O povoamento da América e a Pré-história brasileira

O conceito de préhistória que normalmente é atribuído à “história humana ocorrida antes da invenção da escrita” se aplica também ao Brasil? Se seguirmos este princípio, então a pré-história brasileira durou até 1500, uma vez que, segundo sabemos, os moradores desta região estavam ainda num estágio (podemos afirmar) entre o paleolítico e o neolítico. Eram nômades, possuíam pouco desenvolvimento técnico e não tinham domínio da escrita.

Queremos, neste artigo, destacar as hipóteses sobre a ocupação do continente, a diversidade cultural na época de Cabral e o etnocentrismo europeu implantado aos moradores conquistados.

Correntes migratórias: principais hipóteses

Estudiosos como historiadores e antropólogos falam da existência, em nosso continente, de cerca milhões de habitantes, quando Cristóvão Colombo, em nome da Espanha, aqui chegou em 1492. Apenas no Brasil, mais de mil nações indígenas foram encontradas por volta de 1500. Esses habitantes receberam a denominação genérica de índios, porque Colombo acreditava ter chegado às Índias, como era chamada a região do extremo oriente, na época.

Esses milhares de habitantes chegaram aqui como e quando?

Vejamos o mapa abaixo [1]:

Correntes migratórias

As principais correntes migratórias que apontam para as possíveis chegada do homem ao nosso continente são:

  • a asiática, segunda a qual populações vindas da Ásia atravessaram o estreito de Bering, ocupando a América do Norte.
  • a australiana: populações vindas do Polo Sul atingiram a Patagônia, região sul de nosso continente.
  • a malaio-polinésia: populações originárias das ilhas da Polinésia teriam aproveitado a corrente marítima do Peru e navegado até nosso continente.
  • a esquimó: populações vinda do Polo Norte para a América do Norte.

Quando esses povos chegaram aqui?

Estudos apontam evidências da presença humana em nosso território (atual Brasil) há cerca de 11 mil e até 48 mil anos atrás, conforme descobertas arqueológicas em sítios como os dos estados do Piauí e de Minas Gerais.

Diversos estudos nos ajudam na compreensão do que somos – e de onde, e quando viemos – e são resultados de uma inter-relação de conhecimentos de diferentes áreas, chamado conhecimento interdisciplinar. Disciplinas como a Geografia, a Química, a Arte, a Antropologia, a História etc, mais do que ciências auxiliares umas das outras, estudadas em conjunto, fornecem importantes contribuições para a compreensão da Pré-história brasileira.

Contudo, como vemos abaixo, os trabalhos como os efetuados em São Raimundo Nonato e em Minas Gerais, por exemplo, e suas descobertas, são resultados, da Arqueologia. Neste sentido, podemos afirmar que a Arqueologia e a História, embora sejam áreas do conhecimento independentes, possibilitam intersecções interdisciplinares que assumem caráter complementar.

Pintura Rupetre - S. R. Nonato

Em São Raimundo Nonato, Piauí, “… um grupo de arqueólogos liderados por Niède Guidon notificou a presença de facas, machados e fogueiras com cerca de 48 mil anos de existência. Entre as principais conclusões desses estudos, destaca-se a presença de comunidades coletivas que caçavam e utilizavam o fogo para protegerem-se e alimentarem-se.” [2]

 Na região de Lagoa Santa (MG), foi encontrado, em 1974, um crânio que, segundo os arqueólogos, trata-se de uma mulher de origem africana, que aqui viveu por volta de 11.500 anos.

Luzia

Por ter lançado luz sobre a possibilidade de novas descobertas, o crânio recebeu o nome de Luzia, e levanta suspeita de uma onda migratória da Oceania, responsável pela ocupação de nosso continente.

Luzia: à esquerda, o fóssil encontrado, e à direita a reconstrução do mesmo.

“Esse achado levou a verificar que o continente americano foi ocupado por quatro fluxos migratórios, desse modo, os três últimos eram compostos por populações de origem mongol com características genéticas comuns às tribos indígenas da atualidade. Em suma, essa descoberta detectou evidências de que antes da ocorrência de fluxos de mongóis houve a migração de não-mongóis, ou seja, homens com aspectos extremamente parecidos com os africanos e os aborígines da Austrália.” [3]

Portugueses X Ameríndios: interação ou etnocentrismo europeu:

Dois termos usados por antropólogos, sociólogos e historiadores, “aculturação” e “etnocentrismo”, exprimem bem o que aconteceu com nossos índios ou ameríndios (índios da América).

  • Aculturação: mudanças na cultura de um grupo social sob a influência de outro com que entra em contato.
  • Etnocentrismo: disposição habitual de julgar povos ou grupos estrangeiros pelos padrões e práticas de sua própria cultura ou grupo étnico.

