A Inglaterra no século XVII: a burguesia chega ao poder

Como já vimos, no artigo Reforma Protestante, o absolutismo na Inglaterra acompanhou a reforma religiosa iniciada por Henrique VIII, o fundador da Igreja Anglicana, no século XVI.

1. Antecedentes [1]

A filha de Henrique ViII, Elizabeth I foi responsável pela consolidação do absolutismo e pela perseguição religiosa a todos os que se recusavam a aceitar o anglicanismo. Mas, apesar destas perseguições, uma parcela de católicos e de calvinistas (puritanos) continuaram a fazer oposições ao absolutismo anglicano. Desde o século XVI, a burguesia mercantil inglesa vinha enriquecendo rapidamente, ampliando cada vez mais os seus negócios: participava dos altos lucros do comércio, investia na produção agrícola, adquirindo antigas propriedades senhoriais, e desenvolvia novos métodos de produção de mercadorias, tornando suas manufaturas muito rentáveis. Assim, no início do século XVII, a burguesia já dominava a economia na Inglaterra. Mas a monarquia absolutista se tornara um obstáculo aos interesses burgueses, principalmente depois que a rainha Elizabeth I morreu, em 1603, sem deixar herdeiros, encerrando a dinastia Tudor. Nessa ocasião, o trono foi ocupado pelo primo da rainha, Jaime I, que era rei da Escócia e iniciou a dinastia dos Stuart na Inglaterra. Suas atitudes de caráter absolutista desagradavam a burguesia. A partir de então, os conflitos se agravaram. O século XVII foi marcado por movimentos revolucionários no país, com características ao mesmo tempo religiosas, políticas, econômicas e sociais. No centro dessas lutas estavam os interesses da burguesia, que não mais aceitava a vontade arbitrária de um soberano absoluto e desejava controlar ela própria o Estado.

2.  Parlamento X Absolutismo

O primeiro movimento revolucionário contra o absolutismo na Inglaterra ocorreu no governo de Carlos I, sucessor de Jaime I, a partir de 1625. Os atos de tirania desse rei, como a decretação de impostos e a perseguição implacável aos puritanos, levaram o Parlamento a elaborar um documento chamado Petição de Direitos (Bill of Rights), que limitava os poderes monárquicos, ao declarar ilegais os impostos que não fossem aprovados pelo Parlamento. Carlos I, em resposta a essa atitude, deixou de convocar o Parlamento, que ficou sem funcionar durante onze anos. Outro ato arbitrário do soberano foi a imposição de normas religiosas anglicanas à Escócia, onde predominavam os presbiterianos. Em reação, os escoceses organizaram um grande exército e chegaram a invadir o norte da Inglaterra. Para fazer frente à rebelião, Carlos I precisava de recursos financeiros. Assim, achou conveniente convocar novamente o Parlamento (em 1640), a fim de que fossem votados novos impostos. O Parlamento não só desaprovou o pedido do rei como passou a exigir mudanças mais radicais. A crise se intensificou e atingiu seu ponto máximo quando uma rebelião se desencadeou na Irlanda, que estava submetida ao domínio inglês e era fortemente católica. As arbitrariedades administrativas e religiosas da monarquia inglesa contra os irlandeses geravam constantes conflitos, os quais, em 1641, tomaram a forma de uma guerra aberta. Diante da necessidade de recursos financeiros para enfrentar os rebeldes irlandeses, Carlos I teve que recorrer, mais uma vez, ao Parlamento. Este condicionou o pedido do rei a reformas mais amplas ligadas à política real e ao poder da Igreja Anglicana. A reação de Carlos I foi enfrentar o Parlamento pela força, enviando um exército armado para prender os principais líderes. Mas estes se refugiaram antes que o exército chegasse. O clima tenso tornava inevitável um confronto definitivo entre a monarquia e o Parlamento. Ambos prepararam-se para a guerra. A nobreza tradicional e o clero anglicano organizaram um exército para lutar a favor do monarca, que, em 1642, declarou guerra ao Parlamento. Este, por sua vez, também se organizou para a guerra, contando com o apoio da burguesia mercantil e manufatureira, da pequena burguesia, de pequenos e médios proprietários rurais e das camadas populares das cidades.

