulando-os na fé. “Pelo que vos exortai uns aos outros e edificai-vos uns aos outros, como também o fazeis” (I Ts 5.11).

Veja que exortar, animar e consolar são termos sinônimos neste caso. O cristão que possui este dom faz uso da Palavra ou pregação para admoestar a igreja, buscar o bem da comunidade, levantar os fracos e caídos, encorajar uns aos outros e preveni-los de heresias e pecados. “Façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o dia se aproxima” (Hb 10.25-B). “Cuidado, irmãos, para que nenhum de vocês tenha coração perverso e incrédulo, que se afaste do Deus vivo. Pelo contrário, encorajem-se (ενθαρρύνετε το) uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama ‘hoje’, de modo que nenhum de vocês seja endurecido pelo engano do pecado” (Hb 3.12,13)…

  1. Contribuição/liberalidade (v. 8):

A expressão grega usada para contribuir (μεταδιδων) tem o mesmo sentido de transmitir apoio emocional, físico e financeiro, ajudando a sustentar a causa do evangelho. O portador deste dom é alguém dotado de um grande amor pelo próximo, pois busca repartir o que recebeu, não com ostentação, mas com liberalidade, o que traduz a ideia de generosidade, nunca esperando receber nada em troca. Num sentido mais amplo, são os que dispõem de recursos e auxiliam membros e ministérios com ajuda financeira, emocional e física, a fim de suprir a sua carência. Este dom deve ser exercido de forma despretensiosa, e a ideia primordial é que aquele que oferece a contribuição não deve gabar-se de suas contribuições, mas seguir fielmente o sábio conselho proferido pelo Senhor Jesus durante o Sermão do Monte (Mt 6.1-4).

  1. Liderança/quem preside (v. 8):

 O dom de presidir (προισταμενος) ou liderar é uma habilidade relacionada aos cristãos chamados para “governo” ou situações que dependem de decisão de supervisão de departamentos e funções específicas dentro de uma administração eclesiástica visando o desenvolvimento da obra de Cristo. A referência pode ser ao governo lar, como vemos em 1Tm 3.4,5,12, aquele “que governe bem a sua própria casa…”, ou da congregação, como “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina” (1Tm 5.17).

Mas não necessariamente, o que preside precisa ser um pastor, um presbítero ou bispo, mas um cristão que exerce a liderança dada por Deus, independentemente de cargo, embora seja exigido deste líder um certo preparo teológico e outros ligados à sua área de atuação para melhor crescimento espiritual e até material de seus liderados. O conselho de Paulo “Persiste em ler” (I Tm 4.13) deve ser acatado pelo líder, “nós somos o que lemos”, disse alguém, obviamente, seguindo o modelo para sua liderança, a Palavra de Deus. “Tem cuidado de ti e da doutrina; persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem” (I Tm 4.16).

  1. Misericórdia (v. 8):

Todos os cristãos devem exercer misericórdia (Έλεος) com os necessitados. Mas como um dom, ela é exercida por aquele que sente compaixão pelo próximo servindo-o alegremente. Lembro-me de uma aula bíblica, um professor falou para os presentes sobre a etimologia da palavra misericórdia no latim: junção de duas palavras, miseratio (compaixão) + cordis (coração), que literalmente, pode ter o sentido de levar o miserável dentro do coração. Este é o sentido da expressão da benignidade, bondade e compaixão, que se espelha em Jesus, o maior exemplo de alguém que foi misericordioso. Por isso, Ele destacou no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” (Mt 5.7).

Como um dom, é observado na vida daqueles cristãos que foram chamados para serviços especiais dentro da área da consolação cristã, como trabalho com centros de recuperação, orfanatos, creches, hospitais e associações beneficentes, procurando sempre oferecer uma saída para os problemas dos pobres e excluídos socialmente. Este serviço cristão também pode ser definido como o interesse misericordioso que sentimos para com outra pessoa. É um sentimento tão intenso que nos envolve na graça de Deus, tornando-nos portadores de uma sensibilidade maior aos dilemas existenciais e ao sofrimento humano.

  1. Dons de governo

Por isso é que foi dito: “Quando ele subiu em triunfo às alturas, levou cativo muitos prisioneiros, e deu dons aos homens”. (Que significa “ele subiu”, senão que também descera às profundezas da terra?  Aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus, a fim de encher todas as coisas.) E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado,
até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo (Efésios 4.8-13)

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