Foi o que aconteceu com os índios depois que tiveram contato com o homem branco. Sofreram o processo de aculturação imposto pelos europeus e a sua pressão de homem branco e “civilizado”.

“… mais do que um processo de interação, o que houve quando do ‘contato’ foi um grande choque cultural que se reverteu em opressão, pelos europeus, dos grupos indígenas encontrados. A vida dos índios, antes da chegada dos europeus, pode vir associada à Pré-história (e o campo de abordagem dessa área no Brasil tem nesse fato sua delimitação), o que não é equivocado, mas é necessário ficar claro que se trata de um período de abrangência temporal muito maior.” [4]

Depois do choque, a aculturação…

Num outro momento, pretendemos escrever um pouco mais sobre a influência indígena em nossa cultura. Mas, para fazer esta relação entre passado e presente, vejamos um pouco sobre algumas características que diferenciam o índio pré-histórico do índio do Brasil atual.

As mudanças de cultura de um grupo social – no caso, os índios –, sob influência de outro grupo com quem entra em contato – que neste caso, é o homem branco –, são conhecidas como aculturação. E nesse processo de mais de 500 anos de história do Brasil, nossos índios adquiriram muitas características semelhantes aos do homem branco, e cooperam, parcialmente, para a formação do que chamados de povo brasileiro.

Observe parte da Carta de Caminha e o que ela menciona sobre os índios em 1500:

“… pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem-feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto… Os cabelos seus são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta”. [5]

Vejamos as duas imagens a seguir:

Índio natural e aculturado

A primeira [6] imagem apresenta o índio brasileiro na época em que os portugueses aqui chegaram, com características semelhantes às descritas por Pero Vaz de Caminha, em sua carta, que se tornou o primeiro documento escrito sobre o Brasil, por isto, chamado de o Registro de Nascimento do Brasil. Já na segunda [7] imagem, inclusive feita para destacar a importância da tecnologia nos dias atuais, apresenta o índio moderno aculturado.

Podemos fazer um quadro comparativo da cultura indígena brasileira na Pré-história e no mundo contemporâneo, da seguinte forma:

Os índios na Pré-história

Os índios no Brasil contemporâneo

  • andavam nus;
  • alimentavam-se de caça, pesca, coleta;
  • viviam um vida simples e em grupos;
  • não conheciam tecnologia avançada;
  • eram normalmente politeístas;
  • buscaram curas nas ervas medicinais;
  • não se apegavam a bens materiais;
  • moravam-se em cabanas;
  • educação baseada na experiência dos pais;
  • usam roupas como os brancos;
  • usam-se pratos com receitas dos brancos;
  • vida sedentária/individualista…;
  • usam televisores, celulares, computadores…;
  • a maioria adora o Deus dos cristãos;
  • utilizam-se de remédios industrializados;
  • são bem materialistas;
  • muitos moram em residências fixas;
  • estudam em escolas dos brancos…

Os Sítios Arqueológicos como Patrimônio Cultural Brasileiro:

A Constituição Federal afirma: “Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tornados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem (…) os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.”  [8]

Patrimônio público cultural brasileiro: “… entende-se por patrimônio cultural imaterial as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados – que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural.[9]

Notas:

  • [1] COSTA, Luís César Amand & MELLO, Leonel I. A. História do Brasil. São Paulo: Scipione, 1996. Página 26 (Mapa e texto).
  • [2] SOUSA, Rainer. Pré-história. Disponível em: <http://www.brasilescola.com/historiag/prehistoria-brasileira.htm>. Acesso em: 28/09/2015.
  • [3] Ibidem. Acesso em: 28/09/2015.
  • [4] Caderno do professor – História. Ensino Médio – 1ª série, Vol. 1. SEE-SP, 2009. p. 25.
  • [5] A Carta de Pero Vaz de Caminha. Disponível em: <http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/perovazcaminha/carta.htm>. Acesso em:  28/09/2015.
  • [6] FREITAS, Eduardo de. Pré-história no Brasil. Disponível em: <http://www.brasilescola.com/brasil/prehistoria-no-brasil.htm>. Acesso em: 28/09/2015.
  • [7] Comentário sobre A importância da  tecnologia Lan House na vida do jovem indígena. Disponível em: <http://indioetecnologia.zip.net/>. Acesso em: 28/09/2015. 
  • [8] CONSTITUIÇÃO da República Federativa do Brasil/1988. Art. 216 (Introdução) e Art. 216, V.
  • [9] UNESCO. Disponível em: < http://www.UNESCO.org/new/pt/brasilia/culture/world-heritage/cultural-heritage>. Acesso em: 28/09/2015.
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