Palacio de Westminster, Londres, Inglaterra, 2014-08-11, DD 201.JPG

Palácio de Westminster – sede do Parlamento inglês [2]

3.  A guerra civil – 1642 a 1648

De início, as forças reais obtiveram vantagens no confronto. A situação começou a se inverter quando o puritano Oliver Cromwell assumiu a reorganização do exército do Parlamento. Ele impôs uma severa disciplina aos soldados, mas melhorou sua remuneração e, ao mesmo tempo, passou a estimular a tropa (formada na maior parte por puritanos) a lutar pela fé. Sucederam-se longos anos de guerra, a qual terminou com a derrota do rei. Condenados à morte, Carlos I foi decapitado em 1649. Proclamou-se a república na Inglaterra; a Câmara dos Lordes, representante da nobreza tradicional, foi dissolvida, e o governo ficou sob o controle do Parlamento e de um Conselho de Estado. Nesse período, o governo republicano, que representava os interesses da burguesia, decretou os Atos de Navegação, que resultaram no enfraquecimento comercial da Holanda e no domínio do comércio marítimo pela Inglaterra. Em 1653, Cromwell, que conseguira grande prestígio por ter liquidado as rebeliões na Irlanda e na Escócia, ocupou o Parlamento e foi declarado Lorde Protetor Vitalício da República, governando o país sob uma forma disfarçada de monarquia. O período de seu governo foi marcado por extrema violência contra todos os adversários. Ele tornou-se mais absolutista que o rei deposto. Mas se manteve no poder porque atendia plenamente aos interesses da classe dominante. Durante o governo de Cromwell, criou-se a Grã-Bretanha, que reunia, na época, a Inglaterra, o País de Gales e a Escócia.

Veja o mapa da Grã-Bretanha, acima, dividido em Inglaterra. Escócia, País de Gales. A Irlanda do Norte, localizada na ilha da Irlanda, mais os três países da Grã-Bretanha, formam o chamado Reino Unido [3] 

4.  Restauração da monarquia e a Revolução Gloriosa

Quando Cromwell morreu, em 1658, seu filho assumiu o governo, porém não conseguiu manter-se por muito tempo. Dois anos depois, o Parlamento se reuniu e resolveu restaurar a monarquia, convidando Carlos II (filho de Carlos I) a tomar a Coroa (1660). A consolidação imposta pelo Parlamento ao rei foi a de que ele se comprometesse a governar respeitando as decisões parlamentares. Carlos II governou até sua morte, em 1685, quando foi substituído ao trono pelo irmão Jaime II, que reinaria até 1688. Com Jaime II a oposição à monarquia se intensificou. Ele era católico, não inspirando confiança à burguesia e mesmo a uma parte da nobreza: o rei favorecia abertamente os católicos, e difundiu-se o temor de que a Inglaterra voltasse a se submeter ao domínio religioso do papa. Por isso, os adversários do rei decidiram agir. Mas dessa vez não houve guerra. A filha mais velha de Jaime II – Maria – era casada com Guilherme de Orange, soberano da Holanda. Foi-lhe enviado um convite para que ele viesse assumir o trono inglês, com sua esposa. Jaime II, por sua vez, fugiu da Inglaterra. O Parlamento impôs aos novos soberanos nova Declaração de direitos, limitando extremamente o pode real. Esse movimento de 1688, chamado Revolução Gloriosa – porque não houve violência, nem derramamento de sangue –, resultou, portanto, na submissão da monarquia inglesa ao Parlamento, dominado pela alta burguesia comercial.

Guilherme de Orange, um rei submetido à autoridade parlamentar [4]

Linha do Tempo / destaques

  • Em 1533, o rei Henrique VIII rompe-se com a Igreja Católica e é excomungado pelo papa Clemente VII.
  • Em 1534, a Inglaterra se separa em definitivo da Igreja Católica Romana e é criada a Igreja Anglicana.
  • Em 1547, morre Henrique VIII,  e é sucedido por Eduardo VI, fruto de seu casamento com sua terceira esposa Joana Seymour.
  • Em 1553, Eduardo VI morre. Seu trono é ocupado por apenas 9 dias por sua prima Joana Grey, “A Rainha dos Nove Dias”, que não chegou a ser coroada. A intenção de Eduardo VI de passar o trono à sua prima era para evitar de que o Catolicismo voltasse à Inglaterra. Mas Joana foi retirada do trono por Maria I e depois condenada e executada por traição.
  • Maria I (1553 a 1558) governa a Inglaterra e a Irlanda; restaura o Catolicismo na Inglaterra, como religião oficial; manda executar cerca de 300 protestantes, considerados hereges, daí ter sido conhecida como a Bloody Mary (Maria, a Sanguinária). Depois de sua morte, em 1558, ela foi sucedida pela sua irmã a princesa Isabel [5].
  • Isabel I ou Elizabeth I [6], como era mais conhecida, governou a Inglaterra e a Irlanda, de 1558 até sua morte, em  Reformula a Igreja Anglicana da qual se torna governadora suprema; consolida o Absolutismo na Inglaterra e persegue a todos que não são anglicanos, como católicos e puritanos. É sucedida por Jaime I; nunca se casou e seu nome deu origem à colônia inglesa da América do Norte, chamada Virgínia. Sua morte encerra a dinastia Tudor.
  • Jaime I ou Jaime VI da Escócia, sucede à Elizabeth I, e inaugura a dinastia Stuart na Inglaterra. Governa sobre a Inglaterra, a Irlanda e a Escócia, entre 1603 e 1625, período conhecido como “era jacobita” em sua homenagem; foi um grande defensor de um parlamento único para a Inglaterra e Escócia, mas enfrentava várias disputas com o Parlamento, que não aceitava suas ideias arbitrárias.
  • Carlos I sucedeu seu pai Jaime I e governou a Inglaterra entre 1625 e Perseguidor implacável dos puritanos, comprou briga com o Parlamento; este limita seus poderes, e ele deixa de o convocar; mas em 1640,  é obrigado a convocar o Parlamento, para conseguir recursos financeiros para enfrentar a Escócia, que tinha em sua maioria, presbiterianos, perseguidos por ele; seu pedido é rejeitado pelo Parlamento, e uma guerra civil é travada; os revolucionários, comandados por Oliver Cromwell, derrotam o rei, que é decapitado em 1649.
  • 1649 a 1660: Período Republicano: principal líder, Oliver Cromweell. Este torna-se o Lorde Protetor da Inglaterra, mas depois de sua morte em 1658, o Parlamento assume o poder e restaura a monarquia em 1660, passando o poder a Carlos II.
  • Carlos II governa a Inglaterra de 1660 a 1685. Apesar de ter sido conhecido como o “Feliz Monarca”, ele dissolveu o parlamento em 1681. Converteu-se ao Catolicismo em leito de morte e foi substituído no trono por seu irmão Jaime II.
  • Jaime II governou por apenas 3 anos, por causa de sua proximidade com o catolicismo e o temor dos ingleses de que a Inglaterra voltasse a ser subordinado ao papa.
  • Revolução Gloriosa,  ocorrida em 1688 e que passou o trono inglês a Guilherme de Orange, marido de Maria, filha de Jaime II, serviu para consolidar a submissão da coroa ante o Parlamento e preparar o terreno para o Absolutismo na Inglaterra e Revolução Industrial.

 

–  –  –  –  –  –  –  –  –  –  –  –  – –  –  –  –  –  –  –  –  –  –  –  –  –

Fontes:

  • [1]  CARMO, Sonia Irene do & COUTO, Eliane. História: passado e presente –  7ª série. São Paulo: Atual, p. 14 a 17 (Texto adaptado).
  • [2] Imagem disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Pal%C3%A1cio_de_Westminster#/media/File:Palacio_de_Westminster,_Londres,_Inglaterra,_2014-08-11,_DD_201.JPG l> Acesso em: 26/09/2015.
  • [3] Mapa disponível em: <http://geografiaetal.blogspot.com.br/2011_06_01_archive.html>. Acesso em 26/09/2015.
  • [4] Imagem disponível em: <http://www.brasilescola.com/historiag/revolucao-gloriosa.htm>. Acesso em  26/09/2015.
  • [5] Maria I de Inglaterra. Disponível em:<http://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_I_de_Inglaterra>. Acesso em 26/09/2015.
  • [6] Ibidem. Acesso em: 26/09/2015.

 

Esta entrada foi publicada em História e marcada com a tag . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.